Contas a receber e inadimplência: aging, exemplos e planilha
A taxa de 6,8% que esconde 72,3% vencido, o cliente inadimplente que segue na projeção, o atraso que nasce na fatura e a carteira que depende de um cliente só
Quanto a sua empresa tem a receber? A resposta costuma vir rápida, num número só. Agora pergunte quanto disso já passou do prazo, de quem, e há quantos dias. A conversa muda de tom, e é aí que contas a receber deixa de ser um saldo e vira uma lista de clientes, cada um com uma ação diferente.
Quando eu escrevi o livro sobre Lean Seis Sigma, separei no capítulo 19 exemplos de projeto por setor. Em serviços financeiros, o primeiro da lista trata de erro no processamento de faturas de clientes. Parece um detalhe de escritório. Neste artigo ele aparece com número, porque boa parte do atraso que a empresa atribui ao cliente começa na fatura que ela mesma emitiu.
O fio do texto é o caso que a gente montou para o kit de gestão financeira, uma fábrica de móveis planejados chamada Cedro. A planilha de contas a receber dela registra 6,8% de inadimplência. Lida linha a linha, mostra mais: 72,3% da carteira já venceu, dois clientes concentram quase três quartos do atraso, e um cliente com título inadimplente tem outro título ainda tratado como recebível normal.
Vêm a seguir a R07 coluna por coluna, o caso Cedro em três leituras e o calendário em que atraso vira perda. Depois, o atraso que nasce dentro de casa, um indicador tirado do livro e quatro folhas preenchidas com PDF. No fim ficam a régua de cobrança, a provisão, a antecipação, a rotina da semana e o modelo vazio. A Cedro é do kit e as outras três folhas eu montei para este texto: nenhuma descreve empresa real.
O que é contas a receber com aging
Contas a receber com aging é a lista dos títulos que os clientes devem à empresa. Ela vem separada pela idade do atraso numa data fixa: no prazo, até 30 dias, de 31 a 60, de 61 a 90 e acima de 90 dias. Acima de 90, o título passa a contar como inadimplente.
Vale separar duas palavras que o dia a dia mistura. Atraso é um estado, comum e quase sempre recuperável: o título venceu e ainda não entrou. Inadimplência é uma classificação que a empresa decide aplicar quando deixa de esperar o pagamento no curso normal. Na planilha de contas a receber do kit, a fronteira é escrita: acima de 90 dias, o título vira inadimplente.
Do outro lado do balcão fica o contas a pagar com aging, com as mesmas faixas. A leitura é que muda. Do lado de pagar, a faixa mede a própria empresa. Do lado de receber, ela mede o cliente, a cobrança e, como a gente vai ver, a qualidade da fatura que saiu.
As faixas também são o elo com a política de crédito e cobrança: cada faixa do aging corresponde a uma ação da régua, com responsável e canal. Quando as duas usam cortes diferentes, alguém precisa traduzir uma na outra toda semana, e esse trabalho costuma ser o primeiro a cair quando o fechamento do mês aperta.
A R07 coluna por coluna
A ferramenta deste texto é a R07 do Kit de Ferramentas para Gestão Financeira, chamada Contas a Receber e Inadimplência. O guia do kit resume a entrega dela assim: o que falta receber, com o mesmo aging do contas a pagar e a marcação de inadimplência a partir de 90 dias.
A folha de contas a receber tem oito colunas. Quatro são preenchidas título a título, uma recebe só a data de referência na primeira linha, e três a planilha calcula. Cada uma tem uma escolha de desenho por trás.
- Cliente e Descrição/NF: uma linha por título, nunca por cliente. Três notas do mesmo cliente são três linhas.
- Vencimento e Valor: a data combinada para o pagamento e o valor do título.
- Data de referência: um valor só, na primeira linha, que serve de data-base para a tabela toda. Sem essa data, o aging inteiro fica em branco.
- Dias em atraso: quantos dias separam o vencimento da data-base. Título que ainda não venceu mostra zero.
- Faixa: o rótulo que sai dos dias, de a vencer até 90+.
- Inadimplente?: SIM quando o título passa de 90 dias, não nos outros casos.
Repare no que a R07 não tem: uma coluna de recebido. Ao contrário da folha de contas a pagar, que guarda o título pago com uma marca, aqui não há onde registrar o recebimento: a linha precisa sair quando o dinheiro entra. Por isso a baixa precisa ser conferida no extrato, e a R07 anda junto da conciliação bancária.
A outra escolha pesa mais. A coluna Inadimplente? marca o título, e não o cliente. A quarta instrução da própria folha corrige isso em palavras: cliente inadimplente não entra na projeção de recebimento seguinte sem revisão, mesmo com o pedido já faturado. O guia chama de erro comum justamente manter na projeção um cliente que já passou de inadimplente.
O caso Cedro: 6,8% de inadimplência e 72,3% vencido
Na R07 da Cedro há dez títulos de contas a receber, lidos na data-base de 05/08/2026, e o TOTAL fecha em R$ 388.950. Dois títulos estão acima de 90 dias, somando R$ 26.550. É daí que sai a taxa de 6,8% que o checklist do caso compara com a referência de 3,0% e marca como crítica.
O número que a taxa de inadimplência não mostra está no gráfico. Só R$ 107.900 estão a vencer. O vencido soma R$ 281.050, ou 72,3% de tudo que a Cedro tem em contas a receber. A taxa de 6,8% olha só a ponta da carteira, e a ponta é a menor parte do problema.
A faixa de 1 a 30 dias é a maior da folha, com R$ 130.300, e tem um dono só: os três títulos dela são da Studio, o maior cliente em atraso, com 6, 11 e 26 dias. A faixa de 31 a 60 junta a construtora Horizonte, com R$ 74.500 e 44 dias, e a Decor & Cia, com R$ 28.400 e 48 dias.
O ciclo financeiro do caso explica por que isso aperta. A Cedro recebe do cliente em 60 dias e paga fornecedor em 30, e a conta inteira está em capital de giro e ciclo financeiro. Cada título que atrasa alonga esse prazo na prática, sem mudar uma vírgula do que foi combinado.
Inadimplência por título e por cliente
A coluna Inadimplente? da R07 marca dois títulos: a NF 8500 da Arquitetura Nova Lima, com 125 dias, e a NF 8700 da Bittencourt, uma empresa de reformas, com 150. Só que a Bittencourt tem outro título na folha, a NF 8650, de R$ 21.300, com 82 dias. Ele aparece como "não" e entra em qualquer projeção que some a carteira.
Lida por cliente, a inadimplência da Cedro vai de R$ 26.550 para R$ 47.850, ou de 6,8% para 12,3% da carteira. As duas contas estão certas e respondem a perguntas diferentes. A do título serve à contabilidade e ao indicador. A do cliente decide quem recebe crédito, quem entra na projeção e quem a cobrança procura primeiro.
Eu levaria as duas para a reunião, uma ao lado da outra. A política de crédito do caso já pensa por cliente: o perfil inadimplente tem crédito suspenso e só compra à vista. Falta a planilha conversar com ela, e a conversa cabe numa coluna a mais, que repete o SIM em todas as linhas do cliente que tiver um título acima de 90 dias.
O fluxo de caixa projetado é quem paga a conta desse descuido. Se os R$ 21.300 da Bittencourt entram na previsão de agosto, o caixa da Cedro planeja com um dinheiro que a própria política dela não espera ver.
O calendário da inadimplência
O aging é uma fotografia, e todo título vencido nela tem data marcada para mudar de faixa. Dá para ler o contas a receber para a frente: em que dia cada título passa de 90 dias, se nada for recebido até lá? Na Cedro, a resposta assusta.
A NF 8650 da Bittencourt cruza a linha em 14/08, nove dias depois da data de referência. A inadimplência pula para 12,3% antes do prazo que o plano de ação deu para cobrar a faixa 90+, que é 20/08. Em 21/09 chega a vez dos R$ 74.500 da construtora Horizonte, e a taxa iria a 38,8%.
Essa data conversa com outra linha do plano. A primeira ação do 5W2H da Cedro quer baixar o prazo médio de recebimento para 45 dias, contra os 60 de hoje, numa renegociação com os dois clientes maiores, a Studio e a construtora Horizonte, até 30/09. Se a Horizonte não pagar o título de 22/06, a política vai classificá-la como inadimplente nove dias antes da data em que a empresa quer pedir a ela um prazo mais curto.
O gráfico é hipótese, e eu deixo isso escrito nele: alguém vai pagar antes. O valor dele está em pôr a data de cada virada na agenda de quem cobra. Um plano 5W2H com prazo depois da virada cobra um título que, nessa data, já está na faixa 90+.
Concentração: quando o atraso tem dono
Na Cedro, a construtora Horizonte e a Studio somam R$ 267.100, ou 68,7% da carteira. No vencido o peso é maior: R$ 204.800 dos R$ 281.050, ou 72,9%. Duas empresas com o mesmo aging da Cedro podem ter riscos muito diferentes, e o que separa uma da outra é essa concentração.
Quando poucos clientes respondem pela maior parte do atraso, a pergunta passa a ser de crédito. Quanto limite esse cliente tem, que prazo recebeu e o que o histórico dele dizia quando o prazo foi dado? A régua padrão de cobrança, feita para muitos clientes pequenos, é a ferramenta errada para essa conversa.
A política de crédito do caso tem um vão aqui, numa leitura que é minha. O perfil de atraso ocasional pede título isolado na faixa de 1 a 30 dias. O de atraso reincidente começa na faixa de 31 a 60. A Studio tem três títulos simultâneos de 1 a 30, e nenhum dos dois perfis descreve isso. Política que não enquadra o maior devedor do vencido pede revisão.
- Calcule sempre quanto os cinco maiores devedores representam do vencido, e não só da carteira.
- Acompanhe à parte os clientes que aparecem acima de 60 dias em dois meses seguidos.
- Leve à diretoria o cliente grande que atrasa com frequência: a decisão sobre ele é comercial.
- Separe o título em disputa numa categoria própria, porque ele envelhece como inadimplência e precisa de outro tratamento.
A concentração também engana na tendência. Se o maior cliente paga, o percentual vencido despenca, e não foi a cobrança que melhorou. A análise de risco de crédito e o limite por cliente são o lugar dessa decisão.
O atraso que a empresa produz
Volto ao livro. O capítulo 19 se chama "Definição do Problema e Planejamento do Projeto", e a lista de projetos para serviços financeiros que está nele começa por um item de fatura. Ele diz: "Redução de erros em processamento de faturas: projeto para minimizar erros no processamento de faturas de clientes, a fim de aumentar a eficiência e a satisfação do cliente" (p. 159). Logo abaixo vem a otimização do processo de concessão de crédito.
Os dois itens descrevem as duas pontas da inadimplência que ficam dentro de casa. Crédito dado sem critério produz o atraso de quem não podia pagar. Fatura com erro produz o atraso de quem podia pagar e não recebeu o documento certo. O segundo costuma ser maior do que parece, e quase ninguém mede.
- Nota sem o número do pedido de compra, que o cliente grande devolve sem pagar.
- Nota com dado errado: CNPJ de outra filial, endereço antigo, descrição que não bate com o pedido.
- Boleto enviado à pessoa errada, em geral ao comprador, quando quem paga é o contas a pagar do cliente.
- Título que não entrou no portal do cliente, que para o financeiro dele não existe.
- Documento de suporte faltando: comprovante de entrega, medição assinada, relatório de horas.
A forma de medir é simples e cabe num mês. Cada título de contas a receber que entrar na faixa de 1 a 30 dias ganha uma causa: interna, do cliente ou disputa. A estratificação por causa, depois um diagrama de Pareto, mostram onde está o grosso. No exemplo do fabricante de embalagens, mais adiante, 71,9% do vencido tinha causa interna.
O problema volta a ser de retrabalho: a fatura sai, volta e sai de novo, e cada volta empurra o vencimento. Quem resolve é o faturamento, com a lista do que cada cliente exige na nota. A cobrança, que costuma levar a culpa, só descobre o erro depois.
Um indicador que sai do livro: título pago no prazo
No capítulo 24 do livro, "Estatística e Probabilidade", a distribuição binomial aparece com exemplos do dia a dia da empresa. Um deles é este: "número de faturas pagas no prazo" (p. 268). Cada fatura tem dois resultados possíveis, paga no prazo ou não, e a proporção de acertos pode ser acompanhada mês a mês.
Eu fiz especialização em Estatística, e esse exemplo resolve uma briga comum na reunião de contas a receber. A taxa de inadimplência mede estoque: quanto da carteira está acima de 90 dias hoje. A proporção de títulos pagos no prazo mede fluxo: dos títulos que venceram no mês, quantos entraram no dia. A primeira reage devagar. A segunda avisa um mês antes.
Como a proporção vem de contagem de sim e não, ela cabe numa carta de controle por atributo, a carta p. A carta separa o mês ruim por acaso do mês em que alguma coisa mudou no processo, seja o cliente, seja a fatura. Sem a carta, qualquer mês abaixo da média vira motivo de discussão, mesmo quando foi só acaso.
O livro também põe a carteira no lugar certo da conversa de melhoria. Na abertura da Parte IV, a figura que resume os benefícios de um projeto Lean Seis Sigma lista, entre aumento de receita e redução de custo, a "Diminuição de contas a receber" (p. 156). Reduzir contas a receber libera capital de giro, e isso conta como ganho de projeto.
Exemplos de contas a receber preenchidos
As quatro folhas de contas a receber abaixo seguem o formato da R07, e a miniatura de cada uma abre o PDF. A da Cedro vem do kit. As três seguintes eu montei para cobrir o que o caso não mostra: atraso causado pela própria fatura, cliente inadimplente ainda na projeção e carteira presa a um cliente só.
Em cada ilustrativa, um quadro calculado fica embaixo da tabela. Leia os títulos antes do quadro, porque é neles que a conta se apoia.
1. Cedro Móveis Planejados: dez títulos, dois inadimplentes e um que já deveria ser (caso do kit)
A Cedro fabrica móveis planejados e vende a prazo para lojas, construtoras e escritórios de arquitetura. Em 05/08/2026, o contas a receber tem dez títulos e um TOTAL de R$ 388.950,00.
O checklist do caso marca a inadimplência como crítica, e o plano de ação manda cobrar os dois títulos acima de 90 dias ainda em agosto.
O primeiro desafio está na Bittencourt, empresa de reformas. A NF 8700, de R$ 9.750,00, tem 150 dias e marca SIM. A NF 8650 do mesmo cliente, de R$ 21.300,00, tem 82 dias e marca não. Pela folha, só a primeira sai da projeção.
O segundo está no tamanho do vencido. Dos R$ 388.950,00, pouco mais de um quarto está a vencer. A Studio tem os três títulos da faixa de 1 a 30, e a construtora Horizonte tem R$ 74.500,00 com 44 dias.
Na reunião da Cedro, eu começaria pelo calendário. A NF 8650 passa de 90 dias em pouco mais de uma semana, antes do prazo que o próprio plano de ação deu para cobrar a faixa 90+.
2. Fabricante de embalagens: o atraso que nasce no faturamento
O fabricante vende embalagens para indústrias de alimentos, bebidas e cosméticos. Em 14/04/2026, o contas a receber tinha onze títulos e R$ 113.450,00 vencidos. Folha ilustrativa, montada para este artigo.
A rotina era ligar para quem estava atrasado, do maior para o menor. O maior era a Bebidas Serra Alta, com R$ 34.600,00 e 35 dias, e a cobrança já tinha ligado duas vezes sem resposta útil.
Antes da terceira ligação, a controladoria anotou a causa de cada título vencido. O da Serra Alta nunca tinha sido lançado no portal de fornecedores do cliente. Para o contas a pagar de lá, a nota não existia.
O quadro somou as causas. A interna, com nota sem pedido, CNPJ errado, boleto no comprador e título fora do portal, deu R$ 81.550,00, ou 71,9% do vencido.
Na faixa de 1 a 30, a parte interna chegou a 83,5%. Quase todo o atraso recente era nota que o cliente não tinha como pagar do jeito que chegou.
A correção saiu do financeiro e foi para o faturamento, com uma lista do que cada cliente exige na nota. Ficaram para a cobrança só os dois títulos de cliente sem caixa e a disputa da Química do Litoral. Se eu tivesse que levar um hábito só deste exemplo, seria anotar a causa antes da terceira ligação.
3. Software para clínicas: o inadimplente que continua na projeção
Uma empresa de software de agenda e prontuário cobra mensalidade de cinco clínicas. Em 05/05/2026, a R07 tinha catorze faturas, várias de cada cliente, e um TOTAL de R$ 68.500,00. Exemplo montado para este texto. A projeção de recebimento até 05/06 saía da soma das faturas a vencer: R$ 52.000,00. Pela folha, a inadimplência era de R$ 6.900,00, duas faturas antigas, 10,1% da carteira.
O desafio estava nos clientes dessas duas faturas. A Clínica do Sorriso devia janeiro, com 120 dias, e ainda tinha fevereiro com 89 dias e abril com 30. A Fisio em Movimento devia dezembro, com 151 dias.
Revisando o contas a receber por cliente, como pede a quarta instrução da R07, a inadimplência foi a R$ 30.300,00 e a projeção caiu para R$ 38.200,00. Saíram R$ 13.800,00 de faturas a vencer de dois clientes com fatura acima de 90 dias.
Dois dias depois, a fatura de fevereiro da Clínica do Sorriso viraria SIM sozinha. Eu tiraria a clínica da projeção no mesmo dia, sem esperar a virada. A decisão sobre o acesso dessa clínica ao sistema é comercial e não esperava pela planilha.
4. Transportadora: um cliente faz o aging inteiro
A transportadora faz carga fracionada e lotação, e uma cervejaria contrata a maior parte dos fretes. Em 22/06/2026, o contas a receber somava R$ 254.300,00 em onze CT-e. Folha ilustrativa.
O vencido assustava: R$ 165.600,00, 65,1% da carteira. A primeira reação foi reforçar a régua para todos os clientes, com ligação a partir do primeiro dia de atraso.
O quadro separou o maior cliente. A Cervejaria Planalto tem R$ 144.000,00 vencidos, 87,0% de todo o vencido, em três dos sete títulos atrasados. Sem ela, o vencido sobre a carteira fica em 43,8%.
Os outros quatro títulos vencidos somam R$ 21.600,00 e se espalham por quatro clientes pequenos, um deles acima de 90 dias. A régua serve para eles. Para a cervejaria, a conversa é de limite e prazo.
A decisão foi levar a Planalto à diretoria com o histórico de pagamento dela na mão. Reforçar a régua para todo mundo teria gastado o esforço da equipe no lugar onde ele rende menos.
Nas quatro folhas de contas a receber, a decisão que dá trabalho é a mesma: dizer o que já não deveria mais ser esperado. A coluna Inadimplente? faz metade disso. A outra metade é de quem lê a carteira por cliente e tem autoridade para tirar dinheiro da projeção.
A régua de cobrança, faixa por faixa
A política de crédito da Cedro tem uma régua de cobrança com a mesma faixa da planilha de contas a receber, uma ação por faixa e um responsável por ação. É um bom ponto de partida para quem ainda não tem nenhuma.
| Faixa | Ação de cobrança no caso Cedro | Quem conduz |
|---|---|---|
| a vencer | Lembrete amigável 3 dias antes do vencimento | Controladoria |
| 1-30 | Contato no 1º dia útil após o vencimento | Controladoria |
| 31-60 | Negociação de acordo e bloqueio de novo pedido a prazo | Controladoria |
| 61-90 | Renegociação formal com nova data, conduzida pelo Comercial | Comercial |
| 90+ | Classifica inadimplente, suspende crédito e aciona cobrança externa | Diretoria |
A ordem de trabalho da semana contraria o instinto. O caso mais grave angustia mais, e por isso puxa a atenção primeiro. O retorno por hora, porém, está nas faixas iniciais: um contato resolve um título de dez dias, e um título de oitenta consome horas com recuperação incerta. Começar pelo topo recupera mais dinheiro com o mesmo esforço.
Cada contato precisa virar registro: data, quem atendeu, o que foi prometido. Promessa de pagamento é o produto principal de uma ligação de cobrança, e ela só vale se alguém conferir no dia combinado. Para a conversa da faixa de 61 a 90, que costuma ser tensa, vale preparar a ligação com o método Harvard de negociação: o interesse de cada lado antes da posição.
Provisão e baixa: quando parar de esperar
A faixa 90+ cobra uma decisão que muita empresa adia: continuar tratando o título como dinheiro a entrar ou reconhecer que ele provavelmente não vem. Adiar deixa o ativo inflado e a projeção errada.
Provisão é o registro de que parte do contas a receber não deve entrar. Ela não extingue o direito nem interrompe a cobrança, só ajusta a expectativa. A baixa vem depois, quando as tentativas de recuperação se esgotam. Na parte tributária, as condições para deduzir perdas no recebimento de créditos estão no artigo 9º da Lei 9.430/1996, e esse é assunto para o contador da empresa.
| Situação do título 90+ | Decisão gerencial | Por quê |
|---|---|---|
| Contato ativo e acordo em negociação | Manter na carteira e provisionar parte | A expectativa cai sem abandonar a recuperação |
| Sem contato há mais de 60 dias | Provisionar o valor todo e escalar | O ativo fica realista e o esforço muda de mão |
| Cliente com atividade encerrada | Baixar | Não faz sentido carregar valor que não existe |
| Título em disputa de mérito | Tirar da cobrança até resolver | Antes de cobrar, alguém precisa decidir quem tem razão |
A regra de provisão precisa estar escrita e valer todo mês. Provisão decidida caso a caso vira ajuste de resultado: pouca no mês ruim, muita no mês bom, e a série perde comparação. Uma regra por faixa, aplicada sempre, resolve, e a DRE gerencial passa a mostrar a perda no mês em que ela aconteceu.
Antecipação de recebíveis: quando faz sentido
Antecipar recebíveis é uma decisão que começa no aging de contas a receber. Antecipação troca um título futuro por dinheiro hoje, com desconto, e costuma ser uma das formas mais caras de financiar o giro. Às vezes é a mais razoável.
A conta compara a taxa da antecipação com a alternativa real. Se a alternativa é a conta garantida, compara com ela, e a da Cedro custa 6,5% ao mês. Se a alternativa é atrasar um fornecedor, compara com a multa e os juros. A referência de mercado está nas estatísticas de juros do Banco Central, separadas por modalidade de crédito.
- Faz sentido para um descasamento pontual, identificado com antecedência, quando a taxa perde da alternativa.
- Não faz sentido como rotina. Antecipação todo mês é sintoma de ciclo financeiro longo, e o tratamento está no ciclo.
- Título da faixa a vencer antecipa barato; título vencido, quando alguém aceita, sai caro.
- Registre como operação financeira, nunca como recebimento do cliente.
O motivo da última linha está nos indicadores. Empresa que antecipa e lança a entrada como recebimento vê um prazo médio artificialmente bom, porque o dinheiro entrou cedo sem o cliente ter pago cedo. Os indicadores financeiros param de medir o que deveriam.
A rotina semanal de contas a receber
Contas a receber pede rotina semanal e curta para funcionar. Você tem um dia fixo para abrir a carteira? Se não tem, esta lista é para escolher um.
- Escreva a data-base na primeira linha antes de mexer em qualquer outra coisa.
- Tire o que entrou conferindo o extrato e o livro-caixa, nunca pela memória de quem atendeu o cliente.
- Lance os títulos novos no dia em que a nota sai, com o vencimento combinado.
- Marque o cliente inadimplente em todas as linhas dele e tire-o da projeção até alguém revisar.
- Anote as viradas da semana: que títulos passam de 30, 60 e 90 dias antes da próxima reunião.
- Distribua a lista pela régua, do topo para baixo, com nome de quem liga.
O quinto passo é o meu favorito, porque troca o susto pelo calendário. Saber na segunda-feira que um título grande vira inadimplente na quinta dá três dias para levantar da cadeira e ligar. Descobrir na reunião do mês seguinte só serve para atualizar a taxa.
O quarto passo é o que a R07 pede na instrução 4, e é o único que a fórmula não faz sozinha. Sem ele, a planilha marca o título e a previsão de caixa continua contando com o cliente.
Erros comuns no contas a receber
- Ler só o total a receber. Esconde a distribuição, onde está toda a informação que vira ação.
- Ler só a taxa de inadimplência. Na Cedro ela marcava 6,8% com 72,3% da carteira vencida.
- Marcar inadimplência por título e projetar por cliente. O cliente com um título SIM continua na previsão pelos outros.
- Faixas diferentes das da régua de cobrança. Obriga tradução toda semana e trava a rotina.
- Cobrar antes de olhar a fatura. Parte do atraso é nota errada, e ligação não conserta nota.
- Tratar o cliente grande pela régua padrão. Atraso concentrado é decisão de crédito.
- Lançar antecipação como recebimento. O prazo médio melhora no papel e piora no caixa.
E há o erro de lugar na empresa. Contas a receber costuma morar no financeiro, e as decisões que ela informa (suspender pedido, rever limite, mandar para cobrança externa, encerrar relação) são comerciais e de diretoria. Se o aging fica no financeiro, essas decisões são tomadas sem ele. Vale registrar cada uma no registro de decisões.
Modelo de contas a receber para baixar (XLSX)
Fecha o texto a R07 vazia, com as quatro instruções do kit e as fórmulas de dias, faixa e inadimplência já montadas.
O XLSX é a planilha de contas a receber do kit, sem dados: uma linha para cada título, a data-base no topo da tabela e o SIM automático acima de 90 dias.
Abrir e baixar a R07 em branco (XLSX)
Eu mexeria em três coisas antes do primeiro uso. Uma coluna de cliente inadimplente, com SIM em cada linha de quem tiver qualquer título acima de 90 dias. Uma coluna de causa do atraso, preenchida para todo título vencido. E uma data de virada, o dia em que cada título passa de 90 dias, para a agenda de quem cobra.
No kit, a R07 pertence à fase de Registro, junto com o plano de contas gerencial e o livro-caixa. É dela que sai a linha de recebíveis do checklist de saúde financeira. Os números dela vão depois para o fluxo projetado e para os cenários financeiros.
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