Metodologias & Qualidade

Por que sistemas de gestão da qualidade viram papel: o diagnóstico da dívida documental

O sistema não nasce burocrático, ele engorda. Cada desvio vira procedimento, cada auditoria vira registro, e nada nunca sai. A dívida documental tem juros, e eles são pagos em horas

Thiago Coutinho
Publicado em 26 de set de 2026  ·  Atualizado em 26 de set de 2026  ·  16 min de leitura

Ninguém projeta um sistema de gestão da qualidade burocrático. A empresa começa com uma política, meia dúzia de procedimentos e um objetivo defensável: organizar o que já fazia de qualquer jeito. O excesso aparece depois, documento a documento, sem que ninguém tenha decidido criá-lo.

O mecanismo é sempre o mesmo. Cada não conformidade é respondida com um procedimento novo. Cada achado de auditoria é respondido com um registro novo. Nenhuma das duas respostas é errada quando olhada sozinha. Somadas ao longo de cinco anos, produzem um sistema que ninguém lê.

O nome técnico disso é dívida documental, e ela tem juros. Os juros são pagos em horas: revisão programada, controle de versão, treinamento de mudança, manutenção da lista mestra. Essas horas saem de algum lugar. O lugar de onde saem é a melhoria de processo.

A degeneração é mensurável muito antes de ficar óbvia. Documentos por processo, idade média, taxa de consulta e horas anuais de manutenção dizem em que estágio o sistema está. Quase nenhuma empresa calcula esses quatro números, e é por isso que a reclamação geral nunca vira decisão.

As tabelas de modos de engorda e de indicadores de dívida documental, além do exemplo numérico de cinco anos com o efeito da poda, foram montadas no formato do Kit de Gestão da Qualidade da Voitto. Os números do exemplo são ilustrativos, construídos para este texto e conferidos entre si em planilha. Nenhuma empresa real está descrita aqui.

A tese: o sistema não nasce burocrático, ele engorda

Sistemas de gestão não são criados pesados. Eles ficam pesados porque crescem em uma direção só. Existe rito formal para criar documento: solicitação, elaboração, análise crítica, aprovação, distribuição, treinamento. Não existe rito equivalente para retirar documento. A assimetria entre as duas portas explica quase todo o resto.

Um processo que só tem entrada acumula. Se entram quinze documentos por ano e saem zero, em cinco anos o sistema quase triplicou sem que ninguém tenha decidido aumentá-lo. O crescimento foi a soma de decisões pequenas e defensáveis.

Os gatilhos são dois, previsíveis, e os dois têm boa intenção. Tratar uma não conformidade criando procedimento parece rigor. Responder a uma auditoria criando registro parece diligência. Ambos adicionam massa permanente ao sistema para resolver um evento que foi pontual.

A inversão que este texto propõe cabe em uma frase. Documento é custo até prova em contrário, e a única prova aceitável é o uso. Um sistema de gestão da qualidade saudável não é o que tem mais controle, é o que sustenta o processo com o mínimo de documento.

Os doze modos de engorda, lado a lado

Os doze modos abaixo aparecem em portes e setores diferentes com a mesma assinatura. A coluna do sinal antecipado é a que interessa, porque é a única acionável enquanto agir ainda é barato.

Modo de engordaO que ele adiciona ao sistemaSinal antecipadoContramedida
Procedimento reflexoUm documento por não conformidade tratadaMais de um terço das ações corretivas termina em documentoPerguntar se falta padrão ou se falhou a adesão
Documento que ninguém lêPáginas que só circulam entre a qualidade e o auditorO operador não sabe o código do procedimento da tarefaTeste de consulta trimestral, no posto
Registro que ninguém usaPlanilha que nenhuma decisão consomeNenhuma reunião de seis meses citou aquele campoAmarrar cada registro a uma decisão nomeada
Sistema sem podaNada, e esse é o ponto: só impede a saídaA lista mestra nunca teve linha removidaRito anual de retirada, com a formalidade da criação
Norma confundida com invençãoControle interno tratado como exigência externaNinguém aponta a cláusula que obriga o documentoMarcar a origem de cada exigência na lista mestra
Procedimento de escritórioTexto do processo ideal, nunca do realQuem redigiu nunca executou a tarefaRedação no posto, com quem opera assinando
Controle de documento como fimRevisões que mudam cabeçalho, não conteúdoRevisão emitida sem alteração no corpo do textoCampo obrigatório com o que mudou no processo
Indicador sem análiseSéries históricas que ninguém interpretaIndicador fora da meta há três meses sem açãoRegra de disparo automática a cada desvio
Auditoria de existênciaAchados de forma, que geram papel e não mudançaRelatório sem nenhum achado de eficáciaRoteiro por processo, com evidência de resultado
Análise crítica como slideApresentação anual sem decisão registradaAta sem ação, sem dono e sem prazoDecisão obrigatória por entrada da pauta
Qualidade dona de tudoDocumento sem dono de processoTodas as revisões do ano têm o mesmo responsávelDono do processo assina o conteúdo, não o formato
Certificação como chegadaSistema congelado no dia seguinte à auditoriaNenhuma mudança de conteúdo entre auditoriasMeta de melhoria, não de manutenção do selo

Nenhuma das contramedidas exige software, consultoria ou reestruturação. Todas são regras de decisão baratas que mudam o que entra no sistema. O caro é o inverso: descobrir tarde, quando a massa já se formou e a retirada virou projeto.

A resposta reflexa: toda não conformidade vira procedimento novo

Criar procedimento é o caminho de menor resistência no tratamento de desvio: é rápido, é visível, é auditável e encerra o registro sem incomodar ninguém. O que quase nunca é feito é a pergunta anterior. Diante de um desvio existem duas hipóteses distintas. Ou o padrão não existe, e criar documento faz sentido. Ou o padrão existe e não foi seguido, e criar um segundo documento sobre o mesmo assunto é garantia de que nenhum dos dois será seguido.

A distinção entre falta de padrão e falta de adesão é a bifurcação que quase ninguém percorre. Quando o padrão existe e a adesão falha, a causa está em outro lugar: acesso, clareza, tempo de ciclo, layout, conflito entre meta de produção e meta de qualidade. Isso é trabalho de análise de causa raiz.

O sinal antecipado é fácil de extrair. Conte quantas ações corretivas do último ano terminaram em documento novo ou em revisão de documento. Acima de um terço, o tratamento virou reflexo. Acima da metade, o sistema está sendo usado como depósito de não conformidade mal analisada.

Documento que ninguém lê, e o teste do operador

Todo sistema tem documento vivo e documento morto, e a lista mestra trata os dois igual. O teste que separa um do outro é constrangedor de tão simples. Vá ao posto, aponte a tarefa e pergunte ao operador quando foi a última vez que ele abriu aquele procedimento. Três respostas aparecem: uma data recente, nunca, ou a pergunta de volta sobre onde o documento fica.

As duas últimas respostas valem mais que qualquer relatório. Elas não medem disciplina do operador, medem utilidade do documento. Um procedimento operacional padrão que só é consultado no treinamento inicial e nunca mais está funcionando como material didático, não como padrão de operação.

O sinal antecipado vem antes disso e é ainda mais barato de coletar. Peça ao operador o código do procedimento da tarefa que ele executa todo dia. Se ele não souber o código nem onde encontrá-lo, o documento já saiu de circulação, ainda que a lista mestra não registre a saída.

Registro que ninguém usa: a planilha que nenhuma decisão consome

Registro existe para sustentar decisão, e o padrão degenerado se instala assim. Um achado de auditoria pede evidência de controle. Alguém cria uma planilha de conferência. A planilha passa a ser preenchida todo turno. O achado fecha. Três anos depois, ninguém no processo sabe dizer quem lê aquela planilha, e ela continua sendo preenchida todo turno.

O teste é tão direto quanto o anterior. Para cada registro do sistema, nomeie a decisão que ele alimenta, quem decide e com que periodicidade. Registro que não sobrevive a essas três perguntas é candidato imediato à retirada, com uma exceção: retenção exigida por norma, contrato ou lei.

O sinal antecipado é a ausência de citação. Varra as atas dos últimos seis meses de reuniões de processo e de análise crítica. Se aquele dado nunca apareceu em nenhuma delas, ele não está alimentando decisão nenhuma, está alimentando o arquivo.

O sistema sem poda: a porta de saída que nunca foi construída

Pergunte a qualquer responsável pela qualidade como se cria um documento no sistema. A resposta vem em segundos, com etapas, formulário e fluxo de aprovação. Pergunte em seguida como se retira um documento. A resposta demora, e costuma ser uma variação de que nunca aconteceu.

Não existe má intenção nisso. Retirar documento parece perigoso, porque a pergunta que vem à cabeça é o que o auditor vai dizer. Manter parece seguro e custa apenas horas, que são invisíveis no orçamento. A assimetria de risco percebido produz um acúmulo que ninguém autorizou.

O sinal antecipado está na própria lista mestra. Filtre por documentos cancelados ou obsoletos e conte. Se em cinco anos de sistema nenhuma linha saiu, a poda não é uma prática que enfraqueceu, é uma prática que nunca existiu. Montar o sistema sem essa porta é projetar o entulho desde o começo.

O que a norma exige e o que a empresa inventou

Boa parte do peso de um sistema é atribuída à norma por gente que nunca conferiu a atribuição. A ISO 9001:2015 exige informação documentada em pontos específicos, e a lista é bem mais curta do que a lenda sugere. Convém conferir os requisitos da ISO 9001 antes de defender um documento.

No sistema de exemplo deste artigo, 21 dos 133 documentos correspondem ao que a norma exige de forma explícita, o que dá 15,8%. Os outros 112, ou 84,2%, foram criados pela própria empresa. A proporção varia, mas a ordem de grandeza se repete: a maior parte do sistema é invenção interna.

A correção é uma coluna a mais na lista mestra, com quatro valores possíveis: exigido pela norma, exigido por lei, exigido por cliente ou decisão interna. Só o último grupo entra em poda sem consulta externa. Quem quiser revisar o que a norma de fato diz encontra a base em o que significa a ISO 9001.

Procedimento escrito por quem não executa

Existe uma diferença de textura entre o procedimento escrito no posto e o procedimento escrito na sala. O primeiro tem detalhe irregular: adverte sobre a válvula que emperra, sobre o campo do sistema que aceita valor errado sem reclamar, sobre a ordem que parece indiferente e não é. O segundo é limpo e genérico.

O mecanismo de origem é organizacional, não pessoal. A qualidade recebe a tarefa de documentar, entrevista o supervisor, redige e envia para aprovação. O operador aparece no fim, para assinar a lista de treinamento. Ele nunca foi autor, então o documento nunca foi dele.

O sinal antecipado é uma consulta ao histórico de revisões: veja quem redigiu. Se o mesmo nome aparece em quase todos os documentos, o sistema tem um redator central e não tem autores. A lógica do trabalho padronizado é a oposta, porque o padrão nasce da observação de quem faz.

Controle de documento que virou fim em si

Controle de documento existe para garantir que a versão em uso é a certa. É um meio. Em sistemas engordados ele vira a atividade principal da qualidade, medida por percentual de documentos revisados no prazo, um indicador que sobe mesmo quando nenhum processo melhorou.

A forma mais comum da degeneração é a revisão de forma. Chega o vencimento de três anos, alguém abre o documento, atualiza o cabeçalho, troca o nome do gerente que saiu, corrige a numeração, emite a revisão 5 e colhe assinaturas. O conteúdo técnico não foi tocado nem questionado.

A contramedida cabe em um campo obrigatório: o que mudou no processo desde a última revisão. Se a resposta honesta for nada, a decisão certa não é emitir revisão nova, é registrar a confirmação de vigência sem consumir o ciclo completo de aprovação e treinamento.

Indicador coletado e nunca analisado

O indicador não analisado é pior que o indicador ausente. Ele consome coleta, consome consolidação, ocupa espaço no painel e, principalmente, dá à direção a sensação de que o processo está sob observação. Sensação de controle sem controle é o pior estado possível de um sistema.

O teste é verificável em qualquer empresa. Pegue um indicador que esteja fora da meta há três meses seguidos. Procure a ação aberta correspondente, com dono e prazo. Se não existir, aquele indicador não é um instrumento de gestão, é um enfeite de relatório mensal.

A contramedida é uma regra de disparo escrita antes do desvio: quantos períodos fora da meta obrigam abertura de análise, quem convoca, em que prazo. Sem gatilho automático, a análise depende de disposição, e disposição acaba. O critério de escolha e leitura está em indicadores de qualidade.

Auditoria interna que só verifica se o documento existe

A auditoria interna é o mecanismo que deveria detectar a engorda. Na prática, ela costuma ser o principal motor dela. A razão é o roteiro: quando o checklist pergunta se existe procedimento, se existe registro e se a revisão está vigente, o único achado possível é a ausência de papel.

Achado de ausência de papel gera ação de criação de papel, e o ciclo se alimenta a cada rodada. Duas auditorias por ano, com dez achados de forma cada, produzem vinte documentos novos sem que nenhum processo mude.

A auditoria de eficácia pergunta outra coisa. Não se o procedimento existe, mas se o resultado que ele deveria produzir aparece na saída do processo. Não se o registro está preenchido, mas se alguém decidiu algo com ele. O roteiro e as evidências mudam completamente sob essa lógica.

O sinal antecipado está no próprio relatório. Classifique os achados do último ciclo em achados de forma e achados de resultado. Se a coluna de resultado estiver vazia, a auditoria está medindo o arquivo. Conduzir a auditoria interna por processo, e não por cláusula, é o que corrige isso.

Análise crítica pela direção como apresentação de slide

A análise crítica pela direção tem entradas definidas e uma saída esperada: decisão. Quando ela degenera em evento anual de slides, o sintoma aparece na ata. Atas de análise crítica degenerada são descritivas: relatam o que foi apresentado. Atas saudáveis são decisórias: registram o que foi decidido, quem executa, até quando e com que recurso. Ata sem essas quatro colunas é registro de presença.

O mecanismo de engorda aqui é indireto e potente. Sem decisão na análise crítica, os problemas estruturais do sistema, como excesso de documento e indicador inútil, nunca sobem para quem pode mandar retirar. A poda depende de autoridade, e a autoridade está exatamente nessa sala.

A contramedida é fazer a pauta exigir decisão por entrada. Desempenho de fornecedor, resultado de auditoria, reclamação de cliente e adequação de recursos entram com uma pergunta fechada cada, do tipo manter, mudar ou encerrar. A melhoria contínua na ISO 9001 depende dessa sala funcionando.

A qualidade como dona do sistema, em vez de cada processo

Em grande parte das empresas, os documentos de todos os processos pertencem à área da qualidade. Ela redige, ela revisa, ela cobra, ela treina. O processo é apenas o objeto descrito. Essa concentração parece eficiência e é a causa estrutural da massa que ninguém consegue reduzir.

Dono de processo não é um cargo, é uma atribuição com consequência. Quem responde pelo resultado do processo responde pelo conteúdo dos documentos que o descrevem, aprova as mudanças e autoriza a retirada. A qualidade passa a responder pelo método e pelo formato, o que é bem menos trabalho.

O sinal antecipado leva dois minutos de consulta. Abra a lista mestra e olhe a coluna de elaborador e aprovador. Se o mesmo nome ou a mesma sigla aparece em quase todas as linhas, o sistema tem um único dono. Sobre a estrutura correta, vale o sistema de gestão da qualidade pela ISO 9001.

Certificação como objetivo final e o congelamento seguinte

Quando o projeto se chama obter a certificação, o cronograma tem uma data de término. O que acontece depois dessa data não está no plano. A equipe que trabalhou dezoito meses recebe os parabéns, o certificado é emitido e a energia se dissipa em uma semana.

O congelamento é literal e mensurável. Documentos param de mudar, indicadores param de ser questionados, reuniões de processo esvaziam. O sistema entra em modo de conservação até a auditoria de manutenção, quando há uma corrida de duas semanas para atualizar registros e ensaiar respostas.

A contramedida é trocar o objetivo declarado. Certificação é uma verificação externa de que o sistema funciona, não o produto do trabalho. Enquanto a meta da área for manter o selo, e não reduzir o custo da má qualidade, o congelamento é o comportamento racional.

Como medir a dívida documental: seis indicadores

Reclamar de burocracia é universal. Medir burocracia é raro, e a diferença entre as duas coisas é a possibilidade de decidir. Os seis indicadores abaixo usam dados que já existem na lista mestra e no histórico de revisões, e nenhum deles exige sistema novo.

IndicadorNumeradorDenominadorLeitura de alerta
Densidade documentalDocumentos controlados vigentesProcessos mapeados no escopoAcima de 10 documentos por processo
Idade média do acervoSoma dos anos desde a última revisão de conteúdoDocumentos controlados vigentesAcima de 3 anos de média
Taxa de consultaDocumentos consultados ao menos uma vez em 12 mesesDocumentos controlados vigentesAbaixo de 40%
Carga de manutençãoHoras anuais gastas em revisão, controle e treinamentoHoras anuais da equipe da qualidadeAcima de 30% do tempo da área
Reflexo documentalAções corretivas encerradas com documento novo ou revisadoAções corretivas encerradas no períodoAcima de 33%
Poda anualDocumentos retirados ou fundidos no anoDocumentos criados no anoAbaixo de 0,5

A taxa de consulta é a mais difícil de levantar e a mais reveladora. Com portal, o log de acesso resolve. Com papel, vinte perguntas bem distribuídas no chão de fábrica já dão uma estimativa utilizável.

O último indicador fecha o diagnóstico. Poda anual abaixo de 0,5 significa que entram dois documentos para cada um que sai, e nesse ritmo qualquer simplificação é neutralizada pela entrada em menos de dois anos.

Cinco anos de sistema: o exemplo numérico

O exemplo usa uma empresa ilustrativa com 11 processos mapeados. No dia da certificação, o sistema tinha 48 documentos controlados, ou 4,4 por processo. Nenhum documento foi retirado em cinco anos, e essa é a única premissa incomum do exercício.

A carga de manutenção adotada é de 1,5 hora por documento por ano. Ela tem três parcelas: 0,8 hora de revisão programada rateada pelo ciclo de três anos, 0,3 hora de controle de versão e lista mestra e 0,4 hora de comunicação e treinamento de mudança.

AnoDocumentos criados no anoAcervo no fim do anoHoras anuais de manutenção
0 (certificação)-4872,0
1156394,5
21679118,5
31796144,0
418114171,0
519133199,5

O acervo passou de 48 para 133 documentos, um multiplicador de 2,77, com 85 documentos criados no período. A densidade subiu de 4,4 para 12,1 documentos por processo. A idade média ponderada do acervo no fim do ano 5 é de 3,0 anos, e a taxa de consulta medida foi de 31 em 133, ou 23,3%.

As horas somadas dos anos 1 a 5 chegam a 727,5. Se o acervo tivesse permanecido em 48 documentos, seriam 360,0 horas no mesmo período. A engorda custou 367,5 horas, mais de dois meses de uma pessoa, sem que um único processo tenha melhorado por causa disso.

O exercício de poda e o critério de retirada

Poda não é faxina. É um exercício com critério escrito, feito uma vez por ano, com decisão registrada documento a documento. O critério precisa ser objetivo o suficiente para que duas pessoas diferentes cheguem ao mesmo veredito na maior parte dos casos.

  1. Origem: documento exigido por norma, lei ou contrato é retido sem discussão. Só os de decisão interna seguem para as próximas perguntas.
  2. Uso: houve consulta nos últimos 12 meses? Sem consulta e sem exigência externa, o documento é candidato à retirada.
  3. Sobreposição: existe outro documento que trata do mesmo assunto ou da mesma etapa? Se sim, os dois viram um, com o conteúdo útil preservado.
  4. Decisão consumidora: para registros, alguém decide algo com esse dado? Se ninguém nomeia a decisão, o registro sai.
  5. Risco de retirada: o que acontece de concreto se o documento deixar de existir? Resposta vaga é sinal de que ele já não sustentava nada.

Aplicado ao exemplo do ano 5, o exercício encontrou 29 documentos obsoletos, retirados direto, e 24 documentos sobrepostos, fundidos em 8. A retirada líquida foi de 45 documentos, uma redução de 33,8%, e o acervo caiu de 133 para 88.

O efeito em horas é imediato. A manutenção cai de 199,5 para 132,0 horas por ano, uma economia de 67,5 horas anuais. A poda custou 55,75 horas, sendo 33,25 de triagem a 0,25 hora por documento e 22,5 de execução a 0,5 hora por documento retirado. O retorno acontece em 9,9 meses.

Reescrever para ser usado, e o roteiro de enxugamento

Documento que sobrevive à poda quase sempre precisa ser reescrito, porque foi redigido para ser arquivado. A diferença entre as duas escritas aparece na primeira página. Texto para arquivo abre com objetivo, campo de aplicação, referências normativas e definições. Texto para uso abre com a primeira coisa que a pessoa faz.

  • Uma tela ou uma página, sem rolagem no ponto de uso, com o passo a passo em ordem de execução.
  • Verbo no imperativo e sujeito explícito em cada passo, para que ninguém precise deduzir quem faz.
  • Critério numérico onde houver julgamento: valor, faixa, tolerância, tempo limite.
  • O que fazer quando dá errado, no próprio passo, e não em um anexo separado.
  • Nenhuma seção cuja única função seja atender a um item de formatação do controle de documentos.

O roteiro de enxugamento cabe em um trimestre. No primeiro mês, levante os seis indicadores e classifique a origem de cada documento na lista mestra. No segundo, aplique o critério de retirada e leve a lista de retirada para decisão na análise crítica. No terceiro, reescreva os sobreviventes de maior uso.

Depois disso, o que sustenta o resultado é manter a porta de saída aberta: uma poda por ano e a regra de que toda proposta de documento novo declare qual documento existente ele substitui. Vale tratar o enxugamento como um ciclo PDCA próprio.

Nada disso torna o sistema menos rigoroso. Torna o rigor visível, porque o que resta é consultado, e o que é consultado pode ser melhorado. Um sistema de gestão da qualidade burocrático não é rigoroso demais: nele o rigor se mudou do processo para o arquivo. Sobre a base, vale gestão da qualidade.

Perguntas frequentes

Por que o sistema de gestão da qualidade vira burocrático?
Porque ele cresce por acréscimo e nunca por poda. Existe rito formal para criar documento e não existe rito equivalente para retirar. Cada não conformidade tratada com procedimento novo e cada achado de auditoria respondido com registro novo adicionam massa permanente, e nada nunca sai. Em poucos anos o acervo triplica sem decisão.
O que é dívida documental?
É o acervo de documentos e registros que o sistema acumulou sem que ninguém decidisse acumular, e que continua consumindo recurso. Os juros dessa dívida são pagos em horas de revisão programada, controle de versão, distribuição e treinamento de mudança. São horas que sairiam de melhoria de processo e vão para manutenção de arquivo.
Como saber se um procedimento é lido?
Vá ao posto de trabalho, aponte a tarefa e pergunte ao operador quando foi a última vez que ele abriu aquele procedimento. Peça também o código do documento. Se ele não souber o código nem onde encontrá-lo, o documento já saiu de circulação, ainda que continue vigente e aprovado na lista mestra.
Quantos documentos a ISO 9001 exige?
Bem menos do que a maioria dos sistemas mantém. A norma exige informação documentada em pontos específicos, entre manter e reter, e o total fica na casa das duas dezenas de itens. Em sistemas reais, é comum que menos de 20% do acervo corresponda a exigência explícita da norma e o restante seja criação interna.
Como medir se o sistema está pesado demais?
Com quatro números: documentos controlados por processo mapeado, idade média desde a última revisão de conteúdo, percentual de documentos consultados nos últimos doze meses e horas anuais gastas na manutenção do sistema. Alertas usuais: acima de dez documentos por processo, média acima de três anos e taxa de consulta abaixo de 40%.
Pode retirar documento do sistema de gestão da qualidade?
Pode, e a ausência de retirada é o defeito, não a retirada. O critério começa pela origem: o que é exigido por norma, lei ou contrato fica. O que é decisão interna passa por uso, sobreposição, decisão consumidora e risco de retirada. Toda retirada é decidida, registrada e comunicada, como qualquer mudança.
Criar procedimento resolve não conformidade?
Só quando a causa é ausência de padrão. Quando o padrão existe e não foi seguido, criar um segundo documento sobre o mesmo assunto garante que nenhum dos dois será seguido. A pergunta anterior é obrigatória: falta padrão ou falta adesão? Adesão que falha aponta para acesso, clareza, tempo de ciclo ou conflito de metas.
Por que a auditoria interna piora a burocracia?
Porque o roteiro pergunta se o documento existe, se o registro está preenchido e se a revisão está vigente. O único achado possível nesse roteiro é ausência de papel, e a ação decorrente é criação de papel. Auditoria de eficácia pergunta se o resultado esperado aparece na saída do processo e se o registro alimenta alguma decisão.
Quanto tempo custa manter um documento por ano?
No modelo ilustrativo deste artigo, 1,5 hora por documento por ano: 0,8 de revisão programada rateada por um ciclo de três anos, 0,3 de controle de versão e lista mestra e 0,4 de comunicação e treinamento de mudança. Um acervo de 133 documentos consome 199,5 horas anuais só para se manter existindo.
Vale a pena fazer poda documental?
No exemplo deste artigo, sim, e com folga. A poda retirou 45 documentos líquidos de um acervo de 133, custou 55,75 horas entre triagem e execução e reduziu a manutenção anual de 199,5 para 132,0 horas. A economia de 67,5 horas por ano paga o esforço em cerca de 9,9 meses e continua rendendo depois.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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