Finanças & Negócios

Contas a receber e inadimplência: aging, exemplos e planilha

A taxa de 6,8% que esconde 72,3% vencido, o cliente inadimplente que segue na projeção, o atraso que nasce na fatura e a carteira que depende de um cliente só

Thiago Coutinho
Publicado em 16 de set de 2026  ·  Atualizado em 6 de out de 2026  ·  22 min de leitura
Colaboradora da Voitto de camiseta preta, sorrindo diante do letreiro Voitto com a estante do escritório ao fundo, com o texto Contas a receber e inadimplência: aging, exemplos e planilha sobre fundo escuro à esquerda

Quanto a sua empresa tem a receber? A resposta costuma vir rápida, num número só. Agora pergunte quanto disso já passou do prazo, de quem, e há quantos dias. A conversa muda de tom, e é aí que contas a receber deixa de ser um saldo e vira uma lista de clientes, cada um com uma ação diferente.

Quando eu escrevi o livro sobre Lean Seis Sigma, separei no capítulo 19 exemplos de projeto por setor. Em serviços financeiros, o primeiro da lista trata de erro no processamento de faturas de clientes. Parece um detalhe de escritório. Neste artigo ele aparece com número, porque boa parte do atraso que a empresa atribui ao cliente começa na fatura que ela mesma emitiu.

O fio do texto é o caso que a gente montou para o kit de gestão financeira, uma fábrica de móveis planejados chamada Cedro. A planilha de contas a receber dela registra 6,8% de inadimplência. Lida linha a linha, mostra mais: 72,3% da carteira já venceu, dois clientes concentram quase três quartos do atraso, e um cliente com título inadimplente tem outro título ainda tratado como recebível normal.

Vêm a seguir a R07 coluna por coluna, o caso Cedro em três leituras e o calendário em que atraso vira perda. Depois, o atraso que nasce dentro de casa, um indicador tirado do livro e quatro folhas preenchidas com PDF. No fim ficam a régua de cobrança, a provisão, a antecipação, a rotina da semana e o modelo vazio. A Cedro é do kit e as outras três folhas eu montei para este texto: nenhuma descreve empresa real.

O que é contas a receber com aging

Contas a receber com aging é a lista dos títulos que os clientes devem à empresa. Ela vem separada pela idade do atraso numa data fixa: no prazo, até 30 dias, de 31 a 60, de 61 a 90 e acima de 90 dias. Acima de 90, o título passa a contar como inadimplente.

Vale separar duas palavras que o dia a dia mistura. Atraso é um estado, comum e quase sempre recuperável: o título venceu e ainda não entrou. Inadimplência é uma classificação que a empresa decide aplicar quando deixa de esperar o pagamento no curso normal. Na planilha de contas a receber do kit, a fronteira é escrita: acima de 90 dias, o título vira inadimplente.

Do outro lado do balcão fica o contas a pagar com aging, com as mesmas faixas. A leitura é que muda. Do lado de pagar, a faixa mede a própria empresa. Do lado de receber, ela mede o cliente, a cobrança e, como a gente vai ver, a qualidade da fatura que saiu.

As faixas também são o elo com a política de crédito e cobrança: cada faixa do aging corresponde a uma ação da régua, com responsável e canal. Quando as duas usam cortes diferentes, alguém precisa traduzir uma na outra toda semana, e esse trabalho costuma ser o primeiro a cair quando o fechamento do mês aperta.

A R07 coluna por coluna

A ferramenta deste texto é a R07 do Kit de Ferramentas para Gestão Financeira, chamada Contas a Receber e Inadimplência. O guia do kit resume a entrega dela assim: o que falta receber, com o mesmo aging do contas a pagar e a marcação de inadimplência a partir de 90 dias.

A folha de contas a receber tem oito colunas. Quatro são preenchidas título a título, uma recebe só a data de referência na primeira linha, e três a planilha calcula. Cada uma tem uma escolha de desenho por trás.

  1. Cliente e Descrição/NF: uma linha por título, nunca por cliente. Três notas do mesmo cliente são três linhas.
  2. Vencimento e Valor: a data combinada para o pagamento e o valor do título.
  3. Data de referência: um valor só, na primeira linha, que serve de data-base para a tabela toda. Sem essa data, o aging inteiro fica em branco.
  4. Dias em atraso: quantos dias separam o vencimento da data-base. Título que ainda não venceu mostra zero.
  5. Faixa: o rótulo que sai dos dias, de a vencer até 90+.
  6. Inadimplente?: SIM quando o título passa de 90 dias, não nos outros casos.

Repare no que a R07 não tem: uma coluna de recebido. Ao contrário da folha de contas a pagar, que guarda o título pago com uma marca, aqui não há onde registrar o recebimento: a linha precisa sair quando o dinheiro entra. Por isso a baixa precisa ser conferida no extrato, e a R07 anda junto da conciliação bancária.

A outra escolha pesa mais. A coluna Inadimplente? marca o título, e não o cliente. A quarta instrução da própria folha corrige isso em palavras: cliente inadimplente não entra na projeção de recebimento seguinte sem revisão, mesmo com o pedido já faturado. O guia chama de erro comum justamente manter na projeção um cliente que já passou de inadimplente.

O caso Cedro: 6,8% de inadimplência e 72,3% vencido

Na R07 da Cedro há dez títulos de contas a receber, lidos na data-base de 05/08/2026, e o TOTAL fecha em R$ 388.950. Dois títulos estão acima de 90 dias, somando R$ 26.550. É daí que sai a taxa de 6,8% que o checklist do caso compara com a referência de 3,0% e marca como crítica.

Gráfico de barras do contas a receber da Cedro em 05/08/2026 por faixa: a vencer R$ 107.900 (27,7%), 1 a 30 dias R$ 130.300 (33,5%), 31 a 60 dias R$ 102.900 (26,5%), 61 a 90 dias R$ 21.300 (5,5%) e mais de 90 dias R$ 26.550 (6,8%) em vermelho; vencido R$ 281.050, 72,3% da carteira de R$ 388.950
Contas a receber da Cedro por faixa. Desenho próprio sobre a R07 preenchida do caso do kit.

O número que a taxa de inadimplência não mostra está no gráfico. Só R$ 107.900 estão a vencer. O vencido soma R$ 281.050, ou 72,3% de tudo que a Cedro tem em contas a receber. A taxa de 6,8% olha só a ponta da carteira, e a ponta é a menor parte do problema.

A faixa de 1 a 30 dias é a maior da folha, com R$ 130.300, e tem um dono só: os três títulos dela são da Studio, o maior cliente em atraso, com 6, 11 e 26 dias. A faixa de 31 a 60 junta a construtora Horizonte, com R$ 74.500 e 44 dias, e a Decor & Cia, com R$ 28.400 e 48 dias.

O ciclo financeiro do caso explica por que isso aperta. A Cedro recebe do cliente em 60 dias e paga fornecedor em 30, e a conta inteira está em capital de giro e ciclo financeiro. Cada título que atrasa alonga esse prazo na prática, sem mudar uma vírgula do que foi combinado.

Inadimplência por título e por cliente

A coluna Inadimplente? da R07 marca dois títulos: a NF 8500 da Arquitetura Nova Lima, com 125 dias, e a NF 8700 da Bittencourt, uma empresa de reformas, com 150. Só que a Bittencourt tem outro título na folha, a NF 8650, de R$ 21.300, com 82 dias. Ele aparece como "não" e entra em qualquer projeção que some a carteira.

Gráfico de barras empilhadas do contas a receber da Cedro por cliente e faixa: Construtora Horizonte R$ 136.800, Studio Ambientes SP R$ 130.300, Móveis para Escritório Bello R$ 45.600, Reformas Bittencourt R$ 31.050 com título inadimplente, Decor & Cia R$ 28.400 e Arquitetura Nova Lima R$ 16.800 com título inadimplente; os dois maiores somam R$ 267.100, 68,7% da carteira e 72,9% do vencido
A mesma carteira, agora por cliente. Desenho próprio sobre a R07 do caso do kit.

Lida por cliente, a inadimplência da Cedro vai de R$ 26.550 para R$ 47.850, ou de 6,8% para 12,3% da carteira. As duas contas estão certas e respondem a perguntas diferentes. A do título serve à contabilidade e ao indicador. A do cliente decide quem recebe crédito, quem entra na projeção e quem a cobrança procura primeiro.

Eu levaria as duas para a reunião, uma ao lado da outra. A política de crédito do caso já pensa por cliente: o perfil inadimplente tem crédito suspenso e só compra à vista. Falta a planilha conversar com ela, e a conversa cabe numa coluna a mais, que repete o SIM em todas as linhas do cliente que tiver um título acima de 90 dias.

O fluxo de caixa projetado é quem paga a conta desse descuido. Se os R$ 21.300 da Bittencourt entram na previsão de agosto, o caixa da Cedro planeja com um dinheiro que a própria política dela não espera ver.

O calendário da inadimplência

O aging é uma fotografia, e todo título vencido nela tem data marcada para mudar de faixa. Dá para ler o contas a receber para a frente: em que dia cada título passa de 90 dias, se nada for recebido até lá? Na Cedro, a resposta assusta.

Gráfico em degraus da inadimplência da Cedro sobre a carteira de R$ 388.950, na hipótese de nenhum título ser recebido depois de 05/08/2026: 6,8% em 05/08, 12,3% em 14/08, 19,6% em 17/09, 38,8% em 21/09, 53,7% em 09/10, 62,2% em 24/10 e 72,3% em 29/10, com as datas do plano de ação 20/08, 30/09 e 31/10 marcadas
Quando cada título da Cedro passa de 90 dias, se nada entrar. Hipótese de leitura, desenho próprio sobre a R07 e o plano de ação do caso.

A NF 8650 da Bittencourt cruza a linha em 14/08, nove dias depois da data de referência. A inadimplência pula para 12,3% antes do prazo que o plano de ação deu para cobrar a faixa 90+, que é 20/08. Em 21/09 chega a vez dos R$ 74.500 da construtora Horizonte, e a taxa iria a 38,8%.

Essa data conversa com outra linha do plano. A primeira ação do 5W2H da Cedro quer baixar o prazo médio de recebimento para 45 dias, contra os 60 de hoje, numa renegociação com os dois clientes maiores, a Studio e a construtora Horizonte, até 30/09. Se a Horizonte não pagar o título de 22/06, a política vai classificá-la como inadimplente nove dias antes da data em que a empresa quer pedir a ela um prazo mais curto.

O gráfico é hipótese, e eu deixo isso escrito nele: alguém vai pagar antes. O valor dele está em pôr a data de cada virada na agenda de quem cobra. Um plano 5W2H com prazo depois da virada cobra um título que, nessa data, já está na faixa 90+.

Concentração: quando o atraso tem dono

Na Cedro, a construtora Horizonte e a Studio somam R$ 267.100, ou 68,7% da carteira. No vencido o peso é maior: R$ 204.800 dos R$ 281.050, ou 72,9%. Duas empresas com o mesmo aging da Cedro podem ter riscos muito diferentes, e o que separa uma da outra é essa concentração.

Quando poucos clientes respondem pela maior parte do atraso, a pergunta passa a ser de crédito. Quanto limite esse cliente tem, que prazo recebeu e o que o histórico dele dizia quando o prazo foi dado? A régua padrão de cobrança, feita para muitos clientes pequenos, é a ferramenta errada para essa conversa.

A política de crédito do caso tem um vão aqui, numa leitura que é minha. O perfil de atraso ocasional pede título isolado na faixa de 1 a 30 dias. O de atraso reincidente começa na faixa de 31 a 60. A Studio tem três títulos simultâneos de 1 a 30, e nenhum dos dois perfis descreve isso. Política que não enquadra o maior devedor do vencido pede revisão.

  • Calcule sempre quanto os cinco maiores devedores representam do vencido, e não só da carteira.
  • Acompanhe à parte os clientes que aparecem acima de 60 dias em dois meses seguidos.
  • Leve à diretoria o cliente grande que atrasa com frequência: a decisão sobre ele é comercial.
  • Separe o título em disputa numa categoria própria, porque ele envelhece como inadimplência e precisa de outro tratamento.

A concentração também engana na tendência. Se o maior cliente paga, o percentual vencido despenca, e não foi a cobrança que melhorou. A análise de risco de crédito e o limite por cliente são o lugar dessa decisão.

O atraso que a empresa produz

Volto ao livro. O capítulo 19 se chama "Definição do Problema e Planejamento do Projeto", e a lista de projetos para serviços financeiros que está nele começa por um item de fatura. Ele diz: "Redução de erros em processamento de faturas: projeto para minimizar erros no processamento de faturas de clientes, a fim de aumentar a eficiência e a satisfação do cliente" (p. 159). Logo abaixo vem a otimização do processo de concessão de crédito.

Os dois itens descrevem as duas pontas da inadimplência que ficam dentro de casa. Crédito dado sem critério produz o atraso de quem não podia pagar. Fatura com erro produz o atraso de quem podia pagar e não recebeu o documento certo. O segundo costuma ser maior do que parece, e quase ninguém mede.

  • Nota sem o número do pedido de compra, que o cliente grande devolve sem pagar.
  • Nota com dado errado: CNPJ de outra filial, endereço antigo, descrição que não bate com o pedido.
  • Boleto enviado à pessoa errada, em geral ao comprador, quando quem paga é o contas a pagar do cliente.
  • Título que não entrou no portal do cliente, que para o financeiro dele não existe.
  • Documento de suporte faltando: comprovante de entrega, medição assinada, relatório de horas.

A forma de medir é simples e cabe num mês. Cada título de contas a receber que entrar na faixa de 1 a 30 dias ganha uma causa: interna, do cliente ou disputa. A estratificação por causa, depois um diagrama de Pareto, mostram onde está o grosso. No exemplo do fabricante de embalagens, mais adiante, 71,9% do vencido tinha causa interna.

O problema volta a ser de retrabalho: a fatura sai, volta e sai de novo, e cada volta empurra o vencimento. Quem resolve é o faturamento, com a lista do que cada cliente exige na nota. A cobrança, que costuma levar a culpa, só descobre o erro depois.

Um indicador que sai do livro: título pago no prazo

No capítulo 24 do livro, "Estatística e Probabilidade", a distribuição binomial aparece com exemplos do dia a dia da empresa. Um deles é este: "número de faturas pagas no prazo" (p. 268). Cada fatura tem dois resultados possíveis, paga no prazo ou não, e a proporção de acertos pode ser acompanhada mês a mês.

Eu fiz especialização em Estatística, e esse exemplo resolve uma briga comum na reunião de contas a receber. A taxa de inadimplência mede estoque: quanto da carteira está acima de 90 dias hoje. A proporção de títulos pagos no prazo mede fluxo: dos títulos que venceram no mês, quantos entraram no dia. A primeira reage devagar. A segunda avisa um mês antes.

Como a proporção vem de contagem de sim e não, ela cabe numa carta de controle por atributo, a carta p. A carta separa o mês ruim por acaso do mês em que alguma coisa mudou no processo, seja o cliente, seja a fatura. Sem a carta, qualquer mês abaixo da média vira motivo de discussão, mesmo quando foi só acaso.

Tipos de carta de controle: por variáveis (médias e amplitude, médias e desvio-padrão, I-MR) e por atributos (p, np, c, u)
Título pago no prazo ou não é contagem; a proporção de defeituosos fica na coluna dos atributos, ao lado do número de defeitos e dos defeitos por unidade. Adaptado da formação Green Belt Lean Seis Sigma da Voitto.

O livro também põe a carteira no lugar certo da conversa de melhoria. Na abertura da Parte IV, a figura que resume os benefícios de um projeto Lean Seis Sigma lista, entre aumento de receita e redução de custo, a "Diminuição de contas a receber" (p. 156). Reduzir contas a receber libera capital de giro, e isso conta como ganho de projeto.

Exemplos de contas a receber preenchidos

As quatro folhas de contas a receber abaixo seguem o formato da R07, e a miniatura de cada uma abre o PDF. A da Cedro vem do kit. As três seguintes eu montei para cobrir o que o caso não mostra: atraso causado pela própria fatura, cliente inadimplente ainda na projeção e carteira presa a um cliente só.

Em cada ilustrativa, um quadro calculado fica embaixo da tabela. Leia os títulos antes do quadro, porque é neles que a conta se apoia.

1. Cedro Móveis Planejados: dez títulos, dois inadimplentes e um que já deveria ser (caso do kit)

Planilha de Contas a Receber e Inadimplência (R07) preenchida do caso ilustrativo do kit, a Cedro Móveis Planejados, com data de referência de 05/08/2026: dez títulos de clientes como Studio Ambientes SP, Construtora Horizonte e Reformas Bittencourt, faixas de a vencer a 90+, dois títulos marcados como inadimplentes e TOTAL de R$ 388.950,00A Cedro fabrica móveis planejados e vende a prazo para lojas, construtoras e escritórios de arquitetura. Em 05/08/2026, o contas a receber tem dez títulos e um TOTAL de R$ 388.950,00.

O checklist do caso marca a inadimplência como crítica, e o plano de ação manda cobrar os dois títulos acima de 90 dias ainda em agosto.

O primeiro desafio está na Bittencourt, empresa de reformas. A NF 8700, de R$ 9.750,00, tem 150 dias e marca SIM. A NF 8650 do mesmo cliente, de R$ 21.300,00, tem 82 dias e marca não. Pela folha, só a primeira sai da projeção.

O segundo está no tamanho do vencido. Dos R$ 388.950,00, pouco mais de um quarto está a vencer. A Studio tem os três títulos da faixa de 1 a 30, e a construtora Horizonte tem R$ 74.500,00 com 44 dias.

Na reunião da Cedro, eu começaria pelo calendário. A NF 8650 passa de 90 dias em pouco mais de uma semana, antes do prazo que o próprio plano de ação deu para cobrar a faixa 90+.

2. Fabricante de embalagens: o atraso que nasce no faturamento

Folha ilustrativa de contas a receber no formato da R07, de um fabricante de embalagens com data de referência de 14/04/2026: onze títulos de indústrias clientes, TOTAL de R$ 189.450,00, e o quadro com o vencido de R$ 113.450,00 classificado por causa, com R$ 81.550,00 de causa internaO fabricante vende embalagens para indústrias de alimentos, bebidas e cosméticos. Em 14/04/2026, o contas a receber tinha onze títulos e R$ 113.450,00 vencidos. Folha ilustrativa, montada para este artigo.

A rotina era ligar para quem estava atrasado, do maior para o menor. O maior era a Bebidas Serra Alta, com R$ 34.600,00 e 35 dias, e a cobrança já tinha ligado duas vezes sem resposta útil.

Antes da terceira ligação, a controladoria anotou a causa de cada título vencido. O da Serra Alta nunca tinha sido lançado no portal de fornecedores do cliente. Para o contas a pagar de lá, a nota não existia.

O quadro somou as causas. A interna, com nota sem pedido, CNPJ errado, boleto no comprador e título fora do portal, deu R$ 81.550,00, ou 71,9% do vencido.

Na faixa de 1 a 30, a parte interna chegou a 83,5%. Quase todo o atraso recente era nota que o cliente não tinha como pagar do jeito que chegou.

A correção saiu do financeiro e foi para o faturamento, com uma lista do que cada cliente exige na nota. Ficaram para a cobrança só os dois títulos de cliente sem caixa e a disputa da Química do Litoral. Se eu tivesse que levar um hábito só deste exemplo, seria anotar a causa antes da terceira ligação.

3. Software para clínicas: o inadimplente que continua na projeção

Folha ilustrativa de contas a receber no formato da R07, de uma empresa de software para clínicas com data de referência de 05/05/2026: catorze faturas mensais de cinco clientes, TOTAL de R$ 68.500,00, dois títulos inadimplentes, e o quadro com a inadimplência e a projeção de recebimento por título e por clienteUma empresa de software de agenda e prontuário cobra mensalidade de cinco clínicas. Em 05/05/2026, a R07 tinha catorze faturas, várias de cada cliente, e um TOTAL de R$ 68.500,00. Exemplo montado para este texto. A projeção de recebimento até 05/06 saía da soma das faturas a vencer: R$ 52.000,00. Pela folha, a inadimplência era de R$ 6.900,00, duas faturas antigas, 10,1% da carteira.

O desafio estava nos clientes dessas duas faturas. A Clínica do Sorriso devia janeiro, com 120 dias, e ainda tinha fevereiro com 89 dias e abril com 30. A Fisio em Movimento devia dezembro, com 151 dias.

Revisando o contas a receber por cliente, como pede a quarta instrução da R07, a inadimplência foi a R$ 30.300,00 e a projeção caiu para R$ 38.200,00. Saíram R$ 13.800,00 de faturas a vencer de dois clientes com fatura acima de 90 dias.

Dois dias depois, a fatura de fevereiro da Clínica do Sorriso viraria SIM sozinha. Eu tiraria a clínica da projeção no mesmo dia, sem esperar a virada. A decisão sobre o acesso dessa clínica ao sistema é comercial e não esperava pela planilha.

4. Transportadora: um cliente faz o aging inteiro

Folha ilustrativa de contas a receber no formato da R07, de uma transportadora com data de referência de 22/06/2026: onze conhecimentos de transporte, TOTAL de R$ 254.300,00, e o quadro com a carteira com e sem o maior cliente, que responde por R$ 144.000,00 dos R$ 165.600,00 vencidosA transportadora faz carga fracionada e lotação, e uma cervejaria contrata a maior parte dos fretes. Em 22/06/2026, o contas a receber somava R$ 254.300,00 em onze CT-e. Folha ilustrativa.

O vencido assustava: R$ 165.600,00, 65,1% da carteira. A primeira reação foi reforçar a régua para todos os clientes, com ligação a partir do primeiro dia de atraso.

O quadro separou o maior cliente. A Cervejaria Planalto tem R$ 144.000,00 vencidos, 87,0% de todo o vencido, em três dos sete títulos atrasados. Sem ela, o vencido sobre a carteira fica em 43,8%.

Os outros quatro títulos vencidos somam R$ 21.600,00 e se espalham por quatro clientes pequenos, um deles acima de 90 dias. A régua serve para eles. Para a cervejaria, a conversa é de limite e prazo.

A decisão foi levar a Planalto à diretoria com o histórico de pagamento dela na mão. Reforçar a régua para todo mundo teria gastado o esforço da equipe no lugar onde ele rende menos.

Nas quatro folhas de contas a receber, a decisão que dá trabalho é a mesma: dizer o que já não deveria mais ser esperado. A coluna Inadimplente? faz metade disso. A outra metade é de quem lê a carteira por cliente e tem autoridade para tirar dinheiro da projeção.

A régua de cobrança, faixa por faixa

A política de crédito da Cedro tem uma régua de cobrança com a mesma faixa da planilha de contas a receber, uma ação por faixa e um responsável por ação. É um bom ponto de partida para quem ainda não tem nenhuma.

FaixaAção de cobrança no caso CedroQuem conduz
a vencerLembrete amigável 3 dias antes do vencimentoControladoria
1-30Contato no 1º dia útil após o vencimentoControladoria
31-60Negociação de acordo e bloqueio de novo pedido a prazoControladoria
61-90Renegociação formal com nova data, conduzida pelo ComercialComercial
90+Classifica inadimplente, suspende crédito e aciona cobrança externaDiretoria

A ordem de trabalho da semana contraria o instinto. O caso mais grave angustia mais, e por isso puxa a atenção primeiro. O retorno por hora, porém, está nas faixas iniciais: um contato resolve um título de dez dias, e um título de oitenta consome horas com recuperação incerta. Começar pelo topo recupera mais dinheiro com o mesmo esforço.

Cada contato precisa virar registro: data, quem atendeu, o que foi prometido. Promessa de pagamento é o produto principal de uma ligação de cobrança, e ela só vale se alguém conferir no dia combinado. Para a conversa da faixa de 61 a 90, que costuma ser tensa, vale preparar a ligação com o método Harvard de negociação: o interesse de cada lado antes da posição.

Provisão e baixa: quando parar de esperar

A faixa 90+ cobra uma decisão que muita empresa adia: continuar tratando o título como dinheiro a entrar ou reconhecer que ele provavelmente não vem. Adiar deixa o ativo inflado e a projeção errada.

Provisão é o registro de que parte do contas a receber não deve entrar. Ela não extingue o direito nem interrompe a cobrança, só ajusta a expectativa. A baixa vem depois, quando as tentativas de recuperação se esgotam. Na parte tributária, as condições para deduzir perdas no recebimento de créditos estão no artigo 9º da Lei 9.430/1996, e esse é assunto para o contador da empresa.

Situação do título 90+Decisão gerencialPor quê
Contato ativo e acordo em negociaçãoManter na carteira e provisionar parteA expectativa cai sem abandonar a recuperação
Sem contato há mais de 60 diasProvisionar o valor todo e escalarO ativo fica realista e o esforço muda de mão
Cliente com atividade encerradaBaixarNão faz sentido carregar valor que não existe
Título em disputa de méritoTirar da cobrança até resolverAntes de cobrar, alguém precisa decidir quem tem razão

A regra de provisão precisa estar escrita e valer todo mês. Provisão decidida caso a caso vira ajuste de resultado: pouca no mês ruim, muita no mês bom, e a série perde comparação. Uma regra por faixa, aplicada sempre, resolve, e a DRE gerencial passa a mostrar a perda no mês em que ela aconteceu.

Antecipação de recebíveis: quando faz sentido

Antecipar recebíveis é uma decisão que começa no aging de contas a receber. Antecipação troca um título futuro por dinheiro hoje, com desconto, e costuma ser uma das formas mais caras de financiar o giro. Às vezes é a mais razoável.

A conta compara a taxa da antecipação com a alternativa real. Se a alternativa é a conta garantida, compara com ela, e a da Cedro custa 6,5% ao mês. Se a alternativa é atrasar um fornecedor, compara com a multa e os juros. A referência de mercado está nas estatísticas de juros do Banco Central, separadas por modalidade de crédito.

  • Faz sentido para um descasamento pontual, identificado com antecedência, quando a taxa perde da alternativa.
  • Não faz sentido como rotina. Antecipação todo mês é sintoma de ciclo financeiro longo, e o tratamento está no ciclo.
  • Título da faixa a vencer antecipa barato; título vencido, quando alguém aceita, sai caro.
  • Registre como operação financeira, nunca como recebimento do cliente.

O motivo da última linha está nos indicadores. Empresa que antecipa e lança a entrada como recebimento vê um prazo médio artificialmente bom, porque o dinheiro entrou cedo sem o cliente ter pago cedo. Os indicadores financeiros param de medir o que deveriam.

A rotina semanal de contas a receber

Contas a receber pede rotina semanal e curta para funcionar. Você tem um dia fixo para abrir a carteira? Se não tem, esta lista é para escolher um.

  1. Escreva a data-base na primeira linha antes de mexer em qualquer outra coisa.
  2. Tire o que entrou conferindo o extrato e o livro-caixa, nunca pela memória de quem atendeu o cliente.
  3. Lance os títulos novos no dia em que a nota sai, com o vencimento combinado.
  4. Marque o cliente inadimplente em todas as linhas dele e tire-o da projeção até alguém revisar.
  5. Anote as viradas da semana: que títulos passam de 30, 60 e 90 dias antes da próxima reunião.
  6. Distribua a lista pela régua, do topo para baixo, com nome de quem liga.

O quinto passo é o meu favorito, porque troca o susto pelo calendário. Saber na segunda-feira que um título grande vira inadimplente na quinta dá três dias para levantar da cadeira e ligar. Descobrir na reunião do mês seguinte só serve para atualizar a taxa.

O quarto passo é o que a R07 pede na instrução 4, e é o único que a fórmula não faz sozinha. Sem ele, a planilha marca o título e a previsão de caixa continua contando com o cliente.

Erros comuns no contas a receber

  • Ler só o total a receber. Esconde a distribuição, onde está toda a informação que vira ação.
  • Ler só a taxa de inadimplência. Na Cedro ela marcava 6,8% com 72,3% da carteira vencida.
  • Marcar inadimplência por título e projetar por cliente. O cliente com um título SIM continua na previsão pelos outros.
  • Faixas diferentes das da régua de cobrança. Obriga tradução toda semana e trava a rotina.
  • Cobrar antes de olhar a fatura. Parte do atraso é nota errada, e ligação não conserta nota.
  • Tratar o cliente grande pela régua padrão. Atraso concentrado é decisão de crédito.
  • Lançar antecipação como recebimento. O prazo médio melhora no papel e piora no caixa.

E há o erro de lugar na empresa. Contas a receber costuma morar no financeiro, e as decisões que ela informa (suspender pedido, rever limite, mandar para cobrança externa, encerrar relação) são comerciais e de diretoria. Se o aging fica no financeiro, essas decisões são tomadas sem ele. Vale registrar cada uma no registro de decisões.

Modelo de contas a receber para baixar (XLSX)

Fecha o texto a R07 vazia, com as quatro instruções do kit e as fórmulas de dias, faixa e inadimplência já montadas.

Modelo em branco da planilha de Contas a Receber e Inadimplência (R07): quatro instruções de preenchimento no topo e tabela com as colunas Cliente, Descrição ou NF, Vencimento, Valor, Data de referência só na primeira linha, Dias em atraso, Faixa e Inadimplente?, com a linha de TOTAL embaixoO XLSX é a planilha de contas a receber do kit, sem dados: uma linha para cada título, a data-base no topo da tabela e o SIM automático acima de 90 dias.

Abrir e baixar a R07 em branco (XLSX)

Eu mexeria em três coisas antes do primeiro uso. Uma coluna de cliente inadimplente, com SIM em cada linha de quem tiver qualquer título acima de 90 dias. Uma coluna de causa do atraso, preenchida para todo título vencido. E uma data de virada, o dia em que cada título passa de 90 dias, para a agenda de quem cobra.

No kit, a R07 pertence à fase de Registro, junto com o plano de contas gerencial e o livro-caixa. É dela que sai a linha de recebíveis do checklist de saúde financeira. Os números dela vão depois para o fluxo projetado e para os cenários financeiros.

Quer levar essa leitura para a sua carteira? Abra o contas a receber da empresa ainda esta semana e comece pelo calendário das viradas. Para ir além da planilha, a Academia de Certificação da Voitto forma gente para decidir com dado, e o Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt ensina a transformar um problema medido num projeto com meta, dono e controle.

Perguntas frequentes

O que é contas a receber com aging?
É a lista dos títulos que os clientes devem, cada um com vencimento e valor, separada por faixa de atraso numa data de referência: a vencer, 1 a 30, 31 a 60, 61 a 90 e mais de 90 dias. Mostra quanto falta entrar, de quem e há quanto tempo.
Qual a diferença entre atraso e inadimplência?
Atraso é o título vencido que ainda deve entrar no curso normal. Inadimplência é a classificação que a empresa aplica quando deixa de esperar esse pagamento. Na planilha do kit, o título vira inadimplente acima de 90 dias de atraso.
Como calcular a taxa de inadimplência?
Some os títulos acima de 90 dias e divida pelo total da carteira de contas a receber. Na Cedro, R$ 26.550 sobre R$ 388.950 dão 6,8%. Calcule também por cliente, somando todos os títulos de quem tem algum acima de 90 dias.
Por que medir inadimplência por cliente e não só por título?
Porque o cliente com um título inadimplente costuma ter outros na carteira, que continuam entrando na projeção de recebimento. Na Cedro, a taxa vai de 6,8% por título para 12,3% por cliente.
Cliente inadimplente pode entrar na projeção de recebimento?
Não sem revisão. A planilha do kit pede isso na quarta instrução, mesmo para pedido já faturado. Tire os títulos desse cliente da projeção e volte com eles só quando houver acordo ou pagamento.
Por onde começar a cobrança de contas a receber?
Pelas faixas iniciais, que dão o melhor retorno por hora de trabalho. Um contato resolve um título de dez dias, e um título de oitenta consome horas com recuperação incerta. Antes de ligar, confira se a fatura chegou certa ao cliente.
Quanto do atraso em contas a receber é culpa da própria empresa?
Mais do que se imagina. Nota sem pedido de compra, CNPJ errado, boleto enviado à pessoa errada e título fora do portal do cliente atrasam o pagamento de quem pode pagar. Classifique a causa de cada título vencido por um mês.
Quando provisionar um título de contas a receber?
A partir da faixa acima de 90 dias, com uma regra escrita por faixa e aplicada todo mês. Provisão decidida caso a caso vira ajuste de resultado e destrói a comparação entre meses.
Antecipação de recebíveis vale a pena?
Para um descasamento pontual, quando a taxa perde da alternativa real, sim. Como rotina mensal, é sintoma de ciclo financeiro longo. E deve ser registrada como operação financeira, nunca como recebimento do cliente.
Onde baixar uma planilha de contas a receber?
A R07 em branco está em XLSX na seção do modelo, no fim do artigo, com a data de referência e as fórmulas de faixa e inadimplência prontas. As quatro folhas preenchidas abrem nos exemplos, cada uma com o próprio PDF.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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