Metodologias & Qualidade

CIL: o que é, como montar e 7 exemplos no TPM

A rotina curta que mantém o equipamento na condição básica, escrita a partir do que a limpeza inicial revela

Thiago Coutinho
Publicado em 14 de set de 2026  ·  Atualizado em 14 de set de 2026  ·  21 min de leitura
Colaboradora da Voitto de cabelos longos escuros e camiseta preta, olhando para baixo com um leve sorriso enquanto organiza uma pilha de livros sobre a mesa, com o logo da Voitto iluminado na parede ao fundo, com o texto CIL: o que é, como montar e 7 exemplos no TPM sobre fundo escuro à esquerda

Por dois anos coordenei a operação da MRS em Lafaiete. Os inspetores respondiam a mim, e os maquinistas respondiam a eles. Aprendi ali que uma inspeção só existe quando tem roteiro, horário marcado e alguém que assina o resultado. O CIL leva essa disciplina para o equipamento, na mão de quem opera.

Na fábrica, a quebra raramente chega sem aviso. Antes dela vêm o vazamento, a folga, o filtro saturado e o ponto de lubrificação que ninguém alcança. Quem passa pelo equipamento todo dia é quem pode ver esses sinais cedo. Falta dar a essa pessoa uma rota curta e um critério para cada ponto.

Neste guia você vai ver o que é a rotina, o que cada letra protege e o que o livro diz sobre ela. Depois vêm os seis passos para montar a sua, 7 exemplos tirados de projetos ilustrativos e um modelo em branco para baixar.

O que é CIL na manutenção autônoma

CIL é a sigla de limpeza, inspeção e lubrificação. É uma rotina curta, feita pelo próprio operador, com pontos, método, tempo e frequência definidos para cada equipamento. Ela nasce na manutenção autônoma do TPM e mantém a condição básica. O objetivo é achar a deterioração enquanto ela é sinal, antes de virar quebra ou defeito.

Condição básica é o estado em que o equipamento deveria estar sempre. Limpo, sem folga, sem vazamento, lubrificado e com os pontos de inspeção à vista. Ela não melhora nada por si. Ela só impede que o equipamento piore em silêncio. Por isso a rotina vem antes de qualquer projeto de melhoria, e não depois.

A manutenção autônoma é um dos oito pilares do TPM. Ela passa para a operação os cuidados diários que não exigem especialista. O JIPM, o instituto japonês de referência do método, descreve o pilar em sete passos. Os três primeiros tratam de limpeza inicial, fontes de sujeira e padrões provisórios de limpeza e lubrificação. A rota é o produto desses três passos.

Na prática, ele é uma folha ou um cartão preso ao equipamento. Cada linha diz o ponto, o que fazer e com que ferramenta. Diz também o critério de aceite, quanto tempo leva e de quanto em quanto tempo se repete. Quem executa marca o que viu. O que sai do critério vira etiqueta de anomalia.

No chão de fábrica, a mesma coisa atende por padrão, rota ou cartão de CIL. Em todos os casos é a lista curta que o operador cumpre sem esperar a manutenção. O guia de ferramentas TPM mostra onde ela encaixa no conjunto do método. E a comparação entre TPM e TQM ajuda a separar o cuidado com o equipamento do cuidado com o sistema da qualidade.

O que o Guia Prático diz: CILR na página 108

No livro Guia Prático Lean Seis Sigma, que eu escrevi, o tema aparece na seção 13.2.1.4, Pilar Técnico Manutenção Autônoma, nas páginas 107 e 108. A página 107 abre com a Figura 13.6, que mostra os sete passos de implantação do pilar. A página 108 descreve o que se espera em cada nível de pontuação.

No nível 1, o texto diz o seguinte: “Introduz-se a gestão visual (segurança, ferramentas, manuais, níveis de óleo, medidores), além de um cronograma de CILR (limpeza, inspeção, lubrificação, reaperto) exibido na máquina e seguido. Um calendário de AM é estabelecido em uma página, com auditorias de passo conduzidas regularmente e acompanhadas.” (Coutinho, Guia Prático Lean Seis Sigma, seção 13.2.1.4, p. 108).

Repare na sigla. O livro escreve CILR, com o R de reaperto. O kit e este guia usam três letras. A divergência é real, e prefiro declarar a esconder. O reaperto não sumiu: ele entra como item de inspeção, no ponto que pede. Na limpeza inicial da manutenção, mais abaixo, o reaperto aparece entre as etiquetas azuis que a própria operação resolve.

Se a sua fábrica usa CILR, o conteúdo é o mesmo. Muda o nome, e a lista de pontos continua saindo do equipamento. O que não pode mudar são as duas exigências da página 108. O cronograma fica exibido na máquina, à vista de quem opera. E ele é seguido, o que só se prova com auditoria.

Mais adiante, na mesma página, aparece outro marco do pilar: “Reduz-se o tempo de limpeza e inspeção em mais de 90%”. Um corte desse tamanho vem de atacar fonte de sujeira e ponto de acesso ruim. Pedir pressa ao operador não chega perto.

Aqui o TPM conversa com o Lean Manufacturing. Padrão no local de uso e sinal visível de anormalidade são ideias das duas escolas. A diferença é o foco: o pilar de manutenção autônoma aplica essas ideias ao equipamento, ponto por ponto.

O que cada letra do CIL protege

As três letras parecem óbvias. O valor está no que cada uma protege e no critério que ela exige de quem executa.

Limpeza. Limpar é a primeira forma de inspecionar. A mão que tira a sujeira acha a trinca, a folga e o vazamento que a sujeira escondia. Não se trata de estética. O 5S cuida da área, e a rotina cuida do equipamento, ponto por ponto. Um item de limpeza bem escrito diz o ponto, o método e o que olhar enquanto limpa.

Inspeção. Inspecionar é comparar o ponto com um critério. Olhar sem critério produz a frase “está tudo bem”, que ninguém consegue auditar. O critério pode ser visual, como uma faixa verde no manômetro. Pode ser uma medida, como um tempo de fechamento com limite declarado. A gestão visual ajuda muito nesse ponto. Marca de alinhamento, faixa de operação e seta de sentido transformam o critério em algo que se vê de relance.

Lubrificação. Lubrificar é garantir o ponto, o lubrificante, a quantidade e a frequência. O ponto que ninguém alcança fica sem óleo, e a falha aparece meses depois como quebra. Por isso a lubrificação da rota costuma ficar com os pontos simples. Os complexos seguem na manutenção preventiva, com o especialista.

A rota também não compete com a manutenção preditiva. A preditiva mede tendência com instrumento. A rota garante a condição básica que torna essa medição confiável. Um mancal sujo e sem graxa gera um sinal que não diz nada.

Existe ainda um quarto efeito, menos visível. A rota devolve ao operador a autoridade de parar. Quando o critério é claro, sair dele é motivo para chamar ajuda. É a mesma lógica do jidoka, levada para o cuidado diário com a máquina.

Etiqueta azul, etiqueta vermelha: de onde vêm os pontos da rota

Toda rota boa começa com um lote de etiquetas. Na limpeza inicial, cada anomalia recebe uma etiqueta pendurada no próprio ponto. A cor diz quem resolve. A azul fica com a operação, porque o reparo cabe na mão de quem opera. A vermelha vai para a manutenção, porque pede ferramenta, peça ou conhecimento técnico.

A proporção entre as duas conta uma história. Nos sete exemplos deste guia, as azuis sempre superam as vermelhas. Boa parte da deterioração vinha de sujeira, folga pequena e ponto encoberto. Nada disso exigia especialista, só alguém que olhasse com atenção.

As vermelhas pesam mais na hora de escrever a rota. Cada uma marca um lugar onde o equipamento já falhava em silêncio. Depois da correção, a pergunta é direta: isso pode voltar? Se pode, o ponto ganha uma linha, com critério e frequência. Se a correção eliminou a causa de vez, a etiqueta fecha e não vira item.

Há um terceiro destino, que muita equipe esquece. Algumas etiquetas apontam fontes de sujeira, como um vazamento que espalha óleo ou um corte que solta pó. Enquanto a fonte existir, limpar vira enxugar gelo. O segundo passo da manutenção autônoma trata disso: eliminar a fonte antes de padronizar a limpeza.

Um cuidado prático evita perder o fio. Numere as etiquetas e fotografe cada uma no ponto. Anote quem abriu, a cor e o prazo de tratamento. Na hotelaria, o prazo ficou em até 48 h para a azul e até 7 dias para a vermelha. Esse registro alimenta a rota e prova de onde cada item veio.

Como montar um CIL em seis passos

A ordem importa. O erro mais comum é escrever a rota em sala, antes de olhar o equipamento. Os passos abaixo seguem os três primeiros passos da manutenção autônoma. E fecham com o registro que a folha do kit pede.

  1. Faça a limpeza inicial com etiquetas. Operação e manutenção limpam juntas, no gemba, com o equipamento parado e seguro. Cada anomalia ganha uma etiqueta. As azuis ficam com a operação. As vermelhas vão para a manutenção.
  2. Tire os pontos das etiquetas. Toda etiqueta que pode voltar é candidata a ponto da rota. Folga, vazamento, filtro saturado e ponto sem acesso entram primeiro. O que foi resolvido de vez, como uma peça trocada, não precisa de rota.
  3. Abra o acesso antes de escrever. Guarda parafusada, ponto encoberto e visor sujo não se resolvem com treinamento. Primeiro se abre o acesso, com portinhola, visor ou marcação. Só depois o ponto entra no padrão.
  4. Escreva o critério de cada ponto. Cada linha precisa de ponto, método, ferramenta, critério de aceite, tempo e frequência. O critério é o que transforma inspeção em decisão. Se ninguém sabe dizer o que é fora do padrão, o ponto ainda não está pronto.
  5. Publique com número, versão e data. A rota entra na lista de padrões do projeto como tipo próprio, ao lado do SOP e da LPP. Fica afixada no equipamento. A parte que exige especialista vai para o plano de manutenção.
  6. Treine no posto e audite a aderência. Ninguém assume a rota sozinho sem OJT registrado. Depois, a aderência vira indicador de acompanhamento, ao lado do indicador de resultado que o padrão protege.

O passo 3 é o que mais se pula, e é o que mais custa. Um ponto que exige ferramenta para abrir não vai ser inspecionado todo turno. Cobrar não resolve. É preciso redesenhar o acesso, e só então a padronização fica de pé.

Registre a rota recém-escrita na peça A12 do Kit de Ferramentas TPM: ela entra como padrão próprio, com número e versão, e o quadro de baixo guarda quem já treinou.

Uma última regra de montagem: comece pequeno. Um equipamento, um turno e uma rota que caiba no tempo real do posto. No exemplo da hotelaria, a rotina soma 6 min por turno. Quando a rota passa muito do que o turno comporta, ela deixa de ser cumprida.

Como escrever um item de rota que se audita

O que separa uma rota viva de um ritual é a redação de cada linha. Um item auditável responde a cinco perguntas: onde, o quê, como, com que critério e com que frequência. A tabela compara itens vagos com redações ilustrativas, montadas com pontos dos exemplos deste guia. Um auditor consegue conferir cada versão da direita no posto.

Item vagoItem auditávelO que mudou
Verificar a parafusadeiraConferir a calibração no início do turno, contra o torque-alvo exposto no postoo critério ficou à vista
Limpar o filtroAbrir a guarda de fecho rápido, tirar o fiapo e conferir o sensor de umidade livre, a cada turnoo acesso existe e o método está escrito
Olhar as válvulasCronometrar o fechamento de cada válvula do dosador e abrir etiqueta acima de 0,15 sa inspeção virou medida
Checar o siloConferir o manômetro na faixa marcada e a bica de descarga seca, uma vez por diaa condição tem sinal visível
Lubrificar a máquinaAplicar a graxa indicada nos mancais marcados, na quantidade da etiqueta, uma vez por semanaponto, lubrificante e dose definidos

Repare que nenhum item auditável depende de boa vontade. O critério está escrito, o ponto está marcado e a frequência é explícita. Se alguém marcar OK num ponto fora do critério, a próxima auditoria mostra.

Outra regra ajuda muito: cada item cabe numa linha. Quando a descrição pede um parágrafo, o ponto precisa de uma folha de um ponto ao lado, com foto. A rota lista, e a folha ensina.

Por fim, cronometre a rota antes de publicar. Execute-a com o operador, em condição normal de turno. Se o tempo não cabe, leve os itens de baixa frequência para a rota semanal. Método apertado para caber no relógio é o primeiro a ser pulado.

7 exemplos de CIL, do posto de montagem à obra

Os exemplos a seguir saem de sete Folhas de Kobetsu Kaizen do kit TPM, uma por setor. Cada um abre pelo ponto inspecionado e pela condição que ele protege. Depois vêm a limpeza inicial, o padrão publicado e o que o indicador mostrou. Os números de OEE, quebra e defeito são os da própria Folha.

◆ CASOS ILUSTRATIVOS: TODA FOLHA DE ORIGEM SE DECLARA ILUSTRATIVA. CÓDIGO, DATA E NÚMERO FORAM COPIADOS DELA SEM RETOQUE.

SetorPadrãoPonto inspecionadoCondição protegida
ProduçãoCIL-MON-004parafusadeira e filtro-regulador de artorque dentro do alvo
SaúdeCIL-PA-003posto de coletaamostra identificada na origem
LogísticaCIL-LOG-002posto e coletoresleitura confirmada na separação
ManutençãoCIL-MAN-009pontos das etiquetas vermelhasequipamento sem folga nem vazamento
AlimentícioCIL-ENV-005válvulas do conjunto dosadorfechamento em até 0,15 s
SustentabilidadeCIL-SIL-003silo e serra de bancadaargamassa sem vazamento e corte com coleta
HotelariaCIL-LAV-007 e CIL-GOV-012secadora, calandra e carrinhociclo de secagem e sucção no tempo

1. Produção: a calibração da parafusadeira no posto de fixação

Folha de padronização e OJT de um projeto ilustrativo de produção, com o CIL-MON-004 do posto de fixação no quadro de padrõesParafusadeira calibrada e filtro-regulador de ar limpo: são as duas condições que o CIL-MON-004 guarda no posto de fixação da montagem final. Quando uma delas sai do lugar, o parafuso fica frouxo e a unidade volta para retrabalho.

A limpeza inicial foi feita com o time inteiro e abriu 14 etiquetas. Nove eram azuis, e a operação resolveu no turno: sujeira nas bancadas, torque-alvo fora da vista, mangueira de ar solta. As 5 vermelhas foram para a manutenção. Numa delas, a parafusadeira do 2º turno estava fora do padrão das outras. Noutra, o filtro-regulador da rede de ar estava saturado.

O Why-Why terminou num ponto que ninguém tinha escrito. O posto nunca tinha entrado na rotina de inspeção e calibração. A ferramenta perdia a calibração e nenhuma tarefa mandava olhar.

O piloto rodou 2 semanas no 2º turno. Calibração e trava de torque ficaram prontas em 05/05. Desde 06/05, o check de calibração mora dentro da rota diária do posto.

O indicador de acompanhamento mediu a cobertura: as parafusadeiras no plano de calibração saíram de sem plano para 100%. O retrabalho caiu de 12% para 4,3%. O OEE da montagem subiu de 66% para 74%.

Deste caso, eu levo o ponto onde o Why-Why parou. Faltava uma tarefa escrita, e a correção começou por escrevê-la. Quando a rotina chegou à linha 2, que usa o mesmo modelo de parafusadeira, quem ensinou no posto foram os montadores da linha 1.

2. Saúde: impressora e rack no posto de coleta do pronto atendimento

Folha de padronização e OJT de um projeto ilustrativo de saúde, com o CIL-PA-003 do posto de coleta no quadro de padrõesPosto de coleta, rack de transporte de amostras e sala de reavaliação foram os pontos varridos no PA. A condição protegida é a amostra sair identificada, sem reimpressão e sem espera na origem.

A varredura abriu 22 etiquetas, 15 azuis e 7 vermelhas. A impressora falhava 1 em cada 12 impressões por sensor sujo. A centrífuga estava fora da rotina de limpeza.

O grupo juntou a enfermeira líder do PA, a coordenação do laboratório, um médico do plantão diurno e um analista de processos. A explicação mais cômoda era falta de gente. Um plantão extra simulado no pico, das 18h às 23h, não mexeu no tempo porta-alta, e o subdimensionamento saiu da lista.

Só com o fluxo restaurado deu para medir o tempo de bancada com confiança: 94 minutos. A rotina diária de inspeção do posto virou o CIL-PA-003, publicado em 11/12/2026.

A Folha não detalha os itens dessa rotina, e a gente não vai inventá-los aqui. Ela registra a origem: o padrão nasceu da restauração da condição básica, que tirou ruído do fluxo antes de qualquer contramedida cara.

3. Logística: coletores e parâmetros do WMS no centro de distribuição

Folha de padronização e OJT de um projeto ilustrativo de logística, com o CIL-LOG-002 dos coletores no quadro de padrõesLeitor limpo no coletor é o ponto que o CIL-LOG-002 protege no centro de distribuição. O scan ativo no WMS depende de outra rota. Sem os dois, o separador pega o item vizinho e ninguém confirma.

Nas ruas 5 a 9, a varredura abriu 19 etiquetas. Uma vermelha era um coletor com leitor sujo, lendo 1 em cada 8 tentativas. Outra era o scan de confirmação desativado para ganhar tempo.

Daí saíram dois cuidados. A rotina do posto inspeciona os coletores. Uma inspeção trimestral revisa as parametrizações críticas, e o time passou a chamá-la de CIL do sistema.

Na rua 7, o teste reativou o scan de confirmação. A taxa de item errado recuou a 1,2%, contra 4,1% antes. Parâmetro de sistema também se deteriora, e sem rota de inspeção nenhum relatório mostra.

4. Manutenção: a rota dos 22 equipamentos críticos

Folha de padronização e OJT de um projeto ilustrativo de manutenção, com o CIL-MAN-009 dos equipamentos críticos no quadro de padrõesVazamento, folga, peça provisória e ponto de lubrificação inacessível: cada um virou item de rota nos 22 equipamentos críticos da planta. O CIL-MAN-009 foi escrito a partir das etiquetas vermelhas, e não de um manual.

Operação e manutenção fizeram a limpeza inicial juntas, entre 10/08 e 04/09. Foram 63 etiquetas, 41 azuis e 22 vermelhas. As azuis ficaram com a operação: sujeira, guardas soltas, sensores encobertos e reaperto.

O dado que o apontamento escondia apareceu aqui. Das 22 vermelhas, 9 pediam sobressalente que não havia em estoque. Uma rota que acha folga sem peça para trocar só registra o problema.

Por isso o padrão saiu junto com o roteiro de diagnóstico e a política de estoque dos itens críticos. A rota aponta o defeito, e o almoxarifado tem a peça.

Na planta, as quebras foram de 41 para 35 por mês. Com a condição básica mantida e a preventiva por condição, a projeção da Folha é chegar a cerca de 13 por mês.

O pacote com limpeza inicial e rota corre nas linhas 1, 3 e 4 desde 23/11/2026. Os técnicos do piloto são os multiplicadores, e a conclusão está prevista para jan/2027. Se eu tivesse de convencer uma manutenção cética, começaria por este caso: a limpeza foi feita a quatro mãos, e o estoque entrou no padrão.

Uma pausa antes dos três últimos. Repare de onde veio cada ponto. Nenhum saiu de reunião. Todos saíram de uma etiqueta pendurada durante a limpeza inicial. Se a sua rota tem um ponto que ninguém consegue ligar a uma anomalia vista, vale perguntar por que ele está ali.

5. Alimentício: o fechamento das válvulas do conjunto dosador

Folha de padronização e OJT de um projeto ilustrativo do setor alimentício, com o CIL-ENV-005 do conjunto dosador no quadro de padrõesCada bico do conjunto dosador tem uma válvula que precisa fechar em até 0,15 s. Essa é a condição Q da linha de biscoitos 02, e o CIL-ENV-005 existe para medi-la.

A limpeza inicial de 22/09 abriu 24 etiquetas. Havia resíduo de massa nos assentos das válvulas e ponto de inspeção encoberto. As vermelhas incluíam vedações ressecadas dos bicos 5 a 8 e um ponto de lubrificação fora da rota.

Na primeira hora, a medição mostrou retardo de 0,3 s no fechamento. É o dobro do limite. Em 18 meses, o apontamento nunca tinha acusado as vedações.

Por isso o padrão não para em limpar e lubrificar. Ele manda cronometrar o fechamento de cada válvula contra o limite. A troca trimestral das vedações foi para o plano de manutenção preventiva.

Duas folhas de um ponto ficaram na envasadora. Cada bico só foi liberado depois da medição. O padrão foi publicado em 12/12/2026.

A aderência à rota do dosador chegou a 100%. O defeito de peso caiu de 3,4% para 1,6%. Os ajustes manuais por deriva foram de 92 para 6 por mês.

Fica a lição que a Folha registra: componente sem condição Q declarada não protege o processo. A réplica nas linhas 01 e 03, envasadoras do mesmo fabricante, leva essa lição junto. São vedações novas verificadas na condição Q, rotina adaptada e carta por bico, em jan/2027. Para mim, este é o caso que mostra por que a condição Q vem antes da rotina: sem o limite escrito, ninguém saberia o que cronometrar.

6. Sustentabilidade: silo de argamassa e serra de bancada na obra

Folha de padronização e OJT de um projeto ilustrativo de obra residencial, com o CIL-SIL-003 do silo e da serra no quadro de padrõesSilo de argamassa e serra de bancada são os dois equipamentos que o CIL-SIL-003 olha todo dia na obra residencial. A condição protegida é a argamassa sair sem vazamento e o corte acontecer com coleta.

A limpeza inicial das frentes abriu 34 etiquetas, 23 azuis e 11 vermelhas. Entre as vermelhas estavam o silo sem manômetro, a bica de descarga com vazamento e a serra sem coleta. Dois dias bastaram para ver o que 8 meses de romaneio não mostravam.

A folha de um ponto do silo está fixada em cada pavimento. Equipe nova só assume pavimento depois do treinamento nos 4 padrões e na rotina do silo.

O indicador de acompanhamento marcou a rotina do silo cumprida em 98% dos dias. A geração de resíduos caiu de 0,182 para 0,125 m³/m².

Versionados no Plano da Qualidade corporativo, os padrões valem para qualquer obra do grupo, e os mestres do piloto fazem o papel de multiplicadores. A obra vizinha já tem data para replicar o pacote completo: 1º trimestre de 2027. Na minha leitura, o que segura esse padrão é a regra do pavimento: sem treinamento, equipe nova não entra, e a rotina do silo não depende da memória de ninguém.

7. Hotelaria: filtro de fiapos, calandra e carrinhos da governança

Folha de padronização e OJT de um projeto ilustrativo de hotelaria, com o CIL-LAV-007 e o CIL-GOV-012 no quadro de padrõesFiltro de fiapos limpo e sensor de umidade livre mantêm a secadora no ciclo certo. No andar, é o filtro do aspirador que decide se a camareira termina o quarto sem parar.

Camareiras, lavanderistas e um mecânico fizeram a limpeza inicial de 25 a 29/05 e penduraram 63 etiquetas. A vermelha mais reveladora era a guarda do filtro de fiapos, parafusada. Ninguém limpava o filtro porque não havia como abrir.

O teste de 03/06, com rotina provisória por turno, levou as paradas curtas do dia de 9 para 2. Vieram então dois padrões. O CIL-LAV-007 cobre filtro, sensor, correia e rolete da calandra por turno, com os mancais na semanal. O CIL-GOV-012 cuida do carrinho e do aspirador no fim do turno, com filtro sobressalente no andar.

A portinhola de inspeção vibrava e abria sob carga. Foi trocada por fecho com trava, com custo de R$ 900 registrado na ata de 14/07. A rotina soma 6 min por turno.

Um desvio no piloto virou regra: ninguém assume a rotina sozinho sem OJT registrado. Até 14/08, 22 camareiras, 3 supervisoras e 3 lavanderistas concluíram o OJT. Com ocupação prevista acima de 90%, a regra aciona reforço da rotina na véspera.

No mês, as pequenas paradas recuaram a 35, contra 209 no início. O tempo médio entre falhas da lavanderia saltou de 6 para 41 h. A Folha resume o aprendizado assim: o ponto que ninguém alcança é a causa raiz travestida de descuido.

Os outros seis setores do kit ficam fora desta lista. Nas Folhas de serviços e do farmacêutico não há padrão de limpeza e inspeção numerado. Financeiro, marketing e os dois setores de elevadores não têm esse bloco no case. Exemplo sem lastro na Folha não entra.

Onde o CIL encosta no SOP, na LPP e no OJT

A rota raramente vive sozinha. Nos projetos do kit, ela sai publicada junto com outros padrões. Cada um responde a uma necessidade diferente do posto.

PeçaO que fixaQuem usaQuando entra
SOP ou POPa sequência de uma tarefa inteiraquem executa a operaçãoa cada execução da tarefa
Rota de CILos pontos de cuidado do equipamento, com critérioo operador do equipamentopor turno, por dia ou por semana, conforme o ponto
LPPum detalhe único, com imagemquem trava diante do pontono momento da dúvida
OJTa habilidade de cumprir o padrãoquem vai assumir o postoantes de assumir sozinho

O procedimento operacional padrão diz como fazer a tarefa. A rota diz o que olhar no equipamento que faz a tarefa. Na produção, o SOP-MON-011 fixou o aperto com torque-alvo. A rota do mesmo posto passou a checar a calibração da parafusadeira. Um sem o outro deixa furo.

A lição ponto a ponto sustenta um ponto delicado da rota. Na hotelaria, o filtro de fiapos e o sensor ganharam folha própria, afixada na lavanderia. No alimentício, a verificação do fechamento das válvulas ganhou folha própria na envasadora. A rota diz que o ponto existe, e a folha mostra como fazer bem.

O OJT fecha o ciclo. É o treinamento no posto, com avaliação prática, antes de a pessoa assumir a rota sem acompanhamento. O treinamento de sala ajuda no conceito. O critério de cada ponto só se aprende com o equipamento na frente.

Tudo isso é trabalho padronizado aplicado ao cuidado com a máquina. Muda o objeto. O trabalho padronizado organiza a pessoa na tarefa. A rota organiza a pessoa em torno do equipamento.

Seis erros que esvaziam o CIL

Os erros abaixo aparecem em qualquer setor. Quase todos têm a mesma raiz: a rota foi escrita sem olhar o equipamento.

  • Rota escrita antes da limpeza inicial. Os pontos vêm do manual ou da memória, e a anomalia real fica de fora. É a limpeza inicial que mostra onde o equipamento perde condição.
  • Ponto sem critério. “Verificar válvula” não diz nada. “Fechamento em até 0,15 s” diz. Sem critério, a folha é assinada todo dia e o defeito continua.
  • Ponto sem acesso tratado como descuido. Se o ponto não abre, ninguém vai limpá-lo. Cobrar disciplina aqui só desgasta a relação com o time. O acesso se resolve primeiro.
  • Etiqueta vermelha sem peça. A rota acha a folga, e a correção para no almoxarifado. Ligue a rota à gestão da manutenção, com estoque do sobressalente crítico.
  • Rota entregue sem treino. A pessoa recebe a folha e aprende sozinha, cada uma de um jeito. Em pouco tempo, o mesmo número de padrão esconde três rotinas diferentes.
  • Medir só a assinatura. A aderência mostra se a rota foi cumprida. O indicador de resultado mostra se ela protege alguma coisa. Sem o segundo, a rota vira ritual e a equipe volta à manutenção corretiva.

Quando um desses erros aparece, trate como problema de padrão. Um ciclo curto de kaizen na própria rota costuma resolver. Revise o ponto, troque o critério e publique a versão nova.

Auditoria da rota: o que os inspetores ensinam

Quem chefia inspetores aprende cedo que o papel deles não é refazer o trabalho do outro. É conferir se o roteiro foi cumprido e se o critério foi respeitado. A auditoria da rota segue essa lógica. Ela não existe para punir quem esqueceu um ponto. Existe para descobrir se o padrão ainda faz sentido.

O livro pede auditorias de passo conduzidas regularmente e acompanhadas. Na prática, isso vira camadas. No exemplo da logística, a auditoria ficou assim: líder diária, supervisão semanal e gerência mensal. A Folha fixa só a cadência. Uma divisão que funciona: o líder confere o posto, a supervisão confere uma amostra e a gerência lê os indicadores no quadro do pilar.

Toda auditoria termina com uma de três decisões. Ponto bem escrito e cumprido segue como está. Ponto cumprido cujo critério não pega a falha pede critério novo. Ponto pulado porque não cabe no turno ou não se alcança pede revisão do acesso ou da frequência.

Um sinal merece atenção especial. Aderência alta por muito tempo, sem nenhuma etiqueta aberta, raramente quer dizer equipamento perfeito. Às vezes quer dizer folha assinada sem inspeção. Vale acompanhar a rota ao lado do operador, de tempos em tempos, e comparar o que ele marca com o que está no ponto.

Uma pergunta resume o teste: se a rota parasse amanhã, alguém perceberia antes da próxima quebra? Se a resposta for não, a rota ainda não protege nada. Se for sim, ela já faz parte da operação.

Modelo de CIL para baixar

Folha em branco de padronização e OJT do Kit de Ferramentas TPM, com cabeçalho do projeto, quadro de padrões por tipo e quadro de registro de treinamentoA peça que acompanha este guia é a A12 do Kit de Ferramentas TPM, que junta padronização e OJT numa folha só e entra na fase Agir, no passo 7. No cabeçalho vão projeto ou área, o responsável pela padronização e a data de publicação. O primeiro quadro lista os padrões criados ou revisados. Ali a rotina de limpeza e inspeção aparece como tipo próprio, com número, versão, data, o que mudou e onde está publicada. O segundo quadro guarda o registro de OJT: turno, função, padrão treinado, data e avaliação prática. Embaixo, uma caixa pergunta como fica quem chegar depois, e liga o padrão à matriz de habilidades e à integração.

Baixe o modelo em branco e registre a rota do seu equipamento

Se você quer aplicar o método com acompanhamento, as academias de certificação da Voitto trabalham o TPM com projeto real. O melhor ponto de partida, porém, continua sendo o mais simples. Um equipamento, um lote de etiquetas e uma hora com o time na frente da máquina.

Perguntas frequentes

O que significa CIL no TPM?
CIL é a sigla de limpeza, inspeção e lubrificação. No TPM, é a rotina que o operador cumpre no próprio equipamento para manter a condição básica. Cada ponto tem método, ferramenta, critério, tempo e frequência. A rotina nasce nos três primeiros passos da manutenção autônoma, depois da limpeza inicial com etiquetas. Ela não conserta nada sozinha. Ela acha a deterioração cedo, quando a correção ainda é barata.
Qual a diferença entre CIL e CILR?
O R é de reaperto. No Guia Prático Lean Seis Sigma, a página 108 fala em cronograma de CILR, com limpeza, inspeção, lubrificação e reaperto. O kit da Voitto usa CIL, com três letras. O conteúdo é o mesmo: o reaperto entra como item de inspeção quando o ponto pede. Escolha uma sigla e use a mesma em todos os padrões da planta.
Quem executa o CIL, a operação ou a manutenção?
A operação executa. A manutenção ajuda a montar a rota, treina os pontos mais técnicos e fica com o que exige especialista. Na limpeza inicial as duas trabalham juntas. As etiquetas azuis ficam com a operação e as vermelhas vão para a manutenção. Depois disso, a rota diária é do operador, e a preventiva segue com o técnico.
Com que frequência o CIL deve ser feito?
Depende do ponto. Nos exemplos deste guia há itens por turno, como o filtro de fiapos da secadora. Há rotinas diárias, como a do silo de argamassa. E há itens semanais, como os mancais da calandra. A regra é que a frequência acompanhe a velocidade com que o ponto se deteriora. Se o ponto suja em horas, a inspeção não pode ser semanal.
O CIL substitui a manutenção preventiva?
Não. A rota cuida do que o operador consegue fazer com segurança e sem especialista. A preventiva cuida da troca programada, da revisão e do ajuste técnico. As duas se completam. No exemplo do alimentício, a rota mede o fechamento das válvulas, e a troca das vedações ficou no plano de manutenção preventiva.
Quanto tempo a rotina deve tomar do turno?
Não existe número universal. Existe a regra de caber no turno real, sem hora extra. No exemplo da hotelaria, a rotina por turno soma 6 min e foi absorvida sem perda de produtividade. Se a sua passa muito do que o turno comporta, separe os itens por frequência. O que suja rápido fica por turno, e o resto vai para a rota diária ou semanal.
Essa rotina funciona fora da indústria?
Funciona sempre que há equipamento que se deteriora. Nos exemplos deste guia, ela aparece num posto de coleta de pronto atendimento, em coletores de um centro de distribuição, num silo de obra e na lavanderia de um hotel. Muda o equipamento e muda o critério. A lógica de ponto, método, critério e frequência continua a mesma.
Como saber se o CIL está funcionando?
Use dois indicadores. O primeiro é a aderência: a rota foi cumprida nos dias previstos? O segundo é o resultado que ela protege, como quebras, pequenas paradas ou defeito. Se a aderência está alta e o resultado não se mexe, o problema está nos pontos ou nos critérios. Nesse caso, volte ao equipamento e revise a rota.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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