Metodologias & Qualidade

Roteiro de auditoria interna: as perguntas por processo e a evidência que cada uma pede

Pergunta fechada recebe sim e não descobre nada. O roteiro que funciona não é uma lista de requisitos, é uma lista de rastreamentos com a evidência que cada um obriga a aparecer

Thiago Coutinho
Publicado em 26 de set de 2026  ·  Atualizado em 26 de set de 2026  ·  17 min de leitura

Um roteiro de auditoria interna que lista requisitos devolve auditoria que cumpre tabela. O auditor lê o item da norma, pergunta se a empresa atende, ouve que sim e marca o campo. Ao fim do dia o relatório tem quinze linhas verdes e nenhuma descoberta.

A diferença não está no rigor do auditor nem no tamanho do checklist. Está na pergunta. Pergunta fechada recebe sim. Pergunta aberta que rastreia um caso real encontra o que existe no processo, não o que o procedimento promete.

Este artigo é a peça operacional: o roteiro de perguntas por processo e a evidência que cada pergunta pede. Não é mais um passo a passo do ciclo. É o que o auditor leva na prancheta na hora de sentar com o auditado.

São nove processos com as perguntas de cada um, um pedido seguido do recebimento à expedição, e a amostragem que decide o que olhar.

Sobre a procedência: as perguntas vieram do Kit de Auditoria da Voitto e da prática em manufatura e serviço. Cada linha está no formato em que é usada: a pergunta como o auditor fala, e ao lado o documento que ela obriga a aparecer. Para o ciclo completo, veja como fazer uma auditoria interna da qualidade.

A diferença entre auditar e conferir está na pergunta

Auditoria é comparação entre o planejado e o que acontece, como define o que são auditorias. Daí por que a pergunta fechada falha: quem pergunta se o procedimento existe compara o planejado com o planejado.

A pergunta fechada entrega a resposta dentro do enunciado, deixa o auditado responder pela regra e não pelo caso, e encerra o assunto depois do sim. A pergunta aberta pede um caso concreto e recente, escolhido pelo auditor. O documento é que responde.

Repare no verbo. Roteiro bom quase não usa o verbo ter. Usa mostrar, abrir, pegar, levar até. São verbos que produzem papel na mesa.

Pergunta fechadaPergunta aberta equivalenteO que a resposta passa a mostrar
Vocês têm procedimento de compras?Me mostre a última compra de item crítico feita fora da lista de fornecedores aprovados.Se a exceção existe, quem autorizou e se ficou registrada
Os instrumentos são calibrados?Pegue o instrumento que está na mão do operador agora e me mostre o certificado dele.Se a etiqueta bate com o certificado e se a validade venceu
Existe tratamento de não conformidade?Qual é a não conformidade mais antiga ainda aberta, e o que travou nela?O prazo real de resposta e o motivo do travamento
A equipe é treinada?Quem foi a última pessoa a assumir este posto e como vocês souberam que ela estava pronta?Se a liberação é avaliação prática ou lista de presença
Vocês registram a análise crítica de pedido?Me mostre o último pedido que teve alteração depois de liberado.Se a alteração chegou a produção, compras e expedição
A direção faz análise crítica?Na última ata, qual decisão saiu com dono e prazo?Se a reunião delibera ou apenas apresenta números

O programa anual sai do risco e do desempenho, não do rodízio

Rodízio cego audita todo processo uma vez por ano, na mesma ordem e com a mesma profundidade. É fácil de montar e gasta o mesmo tempo no processo estável e no que está sangrando.

O critério melhor combina três entradas. A primeira é o risco, medido pelo impacto de uma falha no cliente e no custo. A segunda é o desempenho recente, lido nos indicadores de qualidade e no histórico de não conformidade. A terceira é a mudança: processo que trocou de sistema, de fornecedor ou de líder merece visita antes do prazo.

  • Alto risco com desempenho ruim: duas auditorias no ano, com amostra maior.
  • Alto risco estável: uma auditoria no ano, com rastreamento profundo em poucos casos.
  • Baixo risco estável: uma auditoria a cada dois ciclos, escopo reduzido.
  • Mudança nos últimos noventa dias: entra fora do programa, em até sessenta dias.

Essa grade vira datas e responsáveis. O calendário de auditorias organiza o ritmo do ano, e o modelo de plano de auditoria em Excel transforma a grade no plano de cada dia.

O que o auditor lê antes de entrar na sala

Auditor que chega sem preparo audita o que o auditado quer mostrar. A preparação permite escolher o caso, e escolher o caso é metade do resultado.

  1. O relatório da auditoria anterior deste processo e o status das ações que saíram dele.
  2. Os indicadores do processo nos últimos seis meses, procurando o mês pior.
  3. As não conformidades e reclamações de cliente ligadas ao processo no período.
  4. O procedimento vigente e a revisão atual, para saber qual número deve estar no posto.
  5. As mudanças do período: sistema novo, fornecedor novo, produto novo, pessoa nova.
  6. Uma lista de três a cinco casos concretos, com identificador, que você vai pedir para ver.

O último item é o que muda a auditoria: chegar com o número do pedido e da ordem na mão tira do auditado a escolha da amostra. O preparo detalhado está em como se preparar para uma auditoria, e a triagem documental com ferramenta em IA na auditoria interna.

Releia também os requisitos da ISO 9001 que vai cobrar. É contra esse texto que o achado será redigido.

Rastreamento: a técnica que sustenta o roteiro inteiro

Rastrear é escolher um caso real e segui-lo de ponta a ponta, atravessando as áreas. Em vez de auditar compras por meia hora e produção por outra, você pega um item e caminha com ele. Um roteiro de auditoria interna é, no fundo, uma lista de rastreamentos, e o que o processo esconde aparece nas junções.

  • Para frente. Começa no pedido do cliente e vai até a nota fiscal. Responde se o que o cliente pediu chegou intacto ao produto entregue.
  • Para trás. Começa em algo que já saiu, uma carga ou uma reclamação, e volta até a origem. Responde se existe registro sustentando o que foi feito.
  • Para trás a partir da falha. Pega uma não conformidade e volta perguntando quais controles deveriam ter pego aquilo. É o que mais rende achado.

A regra prática: dois rastreamentos por auditoria, um em cada sentido, e o restante por amostragem pontual. Quando a trilha quebra, não avance. Anote onde quebrou e peça o documento que ligaria as duas pontas. A quebra é o achado.

Um pedido rastreado, do recebimento à expedição

O exemplo abaixo rastreia para frente um pedido único. Cada etapa traz a pergunta feita em voz alta e o documento pedido em seguida.

Etapa do fluxoO que perguntar aliO que pedir para verOnde a trilha costuma quebrar
Entrada do pedidoComo este pedido entrou e quem o registrou?Pedido no sistema com data, itens e responsávelRequisito combinado por telefone e nunca escrito
Análise críticaQuem confirmou que a empresa entrega isso nesse prazo?Aprovação de PCP e de engenharia antes do aceiteAceite enviado antes da confirmação interna
ProgramaçãoQual ordem de produção nasceu deste pedido?Vínculo do número do pedido com o número da ordemOrdem aberta sem referência ao pedido
Compra do insumoQual insumo foi comprado para esta ordem?Pedido de compra com norma, revisão de desenho e prazoEspecificação genérica, sem revisão
RecebimentoEste lote passou por qual inspeção?Registro de inspeção com medida real e critérioLiberação por nota fiscal, sem medição
ProduçãoQuem liberou a primeira peça desta ordem?Aprovação de primeira peça com medida, hora e nomeCampo assinado em bloco no fim do turno
Inspeção finalQual característica foi verificada e com qual instrumento?Registro citando o identificador do instrumentoInstrumento não identificado no registro
ExpediçãoComo este lote foi conferido antes de embarcar?Romaneio conferido e nota com lote e assinaturaLote na nota diferente do lote produzido

Reunião de abertura e de encerramento: o que dizer em cada uma

A abertura leva dez minutos e define o clima do dia. Diga o escopo, o período coberto e quem será entrevistado. Diga também o que a auditoria não é: ela não avalia pessoa, avalia processo contra critério.

Combine ali o horário de cada entrevista, quem acompanha o auditor no chão e como se entrega documento que não estiver à mão. O último combinado evita a discussão do fim do dia.

No encerramento, apresente cada achado com o identificador do documento e o requisito comparado. Leia o texto em voz alta. O auditado precisa concordar com o fato, ainda que discorde da classificação.

  • Confirme cada achado pelo fato: o documento existe, a data é essa, o campo está em branco.
  • Separe não conformidade de oportunidade de melhoria, e diga por que classificou assim.
  • Não proponha a solução. A causa e a ação são do dono do processo.
  • Defina quem abre o plano de ação e em quanto tempo, com data escrita na ata.

Roteiro: comercial e análise crítica de pedido

Descubra se o que o cliente pediu virou requisito interno verificável, e se a empresa confirmou que conseguia entregar antes de prometer.

  • Me mostre o último pedido que entrou fora da tabela de preços ou do prazo padrão. Evidência: pedido registrado e o registro nominal de quem aprovou a exceção, com data anterior ao aceite.
  • Como vocês registram um requisito que o cliente falou por telefone? Evidência: um caso concreto, com e-mail de confirmação ou campo de observação preenchido no pedido.
  • Pegue o pedido mais recente com prazo apertado: onde está escrito que produção confirmou a data? Evidência: aprovação de PCP datada antes da resposta ao cliente.
  • Qual foi o último pedido alterado depois de liberado? Evidência: histórico de revisão e a comunicação da alteração às áreas afetadas.
  • Como o cliente confirmou o escopo final? Evidência: aceite assinado, e-mail de aprovação ou pedido de compra do cliente anexado.

Achado típico: requisito acordado verbalmente que nunca virou documento, e que a produção descobre na hora de fazer.

Roteiro: projeto e desenvolvimento

Audite a cadeia entrada, análise crítica de fase, verificação, validação e alteração. O caso a escolher é o último projeto entregue.

  • Me mostre a lista de entradas deste projeto e quem as aprovou. Evidência: registro de entradas com aprovação datada, incluindo requisito legal aplicável.
  • Onde está o resultado da última análise crítica de fase, e quem participou? Evidência: ata com participantes nomeados, decisões e pendências com dono.
  • Qual requisito mudou no meio do projeto, e o que foi refeito por causa disso? Evidência: controle de alteração, desenho revisado e o reteste correspondente.
  • Qual teste provou que o produto atende ao requisito crítico? Evidência: relatório com critério de aceite declarado antes e resultado medido.
  • O desenho que está no chão é o mesmo que foi aprovado? Evidência: revisão vigente no posto igual à do sistema, conferida na hora.

Achado típico: verificação registrada e validação ausente. Provou-se que o produto ficou como o desenho, mas não que ele serve ao uso pretendido.

Roteiro: compras e fornecedores

Procure se o requisito saiu da empresa junto com o pedido, e se o resultado do fornecedor voltou para a avaliação dele.

  • Me mostre a última compra de item crítico feita de fornecedor fora da lista aprovada. Evidência: pedido, justificativa escrita e aprovação de quem tinha alçada.
  • No pedido de compra mais recente, onde estão os requisitos passados ao fornecedor? Evidência: especificação, norma aplicável e revisão do desenho no corpo do pedido.
  • Qual foi o último lote reprovado no recebimento, e o que aconteceu com ele? Evidência: registro de inspeção, decisão de devolução ou concessão e a nota correspondente.
  • Como a nota deste fornecedor mudou depois desse lote? Evidência: histórico de avaliação com o critério e a data da reavaliação.
  • Me mostre um fornecedor que caiu de faixa e o que foi cobrado dele. Evidência: comunicação formal e o plano devolvido pelo fornecedor.

Achado típico: avaliação de fornecedor atualizada uma vez por ano, sem qualquer ligação com as reprovações do período.

Roteiro: produção

Aqui a auditoria acontece em pé, no posto. Escolha o posto que mais parou no mês passado ou o que gerou a última reclamação.

  • Como o operador sabe o que fazer neste posto? Evidência: o documento disponível no local, na revisão vigente, conferida contra o sistema.
  • Pegue a ordem de ontem: onde estão os registros que o procedimento exige? Evidência: folha de setup, registro de parâmetro e assinatura de quem executou.
  • Quem liberou a primeira peça do último setup? Evidência: aprovação de primeira peça com medida real, hora e nome.
  • O que acontece com a peça quando o operador desconfia dela? Evidência: área de segregação identificada e um item dentro dela hoje, com etiqueta.
  • Onde está o procedimento operacional padrão da atividade que mudou no mês passado? Evidência: revisão nova no posto e registro do treinamento na mudança.

Achado típico: procedimento na revisão 3 no posto e revisão 5 no sistema, com a diferença justamente no parâmetro que causou a última refugada.

Roteiro: controle de medição e calibração

É o processo onde o achado é mais objetivo, porque tudo tem etiqueta, número e data. Audite com o instrumento na mão.

  • Este instrumento que o operador está usando: onde está o certificado dele? Evidência: etiqueta com identificador e validade, e o certificado do mesmo número.
  • O erro deste certificado cabe na tolerância do que ele mede? Evidência: comparação entre erro mais incerteza e a tolerância da característica medida.
  • O que vocês fizeram no último instrumento reprovado na calibração? Evidência: avaliação retroativa das peças medidas com ele desde a calibração anterior.
  • Me mostre um instrumento fora de uso e como ele está identificado. Evidência: identificação de bloqueio e guarda separada dos instrumentos válidos.
  • Quem define a frequência de calibração, e por que essa? Evidência: critério escrito e histórico de deriva que o sustente.

Achado típico: instrumento com certificado válido cuja incerteza consome metade da tolerância, sem que ninguém tenha comparado as duas.

Roteiro: expedição

A expedição é a última barreira. O que passa aqui chega ao cliente, e o rastreamento para trás quase sempre começa neste ponto.

  • Me mostre a última carga que saiu: onde está a conferência contra o pedido? Evidência: romaneio conferido, com assinatura e horário de quem conferiu.
  • Algum produto saiu sem liberação da qualidade nos últimos meses? Evidência: bloqueio do sistema funcionando ou o registro da exceção autorizada.
  • Como vocês rastreiam o lote que foi para este cliente? Evidência: lote na nota fiscal ligado à ordem de produção e ao lote do insumo.
  • Me mostre a última devolução e o que foi feito com ela. Evidência: registro de entrada, análise da causa e retorno formal ao cliente.
  • Como o produto é protegido no transporte, e onde isso está escrito? Evidência: instrução de embalagem e checklist ou foto da carga conferida.

Achado típico: rastreabilidade que funciona do pedido até a nota, mas não volta da nota até o lote de matéria-prima.

Roteiro: tratamento de não conformidade

Este roteiro testa se a empresa corrige o efeito ou a causa. A distinção está em o que é não conformidade, e ela separa o sistema que aprende do que apaga incêndio.

  • Me mostre a não conformidade mais antiga ainda aberta e o que travou nela. Evidência: registro com prazo vencido e a justificativa formal da prorrogação.
  • Qual não conformidade teve reincidência no último ano? Evidência: duas ocorrências do mesmo modo de falha e a análise de cada uma delas.
  • Neste caso, o que foi correção e o que foi ação corretiva? Evidência: os dois campos preenchidos e distintos, contenção separada da causa.
  • Como vocês concluíram que a causa era essa? Evidência: análise de causa raiz apoiada em dado do processo, não em opinião de reunião.
  • Onde está registrado que a ação funcionou? Evidência: verificação de eficácia com indicador antes e depois, em data posterior à implantação.

Achado típico: causa raiz escrita como falha humana, ação escrita como treinamento, e reincidência do mesmo evento três meses depois.

Roteiro: competência e treinamento

O que se audita não é a quantidade de horas de treinamento. É se a empresa sabe, antes de liberar a pessoa, que ela consegue fazer a atividade.

  • Quem foi a última pessoa a assumir este posto e como vocês souberam que ela estava pronta? Evidência: avaliação prática registrada e liberação nominal com data.
  • Qual foi o último treinamento feito por causa de uma não conformidade? Evidência: vínculo explícito entre o número da não conformidade e a lista de presença.
  • Se a pessoa deste posto sair de férias amanhã, quem assume? Evidência: matriz de competência com segunda pessoa qualificada para a mesma atividade.
  • Me mostre um treinamento que não funcionou e o que vocês fizeram. Evidência: avaliação de eficácia com resultado negativo e a reciclagem que veio depois.
  • Quem aprova os requisitos de competência deste posto? Evidência: descrição aprovada, com data, e coerente com o que o procedimento exige.

Achado típico: matriz de competência completa e nenhuma evidência de como a competência foi verificada, só presença em sala.

Roteiro: análise crítica pela direção

É o processo mais fácil de auditar mal, porque a ata sempre existe. A pergunta não é se houve reunião, é se saiu decisão. É aqui que o sistema de gestão da qualidade prova que é da direção.

  • Na última ata, qual decisão saiu com dono e prazo? Evidência: deliberação nominal na ata, não apenas registro de apresentação.
  • Qual indicador estava fora da meta na reunião anterior, e o que mudou desde então? Evidência: série do indicador nos dois momentos e a ação que ligou um ao outro.
  • Onde entraram os resultados da auditoria interna nessa pauta? Evidência: item de pauta citando os achados do ciclo e o status das ações.
  • Que recurso foi aprovado nessa reunião e já foi liberado? Evidência: pedido de compra, contratação ou orçamento aprovado após a data da ata.
  • Como a voz do cliente chegou até aqui? Evidência: dado de reclamação ou pesquisa do período, ligado a alguma decisão de melhoria contínua.
Processo auditadoPergunta de rastreamentoEvidência que ela pedeAchado típico
ComercialQual foi o último pedido alterado depois de liberado?Histórico de revisão e comunicação às áreasAlteração que não chegou a produção
ProjetoQual requisito mudou no meio do projeto?Controle de alteração e retesteValidação ausente
ComprasQual foi o último lote reprovado no recebimento?Registro de inspeção e tratativaAvaliação desligada do resultado
ProduçãoQuem liberou a primeira peça da ordem de ontem?Aprovação com medida, hora e nomeAssinatura em bloco no fim do turno
MediçãoOnde está o certificado do instrumento em uso agora?Etiqueta e certificado do mesmo númeroIncerteza grande para a tolerância
ExpediçãoComo este lote é rastreado até a matéria-prima?Nota ligada à ordem e ao lote do insumoTrilha só no sentido da saída
Não conformidadeQual é a mais antiga ainda aberta?Registro com prazo e justificativaCorreção registrada como ação corretiva
CompetênciaComo souberam que a pessoa estava pronta?Avaliação prática e liberação nominalPresença no lugar de avaliação
DireçãoQual decisão da última ata teve dono e prazo?Deliberação nominal e ação executadaAta sem deliberação

Evidência objetiva, indício e o identificador que faz a diferença

Evidência objetiva é o registro verificável sem depender de quem estava lá. Indício aponta para algo e ainda precisa de confirmação. O auditor coleta os dois e relata apenas o primeiro.

A regra de ouro é anotar o identificador. Sem número de documento, data e revisão, o achado vira palavra contra palavra no encerramento, e o auditado ganha a discussão por padrão.

Anotação do auditorIdentificador a registrarServe como prova?
A empresa tem procedimento de compras-Não: fala da regra, não do caso
Vi o POP-COM-03 revisão 4 no posto de recebimentoPOP-COM-03 rev. 4, visto em 12/03Sim
O supervisor disse que treina todo mundo antes de liberar-Não: indício, exige ver o registro
Ordem 44.812 sem registro de liberação de primeira peçaOP 44.812, produzida em 18/08Sim
Parece que a calibração está atrasada-Não: falta instrumento e data
Paquímetro PAQ-07 em uso com etiqueta vencidaPAQ-07, validade 30/06, visto em 14/09Sim

Anote durante a entrevista, não depois. O que se escreve na hora tem número; o que se escreve no fim do dia tem adjetivo.

Amostragem e o documento que não aparece

A auditoria acontece em tempo finito, então a evidência vem de amostra. Isso não é fragilidade do método, é a definição dele. O que precisa de critério é a escolha da amostra, e ela nunca deve ser sorteada.

Escolha pelo risco: o caso mais recente, o de maior valor, o que teve reclamação, o que rodou no turno da noite, o que passou por exceção.

Volume no períodoItens a examinarCritério de seleção
Até 20 registros3 a 5Os extremos: o mais antigo em aberto, o mais recente e o de maior valor
De 20 a 1005 a 8Um por mês, mais dois casos fora da curva
De 100 a 5008 a 12Estratificar por cliente, turno ou linha e pegar de cada estrato
Acima de 50010 a 15Partir do indicador e concentrar nos períodos de pior desempenho
Processo novo ou com falha recenteTodos os casos do eventoCobertura total do que está ligado à mudança

Quando o auditado não encontra o documento, não faça disso um achado na hora. Registre o horário do pedido, combine um prazo dentro do dia e siga. Documento que aparece em vinte minutos é lentidão de arquivo. Se o prazo vencer, aí existe achado, escrito pelo que é: o registro exigido não foi apresentado durante a auditoria.

Conduta, classificação do achado e os erros do iniciante

Perguntar sem parecer inquisição é técnica, não simpatia. Explique por que está perguntando, fale do processo e não da pessoa, e deixe o silêncio trabalhar. Auditado que se sente julgado esconde, como relata o que eu aprendi sobre auditoria ISO 9001.

Na classificação, use três níveis e defenda cada um pelo efeito.

  • Não conformidade maior: requisito inteiro ausente, falha sistêmica ou risco direto ao cliente. Exemplo: nenhum registro de calibração para instrumento de característica crítica.
  • Não conformidade menor: desvio pontual em sistema que funciona. Exemplo: dois de dez registros do mês sem assinatura do responsável.
  • Oportunidade de melhoria: atende ao requisito, mas com fragilidade visível. Exemplo: controle em planilha pessoal, sem backup, há dois anos.

Os erros que mais aparecem em auditor iniciante são cinco.

  1. Ler o checklist em voz alta na frente do auditado, o que entrega a resposta esperada.
  2. Aceitar a resposta verbal sem pedir o documento, o que transforma indício em conclusão.
  3. Auditar a pessoa e não o processo, o que fecha a fonte de informação pelo resto do dia.
  4. Propor a solução no encerramento, o que tira do dono do processo a responsabilidade pela causa.
  5. Escrever o achado sem citar o requisito e o identificador, o que derruba o relatório na primeira contestação.

Um roteiro de auditoria interna maduro cabe em duas folhas: as perguntas de rastreamento por processo e a lista de identificadores a coletar. Para adaptar ao seu contexto, veja como aplicar uma auditoria interna em sua empresa e, se o escopo for de rotina de chão, o checklist de auditoria 5S.

Perguntas frequentes

O que é um roteiro de auditoria interna?
É a lista de perguntas que o auditor leva para cada processo, com a evidência que cada pergunta pede. Diferente do checklist de requisitos, o roteiro não pergunta se a empresa atende à norma. Ele pede um caso concreto e recente, escolhido pelo auditor, e obriga o auditado a abrir um documento que responda.
Qual a diferença entre pergunta aberta e pergunta fechada na auditoria?
A pergunta fechada recebe sim ou não e encerra o assunto, porque já entrega a resposta esperada dentro do enunciado. A pergunta aberta pede um caso real e produz papel na mesa. Em vez de perguntar se existe procedimento de compras, o auditor pede a última compra feita fora da lista de fornecedores aprovados.
O que é rastreamento na auditoria interna?
É escolher um caso real e segui-lo de ponta a ponta atravessando as áreas, em vez de auditar cada setor isolado. Para frente começa no pedido do cliente e vai até a nota fiscal. Para trás começa em uma carga expedida ou reclamação e volta até a origem. As falhas aparecem nas junções entre processos.
Quantos casos rastrear em uma auditoria?
Dois rastreamentos completos por auditoria costumam render mais que vinte perguntas soltas: um para frente e um para trás. O restante do tempo vai para amostragem pontual nos pontos de maior risco. Rastreamento profundo em poucos casos encontra mais que verificação rasa em muitos registros.
O que conta como evidência objetiva em auditoria?
Evidência objetiva é o registro verificável por outra pessoa sem depender de quem estava presente. Precisa ter identificador, data e revisão anotados. O que o auditado fala é indício, e indício exige confirmação documental antes de virar achado. Sem número de documento, o achado não sobrevive à reunião de encerramento.
Como escolher a amostra de uma auditoria interna?
A amostra deve ser dirigida pelo risco, não sorteada. Escolha o caso mais recente, o de maior valor, o que gerou reclamação, o que rodou no turno da noite e o que passou por exceção. Em volumes de vinte a cem registros, de cinco a oito itens bastam se forem bem escolhidos.
O que fazer quando o auditado não encontra o documento?
Não transforme em achado na hora. Registre o horário do pedido, combine um prazo dentro do mesmo dia e siga para a próxima pergunta. Se o prazo vencer, o achado se escreve pelo que é: o registro exigido não foi apresentado durante a auditoria, sem afirmar que ele não existe.
Como classificar um achado de auditoria?
Use três níveis. Não conformidade maior é requisito inteiro ausente, falha sistêmica ou risco direto ao cliente. Não conformidade menor é desvio pontual em sistema que funciona. Oportunidade de melhoria é quando o requisito é atendido, mas com fragilidade visível, como controle em planilha pessoal sem backup.
O programa anual de auditoria deve ser por rodízio?
Rodízio cego gasta o mesmo tempo no processo estável e no que está com problema. O programa melhor combina risco do processo, desempenho recente nos indicadores e mudanças ocorridas. Processo de alto risco com desempenho ruim merece duas visitas no ano, e processo que mudou entra fora do programa em até sessenta dias.
O que dizer na reunião de encerramento da auditoria?
Apresente cada achado na ordem em que foi encontrado, citando o identificador do documento e o requisito comparado. Leia o texto em voz alta e confirme o fato com o auditado, mesmo que ele discorde da classificação. Não proponha a solução: a causa e a ação pertencem ao dono do processo.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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