Metodologias & Qualidade

Condição básica: o que é, como restaurar e 6 exemplos no TPM

Os três passos que devolvem ao equipamento o estado que impede a quebra, com etiquetas azuis e vermelhas e o placar de abertas e fechadas

Thiago Coutinho
Publicado em 14 de set de 2026  ·  Atualizado em 14 de set de 2026  ·  22 min de leitura
Thiago Coutinho de camiseta preta, em retrato de meio corpo sorrindo para a câmera, diante de uma parede escura com o logo da Voitto iluminado ao fundo, com o texto Condição básica: o que é, como restaurar e 6 exemplos no TPM sobre fundo escuro à esquerda

Na metalurgia do zinco, participei de um programa de manutenção autônoma e fiz uma formação internacional com uma certificadora japonesa de TPM. De tudo o que aquele programa ensinava, é a ideia que eu poria antes de qualquer outra: condição básica. Nenhuma melhoria se sustenta num equipamento que a perdeu.

Equipamento sujo esconde folga, vazamento e ponto seco de lubrificação. Enquanto a sujeira cobre o defeito, a quebra parece acaso. A equipe então sai atrás de causa raiz numa máquina que não consegue ler. No livro que escrevi, pus um número nesse abandono, e ele é alto.

O roteiro daqui em diante: o que é a condição básica, o que o livro diz sobre ela e os três passos para restaurá-la. Depois vêm o critério das etiquetas azuis e vermelhas, o placar de abertas e fechadas, 6 exemplos de projetos ilustrativos e o modelo P06 para baixar.

O que é condição básica no TPM

Condição básica é o conjunto de cuidados mínimos que impede o equipamento de se degradar: limpeza, aperto, lubrificação e inspeção em dia. No TPM, restaurá-la é o começo da manutenção autônoma. Antes de melhorar qualquer máquina, a equipe devolve a ela o estado de projeto e cria uma rotina para que ele não se perca.

A escola japonesa de TPM, a mesma da JIPM, resume esses cuidados em três gestos: limpar, lubrificar e reapertar. Parece pouco, e é justamente por isso que se abandona. Ninguém para a linha por um parafuso frouxo ou por um copo de óleo abaixo do nível. Somados ao longo de meses, esses pequenos abandonos viram a degradação que depois aparece como quebra.

CuidadoO que evitaQuem faz no dia a dia
Limpezasujeira que esconde defeito e acelera desgastea operação
Lubrificaçãoatrito, aquecimento e ponto secoa operação, com critério da manutenção
Reapertofolga, vibração e desalinhamentoa operação
Inspeçãoanomalia que cresce até virar quebraa operação e a manutenção

Vale separar dois termos que andam juntos. Condição básica é o estado do equipamento. Restauração é o trabalho de devolver esse estado a uma máquina que o perdeu. A manutenção autônoma começa pela restauração e só depois consegue sustentar a condição básica com padrão.

Também não confunda com a manutenção preventiva, que troca peça por calendário ou por uso, nem com a manutenção preditiva, que mede o desgaste para decidir a hora da troca. A condição básica vem antes das duas. Sem ela, o plano calcula intervalos para uma máquina que se desgasta mais rápido do que deveria.

Por isso a condição básica é, antes de tudo, responsabilidade de quem opera. A manutenção entra com critério técnico e com o que exige ferramenta, mas o cuidado de todo dia fica com quem passa o turno ao lado do equipamento e percebe primeiro quando um ruído muda.

O que o livro diz: 50% das quebras nas máquinas AA

O Guia Prático Lean Seis Sigma trata a condição básica no capítulo 13, World Class Manufacturing, dentro do pilar de manutenção autônoma, um dos 8 pilares do TPM. Entre as páginas 107 e 108 está a frase que interessa a quem vai decidir por onde começar:

“As máquinas AA representam 50% das quebras totais devido à falta de condição básica; A cobre até 70%; B, 90%; e C, 100%.” (Coutinho, Guia Prático Lean Seis Sigma, p. 107-108, item 13.2.1.4)

Leia a frase como uma escada acumulada. A classificação AA, A, B e C ordena os equipamentos por prioridade. Os poucos AA respondem pela metade das quebras que a falta de condição básica provoca. Somando as máquinas A, a conta chega a 70%. Com as B, a 90%. Só com as C ela fecha.

A frase seguinte do livro dá a ordem de ataque. “A partir das máquinas AA, em que as perdas de degradação são mais significativas, os passos 1 a 3 são implementados conforme os padrões”, diz o texto. O mesmo trecho descreve a autonomia começando nas máquinas modelo e AA e se expandindo para as A e B conforme a viabilidade econômica. Não se restaura a fábrica inteira de uma vez.

Na prática, isso muda a pergunta de partida. Em vez de perguntar por onde começar a limpar, pergunte qual equipamento concentra as quebras. O histórico de ordens de serviço e o OEE respondem. Onde a disponibilidade cai por quebra, a falta de condição básica é a primeira suspeita. É o mesmo raciocínio do lean: atacar primeiro onde a perda pesa mais.

Os três passos da restauração da condição básica

Na manutenção autônoma, a restauração ocupa os três primeiros passos. Cada um responde a uma pergunta diferente sobre o equipamento.

  1. Passo 1, limpeza inicial. Operação e manutenção limpam juntas o equipamento parado. O objetivo não é deixar bonito. É tocar cada ponto e abrir uma etiqueta para cada anomalia encontrada.
  2. Passo 2, contramedidas para as fontes de sujeira e os locais de difícil acesso. Se a sujeira volta em dois dias, a limpeza vira castigo. Este passo ataca o vazamento que suja e redesenha o acesso ao ponto que ninguém alcança.
  3. Passo 3, padrões provisórios. A equipe escreve o CIL provisório: o que limpar, inspecionar e lubrificar, com método, frequência e tempo. É ele que impede a condição básica de se perder de novo.

Os três passos formam um ciclo, não uma lista. A limpeza revela, a contramedida remove a causa da sujeira e o padrão segura o resultado. Quem para no passo 1 volta ao mesmo ponto em poucas semanas, com a mesma sujeira e as mesmas anomalias.

Depois do passo 3, a manutenção autônoma segue para a inspeção geral, a inspeção autônoma e a padronização. Esses passos só se apoiam numa máquina que já recuperou a condição básica. Pular a restauração para chegar logo à inspeção é gastar a energia da equipe medindo um abandono que ninguém tratou.

Limpeza é inspeção: o que procurar na limpeza inicial

O modelo P06 do kit abre com uma frase: limpeza é inspeção. Sujeira removida é anomalia revelada. Por isso a limpeza inicial se faz com a mão, perto do equipamento, e não com mangueira de longe. É trabalho de gemba, no lugar onde a máquina roda.

O que a mão encontra cabe em seis famílias. Vale levar a lista impressa para o dia da limpeza.

  • Folga e parafuso solto. Fixação frouxa, guia com jogo, proteção que balança.
  • Vazamento. Óleo, ar, água ou produto escorrendo onde não deveria.
  • Trinca e desgaste. Mangueira rachada, correia gasta, revestimento que sumiu.
  • Ponto seco de lubrificação. Graxeira sem graxa, nível abaixo do mínimo, ponto que nenhuma rota visita.
  • Fonte de sujeira. O que suja o equipamento de novo depois da limpeza: fiapo, pó, respingo, rebarba.
  • Local de difícil acesso. Ponto que só abre com ferramenta e, por isso, nunca é olhado.

Leve também etiquetas de sobra, lanterna, espelho de inspeção e pano branco. O pano branco mostra a cor do que sai da máquina, e óleo escuro, pó metálico e resíduo de produto apontam origens diferentes.

O modelo pede registro de fato, não de opinião. “Vazamento de óleo na conexão do cilindro” é fato. “Máquina mal cuidada” é opinião. Ele pede também foto de antes e depois de cada ponto tocado, porque a foto datada sustenta o registro melhor que qualquer descrição.

Uma regra evita metade dos erros: não filtre na hora de abrir. A frase “isso sempre foi assim” descreve justamente a anomalia que fica sem etiqueta e mais tarde vira quebra. Quem opera tende a normalizar o que vê todo dia. Por isso a limpeza inicial junta quem opera e quem mantém.

Quem já fez o programa 5S reconhece ali o terceiro senso. A diferença está no alvo. No 5S, a limpeza organiza o espaço de trabalho. Na restauração da condição básica, ela é um instrumento para inspecionar o equipamento.

Etiqueta azul ou vermelha: quem fecha sem pedir nada

Cada anomalia ganha uma etiqueta, e a cor decide o caminho. O critério mais útil é uma pergunta: quem consegue fechar essa etiqueta sem pedir nada a ninguém? Se a operação fecha com o que tem no posto, a etiqueta é azul. Se depende de peça, usinagem, elétrica ou mudança de projeto, é vermelha.

O modelo P06 lista o que cabe em cada cor. Na azul entram limpeza, reaperto, nível, ajuste simples e organização do posto. Na vermelha entram troca de componente, usinagem, elétrica e alteração de projeto. A cor não mede gravidade. Uma azul pode ser urgente, e uma vermelha pode esperar a próxima parada programada.

PerguntaEtiqueta azulEtiqueta vermelha
Quem fechaa operaçãoa manutenção ou a engenharia
O que precisao que já existe no postopeça, ferramenta especial ou projeto
Exemplo típicoreaperto, limpeza, níveltroca de componente, usinagem, elétrica
Se a anomalia volta ou sobravira item do CIL provisórioentra no plano de contramedidas

Na dúvida sobre a cor, decida pela capacidade de hoje. Se a operação ainda não sabe fazer o reaperto com o torque certo, a etiqueta é vermelha até alguém ensinar, e esse ensino entra na rotina. Quando a operação aprende, anomalias parecidas passam a nascer azuis. É assim que a fatia azul cresce de uma limpeza para a seguinte, sem ninguém forçar a classificação.

Nas 13 Folhas de Kobetsu Kaizen do kit TPM, a proporção entre as cores é estável. Somadas, elas registram 582 etiquetas: 389 azuis e 193 vermelhas. Em todos os setores, a azul fica entre 60,9% e 71,0% do total.

Barras horizontais com a proporção de etiquetas azuis e vermelhas em 13 setores, de 60,9% de azuis no marketing a 71,0% no farmacêutico, com linha tracejada em 66,8% no total
Etiquetas de anomalia por cor no bloco 4 das 13 Folhas de Kobetsu Kaizen (projetos ilustrativos): 582 no total, 66,8% azuis.

Duas leituras saem daí. A primeira: cerca de dois terços do que a limpeza revela a própria operação resolve. Isso derruba a ideia de que a restauração depende da manutenção. A segunda: em nenhum setor as vermelhas passam de 39,1%, mas também nunca ficam abaixo de 29%. Planeje a agenda da gestão da manutenção antes da limpeza, e não depois.

Abertas e fechadas: o placar da restauração

Abrir etiqueta é a parte fácil. O modelo P06 chama o par abertas e fechadas de KAI da restauração, o indicador de atividade que mostra se a limpeza virou condição básica de fato. Cada etiqueta ganha número, local, cor, data de abertura, responsável, data de fechamento e status.

O exemplo impresso no próprio modelo mostra a conta. Na limpeza inicial de um tracionador, a equipe abriu 17 etiquetas: 11 azuis e 6 vermelhas. Em 3 semanas, 14 estavam fechadas, o que dá 82,4%. Sobraram 3 abertas.

O mesmo exemplo guarda a lição mais importante. O apontamento de parada dizia quando o tracionador parava. A limpeza mostrou por quê: a corrente trabalhava seca, porque o ponto de lubrificação ficou atrás de uma proteção instalada depois, e a rota nunca foi revisada. Nenhuma planilha de parada teria achado isso.

Agora o outro lado. Nenhuma das 13 Folhas do kit registra quantas etiquetas foram fechadas. Todas contam as abertas, separam as cores e param aí. Nos PDFs deste guia, a coluna de fechamento aparece marcada “a Folha não registra”. Sem ela, não há como saber quantas vermelhas sobraram para o plano de contramedidas.

Vale revisar o placar na reunião curta do turno, e não só no fim da restauração. Etiqueta vermelha sem data de fechamento vira pendência de ninguém. Com data e dono, ela entra na conversa diária até fechar, ou até virar item explícito do plano de contramedidas.

Acompanhe o placar num quadro de gestão à vista, ao lado do equipamento. Uma folha de verificação simples, com duas linhas por cor, basta: abertas e fechadas, semana a semana. Se a linha das vermelhas abertas não desce, a agenda da manutenção não comportou a restauração da condição básica.

Como restaurar a condição básica em 7 passos

A sequência abaixo junta o livro e o modelo P06 num roteiro de campo. Ela vale para uma máquina, uma linha curta ou um conjunto.

  1. Escolha o equipamento pelo histórico de quebras. Comece pelo que mais para, como manda a escada AA, A, B e C. Um equipamento por vez.
  2. Junte operação e manutenção, com a máquina parada e bloqueada. Bloqueio de energia antes de qualquer mão dentro do equipamento. Sem isso, a limpeza inicial não começa.
  3. Limpe com a mão e fotografe. Antes e depois de cada ponto tocado, com data.
  4. Abra uma etiqueta por anomalia, sem filtrar. Decida a cor pela pergunta de quem fecha sem pedir nada.
  5. Feche as azuis na hora, sempre que der. Reaperto, limpeza e nível raramente precisam esperar.
  6. Agende as vermelhas com dono e data. As que não cabem no plano de manutenção entram no plano de contramedidas.
  7. Escreva o CIL provisório antes de ir embora. Item, o que fazer, como, ferramenta, frequência, tempo e responsável. Ele segura a condição básica enquanto a equipe estuda a causa das quebras.

Registre a limpeza inicial, as etiquetas e o CIL provisório na peça P06 do Kit de Ferramentas TPM: o placar de abertas e fechadas fica no pé da folha.

Um cuidado sobre o passo 7: o CIL provisório é provisório de propósito. Ele nasce da limpeza e ainda não provou que cobre tudo. Depois de algumas semanas, a rota revisada vira padrão definitivo, com lição ponto a ponto para os pontos delicados e OJT para quem vai assumir a rota.

E um cuidado sobre a ordem. O modelo resume a regra numa dica: restaure antes de melhorar. Procurar causa raiz em equipamento degradado é analisar o abandono, não o fenômeno. Muitas das supostas causas somem sozinhas depois da limpeza. Só então o método de análise e solução de problemas trabalha sobre a falha real.

6 exemplos de restauração da condição básica

Os exemplos a seguir saem de seis Folhas de Kobetsu Kaizen do kit TPM. Cada um foi transcrito para a peça P06 e mostra o que ela revela sobre o setor: o que a limpeza achou, como as etiquetas se dividiram entre as cores e o que ficou em branco porque a Folha não registra.

◆ CASOS ILUSTRATIVOS: AS SEIS FOLHAS DE ORIGEM SE DECLARAM ILUSTRATIVAS, E CADA ANOMALIA CITADA ESTÁ ESCRITA NELAS.

SetorEtiquetasAzuisVermelhasCIL na peça
Hotelaria634122sim, por turno na lavanderia
Alimentício24168sim, no conjunto dosador
Manutenção de elevadores19013258não
Produção de elevadores412615não
Serviços311912não
Marketing23149não

1. Hotelaria: a vermelha que nasceu no projeto da lavanderia

Peça P06 de um projeto ilustrativo de hotelaria, com a limpeza inicial da lavanderia, 41 etiquetas azuis, 22 vermelhas e o CIL por turnoQuartos prontos que esperavam liberação eram o alvo do projeto de hotelaria. O quarto 512 esperou 38 minutos: a secadora tinha caído num ciclo estendido. O 907 esperou 55 minutos, com o hóspede no lobby, depois que o aspirador ficou sem sucção no meio do serviço.

A arrumação do quarto, por sua vez, era estável, em 28 minutos. O gargalo morava nos equipamentos de apoio, e foi para eles que a equipe levou a limpeza inicial, entre 25 e 29/05, com camareiras, lavanderistas e um mecânico.

Das 63 etiquetas, 41 saíram azuis: fiapo acumulado na caixa da secadora, rodízio travado e filtro saturado nos carrinhos, mangueira do aspirador rachada, painel sujo sem leitura. É o tipo de anomalia que a própria operação fecha com o que tem no posto.

As 22 vermelhas foram para a manutenção. A Folha nomeia quatro: a guarda parafusada do filtro de fiapos, o sensor de umidade coberto de fiapo, os mancais da calandra sem plano de lubrificação e o duto de exaustão sem portinhola de inspeção.

Duas dessas vermelhas não são desgaste. O filtro fica atrás de uma guarda que exige ferramenta, e o duto não tem por onde ser aberto. Enquanto o equipamento continuar assim, nenhuma rota de limpeza mantém a condição básica, e a etiqueta só fecha com mudança no projeto.

O hotel é um dos dois setores deste guia em que o bloco do CIL vem preenchido. A rotina por turno da lavanderia cobre filtro e sensor, correia e rolete da calandra, e deixa os mancais na rota semanal. Segundo a Folha, em uma semana a condição básica explicou o que 8 semanas de registros do sistema de gestão do hotel não explicavam.

2. Alimentício: o critério de 0,15 s que transforma folga em etiqueta

Peça P06 de um projeto ilustrativo do setor alimentício, com a limpeza inicial do conjunto dosador, 16 etiquetas azuis, 8 vermelhas e o CIL do dosadorA envasadora do projeto alimentício vivia de correção manual. A folha de verificação registrou 214 ajustes manuais de peso em 4 semanas, e o alvo de peso oficial era alto. Operação e manutenção fizeram juntas a limpeza inicial do conjunto dosador em 22/09.

As vedações que o apontamento nunca tinha acusado apareceram logo cedo. As válvulas levavam 0,3 s para fechar, quando a condição pede no máximo 0,15 s. Foram 24 etiquetas. As 16 azuis incluem resíduo de massa nos assentos das válvulas, guarda solta e ponto de inspeção encoberto. Entre as 8 vermelhas estão as vedações ressecadas dos bicos 5 a 8, a mola de retorno com folga e um ponto de lubrificação fora da rota.

O que este caso ensina é o valor de um critério numérico. Sem o limite de 0,15 s, uma válvula lenta passa por normal e ninguém a etiqueta. Com o número escrito, a folga vira anomalia objetiva, e a cor se decide sozinha: vedação ressecada pede peça, então é vermelha.

Aqui a peça também traz o terceiro bloco, com o CIL do conjunto dosador escrito para fechar as 24 etiquetas. O placar é que fica pela metade. Eu mostraria este caso a quem acha que etiqueta é burocracia: sem a data de fechamento de cada uma, a análise de causa começa sem saber se a vedação já foi trocada.

3. Manutenção de elevadores: a azul que o técnico fecha na visita

Peça P06 de um projeto ilustrativo de manutenção de elevadores, com a limpeza inicial de 260 elevadores, 132 etiquetas azuis e 58 vermelhasA queixa da manutenção de elevadores era a porta. Folga e alinhamento saíam do padrão poucos dias após a preventiva. O cruzamento do horário do aplicativo com o GPS dos veículos mostrou visitas reais de 32 minutos nas rotas carregadas, e a conferência física dos veículos achou a peça de desgaste ausente.

A limpeza inicial correu entre 20/04 e 08/05 nos 260 elevadores das 2 rotas do piloto, passando por casa de máquinas, poço, soleiras e operadores de porta. A escala muda o jeito de usar a peça: em vez de um equipamento, a P06 registra uma frota.

As azuis foram 132, todas do tipo que o próprio técnico resolve na visita: sujeira em soleira e trilho, guias sem lubrificação, fixações frouxas e iluminação de poço. As 58 vermelhas dependiam de peça, ajuste fino ou engenharia, como a folga de porta fora do padrão, a peça de desgaste no limite, o cabo de comando ressecado e o batente sem ponto de referência.

Deterioração nunca restaurada, não falha nova: é assim que a Folha lê o que a limpeza achou. Enquanto a porta parecia uma falha nova a cada chamado, a resposta era outra visita corretiva ao mesmo elevador. A limpeza mostrou que a preventiva partia de uma condição básica que o elevador já não tinha.

Duas colunas ficam vazias, a do CIL provisório e a do fechamento. O padrão só chega depois, já na fase II, com o checklist digital por família e o ajuste de porta com folgas e torques de referência. É aqui que eu mais sentiria falta do placar: com tantas vermelhas à espera de peça, e a peça de desgaste faltando nos veículos, só a coluna de fechadas diria se a restauração se sustentou.

Uma pausa na metade. Nos três primeiros, quase tudo o que a limpeza achou era condição básica perdida: desgaste, sujeira e ponto seco. Nos três seguintes, ela muda de lugar. Vai para uma fábrica que nunca a teve, para uma base de dados e para uma fila de atendimento. A peça continua a mesma.

4. Produção de elevadores: a condição básica que o comissionamento nunca previu

Peça P06 de um projeto ilustrativo de produção de portas de elevador, com a limpeza inicial das 3 linhas, 26 etiquetas azuis e 15 vermelhasFolga entre porta e batente era um dos três defeitos que dominavam a fábrica de portas de elevador: média de 2,3 mm contra a tolerância de ±1,5 mm. Nas cabines de solda, a equipe achou 14 combinações diferentes para a mesma chapa de 1,2 mm. A limpeza inicial foi de 18 a 20/05 e passou pelas 3 linhas.

As azuis foram 26, do tipo que a produção resolve: berços com rebarba e sujeira de pintura, separadores improvisados de papelão, cabines de solda sem tabela afixada e iluminação da inspeção. As 15 vermelhas foram para manutenção e engenharia. Entre elas estão o berço metálico sem revestimento no ponto de contato, o gabarito da linha 2, gasto em 1,1 mm, e os batentes sem ponto de referência.

O achado mais forte é que boa parte das anomalias existia desde a partida. O comissionamento nunca previu revestimento de berço, verificação de gabarito nem tabela de parâmetros. Nesse caso a palavra restaurar engana: não havia condição básica para devolver, e a equipe precisou estabelecê-la pela primeira vez.

Na peça, isso aparece como vermelhas de projeto e nenhuma rotina provisória escrita. A rotina veio depois, fora da P06: os gabaritos passaram a ser verificados toda semana com calibre passa-não-passa, com desvio máximo de 0,3 mm, a régua que o desgaste de 1,1 mm da linha 2 pedia.

5. Serviços: a restauração que acontece numa base cadastral

Peça P06 de um projeto ilustrativo de serviços, com a limpeza do fluxo de faturamento, 19 etiquetas azuis e 12 vermelhasFaturas saíam erradas do centro de serviços compartilhados, e o projeto foi atrás da origem aplicando a lógica da limpeza inicial ao fluxo de informação, num 5S no processo. Não havia máquina para limpar. Havia uma base cadastral.

A equipe rastreou 25 faturas erradas de ponta a ponta, até o posto de quem emite. Conferiu 1.240 registros da base cadastral e corrigiu 186. Varreu também as planilhas paralelas de condição comercial.

As etiquetas seguiram a mesma regra de cor. As 19 azuis ficaram com o próprio CSC, que as resolveu na semana: campos obrigatórios vazios, tabelas de tarifa duplicadas e e-mails sem destinatário formal.

As 12 vermelhas seguiram para TI e Comercial: ERP sem trava de validação, cadastro sem dono e aditivo sem fluxo. Nenhuma delas o CSC fecharia sozinho, porque mexer em sistema ou em contrato não está ao alcance de quem fatura.

Este é o exemplo que mais testa o critério da cor. Fora da fábrica, a pergunta de quem fecha sem pedir nada funciona do mesmo jeito. O CSC fecha o que depende só dele, e o resto vai para quem tem poder de mudar.

Guardo deste setor o veredito da Folha: a execução saiu inocentada, e o processo, incriminado. A coluna do CIL ficou vazia na peça, mas a Folha registra o equivalente entre as contramedidas: um checklist digital de fechamento, que ela chama de CIL administrativo e que virou anexo obrigatório do procedimento de faturamento.

6. Marketing: varrer o funil é inspecionar

Peça P06 de um projeto ilustrativo de marketing, com a varredura da base ativa, 14 etiquetas azuis e 9 vermelhasPara o time de marketing de lançamentos, o equipamento era o processo de atendimento. A condição básica, ali, é uma base ativa sem lead esquecido, e uma varredura de 3 dias fez as vezes da limpeza inicial.

A varredura achou 340 leads em aberto que nunca receberam um toque. Um lead chegou num sábado às 21h e só teve resposta 26 horas depois. E quando 60 leads dados como perdidos foram recontatados na cadência, 18% converteram.

As 14 azuis ficaram com o próprio time: filas de leads sem dono, respostas-modelo desatualizadas, listas de contato duplicadas e agenda de visita sem confirmação. As 9 vermelhas dependiam de TI e do CRM, como a falta de alerta de lead novo, a roleta manual que só roda em dia útil, o carimbo de tempo de resposta inexistente e o formulário sem qualificação.

A fatia azul aqui é de 60,9%, a menor entre os setores do kit. Faz sentido: no atendimento, boa parte das falhas mora na ferramenta, e a ferramenta é de outra área. Mesmo assim, três de cada cinco anomalias estavam ao alcance do time.

No resumo da Folha, varrer o funil é inspecionar. A ponte com o funil de vendas e com a qualificação de leads é direta: o formulário sem qualificação é a anomalia que deixa entrar o lead errado. Na peça, CIL e fechamento aparecem em branco, e se o funil fosse meu seriam as duas colunas que eu preencheria primeiro.

Os outros sete setores do kit aparecem só na figura das cores. Produção, saúde, logística, manutenção, sustentabilidade, financeiro e farmacêutico ficaram fora da lista para que cada exemplo mostre um uso diferente da peça.

Quando a etiqueta vermelha nasce no projeto

Algumas etiquetas vermelhas não apontam desgaste. Apontam uma condição básica impossível de manter, porque o equipamento foi projetado ou instalado sem ela. O tracionador do modelo é um caso: a proteção colocada depois escondeu o ponto de lubrificação.

Nos exemplos, o padrão se repete. Na hotelaria, o filtro de fiapos ficava atrás de uma guarda parafusada, e o duto de exaustão não tinha como ser aberto para inspeção. Na produção de elevadores, várias anomalias vinham da partida da linha: a instalação não trouxe proteção para o berço nem referência para conferir o gabarito.

Etiqueta desse tipo não se fecha com reaperto nem com troca de peça. Pede melhoria de projeto, o que o TPM trata no pilar de controle inicial. A lição vale para quem compra equipamento novo: leve para a especificação o que as vermelhas de projeto ensinaram. Acesso a ponto de lubrificação, abertura para inspeção e referência de ajuste custam pouco no desenho e muito depois.

Esse tipo de achado também alimenta a análise FMEA do próximo equipamento, porque o modo de falha já foi visto e já tem causa conhecida. E merece yokoten: se a guarda parafusada existe numa secadora, vale olhar as outras secadoras antes que a sujeira conte a mesma história.

Os erros que deixam a degradação voltar

Seis tropeços se repetem da fábrica ao escritório. Por trás deles está o mesmo engano: tratar a limpeza como fim, e não como começo.

  • Limpar sem etiquetar. O equipamento fica bonito por uma semana, e as anomalias que a sujeira escondia continuam lá, agora sem registro.
  • Filtrar etiqueta na hora de abrir. A equipe decide que certa folga é normal. Meses depois, ela aparece como quebra.
  • Contar só as abertas. Sem a coluna de fechadas, ninguém sabe quantas vermelhas esperam peça. É a lacuna das 13 Folhas do kit.
  • Pular o passo 2. Sem atacar a fonte de sujeira e o acesso difícil, a limpeza vira tarefa sem fim, e a equipe desiste dela.
  • Não escrever o CIL provisório. Sem ele a degradação volta, e a análise de causa acaba estudando máquina suja em vez do fenômeno.
  • Tratar a restauração como evento. Mutirão de limpeza uma vez por ano não é condição básica. Condição básica é o estado que a rotina mantém todo dia.

Todos esses erros empurram a equipe de volta à manutenção corretiva. O equipamento quebra, alguém conserta, e a causa que a limpeza teria revelado segue escondida. Um ciclo curto de kaizen sobre o próprio placar costuma mostrar qual desses erros está em jogo.

Modelo de restauração da condição básica para baixar

Folha em branco de restauração da condição básica do Kit de Ferramentas TPM, com cabeçalho do equipamento, quadro de limpeza inicial, quadro de etiquetas, CIL provisório e placarO modelo deste guia é a peça P06 do Kit de Ferramentas TPM, que entra na fase Planejar, no passo 4, junto com a análise de causa raiz. No cabeçalho vão o equipamento ou conjunto restaurado, a data da limpeza inicial e os participantes da operação e da manutenção. O primeiro quadro registra a limpeza inicial: ponto, o que foi encontrado e a evidência de antes e depois. O segundo lista as etiquetas, com número, local, anomalia, cor, abertura, responsável, fechamento e status. O terceiro guarda o CIL provisório até ele virar padrão definitivo. No pé fica o placar de abertas e fechadas, ao lado de uma dica do especialista.

Baixe o modelo em branco e registre a limpeza inicial do seu equipamento

A peça faz parte de um conjunto que cobre o projeto de ponta a ponta. Se quiser ver as outras, o guia de ferramentas do TPM mostra em que fase cada uma entra.

Quem quiser conduzir a restauração com orientação encontra o TPM nas academias de certificação da Voitto, trabalhado sobre um projeto da própria empresa. Para começar, porém, a gente só precisa de um equipamento, um rolo de etiquetas e uma manhã com operação e manutenção na frente da máquina.

Perguntas frequentes

O que é condição básica no TPM?
É o estado mínimo de cuidado que impede o equipamento de se degradar: limpo, lubrificado, apertado e inspecionado. Na manutenção autônoma, restaurar a condição básica ocupa os três primeiros passos, antes de qualquer melhoria.
Qual a diferença entre condição básica e manutenção preventiva?
A preventiva troca peça em intervalos definidos. A condição básica é o cuidado diário que faz esses intervalos valerem. Sem ela, o equipamento se desgasta mais rápido do que o plano prevê, e a preventiva chega sempre atrasada.
Quem participa da limpeza inicial?
Quem opera e quem mantém, juntos, com o equipamento parado e bloqueado. A operação conhece o comportamento do dia a dia. A manutenção reconhece o que é desgaste e o que é defeito. Separados, cada um deixa passar metade das anomalias.
Como decidir se a etiqueta é azul ou vermelha?
Pergunte quem consegue fechar a anomalia sem pedir nada a ninguém. Se a operação fecha com o que tem no posto, é azul. Se depende de peça, usinagem, elétrica ou projeto, é vermelha. A cor indica o caminho, não a gravidade.
Quantas etiquetas uma limpeza inicial costuma gerar?
Depende do tamanho do que se limpa. Nos seis exemplos deste guia, vão de 23 num processo de atendimento a 190 numa frota de elevadores. O que se repete é a proporção: cerca de dois terços azuis e um terço vermelhas.
O que é o CIL provisório?
É a rotina de limpeza, inspeção e lubrificação escrita logo depois da restauração. Ela diz o ponto, o que fazer, como, com qual ferramenta, em que frequência, em quanto tempo e quem faz. É provisória porque ainda vai ser testada antes de virar padrão definitivo.
Por que restaurar antes de buscar a causa das quebras?
Porque a análise feita em equipamento degradado estuda o abandono, e não o fenômeno. Muitas causas aparentes somem depois da limpeza inicial. O que sobra é a falha real, e aí a análise vale o esforço.
Condição básica se aplica fora da indústria?
Aplica, desde que haja algo que se degrada sem cuidado. Nos exemplos deste guia, a lógica funcionou numa base cadastral de serviços e numa fila de atendimento de marketing. Muda o objeto limpo, e a pergunta da cor continua a mesma.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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