Carreira & Desenvolvimento

Soft skills: os três grupos que importam, e como provar que você tem

Carolina Borges pesquisa soft skills há 10 anos e faz pós-doutorado em Harvard. Ela ensina o autodiagnóstico de 5 minutos e como tirar o clichê do currículo.

Thiago Coutinho
Publicado em 20 de out de 2026  ·  Atualizado em 20 de out de 2026  ·  13 min de leitura
Capa do artigo Soft skills: os 3 grupos que importam e como provar, com a arte do episódio 18 do VoittoCast e a foto do convidado

Carolina Borges é mineira de Contagem e, há cinco anos, professora efetiva numa faculdade em New Jersey. É pesquisadora em ciências sociais e do comportamento, com foco em confiança e relacionamentos, faz pós-doutorado na Universidade de Harvard e mantém uma consultoria nos Estados Unidos. Pesquisa soft skills há dez anos. Nesta conversa com Adriana Cubas, ela organiza o tema em três grupos, dá um exercício de diagnóstico que custa zero, e responde a pergunta que trava a maioria dos candidatos: como colocar isso num currículo sem cair no clichê.

O que são soft skills — e o que não são

"Soft skills são as nossas competências e habilidades no que se refere às competências socioemocionais e do comportamento. Tudo que se refere a como você se relaciona consigo mesmo, como você se relaciona com o contexto e com os outros, e o seu comportamento." — Carolina Borges

É comportamento? É. Habilidade social? Também. Emocional? Também. Mas não só uma das três.

E a distinção que mais evita confusão vem depois, quando ela separa soft skill de atributo:

"Soft skill também não é algo relacionado a ser legal com os outros. Não é sobre simpatia. Não tem nada a ver com a pessoa ser muito extrovertida — isso é um atributo. Ser introvertido ou extrovertido é uma característica individual." — Carolina Borges

O exemplo que ela usa é dela mesma: a timidez era um atributo. A pergunta certa não era como deixar de ser tímida, e sim:

"Quais são as soft skills que me ajudariam a deixar o meu atributo não mais como uma barreira para o meu desenvolvimento profissional? Aí eu podia pensar: ah, oratória. Dentro da comunicação, oratória poderia me ajudar — fazer um curso de expressão."

E o fecho sobre treinabilidade:

"Não existe essa coisa de não ser treinável."

Por que o técnico tem teto

Borges é explícita em não desqualificar a competência técnica — e em dizer onde ela para:

"A gente vem de uma sucessão de hipervalorização do técnico. E aqui eu não estou dizendo que o técnico não importa, é claro que importa. Só que o técnico leva a gente até um determinado ponto. Depois de certo ponto, a gente começa a perceber que o que leva a gente onde a gente quiser são esse grupo de habilidades sociais, emocionais e do comportamento." — Carolina Borges

A causa que ela aponta é de formação:

"Nós viemos de uma formação extremamente tecnicista, quase robótica. Vamos repetir, vamos treinar."

E ela usa a própria trajetória como evidência:

"Eu não tinha o currículo melhor para estar aqui, concorrendo de igual para igual. Mas eu tinha a compreensão de que eram as minhas soft skills que me trariam para cá."

Adriana Cubas contextualiza o que ficou para trás: o modelo linear dos anos 90 — faculdade, bom emprego, uma empresa a vida toda, aposentadoria.

"Hoje não adianta você ter uma graduação que vai garantir um trabalho, nem um currículo impecável tecnicamente que vai abrir as portas. Tem também a parte da sua postura, do seu comportamento, de como você expressa ou não expressa as suas competências." — Adriana Cubas

Os três grupos de soft skills que importam

Borges começa recusando a premissa da pergunta sobre "habilidades do futuro":

"Futuro é hoje."

E separa três grupos.

1. Resolução de problemas

"Grande parte das pessoas se engana que são boas, que resolvem problemas." — Carolina Borges

O que o grupo exige, desmembrado:

  • Flexibilidade cognitiva — "você precisa desconstruir o tempo inteiro o seu modelo mental, o seu pensamento"
  • Diante de uma gama de informação, decidir o que fazer
  • Dar o passo para a execução

E a armadilha que ela nomeia:

"Muita gente está parada em acúmulo de conhecimento. Vou ler diversos livros, vou saber todas as teorias. Cara, se eu não pratico nada disso, eu sou erudita, ponto. Mas eu não sou uma boa solucionadora de problemas."

2. Autogestão e autorregulação

"O profissional de hoje e do futuro é aquele que resolve problemas, com pensamento crítico, mas que tem um conhecimento dele próprio para gerir as ações — as emoções e os sentimentos dessas ações — e como aquilo desencadeia os próximos passos dentro do cotidiano do trabalho." — Carolina Borges

Ela trata isso como os dois componentes operacionais da inteligência emocional:

"Autoconhecimento, chãozão de fábrica da inteligência emocional. E autorregulação. Não tem jeito."

3. Lidar com gente

"Não tem 'ah, minha área'. Antigamente falavam: não, eu sou da área de exatas, eu sou de TI, não preciso. Não. Não existe isso." — Carolina Borges

E dentro desse grupo, o item em alta demanda é comunicação — que, ela insiste, vai muito além da fala:

"A gente teve que se policiar para escrever e-mails melhores. Na escrita, na fala, na abordagem, porque a gente saiu de um padrão de repetição para ter certeza de que a nossa mensagem é eficaz."

Como desenvolver: dois passos que custam zero

Passo 1: o autodiagnóstico de cinco minutos

"Uma maneira que custa zero reais é você literalmente parar — que seja cinco minutos do seu dia. E não é todo dia: uma vez, pelo menos, no semestre, ou uma vez no mês. Cinco minutos, e faça um autodiagnóstico." — Carolina Borges

O método é deliberadamente simples: papel, ou o bloco de notas do celular, e duas colunas — no que você manda bem, dentro de soft skills, e o que ainda tem espaço para aperfeiçoar.

E a razão pela qual a pausa é o passo e não o preâmbulo:

"Se a gente não faz essa pausa para o autodiagnóstico, a gente começa a ficar consumido excessivamente pela gama de opções e de conteúdo que chega. E aí você fala: poxa, meu Deus, eu não sei. E agora?"

Ela chama isso de etapa zero de atuação.

Passo 2: praticar, não acumular

"Tem muito material gratuito. Mas aplica. Se a gente só fica estudando e sem praticar — saber sobre algo não significa saber executar aquele algo. Para soft skills é a mesma coisa. Se a gente ficar só lendo sobre algo, a gente vai continuar sem habilidade, sem competência para executar aquele algo." — Carolina Borges

O exemplo que ela dá é concreto o bastante para virar tarefa: se você não manda bem em feedback — que está dentro de comunicação —, vá aprender o que é preciso para dar e receber. Se você é a pessoa impulsiva que lê o e-mail e quer responder na hora, já diagnosticou: como pode fazer para melhorar?

E ela cobra a frase que todo mundo repete:

"De repente todo mundo passa a repetir aquela frase clichê: somos contratados pelas hard skills e somos demitidos pelas soft. Mas muita gente fala e nem está pensando no que significa."

O que muda no trabalho remoto

Flexibilidade com limites

"A gente ser flexível, mas respeitando limites. No começo da pandemia foi superdifícil para mim colocar um limite do meu tempo. Eu estava como se eu fosse call center, trabalhando 24 horas, 7 dias na semana." — Carolina Borges

Os limites que ela cita são banais e por isso difíceis: horário de reunião e horário de envio de mensagem.

"A ação vai muito mais rápida antes da gente refletir. Está na hora de eu mandar uma mensagem para o meu grupo hoje, sábado?"

Empatia constante com a vulnerabilidade

O trecho tem a melhor imagem do episódio. Durante as reuniões por vídeo, apareceu o filho de alguém, o vizinho batendo na porta, a emergência doméstica.

"A gente equalizou todo mundo. Quando eu penso nos crachás que a gente tem, o nosso crachá devia ter informação humana — porque a gente não é cargo, a gente não é o nosso diploma. A gente é nossas escolhas, a gente é a nossa conduta, a gente é quem a gente é, a gente é nossos valores." — Carolina Borges

E a conclusão:

"Hoje não cabe olhar nem para a empatia nem para a vulnerabilidade como fraqueza ou vergonha. Numa era de digitalização, de tecnologia, de big data, a gente ainda é humano — e é pela nossa humanidade que a gente vai sempre se conectar com o humano."

Capacidade de reinvenção

"Nós temos um medo implacável de julgamento alheio — e, claro, da experimentação."

E aqui entra a parte dirigida a quem lidera. Borges é direta sobre a condição que falta:

"A gente, no Brasil, tem uma cultura de que errar não pode. Então, depende: vai errar o quê? Numa mesa de cirurgia é um assunto. Temos pequenos passos intermediários, e aí, como líderes, é colocar nesse contexto — porque o adulto só experimenta se está num contexto seguro. E a liderança faz toda a diferença." — Carolina Borges

Soft skills no currículo, sem clichê

Pergunta de uma espectadora: como apresentar soft skills no currículo sem cair em "sou muito pontual, muito responsável, muito comprometido"?

A resposta começa com a cobrança que Borges faz como recrutadora:

"A gente vai no automático: ah, eu sei trabalhar em time, sou um ótimo colaborador. Eu pergunto: amigo, amiga, me dá um exemplo? Aí tem aquele silêncio." — Carolina Borges

A regra:

"Traz exemplo no seu currículo, assim como a gente faz para as suas competências técnicas. E o currículo continua enxuto."

Como se faz, na prática:

Em vez de Escreva
"trabalho bem em equipe" qual foi o desfecho daquele projeto de que você fazia parte, e o que você trouxe para ele
"boa comunicação" que tipo de comunicação: relatório técnico, comunicação interna, externa, vídeo — e, se possível, um número
"sou proativo" um exemplo, em uma frase, com o resultado

"Se você não me contextualiza com um exemplo sequer, para mim não valeu nada. Fica fraca e vazia, e muito possivelmente não vai te ajudar a se destacar."

E a dica operacional: no tempo de autodiagnóstico, busque também os exemplos.

Na entrevista: explícito, sem rodeio

Pergunta de um espectador: é melhor deixar as soft skills implícitas enquanto falo dos meus projetos, ou declarar explicitamente?

"Explicitamente, sem medo de ser feliz e sem medo de ser julgado. A gente não pode, em nenhum momento — nem da vida nem da entrevista — assumir que aquilo está claro, líquido e certo para quem te ouve." — Carolina Borges

E o enquadramento que resolve o medo:

"Se te julgarem, pode ter certeza que aquele lugar não é para você, porque toda entrevista deveria ser via de mão dupla."

Adriana Cubas acrescenta o erro mais comum que vê como preparadora de candidatos:

"Um dos maiores erros dos candidatos em uma entrevista de emprego é ir com a intenção de 'meu Deus, eu preciso agradar a recrutadora, essa é a minha missão'. Já começou perdendo. Porque daí o seu foco vai ficar tanto em agradar que o que é importante — as soft skills, os seus feitos — fica embaixo." — Adriana Cubas

E a tática de ordenação: a informação mais relevante vem no começo da resposta. Dois exemplos de soft skills mais três de hard, segundo Borges, "eu vejo isso como um grande plus".

"Mas eu não tenho resultado para contar"

Esta é a parte mais útil do episódio para quem está começando, ou vem de função operacional.

A objeção que Adriana Cubas formula: "eu não vou falar de resultado no currículo porque eu sou caixa de supermercado — que resultado eu tenho?"

Borges conta o caso de uma aluna que trabalhava como atendente de cafeteria e não sabia como registrar aquilo. As perguntas que ela fez:

  • Quantos clientes, em média, passam pelo seu caixa por semana? Por mês?
  • O que te torna única naquele cargo?
  • "Você só escreve o nome porque é um padrão da empresa, ou tem algo mais que você faz?"

E o diagnóstico de fundo:

"A gente tem essa cabeça de lembrar muito mais do que falta para a gente do que de enaltecer o que a gente tem em mãos, os recursos que a gente tem em mãos. E aí fica: poxa, não tenho isso, faltou diploma nisso. Não — enaltece. E aí a gente muda a forma de contar a história, que é uma forma digna, honesta: a gente não está inventando nada, mas está entregando de outra forma." — Carolina Borges

Com um limite claro:

"O que falta não pode ser protagonista nem diminuir o que a gente tem de potência."

O que deixar no passado

Perguntada o que não cabe mais, Borges aponta duas coisas — e a segunda ela apresenta explicitamente como opinião pessoal.

1. A compartimentalização excessiva de áreas. O "cada macaco no seu galho" não sobrevive numa era de colaboração. O exemplo que ela usa é o desenvolvimento de vacinas num prazo que exigiu interdisciplinaridade real.

E a versão falsa disso, que ela chama de discurso vazio:

"Interdisciplinaridade bonita, só para falar quando a gente está recebendo um avaliador, ou se a gente está fazendo alguma auditoria: 'não, olha aqui, trabalhamos em time, as áreas conversam'. Esse discurso vazio não cabe mais." — Carolina Borges

2. O ego acima da colaboração. Perguntada por que o Brasil não tem prêmio Nobel, ela responde deixando claro que é leitura pessoal, sem base científica:

"A gente ainda não sabe viver genuinamente a colaboração, porque tem ego. E aí o ego de X ou Y vai prejudicar um grupo inteiro por vaidades privadas, particulares."

E a honestidade de não transformar isso em comparação favorável ao exterior:

"Uma das razões pelas quais eu decidi ter uma recolocação profissional foi: eu quero viver colaboração de verdade. Não é que aqui não tenha ego — mentira, claro que tem. Mas a gente tem uma abordagem diferente."

Menos esponja, mais filtro

As duas fecham com uma crítica à erudição performada.

Borges:

"Não me impressione com sua foto de livro, me mostra a sua ação. Se não é um romance, se não é algo bom para você como tempo de lazer, se é algo técnico ou aplicado — o que você faz com isso? Ponto." — Carolina Borges

Adriana Cubas:

"Vale muito mais a pena você ler um livro por ano, colocar em prática e aprender tudo que você aprendeu naquele único livro, do que ler dez rapidinho e postar no Instagram." — Adriana Cubas

E a formulação que resume a postura:

"A gente tem que ser menos esponja e mais filtro, para entender o que realmente é bom para a gente, o que realmente faz sentido." — Adriana Cubas

Quem é Carolina Borges

  • Mineira de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte
  • Professora efetiva numa faculdade no estado de New Jersey, nos Estados Unidos, onde vive há cinco anos
  • Pesquisadora em ciências sociais e do comportamento, com linha de pesquisa em confiança e relacionamentos
  • Pós-doutorado na Universidade de Harvard
  • Mantém uma consultoria nos Estados Unidos, com treinamentos e revisão de processos sob a ótica das soft skills
  • Pesquisa o tema há cerca de dez anos

A entrevistadora é Adriana Cubas, palestrante e consultora de carreira, apresentadora do quadro Escalando Carreiras do VoittoCast. Atua na preparação de candidatos para processos seletivos e vem da área de treinamento.

Ouvir o episódio

VoittoCast #18 — Soft Skills: quais são as habilidades do profissional do futuro? Quadro: Escalando Carreiras, com Adriana Cubas Convidada: Carolina Borges

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Página do episódio no VoittoCast

Para aplicar

Perguntas frequentes

O que são soft skills?
São competências e habilidades socioemocionais e do comportamento: como você se relaciona consigo mesmo, com o contexto e com os outros. Envolvem comportamento, habilidade social e dimensão emocional ao mesmo tempo — não apenas uma das três.
Soft skill é a mesma coisa que ser simpático?
Não. Segundo Carolina Borges, soft skill não é sobre simpatia nem sobre ser extrovertido. Introversão e extroversão são atributos individuais. A pergunta correta não é como mudar o atributo, mas qual soft skill impede que ele seja uma barreira — no caso dela, oratória para lidar com a timidez.
Quais são as soft skills mais importantes?
Borges agrupa em três: resolução de problemas, que exige flexibilidade cognitiva e execução, não só acúmulo de teoria; autogestão e autorregulação, os dois componentes operacionais da inteligência emocional; e a capacidade de lidar com gente, com comunicação em alta demanda.
Como desenvolver soft skills sem gastar?
Com dois passos. Primeiro, um autodiagnóstico de cinco minutos, uma vez por mês ou por semestre: duas colunas, no que você manda bem e o que tem espaço para melhorar. Segundo, praticar — porque saber sobre algo não é saber executar aquele algo.
Como colocar soft skills no currículo sem clichê?
Com exemplos, do mesmo jeito que se faz com competência técnica, mantendo o currículo enxuto. Em vez de "trabalho bem em equipe", descreva o desfecho de um projeto e o que você trouxe a ele. Em vez de "boa comunicação", especifique qual tipo e, se possível, um número.
Na entrevista, devo declarar minhas soft skills ou deixar implícito?
Explicitamente. Borges argumenta que não se pode assumir que aquilo está claro para quem ouve. Ela sugere declarar e exemplificar, lembrando que a entrevista é via de mão dupla — e Adriana Cubas acrescenta que ir à entrevista com a missão de agradar o recrutador faz o candidato perder o foco no que importa.
E se eu não tiver resultados para contar?
Você provavelmente tem, formulados de outra forma. As perguntas que Borges usa com alunos em função operacional: quantas pessoas você atende por semana, por mês, e o que torna você única naquele cargo. A questão é parar de usar o que falta como protagonista da própria história.
Como desenvolver inteligência emocional?
Começando por nomear a emoção e decidir o que fazer com ela. O teste prático que ela dá: hoje é um bom dia para dar feedback? Você está em condição de conduzir um feedback neutro, não carregado de subjetividade? E depois, praticar — a leitura sozinha não produz a competência.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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