Mercado de games no Brasil: o país que joga muito e fatura pouco
O Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de games do mundo e o décimo terceiro em faturamento. Entenda a distância entre os dois números e onde ela abre espaço.
Existe um número sobre o mercado brasileiro de games que resume o problema e a oportunidade ao mesmo tempo: o Brasil é o terceiro maior mercado consumidor do mundo, mas ocupa apenas a 13ª posição em faturamento.
Ou seja: joga-se muito aqui, e ganha-se pouco com isso. A diferença entre as duas posições é quase toda explicada por uma coisa: o brasileiro consome jogo produzido fora. Entender essa distância é o que separa quem enxerga um mercado saturado de quem enxerga um espaço a ocupar.
O tamanho real do mercado brasileiro
Os números de consumo são expressivos. Segundo levantamentos do setor compilados pelo Sebrae, o país tem cerca de 94,7 milhões de jogadores, e algo em torno de 74,5% dos brasileiros jogam de alguma forma. O Ministério da Cultura trabalha com um recorte ainda mais amplo, de mais de 150 milhões de pessoas alcançadas pelo setor.
Um dado costuma surpreender quem não acompanha: as mulheres são maioria entre os jogadores brasileiros, com cerca de 51%. O estereótipo do público de games no Brasil está desatualizado há tempos, e isso tem consequência direta para quem desenvolve produto ou pensa em marketing para o setor.
Em receita, o mercado brasileiro foi estimado em US$ 1,4 bilhão em 2021, com projeções do setor apontando para algo próximo do dobro nos anos seguintes. O Brasil ultrapassou o México e se tornou o maior mercado da América Latina, respondendo por perto de metade da receita da região.
Por que o Brasil joga muito e fatura pouco
A distância entre a terceira posição em consumo e a décima terceira em faturamento tem explicações que se somam.
O consumo é de produto importado. A maior parte do dinheiro gasto por jogadores brasileiros vai para estúdios estrangeiros. O consumo acontece aqui e a receita é contabilizada lá fora.
O ticket médio é menor. Boa parte do público joga em celular e em títulos gratuitos com compras opcionais, modelo que alcança muita gente e gera receita por usuário bem abaixo do console tradicional.
A produção nacional é jovem. Existe um parque de estúdios crescendo e ganhando reconhecimento, mas ainda pequeno diante do tamanho do consumo interno. É exatamente aí que está o espaço.
Onde estão as oportunidades de carreira
A indústria de games emprega bem além de quem programa, e essa é a parte que costuma passar despercebida por quem quer entrar.
- Desenvolvimento: programação, engenharia de software e integração de motores gráficos
- Arte e design: concept art, modelagem, animação e interface
- Game design: desenho de mecânica, progressão e economia interna do jogo
- Áudio: trilha, efeitos e desenho sonoro
- Produção e gestão de projeto: prazo, escopo, orçamento e equipe
- Dados e monetização: análise de comportamento do jogador e ajuste de modelo de receita
- Marketing e comunidade: lançamento, relacionamento e retenção
Duas dessas áreas conversam diretamente com formações que não são de games. Produção é gestão de projeto aplicada a um produto criativo, com as mesmas restrições de escopo, prazo e custo de qualquer outro. E dados é análise aplicada a comportamento. Quem vem de engenharia de produção ou de análise de dados entra por essas portas com o que já sabe.
O que isso significa para quem vai empreender
Um mercado consumidor grande com produção local pequena é, por definição, um espaço a ocupar. Mas o setor tem particularidades que castigam quem entra sem método: ciclo de desenvolvimento longo, custo alto antes da primeira receita e taxa de fracasso elevada.
É um caso clássico para validar antes de construir. Testar a mecânica com um protótipo simples antes de investir anos de produção é a aplicação mais direta do que o método Lean Startup propõe, e vale mais aqui do que em quase qualquer outro setor pelo tamanho do investimento em jogo.
Do lado do apoio, existem programas de fomento à economia criativa, editais estaduais e associações setoriais. Vale conhecer o ecossistema de inovação da sua região antes de procurar investimento privado: recurso de fomento não custa participação na empresa.


