MTBF e MTTR: o que são, como medir e 3 exemplos no TPM
Os dois tempos da manutenção, medidos com a mesma régua do começo ao fim: o que entra na conta, onde o relógio começa e o que fica de fora
Aprendi a desconfiar de MTBF e MTTR bem calculados na MRS, onde a minha promoção de trainee saiu em 4 meses, no meio de uma polêmica interna. Naquela época eu achava que indicador era questão de fórmula. A ferrovia me tirou essa ideia. Um número só compara com outro quando os dois saem da mesma régua, e a régua é decisão de quem mede. A conta pode estar certa e a comparação não valer nada.
Esse é o problema mais comum com os dois tempos da manutenção. A divisão é simples, e por isso ninguém discute o que vai dentro dela. Qual equipamento entra, o que conta como falha, onde o relógio do reparo começa e onde para? Quando alguma dessas respostas muda entre o antes e o depois, a melhoria aparece no quadro sem ter acontecido na máquina. Ou some, tendo acontecido.
Neste guia você vai ver o que são MTBF e MTTR e o que o Guia Prático Lean Seis Sigma pede sobre eles no pilar de manutenção. Depois, como definir escopo, relógio e denominador antes da primeira medição. Por fim, três exemplos tirados de Folhas de Kobetsu Kaizen do kit TPM. Cada exemplo abre pela definição da medida, não pelo resultado.
O que são MTBF e MTTR
MTBF e MTTR são os dois tempos médios da manutenção. O MTBF, tempo médio entre falhas, é o tempo de operação dividido pelas falhas do período. O MTTR, tempo médio de reparo, é o tempo de reparo dividido pelos reparos. Um mede a frequência das paradas; o outro, a duração.
- MTBF = tempo de operação ÷ número de falhas no período
- MTTR = tempo total de reparo ÷ número de reparos no período
- Disponibilidade = MTBF ÷ (MTBF + MTTR)
As siglas vêm do inglês. MTBF é mean time between failures. MTTR é mean time to repair, e algumas empresas leem o R como restore, restabelecer, o que já diz muito sobre onde o relógio para. Em português, a forma usual é tempo médio entre falhas e tempo médio de reparo. Os dois entram na família dos indicadores de desempenho da manutenção, ao lado do número de quebras e das horas paradas.
Por que medir MTBF e MTTR juntos, e não um só? Porque cada um esconde o que o outro mostra. Uma máquina pode quase nunca falhar e, quando falha, levar um turno inteiro para voltar. Outra pode parar várias vezes por dia e voltar em minutos. Olhando só o MTBF, a primeira parece ótima. Olhando só o MTTR, a segunda parece ótima. O tempo parado de cada uma só aparece quando os dois números ficam lado a lado.
Existe ainda uma diferença de natureza entre eles. O MTBF fala do equipamento: projeto, condição básica, desgaste, lubrificação, operação. O MTTR fala da organização em volta do equipamento: peça no estoque, diagnóstico, ferramenta, padrão de reparo, liberação. Por isso as contramedidas de um quase nunca são as do outro, e por isso vale ler MTBF e MTTR como duas perguntas diferentes feitas ao mesmo histórico de falhas.
Uma sigla vizinha costuma aparecer junto: MTTF, tempo médio até a falha. Ela vale para itens que não se reparam, como uma lâmpada ou um rolamento trocado inteiro. Para o equipamento reparável, que falha, é consertado e volta, o par certo é MTBF e MTTR. Misturar as três siglas no mesmo quadro é outro jeito de perder a régua.
O que o Guia Prático diz nas páginas 109 e 110
No capítulo 13 do Guia Prático Lean Seis Sigma, dedicado ao World Class Manufacturing, a seção 13.2.1.5 trata do pilar técnico de manutenção profissional. Ali cada nível de pontuação diz o que a planta precisa demonstrar. O nível 1, na página 109, traz a frase que interessa a este guia:
"Meça o tempo entre falhas e MTTR, e siga o cronograma de manutenção com adesão de pelo menos 80%."
Dois detalhes dessa frase merecem atenção. O primeiro é que o livro escreve "tempo entre falhas", sem "médio", e em nenhum ponto usa a sigla MTBF. A sigla MTTR aparece, a outra não. Neste guia, tempo entre falhas e MTBF são a mesma medida, mas a sigla é nossa, não do livro. O segundo detalhe é o verbo. O nível 1 pede medir. Ainda não pede melhorar.
Dois níveis acima, na página 110, a exigência muda de natureza:
"Implante um sistema de gestão de tendência para componentes aplicáveis e estratifique o MTTR."
Estratificar o MTTR é abrir a média por etapa, por equipamento, por turno ou por tipo de falha. E só dá para estratificar o que foi medido do mesmo jeito desde o começo. A sequência do livro é, portanto, uma sequência de medição: primeiro MTBF e MTTR com régua fixa, depois a abertura da média, depois a tendência por componente. Quem pula a primeira etapa estratifica ruído.
A mesma coluna da página 109 lista o que se espera do pilar, "maior disponibilidade de máquinas e redução de custos de manutenção", e as ferramentas de gestão: "TPM, RCM, análise de vibração, CMMS, 5S". MTBF e MTTR são a porta de entrada dessa escada, e é por eles que os 8 pilares do TPM enxergam o pilar de manutenção planejada funcionando. Se quiser ver o pilar dentro do conjunto do WCM, as ferramentas do WCM mostram onde cada uma entra.
A disponibilidade que sai de MTBF e MTTR
Com os dois tempos na mão, a disponibilidade vem de graça. Ela é a fração do tempo em que o equipamento está apto a operar: MTBF dividido pela soma de MTBF e MTTR. Se o MTBF sobe e o MTTR fica parado, a disponibilidade melhora. Se o MTTR cai e o MTBF fica parado, também. A fórmula junta as duas alavancas num número só.
Essa conta tem uma condição que quase ninguém escreve: MTBF e MTTR precisam ter o mesmo escopo e a mesma janela. MTBF de um conjunto de máquinas com MTTR de outro produz um percentual que parece disponibilidade e não é de ninguém. O segundo exemplo deste guia mostra exatamente esse buraco, e a ficha dele se recusa a montar a fórmula.
Também não é qualquer disponibilidade impressa que sai dessa fórmula. Contratos de serviço definem disponibilidade do jeito deles, com médias de carteira e regras de exclusão. O terceiro exemplo tem um caso desses: o número impresso fica longe do que MTBF e MTTR dariam, e a diferença se explica pela definição, não pela conta.
A disponibilidade do OEE é outra régua. Ela parte do tempo planejado de produção e desconta as paradas, sem passar pelo número de falhas. As duas conversam, mas não se substituem, e o cálculo do OEE fica no guia dele. Aqui a disponibilidade entra só como consequência de MTBF e MTTR medidos com a mesma régua.
MTBF e MTTR nos pilares do TPM
Cada pilar do TPM, na estrutura difundida pelo JIPM, empurra um dos dois tempos. A manutenção autônoma devolve a condição básica ao equipamento: limpeza, inspeção, aperto, lubrificação. É ela que ataca as falhas por deterioração forçada, e por isso costuma ser a primeira a mexer no MTBF. O operador que limpa enxerga o vazamento antes da quebra.
A manutenção planejada cuida do resto do MTBF e de boa parte do MTTR. Ela decide o que vai para preventiva por tempo, o que vai para inspeção por condição e o que fica em quebra consciente. Também é ela que mantém o estoque de sobressalentes e os padrões de reparo, as duas alavancas mais fortes do tempo de reparo.
A melhoria focada entra quando uma perda crônica resiste. A Folha de Kobetsu Kaizen escolhe uma perda, mede, analisa e ataca, e MTBF e MTTR aparecem nela como réguas do pilar. São eles que dizem se o projeto mexeu na máquina ou só no quadro. Os três exemplos deste guia saem dessas Folhas.
O pilar de educação e treinamento é o mais esquecido nessa conta, e pesa no MTTR. Diagnóstico lento quase sempre é conhecimento concentrado em poucas pessoas. Uma lição ponto a ponto sobre a falha mais frequente e um OJT de quem sabe para quem ainda não sabe encurtam o reparo sem comprar nada.
Por isso MTBF e MTTR aparecem no pillar board da manutenção, mas não pertencem a um pilar só. Quando o MTBF sobe, vale perguntar qual pilar causou a subida. Quando o MTTR cai, idem. A resposta mostra onde o esforço está rendendo e onde a gente só está torcendo.
Escopo: de qual equipamento é o número
Antes de qualquer divisão, escreva a lista dos equipamentos que entram na medida: todos os da planta, só os críticos, uma família ou uma linha. Um MTBF da planta inteira mistura compressor que nunca para com prensa que para toda semana, e a média resultante não serve para decidir nada. O escopo mais útil costuma ser o conjunto de equipamentos que o pilar escolheu como prioridade.
Depois vem o critério de falha, com pelo menos três candidatos: a quebra que exige manutenção corretiva, a pequena parada que o operador resolve em dois minutos e o chamado do cliente, mesmo quando o técnico chega e não encontra defeito. Qual deles entra? Cada resposta gera um MTBF diferente, todos corretos. Errado é trocar de resposta no meio do projeto.
O critério precisa estar escrito num lugar que o sistema respeite. Se o apontamento da ordem de serviço permite classificar a mesma parada como falha, ajuste ou preventiva, a classificação vai variar com o turno e com a pressa. Uma boa gestão da manutenção trava esse campo com opções fechadas e uma definição curta ao lado de cada uma.
Por fim, a unidade. MTBF de máquina de fábrica costuma sair em horas. MTBF de carteira de campo, em dias. MTTR, em horas ou minutos. Nada disso é problema enquanto a unidade estiver declarada e for a mesma no antes e no depois. Vira problema quando MTBF e MTTR aparecem no mesmo quadro em unidades diferentes e sem dizer a que equipamento cada um se refere.
O relógio do MTBF: hora de operação ou de calendário
O numerador do MTBF é um tempo, e existem pelo menos dois candidatos. A hora de calendário conta tudo: turnos, fins de semana, feriados, paradas planejadas. A hora de operação conta só o tempo em que o equipamento deveria estar rodando. Numa planta que para aos domingos, as duas dão números bem diferentes para a mesma sequência de quebras.
Nenhuma das duas é a certa em absoluto. Hora de operação faz mais sentido em fábrica, onde a máquina desligada no domingo não está sendo exigida. Hora de calendário faz mais sentido em serviço contínuo, como um elevador em prédio comercial, que fica à disposição o dia inteiro. O que não pode é escolher uma no baseline e a outra no resultado.
A parada planejada merece uma regra própria. Uma manutenção preventiva de oito horas sai do tempo de operação ou fica? Se sai, o MTBF mede só o tempo em que a máquina foi exigida. Se fica, o MTBF melhora toda vez que a planta programa mais preventiva, o que é uma forma elegante de se enganar. Escreva a regra no plano de manutenção e não mexa mais nela.
Mudança de volume também mexe no relógio. Se a produção sobe e a máquina passa a rodar mais horas por mês, o mesmo número de quebras dá um MTBF maior. Isso pode ser verdade, mas precisa estar visível. Por isso a ficha que acompanha este guia imprime o tempo de operação ao lado do número de falhas, e não só o resultado da divisão.
O relógio do MTTR: onde o reparo começa e onde termina
O MTTR tem dois pontos de corte, e cada planta escolhe os seus. O início pode ser o momento da falha, o momento do chamado, a abertura da ordem de serviço ou a chegada do técnico. O fim pode ser o fim do reparo, o teste, a liberação para a operação ou o fechamento da ordem no sistema. Entre a escolha mais curta e a mais longa cabe muita coisa.
Quanto mais tarde o relógio começa, mais bonito fica o MTTR e menos ele diz. Se o tempo só corre a partir da chegada do técnico, a espera no deslocamento some. Se só corre a partir da ordem aberta, some o tempo em que a máquina ficou parada até alguém avisar. Do ponto de vista de quem perdeu a produção, esse tempo existiu.
A escolha mais honesta costuma ser a mais próxima da perda: do chamado, ou da falha, até o equipamento voltar a produzir. E ela fica muito mais útil quando o sistema aponta as etapas no caminho. Espera de peça, diagnóstico, execução e teste são etapas com donos diferentes, e a média de MTBF e MTTR não diz nada sobre qual delas pesa mais.
É aqui que entra o "estratifique o MTTR" da página 110. A estratificação por etapa transforma um tempo médio em um diagrama de Pareto de onde o tempo vai. E quase sempre o resultado surpreende: parte grande do tempo de reparo é espera, não trabalho na máquina.
Vale conferir o apontamento no local antes de confiar nele. Uma rodada de observação no gemba, cronometrando algumas ordens de serviço do começo ao fim, mostra se o sistema registra o que acontece ou o que alguém lembrou de digitar depois.
Denominador e janela: a mesma régua no antes e no depois
O denominador do MTBF é o número de falhas do mesmo período e do mesmo escopo do numerador. Parece óbvio, e é exatamente onde os números se descolam. Um total de chamados da filial inteira dividido pelo tempo de uma carteira menor produz um MTBF que não existe. Um número de quebras de um mês com horas de operação de outro, idem.
A janela precisa ser declarada e mantida. MTBF e MTTR mensais são o padrão mais comum, porque casam com o fechamento de custos e com a reunião do pilar. Médias de vários meses servem para o baseline, desde que a Folha diga quais meses. O que não serve é baseline de oito meses contra resultado de uma semana boa.
A regra de ouro da verificação antes e depois vale inteira aqui: mesma fonte, mesma definição, mesmo escopo e mesma janela. Quando o depois muda a base de operação sem declarar, o ganho fica impossível de separar do efeito de régua. O primeiro exemplo deste guia tem um caso desses, e a ficha dele registra a diferença em vez de escondê-la.
Para acompanhar no tempo, o MTTR mensal cabe bem numa carta de controle, com limite de reação escrito. O MTBF, que costuma ter menos pontos, vai melhor num gráfico sequencial com a linha da meta. Nos dois, cada ponto precisa ter sido medido com a mesma definição dos anteriores. Um ponto medido de outro jeito vira degrau falso na série.
De onde vêm os dados de MTBF e MTTR
A fonte mais comum é o sistema de ordens de serviço, o CMMS. Ele guarda a data de abertura, o equipamento, o tipo de intervenção e a data de fechamento. Em tese, já tem tudo o que MTBF e MTTR pedem. Na prática, cada campo depende de alguém digitar certo, na hora certa.
O tempo de operação raramente mora no CMMS. Ele vem da programação da produção, do apontamento do operador, do supervisório da máquina ou, em serviço, do contrato. Juntar essa fonte com a das falhas é o primeiro trabalho sério. Quando as duas não conversam, o numerador do MTBF vira estimativa.
Em serviço, a fonte muda de nome e continua com o mesmo problema. Um hotel registra horários no sistema de gestão de hóspedes e anota paradas numa folha de papel. Uma empresa de elevadores guarda cada chamado no sistema de gestão de campo. Nos dois casos, a pergunta é igual: o registro diz o que aconteceu ou o que alguém lembrou depois?
Três conferências valem antes do baseline. Pegue algumas ordens fechadas e confira no local se o equipamento e o tipo de falha batem. Procure ordens abertas e fechadas no mesmo minuto, sinal de apontamento feito depois. Compare as horas paradas do sistema com o que a produção registrou. Se as três passarem, MTBF e MTTR podem ser calculados com alguma confiança.
Daí em diante, trate MTBF e MTTR como qualquer KPI: dono, definição, frequência, meta e reação. Um mês ruim isolado pode ser só variação comum. A carta de controle existe justamente para separar esse ruído da mudança real.
O que fazer com MTBF e MTTR depois de medidos
MTBF baixo aponta para o equipamento. As perguntas passam a ser de condição básica, desgaste, lubrificação, operação fora do padrão e pontos fracos de projeto. As respostas moram na manutenção autônoma, na preventiva por tempo ou por condição e na manutenção preditiva dos componentes que avisam antes de falhar.
MTTR alto aponta para a organização do reparo. Aqui as perguntas são de logística e de método: a peça estava no estoque, o técnico tinha roteiro de diagnóstico, a ferramenta estava no lugar, o reparo seguia um padrão? Quase nada disso se resolve na máquina. Resolve-se com mínimo e máximo de sobressalente, roteiro escrito e padronização do reparo mais frequente.
Quando os dois tempos andam na direção errada ao mesmo tempo, o problema costuma ser anterior à manutenção: equipamento operando fora da condição de projeto, ou falha que volta porque o reparo anterior foi paliativo. A engenharia de confiabilidade tem ferramentas para separar essas causas quando o histórico é longo o bastante.
E quando os dois melhoram juntos, desconfie primeiro da régua. Não por pessimismo, mas porque a régua é a hipótese mais barata de testar. Se escopo, relógio, denominador e janela seguem os mesmos, a melhoria é real. Aí sim o número vira combustível para a próxima volta do ciclo, e o time sente que o esforço deixou marca no quadro.
Como definir metas para MTBF e MTTR
A meta boa de MTBF e MTTR sai do baseline do próprio escopo, e não de uma tabela de mercado. Benchmark de outra planta mede outros equipamentos, com outro relógio e outro critério de falha. Serve de curiosidade. Como meta, engana.
Um caminho que funciona é partir da perda. Quanto de parada corretiva a área aceita por mês, e quanto disso vem de frequência e quanto de duração? A resposta divide a meta entre os dois tempos, e cada um ganha o seu dono. Uma meta única de disponibilidade esconde essa divisão.
O livro dá o horizonte. Nos níveis mais altos do pilar de manutenção profissional, a exigência passa a ser confiabilidade: o nível 4 fala em almejar 99%, e o nível 5 em 99,9%. Chegar lá pede anos de MTBF e MTTR medidos com a mesma régua. É por isso que o nível 1 começa pela medição.
Toda meta precisa ainda de um limite de reação. A meta diz aonde a gente quer chegar. O limite diz quando parar e investigar. Sem ele, o quadro de MTBF e MTTR vira decoração, e a primeira piora só é notada quando já virou tendência.
3 exemplos de MTBF e MTTR em Folhas do kit TPM
Eu escolhi estes três exemplos porque são os únicos setores do kit TPM em que a Folha de Kobetsu Kaizen registra MTBF e MTTR com antes e depois. Em cada um, começo pela definição da medida, do jeito que a Folha escreve, e só depois chego aos números. A ficha MT1 de cada setor mostra essa sequência numa página.
◆ CASOS ILUSTRATIVOS: TODA FOLHA DE ORIGEM SE DECLARA ILUSTRATIVA. OS TRECHOS E OS NÚMEROS FORAM COPIADOS DELA; AS CONFERÊNCIAS SÃO CONTAS DA FICHA.
| Setor | Escopo da medida | Relógio do MTBF | Relógio do MTTR |
|---|---|---|---|
| Manutenção industrial | 22 equipamentos críticos | hora de operação | apontamento da OS por etapa |
| Hotelaria | conjunto secadora/calandra (só o MTBF) | não registrado | não registrado, em minutos |
| Manutenção de elevadores | carteira crítica | dias entre chamados corretivos | do chamado ao restabelecimento |
1. Manutenção industrial: 22 críticos e uma base de operação que mudou
Escopo: os 22 equipamentos críticos da planta, medidos pelo tempo de máquina parada em corretiva. Fonte: o baseline do CMMS. Falha: a quebra de equipamento. Relógio do MTBF: as 2.900 h de operação dos críticos. Relógio do MTTR: o apontamento de status da OS por etapa. É nessa ordem que a ficha monta a definição.
Com a definição escrita, a conta do antes se refaz. As 2.900 h, repartidas entre 41 quebras no mês, dão 70,7 h, e a Folha imprime MTBF de 71 h. O MTTR de 6,8 h, vezes as mesmas quebras, explica quase todas as 280 h/mês de parada corretiva.
A estratificação de 87 OS medidas no local abriu esse tempo. Aguardo de peças respondia por 2,3 h, execução por 1,6 h e diagnóstico por 1,1 h. As três etapas somam 73,5% do MTTR de 6,8 h, e a maior delas era espera, não trabalho na máquina.
No depois, a tabela de resultados traz o MTTR da planta em 4,0 h/OS, com 35 quebras por mês e MTBF de 87 h. Pela fórmula, 87 ÷ (87 + 4,0) = 95,6%, igual à disponibilidade impressa. A meta da planta para o MTTR, de 3,5 h/OS, ficou como parcial e em expansão.
Só que a conta do depois me deixou com uma pergunta. Se 35 quebras cabem num MTBF de 87 h, a base de operação implícita é 35 × 87 h = 3.045 h, contra 2.900 h no antes. A Folha não imprime as horas de operação do depois. Com a base antiga, o MTBF ficaria abaixo dos 85 h da meta.
A ficha deixa a divergência à vista como nota declarada, sem corrigir número nenhum. E o padrão de apontamento por etapa, publicado pelo projeto já na revisão 3, existe para que o KPI siga medindo a mesma coisa daqui em diante. No pillar board, o MTTR mensal ganhou carta de controle com limite de reação de 4,6 h.
2. Hotelaria: MTBF em horas, MTTR em minutos
O que a Folha chama de falha, na operação do hotel, é a pequena parada: 209 por mês, sendo 118 na lavanderia e 91 nos carrinhos e aspiradores. O MTBF tem escopo escrito, o conjunto secadora/calandra, e valia 6 h. O MTTR aparece ao lado, com 19 min, sem dizer de qual equipamento é.
A fonte são os registros de horário do PMS e as folhas de parada dos equipamentos. A coordenadora de governança, responsável pela medida, estratificou 8 semanas desses registros antes de mexer em qualquer coisa.
Faltam os insumos. A Folha não traz horas de operação do conjunto nem contagem de falhas do mesmo período, então a divisão não se refaz. Nos blocos da conta e da decomposição, a ficha mostra o valor impresso e marca o que falta.
Depois do projeto, o MTBF do conjunto chegou a 41 h contra meta de 35 h, o MTTR ficou em 8 min e as pequenas paradas desceram a 35 por mês, dentro do teto de 40. Disponibilidade em número a Folha não registra. Ela afirma que a perda bate na disponibilidade do equipamento, não na velocidade da camareira.
Para replicar esse quadro, amarre o MTTR a um equipamento e escolha uma unidade só para os dois tempos. A disponibilidade do conjunto não se monta sem inventar dado enquanto isso não acontece, e eu prefiro deixar o campo vazio na ficha.
Antes do terceiro, compare as duas primeiras fichas. Na primeira, os insumos estão impressos e a conta se refaz. Na segunda, só o valor final aparece, e a ficha não inventa o que falta. É a mesma peça, com o mesmo formato, e a diferença está toda na Folha de origem.
3. Manutenção de elevadores: o relógio que começa no chamado
Gosto desta Folha porque ela escreve onde o reparo começa e onde termina: do chamado ao restabelecimento, com essas palavras. Ela ainda avisa que as 3,4 h estavam infladas pelas segundas idas, quando a peça não estava no veículo. A chegada do técnico ao elevador não zera nada. O tempo corre desde que o usuário ficou sem o equipamento.
A carteira crítica delimita o escopo do MTBF: cerca de 1.764 elevadores de alta utilização, todos na faixa de 15+ anos. A medida é de 47 dias entre chamados corretivos, com fonte no histórico de falhas do sistema de gestão de campo e janela na média de jun/25 a jan/26.
Repare na unidade. Em carteira de campo, o MTBF sai em dias, porque o elevador fica à disposição o dia inteiro. Na fábrica do primeiro exemplo, a base era hora de operação. As duas escolhas se sustentam. Comparar uma com a outra é que não se sustenta.
Refazer a divisão, aqui, eu não consigo: faltam elevador-dias e contagem de falhas da carteira crítica. As ~872 rechamadas por mês da tabela de resultados são da filial-piloto inteira. Usar esse total como denominador do MTBF da carteira crítica seria misturar escopos.
O acompanhamento segue mensal e por família, e o MTTR de 2,1 h do depois continua contado a partir do chamado. Se o MTBF passar 2 meses abaixo de 90 dias, a engenharia revê o gatilho por condição.
A disponibilidade é o ponto mais instrutivo da ficha. Convertendo 47 dias em 1.128 h, a fórmula dá 1.128 ÷ (1.128 + 3,4) = 99,70%, e a Folha imprime 98,1%. Com os 104 dias do depois, que viram 2.496 h, a fórmula chega a 99,92% contra 99,3% impressos.
A explicação está na própria Folha. A disponibilidade impressa é média da carteira e contratual, com meta de 99%. O MTBF é só da carteira crítica. Escopo e definição diferentes, portanto, e a ficha trata aquele percentual como número impresso.
Os outros dez setores do kit ficam fora desta lista porque as Folhas deles não registram nenhum dos dois tempos. Nos setores de serviço a própria Folha declara que não há equipamento a decompor. A produção cita 3 paradas/mês por travamento da parafusadeira, mas isso é uma contagem, não um tempo médio. Exemplo sem lastro na Folha não entra.
Um cuidado com a mesma planta do primeiro exemplo: o case Lean Seis Sigma da manutenção conta outra história, com outra fonte e outros números de MTTR. Os valores de cada documento ficam presos a ele, e aqui entram só os da Folha TPM.
Quando MTBF e MTTR não fazem sentido
MTBF e MTTR pressupõem um equipamento que falha e volta. Em processo transacional essa premissa some. Uma área financeira tem retrabalho, fila e erro de lançamento, mas não tem máquina parada esperando reparo. A Folha do setor financeiro do kit registra exatamente isso: ali não há máquina para medir disponibilidade.
Forçar os dois tempos nesses casos produz indicadores que ninguém consegue usar. O intervalo entre erros de lançamento até pode ser calculado, mas não responde a nenhuma pergunta de manutenção. Nesses processos, lead time, taxa de retrabalho e cumprimento de prazo dizem mais.
Também há casos de fronteira. Na produção, a Folha do kit registra paradas por travamento de uma parafusadeira e conta quantas houve por mês. É um começo, mas contagem não é tempo médio. Para chegar a MTBF e MTTR ali, faltaria o tempo de operação da ferramenta e a duração de cada reparo.
A regra prática fica assim. Se existe um ativo físico que para e precisa de intervenção para voltar, MTBF e MTTR ajudam. Se o problema é fluxo de informação ou de pessoas, as ferramentas de fluxo do Lean costumam servir melhor.
Sete erros que distorcem MTBF e MTTR
- Mudar o relógio no meio do projeto. Baseline em hora de calendário e resultado em hora de operação produzem um ganho que é só troca de unidade.
- Contar a preventiva como falha. A parada planejada entra no denominador, e o MTBF cai toda vez que a planta cuida melhor da máquina.
- Começar o MTTR na chegada do técnico. O deslocamento e a espera somem, e o indicador passa a medir só a parte do reparo que já estava boa.
- Dividir escopos diferentes. Falhas de uma filial inteira contra horas de uma carteira menor, ou MTBF de um conjunto com MTTR de outro.
- Tirar média da média. A média dos MTTR de cada máquina não é o MTTR do conjunto. O certo é somar os tempos de reparo e dividir pelo total de reparos.
- Esconder a base. Publicar só MTBF e MTTR, sem o tempo de operação e o número de falhas, impede qualquer pessoa de refazer a conta.
- Comemorar sem estratificar. Um MTTR que cai sem que se saiba em qual etapa caiu pode voltar no mês seguinte, e ninguém saberá por quê.
Os sete têm a mesma raiz: tratar MTBF e MTTR como resultado de uma conta, quando eles são resultado de uma definição. A conta ninguém erra. A definição, quase todo mundo esquece de escrever.
Como implantar MTBF e MTTR em seis passos
- Escolha o escopo. Liste os equipamentos, de preferência os críticos do pilar, e congele a lista enquanto durar a medição.
- Escreva o critério de falha. Diga o que conta como falha e o que não conta, com exemplos. Trave a classificação no sistema de ordens de serviço.
- Fixe os dois relógios. Para o MTBF, hora de operação ou de calendário, e o que fazer com a parada planejada. Para o MTTR, o evento que inicia e o que encerra o reparo.
- Levante o baseline com insumos. Registre tempo de operação, número de falhas e tempo total de reparo, não só as médias. Declare a janela.
- Estratifique o MTTR. Aponte as etapas da ordem de serviço e confira no local. Monte o plano de ação sobre a etapa que mais pesa, com um 5W2H por contramedida.
- Acompanhe com a mesma régua. Publique MTBF e MTTR mensais com os insumos ao lado, limite de reação escrito e revisão quando a definição mudar.
Quando a régua estiver estável numa área, leve a mesma definição para as outras. O yokoten de um indicador é tão importante quanto o de uma contramedida: sem ele, cada área cria o seu MTBF e a comparação entre áreas volta a medir régua em vez de equipamento.
A ficha de MTBF e MTTR deste guia
A peça que acompanha este guia é a ficha MT1, gerada a partir da Folha de Kobetsu Kaizen do Kit de Ferramentas TPM. Ela tem quatro blocos: a definição da medida, a conta do MTBF com os insumos, a decomposição do MTTR e o antes e depois dos dois tempos. Quando a Folha não registra um insumo, o bloco diz isso em vez de preencher. Cada um dos três exemplos acima traz a ficha do seu setor para abrir e baixar.
O kit não traz um formulário em branco só para MTBF e MTTR, porque os dois tempos vivem dentro das réguas do pilar na Folha de Kobetsu Kaizen. Se você quer montar essa régua com projeto real e acompanhamento, as academias de certificação da Voitto trabalham o TPM do escopo ao pillar board. Para uma visão geral do método, o guia de ferramentas TPM é um bom ponto de partida.
