Finanças & Negócios

Design thinking na vida pessoal: o aeroporto, a mesa de trabalho e o plástico

Mariangela veio das artes, perdeu a galeria na crise de 2008 e se reinventou com design thinking em Stanford. O método que ela usa não é só para projetos.

Thiago Coutinho
Publicado em 20 de out de 2026  ·  Atualizado em 20 de out de 2026  ·  13 min de leitura
Capa do artigo Design thinking na vida pessoal: como aplicar, com a arte do episódio 103 do VoittoCast e a foto do convidado

Mariangela Smania é carioca e formada em educação artística. Morou na Inglaterra, na Alemanha e na Espanha antes de chegar ao Vale do Silício em 2006, onde expôs o próprio trabalho e mantinha representação em galeria — até a crise de 2008 fechar o mercado de arte da região. Reinventou-se fazendo um curso de design thinking em Stanford, criou uma jornada de inovação para grupos de empresários brasileiros e fundou uma empresa de experiências de transformação. Nesta conversa com André Bianchi, ela faz algo que a maior parte do material sobre o método não faz: tira o design thinking da sala de projeto.

O que significa design thinking na vida pessoal

A passagem mais original do episódio aparece no fim, quando ela explica o que faz quando não está num projeto:

"Se a gente começar individualmente, você dizer: 'poxa, hoje eu estou indo para o trabalho — como é que eu posso fazer o mesmo trabalho mais eficiente? Como é que eu posso colaborar mais com as outras pessoas? Como é que eu posso aprender mais com outros? Como é que eu posso estar mais aberto?' Quando a pessoa começa a pensar dessa forma, ela está usando design thinking — só que é design your life. Ou seja, você aplicar o design thinking para a sua própria vida." — Mariangela Smania

E a correção de expectativa que vem em seguida:

"Então não está assim: 'não sei, agora vamos usar o design thinking'. Não: o design thinking está em todos os momentos. É pensar como é que eu posso fazer melhor."

Os três exemplos que ela dá do próprio dia:

Onde A pergunta que ela se faz
No aeroporto "como é que eu poderia comunicar às pessoas onde as malas estão"
Na mesa de trabalho "como é que eu posso fazer a minha mesa ser mais eficiente, o meu movimentar do que eu preciso para trabalhar de uma forma mais eficiente"
Em casa "como é que eu posso fazer meus filhos, a minha relação com a minha família" — "é sempre questionar e buscar soluções"

E o exemplo que ela tomou como projeto de verdade: o plástico.

"Eu estou muito focada no meio ambiente e comecei a pensar como é que é o uso do plástico. Se você colocar e pensar o quanto a gente usa plástico — olha as oportunidades, como é que a gente pode eliminar o uso do plástico na nossa vida. Então eu estou começando a comprar produtos em que não tem plástico." — Mariangela Smania

A tese por trás dos quatro exemplos é uma redistribuição de responsabilidade:

"Cada um de nós dentro da empresa temos a responsabilidade de trazer inovação, e não colocar o peso todo para a liderança."

Por que começar pelo problema, e não pelo estágio da empresa

A primeira pergunta da audiência foi se design thinking serve para quem está começando ou exige empresa mais madura. A resposta descarta a premissa:

"A partir do momento que você começa a olhar, você vê que existem problemas ao seu redor. Então pode ser no início da sua empresa, [em] processo posterior, pode ser — mas é sempre tentando buscar problemas e tentando resolvê-los. O design thinking é uma metodologia que ajuda nesse processo." — Mariangela Smania

E o corolário, dado sobre o contexto de crise:

"Onde tem problema, onde tem crise [...] quanto maior o problema, mais possibilidades que a gente tem. Então, se a gente começar a olhar dessa forma, a gente vai ver que momento de crise, na realidade, pode ser e é um momento de aceleração, de inovação."

Ela fala disso com autoridade de quem passou por isso: a crise de 2008 fechou cinco das seis galerias de arte com que convivia, e foi o que a levou ao método.

"Em vez de entrar em depressão, que eu poderia — porque estava uma crise danada [...] —, eu tive que me reinventar. E aí foi quando eu vi o que é que o Vale tinha para oferecer."

Como estruturar uma reunião de ideação sem que ela se solte

Esta é a pergunta mais prática do episódio, e a resposta tem uma mecânica.

Primeiro: aberto e focado são dois momentos, não um estilo

"Durante o processo do design thinking, tem momentos que a gente deve estar extremamente focado, mas tem momentos também que a gente deve estar aberto. Por exemplo, quando a gente está usando a empatia — o primeiro passo é você entender quem é o seu cliente — a gente tem que estar aberto a escutar, fazer perguntas bem abertas para que a pessoa possa se soltar." — Mariangela Smania

E a parte que resolve o problema de reunião solta:

"Sim, você tem que estruturar de forma de entender a metodologia, mas também entender que tem momentos que você não pode ficar mais delirando: vai ter que focar realmente. E esse é um respeito [...] não é nada pessoal, é um momento só que a gente tem que dizer: olha, agora não é o momento correto. Isso não invalida que a gente vai ter outros momentos em que a gente possa ser aberto novamente."

Segundo: as regras entram no começo, não no meio

"Existem regras que a gente tem que colocar já no início, para que justamente não fique uma coisa pessoal, e sim como sendo estabelecido como um processo — faz parte do processo." — Mariangela Smania

Terceiro: escrever antes de falar

"Quando a gente fala 'olha, agora é hora da gente [fazer] brain writing' — quer dizer, você chegar e colocar e se concentrar. Nessa hora você tem que respeitar que é um momento individual de cada um." — Mariangela Smania

Quarto: dar voz, um por vez

E aqui está o custo de não fazer isso:

"Às vezes a pessoa é mais tímida, ela tem muitas ideias — mas se a gente não souber trabalhar em grupo e saber respeitar e dar voz para cada um, muitas excelentes ideias podem estar perdidas, justamente porque uma pessoa é líder no sentido de já tomar conta do pedaço e não respeitar o momento de cada um." — Mariangela Smania

As duas competências de quem conduz

Perguntada quais habilidades o líder precisa ter para conduzir design thinking:

1. Abertura — e o que a mata

"Uma coisa que é muito comum da gente, como ser humano — não é privilégio nenhum de brasileiro —, é: quando uma pessoa abre a boca e dá uma ideia, a reação da gente é sempre de crítica." — Mariangela Smania

E o erro que ela aponta como fatal:

"Uma das coisas que eu sinto que prejudica muito é se a pessoa já vai com [um problema] definido qual é o problema e qual é a resposta para o problema. Aí realmente estraga todo o processo."

Note o que isso implica: chegar com a solução pronta não é adiantar trabalho — é cancelar o método, porque a etapa de empatia deixa de ter função.

"Basta uma crítica, um olhar, uma maneira de falar — mas isso: 'poxa, cara, fica calado', ou qualquer coisa assim — isso estraga."

2. Multidisciplinaridade

"Líderes com áreas diferentes, você vê que pensam o mesmo problema de formas diferentes, e todas elas vão colaborar [para que] a solução venha a ser mais completa, olhando de vários ângulos." — Mariangela Smania

E a condição que ela acrescenta quando a pergunta vira resistência interna à inovação:

"Você quer um time com diversidade, mas com inclusão. Então você, como líder, você tem que ter essa responsabilidade: não basta ter pessoas [de] várias raças, você tem que trazer pessoas que possam trabalhar juntas também. E você, como líder, nada mais é do que um facilitador para que isso ocorra." — Mariangela Smania

Por que a arte foi vantagem, e não desvio

A pergunta da audiência era sobre a dificuldade de ligar formação em artes a empreendedorismo. A resposta inverte:

"Eu poderia dizer: 'poxa, por que eu, vindo de arte, eu tenho que estar focada na arte?' Só que as pessoas aqui são curiosas, elas te dão oportunidades, desde que você mostre que você tenha conteúdo para dar. Então o que eu achei fantástico é que o fato de eu vir de arte, pelo contrário, é muito valorizado — porque eu era diferente dos outros. Então esse olhar diferente, eu pude usar como vantagem." — Mariangela Smania

Com uma observação sobre o Brasil que ela faz de passagem:

"Geralmente é sempre 'onde é que você estudou', currículo. No Brasil, as pessoas às vezes estão muito focadas e esquecem que o potencial, às vezes, da pessoa é no fazer acontecer."

A ponte conceitual entre arte e startup

Perguntada que competência da arte ela levou para o empreendedorismo, ela nomeia uma só — abertura — e a explica por um paralelo que funciona:

"O artista, quando cria uma nova expressão [...] se você vai a um museu de arte, você vai ver que tem fases: o impressionismo, o modernismo, o abstrato, o cubismo, o dadaísmo, o pop art [...] você vê que é a introdução de algo novo, um olhar diferente. Então tudo que é diferente é criticado. Isso é também do ser humano. Então são rejeitados." — Mariangela Smania

E o fecho do paralelo:

"E a startup também é assim. Quem é que não olhou para um Airbnb e falou: 'ah, isso aí, imagina' — se você traz e diz 'olha, vou botar um colchão de ar na casa de alguém e cobrar por isso', se você fizer um pitch para uma pessoa que não está aberta, ela vai dizer: isso aí não vai dar certo nunca."

E o que a abertura faz no lugar da rejeição:

"Essa abertura é que faz com que você comece: 'não, mas fala mais — existe mercado para isso? Como é que a gente pode fazer?'"

Sobre o lado de quem empreende:

"Quando as pessoas reagem 'ah, isso aí não dá certo' [...] você vai ver até como um estímulo. [...] Então isso requer uma força, e você vai ouvir vários nãos até que você vai encaixando e vai entendendo no seu processo de crescimento."

E a honestidade sobre o próprio pitch, que é a melhor prova da tese:

"Para convencer os grupos de que a Mariangela era importante de estar no programa, também foi um desafio [...] Então eu tenho que fazer o meu pitch também. E eu confesso que, ao longo [do tempo], eu fui pivotando, eu fui melhorando, eu fui acrescentando, eu fui procurando saber como é que eu podia me aproximar de uma forma que tivesse uma proposta de valor maior. Toda vez que eu fazia o programa, eu tentava me superar." — Mariangela Smania

O papel da universidade: fazer a engenharia conversar com o mercado

Perguntada sobre o peso de Stanford no ecossistema, ela dá uma resposta que não é sobre prestígio:

"O que Berkeley e Stanford percebem, que às vezes não acontece de uma forma tão harmônica, é a engenharia, por exemplo, conversar com o pessoal de marketing, de administração, de gestão. [...] O engenheiro pensa diferente de uma pessoa que está pensando já no mercado. E por que não juntar?" — Mariangela Smania

E a função que o método cumpre ali:

"O design thinking é também uma forma de comunicação — de você ter produtos que poderiam [ficar], pesquisas que poderiam estar engavetadas, mas que elas tenham a possibilidade de virar um produto ou um serviço."

"Quando vocês veem empresas incríveis que saíram de Stanford, nada mais é do que essas cabeças todas reunidas e com um propósito de inovação."

As três barreiras do empreendedor brasileiro

Perguntada o que mais via travar os brasileiros que recebia:

1. Mercado interno confortável

"Primeiro: se sentem às vezes muito confortáveis [porque] o Brasil é um mercado já muito grande. Então, ao criar uma empresa, eles às vezes pensam só no mercado brasileiro. Ao passo que uma startup já nasce no embrião de pensamento global. E essa diferença, por si só, é enorme [...] você já nascer com esse pensamento de um mercado pequeno, que parece ser grande." — Mariangela Smania

2. Modismo em vez de identidade

"Muito de modismo — quer dizer, você ia muito com a onda, e não [com] a sua identidade. [...] Tem essa mentalidade de querer ser aceito pelos outros, mais do que você ser o precursor de algo novo. Ou seja, aquele medo — que é normal, ter medo é normal, mas quando você se tolhe em função do que os outros vão falar, aí já passa a ser um problema." — Mariangela Smania

3. Idioma

"Aprender inglês — eu via que às vezes era uma barreira muito grande, porque muito do conteúdo [...] a gente abre um mundo quando você começa a falar outras línguas." — Mariangela Smania

E o exemplo concreto que ela dá, que é de produto e não de currículo:

"Se você faz um website que só tem em português, na hora de você mostrar o trabalho para o mundo, você já está reduzindo demais — você está só para os países ou para pessoas que falem português. Então essa maneira de pensar, já por si só, já te limita."

Design thinking na vida pessoal começa com uma pergunta

O apresentador propõe o fecho e ela confirma: a pergunta a levar do episódio é "como você pode fazer algo melhor para ter um resultado diferente já a partir de amanhã?"

"Isso é um dever de casa que tem que estar intrínseco já [...] que a gente começa a usar o tempo todo e exercitar." — Mariangela Smania

Quem é Mariangela Smania

  • Carioca, formada em educação artística — "o meu background é todo de arte"
  • Morou na Inglaterra, na Alemanha e na Espanha antes de ir para os Estados Unidos
  • Chegou ao Vale do Silício em 2006; fez exposições e mantinha representação em galeria na região de São Francisco
  • Reinventou-se depois da crise de 2008, quando o mercado de arte local encolheu
  • Fez curso de design thinking em Stanford e, mais tarde, um curso de criatividade e inovação na mesma universidade
  • Criou uma jornada de inovação para grupos de empresários brasileiros, conectando arte, história e o ecossistema do Vale
  • Fundadora de uma empresa de experiências de transformação, com workshops, curso de criatividade e inovação e mentorias

O entrevistador é André Bianchi, Diretor Internacional de Negócios de uma empresa de imersão internacional de negócios, apresentador do quadro Mundo Empreendedor do VoittoCast. A moderação das perguntas da audiência é de Bárbara, Head de Conteúdos e Inovações na Voitto.

Ouvir o episódio

VoittoCast #103 — Design thinking e a arte da inovação empreendedora Quadro: Mundo Empreendedor — Expedição USA, com André Bianchi Convidada: Mariangela Smania

Ouvir no Spotify

Para aplicar

Perguntas frequentes

O que é usar design thinking na vida pessoal?
É aplicar a mesma pergunta do método — como isso pode ser feito melhor? — fora de um projeto de trabalho. A convidada dá exemplos do próprio dia: a sinalização das esteiras de bagagem no aeroporto, a disposição da mesa de trabalho, a relação com a família e a redução do próprio consumo de plástico.
Precisa de uma empresa madura para aplicar design thinking?
Não. Segundo ela, o critério não é o estágio da empresa, e sim a existência de um problema ao redor. Pode ser no início do negócio ou depois.
Design thinking funciona em crise?
É onde ela defende que funciona melhor: quanto maior o problema, mais possibilidades. Ela própria chegou ao método depois da crise de 2008, que fechou o mercado de arte em que atuava.
Como estruturar uma reunião de ideação para não ficar solta?
Separando os momentos. Há etapas em que o grupo precisa estar aberto — como a de empatia, com perguntas amplas — e etapas em que precisa estar focado. As regras entram no início, para que o pedido de foco não soe pessoal, e não no meio da conversa.
O que é brain writing?
O momento individual de escrever as próprias ideias antes de falar. A convidada o usa como etapa separada, justamente para que quem tem mais facilidade de falar não ocupe o espaço de quem tem mais ideias e menos voz.
Qual é o custo de não dar voz a todos?
Perder ideias. A observação dela é específica: a pessoa mais tímida pode ter muitas ideias, e elas se perdem quando alguém assume o comando da conversa e não respeita o momento de cada um.
Quais competências o líder de design thinking precisa ter?
Abertura e multidisciplinaridade. Abertura no sentido estrito de suspender a crítica, inclusive diante de ideias que parecem absurdas — e, principalmente, de não chegar com o problema e a resposta já definidos, o que ela diz estragar o processo inteiro.
Qual é o papel do líder no processo?
Facilitador. Ela acrescenta que diversidade sem inclusão não produz o efeito: não basta a equipe ser diversa, é preciso que as pessoas consigam trabalhar juntas, e isso é responsabilidade de quem conduz.
Por que uma formação em artes ajuda a empreender?
Pela tolerância ao que é novo. O paralelo que ela faz: cada movimento artístico — impressionismo, cubismo, dadaísmo, pop art — foi criticado e rejeitado por ser diferente, e uma startup passa pelo mesmo. Quem está aberto pergunta "existe mercado para isso?" em vez de descartar.
Quais barreiras ela mais via em empreendedores brasileiros?
Três: pensar só no mercado interno, enquanto uma startup nasce com ambição global; seguir modismo em vez de identidade própria, por medo do julgamento alheio; e a limitação de idioma, com o exemplo do site publicado apenas em português.
Qual é o papel da universidade nesse ecossistema?
Fazer áreas diferentes conversarem. Na leitura dela, o valor de Stanford e de Berkeley está em colocar engenharia, gestão e marketing no mesmo problema — e o design thinking funciona ali como linguagem comum, capaz de tirar pesquisa da gaveta e transformá-la em produto ou serviço.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

Veja também