PCP digital: o que entrega e por que a implantação falha
Integração de dados no lugar da planilha, um programa que decide qual planta recebe qual matéria-prima e o erro de impor a mesma tecnologia a dez plantas diferentes.
PCP digital é o planejamento e controle da produção com os dados integrados: estoque, demanda, capacidade de cada unidade e paradas previstas passam a conversar no mesmo lugar, e o gestor e a base enxergam a mesma informação ao mesmo tempo. O ganho é decidir mais rápido. E o que mais derruba a implantação não é a tecnologia escolhida, é a forma como ela chega às pessoas que vão usá-la.
A explicação vem de uma conversa do VoittoCast, no quadro Papo de Especialista, conduzida por Júlio Briales, especialista em excelência operacional e professor de PCP e administração da produção. A convidada é engenheira química pela Escola Politécnica da USP, com dupla graduação em engenharia de processos na França e mestrado em energia e processos de refino pelo Instituto Francês do Petróleo. Hoje trabalha com transformação digital no setor de energia, como consultora de business intelligence e analista de dados, e cuida de 10 plantas industriais de refino.
O foco aqui é o lado operacional do assunto: quando o PCP digital vale a pena, o que ele entrega, por que um projeto bem financiado acabou jogado fora e o que precisa estar arrumado nos dados antes de qualquer sistema. Quem quer o porquê de começar pelo propósito encontra na conversa sobre por onde começar a Indústria 4.0, e o risco de automatizar o desperdício está no texto sobre Lean Digital.
O que é PCP digital: integração antes de automação
A pergunta do host foi direta: quais benefícios a digitalização do processo de PCP traz para a indústria? A convidada começa pelo mais visível, produtividade e ganho, e logo troca a palavra. Para ela, “a palavra aqui seria muito mais integração de dados que já existe”.
O exemplo é de rotina. Todo dia uma pessoa conta o estoque de um produto, preenche uma planilha ou alguma ferramenta e manda para o gestor. O dado existe, mas anda devagar e chega a uma pessoa só. No PCP digital, a mesma posição de estoque fica disponível para o gestor e para os funcionários da base, e quem precisa reagir não espera o relatório do dia seguinte.
Por isso o termo engana quem pensa primeiro em robô e sensor. O centro do PCP digital é a integração de dados que a empresa já gera, espalhados entre áreas, planilhas e sistemas.
Quando o PCP digital vale a pena
A resposta da convidada para o momento certo não fala de tecnologia. Fala de limite. A empresa quer mais controle da produção, do planejamento, dos estoques, do que chega e do que sai, e chega uma hora em que “esse limite humano e das ferramentas que a gente tem hoje, eles são atingidos”.
O ponto de partida, na visão dela, é uma equipe que já usa bem o que tem, que consegue gerir e lidar com as ferramentas atuais. A pergunta seguinte é como dar o passo a mais. Implantar o PCP digital antes desse ponto resolve um problema que a operação ainda não sente, e a reação aparece no chão de fábrica. A frase que ela diz ouvir no trabalho resume: “por que está tendo esse projeto novo, eu não preciso disso, ou eu estou bem assim”.
O que o PCP digital entrega na prática
Com os dados integrados e a base sabendo lidar com a informação, tudo fica mais rápido. A lista que ela dá cabe numa tabela:
| Ganho | Por que acontece |
|---|---|
| Evitar gargalo mais cedo | o sinal chega antes de virar parada |
| Evitar quebra de estoque | gestor e base olham a mesma posição |
| Prever alta e queda de preço | o dado de mercado conversa com o de produção |
| Tempo de decisão e de produção menores | ninguém espera a planilha circular |
Nas palavras dela, “você vai conseguir evitar gargalo mais rápido, você vai conseguir evitar quebra de estoque mais rápido”. O segundo ganho tem nome próprio: “eficácia e eficiência de tempo, ganhar tempo, tempo de decisão, tempo de produção”. E como os funcionários enxergam esse resultado, o efeito se realimenta, numa roda positiva.
PCP digital em várias plantas: o programa que arbitra a matéria-prima
O exemplo mais concreto do episódio é o que a convidada opera hoje. A empresa monitora a demanda de mercado para gasolina e diesel e decide qual planta está mais adaptada para produzir aquela quantidade e aquela qualidade. A decisão não sai de reunião entre unidades. Um programa computacional arbitra, “levando em conta a qualidade, a quantidade que o mercado está querendo e a distância da matéria-prima”, qual planta recebe qual matéria-prima.
Cada planta tem uma capacidade de produção diferente, e isso também entra no programa. Por cima vem uma camada de inteligência artificial que prevê a tendência de mercado e a quebra de equipamento. Se uma unidade vai ficar parada dois meses por um problema de manutenção, a capacidade dela cai, e a arbitragem já sabe disso antes de distribuir a carga.
O resumo dela é que dá para “prever tanto fatores internos da nossa produção quanto fatores externos”. É aí que o PCP digital deixa de ser painel bonito e passa a mudar a decisão: a parada técnica e o preço de amanhã já estão dentro da conta de hoje.
O erro que joga dinheiro fora: a mesma tecnologia para dez plantas
Perguntada sobre como planejar a transição para que o time incorpore a mudança aos poucos, a convidada escolhe contar o que não deveria acontecer, e que aconteceu no trabalho dela. As 10 plantas de refino que ela atende não estão na mesma sintonia. Uma fica perto do mar, outra no interior; “uma produz muito mais diesel, a outra muito mais gasolina”. As necessidades técnicas, de logística, de mercado e de estoque são diferentes.
Um gestor do topo da organização decidiu por todas: “eu quero implementar essa tecnologia. Então, vai time, implementa essa tecnologia aqui e se vira”. O time foi de planta em planta avisar que o projeto ia chegar e teria de ser implantado. A maioria não aceitou bem, e a resposta foi a de sempre: “Esse projeto não é para mim, não precisa, a minha necessidade não é essa”.
O desfecho ela não suaviza. Não levar em conta a necessidade de cada planta, na escolha do projeto e da tecnologia, “fez com que a gente jogasse dinheiro fora”. E completa: “A gente implementou o projeto, fez, e foi jogado fora”. A analogia que ela usa serve para qualquer projeto de PCP digital: é como “te vender um carro e você precisa de uma moto”.
Top-down traz o recurso, a base traz a adesão
A lição que a convidada tira do caso não é proibir a decisão de cima. Pode ser top-down, diz ela, mas “as pessoas têm que sentir que elas estão fazendo parte” da escolha do projeto e perceber que ele melhora a vida delas. Mesmo o gestor convencido de que a tecnologia vai dar ganho precisa convencer o time de que vai ser bom para ele.
O motivo é a sustentação, e ela diz assim: “quando você não envolve o teu pessoal, você não sustenta”. Quem trabalha com o problema todo dia tem sugestão para dar, e quem foi ouvido compra a ideia. Júlio Briales fecha a divisão de papéis numa linha: “top-down para trazer recursos, mas tem que envolver sempre a base”.
Ela lembra ainda que estudos de consultorias apontam a falta de aderência das pessoas e da cultura da empresa entre as maiores causas de problema nesses projetos. Para quem coordena o PCP digital, isso põe a resistência à mudança no cronograma desde o primeiro dia, e não como risco para tratar depois da compra.
Antes de qualquer sistema, o cadastro
A pergunta seguinte era sobre o volume de dados da Indústria 4.0 e como evitar gargalo de informação entre os setores. A convidada responde por um problema que não tem nada de tecnológico. Imagine uma fábrica de sapatos com cinco fornecedores de matéria-prima. Cada área cadastra o mesmo fornecedor de um jeito: uma registra só o nome do contato, outra põe o nome junto com a empresa. Cada pessoa tem um ponto de vista, e o dado nasce dividido.
Por isso, diz ela, “tratar de forma homogênea a sua cadeia de dados é bem importante”. Dado organizado e tratado vem antes de qualquer insight. É o primeiro passo da qualidade de dados, e no PCP digital ele decide se a integração vai somar números que falam da mesma coisa.
Júlio Briales liga o ponto ao Lean: “a falta de padronização também prejudica bastante a performance entre plantas, entre áreas, entre pessoas”. A padronização que nivela o trabalho no chão de fábrica é a mesma que nivela o cadastro.
Colete mais do que parece útil
O segundo ponto vai na direção contrária da economia. Na opinião dela, “a gente tem que explorar tudo o que der em termos de dados”. Muitas vezes a empresa não enxerga que um dado poderia ser importante, não tem o hábito de coletar ou ainda não tem sensor no lugar.
E o custo mudou. A internet das coisas capta dado mais rápido, e hoje sai muito mais barato instalar um sensor de IoT do que um sensor da tecnologia antiga. Para o PCP digital, isso tira do caminho a desculpa de que medir o processo custa caro demais.
250 caixas: dado sem estratificação não é informação
A convidada conta uma frase que ouviu dois dias antes da gravação, numa conferência do Ministério da Economia da França: é preciso transformar tudo em dados, porque sem dados não há informação de nada. E faz a ressalva logo em seguida, porque “a gente acha que ter dados é tudo”.
O exemplo é de uma linha só. Alguém diz que tem 250 caixas. A pergunta certa é “o que tem dentro, aonde você coletou, que dia, que horas, qual planta, que serviço”. Sem saber o que o número significa e onde foi coletado, ele não orienta decisão nenhuma.
É a estratificação aplicada ao PCP digital: “os dados têm muitas estratificações que, às vezes, a gente não consegue enxergar até você colocar a cara ali”. Júlio Briales devolve com uma frase que ouviu há 40 anos e que diz quase o mesmo: “sem fatos e dados a gente não consegue fazer nada”. O digital não mudou o princípio, só aumentou o volume.
Quem toca o PCP digital precisa saber programar?
A resposta é matizada: “Eu diria que é importante e ajuda, mas não é necessário”. O que ela considera base é outro repertório. A diferença entre uma base de dados e outra, a limitação de cada ferramenta de business intelligence, como se gere um projeto em Agile e em Scrum, e para que serve cada linguagem, de Python a Java e aos frameworks de front-end.
A razão é a conversa com a área de TI, que está em todo projeto de PCP digital. “Quando você mostra que você conhece um pouco, você ganha o respeito deles”, e o projeto anda melhor. Ela conta que muitas vezes precisou entrar no código para explicar o que era tal parte do dado e o que se esperava do resultado.
Sem esse repertório também dá para trabalhar na área, mas o custo existe: “você tem que ter um aval e uma confiança dos seus gestores muito maior quando você não tem esse conhecimento”.
Universidade interna: tecnologia substitui tarefa, não pessoa
Sobre a falta de mão de obra qualificada, a convidada fala do modelo que vê nas empresas da França, onde mora. A maioria construiu uma universidade interna, com certificado e percursos obrigatórios: um módulo de dados, um de internet das coisas, um de big data. O objetivo declarado não é formar especialista. É entender a base de tudo “para eu ser capaz de dialogar com os outros setores da empresa”. É uma forma de educação corporativa desenhada para a conversa entre áreas.
E ela responde ao medo mais comum em projeto de automação: a tecnologia vai substituir certas tarefas, mas “Não é o objetivo substituir a pessoa”. O objetivo é produzir mais com o mesmo número de funcionários. Quem antes fazia 4 unidades e passa a fazer 10 sente o resultado e se sente mais recompensado. A condição é capacitar as pessoas para usar a tecnologia e também para escolher qual tecnologia, qual projeto e qual escopo, que é exatamente o que faltou no caso das dez plantas.
Ouça o episódio completo
A conversa está na página do episódio 71 do VoittoCast, no quadro Papo de Especialista, com Júlio Briales. Também dá para ouvir no Spotify.
Para continuar no tema, os dois textos irmãos citados na abertura tratam da transformação digital por outros ângulos: o de por onde começar a Indústria 4.0, sobre propósito e liderança, e o de Lean Digital, sobre digitalizar sem automatizar o desperdício.

