Finanças & Negócios

Contas a pagar com aging: planilha, exemplos e prioridade

O total que inclui título pago, três jeitos de medir o atraso, a fila que muda conforme o critério e o desconto que perde da aplicação

Thiago Coutinho
Publicado em 16 de set de 2026  ·  Atualizado em 1 de out de 2026  ·  22 min de leitura
Colaboradora da Voitto de óculos e camiseta preta, sorrindo no escritório com o letreiro iluminado ao fundo, com o texto Contas a pagar com aging: planilha, exemplos e prioridade sobre fundo escuro à esquerda

Meu pai cresceu com pouco e chegou a gerente geral de uma grande empresa. Em casa, a regra dele para o dinheiro cabia numa frase que eu carrego comigo: ele me deu tudo que eu precisava, nunca tudo que eu queria. É a régua mais útil que eu conheço para a semana em que o saldo não cobre todos os boletos. Nessa semana, contas a pagar deixa de ser uma lista de vencimentos e vira a mesma pergunta da casa dele: o que precisa sair agora, e o que só gostaria de sair agora?

A outra metade do assunto eu aprendi escrevendo. No livro sobre Lean Seis Sigma que eu publiquei em 2025, um dos três casos práticos que atravessam as cinco etapas do DMAIC é de uma fábrica que pagava perto de R$ 500 mil por ano em juros e multas a fornecedores. Faltava dinheiro? O projeto mostrou que faltava processo, e uma das causas comprovadas era a nota fiscal demorar para entrar no sistema.

Precisar antes de querer, e registrar antes de precisar: o aging serve a essas duas coisas. Ele lista o que a empresa deve, separa por quanto tempo está vencido e põe a escolha de quem recebe num papel datado, longe da memória de quem atende o telefone.

Pela frente vêm a planilha coluna por coluna e um caso preenchido em que o total engana. Depois, três jeitos de medir o atraso médio, a ordem de pagamento quando falta caixa, o caso do livro e quatro folhas de contas a pagar com PDF. Fecham o texto negociação, desconto por antecipação e o modelo vazio para baixar. Sobre a procedência: o caso principal vem de um kit que a gente publica, e as outras três folhas eu montei para este artigo. Todas são ilustrativas.

O que é contas a pagar com aging

Contas a pagar com aging é a lista dos títulos que a empresa deve, com vencimento e valor, separada por faixa de atraso numa data de referência: a vencer, 1 a 30 dias, 31 a 60, 61 a 90 e mais de 90. Ela responde quanto a empresa deve, a quem e há quanto tempo.

Esse aging espelha o de contas a receber e inadimplência, e a simetria para na forma. No receber, a faixa mede o comportamento do cliente e o trabalho de cobrança. No pagar, ela mede a própria empresa: o que ela assumiu, o que deixou vencer e em que ordem escolheu pagar.

Há dois usos que convivem. O primeiro é de rotina: nada vence esquecido, e multa por desorganização some. O segundo aparece na semana apertada, quando o aging vira o documento em cima do qual se decide quem recebe primeiro. É do segundo que nasce quase todo o prejuízo, e é nele que este artigo gasta mais tempo.

Contas a pagar também alimenta o fluxo de caixa projetado com as saídas de data e valor conhecidos. Como tudo ali se mede pela data em que o dinheiro sai, vale ter claro o que separa regime de caixa e regime de competência antes de montar a primeira folha.

A R06 coluna por coluna

O fio deste texto é a R06, a planilha de contas a pagar com aging do Kit de Ferramentas para Gestão Financeira. A gente montou o kit com um caso que passa por todas as ferramentas: a Cedro Móveis Planejados, uma fábrica de móveis sob medida. O guia do kit resume a entrega da R06 assim: o que a empresa deve, com aging em faixas.

A folha de contas a pagar tem oito colunas. Cinco são preenchidas, duas a planilha calcula, e uma recebe um único valor na primeira linha. Vale entender cada uma, porque duas escolhas de desenho mudam a leitura.

  1. Fornecedor e Descrição/NF: uma linha por título, nunca por fornecedor. Duas notas do mesmo fornecedor são duas linhas.
  2. Vencimento e Valor: a data do boleto ou da nota e o valor bruto do título.
  3. Data de referência: preenchida só na primeira linha. Todas as outras leem dela, e a planilha não usa a função HOJE().
  4. Dias em atraso: data de referência menos vencimento, nunca negativo. Título a vencer mostra zero.
  5. Faixa: a vencer, 1-30, 31-60, 61-90 ou 90+, calculada a partir dos dias.
  6. Pago?: sim ou não, marcado quando o dinheiro já saiu do caixa.

A data de referência fixa é a melhor decisão da folha, e a mais incompreendida. Com HOJE(), o mesmo aging aberto na segunda e na sexta mostra números diferentes, e ninguém sabe qual foi discutido na reunião. Com a data escrita, a folha vira um retrato datado que dá para comparar com o da semana anterior.

A segunda escolha pede cuidado. A fórmula da Faixa não lê a coluna Pago?, e o TOTAL soma todas as linhas. Título pago continua na faixa e no total até alguém apagar a linha. O guia chama de erro comum deixar título pago na 90+ meses depois, porque ninguém volta para marcar. Na Cedro, o efeito aparece logo no total.

O caso Cedro: R$ 155.380 que não são R$ 155.380

A R06 da Cedro tem dez títulos de contas a pagar e data de referência de 05/08/2026. O TOTAL dá R$ 155.380, e é esse o número que o guia do kit repete como valor em aberto. Só que uma das linhas, uma nota de ferragens de R$ 15.300, está marcada como paga.

A nota segue contada entre 1 e 30 dias de atraso, porque a fórmula não olha a coluna Pago?. Tirando essa linha, o que a Cedro deve de fato é R$ 140.080. A diferença parece pequena, e ela cresce todo mês em que ninguém apaga o que já foi pago.

Gráfico de barras do aging de contas a pagar da Cedro em 05/08/2026: a vencer R$ 52.800, faixa de 1 a 30 dias com R$ 18.500 em aberto e R$ 15.300 já pagos, 31 a 60 dias R$ 48.780, 61 a 90 dias R$ 13.800 e mais de 90 dias R$ 6.200; TOTAL da planilha R$ 155.380 contra R$ 140.080 em aberto de fato
Contas a pagar da Cedro por faixa, com o título pago separado. Desenho próprio sobre a R06 preenchida do caso do kit.

Visto inteiro, o contas a pagar da Cedro pesa. Dos R$ 140.080 em aberto, R$ 87.280 já venceram, 62,3% do total. O maior título vencido é do MDF Compensados Sul, R$ 42.800 com 31 dias de atraso, e o mesmo fornecedor tem outra nota de R$ 33.900 vencendo em 15/08. Na outra ponta, o título de uma transportadora está na 90+, com R$ 6.200 e 97 dias.

E tem a parte que transforma o aging em urgência. Os R$ 52.800 a vencer caem todos nos dez dias seguintes à data de referência. O livro-caixa do mesmo caso fechou julho com R$ 7.005 de saldo. Não dá para pagar tudo, e a ordem passa a ser a decisão da semana.

O ciclo financeiro do caso explica de onde vem o aperto. A Cedro paga fornecedor em 30 dias e recebe do cliente em 60, e a conta inteira está no capital de giro e ciclo financeiro. O aging de contas a pagar é onde esse descompasso vira nome de fornecedor e número de nota.

Atraso médio em contas a pagar: três contas, três respostas

O checklist de saúde financeira do kit, a D03, cobra um indicador que sai direto da R06: atraso médio em contas a pagar, em dias, com referência de 20. A Cedro aparece com 33,6 dias, e a linha fica crítica.

No contas a pagar da Cedro, os 33,6 dias saem da média simples da coluna Dias em atraso nas dez linhas. Essa conta mistura três coisas que deveriam estar separadas: título a vencer, que entra como zero; título já pago, que entra com 11 dias; e título vencido de fato. Cada uma puxa a média para um lado.

Gráfico de barras com três cálculos do atraso médio em contas a pagar da Cedro: média simples das dez linhas, 33,6 dias; só títulos vencidos em aberto ponderados pelo valor, 39,0 dias; só vencidos em aberto em média simples, 54,2 dias; com a referência de 20 dias do checklist marcada
Atraso médio da Cedro em três contas diferentes, todas acima da referência. Desenho próprio sobre a R06 do caso do kit.

Filtrando só o que venceu e não foi pago, a média simples vai a 54,2 dias. Ponderando cada título pelo valor, cai a 39,0. Qual delas usar? Eu fico com a ponderada, porque ela responde a pergunta que o fornecedor faz: quanto do meu dinheiro está atrasado, e há quanto tempo?

A média simples dá o mesmo peso a um frete de R$ 4.400 e a uma chapa de R$ 42.800. Na Cedro as três contas passam da referência, então o veredito não muda. Em outra empresa, a escolha da conta pode ser a diferença entre um indicador verde e um vermelho, e a definição precisa estar escrita ao lado do número.

Esse cuidado vale para qualquer linha de indicadores financeiros. Indicador sem fórmula declarada vira discussão de método na reunião, e a discussão do problema fica para a semana seguinte.

Quem pagar primeiro quando o caixa não cobre

Voltando à frase do meu pai: em contas a pagar, o que a empresa precisa pagar é o que, se não for pago, para a operação ou custa caro rápido. O resto ela quer pagar, e deve, mas pode esperar alguns dias com conversa. A ordem que eu recomendo, escrita antes da semana ruim, tem cinco degraus.

  1. Folha e encargos. É obrigação legal e o compromisso cujo atraso desmonta a operação mais rápido.
  2. Tributos do período. Multa e juros correm sem negociação possível.
  3. Fornecedor crítico sem substituto. Aquele sem o qual a produção para na semana seguinte. A lista costuma ser mais curta do que parece.
  4. Contratos com cláusula de aceleração. Financiamento e leasing em que um atraso pequeno antecipa o saldo inteiro.
  5. Demais fornecedores, por relação e custo do atraso, de preferência com data nova combinada antes do vencimento.

Repare que a idade do título não aparece como critério principal. A faixa diz há quanto tempo o fornecedor espera, e isso pesa na relação. Mas pagar primeiro o mais antigo é critério de cobrança, do lado de quem recebe. Do lado de quem paga, a pergunta é o que mantém a empresa de pé.

A Cedro mostra o risco de misturar as duas réguas. O checklist do caso pede priorizar os fornecedores críticos de matéria-prima. O plano de ação 5W2H do mesmo caso traduz isso como recalendarizar os fornecedores das faixas 61-90 e 90+. Parecem a mesma ação, mas pegam títulos diferentes.

Comparação de duas filas de pagamento da Cedro: pelas faixas de 61 a 90 e mais de 90 dias entram verniz R$ 9.400, transportadora R$ 6.200 e frete R$ 4.400, total R$ 20.000; pela matéria-prima vencida entram MDF R$ 42.800, ferragens R$ 18.500 e duas notas de verniz, total R$ 76.680; só a nota de verniz de R$ 9.400 está nas duas, e o saldo do livro-caixa em julho era R$ 7.005
As duas filas de prioridade que o próprio caso sugere, lado a lado. Desenho próprio sobre a R06, o D03 e o C18 do caso do kit.

Pelas faixas, a fila tem R$ 20.000 em três títulos, e dois deles são frete. Lendo matéria-prima vencida como chapa, ferragem e verniz (a fita ainda está a vencer), a fila vai a R$ 76.680. Só a NF 1287 do verniz está nas duas. O MDF vencido, R$ 42.800 na faixa de 31 a 60, fica fora da fila das faixas, e ele é a chapa de que os móveis são feitos.

Com R$ 7.005 no caixa, nenhuma das duas filas se paga inteira, e a escolha entre elas é a decisão que importa. Eu escreveria o critério uma vez, com nome de fornecedor, e levaria para o registro de decisões. Quando surgir empate, a matriz GUT ajuda a pôr gravidade, urgência e tendência na mesma conta.

O que um caso de contas a pagar do livro ensina

No Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt, a Parte IV fecha com três casos práticos da etapa de Definição, e o terceiro é de contas a pagar. Uma fábrica de impressoras tinha o problema que o aging mostra todo mês, só que em escala maior. Na seção de casos práticos da etapa de Definição, eu escrevi: "Reclamações são cada vez mais frequentes por parte dos fornecedores e a empresa está com a imagem desgastada no mercado" (p. 208).

O custo anual de juros e multas estava perto de R$ 500 mil, e a meta do projeto foi baixar a média mensal de R$ 45.487 para R$ 16.500. O processo estudado ia do recebimento da nota fiscal até o pagamento, passando por comercial, operações e a área de contas a pagar. O DMAIC desse caso segue, etapa por etapa, até a Parte VIII.

A causa que mais me interessa aqui está na Parte VI, nos casos práticos da etapa de Análise. A nota levava em média 15 dias para entrar no sistema, e o procedimento pedia 2. A regressão confirmou a relação, e a conclusão ficou assim no texto: "quanto mais a empresa demora para efetuar o registro do que deve ser pago, maior a chance de pagar juros e multas" (p. 391).

Na Parte VIII, a etapa de Controle registra o resultado: a média mensal foi de R$ 45.487 para R$ 16.177, uma economia de R$ 29.310 por mês e R$ 351.720 em doze meses (p. 484). As soluções do caso ficaram dentro de casa: manual de preenchimento, procedimento de lançamento, indicador e treinamento.

É por isso que eu trato o aging como termômetro e o processo como remédio. A R06 mostra a febre. Se a faixa de 1 a 30 dias vive cheia, a pergunta seguinte é quanto tempo a nota leva entre a portaria e o sistema. O caminho completo está em como reduzir juros e multas com o Lean Seis Sigma, e a medida de tempo que ele pede é o lead time do processo.

Exemplos de contas a pagar com aging preenchidos

Abaixo estão quatro folhas de contas a pagar no formato da R06, e cada miniatura abre o PDF da folha. A primeira é a da Cedro, tirada do kit. As outras três foram montadas para pegar o que o caso deixa de lado: o título pago esquecido na 90+, a semana em que o caixa cobre metade e o desconto por antecipação.

Nas ilustrativas, embaixo das linhas da R06, um quadro calculado mostra a conta própria de cada situação. Leia primeiro os títulos e só então o quadro de cada folha.

1. Cedro Móveis Planejados: dez títulos, um já pago e ainda na faixa (caso do kit)

Planilha de Contas a Pagar com Aging (R06) preenchida do caso ilustrativo do kit, a Cedro Móveis Planejados, com data de referência de 05/08/2026: dez títulos de fornecedores como MDF Compensados Sul, Ferragens & Puxadores MG e Transportadora Rota Móveis, faixas de a vencer a 90+, um título marcado como pago e TOTAL de R$ 155.380,00A Cedro fabrica móveis planejados e fecha a R06 em 05/08/2026 com dez títulos de fornecedores. O TOTAL da folha dá R$ 155.380,00, e o guia do kit chama esse valor de dívida em aberto.

A diretoria precisava decidir o que pagar com um caixa curto. O livro-caixa tinha fechado julho com pouco mais de sete mil reais, e três títulos venciam nos dez dias seguintes.

O primeiro desafio do contas a pagar da Cedro está numa linha só. A NF 3412 da Ferragens & Puxadores MG, de R$ 15.300,00, está marcada como paga e continua na faixa de 1 a 30 dias, porque a fórmula não lê a coluna Pago?.

O segundo está na fila. O título mais antigo é um frete, na 90+ com 97 dias. O maior vencido é do MDF Compensados Sul, R$ 42.800,00 com 31 dias, e a mesma empresa tem R$ 33.900,00 vencendo em 15/08/2026.

Tirando a nota paga, a dívida real fica R$ 15.300,00 abaixo do TOTAL, e a maior parte já venceu. Para a reunião, eu levaria a lista dos fornecedores sem os quais a fábrica para, cada um com o dia combinado de pagamento.

2. Distribuidora de material elétrico: a 90+ cheia de título pago

Folha ilustrativa de contas a pagar no formato da R06, de uma distribuidora de material elétrico com data de referência de 16/03/2026: doze títulos, TOTAL de R$ 186.710,00, faixa 90+ de R$ 44.300,00 antes de conferir o extrato e de R$ 4.650,00 depois, e o quadro com o aging antes e depois da baixaInstaladoras e construtoras compram desta distribuidora de material elétrico. Em 16/03/2026, o aging tinha doze títulos e um TOTAL de R$ 186.710,00. Folha ilustrativa, montada para este artigo.

O susto veio da faixa 90+. Ela somava R$ 44.300,00 e dizia que a empresa devia há mais de três meses ao fornecedor de cabos e ao de eletrodutos. A diretoria queria ligar para os dois e pedir desculpa.

Antes da ligação, a controladoria conferiu cada linha da 90+ contra o extrato. Três títulos, somando R$ 39.650,00, tinham sido pagos no vencimento. Ninguém marcou a coluna Pago?, e eles envelheceram na folha.

Feita a baixa, a 90+ caiu para R$ 4.650,00, só o título da assistência de empilhadeiras, que está em disputa. O atraso médio dos títulos em aberto foi de 47,5 para 27,1 dias. O pedido de desculpa teria sido para quem já tinha recebido.

Eu gosto deste exemplo porque o erro é o mesmo que o guia do kit avisa, e ele não aparece em nenhuma fórmula. A regra que fica é marcar o pagamento na reunião em que se olha o extrato.

3. Rede de padarias: a semana em que o caixa cobre metade

Folha ilustrativa de contas a pagar no formato da R06, de uma rede de três padarias com data de referência de 07/04/2026: onze títulos que somam R$ 83.620,00 até 14/04, saldo de R$ 41.000,00, e o quadro com duas ordens de pagamento, pela idade e pela classe de criticidadeTrês padarias de bairro, do mesmo dono, abrem a semana de 07/04/2026 com R$ 41.000,00 de saldo. O que já venceu, somado ao que vence até 14/04, dá R$ 83.620,00. O caixa cobre 49,0%. Folha ilustrativa.

A pergunta do dono era quem pagar primeiro. A primeira ideia da equipe foi pagar do mais atrasado para o mais novo, que parecia o jeito mais justo de tratar os fornecedores.

O quadro mostra o efeito. Pela idade, cabem nove títulos, dos uniformes ao açúcar, e as duas notas do moinho, R$ 47.700,00 de farinha, ficam de fora. Sem farinha a padaria não abre na segunda.

A folha ganhou três classes: o que impede a loja de abrir, o que trava a operação depois e o resto. Na ordem por classe, o moinho vencido, o gás e a energia saem primeiro. Fica só a nota do moinho de R$ 23.100,00, que vence em 10/04.

Para essa nota ainda dá tempo de conversar. Com três dias de antecedência, o dono liga para o moinho, propõe data nova e cumpre. A idade continua na folha, agora como desempate dentro de cada classe.

É a frase do meu pai aplicada à padaria. A farinha é o que a loja precisa, e o marketing pode esperar uma semana com aviso.

4. Loja de materiais de construção: o desconto escolhido pela taxa

Folha ilustrativa de contas a pagar no formato da R06, de uma loja de materiais de construção com data de referência de 04/05/2026: sete títulos a vencer que somam R$ 252.600,00, cada um com desconto para antecipação, e o quadro com a taxa mensal equivalente e o ganho líquido sobre a aplicaçãoUma loja de materiais de construção tem R$ 120 mil sobrando, aplicados a 0,9% ao mês. Sete fornecedores ofereceram desconto para receber já, cada um com um prazo. A conta garantida custa 4,2% ao mês. Exemplo montado para este texto.

A tentação era pegar o maior desconto em reais, o das telhas: 3,5% sobre R$ 95.000,00. Só que aquela nota vence em 01/09/2026, 120 dias depois da data de referência.

O quadro converte cada desconto em taxa mensal. O cimento, com 2,5% em 30 dias, rende 2,56% ao mês. As telhas rendem 0,89%, menos que a aplicação. Antecipar as telhas perde R$ 20,12 contra deixar o dinheiro aplicado.

Escolhendo pela taxa, entram cimento, madeira, tintas e hidráulica. São R$ 3.413,00 de desconto e R$ 1.996,73 acima do que a aplicação daria. Pelo maior desconto em reais, o ganho sobre a aplicação seria de R$ 478,01.

Nenhuma taxa da lista passa dos 4,2% da conta garantida, então nenhum desconto justifica tomar crédito. Se eu pudesse pedir a todo dono de loja que refizesse um exemplo com a própria lista, seria este: são só duas comparações, e quase ninguém faz a segunda.

Nas quatro folhas de contas a pagar, a coluna que dá trabalho é a Pago?. Ela depende de alguém conferir o extrato, e é por isso que a R06 anda junto da conciliação bancária. Aging com Pago? desatualizado mostra uma dívida que já não existe.

Negociar prazo antes do vencimento

Em contas a pagar, alongar prazo com fornecedor é uma das alavancas do ciclo financeiro, e a que mais depende de como o pedido é feito. Negociar é pedir antes do vencimento, com data nova proposta. Atrasar é deixar vencer e esperar a cobrança. O fornecedor lê as duas coisas de jeitos muito diferentes, e eu prefiro mil vezes o telefonema três dias antes ao e-mail no dia seguinte.

  • Peça antes. Pedido feito no dia do vencimento já é aviso de atraso.
  • Proponha data. "Consigo pagar dia 28" se negocia; "assim que der" não.
  • Peça dias ou desconto, um de cada vez. Misturar os dois enfraquece os dois pedidos.
  • Cumpra a data nova. O segundo pedido depende inteiro de o primeiro ter sido honrado.
  • Registre a negociação na própria R06, numa coluna de observação, com a data combinada.

O registro por fornecedor é o que mostra com quem dá para contar na próxima semana ruim. Ele também evita pedir duas vezes seguidas ao mesmo parceiro. A gestão de fornecedores ganha um dado que normalmente fica na cabeça de uma pessoa só.

Atraso sem conversa tem custo que não aparece na multa. O fornecedor passa a ver risco e encurta o prazo das compras seguintes, exatamente quando a empresa menos aguenta. No limite, o título vai a protesto, e a lei que regula o protesto de títulos mostra como esse caminho é formal. Para preparar a conversa, o método Harvard de negociação ajuda a separar a pessoa do problema.

Desconto por antecipação: a conta em taxa mensal

O movimento inverso também tem lugar em contas a pagar. Pagar antes, com desconto, é uma aplicação financeira, e a conta certa compara taxa com taxa. Comparar reais com reais engana.

A conversão é uma linha: taxa mensal = (1 ÷ (1 − desconto)) elevado a (30 ÷ dias antecipados), menos 1. Um desconto de 2% para pagar 35 dias antes equivale a cerca de 1,75% ao mês. É um bom rendimento para caixa parado, e é muito menos do que a conta garantida da Cedro, que custa 6,5% ao mês.

Daí sai a regra que eu uso. Com caixa próprio sobrando, vale antecipar o que rende mais que a aplicação. Com crédito, só o que rende mais que o crédito. Tomar conta garantida para capturar desconto de 1,75% ao mês destrói dinheiro, por mais bonito que o desconto pareça na nota.

  1. Levante os descontos oferecidos por fornecedor, inclusive os que estão em contrato e ninguém usa.
  2. Converta cada um em taxa mensal pela fórmula acima.
  3. Compare com o rendimento da aplicação e com o custo do crédito.
  4. Escolha pela taxa, do maior para o menor, até o limite de caixa.
  5. Confira o fluxo da semana seguinte: antecipar não pode abrir um buraco logo adiante.

O quarto passo é onde quase todo mundo erra. O desconto maior em reais costuma vir com prazo longo, e prazo longo dilui a taxa. Na loja de materiais de construção dos exemplos, o maior desconto da lista rende menos que a aplicação. Para saber quanto custa o crédito em cada modalidade, consulte as taxas de juros que o Banco Central publica por modalidade. O custo de oportunidade do caixa entra na mesma comparação.

O que nunca chega ao aging

Contas a pagar tem data e valor conhecidos, o que deveria acabar com surpresa. A surpresa acontece assim mesmo, e quase sempre porque o compromisso nunca virou linha na folha.

Origem do compromissoPor que escapaComo entra na R06
Recorrente tratado como óbvioAluguel, folha e contratos ninguém lança como títuloLista de recorrentes com periodicidade, lançada no início do mês
Débito automáticoSai da conta sem aprovação nem lançamentoUma linha por débito, conferida no extrato
Evento anualIPTU, seguro e renovação de software ficam fora da rotinaCalendário dos doze meses, aberto a partir do extrato do ano anterior
Encargo da folhaLançado na data do salário, vence depoisLinha própria, na data de vencimento da guia
Principal de empréstimoSó os juros aparecem no resultadoParcela inteira, juros e principal
Compra aprovada sem notaO compromisso existe antes do documentoLinha prevista no dia da aprovação, com valor estimado

A última linha é a mais cara, e é a mesma causa do caso do livro. Entre aprovar uma compra e a nota entrar no sistema existe um intervalo em que a dívida é real e invisível. Quando ela aparece no aging, já está perto de vencer, ou já venceu.

A correção é barata. Toda aprovação de compra gera, no mesmo dia, uma linha prevista de contas a pagar. E todo compromisso fora do orçamento ganha uma marca, para não ser descoberto só no fechamento do orçamento anual.

A rotina semanal de contas a pagar

Você abre os boletos sempre no mesmo dia? Esta folha pede rotina curta e fixa, com dia marcado na agenda. Como o custo de falhar é imediato, a disciplina se sustenta melhor que a de muitas outras folhas.

  1. Feche a data de referência e escreva na primeira linha. Ela vale para a folha inteira.
  2. Lance os títulos novos, inclusive as compras aprovadas sem nota.
  3. Marque Pago? contra o extrato, nunca de cabeça.
  4. Some só o que está em aberto e compare com o saldo disponível dos próximos sete dias.
  5. Programe no banco os vencimentos da semana, em vez de pagar à mão no dia.
  6. Leia a faixa de 31 a 60 procurando quem vai virar problema no mês seguinte.

O terceiro passo é o meu preferido, porque mantém a folha honesta. Título pago e não baixado infla a dívida, e em poucos meses a 90+ vira um depósito de linhas antigas que ninguém tem coragem de apagar. Fazer a baixa na mesma reunião em que se olha o extrato custa dez minutos.

O quarto passo tira a rotina da emergência. Saldo disponível dividido pelo que está em aberto na semana dá a cobertura. Abaixo de 1, falta dinheiro, e quem viu isso na terça ainda tem tempo de ligar para o fornecedor antes do vencimento.

Quando o aperto deixa de ser de contas a pagar

Para um aperto pontual, o aging de contas a pagar ajuda a atravessar com o menor dano. Quando o aperto é todo mês, no mesmo lugar, o problema já mudou de endereço, e a planilha só distribui a falta.

Padrão no agingO que éOnde está o tratamento
Aperto pontual, causa identificávelDescasamento de datasAging, negociação e fluxo projetado
Aperto todo mês, na mesma semanaCiclo financeiroPrazo de recebimento, estoque e prazo de fornecedor
Vencidos crescendo mês a mêsInsuficiência de caixaMargem, estrutura ou capital
Aperto em poucos meses do anoSazonalidadeCrédito contratado com antecedência

A terceira linha é a conversa mais difícil e a mais adiada. Quando o saldo vencido sobe todo mês, nenhuma ordem de pagamento resolve: a empresa gasta mais do que entra. O lugar da análise passa a ser o ponto de equilíbrio e a margem, porque a fila de boletos só reflete o problema.

Reconhecer cedo preserva as saídas. Com três meses de antecedência ainda dá para cortar estrutura, renegociar e buscar capital em condição razoável. Seis meses depois, a mesma negociação acontece sob pressão. Se a empresa já está no meio da crise, vale ler como manter o fluxo de caixa na crise antes de qualquer outra coisa.

Erros comuns em contas a pagar

  • Deixar título pago na 90+. É o erro comum que o próprio guia do kit aponta, e ele infla a dívida e o atraso médio.
  • Ler o TOTAL como valor em aberto. A soma da R06 inclui o que já foi pago.
  • Usar HOJE() no lugar da data de referência. O aging muda sozinho e ninguém compara semanas.
  • Calcular atraso médio com título a vencer. O zero puxa a média para baixo.
  • Priorizar só pela idade. O mais antigo nem sempre é o que para a operação.
  • Antecipar com crédito caro. Desconto de 1,75% ao mês não paga conta garantida de 6,5%.
  • Esquecer recorrentes e débito automático. A folha mostra folga que não existe.

E há o erro de dono, que não cabe na lista. Contas a pagar costuma ficar com quem executa, e a ordem de pagamento numa semana apertada é decisão de gestão. Quem decide precisa ver o conjunto e ter autoridade para ligar para o fornecedor.

Modelo de contas a pagar com aging para baixar (XLSX)

Aqui embaixo fica a R06 sem dados. Ela traz as instruções de preenchimento, a data de referência na primeira linha e as fórmulas de dias e faixa prontas.

Modelo em branco da planilha de Contas a Pagar com Aging (R06): quatro instruções de preenchimento no topo e tabela com as colunas Fornecedor, Descrição ou NF, Vencimento, Valor, Data de referência só na primeira linha, Dias em atraso, Faixa e Pago?, com a linha de TOTAL embaixoO XLSX abre a planilha de contas a pagar do kit: um título por linha, a data de referência na primeira e as faixas calculadas.

Abrir e baixar a R06 em branco (XLSX)

Antes de usar, eu faria três ajustes. Uma coluna de valor em aberto, que zera quando Pago? é sim, e um total em cima dela. Um atraso médio ponderado pelo valor, só dos vencidos em aberto. E uma coluna de classe de prioridade, preenchida uma vez por fornecedor.

Dentro do kit, a R06 fica na fase de Registro, junto do plano de contas gerencial e do livro-caixa, e alimenta a linha de pagamento do checklist. Os números dela entram depois no fluxo projetado e nos cenários financeiros.

Se este texto te deu gás para abrir o aging da sua empresa ainda nesta semana, fica o convite. A Academia de Certificação da Voitto forma gente para decidir com dado, e o livro mostra como transformar um atraso medido em projeto de melhoria, com dono, meta e controle.

Perguntas frequentes

O que é contas a pagar com aging?
É a lista dos títulos que a empresa deve, cada um com vencimento e valor, separada por faixa de atraso numa data de referência: a vencer, 1 a 30, 31 a 60, 61 a 90 e mais de 90 dias. Serve para não deixar nada vencer esquecido e para decidir a ordem de pagamento.
Por que usar uma data de referência fixa no aging?
Porque com a função HOJE() a mesma planilha mostra números diferentes a cada dia, e ninguém sabe qual versão foi discutida. Com a data escrita na primeira linha, o aging vira um retrato datado que dá para comparar com o da semana anterior.
Título pago deve continuar na planilha de contas a pagar?
Só se o total e as faixas filtrarem a coluna de pago. Na R06, a fórmula da faixa e o TOTAL não leem essa coluna, então título pago continua inflando a dívida. Marque o pagamento contra o extrato e some só o que está em aberto.
Como calcular o atraso médio em contas a pagar?
Use só os títulos vencidos e não pagos, e pondere cada um pelo valor. A média simples de todas as linhas mistura título a vencer, que entra como zero, e título já pago. Escreva a fórmula ao lado do indicador.
Em que ordem pagar quando falta caixa?
Folha e encargos, tributos do período, fornecedor crítico sem substituto, contratos com cláusula de aceleração e, por último, os demais, de preferência com data nova combinada antes do vencimento. A idade do título serve de desempate.
Pagar primeiro o título mais antigo é um bom critério?
Sozinho, não. Em contas a pagar, a idade mede há quanto tempo o fornecedor espera, que é critério de cobrança. Quem paga precisa perguntar o que mantém a operação de pé, e o fornecedor mais antigo pode não ser o de matéria-prima.
Qual a diferença entre negociar prazo e atrasar?
Negociar é pedir antes do vencimento, com data nova proposta, e cumprir. Atrasar é deixar vencer e esperar a cobrança. O primeiro preserva a relação; o segundo faz o fornecedor encurtar prazo nas compras seguintes.
Vale a pena antecipar pagamento para ganhar desconto?
Converta o desconto em taxa mensal e compare. Com caixa próprio, vale se a taxa supera o rendimento da aplicação. Com crédito, só se supera o custo do crédito. Escolha pela taxa: o maior desconto em reais pode render menos.
Quais compromissos mais escapam do contas a pagar?
Recorrentes tratados como óbvios, débito automático, eventos anuais, encargos lançados na data do salário, o principal de empréstimos e compras aprovadas que ainda não têm nota fiscal. Todos precisam virar linha de contas a pagar.
Onde baixar uma planilha de contas a pagar com aging?
A R06 em branco está em XLSX na seção do modelo, no fim do artigo, com a data de referência e as fórmulas de faixa prontas. As quatro folhas preenchidas abrem nos exemplos, cada uma com o próprio PDF.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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