Mineração urbana: por que a sucata eletrônica é uma mina e onde ela não compensa
Uma pesquisadora do Centro de Tecnologia Mineral explica quanto ouro sai de uma tonelada de placas, por que recuperar nióbio não vale a pena e como um cold spot vira hot spot.
Mineração urbana é recuperar materiais e minerais de produtos pós-consumo, como placas de circuito impresso, lâmpadas e chapas de carros no fim da vida útil, em vez de extraí-los da natureza. Também se chama mineração secundária. O campo é recente, e a pergunta que ele responde é prática: onde está o material, quanto rende e quando a conta fecha.
As respostas aqui vêm de uma conversa do VoittoCast, no quadro Leading the Supply Chain, conduzida por Henrique Corrêa, professor de gestão de operações e cadeias de suprimento na Crummer Graduate School of Business, no Rollins College. A convidada é bióloga pela UFRJ, mestre e doutora em engenharia de produção pela mesma universidade, com pós-doutorado na USP. Foi pesquisadora titular da Fundação Joaquim Nabuco e hoje pesquisa no CETEM, o Centro de Tecnologia Mineral. Os dois são coautores de um livro sobre sistemas de logística reversa.
O episódio foi gravado em 2021, e os números de mercado que ela cita são daquele momento. O raciocínio, que é o que interessa a quem gere uma cadeia de suprimentos, não envelheceu: a mina urbana só compensa quando o material chega, chega separado e sai com a qualidade de que a indústria precisa.
O que é mineração urbana
Economia circular e logística reversa são conceitos de duas ou três décadas, lembra a convidada. A mineração urbana é bem mais nova: os principais artigos sobre o tema têm menos de dez anos. O que ela propõe é tratar o produto descartado como fonte de matéria-prima para a cadeia produtiva.
Ela faz questão de um detalhe de vocabulário. O material que chega não é chamado de resíduo, e sim de pós-consumo, porque a intenção é chegar ao nível de recuperação de materiais. É a diferença entre ver um problema a descartar e ver um estoque a explorar.
A motivação, nos países que investem nisso, é estratégica. Quem não tem a jazida quer autonomia e não quer depender da extração de outros países, e por isso busca a mineração urbana como caminho para a autossuficiência.
Quanto ouro sai de uma tonelada de sucata eletrônica
Para tirar a conversa do academicismo, a pesquisadora usa o exemplo do ouro, que é o que mais chama atenção. “Eu posso minerar ouro a partir de placa de circuito impresso pós-consumo”, diz ela, e o mesmo vale para processadores e muitos outros minerais.
O número que ela dá é este: “Quando eu vou extrair de uma tonelada de sucata eletrônica, dependendo da composição, eu consigo chegar a 100, 300 gramas de ouro”. Na lavra convencional, o teor de ouro do minério se conta em poucos gramas por tonelada, e por isso a sucata eletrônica é, em concentração, uma mina muito mais rica.
Há uma segunda vantagem, menos óbvia. Na mina, a incerteza está no teor do corpo mineral. Na mineração urbana, ela fica concentrada no começo, na coleta. Depois que o material está acondicionado no pátio, a previsão melhora muito: “se eu sei a tonelada, a minha carga lá, eu sei quanto que eu vou extrair”. Sabendo marca, modelo e peso, dá para projetar o rendimento de ferro, alumínio, ouro e prata.
Onde a mineração urbana entra no pós-consumo
A convidada parte da comparação entre dois modelos. A economia linear é extrair o recurso, produzir e descartar. A economia circular trata da vida depois do descarte, e aí entra uma distinção que ela marca: se o produto não atende mais o dono, mas ainda funciona e segue na cadeia, isso não é mais logística reversa. “isso a gente sobe um degrau, isso é economia circular”.
Dentro desse degrau existe uma ordem. Primeiro o reuso, quando o equipamento ainda serve a alguém, com remanufatura e recondicionamento. Depois, as peças e os componentes que ainda funcionam e voltam à cadeia produtiva. Só no fim vem a mineração urbana, que extrai os materiais do que sobrou.
A ordem tem consequência para quem gere a cadeia. Triturar um equipamento que ainda servia para reuso é jogar valor fora antes de chegar à mina. A mineração urbana compensa mais quando recebe o que de fato já não tem outro uso.
Logística reversa: da qualidade ao consumidor
A origem da logística reversa é menos ambiental do que se imagina. Ela remonta à década de 70 e “começou como Green Logistics, esse foi o termo mãe”, mas derivou do movimento da qualidade: o produto fora de conformidade precisava voltar, e alguém tinha de decidir como, a que custo e para onde. A camada de sustentabilidade, com consumo de combustível, rotas e emissões, veio depois.
Quem recebia o produto de volta fazia isso de forma compartimentada, sem saber direito o que fazer com ele: reinserir na cadeia, desmontar e aproveitar peças, triturar e virar insumo ou mandar para aterro industrial. As competências foram surgindo no caminho. “Enquanto o trem estava se locomovendo, os vagões foram se juntando”.
Hoje, o maior obstáculo está do lado de fora da empresa. Perguntada sobre o desafio principal, ela resume: “o grande desafio da logística reversa é a informação chegar ao consumidor”. A cadeia só começa quando alguém descarta, e esse cliente não tem a necessidade que a logística tradicional atende. “Essa necessidade não existe no cliente da logística reversa”.
A outra diferença é a incerteza. Na cadeia direta, o comprador liga para o fornecedor e agenda produto, quantidade e dia. “Logística reversa, alto grau de incerteza, eu não consigo agendar”: não se sabe o que vai chegar, quando nem em que estado. Para a mineração urbana, é essa ponta incerta que define o volume de matéria-prima.
O caso do nióbio: quando não compensa recuperar
O exemplo mais útil do episódio é um resultado negativo. Num projeto com a comunidade europeia, o Diálogos Setoriais, a equipe dela estudou como extrair nióbio de chapas automotivas de carros no fim da vida útil. A pergunta parece estranha num país que, nas palavras dela, concentra em torno de 95% das reservas mundiais do mineral. A razão era o resto do mundo, que quer fugir da dependência.
A recuperação é possível, e a metodologia serviria em qualquer país. O problema apareceu na qualidade. O processo físico-químico adicional de extração compromete o nióbio, e o resultado não é upcycling, é downcycling: o material sai, mas não serve mais ao uso nobre pretendido. A conclusão dela é direta: “é melhor extrair dos recursos naturais”.
A lição é de método. A mineração urbana não é melhor por princípio. Antes de investir numa rota, a pergunta é se o material recuperado mantém a qualidade e se existe uma fonte natural abundante e acessível que torne a recuperação dispensável numa rota de mineração urbana.
Onde a mineração urbana compensa: antimônio, LED e fósforo
O mesmo raciocínio vira do avesso quando o recurso é escasso. “Mas e outros que nós não temos?”, pergunta ela. O antimônio, demandado pela cadeia de tecnologia da informação, tem esgotamento estimado em 30 a 50 anos, um horizonte curto para um recurso mineral. Para ele, extrair do pós-consumo é a ideia.
As lâmpadas LED são outra frente. Ainda não existe um processo corrente de reciclagem delas no mundo, só soluções pontuais e rotas em desenvolvimento, e uma dessas rotas está em estudo no grupo dela, para recuperar elementos de terras raras, ouro e prata.
A mais inesperada é a lâmpada fluorescente. O pó branco de dentro dela é fosfórico, e o fósforo pode voltar para a agricultura, na cadeia de fertilizantes. Potássio, fósforo e nitrogênio são insumos que o Brasil importa em grande quantidade, e por isso essa rota de mineração urbana liga duas cadeias que normalmente não se falam.
Cold spot e hot spot: o caso dos cabos enterrados
Para explicar o que é uma mina urbana, a convidada conta um caso da literatura, de um país europeu, nos anos 2000. Sai mais barato instalar fiação nova do que procurar o defeito de uma antiga enterrada, e assim vários pontos de fornecimento foram desativados. Os cabos de cobre ficaram no subsolo por muito tempo.
A primeira estimativa dizia que desenterrar esses cold spots daria um lucro fantástico. Mas “esqueceram de colocar na conta, isso é importante da reversa, o custo para escavar”. Com a escavação no cálculo, apareceu o valor real. A virada veio de um doutorando: se já vai haver manutenção de esgoto ou de outra fiação no lugar, o acesso ao cobre sai de graça. “então esse cold spot ele virou um hot spot”.
A pesquisa dela usa o termo no Brasil, com uma diferença. Aqui, o potencial da mineração urbana “não está mais enterrado, ele está em galpões”: em associações e cooperativas de catadores, em galpões de reciclagem e em empresas de médio e grande porte. O ensinamento para quem analisa viabilidade é o do custo de acesso, que pesa tanto quanto o teor.
O mapa das minas urbanas no Brasil
Saber que um processo tem 98% de eficiência de recuperação em laboratório não basta, diz ela, se não se sabe onde está o material, quando ele volta à cadeia, em que volume e de que tipo. Foi para isso que o grupo dela criou o projeto DATARE, de mapeamento das minas urbanas de eletroeletrônicos.
O levantamento passou de 350 empresas, e ela corrige a leitura apressada: não são 350 recicladores, é uma cadeia de suprimentos. Há quem faça recebimento e desmontagem, quem faça triagem, quem faça tudo isso e a reciclagem e quem só faça reuso e recondicionamento. Das 350, as associações e cooperativas foram estimadas em apenas 12%; o resto são empresas de pequeno, médio e grande porte.
O mapeamento esbarrou num problema de vocabulário. Perguntadas sobre que etapa da cadeia atendem, as empresas não sabem dizer, e confundem cliente com fornecedor, porque o fluxo é reverso: “quem hoje é o meu cliente, amanhã é o meu fornecedor”. Para quem vem do supply chain tradicional, é a primeira coisa a desaprender.
O centro também publica um manual de destinação de resíduos eletroeletrônicos, na terceira edição na época da gravação. A equipe faz uma triagem de documentação, legislação e emissões, e só 20 a 30% das empresas levantadas entram. “É quase que uma mini certificação”. As empresas publicadas relatam aumento na taxa de coleta, e em troca fornecem dados para a pesquisa.
O que a lei exige e quanto custa transportar
O marco é a Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, formada pela lei e pelo decreto, com outros três decretos depois. A cadeia de eletroeletrônicos foi a última a ser estruturada: o Decreto 10.240, de fevereiro de 2020, define o que são esses produtos e o sistema de logística reversa deles. O modelo brasileiro se inspirou no europeu, com os take-back systems, os sistemas de retorno.
O cronograma descrito no episódio começa em 2020, com a primeira meta valendo em 2021: recolher 1% do que foi colocado no mercado no ano anterior. A meta sobe por escala até 17% em 2025, e, somadas as metas de cada ano, chega-se a cerca de 40% no fim do período. Para quem quer começar a ler a legislação, ela indica o artigo 33 da política, que sintetiza grande parte do tema.
A regulamentação também mexe no custo. “ela fica até três vezes mais cara do que uma carga usual”, diz ela sobre a carga classificada como perigosa. Internacionalmente, o eletroeletrônico vira resíduo perigoso no momento do descarte: “Perdeu a posse, é perigoso”. Num país continental, com rotas longas, a pergunta das associações do setor faz diferença no custo logístico: se o aparelho não foi aberto, quebrado nem sucateado, ainda pode ser tratado como produto. A definição estava em discussão num comitê com a ABNT e o IBGE.
A geografia completa a conta. Pelas estimativas dela em 2021, o consumo de eletroeletrônicos tinha subido de 15% a 17% no Brasil com a pandemia, e 56% do consumo estava no Sudeste. Com vida útil média de cinco anos, esse volume vira descarte por volta de 2025. Mas o Sudeste não é a única praça: há carga saindo da Zona Franca de Manaus, e o transporte longo traz interceptações no caminho. “É uma carga valiosa, mesmo no pós-consumo”.
Por que a separação manual rende mais
A avaliação dela sobre o Brasil começa pelo pior: “a gente está muito ruim”. Mas, segmentando por etapa, o retrato muda. A coleta é fraca, e o Global E-waste Monitor, relatório que sai a cada dois anos sobre lixo eletrônico no mundo, praticamente não tinha dado do país. O material que chega, por outro lado, é processado de forma muito eficiente, porque o catador já sabe separar o cobre e o tipo de placa que rende mais.
O resumo cabe numa frase dela: “coleta ruim, segregação excelente e recuperação, a gente tem tecnologia no Brasil, sim”. A segregação na entrada é o que agrega valor na etapa seguinte.
É aí que entra o caso da Austrália. Enquanto o mundo desenvolvido automatiza para processar grandes volumes, o país deu um passo atrás e adotou processos prioritariamente manuais, como no Brasil. As plantas automatizadas que ela visitou na Europa e nos Estados Unidos são intensivas em energia e precisam de material chegando o tempo todo. “A máquina está ali, voraz”, e o que chega é triturado inteiro, sem separação.
Por isso, “quanto mais segregado manualmente, melhor”. Ela também registra que o trabalho das cooperativas é um pagamento por serviço ambiental que não é devidamente remunerado, ponto que o Ipea documenta há anos, e que manusear tubo de TV sem capacitação expõe o catador a chumbo.
O passo seguinte, no plano dela, é a escala piloto. “não adianta eu ter 98%, 99% de eficiência no laboratório, se na escala piloto eu não chego nem perto disso”, porque nesse caso ninguém investe na fábrica. Para a mineração urbana no país, a aposta é em polos de escala piloto espalhados pelo país, perto de onde o material está.
Quem trabalha com mineração urbana
A última parte da conversa é sobre carreira. Até poucos anos antes da gravação, quem cuidava disso nas empresas era o profissional da logística tradicional que se ajustava. Depois do decreto com metas, as cadeias começaram a buscar gente, conhecimento e academia, e quem se destacou foi o profissional de logística com visão mais aberta.
Nas grandes empresas, ela vê equipes com no mínimo três formações, e as que juntam as três fluem melhor:
- o técnico de processo, que entende a planilha de custos e a logística;
- alguém de sustentabilidade ou de economia, que lê os instrumentos econômicos e sabe transformar emissões e consumo de combustível em vantagem;
- quem sabe gerir a informação, no sentido mais contábil, que é o que mais falta.
Para a mineração urbana, a terceira competência pesa mais do que parece. A cadeia reversa trabalha quase como bolsa de valores: o preço internacional das commodities flutua muito, e decidir o que recuperar depende de acompanhar esses valores. Quem está começando, diz ela, deve ficar com a mente aberta, ler a política, o decreto e os critérios ESG que as empresas já cobram.
Ouça o episódio completo
A conversa completa está no episódio 33 do VoittoCast, no quadro Leading the Supply Chain, com Henrique Corrêa. Também dá para ouvir no Spotify.
Para a base do tema, vale ler também o artigo sobre o que é logística reversa, que trata dos canais de retorno antes de o material chegar à mina urbana.



