Carreira & Desenvolvimento

Planejamento de transição de carreira: os dois critérios que dizem se é hora de mudar

Fernando Barra trabalha com tecnologia há 25 anos e escreveu sobre futuro do trabalho. Dá o teste da prateleira da livraria e a regra de preço da habilidade.

Thiago Coutinho
Publicado em 20 de out de 2026  ·  Atualizado em 20 de out de 2026  ·  13 min de leitura
Capa do artigo Planejamento de transição de carreira: 2 critérios, com a arte do episódio 59 do VoittoCast e a foto do convidado

Fernando Barra trabalha na área de tecnologia há 25 anos. Foi programador, teve uma empresa de desenvolvimento de sistemas e passou pelas maiores empresas de tecnologia do setor. Em 2018 especializou-se em dados, analytics e inteligência artificial, e em 2019 publicou um livro sobre o futuro do trabalho. Nesta conversa com Adriana Cubas, ele oferece dois critérios objetivos para decidir sobre uma transição, quatro formas de descobrir a própria habilidade — incluindo uma que acontece numa livraria — e a regra que determina quanto aquela habilidade pode cobrar.

De onde veio a pergunta

A origem do trabalho dele sobre o tema é uma frase que ele ouviu repetidamente, apresentando plataformas de inteligência artificial a empresas:

"No final, o pessoal falava: Fernando, foi muito legal a sua apresentação, aprendi bastante sobre inteligência artificial — mas eu fiquei preocupado. Porque, se a minha empresa comprar e começar a usar isso daí, o meu emprego pode sumir." — Fernando Barra

E a distinção que organiza todo o resto:

"O primeiro capítulo diz: meu emprego sumiu, mas o meu trabalho, não."

Trabalho e emprego não são a mesma coisa

"As pessoas confundem essas palavras. Emprego é só uma forma de trabalhar. Quando eu penso no trabalho, o significado mais simples do trabalho é ajudar uma pessoa a resolver um problema — através das minhas habilidades." — Fernando Barra

A consequência prática é imediata: se trabalho é resolver problema com habilidade, a pergunta de carreira deixa de ser "qual profissão eu escolho" e passa a ser "qual problema eu resolvo, para quem, com o que eu sei fazer".

O arco histórico que ele usa para sustentar isso

Momento A tecnologia O que mudou no trabalho
Revolução agrícola o fogo o caçador queimou um grande espaço, não havia mais animal para caçar — e o homem aprendeu a plantar
Século XVIII as máquinas deixou de ser agricultor e foi operar máquinas dentro de empresas. "Aí que surgiu, inclusive, a palavra emprego"
Depois vapor, mecânica, eletricidade, software, internet, celular a mesma máquina, mudando de forma
Agora dados e inteligência artificial "mais uma vez a humanidade está revendo a forma de trabalhar"

E a observação sobre como revoluções acontecem, que é o que explica a sensação de estar perdido no meio delas:

"Uma revolução não acontece numa data e hora marcada. Todo mundo não pega as mãos e fala 'olha, começou a revolução digital e já está valendo'. É um processo com uma série de acontecimentos, e geralmente a gente se dá conta depois que já aconteceu." — Fernando Barra

Os dois critérios para decidir

Esta é a parte mais acionável do episódio, e ela cabe em duas linhas.

"O objetivo do trabalho, basicamente, são dois. Primeiro, me trazer uma remuneração. E o segundo, que não pode ser esquecido, é me desenvolver." — Fernando Barra

A partir disso, a regra de decisão:

"Se você está num trabalho em que você não está aprendendo nada novo, não está se desenvolvendo — ou o valor que você recebe por aquele trabalho não atende as suas necessidades — é momento de você pensar numa transição."

Repare que é um "ou", não um "e". Qualquer um dos dois eixos falhando já é razão para abrir a conversa.

O medo é biológico, não é fraqueza

"Esse medo de mudar é natural, todo mundo sente. E o nosso cérebro é feito para correr o menor risco possível e para sobreviver o máximo. Tudo que ele puder fazer para reter energia, para consumir menos energia, ele vai fazer — porque para ele é uma forma de a gente sobreviver mais." — Fernando Barra

E o exemplo cotidiano que ele usa:

"Por isso que é tão gostoso comer um chocolate e é tão difícil ir para uma academia. Por mais que a gente saiba que isso é saudável e vai dar mais longevidade, o cérebro sempre pensa em gastar o mínimo de energia possível."

Ninguém começa do zero

"Independente da mudança, ninguém sai do zero. Você leva as habilidades que você tem." — Fernando Barra

Os casos que ele já viu, conversando com leitores: cozinheiro que virou engenheiro, professor de faculdade que virou palhaço.

E a própria experiência dele é de uma transição que aconteceu sem que ele notasse:

"Eu já tinha cinco anos dentro da empresa e eu já não fazia a mesma coisa. Aquilo que ela me contratou para fazer — vender uma ferramenta de business intelligence muito conhecida do mercado — já não existia mais. De repente eu olhei e falei: gente, eu já estou fazendo outra coisa e eu não me dei conta." — Fernando Barra

Adriana Cubas conta a dela, mais abrupta: trabalhava com artes cênicas, passou anos em teatro, e chegou a um ponto em que estava sendo remunerada mas não via desenvolvimento.

"Foi um tremendo choque. Eu fiquei paralisada falando: e agora? A única coisa que eu sei fazer da minha vida é isso. É o momento em que nós nos pegamos pensando: eu vou jogar fora tantos anos de carreira para começar uma nova?" — Adriana Cubas

E o que resolveu, para ela, foi achar o denominador comum:

"Eu descobri que o meu denominador comum é trabalhar com pessoas — independente de estar no palco como atriz, fazendo uma live, dando treinamento, atendendo as pessoas individualmente."

Como descobrir a habilidade: quatro sondas

1. O estado de flow.

"Aquela hora em que você está fazendo uma atividade e você não vê o tempo passar. No final, você olha e fala: nossa, eu fiquei aqui uma, duas horas, eu nem vi que passou. Nessa hora eu esqueci de olhar o celular, esqueci dos meus problemas. E olha, ainda me pagaram para fazer — mesmo que não pagasse, eu faria." — Fernando Barra

2. O que os outros apontam. "O que eu estou fazendo que outras pessoas costumam dizer: poxa, você é bom fazendo aquilo."

3. A prateleira da livraria. Esta é a sonda mais original do episódio:

"Quando você entra numa dessas megalivrarias sem um propósito específico, sem ir comprar um livro específico — qual é a prateleira, qual é o corredor que você mais gosta de ir e olhar? Geralmente aí indica um pouco onde está essa habilidade que você gosta de fazer." — Fernando Barra

E ele é cuidadoso em delimitar o que a sonda mede:

"Eu não estou falando de profissão e eu não estou falando de trabalho. São habilidades — cada pessoa tem habilidade diferente."

4. O grupo de aptidão natural. "Tem pessoas que são melhores com número, tem pessoas que são melhores se comunicando, tem pessoas que são melhores fazendo pesquisa." A analogia dele: "se você pegar um cachorro, ele sempre vai latir; um gatinho sempre mia".

A regra de preço da habilidade

Depois de identificar a habilidade, vem a parte que quase nenhum conteúdo de carreira diz com essa clareza:

"Depois você pega essas habilidades e começa a ver como você pode resolver um problema para um grupo de pessoas. Quanto mais complexo for esse problema e menos pessoas souberem resolvê-lo usando essas habilidades, mais você vai poder cobrar. Quanto mais simples for esse problema e mais gente resolver, menos você vai poder cobrar por ele." — Fernando Barra

É uma régua de precificação que funciona igualmente para quem é empregado, autônomo ou trabalha por plataforma — e que também explica por que "fazer o que eu amo" não determina remuneração.

E ele explicita a liberação de formato que isso traz:

"Você está liberto do formato. Pode ser que você trabalhe como empregado, que ainda tem bastante e funciona. Pode ser que você trabalhe numa plataforma. Ou pode ser que você exerça o seu trabalho de forma autônoma."

Teste enquanto está trabalhando

As duas frases que ele atribui ao pai são as mais úteis do episódio para quem está parado no medo.

Sobre testar:

"Não dá para saber se a água da piscina está quente ou está fria sem colocar pelo menos o pé lá e sentir. Você pode ouvir um monte de gente falar 'pula que está quentinha' — aí você pula, está gelado. A única forma real de você saber, independente das vozes que estão à sua volta, é colocando pelo menos a ponta do dedo ali." — Fernando Barra

Sobre não largar antes:

"Você procura trabalho enquanto você está trabalhando. Porque neste momento você vai procurar um trabalho melhor do que aquele que você tem. Quando você não está trabalhando, você vai começar com aquele primeiro que aparecer." — Fernando Barra

E o motivo técnico pelo qual sair primeiro costuma piorar a situação, que volta aos dois critérios do início:

"Se você faz esse processo tão traumático de 'eu não gosto do meu trabalho, aí sai, para depois procurar um outro' — como você precisa dessa remuneração, pode ser que você tenha que pegar um outro trabalho pior do que o primeiro. E quando eu falo pior, não é que aquele trabalho é ruim; é que para as suas habilidades ficou uma condição pior do que a anterior."

A ressalva ética, que ele faz questão de dizer

"Continue no seu trabalho, desde que isso seja lícito, que a empresa em que você está trabalhando saiba, e cuidado com concorrência. Não tem problema nenhum você fazer mais de um trabalho, mas você tem que respeitar o sigilo de uma empresa para outra. Não faça um trabalho concorrente, seja ético — procure algo diferente, ou que complemente, para você não atrapalhar aquele trabalho." — Fernando Barra

E como ele mesmo testou: fez cursos e mentorias gratuitas, "até para eu medir se aquela habilidade que eu tinha resolvia um problema". Depois, com resultado medido, começou a cobrar.

Nem todo gosto precisa virar carreira

Adriana Cubas traz dois casos de atendimento que são o melhor contraponto ao conselho de "largue tudo e viva seu sonho".

O caso da fotógrafa. Ela trabalhava na área financeira de uma empresa de benefícios e queria largar tudo para fotografar, porque era o sonho dela.

"No processo, a gente foi conversando sobre os prós e contras. E olha só: para ela, eram muito importantes os finais de semana, porque eram os únicos dias que ela tinha para estar com a família, com o noivo. E os fotógrafos — a demanda de trabalho é no fim de semana." — Adriana Cubas

Conclusão: a fotografia ficou como hobby, possivelmente monetizado, e ela permaneceu numa empresa de que, de fato, gostava.

O caso do mágico. Trabalhava na área de investimentos e estatística de um banco, e fazia mágica em festas nos fins de semana.

"Ele percebeu que largar o banco seria doloroso, porque ele gostava muito do que fazia. E ao mesmo tempo percebeu que ser mágico de festas era algo que ele fazia por prazer — ele não queria transformar isso no trabalho. Então qual foi a solução que ele achou? Continuar no banco. E criou um curso de mágica para ensinar truques a pessoas que curtem mágica." — Adriana Cubas

E o diagnóstico que os dois casos revelam:

"Às vezes essa intenção de mudar de trabalho não é necessariamente em relação à sua profissão. Pode ser o momento da sua empresa, da sua posição, do setor em que você está."

"Trabalhe com o que você ama e nunca mais vai trabalhar" não se sustenta

Fernando é direto:

"Eu não gosto muito daquilo: 'trabalhe com o que você gosta e você nunca vai trabalhar'. Gente, até jogador de futebol tem que ficar horas treinando, o que às vezes ele não gosta. A gente vê aquele lado bonito, que é levantar a taça, comemorar — mas tem uma série de atividades no trabalho dele que não é o que ele gostaria de estar fazendo. Trabalhar dá trabalho." — Fernando Barra

E a consequência para quem está travado esperando encontrar o propósito antes de começar:

"Senão você vai ficar muito tempo parado para tentar descobrir algo essencial que você não vai saber. Então começa com coisas pequenas, vai testando, sempre veja se você está resolvendo um problema para alguém — e aí você vai desenvolvendo novas habilidades e resolvendo um problema mais complexo ao longo do tempo."

Adriana acrescenta a versão dela da mesma ideia:

"Não trabalhamos com achismos, trabalhamos com fatos. Você ficar idealizando, você não vai realizar absolutamente nada. Traga fatos do que você sabe realizar, do que você já realizou." — Adriana Cubas

Multicarreira deixou de ser defeito

"Antes isso era até mal visto. A gente começava numa área e era legal fazer toda a carreira ali: 'eu tenho 20, 30 anos na mesma área e fui crescendo'. Hoje às vezes as empresas estão interessadas em alguém que já teve profissões diferentes, porque a pessoa acumula habilidade, ela não perde habilidade — e ter alguém que trabalhou em áreas tão diferentes pode ser importante para tirar aquele vício, para não ser tão fechadinho." — Fernando Barra

E o preconceito que funciona nas duas direções

"A gente ainda vem com uma cabeça muito tolerante a velhas profissões e intolerante a novas profissões. E quando eu falo velha, não significa que acabaram — são profissões mais maduras, estão há mais tempo. Mas não existem só essas, e não existem só as novas." — Fernando Barra

E ele defende quem está no outro lado da linha:

"Às vezes a gente vê um garoto de 16, 17 anos que ou é um youtuber e começou a ganhar dinheiro num canal, ou aprendeu a trabalhar com distribuição de anúncios, gestão de tráfego, redação publicitária — e as pessoas falam 'isso aí é golpe, isso é modinha, vai acabar'. Se ele está resolvendo um problema e está recebendo por isso, é trabalho."

Sobre o diploma

Ele é explícito em separar duas coisas que costumam se confundir:

"Eu acho extremamente importante fazer uma faculdade. Eu fiz, estou terminando inclusive um MBA agora. Estudar sempre é importante. Mas aquilo tem que ter um objetivo. Estudar quatro, cinco anos para só colocar esse diploma na gaveta e falar que tem um diploma, para o nosso momento, já não faz mais sentido. Faça a faculdade daquilo que você quer aprender." — Fernando Barra

E Adriana faz a distinção equivalente sobre vínculo:

"Eu não tenho nada contra a carteira de trabalho, muito pelo contrário: ela é um documento extremamente importante para garantir os seus direitos como trabalhador, ponto. Mas não significa experiência profissional na prática." — Adriana Cubas

As três palavras do episódio

Adriana resume no fecho:

"Planejamento, prática e abertura. Se livrar de tantos preconceitos em relação ao que é trabalho, ao que é experiência, e entender que o futuro é diverso — não só de pessoas, mas de profissões, de demandas, de problemas." — Adriana Cubas

Quem é Fernando Barra

  • 25 anos na área de tecnologia
  • Foi programador de computador, teve empresa de desenvolvimento de sistemas e trabalhou nas maiores empresas de tecnologia do setor
  • Em 2018, especializou-se em dados, analytics e inteligência artificial, com a responsabilidade de apresentar a plataforma de inteligência artificial da companhia no Brasil
  • Em 2019, publicou um livro sobre o futuro do trabalho, nascido da pergunta que ouvia nas apresentações
  • Cursando MBA na época da gravação

A entrevistadora é Adriana Cubas, palestrante e consultora de carreira, apresentadora do quadro Escalando Carreiras do VoittoCast. Ela própria fez uma transição de carreira a partir das artes cênicas.

Ouvir o episódio

VoittoCast #59 — Como fazer um planejamento para transição de carreira? Quadro: Escalando Carreiras, com Adriana Cubas Convidado: Fernando Barra

Ouvir no Spotify

Página do episódio no VoittoCast

Para aplicar

Perguntas frequentes

Como saber se é hora de mudar de carreira?
Por dois critérios, segundo Fernando Barra: o trabalho serve para remunerar e para desenvolver. Se você não está aprendendo nada novo ou o que recebe não atende às suas necessidades, é hora de pensar numa transição. Basta um dos dois falhar.
Qual a diferença entre trabalho e emprego?
Emprego é uma forma de trabalhar, surgida com a industrialização. Trabalho, na definição dele, é ajudar uma pessoa a resolver um problema usando as próprias habilidades. A distinção importa porque muda a pergunta de carreira: não é qual profissão escolher, é qual problema você resolve e para quem.
Vou começar do zero numa transição de carreira?
Não. Você leva as habilidades que já tem — o que muda é o problema que elas passam a resolver e o formato em que são aplicadas. Barra cita casos de cozinheiro que virou engenheiro e de professor universitário que virou palhaço.
Como descobrir qual é a minha habilidade?
Por quatro sondas: o estado de flow, em que você perde a noção do tempo; o que outras pessoas apontam que você faz bem; a prateleira que você procura ao entrar numa livraria sem objetivo; e o grupo em que você tem facilidade natural, como números, comunicação ou pesquisa.
Quanto posso cobrar pela minha habilidade?
Depende de duas variáveis: a complexidade do problema que ela resolve e quantas pessoas sabem resolvê-lo. Problema complexo e pouca gente capaz de resolver permite cobrar mais; problema simples e muita gente capaz de resolver permite cobrar menos.
Devo sair do emprego para fazer a transição?
Não, e ele é enfático: "você procura trabalho enquanto você está trabalhando", porque nessa condição você busca algo melhor do que tem, em vez de aceitar o primeiro que aparecer. A recomendação é testar em paralelo, respeitando licitude, sigilo e não concorrência com o empregador atual.
Todo gosto pessoal pode virar carreira?
Não necessariamente, e dois casos no episódio mostram por quê: uma profissional descobriu que fotografar profissionalmente consumiria exatamente os fins de semana que ela queria preservar; outro percebeu que fazia mágica por prazer e não queria transformar isso em trabalho — e criou um curso em vez de trocar de profissão.
Ter várias carreiras no currículo prejudica?
Hoje, menos. Segundo Barra, algumas empresas passaram a valorizar quem já atuou em profissões diferentes, porque habilidade se acumula e não se perde, e quem veio de outras áreas tende a trazer menos vício de um único modo de fazer.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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