Plano de comunicação: o que é, como fazer e modelo em PDF
Como escrever quem precisa saber o quê, por qual canal e com que frequência, usando o P10 do kit e o caso de uma rede de farmácias cujo canal de mudança de escopo foi contornado três vezes
Eu trabalhava na Votorantim Metais, no zinco, quando descobri que existia ali dentro um programa Seis Sigma com gente formada e projeto rodando. O caminho que eu achei para entrar nele foi bater na porta da sala do Master Black Belt com uma pergunta simples: “como é que funciona?”. Ele explicou, eu fiz o White Belt liderando um projeto, e até hoje eu penso nessa porta quando abro um plano de comunicação em branco.
Deu certo para mim. Mas a minha leitura hoje é esta: quando o caminho de uma informação não está escrito em lugar nenhum, quem entra é quem teve coragem de bater na porta certa. Os outros ficam de fora, e ninguém registra que ficaram. Canal que depende de iniciativa individual funciona por exceção, não por desenho.
É esse o problema que a ferramenta deste artigo resolve. Ela aparece aqui como está no Kit de Ferramentas para Gestão de Projetos: o P10, uma folha de uma página da fase de planejamento. Cada tipo de informação que circula no projeto ocupa uma linha, com público, canal, frequência, responsável e o registro que fica depois. Nada de sofisticado. O trabalho está em escrever o que costuma ficar combinado de boca.
O caso que acompanha o artigo é o de uma rede de farmácias trocando de sistema em 34 lojas. O P10 dela foi assinado em 16/02/2026 e já nomeava o comitê como canal único para decidir mudança de escopo, antes de qualquer execução. Mesmo assim, entre abril e junho três pedidos entraram por e-mail direto e chegaram ao registro depois de já estarem sendo executados.
Nas próximas seções vêm as seis colunas do P10 e o que cada uma segura, a diferença entre frequência fixa e frequência por gatilho, e a linha de mudança de escopo que quase ninguém escreve. Depois vêm a regra de escalonamento, os sete passos para montar o seu, a ficha preenchida do caso e o modelo em branco em PDF.
Uma declaração antes de começar: a rede de farmácias é um caso ilustrativo montado pela Voitto para o kit. Os números citados saem dos documentos desse caso, e estão no PDF que acompanha o exemplo.
O que é um plano de comunicação
Plano de comunicação é o documento que define quem precisa saber o quê, por qual canal e com que frequência dentro de um projeto. Ele não descreve reuniões. Ele descreve tipos de informação que circulam, e para cada tipo nomeia público, canal, frequência, responsável e o registro que fica depois.
A diferença entre as duas coisas parece sutil e não é. Uma reunião semanal carrega cinco assuntos diferentes, com cinco públicos diferentes e cinco urgências diferentes. Se o seu plano tem uma linha chamada “reunião semanal”, você planejou o encontro e não planejou a informação. No dia em que o assunto mais sensível precisar sair fora do encontro, não vai haver linha nenhuma para consultar.
No Kit de Ferramentas para Gestão de Projetos, essa folha é o P10 e mora na fase de planejamento, depois que o escopo já está fechado. A ordem importa. Comunicação se planeja sobre coisa decidida: sobre o termo de abertura que fixou o critério de sucesso, sobre o escopo do projeto que diz o que está dentro e sobre o cronograma que diz quando cada coisa acontece.
O resultado prático é uma folha curta. No caso da rede de farmácias, o plano de comunicação inteiro cabe em oito linhas. Não é pouco por descuido: é pouco porque cada linha corresponde a um tipo de informação que realmente circula, e um projeto de porte médio não tem muito mais do que isso.
Por que o plano de comunicação evita a decisão por fora
A resposta curta é que informação sem canal nomeado sempre encontra um canal. E o canal que ela encontra costuma ser o mais rápido, não o mais seguro: uma mensagem direta, um e-mail para uma pessoa só, uma conversa no corredor que ninguém registrou. A decisão acontece, o registro não.
Quando isso vira rotina, o projeto passa a ter duas histórias. A história dos documentos, que mostra escopo estável e marcos no lugar, e a história do que as pessoas combinaram por fora. As duas só se encontram no fim, quando alguém compara o entregue com o aprovado e descobre um buraco de semanas e de dinheiro.
O gerenciamento de projetos tem um nome para o sintoma mais caro disso, que é o crescimento de escopo sem aprovação. O guia PMBOK do Project Management Institute trata a comunicação como área de conhecimento própria justamente porque ela é o meio pelo qual as outras áreas se sustentam: sem canal definido, o controle de escopo existe no papel e não na prática.
Vale dizer o que o plano de comunicação não faz. Ele não obriga ninguém a usar o canal. Ele só remove a desculpa de que o canal não existia, e transforma uma falha de comportamento em algo visível e cobrável. É pouco, e é exatamente o que faltava nos três pedidos que a rede de farmácias aprovou por fora.
As seis colunas do plano de comunicação no P10
No miolo da folha fica uma tabela chamada comunicações planejadas, com seis colunas. Cada uma delas existe para segurar um jeito específico de o plano falhar, e vale olhar coluna por coluna antes de preencher.
| Coluna | O que registra | Por que importa |
|---|---|---|
| Informação / assunto | O tipo de informação que circula, não o encontro em que ela aparece | Uma reunião carrega vários assuntos, e é o assunto que tem público e prazo próprios |
| Público | Quem precisa receber aquela informação, pelo cargo ou pelo grupo | Público genérico vira lista de distribuição, e lista de distribuição ninguém lê |
| Canal | Onde a informação circula: comitê, reunião de acompanhamento, e-mail, grupo da loja, aviso no ponto de venda | O canal separa o que vira registro do que fica sendo conversa |
| Frequência | De quanto em quanto tempo, ou qual gatilho dispara a comunicação | Sem gatilho escrito, “sob demanda” vira “quando alguém lembrar” |
| Responsável | A pessoa nomeada que emite aquela comunicação | Comunicação sem dono não sai, e ninguém percebe que não saiu |
| Registro associado | O documento que fica depois: status report, cronograma com marcos, matriz de riscos | É o que permite conferir mais tarde se a comunicação aconteceu de verdade |
Repare que quatro das seis colunas são nomes próprios: público, canal, responsável e registro. Isso não é acaso de diagramação. Um plano de comunicação que só tem substantivos genéricos é um plano que ninguém consegue cobrar, porque não há a quem perguntar por que o aviso não saiu.
A coluna de registro associado é a menos óbvia e a que mais paga depois. Ela amarra cada linha a um documento do próprio projeto, e é por causa dela que o plano de comunicação deixa rastro auditável. Sem essa coluna, a única prova de que uma comunicação aconteceu é a memória de quem participou.
Com quanta antecedência cada aviso sai
Frequência não é só periodicidade. Em quatro das oito linhas do caso, o que dispara a comunicação é um prazo antes de um evento, e não uma data do calendário. Escrever esse prazo é o que separa um plano que funciona sozinho de um que depende de alguém lembrar na véspera.
As três primeiras são fáceis de defender porque o prazo tem razão de ser. Quinze dias antes de cada onda de rollout é o tempo que um gerente de loja precisa para reorganizar escala. Sete dias antes do treinamento é o tempo de convocar quem está em folga. Quarenta e oito horas antes de uma janela de indisponibilidade é o tempo de avisar o cliente que o sistema vai cair.
A quarta linha é de outra natureza, e é a mais importante do plano inteiro. Ela não tem prazo em dias porque o gatilho dela não é o calendário: é a existência do pedido. Toda solicitação de mudança de escopo passa pelo comitê antes de qualquer execução, e “antes de qualquer execução” é uma ordem, não um prazo.
Uma linha por tipo de informação, não por reunião
A primeira das quatro instruções de preenchimento é essa, e é a que mais gente inverte. O reflexo natural é listar os encontros do projeto, porque encontro tem data e cabe numa agenda. Informação não tem data, tem público e gatilho, e é por isso que ela precisa de linha própria.
O teste é simples. Pegue uma linha do seu plano de comunicação e pergunte: se este encontro for cancelado, esta informação deixa de precisar circular? Se a resposta for não, a linha está escrita errada. Ela deveria descrever a informação, e o encontro seria apenas o canal atual dela.
No caso da rede de farmácias isso aparece com clareza no par de linhas do comitê. Status geral do projeto e riscos com mitigação em andamento saem os dois na reunião de comitê, os dois quinzenalmente, com o mesmo responsável. Poderiam ser uma linha só, se o critério fosse o encontro. São duas porque o registro associado é diferente: uma fecha em status report, a outra na matriz de riscos.
Essa separação parece burocracia até o dia em que o comitê não acontece. Aí alguém precisa decidir o que sai mesmo assim, e a folha responde: risco alto entra na pauta do comitê seguinte sem esperar o ciclo, porque a linha dele diz isso. Status geral pode esperar. Sem as duas linhas separadas, as duas esperam.
O público de cada linha sai da matriz de stakeholders
A coluna de público não se preenche de cabeça. A segunda instrução da folha amarra ela à matriz de stakeholders. É ela que classifica cada parte interessada por poder e por interesse, e é dessa classificação que sai o nível de detalhe do público, não do bom senso de quem preenche.
- Gerenciar de perto pede canal direto e nominal. No caso do kit, a diretoria recebe status em reunião de comitê, não em circular. Veja como montar o mapa de stakeholders do projeto antes de planejar a comunicação.
- Manter satisfeito pede frequência menor e canal de menos esforço, porque o interesse é baixo mas o poder é alto. Um resumo periódico costuma bastar.
- Manter informado é o grupo que mais sofre com plano genérico. São os stakeholders que executam a mudança no dia a dia, como os gerentes de loja e os farmacêuticos responsáveis técnicos do caso, e eles precisam de prazo, não de resumo.
- Monitorar é o grupo em que quase nenhuma linha do plano de comunicação deve terminar. Se muita linha sua cai aqui, o problema provavelmente está na matriz e não no plano.
O efeito prático de fazer essa amarração é que o público deixa de ser “todos os envolvidos”. No plano do caso, nenhuma das oito linhas usa um público genérico: cada uma diz diretoria de operações e TI, PMO e fornecedor implantador, gerentes de loja e farmacêuticos responsáveis técnicos, operadores de caixa e retaguarda.
Existe um motivo a mais para ser específico, e ele é jurídico em alguns setores. Numa rede de farmácias, a obrigação de enviar dados ao SNGPC da Anvisa recai sobre o responsável técnico de cada loja. Um aviso de indisponibilidade que não chega nominalmente a ele não é só falha de comunicação.
A linha que quase ninguém escreve: mudança de escopo
A instrução mais direta da folha é a terceira: mudança de escopo tem linha própria no plano de comunicação, e sem canal formal definido ela entra por fora, sem registro. É uma frase impressa na folha, não uma interpretação minha da folha.
A linha existe porque mudança de escopo é o único assunto do projeto em que comunicar e decidir são a mesma coisa. Um status report comunica algo que já aconteceu. Um pedido de mudança comunica algo que vai acontecer se alguém disser sim, e o canal por onde ele passa determina quem é esse alguém.
No plano da rede de farmácias a linha está escrita assim: solicitação e decisão de mudança de escopo, para diretoria, PMO e área solicitante, por comitê de controle de mudanças, sob demanda, antes de qualquer execução, com registro no controle de mudanças do projeto. Nada ambíguo nessa redação.
E ainda assim foi contornada. O plano de comunicação é de 16/02/2026 e o primeiro pedido fora do rito é de 02/04/2026, cerca de seis semanas depois. Isso importa para o diagnóstico: não foi um plano que chegou tarde. Foi um plano que chegou a tempo e não foi usado, o que é um problema de patrocínio, não de documento.
A regra de escalonamento: o que fazer quando trava
Abaixo da tabela fica um bloco reservado para a regra de escalonamento. Ele responde a uma pergunta que nenhuma linha da tabela responde: o que acontece quando a comunicação aconteceu, o assunto foi levado ao canal certo e mesmo assim ninguém decidiu.
No caso da rede de farmácias a regra tem duas partes escritas. Impasse não resolvido na reunião semanal sobe para a diretoria em até 48 horas. E risco classificado como alto na matriz de riscos entra na pauta do comitê seguinte, sem esperar o próximo ciclo quinzenal.
As duas partes atacam coisas diferentes. A primeira põe prazo na indecisão, que é o modo mais silencioso de um projeto atrasar. A segunda cria uma via expressa por criticidade, para que o ritmo quinzenal do comitê não vire o teto de velocidade de um assunto urgente.
Se você tiver que escolher uma única frase para acrescentar a um plano de comunicação que já existe, escolha a regra de escalonamento com prazo em horas. Ela é barata de escrever e é a que mais muda o comportamento, porque transforma silêncio em algo que vence.
O que não entra na comunicação de rotina
A folha reserva um bloco para o que fica de fora, e isso costuma surpreender quem vê o P10 pela primeira vez. Um dos três sinais de um bom plano de comunicação impressos no rodapé é justamente este: existe uma linha para o que não circula, não só para o que circula.
No caso, dois itens estão fora da rotina. Os termos comerciais do contrato com o fornecedor implantador e o valor individual de cada proposta de mudança não circulam fora da diretoria e do PMO. Não é sigilo por gosto: valor unitário de proposta em circulação aberta contamina a negociação seguinte.
Escrever a exclusão resolve um problema real de convivência. Sem ela, cada vez que alguém pergunta o valor de uma proposta, quem recebe a pergunta precisa decidir sozinho se responde, e decide diferente a cada vez. Com ela, a resposta é a mesma para todo mundo e não parece pessoal.
Um cuidado na redação: exclusão precisa de destinatário, não só de assunto. “Valor de proposta não circula” é vago. “Valor individual de cada proposta não circula fora da diretoria e do PMO” diz onde a informação para e por consequência quem pode receber.
O que o livro de Lean Seis Sigma diz sobre comunicação
No Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt, publicado pela Atlas, a comunicação aparece entre as competências do especialista, no capítulo 4, dedicado às skills do especialista em Lean Seis Sigma. A seção 4.2.8 trata do tema e sustenta que o efeito dela vai muito além de transmitir informação.
Na página 29, o texto começa assim: “Além de facilitar a transmissão de ideias, a comunicação eficaz e persuasiva também age como catalisador de inovação, facilita o gerenciamento de resistência a mudanças”. E segue: “constrói bons relacionamentos entre os funcionários, reduz riscos devido a interpretações equivocadas de processos e fornece o apoio necessário para a implementação de ideias inovadoras”.
Repare no item do meio, porque ele é o que mais se aproxima do P10: reduzir risco vindo de interpretação equivocada de processo. Uma das três mudanças fora do rito na rede de farmácias entrou porque uma área entendeu que o pedido dela estava dentro do escopo original. Não era má-fé. Era interpretação, e interpretação é exatamente o que um canal escrito reduz.
Há uma diferença de escopo que vale nomear. O livro fala da comunicação como habilidade de quem lidera projetos de melhoria, e o P10 fala da comunicação como desenho de processo. São coisas complementares: a habilidade faz a conversa render, o plano de comunicação garante que ela aconteça mesmo quando as pessoas mudam.
Como fazer um plano de comunicação em 7 passos
Os passos abaixo montam a folha do zero e valem para qualquer projeto, com ou sem o P10 na mão. O tempo total, com o escopo já fechado, costuma ficar em uma tarde.
- Feche a matriz de stakeholders antes. Ela diz quem decide mudança de escopo, e é essa resposta que vai virar o público da linha mais importante do plano de comunicação.
- Liste os tipos de informação, não os encontros. Status, progresso do cronograma, mudanças de escopo, riscos, convocações, indisponibilidades, encerramento. Um projeto de porte médio costuma parar entre seis e dez linhas.
- Dê público a cada linha usando o nome do cargo ou do grupo. Se você escrever “equipe”, volte e escreva quem dentro da equipe. O teste é conseguir apontar uma pessoa que precisa receber aquilo.
- Escolha o canal pelo registro que ele deixa. Assunto que vira decisão pede canal com ata, como a ata de reunião ou o próprio comitê. Assunto de aviso aceita canal leve.
- Escreva o gatilho da frequência, não só a periodicidade. “Quinzenal” basta para o que é cíclico. Para o resto, escreva o prazo antes do evento: 15 dias antes da onda, 48 horas antes da janela.
- Nomeie um responsável por linha e amarre o registro associado. Duas colunas, dois nomes próprios: quem emite e onde aquilo fica guardado depois de emitido.
- Feche com a regra de escalonamento e com o que não entra. Prazo em horas para impasse, e a lista curta do que não circula fora de um grupo nomeado.
Um erro de sequência comum é começar pelos canais, porque canal é a parte divertida de decidir. Comece sempre pelo público. Canal escolhido antes do público costuma ser o canal que o autor do plano gosta de usar, e não o que o destinatário abre.
Onde o plano de comunicação se encaixa no kit
Esta é a décima ferramenta do kit e fecha a fase de planejamento. Ela depende do que veio antes e alimenta o que vem depois, e essa cadeia é a parte que mais ajuda a preencher bem.
- Matriz de stakeholders (I02): entrega o público de cada linha e diz quem decide mudança de escopo. É a dependência mais forte do plano de comunicação.
- Análise de viabilidade (I03): aponta as ressalvas que vão precisar de comunicação específica. Veja como fazer a análise de viabilidade de um projeto.
- Cronograma com marcos (P06): é o registro associado das linhas de rollout e de progresso, e define as datas de onde saem os gatilhos de antecedência. Ele nasce da estrutura analítica do projeto.
- Matriz RACI (P08): dá o responsável por atividade, que costuma virar o responsável pela comunicação daquela atividade. Veja como montar a matriz de responsabilidade RACI.
- Matriz de riscos (P07): é o registro associado da linha de riscos e alimenta a regra de escalonamento por criticidade.
- Controle de mudanças (E12): é o registro associado da linha de mudança de escopo, e o lugar onde se mede se o canal foi respeitado.
A recomendação de sequência do próprio kit é explícita nos dois extremos dessa cadeia. Feche a matriz de stakeholders antes de planejar comunicação, porque é ela que diz quem decide mudança de escopo. E no item seguinte: o plano de comunicação define o canal único para decidir mudança de escopo, sem o qual a decisão informal por e-mail vira rotina.
Quem está começando pelo kit inteiro encontra o conceito de projeto e o ciclo de vida nas primeiras folhas. Quem já tem projeto rodando pode entrar direto pelo P10, desde que tenha o escopo aprovado em algum lugar para se apoiar.
Frequência fixa, por gatilho e sob demanda
As três formas de frequência convivem na mesma folha e têm riscos diferentes. Vale reconhecer qual é qual antes de escrever, porque cada uma falha de um jeito.
- Fixa: quinzenal, semanal, mensal. É a mais fácil de cumprir e a mais fácil de esvaziar. O risco é a reunião acontecer com a pauta vazia e as pessoas pararem de ir.
- Por gatilho de prazo: 15 dias antes de cada onda, 7 dias antes do treinamento, 48 horas antes da janela. É a mais confiável, porque o prazo se calcula sozinho a partir do cronograma.
- Sob demanda: só vale quando o gatilho que dispara a comunicação está escrito. A quarta instrução do P10 diz isso com todas as letras, e é a instrução que mais gente ignora.
A armadilha do sob demanda é que ele parece flexível e na prática é omisso. “Sob demanda” sem gatilho escrito significa que a comunicação depende de alguém julgar que chegou a hora, e esse julgamento é justamente o que o plano de comunicação deveria ter tirado da mesa.
O contraste dentro do próprio caso ajuda. A linha de mudança de escopo é sob demanda e tem gatilho escrito: antes de qualquer execução. É uma condição verificável, e é por isso que dá para afirmar com segurança que três pedidos a violaram. Sem essa frase, não haveria nem como acusar o desvio.
Indicadores para acompanhar o plano de comunicação
Plano de comunicação costuma ser avaliado por impressão, e impressão não corrige nada. Três medidas simples fazem o trabalho, e todas saem de documentos que o projeto já mantém.
- Percentual de mudanças que passaram pelo canal formal: pedidos aprovados pelo rito divididos pelo total de pedidos. Na rede de farmácias esse número ficou em 25%, ou seja, 1 de 4.
- Aderência de antecedência: quantos avisos saíram dentro do prazo escrito na linha. Mede o plano de comunicação onde ele é mais fácil de cumprir, e por isso é um bom termômetro precoce.
- Tempo até o escalonamento: quantas horas um impasse levou para subir. Compare com o prazo da regra, que no caso é 48 horas.
Os três indicadores conversam com os indicadores de desempenho em projetos que já existem no painel, e não pedem coleta nova. O primeiro sai do registro de mudanças, o segundo do cronograma e o terceiro da ata da reunião em que o impasse apareceu.
Exemplo de plano de comunicação preenchido
Abaixo está a folha P10 do caso, preenchida. Vale olhar a coluna de frequência primeiro, porque é nela que as três naturezas descritas acima aparecem lado a lado.
1. Vitalfarma: oito linhas, um canal para mudança de escopo (caso ilustrativo)
A folha é do projeto PRJ-2026-008, a implantação de um sistema único nas lojas de uma rede de farmácias. O responsável é Camila Duarte, do PMO, e a data é 16/02/2026, ainda na fase de planejamento.
A tabela tem oito linhas e nenhuma delas descreve um encontro genérico. Duas saem em reunião de comitê quinzenal, uma em reunião de acompanhamento semanal, três têm gatilho de prazo, uma é sob demanda e uma sai ao final do projeto.
A terceira linha é a que o caso inteiro gira em torno. Solicitação e decisão de mudança de escopo, para diretoria, PMO e área solicitante, por comitê de controle de mudanças, sob demanda, antes de qualquer execução, com registro no controle de mudanças. O canal estava nomeado desde o começo.
Nas linhas de gatilho por prazo aparecem os três números que mais se cobram na operação. São 15 dias antes de cada onda para o cronograma de rollout e 7 dias antes do treinamento para a convocação. A indisponibilidade programada de sistema sai 48 horas antes da janela.
O bloco de escalonamento fixa duas condições. Impasse não resolvido na reunião semanal sobe para a diretoria em até 48 horas, e risco classificado como alto entra na pauta do comitê seguinte sem esperar o ciclo quinzenal seguinte.
No rodapé ficam os três sinais de um bom plano. Toda solicitação de mudança de escopo com canal formal nomeado, público no nível de detalhe da matriz de stakeholders e uma linha para o que fica de fora da rotina. A folha atende aos três, o que mostra que um documento bem escrito é condição necessária e não suficiente.
O detalhe que mais ensina nessa folha é o contraste entre a redação impecável da terceira linha e o que aconteceu depois na execução. Documento bom não substitui patrocínio, e nenhuma ferramenta do kit consegue fazer isso sozinha.
Erros comuns no plano de comunicação
Os cinco abaixo aparecem com frequência e são todos de redação, não de método. Isso é uma boa notícia: custam uma revisão de meia hora para corrigir.
- Uma linha por reunião. O plano vira agenda, e quando a agenda muda o plano de comunicação inteiro fica obsoleto.
- Público genérico. “Equipe do projeto” e “todos os envolvidos” são endereços que não existem. Use cargo ou grupo nomeado.
- Sob demanda sem gatilho. Descrito acima, e o mais caro dos cinco, porque atinge justamente a linha de mudança de escopo.
- Coluna de responsável preenchida com uma área. Área não emite comunicação, pessoa emite. A comunicação empresarial sem dono vira comunicação de ninguém.
- Nenhuma linha de exclusão. Sem dizer o que não circula, cada pedido de informação vira uma decisão improvisada de quem recebeu o pedido.
Se quiser um sexto, acrescente este: plano de comunicação escrito por uma pessoa só, sem passar por quem vai receber a informação. Escuta ativa na hora de montar a folha economiza retrabalho depois, porque quem recebe sabe melhor do que você por qual canal ele realmente abre um aviso.
Plano de comunicação em projeto ágil e em cascata
Em cascata, o plano de comunicação é o que você acabou de ler: uma folha estável, escrita no planejamento e revisada em marcos. O escopo é fixo por definição, então a linha de mudança de escopo é o ponto de tensão do documento inteiro.
Em abordagem ágil, boa parte do plano de comunicação vira cerimônia com cadência própria, e a folha fica menor. A reunião diária, a revisão de fim de ciclo e a retrospectiva já são canais com público, frequência e registro definidos, e não precisam de linha própria repetindo o óbvio.
O que continua valendo nos dois é o que não cabe em cerimônia: comunicação com quem está fora do time, escalonamento de impasse e mudança que mexe em orçamento ou em data final. Essas três linhas sobrevivem a qualquer metodologia, e são justamente as que as conversas individuais costumam absorver sem deixar registro.
Modelo de plano de comunicação em branco para baixar
A folha em branco está abaixo, em PDF de uma página. É a mesma do caso, sem preenchimento, com as quatro instruções no topo e os três sinais no rodapé.
No arquivo está a folha do plano de comunicação com a tabela de comunicações planejadas, o bloco da regra de escalonamento, o bloco do que não entra na comunicação de rotina e os três sinais de um bom plano.
Abrir e baixar o P10 em branco (PDF)
Para preencher em sequência com o resto do kit, o caminho curto é: matriz de stakeholders, depois esta folha, depois o registro de mudanças. Quem prefere um formato de ação por linha pode combinar o plano de comunicação com um 5W2H ou com um plano de ação para as pendências que a folha gerar.
Se a sua dificuldade for menos de formato e mais de condução das conversas, os materiais de canais de comunicação e de comunicação assertiva tratam do outro lado do problema. E a Academia de Certificação da Voitto cobre o método completo de projetos, do termo de abertura às lições aprendidas.
