Metodologias & Qualidade

Muda, mura e muri: os três Ms do lean e por que atacar só o desperdício não funciona

O Brasil aprendeu os oito desperdícios e parou aí. Mura e muri são as causas de boa parte do muda, e sem eles a melhoria não dura

Thiago Coutinho
Publicado em 26 de set de 2026  ·  Atualizado em 26 de set de 2026  ·  16 min de leitura

O treinamento de lean no Brasil quase sempre começa e termina no mesmo lugar: os oito desperdícios. O aluno decora superprodução, espera, transporte, processamento excessivo, estoque, movimentação, defeito e talento não utilizado. Sai da sala sabendo caçar muda, e sai sem saber que muda é apenas o primeiro de três.

Os outros dois são mura e muri. Mura é irregularidade: o volume que oscila, o mix que muda sem aviso, o ritmo que acelera e trava. Muri é sobrecarga: gente ou equipamento operando acima do que aguenta em regime. Muda mura muri é o trio que a Toyota sempre tratou como um problema só.

A tese deste artigo é simples e incômoda. Muda é o mais visível dos três e, na maioria dos casos, é mais consequência do que causa. Mura e muri produzem muda. Quem ataca só o desperdício está enxugando a poça sem fechar a torneira.

Isso explica um fenômeno que todo praticante já viu de perto: o kaizen que funcionou dois meses e sumiu. O ganho não evaporou por falta de disciplina do time. Ele evaporou porque a irregularidade e a sobrecarga que geravam aquele desperdício continuaram intactas no sistema.

Os números deste texto foram montados para ele, no formato do Kit Lean da Voitto. São ilustrativos e internamente consistentes: a série de oito semanas, as horas extras, as horas ociosas e o estoque foram conferidos em planilha e fecham entre si. Eles não descrevem uma fábrica real.

Os três Ms e a metade que o Brasil aprendeu

Muda, mura e muri são as três perdas que o Sistema Toyota de Produção combate ao mesmo tempo. Muda é desperdício: atividade que consome recurso sem criar valor. Mura é irregularidade de volume, de mix ou de ritmo. Muri é sobrecarga de pessoa ou de máquina além do limite de regime.

A lista dos oito desperdícios foi o pedaço do lean manufacturing que melhor atravessou a fronteira. Ela é concreta, cabe num cartaz e qualquer pessoa aponta um exemplo em cinco minutos de chão.

O preço dessa popularidade foi a amputação dos outros dois. Mura e muri não cabem em cartaz porque não são categorias de coisa, e sim propriedades do sistema ao longo do tempo. Ninguém fotografa irregularidade. Você precisa de uma série de dados para enxergá-la.

O resultado prático é uma geração de profissionais que classifica desperdício com precisão cirúrgica e não sabe explicar por que ele volta. A resposta quase sempre está nos dois Ms que ficaram de fora do cartaz.

O que cada palavra quer dizer ao pé da letra

As três são palavras comuns do japonês industrial, não jargão inventado pela Toyota. O sentido literal ajuda, porque a tradução de manual costuma achatar as diferenças entre elas.

  • Muda significa inutilidade, algo em vão. Descreve o esforço que não produz efeito útil: a peça que sobra, a hora de espera, o passo que ninguém pediu.
  • Mura significa desigualdade, falta de uniformidade. Descreve a variação indevida: a semana de pico seguida da semana vazia, o lote de 400 depois do lote de 30.
  • Muri significa excesso, forçar algo além do razoável. Descreve a exigência impossível: o operador em 62 horas na semana, a prensa rodando sem a parada de manutenção.

Repare na natureza gramatical do problema, porque ela decide tudo. Muda é uma coisa que existe no chão e pode ser contada. Mura é uma relação entre medidas ao longo do tempo. Muri é uma comparação entre carga exigida e capacidade disponível.

Essa diferença de natureza explica por que tantos programas tratam só do primeiro. Contar coisa é fácil. Medir variação e comparar carga com capacidade exige dado organizado, e isso dá trabalho. O mesmo vício aparece em vários termos japoneses do lean, sempre em favor do mais concreto.

Os três Ms lado a lado

A tabela resume o que cada M é, como ele se manifesta no dia a dia, o que ele provoca adiante e qual é a contramedida principal.

MO que éComo apareceO que causaContramedida principal
MudaConsumo de recurso sem criação de valorEstoque parado, fila, retrabalho, deslocamentoCusto, prazo e ocupação de espaçoEliminação direta, kaizen de ponto
MuraIrregularidade de volume, mix ou ritmoPico e vale, lote grande, correria de fim de mêsMuri nos picos e muda nos valesNivelamento da produção e do pedido
MuriSobrecarga de pessoa ou de máquinaHora extra crônica, máquina sem parada programadaQuebra, defeito, acidente e rotatividadeTrabalho padronizado e dimensionamento de carga

Leia a coluna do meio de baixo para cima e a corrente aparece inteira. Mura causa muri. Muri causa muda. E o muda da ponta é o único dos três que costuma aparecer no relatório de perdas do mês.

Por que a Toyota nunca separou os três

Na formulação original do Sistema Toyota de Produção, muda mura muri aparecem juntos porque descrevem o mesmo sistema visto de três ângulos. Não é uma lista de três iniciativas. É um diagnóstico de três camadas.

A lógica é direta. A produção só flui se a carga for estável. Se a carga oscila, ou você sobrecarrega gente e equipamento nos picos, ou carrega capacidade ociosa nos vales. Nos dois casos o sistema fabrica desperdício para se defender da própria irregularidade.

Taiichi Ohno insistia que a eliminação de desperdício vinha depois da estabilidade, não antes. Um processo instável não tem desperdício mensurável, porque não existe padrão contra o qual medir a perda. Ele tem apenas variação.

Quem inverte a ordem e começa pela caça ao muda faz algo útil e insuficiente. Útil porque a lista dos oito ensina a ver. Insuficiente porque o que você viu vai se reconstituir assim que o próximo pico chegar.

Muda: o desperdício que se enxerga

Muda é toda atividade que consome tempo, dinheiro, espaço ou atenção e não aproxima o produto do que o cliente pediu. A definição clássica divide qualquer processo em três blocos: o que agrega valor, o que não agrega mas hoje é necessário, e o que não agrega e pode sair já.

O bloco do meio é o que confunde o iniciante. A inspeção final não agrega valor e o cliente não paga por ela. Mas tirar a inspeção antes de resolver a causa do defeito é irresponsabilidade. Esse muda é necessário até a causa ser tratada.

A proporção entre os três blocos costuma chocar quem mede pela primeira vez. Num mapa do fluxo de valor de manufatura discreta com lote, é comum encontrar menos de 1% do tempo total em atividade que transforma o produto. O resto é espera e movimento.

Esse número é a melhor propaganda do muda e também a melhor armadilha. Ele faz parecer que há 99% de ganho fácil na mesa. Na prática, boa parte daquela espera não existe por desatenção: ela existe para absorver mura.

Os oito desperdícios, na fábrica e no escritório

São sete na formulação de Ohno, mais o oitavo que a literatura ocidental acrescentou. A tabela traz cada um com um exemplo curto de manufatura e um de serviço, porque a mesma perda muda de roupa fora do chão de fábrica.

DesperdícioExemplo na manufaturaExemplo em serviço
SuperproduçãoInjetora roda 800 peças porque o molde já está montado e 500 esperam três semanasRelatório semanal enviado a 40 pessoas, das quais 6 abrem
EsperaMontador de ciclo 12 min parado 4 min porque o posto anterior leva 16Proposta parada dois dias na caixa de quem aprova
TransportePeça vai da usinagem ao depósito, à pintura e volta, somando 340 m por unidadeProcesso que passa por quatro setores antes de voltar a quem começou
Processamento excessivoLixar a face interna de uma tampa que fica escondida na montagemTrês assinaturas num pedido de compra de R$ 300
EstoqueQuatro semanas de cobertura de um item que troca de versão a cada seis mesesFila de 180 chamados abertos sem triagem
MovimentaçãoParafusadeira atrás do operador, que gira o tronco 600 vezes por turnoAnalista abrindo cinco sistemas para fechar um cadastro
DefeitoRefugo de 2,4% na solda, que vira retrabalho, atraso e segundo testeNota fiscal reemitida por erro de cadastro do cliente
Talento não utilizadoOperador que conhece a causa da quebra e nunca foi perguntadoAnalista sênior gastando meio dia colando dados em planilha

Um programa 5S derruba movimentação e boa parte da espera por busca. Já superprodução e estoque raramente cedem a arrumação, porque nascem de decisão de lote e de política comercial, não de bagunça no posto.

Mura: irregularidade de volume, de mix e de ritmo

Mura é a variação que o processo não precisaria ter. Ela aparece em três dimensões, e confundir uma com a outra leva a contramedida errada.

  • Volume: a quantidade total oscila entre semanas ou entre dias. Segunda vazia, quinta lotada.
  • Mix: o total é estável, mas a composição vira do avesso. Hoje 80% do produto A, amanhã 80% do produto B, com setup no meio.
  • Ritmo: o volume e o mix fecham, mas a chegada do trabalho é aos trancos. O lote de 300 entra de uma vez às 14h e trava a fila.

Mura de mix é o mais subestimado dos três, porque o gráfico de volume fica bonito. O gerente vê a linha estável no mês e não vê que a fábrica trocou de ferramenta nove vezes por turno para chegar lá.

A medida que revela mura é simples: pegue a mesma variável em uma série de períodos iguais e compare pico, vale e média. Se o pico é duas vezes a média, você tem mura de sobra para explicar quase todo o lead time do processo.

O mura que a própria empresa fabrica

Existe mura que vem do mercado e mura que a empresa produz sozinha. Confundir os dois é o erro que mais custa caro, porque o primeiro exige absorção e o segundo exige apenas parar de criar.

O caso clássico é o pico de fim de mês. A meta do comercial fecha no último dia útil. O vendedor segura pedido no começo do mês, desconta no fim para bater número, e a carteira chega concentrada nos últimos cinco dias. A fábrica recebe uma irregularidade que o cliente final nunca pediu.

A mesma fábrica então contrata hora extra na última semana, antecipa produção nas primeiras, erra previsão e acumula estoque. Tudo isso é muda puro. E nada disso nasceu na operação: nasceu na política de remuneração do comercial.

  • Meta mensal com corte no último dia útil cria pico previsível todo mês.
  • Desconto de fim de mês ensina o cliente a esperar o fim de mês.
  • Lote mínimo de pedido transforma demanda suave em demanda aos pulos.

Nenhum desses itens é resolvido no chão. Todos são decisões comerciais e de planejamento, e é por isso que o combate ao mura raramente cabe dentro de um projeto de melhoria do setor produtivo.

Oito semanas de demanda irregular: a conta

Considere uma célula com ritmo de 10 unidades por hora e jornada de 44 horas semanais. A capacidade em horário normal é de 440 unidades por semana. Com o limite legal de duas horas extras por dia, o teto sobe para 540 unidades.

A demanda de oito semanas soma 3.520 unidades, ou 440 por semana na média. Mas ela chega concentrada no fim de cada mês, com pico de 900 e vale de 260 unidades. A razão entre pico e vale é de 3,46 vezes. A fábrica produz contra o pedido e antecipa o mínimo necessário nas semanas anteriores.

SemanaDemanda (un)Produção (un)Hora extra (h)Estoque no fim (un)
128028000
23204200100
33804400160
4700540100
52604200160
63004400300
73804400360
8900540100
Total3.5203.52020-

Repare que as semanas 4 e 8 não conseguem atender o pedido no próprio período. Elas batem no teto de 540 e empurram 160 e 360 unidades para trás, o que aparece como estoque nas semanas anteriores. O pico de estoque chega a 360 unidades, quase uma semana inteira de produção parada.

A mesma demanda, nivelada

Agora suponha a mesma demanda total, 3.520 unidades, chegando a 440 por semana. Mudou apenas a forma como o pedido entra. A produção passa a ser igual à demanda toda semana.

IndicadorCenário irregularCenário niveladoDiferença
Demanda total em 8 semanas3.520 un3.520 unigual
Demanda por semana260 a 900 un440 un fixas-
Horas extras no período20 h0 h-20 h
Horas ociosas no período20 h0 h-20 h
Estoque de pico360 un0 un-360 un
Estoque médio135 un0 un-135 un
Capacidade de pico exigida540 un/sem440 un/sem-100 un/sem

Os dois cenários entregam exatamente as mesmas 3.520 unidades e consomem as mesmas 352 horas produtivas. A diferença é só de distribuição. Mesmo assim, o cenário irregular gasta 20 horas extras, desperdiça 20 horas ociosas e carrega 135 unidades de estoque médio.

Para atender o pico, a empresa precisa de 22,7% de capacidade instalada a mais do que a média exige. Esse excesso fica ocioso a maior parte do tempo e é o custo mais silencioso do mura.

Muri: sobrecarga de pessoa e de máquina

Muri é exigir de um recurso mais do que ele entrega em regime sustentado. A palavra-chave é regime. Qualquer pessoa ou equipamento suporta um pico; o problema é o pico que virou rotina.

No lado das pessoas, muri aparece como jornada estendida crônica, posto sem tempo de folga dentro do ciclo, tarefa que exige esforço físico acima do razoável e acúmulo de função sem redução de escopo. O sinal mais confiável é a hora extra que não cai mesmo em mês fraco.

No lado das máquinas, muri aparece como equipamento rodando sem a parada programada de manutenção, operando acima da velocidade de projeto, ou usado em aplicação para a qual não foi dimensionado. A curva de falhas responde com atraso, o que confunde a análise.

Há um terceiro tipo, menos citado e igualmente caro: a sobrecarga de sistema. Fila de aprovação com uma pessoa só, almoxarife único para três turnos. Todo gargalo permanente é muri institucionalizado.

O preço do muri: acidente, quebra e rotatividade

Muri é o M que cobra a conta na moeda mais cara. Enquanto muda custa dinheiro e mura custa previsibilidade, muri custa integridade física, vida útil de ativo e permanência de gente.

  • Segurança: fadiga degrada atenção e julgamento. A curva de acidentes sobe nas últimas horas do turno estendido e nos dias de pico, exatamente quando o muri está no máximo.
  • Qualidade: operador apressado pula etapa de verificação. O defeito que escapa no pico é o mesmo que o jidoka existe para barrar, mas a parada de linha é justamente o que ninguém quer no fim do mês.
  • Disponibilidade: máquina sem parada programada para de forma não programada. A manutenção corretiva custa mais, dura mais e chega na pior hora possível.
  • Rotatividade: gente sai de posto sobrecarregado. Cada saída leva embora conhecimento e traz uma curva de aprendizado com mais erro.

Repare que os quatro efeitos geram muda de volta. Acidente gera parada e retrabalho. Defeito gera refugo. Rotatividade gera erro de novato. O muri não aparece no relatório, mas o muda que ele produz aparece.

A corrente: mura gera muri, muri gera muda

Vale percorrer a cadeia inteira num exemplo único, porque é no encadeamento que a tese fica evidente. Volte à célula das oito semanas.

  1. A meta comercial fecha no último dia útil, então metade do pedido do mês chega nos últimos cinco dias. Nasce o mura de volume.
  2. Na semana de pico a célula precisa de 900 unidades e só entrega 540. Entram 10 horas extras e o time trabalha acima do ritmo padrão. Nasce o muri.
  3. Sob pressão, o operador pula a verificação intermediária e a manutenção adia a parada preventiva da prensa. O refugo sobe e a máquina quebra na semana seguinte.
  4. Para não repetir o aperto, o planejamento antecipa produção e acumula 360 unidades de estoque. Nasce o muda de estoque e de superprodução.
  5. O estoque esconde o problema de qualidade por duas semanas. Quando o defeito aparece, já existem 360 peças para retrabalhar. Muda de defeito, agora multiplicado.

Agora imagine um projeto que ataca só a etapa 4. O time faz um belo kaizen, corta o estoque de 360 para 120 e comemora. No mês seguinte a etapa 1 acontece de novo, e o estoque volta ou o atendimento cai. Nada foi resolvido, porque a etapa 1 nunca foi tocada.

Por que atacar muda isolado dá melhoria que não dura

A pergunta que separa melhoria durável de melhoria decorativa é esta: o desperdício que estou eliminando está ali por descuido ou está ali cumprindo uma função?

Estoque intermediário, folga de tempo no posto, capacidade extra e retrabalho programado são, na maioria das vezes, amortecedores. Eles existem porque alguém precisou proteger o fluxo de uma irregularidade ou de uma sobrecarga. São muda, e são muda com função.

Quando você remove o amortecedor sem remover o que ele amortecia, duas coisas podem acontecer. Ou o sistema rompe, com atraso de entrega e falta na linha, e o estoque volta em uma semana. Ou o time reconstrói o amortecedor em outro lugar, fora da vista, e o indicador melhora sem que nada tenha mudado.

Isso não significa que caçar muda seja inútil. Significa que a ordem importa. Primeiro identifique se aquele muda protege contra mura ou muri. Se protege, trate a causa antes. Se não protege, elimine hoje mesmo, e as ferramentas do lean manufacturing dão conta sozinhas.

Nivelamento: a contramedida do mura

A contramedida clássica do mura é o heijunka, ou nivelamento. A ideia é distribuir volume e mix ao longo do período em vez de produzir na ordem em que o pedido chega. Na prática, o nivelamento acontece em três frentes, e só a terceira é da fábrica.

  1. Nivelar a entrada: mudar meta, comissão e política de desconto para que o pedido não se concentre no fim do mês. É a frente mais barata e a mais evitada.
  2. Nivelar o programa: converter a carteira em um programa diário estável, com horizonte congelado curto, em vez de repassar a oscilação direto para o chão.
  3. Nivelar a execução: reduzir tamanho de lote e tempo de setup até que produzir o mix diário completo seja viável, e puxar com kanban em vez de empurrar por ordem.

O nivelamento não elimina a variação do mercado. Ele decide onde essa variação será absorvida. Absorvida num pequeno estoque de produto acabado dimensionado de propósito, ela custa pouco. Absorvida em hora extra e correria, custa muito mais.

O indicador que guia esse trabalho é o takt time, porque ele traduz a demanda média em ritmo. Se o ritmo real oscila muito em torno do takt, existe mura, e nenhuma lista de desperdícios vai explicar por quê.

Trabalho padronizado: a contramedida do muri

Muri é, no fundo, um problema de dimensionamento. A carga atribuída ao recurso é maior do que a capacidade sustentável dele. A contramedida é tornar essa carga visível, comparável e negociável, e é exatamente isso que o trabalho padronizado faz.

O trabalho padronizado define três coisas: o tempo de ciclo de cada elemento, a sequência de execução e o estoque padrão em processo. Com isso na mão, a carga do posto deixa de ser opinião. Você soma os tempos, compara com o takt e vê quanto falta ou sobra.

Um posto com 58 segundos de conteúdo de trabalho para um takt de 52 segundos está em muri, e o número prova. Sem o padrão, esse mesmo posto aparece apenas como o lugar onde o pessoal reclama e o defeito acontece.

Para máquinas, a lógica é a mesma com outro nome. Defina a capacidade nominal, subtraia a parada programada de manutenção, os setups previstos e a perda de velocidade aceita. O que sobra é a capacidade real. Programar acima disso é muri, mesmo que a planilha feche.

Como enxergar cada M no gemba

Os três Ms se enxergam de maneiras diferentes, e é aqui que a maioria das caminhadas falha. Ir ao gemba procurando desperdício é fácil. Procurar irregularidade e sobrecarga exige outro roteiro.

  • Muda se vê parado. Fique num ponto fixo por 20 minutos e conte o que não transforma o produto: espera, deslocamento, fila, peça encostada.
  • Mura se vê repetido. Uma visita não mostra irregularidade. Vá ao mesmo posto na segunda de manhã, na quarta à tarde e no último dia do mês, e compare.
  • Muri se vê perguntando. Pergunte ao operador o que ele faz quando atrasa, o que deixa de fazer quando aperta e quantas vezes por semana isso acontece. A resposta desenha a sobrecarga.

Um gemba walk estruturado para os três Ms troca a pergunta padrão. Em vez de perguntar o que está sobrando, pergunte o que oscila, quem está absorvendo a oscilação e qual amortecedor foi criado para isso.

Feche a caminhada olhando para o quadro de programação e para o registro de hora extra. Eles contam a história de mura e de muri que o chão levou uma hora para sugerir.

Os indicadores e o erro mais comum de cada M

Cada M tem indicadores próprios que o denunciam. Usar o indicador errado é a forma mais comum de declarar vitória sem ter ganho nada.

  • Muda: razão entre tempo de agregação de valor e lead time total, giro de estoque, índice de refugo e retrabalho, metros percorridos por unidade.
  • Mura: razão entre pico e média da demanda, desvio da produção diária em torno do takt, número de trocas de setup por turno, perfil de entrada de pedidos por dia do mês.
  • Muri: horas extras por pessoa, ocupação do posto sobre o takt, disponibilidade e tempo médio entre falhas, taxa de absenteísmo e rotatividade por área.

O erro mais comum de cada um também é bem definido. Em muda, é confundir atividade necessária que não agrega valor com desperdício puro, e cortar a inspeção antes de resolver o defeito.

Em mura, é tratar como variação de mercado uma irregularidade que a própria empresa criou, e responder com mais estoque em vez de mudar a política que gera o pico.

Em muri, é enxergar sobrecarga apenas como falta de gente. Quase sempre há também desenho de trabalho ruim e carga mal distribuída entre postos, que a contratação encobre.

Quem mede os três e corrige os três na ordem certa descobre uma coisa desconfortável e libertadora: metade do muda da sua operação vai embora sozinha quando mura e muri caem. Esse é o ponto inteiro de tratar muda mura muri como um problema só.

Perguntas frequentes

O que significa muda, mura e muri?
São as três perdas que o Sistema Toyota de Produção combate juntas. Muda é desperdício, ou seja, atividade que consome recurso sem criar valor. Mura é irregularidade de volume, de mix ou de ritmo. Muri é sobrecarga de pessoa ou de máquina além do limite sustentável. As três palavras vêm do japonês industrial comum, não de jargão criado pela Toyota.
Qual é a diferença entre muda, mura e muri na prática?
Muda é uma coisa que existe no processo e pode ser contada: fila, estoque, retrabalho. Mura é uma relação entre medidas ao longo do tempo, então só aparece numa série de dados. Muri é uma comparação entre a carga exigida e a capacidade real do recurso. Por isso muda é fácil de ver numa visita e os outros dois não são.
Por que mura e muri são menos conhecidos que muda no Brasil?
Porque a lista dos oito desperdícios é concreta, cabe num cartaz e permite exemplo imediato. Mura e muri não são categorias de coisa, e sim propriedades do sistema ao longo do tempo. Enxergá-los exige série de dados e comparação entre carga e capacidade. O treinamento típico parou no que era mais fácil de ensinar e de demonstrar.
Mura e muri realmente causam muda?
Na maior parte dos casos, sim. A irregularidade obriga a empresa a criar amortecedores: estoque de antecipação, folga de capacidade, hora extra e retrabalho. Todos esses amortecedores são desperdício. A sobrecarga, por sua vez, gera defeito, quebra e acidente, que também viram desperdício. Muda é, com frequência, o sintoma visível dos outros dois.
Por que o kaizen que corta desperdício não se sustenta?
Porque boa parte do desperdício cortado cumpria uma função de proteção. Quando você remove o amortecedor sem remover a irregularidade ou a sobrecarga que ele amortecia, ou o sistema rompe e o desperdício volta, ou o time reconstrói o amortecedor em outro lugar. O indicador melhora e a condição de fundo continua exatamente igual.
Quais são os oito desperdícios do lean?
Superprodução, espera, transporte, processamento excessivo, estoque, movimentação e defeito são os sete de Taiichi Ohno. O oitavo, talento não utilizado, foi acrescentado pela literatura ocidental e trata do conhecimento de quem executa a tarefa e nunca é consultado. Todos os oito aparecem tanto em manufatura quanto em processos administrativos e de serviço.
Como a própria empresa cria mura?
O caso mais comum é a meta comercial que fecha no último dia útil do mês. O vendedor segura pedido no começo e desconta no fim para bater número, e a carteira chega concentrada. Lote mínimo de pedido, programação congelada tarde e campanha de desconto sazonal produzem o mesmo efeito. Nenhuma dessas causas está no chão de fábrica.
O que é nivelamento e como ele ataca o mura?
Nivelamento, ou heijunka, é distribuir volume e mix ao longo do período em vez de produzir na ordem em que o pedido chega. Ele acontece em três frentes: nivelar a entrada de pedidos, nivelar o programa de produção e nivelar a execução com lote menor e setup mais rápido. O nivelamento decide onde a variação será absorvida.
Como o trabalho padronizado combate o muri?
O trabalho padronizado define tempo de ciclo, sequência de execução e estoque padrão em processo. Com esses três dados, a carga do posto deixa de ser opinião e vira número comparável ao takt time. Um posto com 58 segundos de conteúdo para um takt de 52 segundos está em sobrecarga, e o padrão prova isso sem depender de percepção.
Quais indicadores denunciam cada um dos três Ms?
Para muda, use a razão entre tempo de agregação de valor e lead time, giro de estoque e índice de refugo. Para mura, use a razão entre pico e média da demanda, o desvio da produção diária em torno do takt e o perfil de entrada de pedidos por dia do mês. Para muri, use horas extras por pessoa, ocupação sobre o takt e rotatividade.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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