No code: o que dá e o que não dá para fazer sem escrever uma linha de código
Alexandro Strack tem 30 anos de TI e começou como programador. Dá os dois testes para saber se você consegue usar no code, e o limite real das ferramentas.
Alexandro Strack é CEO e cofundador de uma empresa de educação em tecnologia e tem mais de 30 anos de TI. Começou como desenvolvedor, virou executivo, empreendeu várias vezes — "empresas que continuam vivas até hoje, e um monte que deram errado" — e implantou ferramentas desse tipo nas empresas onde foi executivo. Nesta conversa com Mariana Paes, professora e pesquisadora de engenharia na UFJF, ele separa no code de low code, dá dois testes simples para saber se você consegue usar, e é incomumente honesto sobre onde essas ferramentas param.
A diferença, em uma frase cada
No code é construir produtos digitais sem escrever nenhuma linha de código.
"Quando eu falo produtos digitais, é aplicativo web, aplicativo mobile, site, chatbot, algoritmo de inteligência artificial, automação, integração. Toda a lógica, toda a construção é feita em blocos, normalmente blocos prontos, onde você vai colocando aqueles blocos e definindo como vão funcionar com parâmetros que aparecem na tela." — Alexandro Strack
E a intenção de projeto por trás:
"O no code foi pensado como um nível mais alto de abstração para trazer pessoas que não sejam técnicas. Elas podem agora construir produtos digitais, coisa que até então era restrita a programadores."
Low code nasceu para o outro público:
"As ferramentas low code foram criadas visando as pessoas que têm conhecimento técnico, mas que queriam acelerar, ganhar agilidade. Low code significa que você vai ter que escrever alguma lógica. Só que essa lógica pode não ser literalmente um código escrito: algumas vezes são fórmulas, como as fórmulas do Excel. Outras vezes é totalmente visual, como num BPM, onde você vai botando as caixinhas e arrastando." — Alexandro Strack
Os dois testes para saber se você consegue usar no code
Strack não vende a ideia de que qualquer pessoa consegue. Ele estabelece o pré-requisito primeiro:
"Um pensamento lógico, uma capacidade de estruturar o que vem antes e o que vem depois, você vai precisar ter — porque não é uma coisa em que uma pessoa que nunca fez absolutamente nada consiga fazer." — Alexandro Strack
E então dá dois testes práticos.
Teste 1 — a apresentação:
"Se você consegue fazer uma apresentação em PowerPoint, onde você conta uma história estruturada, você consegue criar um aplicativo, você consegue criar algum produto digital utilizando ferramenta no code."
Teste 2 — a planilha:
"Se você está acostumado a fazer planilhas — e todo mundo usa planilha o dia inteiro, seja pessoal, seja profissional. O mundo não funciona sem planilha. Se a gente acabasse com as planilhas hoje, o mundo muito provavelmente entraria num colapso verdadeiro, não é brincadeira."
E a ponte entre o que você já sabe e o que você passa a conseguir:
"Essas ferramentas te dão o poder de usar esse conhecimento estruturado que você já tem para criar produtos que até então você não conseguiria criar, porque você estaria dependente de pessoas com capacidade de fazer programação."
Ele recusa a disputa com programadores
"Primeiro, eu discordo dessa competição que talvez se tente criar nesse cenário. As ferramentas são literalmente complementares, e elas auxiliam todas as pessoas." — Alexandro Strack
O argumento para o lado técnico:
"Você consegue liberar o esforço do profissional mais técnico para deixar ele fazer coisas que são mais complexas e que exigem um esforço maior — ele pode ficar concentrado naquilo. Enquanto isso, quando ele precisa criar alguma solução menor, mais rápida, mas que vai atender à necessidade, ele pode se beneficiar das ferramentas."
O mito do "faz o MVP e depois reescreve"
Mariana Paes traz a leitura mais comum do mercado: no code serve para o empreendedor fazer a versão 1.0, e depois é preciso contratar um programador para os ajustes finos.
Strack contesta os dois lados da afirmação.
Sobre o público:
"É importante desmistificar essa questão de que essas ferramentas são feitas única e exclusivamente para empreendedores. Não é verdade. A gente tem áreas delas que são pensadas exclusivamente para o mercado corporativo, onde você cria soluções completas e robustas que vão funcionar para um conjunto de pessoas muito grande." — Alexandro Strack
Sobre a reescrita:
"É possível, sim, que você crie uma solução totalmente sem código e fique com ela viva, rodando, funcionando, durante muito tempo. Existem vários negócios que nasceram e que hoje estão se utilizando de soluções totalmente feitas sem código."
E ele oferece a própria operação como caso, com o detalhe que torna o argumento forte:
"A comunidade que a gente criou, apesar de ela ser feita por pessoas que entendem de código, é 100% sem código. Está operando hoje com vários usuários simultâneos, uma comunidade ativa, mandando mensagem, fazendo curso, interagindo — e não tem nenhuma linha de código escrita ali."
O cronograma, que é o dado mais concreto do episódio:
| Semana | Entrega |
|---|---|
| 1 | o aplicativo principal, da ideia ao produto terminado |
| 2 | a versão de administração de conteúdo |
"Em duas semanas, a gente tinha dois aplicativos prontos, funcionando. Um só para os administradores e outro para as pessoas. E com funcionalidades de pagamento, controle de quem paga e quem não paga, controle de conteúdos exclusivos ou não exclusivos — um monte de funcionalidades sem nenhuma linha de código."
O verdadeiro público: quem está travado dentro da empresa
Este é o trecho mais importante do episódio para quem trabalha em organização média ou grande.
"A gente está cheio de pessoas criadoras dentro das empresas que estavam limitadas. Elas não conseguiam criar as suas soluções porque estavam dependendo de uma equipe de TI que tem os seus processos e a sua complexidade para lidar. E aquilo acabava gerando um gargalo, onde as ideias paravam — e a culpa é da TI, que nunca consegue fazer a coisa andar." — Alexandro Strack
E o diagnóstico que ele faz do problema real, que não é da TI:
"Porque, na verdade, a TI e o resto da empresa não implementaram soluções como essa para tirar de dentro da TI a necessidade de criar soluções com as quais a TI talvez não precisasse nem se envolver. É só a gente estabelecer uma governança, uma forma de trabalhar — e isso é possível."
A palavra governança no meio dessa frase é o que separa a proposta dele de um incentivo à TI paralela.
O limite honesto: onde no code para
Strack é explícito sobre o que as ferramentas não entregam, e é isso que dá credibilidade ao resto.
"Como elas têm um nível alto de abstração, tem coisas que você não consegue fazer. Você tem um trade-off, você escolhe. Eu realmente preciso dessa coisa que eu não consigo fazer aqui? Preciso, ela é vital para mim? Beleza, você vai precisar de um programador." — Alexandro Strack
Perguntado se dá para construir uma grande rede social sem código:
"Não dá. O que não dá é lidar com a dimensão, com o volume, com a quantidade de transações, sem você ter cuidados que hoje as ferramentas não entregam. É claro que, quando você for ver o vendedor dessa ferramenta, ele vai dizer: não, você consegue criar redes sociais. Você consegue. Agora, dar para ter bilhão de usuários simultâneos com essas ferramentas, não dá. Literalmente, não dá."
E então ele vira o argumento
"Mas o fato é: qual a quantidade de negócios que tem milhões de usuários? Todo mundo fala: não, eu vou botar meu aplicativo no ar e rapidinho vou ter milhões. Não vai. Um milhão de usuários é gente pra caramba." — Alexandro Strack
E o enquadramento do problema que você teria se desse certo:
"E quando tiver, você tem um problema ótimo: você tem um milhão de clientes pagando pela sua solução, você tem outra capacidade de trazer uma equipe, de trazer profissionais técnicos. Mas até lá, pensa bem se você precisa dificultar o seu start — se você, na verdade, pode começar talvez sozinho, tirar a ideia do papel hoje ou durante o final de semana."
Preciso aprender a programar?
A resposta dele começa pelo princípio geral:
"Eu nunca vi conhecimento ser 100% desperdiçado. Conhecimento é o investimento mais barato com o maior retorno que se faz na vida." — Alexandro Strack
E então ele desenvolve por que a conta mudou.
A programação ficou mais complexa, não mais simples:
"Era muito mais fácil programar quando eu comecei. Você fazia um programa para colocar num computador — aquele computador nem estava na rede. Só que depois as coisas foram se distribuindo, criando camadas. E hoje, quando você vai virar programador, você já tem uma decisão a tomar: back-end, front-end ou full-stack. Essa decisão já leva você para um conjunto de ferramentas específicas."
A frustração faz parte:
"A programação é um processo em que você tem que vencer as suas frustrações. Você vai escrever o código, o código vai dar errado. Vai aparecer bug, e você vai ter que procurar o bug e descobrir onde é."
E a satisfação chega mais cedo do outro lado:
"Você vai começar a ter a satisfação de ver algo funcionar mais rápido."
O trade-off, na formulação dele
"É a história do tio do Homem-Aranha: com grandes poderes vem grande responsabilidade. Você quer controlar cada coisa e ter o poder de controlar cada coisa? Se prepare para a complexidade, para a responsabilidade que isso significa." — Alexandro Strack
E o outro lado da escolha, listado item por item:
"Quando você vai para as outras ferramentas, você abre mão dessas características. Você não vai ter que lidar com infraestrutura, não vai ter que lidar com banco de dados, não vai ter que lidar com backup da sua solução, não vai ter que lidar com a quantidade de usuários que concorrem para acessar o seu aplicativo. É um problema da plataforma."
A comparação concreta que ele usa: para um aplicativo de catálogo de produtos feito como projeto paralelo, "você vai levar seis meses para fazer uma coisa que com no code você levaria talvez um dia ou dois".
"Claro que, com seis meses de programação, você vai ter muito mais recursos e capacidade de controlar muito mais coisas. Mas é uma escolha."
O risco que ele mesmo levanta: dependência de plataforma
Strack não espera a pergunta para apontar o problema.
"As plataformas podem ser compradas, podem ser descontinuadas. Algumas se comprometem a colocar o código em código aberto se isso acontecer, para que as pessoas possam continuar a partir dali. Tudo bem — mas você, que dependia dela, vai depender agora de uma outra comunidade. Até que a comunidade se forme, consiga entender aquele código e consiga botar aquilo no ar para funcionar, quanto tempo vai demorar?" — Alexandro Strack
O exemplo que ele dá é de encadeamento, e é o mais instrutivo:
"Uma grande empresa de tecnologia comprou uma ferramenta em que você cria aplicativos a partir das planilhas dela. Se essa plataforma desaparece, todos os seus aplicativos desaparecem. E você depende de uma planilha como banco de dados: se a planilha for descontinuada, o seu banco de dados desaparece."
E a simetria, que é o que impede o argumento de virar panfleto:
"Esses riscos existem de uma forma ou de outra, tanto no mundo no code quanto no mundo code. É claro que, no mundo code, você tem a inteligência da codificação com você — mas, como você vai depender de uma infraestrutura para colocar aquilo no ar, você vai estar dependente da existência daquela coisa."
Sobre código aberto, ele registra a mudança de percepção:
"Até algum tempo atrás o código aberto era visto como negativo; hoje todo mundo o vê como positivo. É muito mais interessante você ter uma comunidade colaborando com uma tecnologia do que ela ser proprietária dentro de uma empresa — porque, se aquela empresa desaparece, vai com ela o conhecimento."
E a versão que ele dirige à professora que o entrevista:
"Não adianta nada você ter um monte de conhecimento se você não ensina ele para ninguém. Morre com você."
O macarrão instantâneo
A metáfora central do episódio, e ela tem duas partes.
A primeira é sobre adequação:
"Ninguém vira Masterchef com macarrão em um minuto. Mas ninguém come comida de chef todo dia. Se o que você precisa agora é matar a fome, macarrão instantâneo é uma solução — e isso atende à necessidade. Não precisa chamar o chef renomado para fazer a comida mais elaborada do mundo, porque o que você quer é matar a fome rapidamente." — Alexandro Strack
A segunda é a que importa tecnicamente, e quase passa despercebida:
"Eu posso começar com macarrão instantâneo, mas depois eu posso comprar um molho pronto no supermercado, e aí eu posso comprar queijo que já está ralado — eu não preciso comprar o queijo e levar para casa para ralar. E, no fim das contas, eu misturei molho pronto com queijo pronto com macarrão instantâneo, e isso virou um prato diferente do que simplesmente macarrão instantâneo." — Alexandro Strack
A ideia mais útil: você não usa uma ferramenta, você monta um stack
"Uma das características que as pessoas às vezes esquecem de considerar é que você não precisa, nem deve, estar amarrado a uma só ferramenta. Você, na sua casa, não tem só martelo — não deveria ter só martelo, porque você vai ter que colocar um parafuso. Isso é válido tanto para quem programa quanto para quem está criando soluções no code." — Alexandro Strack
E como isso se monta, na prática:
"Você cria o seu conjunto de ferramentas: a ferramenta A, que te ajuda a criar o aplicativo; a B, que te ajuda a automatizar algumas tarefas que a primeira não permite; outra que te permite fazer geração de PDF; outra que te permite fazer algum tipo de integração. Você pode ter três ou quatro, todas elas sem programação, trabalhando de forma integrada e harmônica, criando uma solução final — mas tudo isso sem programar."
O catálogo de ferramentas, por categoria
Strack cita que o catálogo que a comunidade dele mantém classifica as ferramentas em 20 categorias diferentes. As que ele nomeia no episódio:
| Para que serve | Ferramentas citadas |
|---|---|
| Aplicativos web | Bubble |
| Aplicativos mobile | Adalo |
| Aplicativos a partir de planilhas | Glide |
| Automação e integração entre aplicativos | Zapier, Integromat |
| Transformação e agregação de conjuntos de dados | Parabola |
| Plataformas corporativas | OutSystems, Mendix, Power Apps |
| Sites de uma página | Carrd — além das conhecidas WordPress e Wix |
| Lógica de programação para crianças | Scratch, do MIT |
E uma observação que pode economizar dinheiro de quem trabalha em empresa grande:
"Empresas que têm contratos com a Microsoft, muitas vezes elas já têm a licença do Power Apps paga e não sabem que poderiam estar utilizando." — Alexandro Strack
Sobre o Power Apps, ele também faz a classificação correta: é low code, não no code — "ela tem um mecanismo onde você escreve algumas linhas de uma linguagem específica".
Por onde começar, se você nunca fez nada disso
"Se você é totalmente leigo na criação de produtos digitais, eu sugiro que você comece com as ferramentas que são literalmente no code — porque vai ser muito mais rápido para você aprender a utilizar ferramentas do que partir para o caminho da programação." — Alexandro Strack
E o critério de escolha da primeira ferramenta é partir do que você já sabe fazer:
"Vamos supor que você hoje faz planilhas muito bem. Então você pode partir de uma ferramenta no code que te permite criar aplicativos mobile a partir de planilhas."
Ele também dá um conselho de método que vale fora do tema:
"Se você não sabe o que quer fazer, começa pelo que não quer. Vai sobrar um outro conjuntinho, e depois você se preocupa com ele."
O fecho: coexistir, não substituir
Mariana Paes encerra com a leitura que o episódio inteiro sustenta:
"Toda tecnologia nova, quando é apresentada no mercado, gera esse tipo de reação, rejeição, porque abala as pessoas que estão ali estabilizadas. O que a gente precisa entender de tecnologia é que uma não precisa eliminar completamente a outra. O mais legal que a gente vê nesse movimento é que elas podem coexistir — e aí a gente começa a formular outras combinações mais ricas." — Mariana Paes
Quem é Alexandro Strack
- CEO e cofundador de uma empresa de educação em tecnologia, com um canal de conteúdo e uma comunidade voltados a ferramentas no code
- Mais de 30 anos de TI. Começou como desenvolvedor — "gosto de programar até hoje" —, virou executivo e empreendeu várias vezes
- Implantou plataformas low code em empresas onde atuou como executivo
- A comunidade que ele e o sócio construíram é, segundo ele, 100% sem código, feita por pessoas que sabem programar
A entrevistadora é Mariana Paes, professora e pesquisadora de engenharia na Universidade Federal de Juiz de Fora, com atuação em empreendedorismo, tecnologia da informação e gestão da inovação, e apresentadora do quadro Ensaio do Futuro do VoittoCast.
Ouvir o episódio
VoittoCast #36 — NoCode: eu preciso mesmo aprender a programar? Quadro: Ensaio do Futuro, com Mariana Paes Convidado: Alexandro Strack
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