Carreira em ciência de dados: o unicórnio não é a pessoa, é o time
Rodrigo Senra é diretor de tecnologia e cofundador da Python Brasil. Conta a origem do termo, os quatro problemas da área e o teste da agulha no palheiro.
Rodrigo Senra é Group Technology Director da Work & Co, empresa internacional de produto digital. É engenheiro de computação pela Unicamp, com mestrado e doutorado, foi professor universitário e participou da criação da Associação Python Brasil, organizando a primeira conferência de Python no país em 2005. Usa Python desde 1997 e já deu mais de cem palestras. Nesta conversa com Mariana Paes, professora e pesquisadora de engenharia na UFJF, ele reconstrói a origem do termo "cientista de dados", separa os quatro problemas que a área resolve, e faz a pergunta que quase ninguém faz antes de começar um projeto de dados.
De onde veio o termo — e por que ele é quase um pleonasmo
"Apesar de a gente estar num programa de ensaios do futuro, eu acho que a gente tem que começar falando do passado." — Rodrigo Senra
2008. O termo se populariza com duas pessoas: DJ Patil, então no LinkedIn e mais tarde o primeiro cientista de dados-chefe da Casa Branca no governo de Barack Obama, e Jeff Hammerbacher, que estava montando times de cientistas de dados no Facebook.
O motivo de inventar um nome novo é instrutivo:
"Eles criaram esse termo como uma forma de se definir e se diferenciar do que era um estatístico — que soava um pouco muito acadêmico — e de um analista, que soava estritamente mercadológico e corporativo. Então eles tentaram achar alguma coisa mais no meio." — Rodrigo Senra
2001. Mas Senra foi atrás e achou uma referência anterior: um artigo de William Cleveland propondo a ciência de dados como plano de ação para expandir o campo da estatística.
E aí vem a observação que organiza o resto:
"A gente vê que ciência de dados, na real, tem essas raízes na estatística. O termo é até um pouco pleonástico, porque ciência sempre foi de dados. Não tem nenhum cientista que não trabalhe com dados."
Então o que de fato mudou? A amostra
A pergunta que ele se faz é a certa: se sempre foi ciência, e ciência sempre foi de dados, por que surgiu algo diferente?
"O que tem de diferente, eu acho, é o Big Data. A gente começou a ver múltiplas companhias lidando com aquisição de dados numa escala global, e processar esses dados extrapolava a capacidade do estatístico tradicional. Porque ele tinha um excelente conhecimento de estatística, porém o ferramental dele estava limitado a trabalhar com amostras. E o que essas empresas trouxeram é: por que uma amostra, se eu posso olhar para os dados de todo mundo?" — Rodrigo Senra
Daí a exigência nova de formação:
"Agora a gente precisa de um profissional que não é meramente o estatístico. Ele tem que ter um embasamento em ciência da computação, porque, para operacionalizar esses dados, ele vai precisar de know-how de programação, de algoritmo, de banco de dados, de escalabilidade, de computação de alto desempenho."
Ele chama o Big Data de "o fator de mutação".
O unicórnio, e por que ele é um time
A composição do perfil, no diagrama de Venn popularizado por Drew Conway: matemático e estatístico, mais cientista da computação, mais especialista de domínio.
"E aí deram uma pitadinha de marqueteiro, de artista — no sentido de que ele tem que aprender a fazer a visualização dos dados de uma forma atraente. E ele precisa também ser capaz de contar uma história. Ele é um storyteller: precisa não só capturar o insight a partir do dado, mas colocar isso numa linguagem que seja acessível para o público-alvo." — Rodrigo Senra
O problema disso:
"São tantas habilidades que as pessoas começaram a dizer que o cientista de dados é um unicórnio — ele é um ser mitológico, porque são tantas habilidades diferentes que você precisa de mais do que uma vida para chegar nesse estágio."
E a resolução, que é a informação mais importante do episódio para quem contrata:
"Isso se traduz numa coisa que está sendo reforçada continuamente: o cientista de dados não é um indivíduo, ele é um time. Você, na real, começa a montar um time com uma série de capacidades — e o time é o unicórnio." — Rodrigo Senra
A descrição dele para o próprio ofício, de passagem: "uma mistura de garimpeiro e pajé".
As cinco razões pelas quais a cultura de dados não entra
Perguntado por que as empresas brasileiras têm dificuldade de se adaptar, Senra avisa que a resposta é plural — "provavelmente cada empresa tem a dificuldade por uma razão diferente" — e então lista cinco.
1. O ovo ou a galinha
"Você só vê o valor real de ter uma cultura de dados depois de implantar a cultura de dados. Então, antes de implantar, você acha que não vale o investimento — e ele, na real, é um investimento. Você vai gastar dinheiro antes de ter o retorno do dinheiro." — Rodrigo Senra
2. Mão de obra e infraestrutura
E aqui ele dá a receita mais concreta do episódio, especificamente para quem não tem caixa de multinacional:
"Contratar um cara experiente é caro, principalmente quando você está começando. Então, uma técnica que eu sugiro, se a empresa é de pequeno ou médio porte: contratar uma consultoria de alguém experiente e já ir montando um time em paralelo, para que essa consultoria treine esse time interno — evolua esse time, e depois esse time dá continuidade ao trabalho a longo prazo." — Rodrigo Senra
A aritmética que sustenta a receita:
"O time mais júnior tem um custo mais baixo. A consultoria, apesar de ter um custo mais alto, é por um período limitado — você consegue se planejar para fazer isso acontecer."
Mariana Paes acrescenta um argumento a favor da consultoria que não é de custo:
"É muito dinâmico, muda toda hora. Eu dou aula disso e é enlouquecedor: o sistema está mudando, as soluções são diversas. Às vezes uma consultoria que está lidando com várias empresas e vários problemas diferentes vai conseguir achar a agulha muito mais fácil que a empresa que está investindo muito dinheiro nesses recursos." — Mariana Paes
3. Monetização
"Uma vez que você adotou a cultura de dados, você vai conseguir ter o retorno sobre esse investimento? Aí é uma aposta."
E a premissa de gestão que ele invoca contra a inação:
"Aquilo que você não mede, você não controla. Então, se você está sendo míope em relação ao que está acontecendo..."
4. A agulha pode não estar no palheiro
Esta é a melhor pergunta do episódio, e quase ninguém a faz antes de aprovar um projeto de dados.
"Às vezes o processo com que você está lidando é tão complexo que você, intuitivamente, não vai conseguir achar a agulha no palheiro. Você precisa de um eletroímã gigantesco que faz isso ficar trivial. Mas daí tem a outra questão, que é: existe agulha no palheiro? Porque você só vai achar agulha no palheiro se já tiver uma agulha lá. E é isso que é o risco." — Rodrigo Senra
E as duas formas de o projeto terminar sem resultado:
"Às vezes a agulha não está lá. E aí você faz todo um trabalho e de repente você ainda não teve resultado — ou porque a agulha não está lá, ou porque você está procurando no lugar errado."
5. O fator humano
"Vou implantar uma cultura de dados, vamos monitorar tudo. Bater ponto, por exemplo, não deixa de ser uma forma de estar coletando dados. Às vezes a coleta de dados é percebida como uma invasão, como um mecanismo não só de controle do processo, mas de controle do indivíduo. E aí existe uma resistência psicológica, social, pessoal, que pode sabotar o processo." — Rodrigo Senra
E a contramedida vem com um caso concreto que vale copiar.
O problema: o time de alocação de pessoas da empresa não conseguia mapear as capacidades de cada desenvolvedor, porque "cada dia você está aprendendo uma coisa nova".
O que ele fez:
"Criei uma planilha. Eu fui lá e escrevi: esse aqui é meu nome, essas são as coisas que eu sei, e essas são as coisas que eu quero aprender. Dei acesso à planilha para a empresa inteira. E aí cada um foi na planilha e começou a editar." — Rodrigo Senra
Por que funcionou:
"Eles estavam entregando informação para a empresa, mas estavam recebendo informação da empresa. Transparência total. Resistência zero. Tivemos 98% de adesão."
E a regra que ele extrai:
"Esse é o segredo para o fator humano: pensar no ganha-ganha e transparência."
Note o detalhe que faz a planilha funcionar: a coluna do que a pessoa quer aprender. Ela transforma um instrumento de inventário num instrumento de desenvolvimento — e é por isso que ninguém sentiu que estava sendo auditado.
Os quatro problemas que a ciência de dados resolve
Antes de falar de tendências, Senra propõe uma taxonomia — "para a gente poder dar tendências contextualizadas".
| Problema | O que se busca |
|---|---|
| Automação | economizar tempo e garantir escalabilidade — "liberar o tempo do seu profissional para não fazer coisas manuais e poder focar no insight, no estratégico" |
| Previsão | "construir bolas de cristal que vão te dar um insight do futuro", seja estratégico de longo prazo ou tático de curto prazo |
| Otimização | "como é que eu faço isso da forma mais rápida, mais barata" — o foco é no que você já faz |
| A relação mutualística entre produto e comportamento | o problema que a própria área criou |
E o quarto merece atenção, porque é o único que ele apresenta como efeito colateral e não como serviço:
"O Google venceu a batalha dos motores de busca e virou o principal. E, ao se tornar o principal, as respostas que o Google dá interferem no comportamento das pessoas — e aí o Google analisa o comportamento das pessoas, que interfere no algoritmo que ele vai usar. Existe aí uma recursão infinita em que uma coisa muda a outra. Esse também é um problema que a ciência de dados causa e que ela tem que resolver internamente, porque ela fica criando soluções enviesadas às vezes." — Rodrigo Senra
É uma formulação honesta e incomum vindo de dentro da área: o instrumento de medição altera o que mede, e o modelo treinado no resultado alterado se afasta mais.
Onde o cientista de dados mora no organograma
Esta é a parte mais útil do episódio para quem está estruturando a área, e Senra ataca o problema pela natureza do insumo.
"A gente chama de pervasive, cross-cutting. Essas informações são pervasivas, elas tocam tudo. Dados tocam todos os aspectos da empresa. Então, se você coloca isso num silo, esse grupo não consegue trabalhar — porque outros setores não estão alimentando esse grupo com o que ele precisa." — Rodrigo Senra
A metáfora que ele propõe:
"Tem que ser uma coisa como um fungo. Os fungos são conhecidos porque eles criam raízes e, apesar de você só ver o cogumelozinho aqui, as raízes se espalham por todos os lados. O time de cientistas de dados tem que ser como um fungo na empresa: espalhado por todos os segmentos, para garantir que vai conseguir capturar a informação sem barreiras políticas, sem barreiras institucionais."
E a condição que ele não trata como opcional: "ele precisa ter o apoio dos escalões no topo da empresa, que vão remover esses obstáculos".
A política real, dita sem rodeio
"Já dizia Aristóteles, o homem é um animal social — e nós recaímos no Game of Thrones. Existem muitas empresas que têm aquela cultura de: não, essa informação aqui é minha, não libera isso, não põe isso no relatório. Eu não estou nem falando em adulterar dados. Estou falando de uma coisa mais simples, que é a liberação controlada da informação." — Rodrigo Senra
E a consequência técnica disso, que fecha o argumento com o item 4 da lista anterior:
"Ele tem que ser como um fantasma: não tem parede. Ele vai onde quiser ir, ele enxerga o que quiser ver. Só assim você vai conseguir encontrar a agulha no palheiro. Se você começa a dizer 'esse pedaço do palheiro você não pode procurar' — se a agulha estiver lá, você não acha nada."
A estrutura pragmática: vertical e horizontal
"Uma forma é você estruturar o teu time de ciência de dados respondendo vertical e horizontalmente: colocar representantes do time na base, no ponto de coleta, e representantes do time no ponto decisório, no topo da pirâmide. E aí você faz essa conexão." — Rodrigo Senra
O que ele quer evitar:
"Em vez de criar só 'aqui o departamento de cientistas de dados', em que eles só falam com eles próprios — e depois têm que negociar com outros grupos de que eles não fazem parte."
E a analogia histórica que ele usa é a melhor explicação de integração organizacional da série:
"É mais ou menos como os romanos fizeram. Eles conquistavam o povo e aí imediatamente pegavam gente daquela população e absorviam no seu próprio exército. Passava a fazer parte da família romana — então não tinha repulsa aos romanos, e aí eles continuavam se expandindo. Senão eles nunca iam manter o império. O cientista de dados tem que ir sendo absorvido pelos diversos times: ele faz parte daquela pequena tribo, e ao mesmo tempo tem vínculo com as suas raízes e fala com a gestão da empresa." — Rodrigo Senra
Ele acrescenta uma ressalva sobre cargos: criar Chief Data Officer e Chief Data Scientist ao mesmo tempo "começa uma dificuldade de quem manda em quem".
E Mariana Paes aponta o paralelo com outra área que sofre do mesmo mal:
"É mais ou menos a ideia de criar um departamento, um profissional exclusivo para a inovação, e deixar o cara isolado, sem interagir com os demais." — Mariana Paes
Por onde começar
A resposta mais direta do episódio
Perguntado que dica daria a quem quer trabalhar com dados, Senra conta uma história sobre o preço:
"Eu lembro de uma entrevista com um pianista. Ele tocava piano, e o entrevistador falou: nossa, você toca maravilhosamente bem, eu daria tudo para tocar como você. E ele falou: eu dei." — Rodrigo Senra
E a versão operacional, que ele credita ao conselho de um escritor conhecido sobre escrita criativa:
"A dica que eu dou para os iniciantes que querem escrever é: escrevam. Vão num projeto até o fim. Criem essa experiência. Acumulem as dez mil horas."
Os recursos que ele aponta: competições de ciência de dados, bases de dados públicas de governo, cursos abertos — e, para quem não tem equipamento, computadores de biblioteca.
"Nada no mundo te impede mais de se tornar isso. Só você mesmo. Tem várias formas de driblar os obstáculos — e eles vão existir. Não é fácil para ninguém. Mas se você persistir, você vai chegar no seu objetivo."
Faculdade ou cursos?
Senra declara o próprio viés antes de responder: fez engenharia de computação, mestrado, doutorado, e foi professor universitário.
A favor da formação acadêmica:
"Ele te dá o fundamento que muitas vezes não é tão sexy, para você chegar na parte sexy do trabalho. E, às vezes, sozinho, você não tem a disciplina para encarar — e a formação acadêmica te força, de certa forma, a passar por isso e construir a base que você vai precisar." — Rodrigo Senra
E o argumento especificamente brasileiro, que ele faz questão de registrar:
"O Brasil, em particular, está privilegiado, porque ele ainda tem instituições acadêmicas que são acessíveis à população. A universidade pública tem um padrão altíssimo de qualidade, e existe. Em outros países, como os Estados Unidos, é um problema você ter formação acadêmica, porque o custo é altíssimo — as pessoas se endividam, às vezes, por metade da carreira delas. Então, aqui, a minha dica talvez fosse diferente; mas para quem está no Brasil, eu acho que um curso universitário é factível." — Rodrigo Senra
A favor dos cursos livres, que ele não opõe à faculdade:
"Eles também te dão uma formação que tem um sílabo, que tem uma estrutura pedagógica. Isso ajuda, porque você está querendo aprender uma área e você não sabe nem para onde ir. Fazer um curso te ajuda a entender o que você precisa estudar."
E o valor do certificado, delimitado com precisão:
"Te ajuda a comprovar, no momento em que você não tem experiência nenhuma, que você tem esse conhecimento. Eu ainda não fiz nenhum projeto, mas eu tenho esse conhecimento."
Outros dois caminhos que ele cita: competições nacionais e internacionais, e o movimento de código aberto — "lá eles só pedem tempo, e eles te ajudam a te treinar".
A trajetória dele própria combinou tudo: trabalhou enquanto fazia mestrado, deu aula enquanto fazia doutorado e contribuía para código aberto, e dava palestras em paralelo.
"Eu tentei fazer tudo um pouco para poder entender o que eu gostava. Então a minha dica final é: tenta começar pelo que você gostar mais — porque isso vai facilitar a tua motivação e é menos risco de você desistir na hora que esbarrar na primeira coisa que você não vai gostar, mas que vai precisar saber também." — Rodrigo Senra
Quem é Rodrigo Senra
- Group Technology Director da Work & Co, empresa internacional de produto digital
- Engenheiro de computação pela Unicamp, com mestrado e doutorado; foi professor universitário
- Participou da criação da Associação Python Brasil e organizou a primeira conferência de Python no Brasil, em 2005; usa a linguagem desde 1997
- Mais de cem palestras proferidas, mais de 80 delas no Brasil
- Experiência que atravessa simulação de processos logísticos, automação industrial, análise de sentimento em redes sociais e aplicação móvel para atletas
A entrevistadora é Mariana Paes, professora e pesquisadora de engenharia na Universidade Federal de Juiz de Fora, com atuação em empreendedorismo, tecnologia da informação e gestão da inovação, e apresentadora do quadro Ensaio do Futuro do VoittoCast.
Ouvir o episódio
VoittoCast #15 — O fantástico mundo da Ciência de Dados Quadro: Ensaio do Futuro, com Mariana Paes Convidado: Rodrigo Senra
Página do episódio no VoittoCast
Para aplicar
- Todos os episódios do VoittoCast
- Alfabetização de dados: ler, analisar e argumentar
- Gestão da demanda: o censo e o fim do forecast
- Business intelligence e big data: quem faz o quê
- No code: o que dá e o que não dá sem programar
- Business intelligence em médias empresas: por onde
- Cientista de dados: o que faz e como se tornar
- Data science: o que é e para que serve
- Python na ciência de dados
- Big data: o que é e como as empresas usam
- Análise de dados: o que é e como fazer



