Excesso de trabalho: os sinais no corpo e o teste que desmonta a prioridade falsa
Laise Kasaoka é psicoterapeuta e passou 15 anos no corporativo. Dá os exercícios de dois minutos, o roteiro para falar com o gestor e por que equilíbrio total é morte.
Laise Kasaoka é psicoterapeuta e atende brasileiros que moram no exterior. Vive na Bélgica, morou na Espanha, e passou cerca de 15 anos no mundo corporativo — em gestão de pessoas, em cargo de liderança e em desenvolvimento de carreira e de liderança. Fez três transições de carreira. Nesta conversa com Adriana Cubas, ela mostra onde o excesso de trabalho aparece no corpo antes de aparecer na agenda, entrega três exercícios de dois minutos, e dá o roteiro para quem precisa levar o problema ao próprio gestor.
Equilíbrio permanente é uma linha reta — e linha reta é morte
Adriana Cubas levanta a armadilha: além de buscar equilíbrio, muita gente passa a se cobrar por não tê-lo o tempo todo.
A resposta de Laise é a imagem mais forte do episódio:
"A perspectiva da vida equilibrada todo o tempo me dá a sensação daquela linha da vida parada — que é sinal de morte. E a nossa vida é formada de altos e baixos." — Laise
E ela não para na metáfora. Explica para que serve o desequilíbrio:
"É importante, porque a gente passa por ciclos ao longo da nossa vida. Para a gente aprender, para a gente conseguir lidar com os nossos sentimentos, para a gente se desenvolver mesmo como ser humano. Então é importante ter esse desequilíbrio também — mas não quando tem excesso e por muito tempo, que daí pode causar prejuízos para a nossa saúde."
As duas variáveis que marcam o limite, então, não são a presença do desequilíbrio: são intensidade e duração.
Onde o excesso de trabalho aparece primeiro
Perguntada qual é o limite entre dedicação e excesso, Laise usa a imagem de um guarda-chuva com vários setores e aponta para onde o prejuízo vaza:
| Sinal | Onde aparece |
|---|---|
| O parceiro ou a parceira começa a reclamar | vida afetiva |
| Menos atenção para os filhos | família |
| Vida social encolhendo | relacionamentos |
| Mais fadiga | corpo |
| Sem tempo para exercício físico | saúde |
| Alimentação descuidada por causa do trabalho | saúde |
"Quando a gente vê que o trabalho está tomando uma proporção enorme, nos causando prejuízos na nossa vida social, nos nossos relacionamentos — tudo isso são sinais, são alguns perigos de que você está dando muita ênfase para esse lado profissional." — Laise
Adriana acrescenta a ferramenta que usa para não reduzir a vida a dois compartimentos: a roda da vida, que setoriza em amizade, relacionamento, convívio social, saúde física e saúde mental, com um nível de satisfação para cada eixo.
Os sinais no corpo, e a advertência que vem junto
"Tem alteração no sono, tem alteração no apetite, no intestino pode ter alteração, palpitação cardíaca." — Laise
E imediatamente a ressalva, que é correta e importante:
"Claro que você tem que fazer um check-up, uma avaliação médica para ver se é algo fisiológico. Mas tem muitos casos que é do estresse mesmo."
O caso dela própria:
"Numa empresa em que eu trabalhei há alguns anos, eu fiquei duas semanas com tontura, 24 horas por dia. Fiz exame de labirintite, neurológico, e não era nada. Era o estresse." — Laise
Os sinais não corporais que ela acrescenta: "aqueles pensamentos que ficam toda hora martelando", e a cobrança permanente.
"Você não para de funcionar, você está sempre em estado de alerta. Esse estado de alerta é um alerta para a nossa saúde mental. Não é saudável."
Ansiedade normal e ansiedade patológica
A distinção é feita com rigor, e vale porque o termo circula sem ela.
A ansiedade normal tem função:
"A ansiedade normal é boa naquelas situações em que a gente acha que é um perigo, ou que a gente tem que estar em estado de alerta, prestar mais atenção — porque é isso que faz a gente prestar mais atenção, para ver como a gente vai reagir. E aí, depois que passa essa situação, tem que diminuir o nosso ritmo, a gente tem que voltar para o estado normal." — Laise
O exemplo é falar em público: coração palpitando, garganta seca — e depois passa. O sistema nervoso trabalha com simpático e parassimpático.
A patológica se define pela não volta:
"Na ansiedade patológica, você sempre está nesse estado de alerta. Então você não relaxa, você não descansa. E aí começa a se tornar mesmo um transtorno."
Adriana levanta o uso impreciso do termo em entrevistas de emprego:
"Quando vem aquela pergunta de ponto forte e ponto fraco, invariavelmente as pessoas falam 'ah, eu sou muito ansiosa'. Mas em que contexto você é? A gente não pode colocar no mesmo balaio a ansiedade como emoção normal do ser humano, que todo mundo tem, e algo que é prejudicial." — Adriana Cubas
Os três exercícios de dois minutos
Esta é a parte mais aplicável do episódio. O objetivo declarado é fisiológico: fazer o parassimpático devolver o corpo ao estado normal.
A dose: três vezes por dia, dois minutos cada. "Pode ser fazendo qualquer coisa — pode estar numa reunião, pode estar escovando os dentes."
1. Contração muscular.
"Se estiver numa reunião, você pode contrair o músculo do antebraço e prestar atenção, respirar e prestar atenção nessa contração e no relaxamento. Só o fato de você prestar atenção — você foca a atenção nessa contração de contrair e soltar o músculo — já faz você tirar o foco daqueles pensamentos ansiosos." — Laise
2. Som. "O que eu estou escutando mais de pertinho? Qual é o som que está mais longe?"
3. Objeto. "Você pode pegar um objeto, uma caneta, e ver a textura da caneta, ver os detalhes da caneta."
E a condição que ela não deixa passar:
"É um trabalho de formiguinha, e todo dia. É como se fosse ir para a academia mesmo. Você para de fazer esse exercício, volta tudo de novo."
O que as empresas precisam fazer
Perguntada o que cabe à empresa, Laise começa pelo que mais ouve de pacientes:
"Por que eu só recebo e-mail do meu chefe cobrando? Ele nem me pergunta como eu estou, se eu estou bem. Não, é só me cobrando. Domingo de noite, ou cobra no feriado, ou cobra nove horas da noite por uma resposta às seis da manhã — foge da jornada de trabalho." — relato de pacientes, segundo Laise
E ela faz uma ressalva que evita transformar o gestor em vilão:
"Eu entendo também que os líderes estão numa situação complicada para eles também. Eles têm que lidar com os sentimentos deles, com as angústias deles, para lidar com a equipe. Apesar de saber que faz parte da função, para eles também é complicado, porque é uma situação atípica."
Os dois movimentos que ela cobra da empresa
1. Colocar saúde mental no orçamento. Uma linha de investimento, não uma campanha.
2. Trabalho de conscientização e mudança de cultura — de cima para baixo.
"E isso começa na cúpula. É de cima para baixo. Mudar cultura não é fácil, mas é possível."
O argumento financeiro
Laise traz dois dados para desmontar a objeção de custo:
"Saúde mental é importante para a saúde das pessoas, mas também para a saúde financeira da empresa. Então não tem desculpa de que não vai dar resultado. Claro que dá." — Laise
O que importa retomar aqui é a direção: há evidência internacional de que investir em tratamento de depressão e ansiedade retorna várias vezes o valor aplicado, em saúde e em capacidade de trabalho.
O exemplo da semana coletiva
Ela cita uma grande empresa de tecnologia que deu uma semana de folga para praticamente toda a equipe ao mesmo tempo, mantendo só o mínimo em operação. O raciocínio por trás é o que interessa:
"Eles fizeram isso porque eles sabem que, se a pessoa tiver de férias em home office, mesmo assim as pessoas vão ficar cobrando — ela não vai conseguir descansar. Então eles pararam tudo que tinha para parar, para que todo mundo conseguisse descansar." — Laise
É um argumento estrutural, não de generosidade: férias individuais não funcionam quando a organização continua rodando e cobrando.
O que o gestor pode fazer sem ser psicólogo
Esta é a resposta mais útil para quem lidera e tem medo de errar no assunto.
"Às vezes eles ficam com medo de perguntar, por não saber como agir em determinadas situações. Mas, ao mesmo tempo, o que as pessoas precisam é saber que ele está lá. Acolher, e às vezes só escutar. Falar assim: olha, eu não sei o que fazer nessa situação, mas eu estou aqui, se você quiser, eu estou aqui para te escutar. Isso já é suficiente." — Laise
E por que basta:
"É o que faz a pessoa se sentir querida como pessoa mesmo — não só como um funcionário, um número da empresa."
Criar o ritual que o deslocamento criava
"Quando a gente trabalhava nas empresas, tinha o deslocamento, tinha todo um ritual para fechar. A gente tinha o tempo do deslocamento para pensar no nosso dia e chegar em casa, às vezes para relaxar. Agora não tem mais. Então é importante que você crie os seus próprios rituais." — Laise
O exemplo de uma cliente dela: uma caminhada de 15 minutos no fim do expediente — "e aí o meu corpo vai entender, meu cérebro vai entender que acabou o expediente".
Adriana oferece a versão dela: um banho e um filme "que eu não preciso pensar, que eu simplesmente posso sentar e me divertir, e deixar a minha imaginação trabalhar".
"A gente se dá esse direito, porque senão a gente pode cair no risco de ter um burnout." — Adriana Cubas
Burnout não se trata sozinho
A resposta é curta e não admite nuance:
"O burnout não dá para tratar sozinho. É uma doença. É fisiológico. Então tem que ser trabalhado antes, até como prevenção. Mas depois que já virou burnout, não tem como — só com ajuda psiquiátrica e psicológica. Tem que ter um trabalho em conjunto. É um processo para você se recuperar. Não dá para brincar com isso, não." — Laise
E o contexto brasileiro que ela traz para dimensionar a urgência: o Brasil tem a maior taxa de transtornos de ansiedade do mundo segundo a Organização Mundial da Saúde.
Como levar isso ao seu gestor
Perguntada como o colaborador deve abordar o líder quando percebe a piora, Laise dá um roteiro — e ele tem duas versões, dependendo de quem está do outro lado.
O método de base é comunicação não violenta:
"Vale chegar e falar: olha, eu estou me sentindo assim, por causa disso, e aí eu gostaria disso. Falar sobre os seus sentimentos, o que está acontecendo, e daí fazer o pedido." — Laise
E o que não fazer:
"E não chegar: 'ó, está muito estressante aqui, eu não gosto dessa atividade, então eu quero mudar'."
A adaptação que raramente é dita:
"Dependendo do perfil do gestor, ele é mais de dados e fatos, mais de resultado. E aí, se você for chegar muito no sentimento, pode ser que não dê certo. Então, de repente, você já vai mostrar os fatos: olha, a minha produtividade antes era essa, agora é essa. Então eu quero voltar a fazer o que eu fazia antes, mas eu não estou conseguindo. Me ajuda aqui." — Laise
O pré-requisito dos dois caminhos é o mesmo:
"Se a gente não sabe dar nome e sobrenome ao que a gente está sentindo, a gente não consegue deixar isso claro para as outras pessoas."
Quando a empresa não ajuda e não dá para sair
A pergunta é das mais concretas do episódio: e quem não tem suporte da empresa, não pode pagar terapia e não pode pedir demissão?
Sobre o custo da terapia:
"Eu entendo que terapia é um investimento alto, que muitas vezes vai metade do salário, quase um salário. Mas tem instituições que fornecem esse tipo de auxílio por um valor social, como eles chamam. As universidades têm esse trabalho, tem algumas instituições que fazem esse tipo de trabalho também, e daí o valor é bem acessível." — Laise
Adriana complementa com a instrução de busca: pesquisar serviços terapêuticos a valor social na própria cidade, porque faculdades de psicologia e institutos frequentemente mantêm projetos de atendimento à comunidade. E lembra que planos de saúde às vezes subsidiam.
"Esperamos que isso deixe de ser um privilégio e seja um direito para todos." — Adriana Cubas
Sobre não poder sair: a resposta é planejamento, não resignação nem impulso.
"Não tem condições de largar o emprego agora, tem a questão financeira — mas tem como planejar para buscar mais para frente, ou se movimentar e fazer ações já para fazer esse movimento. Porque ficar com 'ah, eu não consigo sair e vou ficar por aqui mesmo' angustia mais ainda. Não largar na louca, mas fazer um planejamento." — Laise
A credencial dela para dizer isso são três transições de carreira próprias. A primeira veio exatamente do episódio da tontura: saiu da empresa privada, estudou para concurso, passou, trabalhou sete anos no serviço bancário público e fez dali a transição para a clínica.
Adriana aproveita para marcar posição contra o conselho oposto:
"Teve um boom dessa coisa de 'largue tudo para viver os seus sonhos e ter o emprego que você ama'. E não é assim que funcionam as coisas. A gente tem que entender quais são as etapas, nos prepararmos, ter paciência, saber pensar a longo prazo, para poder fazer essa mudança de uma maneira saudável." — Adriana Cubas
Excesso de trabalho reduz a produtividade — não aumenta
A pergunta final inverte o pressuposto do tema: é possível reduzir o excesso sem perder produtividade?
"Os estudos mostram que esse excesso de trabalho, esse estresse, ele diminui a produtividade. É o inverso. Porque você está sempre nesse estado de alerta, então você faz sem pensar, é meio que automático. Agora, quando você tem tempo de descansar, de pensar, de processar tudo, daí vem essa criatividade, vem mais soluções inovadoras, otimiza mais os processos." — Laise
E a pergunta que ela devolve:
"Que produtividade é essa? Vale a pena repensar: é produtividade mesmo, ou é só sair fazendo no automático?"
Adriana nomeia a outra motivação da ocupação permanente:
"Muitas vezes a gente quer estar ocupado o tempo inteiro não porque quer produzir algo benéfico para a vida ou para o trabalho, mas para mostrar para os outros: olha como eu estou ocupado, olha como eu estou trabalhando. Como se momentos de ócio fossem um pecado." — Adriana Cubas
O teste que desmonta a prioridade falsa
O fecho do episódio é a parte mais reaproveitável, e serve para qualquer pessoa com uma lista de tarefas.
"Todo mundo fala 'isso daqui é prioridade', e daí só vira prioridade. Prioridade em cima de prioridade não é nada." — Laise
Os três testes que ela propõe para cada demanda que chega:
- "E se eu não fizer? O que de pior pode acontecer?"
- "É prioridade para quem? É para mim ou para ele?"
- E a evidência retrospectiva: "muitas vezes é uma prioridade, a gente faz, e a pessoa deixa lá por um, dois meses. Então, que prioridade é essa?"
Adriana acrescenta a calibração do que é urgente:
"Urgente, para mim, é algo que realmente não tem jeito, caso de vida ou morte, quando é algo muito pontual e específico que tem que parar tudo para resolver. E não é todos os dias, o dia inteiro, 24 horas por dia, que isso acontece." — Adriana Cubas
E Laise fecha ligando a prioridade ao limite:
"Muitas vezes dizer não, porque você não tem que aceitar tudo. Você tem que respeitar os seus limites. Porque quando você diz um sim para ele, você está dizendo um não para você. E aí, quantos não você vai dizer para você? Até que ponto?"
Pedir ajuda não é fraqueza
O encerramento é sobre estigma, e as duas são explícitas.
Adriana, sobre a própria experiência:
"Eu mesma faço terapia há seis anos, e mudou minha vida, me ajuda muito. Então vamos parar com essa coisa de tabu, de vergonha." — Adriana Cubas
E a formulação final:
"Reconhecer que você precisa de ajuda, pedir ajuda, agir em seu favor, em benefício da sua saúde mental — é um ato de coragem, é um ato de amor próprio, de muita força."
Quem é a convidada
- Psicoterapeuta, com atendimento voltado a brasileiros que moram no exterior e foco em psicologia intercultural
- Vive na Bélgica; morou na Espanha
- Cerca de 15 anos no mundo corporativo, com atuação em gestão de pessoas, em cargo de liderança e em desenvolvimento de carreira e de liderança
- Três transições de carreira: da empresa privada para o serviço bancário público, via concurso, onde ficou sete anos; e dali para a clínica
A entrevistadora é Adriana Cubas, palestrante e consultora de carreira, apresentadora do quadro Escalando Carreiras do VoittoCast.
Ouvir o episódio
VoittoCast #104 — Saúde mental: os perigos do excesso de trabalho Quadro: Escalando Carreiras, com Adriana Cubas
Para aplicar
- Todos os episódios do VoittoCast
- Como ser mais produtivo no trabalho, sem fórmula
- Inteligência emocional no trabalho: o que muda
- Soft skills: os três grupos que importam
- Planejamento de transição de carreira: 2 critérios
- Saúde mental no trabalho: o que é e como cuidar
- Cansaço mental: causas e o que fazer
- Dicas para controlar a ansiedade
- Roda da vida: como preencher e o que fazer com o resultado



