Contas a pagar com aging: planilha, exemplos e prioridade
O total que inclui título pago, três jeitos de medir o atraso, a fila que muda conforme o critério e o desconto que perde da aplicação
Meu pai cresceu com pouco e chegou a gerente geral de uma grande empresa. Em casa, a regra dele para o dinheiro cabia numa frase que eu carrego comigo: ele me deu tudo que eu precisava, nunca tudo que eu queria. É a régua mais útil que eu conheço para a semana em que o saldo não cobre todos os boletos. Nessa semana, contas a pagar deixa de ser uma lista de vencimentos e vira a mesma pergunta da casa dele: o que precisa sair agora, e o que só gostaria de sair agora?
A outra metade do assunto eu aprendi escrevendo. No livro sobre Lean Seis Sigma que eu publiquei em 2025, um dos três casos práticos que atravessam as cinco etapas do DMAIC é de uma fábrica que pagava perto de R$ 500 mil por ano em juros e multas a fornecedores. Faltava dinheiro? O projeto mostrou que faltava processo, e uma das causas comprovadas era a nota fiscal demorar para entrar no sistema.
Precisar antes de querer, e registrar antes de precisar: o aging serve a essas duas coisas. Ele lista o que a empresa deve, separa por quanto tempo está vencido e põe a escolha de quem recebe num papel datado, longe da memória de quem atende o telefone.
Pela frente vêm a planilha coluna por coluna e um caso preenchido em que o total engana. Depois, três jeitos de medir o atraso médio, a ordem de pagamento quando falta caixa, o caso do livro e quatro folhas de contas a pagar com PDF. Fecham o texto negociação, desconto por antecipação e o modelo vazio para baixar. Sobre a procedência: o caso principal vem de um kit que a gente publica, e as outras três folhas eu montei para este artigo. Todas são ilustrativas.
O que é contas a pagar com aging
Contas a pagar com aging é a lista dos títulos que a empresa deve, com vencimento e valor, separada por faixa de atraso numa data de referência: a vencer, 1 a 30 dias, 31 a 60, 61 a 90 e mais de 90. Ela responde quanto a empresa deve, a quem e há quanto tempo.
Esse aging espelha o de contas a receber e inadimplência, e a simetria para na forma. No receber, a faixa mede o comportamento do cliente e o trabalho de cobrança. No pagar, ela mede a própria empresa: o que ela assumiu, o que deixou vencer e em que ordem escolheu pagar.
Há dois usos que convivem. O primeiro é de rotina: nada vence esquecido, e multa por desorganização some. O segundo aparece na semana apertada, quando o aging vira o documento em cima do qual se decide quem recebe primeiro. É do segundo que nasce quase todo o prejuízo, e é nele que este artigo gasta mais tempo.
Contas a pagar também alimenta o fluxo de caixa projetado com as saídas de data e valor conhecidos. Como tudo ali se mede pela data em que o dinheiro sai, vale ter claro o que separa regime de caixa e regime de competência antes de montar a primeira folha.
A R06 coluna por coluna
O fio deste texto é a R06, a planilha de contas a pagar com aging do Kit de Ferramentas para Gestão Financeira. A gente montou o kit com um caso que passa por todas as ferramentas: a Cedro Móveis Planejados, uma fábrica de móveis sob medida. O guia do kit resume a entrega da R06 assim: o que a empresa deve, com aging em faixas.
A folha de contas a pagar tem oito colunas. Cinco são preenchidas, duas a planilha calcula, e uma recebe um único valor na primeira linha. Vale entender cada uma, porque duas escolhas de desenho mudam a leitura.
- Fornecedor e Descrição/NF: uma linha por título, nunca por fornecedor. Duas notas do mesmo fornecedor são duas linhas.
- Vencimento e Valor: a data do boleto ou da nota e o valor bruto do título.
- Data de referência: preenchida só na primeira linha. Todas as outras leem dela, e a planilha não usa a função HOJE().
- Dias em atraso: data de referência menos vencimento, nunca negativo. Título a vencer mostra zero.
- Faixa: a vencer, 1-30, 31-60, 61-90 ou 90+, calculada a partir dos dias.
- Pago?: sim ou não, marcado quando o dinheiro já saiu do caixa.
A data de referência fixa é a melhor decisão da folha, e a mais incompreendida. Com HOJE(), o mesmo aging aberto na segunda e na sexta mostra números diferentes, e ninguém sabe qual foi discutido na reunião. Com a data escrita, a folha vira um retrato datado que dá para comparar com o da semana anterior.
A segunda escolha pede cuidado. A fórmula da Faixa não lê a coluna Pago?, e o TOTAL soma todas as linhas. Título pago continua na faixa e no total até alguém apagar a linha. O guia chama de erro comum deixar título pago na 90+ meses depois, porque ninguém volta para marcar. Na Cedro, o efeito aparece logo no total.
O caso Cedro: R$ 155.380 que não são R$ 155.380
A R06 da Cedro tem dez títulos de contas a pagar e data de referência de 05/08/2026. O TOTAL dá R$ 155.380, e é esse o número que o guia do kit repete como valor em aberto. Só que uma das linhas, uma nota de ferragens de R$ 15.300, está marcada como paga.
A nota segue contada entre 1 e 30 dias de atraso, porque a fórmula não olha a coluna Pago?. Tirando essa linha, o que a Cedro deve de fato é R$ 140.080. A diferença parece pequena, e ela cresce todo mês em que ninguém apaga o que já foi pago.
Visto inteiro, o contas a pagar da Cedro pesa. Dos R$ 140.080 em aberto, R$ 87.280 já venceram, 62,3% do total. O maior título vencido é do MDF Compensados Sul, R$ 42.800 com 31 dias de atraso, e o mesmo fornecedor tem outra nota de R$ 33.900 vencendo em 15/08. Na outra ponta, o título de uma transportadora está na 90+, com R$ 6.200 e 97 dias.
E tem a parte que transforma o aging em urgência. Os R$ 52.800 a vencer caem todos nos dez dias seguintes à data de referência. O livro-caixa do mesmo caso fechou julho com R$ 7.005 de saldo. Não dá para pagar tudo, e a ordem passa a ser a decisão da semana.
O ciclo financeiro do caso explica de onde vem o aperto. A Cedro paga fornecedor em 30 dias e recebe do cliente em 60, e a conta inteira está no capital de giro e ciclo financeiro. O aging de contas a pagar é onde esse descompasso vira nome de fornecedor e número de nota.
Atraso médio em contas a pagar: três contas, três respostas
O checklist de saúde financeira do kit, a D03, cobra um indicador que sai direto da R06: atraso médio em contas a pagar, em dias, com referência de 20. A Cedro aparece com 33,6 dias, e a linha fica crítica.
No contas a pagar da Cedro, os 33,6 dias saem da média simples da coluna Dias em atraso nas dez linhas. Essa conta mistura três coisas que deveriam estar separadas: título a vencer, que entra como zero; título já pago, que entra com 11 dias; e título vencido de fato. Cada uma puxa a média para um lado.
Filtrando só o que venceu e não foi pago, a média simples vai a 54,2 dias. Ponderando cada título pelo valor, cai a 39,0. Qual delas usar? Eu fico com a ponderada, porque ela responde a pergunta que o fornecedor faz: quanto do meu dinheiro está atrasado, e há quanto tempo?
A média simples dá o mesmo peso a um frete de R$ 4.400 e a uma chapa de R$ 42.800. Na Cedro as três contas passam da referência, então o veredito não muda. Em outra empresa, a escolha da conta pode ser a diferença entre um indicador verde e um vermelho, e a definição precisa estar escrita ao lado do número.
Esse cuidado vale para qualquer linha de indicadores financeiros. Indicador sem fórmula declarada vira discussão de método na reunião, e a discussão do problema fica para a semana seguinte.
Quem pagar primeiro quando o caixa não cobre
Voltando à frase do meu pai: em contas a pagar, o que a empresa precisa pagar é o que, se não for pago, para a operação ou custa caro rápido. O resto ela quer pagar, e deve, mas pode esperar alguns dias com conversa. A ordem que eu recomendo, escrita antes da semana ruim, tem cinco degraus.
- Folha e encargos. É obrigação legal e o compromisso cujo atraso desmonta a operação mais rápido.
- Tributos do período. Multa e juros correm sem negociação possível.
- Fornecedor crítico sem substituto. Aquele sem o qual a produção para na semana seguinte. A lista costuma ser mais curta do que parece.
- Contratos com cláusula de aceleração. Financiamento e leasing em que um atraso pequeno antecipa o saldo inteiro.
- Demais fornecedores, por relação e custo do atraso, de preferência com data nova combinada antes do vencimento.
Repare que a idade do título não aparece como critério principal. A faixa diz há quanto tempo o fornecedor espera, e isso pesa na relação. Mas pagar primeiro o mais antigo é critério de cobrança, do lado de quem recebe. Do lado de quem paga, a pergunta é o que mantém a empresa de pé.
A Cedro mostra o risco de misturar as duas réguas. O checklist do caso pede priorizar os fornecedores críticos de matéria-prima. O plano de ação 5W2H do mesmo caso traduz isso como recalendarizar os fornecedores das faixas 61-90 e 90+. Parecem a mesma ação, mas pegam títulos diferentes.
Pelas faixas, a fila tem R$ 20.000 em três títulos, e dois deles são frete. Lendo matéria-prima vencida como chapa, ferragem e verniz (a fita ainda está a vencer), a fila vai a R$ 76.680. Só a NF 1287 do verniz está nas duas. O MDF vencido, R$ 42.800 na faixa de 31 a 60, fica fora da fila das faixas, e ele é a chapa de que os móveis são feitos.
Com R$ 7.005 no caixa, nenhuma das duas filas se paga inteira, e a escolha entre elas é a decisão que importa. Eu escreveria o critério uma vez, com nome de fornecedor, e levaria para o registro de decisões. Quando surgir empate, a matriz GUT ajuda a pôr gravidade, urgência e tendência na mesma conta.
O que um caso de contas a pagar do livro ensina
No Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt, a Parte IV fecha com três casos práticos da etapa de Definição, e o terceiro é de contas a pagar. Uma fábrica de impressoras tinha o problema que o aging mostra todo mês, só que em escala maior. Na seção de casos práticos da etapa de Definição, eu escrevi: "Reclamações são cada vez mais frequentes por parte dos fornecedores e a empresa está com a imagem desgastada no mercado" (p. 208).
O custo anual de juros e multas estava perto de R$ 500 mil, e a meta do projeto foi baixar a média mensal de R$ 45.487 para R$ 16.500. O processo estudado ia do recebimento da nota fiscal até o pagamento, passando por comercial, operações e a área de contas a pagar. O DMAIC desse caso segue, etapa por etapa, até a Parte VIII.
A causa que mais me interessa aqui está na Parte VI, nos casos práticos da etapa de Análise. A nota levava em média 15 dias para entrar no sistema, e o procedimento pedia 2. A regressão confirmou a relação, e a conclusão ficou assim no texto: "quanto mais a empresa demora para efetuar o registro do que deve ser pago, maior a chance de pagar juros e multas" (p. 391).
Na Parte VIII, a etapa de Controle registra o resultado: a média mensal foi de R$ 45.487 para R$ 16.177, uma economia de R$ 29.310 por mês e R$ 351.720 em doze meses (p. 484). As soluções do caso ficaram dentro de casa: manual de preenchimento, procedimento de lançamento, indicador e treinamento.
É por isso que eu trato o aging como termômetro e o processo como remédio. A R06 mostra a febre. Se a faixa de 1 a 30 dias vive cheia, a pergunta seguinte é quanto tempo a nota leva entre a portaria e o sistema. O caminho completo está em como reduzir juros e multas com o Lean Seis Sigma, e a medida de tempo que ele pede é o lead time do processo.
Exemplos de contas a pagar com aging preenchidos
Abaixo estão quatro folhas de contas a pagar no formato da R06, e cada miniatura abre o PDF da folha. A primeira é a da Cedro, tirada do kit. As outras três foram montadas para pegar o que o caso deixa de lado: o título pago esquecido na 90+, a semana em que o caixa cobre metade e o desconto por antecipação.
Nas ilustrativas, embaixo das linhas da R06, um quadro calculado mostra a conta própria de cada situação. Leia primeiro os títulos e só então o quadro de cada folha.
1. Cedro Móveis Planejados: dez títulos, um já pago e ainda na faixa (caso do kit)
A Cedro fabrica móveis planejados e fecha a R06 em 05/08/2026 com dez títulos de fornecedores. O TOTAL da folha dá R$ 155.380,00, e o guia do kit chama esse valor de dívida em aberto.
A diretoria precisava decidir o que pagar com um caixa curto. O livro-caixa tinha fechado julho com pouco mais de sete mil reais, e três títulos venciam nos dez dias seguintes.
O primeiro desafio do contas a pagar da Cedro está numa linha só. A NF 3412 da Ferragens & Puxadores MG, de R$ 15.300,00, está marcada como paga e continua na faixa de 1 a 30 dias, porque a fórmula não lê a coluna Pago?.
O segundo está na fila. O título mais antigo é um frete, na 90+ com 97 dias. O maior vencido é do MDF Compensados Sul, R$ 42.800,00 com 31 dias, e a mesma empresa tem R$ 33.900,00 vencendo em 15/08/2026.
Tirando a nota paga, a dívida real fica R$ 15.300,00 abaixo do TOTAL, e a maior parte já venceu. Para a reunião, eu levaria a lista dos fornecedores sem os quais a fábrica para, cada um com o dia combinado de pagamento.
2. Distribuidora de material elétrico: a 90+ cheia de título pago
Instaladoras e construtoras compram desta distribuidora de material elétrico. Em 16/03/2026, o aging tinha doze títulos e um TOTAL de R$ 186.710,00. Folha ilustrativa, montada para este artigo.
O susto veio da faixa 90+. Ela somava R$ 44.300,00 e dizia que a empresa devia há mais de três meses ao fornecedor de cabos e ao de eletrodutos. A diretoria queria ligar para os dois e pedir desculpa.
Antes da ligação, a controladoria conferiu cada linha da 90+ contra o extrato. Três títulos, somando R$ 39.650,00, tinham sido pagos no vencimento. Ninguém marcou a coluna Pago?, e eles envelheceram na folha.
Feita a baixa, a 90+ caiu para R$ 4.650,00, só o título da assistência de empilhadeiras, que está em disputa. O atraso médio dos títulos em aberto foi de 47,5 para 27,1 dias. O pedido de desculpa teria sido para quem já tinha recebido.
Eu gosto deste exemplo porque o erro é o mesmo que o guia do kit avisa, e ele não aparece em nenhuma fórmula. A regra que fica é marcar o pagamento na reunião em que se olha o extrato.
3. Rede de padarias: a semana em que o caixa cobre metade
Três padarias de bairro, do mesmo dono, abrem a semana de 07/04/2026 com R$ 41.000,00 de saldo. O que já venceu, somado ao que vence até 14/04, dá R$ 83.620,00. O caixa cobre 49,0%. Folha ilustrativa.
A pergunta do dono era quem pagar primeiro. A primeira ideia da equipe foi pagar do mais atrasado para o mais novo, que parecia o jeito mais justo de tratar os fornecedores.
O quadro mostra o efeito. Pela idade, cabem nove títulos, dos uniformes ao açúcar, e as duas notas do moinho, R$ 47.700,00 de farinha, ficam de fora. Sem farinha a padaria não abre na segunda.
A folha ganhou três classes: o que impede a loja de abrir, o que trava a operação depois e o resto. Na ordem por classe, o moinho vencido, o gás e a energia saem primeiro. Fica só a nota do moinho de R$ 23.100,00, que vence em 10/04.
Para essa nota ainda dá tempo de conversar. Com três dias de antecedência, o dono liga para o moinho, propõe data nova e cumpre. A idade continua na folha, agora como desempate dentro de cada classe.
É a frase do meu pai aplicada à padaria. A farinha é o que a loja precisa, e o marketing pode esperar uma semana com aviso.
4. Loja de materiais de construção: o desconto escolhido pela taxa
Uma loja de materiais de construção tem R$ 120 mil sobrando, aplicados a 0,9% ao mês. Sete fornecedores ofereceram desconto para receber já, cada um com um prazo. A conta garantida custa 4,2% ao mês. Exemplo montado para este texto.
A tentação era pegar o maior desconto em reais, o das telhas: 3,5% sobre R$ 95.000,00. Só que aquela nota vence em 01/09/2026, 120 dias depois da data de referência.
O quadro converte cada desconto em taxa mensal. O cimento, com 2,5% em 30 dias, rende 2,56% ao mês. As telhas rendem 0,89%, menos que a aplicação. Antecipar as telhas perde R$ 20,12 contra deixar o dinheiro aplicado.
Escolhendo pela taxa, entram cimento, madeira, tintas e hidráulica. São R$ 3.413,00 de desconto e R$ 1.996,73 acima do que a aplicação daria. Pelo maior desconto em reais, o ganho sobre a aplicação seria de R$ 478,01.
Nenhuma taxa da lista passa dos 4,2% da conta garantida, então nenhum desconto justifica tomar crédito. Se eu pudesse pedir a todo dono de loja que refizesse um exemplo com a própria lista, seria este: são só duas comparações, e quase ninguém faz a segunda.
Nas quatro folhas de contas a pagar, a coluna que dá trabalho é a Pago?. Ela depende de alguém conferir o extrato, e é por isso que a R06 anda junto da conciliação bancária. Aging com Pago? desatualizado mostra uma dívida que já não existe.
Negociar prazo antes do vencimento
Em contas a pagar, alongar prazo com fornecedor é uma das alavancas do ciclo financeiro, e a que mais depende de como o pedido é feito. Negociar é pedir antes do vencimento, com data nova proposta. Atrasar é deixar vencer e esperar a cobrança. O fornecedor lê as duas coisas de jeitos muito diferentes, e eu prefiro mil vezes o telefonema três dias antes ao e-mail no dia seguinte.
- Peça antes. Pedido feito no dia do vencimento já é aviso de atraso.
- Proponha data. "Consigo pagar dia 28" se negocia; "assim que der" não.
- Peça dias ou desconto, um de cada vez. Misturar os dois enfraquece os dois pedidos.
- Cumpra a data nova. O segundo pedido depende inteiro de o primeiro ter sido honrado.
- Registre a negociação na própria R06, numa coluna de observação, com a data combinada.
O registro por fornecedor é o que mostra com quem dá para contar na próxima semana ruim. Ele também evita pedir duas vezes seguidas ao mesmo parceiro. A gestão de fornecedores ganha um dado que normalmente fica na cabeça de uma pessoa só.
Atraso sem conversa tem custo que não aparece na multa. O fornecedor passa a ver risco e encurta o prazo das compras seguintes, exatamente quando a empresa menos aguenta. No limite, o título vai a protesto, e a lei que regula o protesto de títulos mostra como esse caminho é formal. Para preparar a conversa, o método Harvard de negociação ajuda a separar a pessoa do problema.
Desconto por antecipação: a conta em taxa mensal
O movimento inverso também tem lugar em contas a pagar. Pagar antes, com desconto, é uma aplicação financeira, e a conta certa compara taxa com taxa. Comparar reais com reais engana.
A conversão é uma linha: taxa mensal = (1 ÷ (1 − desconto)) elevado a (30 ÷ dias antecipados), menos 1. Um desconto de 2% para pagar 35 dias antes equivale a cerca de 1,75% ao mês. É um bom rendimento para caixa parado, e é muito menos do que a conta garantida da Cedro, que custa 6,5% ao mês.
Daí sai a regra que eu uso. Com caixa próprio sobrando, vale antecipar o que rende mais que a aplicação. Com crédito, só o que rende mais que o crédito. Tomar conta garantida para capturar desconto de 1,75% ao mês destrói dinheiro, por mais bonito que o desconto pareça na nota.
- Levante os descontos oferecidos por fornecedor, inclusive os que estão em contrato e ninguém usa.
- Converta cada um em taxa mensal pela fórmula acima.
- Compare com o rendimento da aplicação e com o custo do crédito.
- Escolha pela taxa, do maior para o menor, até o limite de caixa.
- Confira o fluxo da semana seguinte: antecipar não pode abrir um buraco logo adiante.
O quarto passo é onde quase todo mundo erra. O desconto maior em reais costuma vir com prazo longo, e prazo longo dilui a taxa. Na loja de materiais de construção dos exemplos, o maior desconto da lista rende menos que a aplicação. Para saber quanto custa o crédito em cada modalidade, consulte as taxas de juros que o Banco Central publica por modalidade. O custo de oportunidade do caixa entra na mesma comparação.
O que nunca chega ao aging
Contas a pagar tem data e valor conhecidos, o que deveria acabar com surpresa. A surpresa acontece assim mesmo, e quase sempre porque o compromisso nunca virou linha na folha.
| Origem do compromisso | Por que escapa | Como entra na R06 |
|---|---|---|
| Recorrente tratado como óbvio | Aluguel, folha e contratos ninguém lança como título | Lista de recorrentes com periodicidade, lançada no início do mês |
| Débito automático | Sai da conta sem aprovação nem lançamento | Uma linha por débito, conferida no extrato |
| Evento anual | IPTU, seguro e renovação de software ficam fora da rotina | Calendário dos doze meses, aberto a partir do extrato do ano anterior |
| Encargo da folha | Lançado na data do salário, vence depois | Linha própria, na data de vencimento da guia |
| Principal de empréstimo | Só os juros aparecem no resultado | Parcela inteira, juros e principal |
| Compra aprovada sem nota | O compromisso existe antes do documento | Linha prevista no dia da aprovação, com valor estimado |
A última linha é a mais cara, e é a mesma causa do caso do livro. Entre aprovar uma compra e a nota entrar no sistema existe um intervalo em que a dívida é real e invisível. Quando ela aparece no aging, já está perto de vencer, ou já venceu.
A correção é barata. Toda aprovação de compra gera, no mesmo dia, uma linha prevista de contas a pagar. E todo compromisso fora do orçamento ganha uma marca, para não ser descoberto só no fechamento do orçamento anual.
A rotina semanal de contas a pagar
Você abre os boletos sempre no mesmo dia? Esta folha pede rotina curta e fixa, com dia marcado na agenda. Como o custo de falhar é imediato, a disciplina se sustenta melhor que a de muitas outras folhas.
- Feche a data de referência e escreva na primeira linha. Ela vale para a folha inteira.
- Lance os títulos novos, inclusive as compras aprovadas sem nota.
- Marque Pago? contra o extrato, nunca de cabeça.
- Some só o que está em aberto e compare com o saldo disponível dos próximos sete dias.
- Programe no banco os vencimentos da semana, em vez de pagar à mão no dia.
- Leia a faixa de 31 a 60 procurando quem vai virar problema no mês seguinte.
O terceiro passo é o meu preferido, porque mantém a folha honesta. Título pago e não baixado infla a dívida, e em poucos meses a 90+ vira um depósito de linhas antigas que ninguém tem coragem de apagar. Fazer a baixa na mesma reunião em que se olha o extrato custa dez minutos.
O quarto passo tira a rotina da emergência. Saldo disponível dividido pelo que está em aberto na semana dá a cobertura. Abaixo de 1, falta dinheiro, e quem viu isso na terça ainda tem tempo de ligar para o fornecedor antes do vencimento.
Quando o aperto deixa de ser de contas a pagar
Para um aperto pontual, o aging de contas a pagar ajuda a atravessar com o menor dano. Quando o aperto é todo mês, no mesmo lugar, o problema já mudou de endereço, e a planilha só distribui a falta.
| Padrão no aging | O que é | Onde está o tratamento |
|---|---|---|
| Aperto pontual, causa identificável | Descasamento de datas | Aging, negociação e fluxo projetado |
| Aperto todo mês, na mesma semana | Ciclo financeiro | Prazo de recebimento, estoque e prazo de fornecedor |
| Vencidos crescendo mês a mês | Insuficiência de caixa | Margem, estrutura ou capital |
| Aperto em poucos meses do ano | Sazonalidade | Crédito contratado com antecedência |
A terceira linha é a conversa mais difícil e a mais adiada. Quando o saldo vencido sobe todo mês, nenhuma ordem de pagamento resolve: a empresa gasta mais do que entra. O lugar da análise passa a ser o ponto de equilíbrio e a margem, porque a fila de boletos só reflete o problema.
Reconhecer cedo preserva as saídas. Com três meses de antecedência ainda dá para cortar estrutura, renegociar e buscar capital em condição razoável. Seis meses depois, a mesma negociação acontece sob pressão. Se a empresa já está no meio da crise, vale ler como manter o fluxo de caixa na crise antes de qualquer outra coisa.
Erros comuns em contas a pagar
- Deixar título pago na 90+. É o erro comum que o próprio guia do kit aponta, e ele infla a dívida e o atraso médio.
- Ler o TOTAL como valor em aberto. A soma da R06 inclui o que já foi pago.
- Usar HOJE() no lugar da data de referência. O aging muda sozinho e ninguém compara semanas.
- Calcular atraso médio com título a vencer. O zero puxa a média para baixo.
- Priorizar só pela idade. O mais antigo nem sempre é o que para a operação.
- Antecipar com crédito caro. Desconto de 1,75% ao mês não paga conta garantida de 6,5%.
- Esquecer recorrentes e débito automático. A folha mostra folga que não existe.
E há o erro de dono, que não cabe na lista. Contas a pagar costuma ficar com quem executa, e a ordem de pagamento numa semana apertada é decisão de gestão. Quem decide precisa ver o conjunto e ter autoridade para ligar para o fornecedor.
Modelo de contas a pagar com aging para baixar (XLSX)
Aqui embaixo fica a R06 sem dados. Ela traz as instruções de preenchimento, a data de referência na primeira linha e as fórmulas de dias e faixa prontas.
O XLSX abre a planilha de contas a pagar do kit: um título por linha, a data de referência na primeira e as faixas calculadas.
Abrir e baixar a R06 em branco (XLSX)
Antes de usar, eu faria três ajustes. Uma coluna de valor em aberto, que zera quando Pago? é sim, e um total em cima dela. Um atraso médio ponderado pelo valor, só dos vencidos em aberto. E uma coluna de classe de prioridade, preenchida uma vez por fornecedor.
Dentro do kit, a R06 fica na fase de Registro, junto do plano de contas gerencial e do livro-caixa, e alimenta a linha de pagamento do checklist. Os números dela entram depois no fluxo projetado e nos cenários financeiros.
Se este texto te deu gás para abrir o aging da sua empresa ainda nesta semana, fica o convite. A Academia de Certificação da Voitto forma gente para decidir com dado, e o livro mostra como transformar um atraso medido em projeto de melhoria, com dono, meta e controle.



