Dados & Tecnologia

Business intelligence em médias empresas: o ponto em que a gestão perde contato com a transação

Joni Girardi atende centenas de médias empresas nos EUA e no Canadá. Ele conta o caso dos 5.000 relatórios e por que chama achismo interno de fake news.

Thiago Coutinho
Publicado em 20 de out de 2026  ·  Atualizado em 20 de out de 2026  ·  14 min de leitura
Capa do artigo Business intelligence em médias empresas: por onde, com a arte do episódio 55 do VoittoCast e a foto do convidado

Joni Girardi é gaúcho e vive nos Estados Unidos há mais de 20 anos. Chegou representando uma empresa de informática do Rio Grande do Sul, começou a carreira em programação, fez pós-graduação em administração e MBA, e há cerca de 15 anos dirige uma empresa de business intelligence no Vale do Silício, voltada a empresas de pequeno e médio porte nos Estados Unidos e no Canadá. Nesta conversa com André Bianchi, apresentador do quadro Mundo Empreendedor, ele descreve exatamente onde o crescimento quebra a gestão por intuição — e conta um caso em que a própria empresa dele perdeu meses resolvendo o problema errado.

O momento em que a intuição deixa de funcionar

Girardi descreve uma trajetória que qualquer empresa em crescimento reconhece.

"Inicialmente, os empreendedores são muito focados naquelas áreas em que eles são muito bons: construção de alguma coisa, vender algum produto, algum serviço. E eles não são necessariamente experts em tecnologia — eles são experts numa área que lhes é dedicada." — Joni Girardi

E então o negócio cresce:

"Inicialmente, o empresário conhece todo o negócio, conhece todos os clientes, todos os serviços, todas as pessoas — e eles conseguem, sem ter uma tecnologia, entender como melhorar o processo. Conforme começa a aumentar o número de pessoas, eles começam a delegar partes do negócio para outras pessoas."

E aí vem o diagnóstico que dá nome a este artigo:

"Aí começa a haver uma desconexão entre você gerenciar o negócio, as pessoas que fazem e, de fato, os fatos. Hoje em dia, as transações são feitas através de sistemas digitais. Então chega um ponto em que o gerenciamento perdeu o contato com a transação. E aí, se você não tem um sistema que coleta e analisa os dados, fica cada vez mais difícil você saber se, de fato, o negócio está sendo bem gerenciado." — Joni Girardi

O supermercado do pai dele

O exemplo que ele usa é autobiográfico e mostra o que mudou no custo do erro.

Primeiro emprego: abastecedor de supermercado, onde o pai era sócio.

"Os donos da empresa, naquela época, tinham uma planilhazinha. Eles andavam no estoque e olhavam: ah, o que está faltando? Faziam uma anotação de comprar mais isso, mais aquilo." — Joni Girardi

Sobre errar o preço, uma observação que descreve todo sistema sem controle:

"Na hora de colocar na prateleira, a gente errava o preço, para cima ou para baixo. Se era para cima, o cliente reclamava. Se era para baixo, ninguém reclamava. E isso, naquela época, funcionava."

E sobre validade, onde o custo do erro mudou de categoria:

"Naquela época, se você deixava um produto estocado por muito tempo, eventualmente colocava na prateleira e vendia, e ninguém se importava. Hoje em dia, se está fora do vencimento, alguém pode te processar."

A conclusão:

"Hoje em dia, o controle dos dados, das transações, dos custos é uma coisa muito mais crítica. E se o empresário não faz isso, ele acaba perdendo muita grana, e isso reduz muito a competitividade no mercado."

O erro que o próprio André aponta: parar no dono

André levanta um ponto que Girardi confirma — e que muda o escopo de qualquer projeto:

"Eu percebo que o empresário não compreende que, além dele, ele tem que capacitar os colaboradores que serão preparados para a gerência, para também compreender alguns números. Porque uma coisa são os números da parte tática e estratégica, que está fechado com a diretoria. Só que aqui embaixo essa compreensão se faz necessária." — André Bianchi

E ele fala de experiência própria, com a empresa que mantém no Brasil:

"A gente foi crescendo e a gente perdeu. Não tinha processo — não existia processo quando você tem duas, três pessoas. E a hora que você tem 20, 30, a coisa dá um problema."

A resposta de Girardi vai para a composição do time:

"Cada pessoa é muito boa em alguma coisa. E se você não é bom nas outras coisas, o melhor é você contratar pessoas que são boas naquelas atividades para complementar o seu serviço. Hoje em dia, você tem sucesso quando você tem um time que é muito capaz, cada pessoa na sua própria área de especialidade." — Joni Girardi

A mudança de geração que ele observa de dentro

Com 15 anos no ramo, ele aponta uma inflexão nos últimos cinco:

"Começou a haver uma mudança no mercado. Existe uma leva nova de gerentes entrando nas empresas — pessoas mais jovens, pessoas que a gente chama de mais data-driven, que gostam de olhar para os dados antes de tomar decisões. Enquanto a geração mais antiga, que antes dominava, era mais gut feeling: eles tinham uma percepção — faz assim, faz assado — mas não era baseado em dados." — Joni Girardi

De onde vem essa leva:

"Às vezes são os filhos ou as filhas dos donos, que já são acostumados com tecnologia, com computador, com ver gráficos — e eles começam a trazer uma técnica de análise de dados que, no passado, não era tão relevante."

E ele acrescenta um traço que não é sobre dados:

"É uma geração mais consciente do meio ambiente, mais consciente dos direitos das pessoas, que não é apenas o lucro — tem uma visão muito mais abrangente da realidade para tornar a empresa mais competitiva."

Fake news dentro da empresa

Este é o enquadramento mais eficaz do episódio, e ele o constrói a partir do debate público.

"Fake news é uma coisa difícil de você atacar no mundo externo. Mas, para a empresa, nós temos que acabar com fake news. A gente tem que trazer os dados para as reuniões — e, a partir dos dados, pode ter opiniões." — Joni Girardi

E a inversão que ele propõe:

"Inverter: no passado, todo mundo tinha opinião e ninguém sabia dos dados. Hoje em dia, quando tu trazes os dados para a mesa, dados mudam percepções, criam emoções — e aí tu podes focar as soluções em problemas reais, não em problemas imaginários."

A versão final do argumento, no fecho do episódio:

"As empresas que têm um entendimento muito bom dos fatos que acontecem dentro delas terão uma competitividade muito maior do que as empresas que trabalham com fake news — que elas acham que alguma coisa está acontecendo."

E a régua que ele oferece a quem reclama da imperfeição do dado:

"É melhor ter um fato questionável do que ter um achômetro total." — Joni Girardi

Sobre decidir com emoção — e ele não nega que isso aconteça

"A gente estuda muito sobre ciência da mente. As pessoas tomam decisões e depois usam os fatos para justificar aquela decisão. Isso é um fato. Mas, quando você vê um fato que te causa uma emoção, que te cria um momento de descoberta — essas emoções, esses momentos, é que vão acabar dirigindo um futuro muito mais promissor." — Joni Girardi

Não é um argumento contra a intuição. É um argumento sobre o que deve alimentá-la.

Business intelligence é jornada, e a cultura muda por evidência

"Business intelligence é uma jornada. Uma vez que você faz a decisão e começa a entrar nesse processo, é uma coisa que leva tempo." — Joni Girardi

E o mecanismo pelo qual a cultura muda, que não é por convencimento:

"Muitas pessoas, no início, não olham para os dados, não acreditam — até que, aos poucos, tu começas a verificar que as pessoas que seguem os dados têm mais sucesso que as pessoas que não seguem. E aos pouquinhos tu começas a mudar a cultura geral da empresa. Mas é um processo."

Por que é tão difícil começar

A explicação dele é estrutural, e vale para qualquer organização:

"Muitas pessoas perguntam para a área de TI da empresa: o que tem disponível para eu poder fazer análise? E aí eles dão uma série de relatórios. E aí tu tens que viver com essas coisas. Eles não sabem nem que existe coisa melhor." — Joni Girardi

E ele admite que o problema não está resolvido, inclusive para ele:

"A gente ainda está trabalhando para verificar como trazer para uma empresa um pacote de BI que seja super simples, acessível, e que pode começar hoje e não daqui a um mês. A gente está ainda descobrindo a receita mágica. A gente já fez muito progresso, mas é um trabalho em andamento."

Vale registrar a dimensão do mercado que ele descreve, porque dá a escala do problema: um levantamento próprio identificou cerca de 250 mil empresas no nicho dele, nos Estados Unidos e no Canadá. O número de clientes é de centenas.

"Ou seja, a gente está apenas começando esse processo."

As ferramentas que ele indica

Girardi separa dois níveis, e é transparente sobre a própria escolha de produto.

Para o mercado de médio porte: complementos de planilha, baratos — "em geral, o software que você já usa tem uma série das ferramentas".

Para o nível corporativo, as duas líderes:

Ferramenta Observação dele
Power BI da Microsoft
Tableau adquirido pela Salesforce

"Pelos últimos cinco anos, essas duas ferramentas têm sido as líderes no mercado em relação a usabilidade — são as mais fáceis de usar. Então eu diria: se você vai começar do zero e quiser usar ferramentas de grande sucesso no mercado, comece por elas." — Joni Girardi

E a decisão de produto dele, que é também um conselho sobre não reinventar:

"Uma das minhas decisões é que a ferramenta de usuário, a interface, eu não queria criar do zero — eu queria aproveitar ferramentas de grande sucesso no mercado."

O caso dos cinco mil relatórios

Esta é a melhor história do episódio, e ela é contra o próprio interesse comercial de quem a conta.

O contexto. A empresa dele mantém um pacote de cerca de 5.000 relatórios considerados boas práticas. Um cliente novo chegou com um pedido específico:

"O cliente nos deu um problema específico: olha, foca nesse — e depois que você resolver, você pode trazer o que você considera as melhores práticas. Esquece os 5 mil, não quero saber agora. Eu tenho um problema, resolve ele." — Joni Girardi, citando o cliente

O que aconteceu. "A gente levou alguns meses para resolver aquele problema, era uma coisa bem complicada." E o cliente ficou satisfeito.

E então ele ligou:

"Joni, eu fui dar uma olhadinha nos 5 mil relatórios, comecei a navegar — e, na minha primeira meia hora olhando aquela lista, eu achei um relatório que estava pronto no primeiro dia em que você colocou o sistema. Se eu tivesse visto aquele relatório, teria me dado conta que eu tinha problemas maiores do que o que eu te pedi inicialmente. A gente perdeu meses resolvendo um problema que era dolorido — mas eu tinha problemas muito piores, que eu não sabia." — o cliente, citado por Joni Girardi

E o pedido que o cliente fez a ele:

"Nos seus próximos clientes, encoraje os tomadores de decisão a entrar no processo o quanto antes — porque às vezes o que você não sabe é mais importante do que o que você sabe."

A orientação prática que ele extrai

"Esse lance de você se afogar nos dados é um problema complicado. A minha orientação é: as pessoas que decidem, junto com o processo, bem pertinho." — Joni Girardi

E ele faz a triagem de quem envolver com realismo:

"Tem algumas pessoas que não têm paciência — essas, deixa do lado de fora; quando estiver pronto, você volta nelas. Mas, em geral, no gerenciamento tem no mínimo um número pequeno de pessoas que querem ajudar, querem participar, querem dar opinião. Essas pessoas têm que estar muito próximas do sistema de BI — porque senão você pode se mergulhar em problemas que ninguém se interessa."

Com o princípio por trás:

"Quem precisa da informação são os tomadores de decisão — e não nós, os data geeks."

BI e business analytics: ele se recusa a separar

"Business analytics é um conceito mais recente. A ideia é de você fazer mais forward looking: como é que você pega os dados do passado e tenta projetar o futuro? E BI era uma coisa mais de olhar para o passado." — Joni Girardi

Mas:

"Hoje em dia, esses termos são meio que usados a esmo. Então eu procuro não botar coisas em caixinhas: eu pergunto 'como é que você entende isso?' E, em geral, eu entro naquele assunto."

É a mesma recomendação prática que aparece em outros episódios da série sobre dados: o nome varia por empresa, e o que importa é entender a tarefa.

Treinamento ou prática?

Perguntado se é preciso base em métodos estatísticos e que cursos indicaria, a resposta dele é sobre sequência:

"Não existe treinamento que vai deixar você pronto para fazer uma coisa bem feita. O que você aprende na faculdade e o que você aplica numa empresa, em geral, são mundos bem diferentes." — Joni Girardi

A regra que ele dá:

"Enquanto você não tem um trabalho, treinamento é bom — investe, lê. Mas, uma vez que você pega um trabalho numa empresa, ou cria uma empresa, se aprofunda naquele tópico."

E a tranquilização sobre experiência que parece desperdiçada:

"Teve pessoas na nossa empresa que vieram de uma experiência em algum tipo de área vertical e que hoje não usam nada daquele assunto. Nada. Perderam tempo? Não. De certa forma, aquela experiência, na cabeça deles, ajuda a ter sucesso hoje em áreas relacionadas."

Como uma empresa pequena disputa gente com as gigantes

André pergunta como ele compete por talento no Vale do Silício, ao lado de empresas globais de tecnologia. A resposta reformula a pergunta:

"Para mim, são mercados bem diferentes. As pessoas que querem trabalhar em empresas grandes — em geral, é uma decisão emocional." — Joni Girardi

E ele usa a própria escolha como explicação:

"Eu nunca me senti animado em trabalhar com aquelas empresas, porque eu vou ser uma pequena peça numa máquina gigantesca: minha influência vai ser quase zero. Então, emocionalmente, eu não quero fazer parte de uma empresa muito grande em que minha influência é quase zero."

A conclusão:

"De certa forma, eu não concorro com elas, porque a decisão pessoal está num nível diferente. Eu concorro por pessoas que querem fazer uma diferença grande numa empresa pequena."

A jornada de dez passos para ficar global

E o último trecho tem o dado mais concreto do episódio — a mudança no custo de aquisição do próprio produto.

Três anos antes da gravação, eles decidiram redesenhar a plataforma para operar globalmente, numa jornada de dez passos. Na época da conversa, estavam no passo oito.

Antes Depois da jornada
uma venda nova envolvia cerca de US$ 30 mil e 30 dias de implantação, com participação de especialistas o cliente entra no site, preenche um formulário e implanta em 30 dias grátis, sem especialista

"A gente criou um processo que torna BI de ponta uma coisa simples, barata e que não exige data geeks para começar. E a gente está quase lá." — Joni Girardi

Vale notar o que esse redesenho tem a ver com o resto do episódio: ele é a resposta operacional ao problema que ele mesmo identificou — que empresas de médio porte não entram em BI porque o custo e a complexidade de começar são altos demais para quem ainda não viu o valor.

Quem é Joni Girardi

  • Gaúcho, vive nos Estados Unidos há mais de 20 anos; chegou representando uma empresa de informática do Rio Grande do Sul, inicialmente na Flórida
  • Começou a carreira em programação; depois fez pós-graduação em administração e MBA — "eu misturei o lado de business e o lado técnico"
  • Passou pela bolha da internet no Vale do Silício antes de entrar em business intelligence, por convite de outro brasileiro
  • Cerca de 15 anos dirigindo uma empresa de BI voltada a pequenas e médias empresas nos Estados Unidos e no Canadá, com centenas de clientes
  • Define-se, no próprio perfil profissional, como data geek

O entrevistador é André Bianchi, apresentador do quadro Mundo Empreendedor do VoittoCast, que atua entre Brasil e Estados Unidos levando grupos de empresários ao Vale do Silício, e mantém uma empresa de 30 pessoas no Brasil.

Ouvir o episódio

VoittoCast #55 — Como médias empresas podem implementar Business Intelligence Quadro: Mundo Empreendedor, com André Bianchi Convidado: Joni Girardi

Ouvir no Spotify

Página do episódio no VoittoCast

Para aplicar

Perguntas frequentes

Quando uma média empresa precisa de business intelligence?
No ponto em que a gestão perde contato com a transação. Enquanto o dono conhece todos os clientes, serviços e pessoas, ele consegue melhorar o processo sem tecnologia. Quando passa a delegar partes do negócio e as transações acontecem em sistemas digitais, essa visão se rompe — e sem coleta e análise de dados fica difícil saber se o negócio está bem gerido.
Qual é o custo de não medir?
Mudou de categoria. Girardi compara com o supermercado onde começou: errar preço para baixo não gerava reclamação, e produto parado em estoque acabava vendido. Hoje, erro de preço e produto fora da validade têm consequência jurídica e financeira — e perda direta de competitividade.
Basta capacitar o dono?
Não. O ponto levantado no episódio é que a gerência intermediária também precisa entender números: os indicadores táticos e estratégicos ficam com a diretoria, mas a compreensão precisa descer. Sem isso, o projeto fica restrito ao topo.
Como mudar a cultura para decisão baseada em dados?
Por evidência acumulada, não por convencimento. Segundo Girardi, muita gente não acredita nos dados no começo — até perceber que quem segue os dados tem mais sucesso que quem não segue. É um processo, e leva tempo.
O que ele chama de fake news dentro da empresa?
A decisão por opinião sem dado. A proposta é inverter a ordem habitual: trazer os dados para a reunião primeiro e formar opiniões a partir deles, em vez de discutir percepções sem base. E a régua que ele oferece é prática: melhor um fato questionável do que achismo total.
Por onde começar em ferramentas?
Para médio porte, complementos de planilha, que costumam já estar disponíveis. Para o nível corporativo, ele indica Power BI e Tableau, que avalia como as líderes em usabilidade nos cinco anos anteriores à gravação.
Devo começar pelo problema que mais dói?
Com cuidado. No caso que ele relata, o cliente pediu foco num único problema e levou meses — para depois descobrir, em meia hora de navegação pelos relatórios padrão, que tinha problemas maiores que ignorava. A lição que o próprio cliente formulou: o que você não sabe pode ser mais importante do que o que você sabe.
Quem precisa participar do projeto?
Os tomadores de decisão, de perto e desde o começo — não a equipe técnica isoladamente. E ele faz a triagem com realismo: quem não tem paciência fica de fora até o resultado estar pronto, mas quem quer participar precisa estar próximo, para o projeto não se afundar em problemas que não interessam a ninguém.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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