Gestão & Liderança

Curva S: o que é, como fazer no Excel e como ler o valor agregado

O gráfico do custo acumulado mostra que o projeto gastou mais que o plano. Só o valor agregado diz se foi por andar rápido ou por pagar caro.

Thiago Coutinho
Publicado em 9 de abr de 2019  ·  Atualizado em 15 de set de 2026  ·  23 min de leitura
Thiago Coutinho de camiseta preta, rindo e fazendo gesto de hang loose sentado a uma mesa de madeira com luz natural na livraria, com o texto Curva S: o que é, como fazer no Excel e como ler o valor agregado sobre fundo escuro à esquerda

Em algum momento da execução, alguém abre a planilha de custos e descobre que o projeto consumiu mais dinheiro do que o previsto até aquela data. A curva S é o gráfico que torna esse momento visível: custo acumulado planejado e custo acumulado real, lado a lado, mês a mês.

O difícil vem depois. Uma linha real acima da planejada admite duas leituras opostas. O projeto pode estar adiantado, fazendo antes o que estava previsto para os meses seguintes, ou pode estar pagando caro pelo que entrega. Olhando só as duas linhas, ninguém consegue dizer qual das leituras é a verdadeira.

Quem desempata é uma terceira linha, a do valor agregado. Neste artigo eu mostro como montar as três no Excel, como tirar delas o CPI e o SPI e como interpretar o resultado sem cair na explicação mais cômoda. O exemplo é a Rede Vitalfarma, o caso que atravessa o Kit de Ferramentas para Gestão de Projetos, cuja planilha M14 chega a agosto com gasto acima do plano e entrega atrasada.

Escrevi o Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt e sou Master Black Belt. Aviso logo que o livro não trata de curva S nem de valor agregado. O que ele oferece é o conceito de linha de base, que sustenta a curva planejada, e só nesse ponto eu o cito.

O que é a curva S e por que ela tem esse formato

A curva S é a representação gráfica do custo acumulado de um projeto, período a período, desde o início até a entrega final. No eixo horizontal fica o tempo; no vertical, o valor gasto somado até cada data. O traçado parte baixo, sobe rápido no meio e perde força no fim.

O desenho vem do ritmo natural de um projeto. No começo, a equipe ainda se mobiliza, contrata, detalha o escopo do projeto e compra pouco, então o gasto mensal é pequeno. No meio, várias frentes correm em paralelo e cada mês consome mais. No fim sobram testes, ajustes e encerramento, e o gasto mensal volta a cair. Somar esses valores produz a curva S, que primeiro se deita, depois se empina e por último se deita outra vez.

O eixo vertical não precisa ser dinheiro. Há quem monte a curva S com horas de trabalho, com quantidade de entregas ou com percentual de avanço físico. O princípio não muda: acumular uma medida ao longo do cronograma e comparar o que foi previsto com o que aconteceu. Aqui a medida é custo, porque é assim que a planilha do kit está montada.

No caso que acompanha este texto, o plano distribuiu R$ 1.200.000,00 em nove meses, de fevereiro a outubro de 2026. Foram R$ 80 mil no primeiro mês, entre R$ 140 mil e R$ 160 mil de março a agosto, R$ 130 mil em setembro e R$ 100 mil em outubro. Resulta um S discreto, com a base e o topo mais leves que o miolo. Projetos reais raramente desenham a letra perfeita dos manuais.

Para que serve a curva S na gestão de projetos

A primeira utilidade da curva S é fixar uma referência. Depois que o orçamento é aprovado e distribuído no tempo, a linha planejada vira a linha de base de custo, e todo lançamento posterior é comparado com ela. Sem essa régua, o relatório mensal diz quanto se gastou, mas não diz se é muito ou pouco.

Mostrar tendência vem em seguida. Um mês acima do plano pode ser acaso; quatro meses seguidos formam um padrão. A curva S deixa o padrão à vista, porque o desvio de cada mês se soma ao dos anteriores e não desaparece quando o gasto mensal volta ao normal.

Há ainda o ganho de comunicação. Duas linhas num gráfico são entendidas em segundos por patrocinador, diretoria financeira e equipe, o que em reunião de acompanhamento vale mais que uma tabela com trinta números. Por isso a curva S costuma aparecer na planilha de acompanhamento de projetos ao lado dos marcos do diagrama de Gantt.

E existe uma quarta função, menos conhecida e que eu acho a mais útil: servir de base para o valor agregado. É essa extensão que transforma a curva S de um retrato do gasto num instrumento de diagnóstico, e é dela que trata a maior parte do texto daqui em diante.

Gasto acima do plano: projeto adiantado ou orçamento estourado?

Gasto acima do plano eu conheço por dentro. Em 2015, as despesas da Voitto cresceram mais depressa que a receita, e a empresa chegou perto de quebrar. Imagine que a gente abre a curva S de um projeto na data de corte e encontra a linha real acima da planejada. Há duas histórias possíveis. Na primeira, a equipe andou mais rápido que o cronograma e antecipou compras e serviços previstos para meses seguintes: gastou mais porque entregou mais. Na segunda, a equipe entregou o previsto ou menos, mas pagou mais caro por isso.

As duas histórias produzem exatamente o mesmo gráfico. A curva S de custo compara dinheiro com dinheiro e não carrega nenhuma informação sobre quanto do trabalho foi feito. É por isso que tantas apresentações de status terminam com a frase "estamos acima do orçado, mas também estamos adiantados", que ninguém na sala consegue confirmar nem refutar.

A mesma ambiguidade vale no sentido contrário. Uma linha real abaixo da planejada pode ser economia, pode ser atraso e pode ser nota fiscal que ainda não chegou. Um projeto parado gasta pouco, e seu gráfico parece saudável até o dia em que alguém pergunta pelo que foi entregue.

Para desempatar é preciso uma medida de avanço físico: quanto do escopo já foi de fato concluído. Com ela se calcula quanto do orçamento esse trabalho valia, e esse número é a terceira linha. No caso do kit, o custo real de agosto soma R$ 1.065.000,00, acima dos R$ 970.000,00 do plano. Quem olhasse só as duas linhas poderia apostar em adiantamento. A terceira mostra que a aposta estaria errada.

Valor agregado: a terceira linha do gráfico

Valor agregado é o orçamento do trabalho efetivamente realizado até a data de corte. A conta é simples: multiplica-se o percentual de avanço físico acumulado pelo orçamento total do projeto. Se um projeto de R$ 1.200.000,00 concluiu 68% do escopo, ele agregou R$ 816.000,00 de valor, não importa quanto tenha gasto para chegar ali.

Com isso o gráfico passa a ter três linhas, cada uma respondendo a uma pergunta:

  • Valor planejado: quanto deveria ter sido gasto até a data, segundo a linha de base. É a curva S clássica.
  • Custo real: quanto foi efetivamente gasto até a data, somando os lançamentos.
  • Valor agregado: quanto valia, pelo orçamento, o trabalho que de fato ficou pronto.

Da comparação entre as três saem dois índices. O CPI, índice de desempenho de custo, divide o valor agregado pelo custo real e mostra quanto trabalho cada real gasto comprou. O SPI, índice de desempenho de prazo, divide o valor agregado pelo valor planejado e mostra quanto do trabalho previsto para a data já foi entregue. Nos dois, 1,00 é o plano; abaixo disso, o projeto está pior do que o planejado naquela dimensão.

As siglas vêm da técnica que o PMBOK, mantido pelo Project Management Institute, chama de gerenciamento do valor agregado, conhecida pela sigla inglesa EVM. Em inglês os nomes são planned value, actual cost e earned value, e é comum encontrar PV, AC e EV em softwares de projeto. A planilha do kit usa os nomes em português por extenso, e este texto segue a planilha.

Um aviso de nomenclatura, porque o blog tem os dois assuntos. O valor agregado do Lean é outra ideia: a atividade pela qual o cliente está disposto a pagar, em oposição ao desperdício. O valor agregado deste artigo é uma medida financeira de avanço. Os nomes coincidem, e o contexto sempre diz de qual dos dois se trata.

Como ler CPI e SPI juntos

Cada índice sozinho conta meia história. Lidos em par, eles caem em um de quatro quadrantes, e cada quadrante pede uma conversa diferente no comitê:

CPISPIO que o projeto está fazendoPergunta para o comitê
1,00 ou mais1,00 ou maisEntregando no ritmo ou acima dele, gastando menos por entregaO plano estava folgado demais?
1,00 ou maisabaixo de 1,00Gastando pouco, mas entregando atrasadoFalta gente, material ou decisão?
abaixo de 1,001,00 ou maisEm dia ou adiantado, mas pagando caro pelo ritmoA aceleração vale o custo extra?
abaixo de 1,00abaixo de 1,00Atrasado e caro ao mesmo tempoO que mudou no escopo ou nas premissas?

O último quadrante é o mais comum em projetos que perderam o controle, e também aquele onde o diagnóstico mais erra. A tentação é concluir que a equipe está lenta. Às vezes é isso. Muitas vezes o trabalho aumentou sem que a linha de base acompanhasse, e a equipe está sendo medida contra um orçamento que já não descreve o projeto.

Vale olhar também a distância entre os dois índices. Quando o CPI cai mais que o SPI, o problema pesa mais no preço do que no ritmo. Quando os dois andam juntos, como no início do caso do kit, é sinal de que o custo real está colado no planejado e só o avanço físico está movendo os números.

Os índices da planilha do kit são acumulados, o que protege contra o susto de um mês isolado. A contrapartida é a lentidão: um mês excelente depois de três ruins mal mexe no resultado. Quem quer sentir a reação rápida pode calcular, à parte, o índice só do mês, dividindo o valor agregado do mês pelo custo do mês.

A curva S do caso Vitalfarma, mês a mês

A Rede Vitalfarma, varejo farmacêutico com 34 lojas, implantou um ERP único em todas as unidades. O orçamento aprovado era de R$ 1.200.000,00, para nove meses de execução entre fevereiro e outubro de 2026. A planilha M14 do kit registra o projeto até agosto, mês em que o status report do período passa a exibir farol vermelho.

Gráfico de linhas com três curvas acumuladas em milhares de reais, de fevereiro a outubro de 2026: planejado, custo real e valor agregado. Na data de corte de agosto, custo real em 1.065, planejado em 970 e valor agregado em 816; o planejado segue tracejado até 1.200 em outubro
As três linhas do caso Vitalfarma até a data de corte. Valores da planilha M14 do kit, em milhares de reais.

A tabela abaixo reúne as colunas acumuladas da planilha. Os valores mensais digitados e as fórmulas aparecem mais adiante, na seção sobre o Excel.

Mês (2026)Planejado acumulado (R$)Custo real acumulado (R$)Avanço físicoValor agregado (R$)CPISPI
Fevereiro80.00080.0008%96.0001,201,20
Março220.000220.00019%228.0001,041,04
Abril380.000425.00029%348.0000,820,92
Maio540.000613.00040%480.0000,780,89
Junho690.000785.00050%600.0000,760,87
Julho830.000925.00060%720.0000,780,87
Agosto970.0001.065.00068%816.0000,770,84

Fevereiro abre com os três números próximos: R$ 80 mil planejados, R$ 80 mil gastos e R$ 96 mil agregados, porque a equipe concluiu 8% do escopo. Os dois índices marcam 1,20. Março repete o padrão com margem menor, 1,04 nos dois. Enquanto o custo real acompanha o planejado centavo por centavo, CPI e SPI só podem ser iguais, e quem os move é o avanço físico.

Abril é o mês da virada. O gasto do mês chega a R$ 205 mil contra R$ 160 mil previstos, e o avanço sobe apenas dez pontos, de 19% para 29%. O CPI despenca para 0,82 e o SPI para 0,92. Maio e junho seguem a mesma trilha, com gasto mensal acima do plano e avanço de dez ou onze pontos por mês. Em junho o CPI atinge o ponto mais baixo da série, 0,76.

Julho e agosto contam a parte menos óbvia. O custo do mês volta aos R$ 140 mil planejados, e quem acompanhasse só o lançamento mensal diria que o problema passou. O acumulado discorda: o CPI fica em 0,78 e 0,77, porque o excesso de abril a junho continua somado. E o avanço de agosto, oito pontos, é o menor desde fevereiro, o que agrega R$ 96 mil para R$ 140 mil gastos no mês.

Na data de corte, as três linhas estão na ordem inversa da desejada. O custo real, R$ 1.065.000,00, está no alto. O planejado vem no meio, R$ 970.000,00. O valor agregado fica embaixo, R$ 816.000,00. O projeto consumiu 9,8% além do previsto para a data e entregou menos do que devia, com SPI de 0,84. Não há adiantamento nenhum escondido no gasto extra.

Como fazer uma curva S em seis passos

Antes de abrir a planilha, o planejamento precisa estar pronto. A curva S é consequência do cronograma e do orçamento, e não substitui nenhum dos dois. A sequência que funciona é esta:

  1. Quebre o escopo em entregas. A estrutura analítica do projeto dá a lista de pacotes de trabalho que vão receber custo e prazo.
  2. Coloque cada pacote no tempo. O cronograma diz em que meses cada entrega acontece. Quem ainda não tem um pode começar pelo guia de como fazer um cronograma no Excel.
  3. Distribua o orçamento pelos períodos. Cada pacote leva seu custo para os meses em que será executado. A soma por mês é a coluna de custo planejado no mês.
  4. Acumule. O planejado acumulado de cada mês é a soma de todos os meses até ele. Essa coluna, desenhada, é a linha de base em forma de S.
  5. Defina como medir o avanço físico. Antes do primeiro mês, combine o critério: marcos concluídos, unidades entregues, pacotes aceitos. Sem critério combinado, o percentual vira opinião.
  6. Lance real e avanço todo mês. A cada fechamento, registre o custo real do mês e o percentual acumulado entregue. A planilha faz o resto.

Os passos três e quatro são onde a maioria dos gráficos nasce torta. Distribuir o orçamento de forma linear, dividindo o total pelo número de meses, produz uma reta e esconde o ritmo real da execução. Vale o esforço de alocar cada pacote no mês certo, mesmo que por aproximação. Para dimensionar o total, o texto sobre gerenciamento de custos cobre estimativa e reserva.

Como fazer a curva S no Excel

A planilha M14 do kit já vem montada, mas vale entender o que ela faz, porque as fórmulas são curtas e dá para refazer em qualquer projeto. A estrutura tem uma linha por mês, da linha 13 à 21, e uma linha de total na 22. As células amarelas são digitadas; as cinzentas, calculadas.

Nas colunas digitadas ficam o mês (A), o custo planejado no mês (B), o custo real no mês (D) e o percentual de avanço físico acumulado (F). As outras cinco são fórmulas. No Excel em português, com ponto e vírgula como separador, elas ficam assim na linha 13, depois arrastadas até a 21:

  • Planejado acumulado (C13): =SE(A13="";"";SOMA($B$13:B13)). A âncora no primeiro B faz o intervalo crescer uma linha a cada mês.
  • Real acumulado (E13): =SE(A13="";"";SOMA($D$13:D13)), a mesma lógica aplicada ao custo real.
  • Valor agregado (G13): =SE(F13="";"";F13*$B$22). Multiplica o avanço pelo orçamento total, que está em B22 como =SOMA(B13:B21).
  • CPI (H13): =SE(OU(G13="";E13="");"";SE(E13=0;"";G13/E13)). Valor agregado dividido pelo real, protegido contra divisão por zero.
  • SPI (I13): =SE(OU(G13="";C13="");"";SE(C13=0;"";G13/C13)). Valor agregado dividido pelo planejado.

Os testes com a função SE deixam em branco os meses ainda não lançados, em vez de mostrar zeros ou erros de divisão. As referências com cifrão são o único detalhe menos intuitivo, e quem quiser revisar o básico encontra no guia das fórmulas mais usadas no Excel.

Para desenhar a curva S, selecione a coluna de meses e as colunas C e E e insira um gráfico de linhas. O modelo do kit já traz esse gráfico pronto, com as duas linhas de custo. Formatação de eixos, rótulos e legenda está no passo a passo de como fazer um gráfico no Excel.

Tem duas melhorias que faltam no modelo, e vale a gente fazer as duas antes de levar o gráfico ao comitê. A primeira é incluir a terceira linha: clique no gráfico, abra Selecionar Dados, adicione uma série e aponte para a coluna G. Sem ela, o gráfico mostra a pergunta do adiantado contra o estourado e esconde a resposta, que fica só nos números das colunas H e I.

A segunda corrige um efeito visual. Como a coluna E testa o mês e não o custo, os meses sem lançamento repetem o último acumulado, e no caso do kit setembro e outubro aparecem com R$ 1.065.000,00. Na curva S, a linha real fica plana e cruza a planejada logo depois de agosto, como se o projeto tivesse voltado ao orçamento. Trocar a fórmula de E13 por =SE(D13="";NÃO.DISP();SOMA($D$13:D13)) faz o Excel interromper a linha no último mês lançado.

Essa troca tem um efeito colateral: as colunas H e I passam a exibir #N/D nos meses futuros, porque o teste delas encontra o erro em E. Envolver as duas fórmulas com SEERRO resolve. Nenhuma dessas mudanças está no arquivo do kit, e quem preferir o modelo original perde apenas o acabamento do gráfico.

Dá para projetar o custo final pela curva S?

Dá, com uma ressalva que muita apresentação omite: projeção é hipótese sobre o futuro, e a curva só registra o que já aconteceu. A técnica do valor agregado oferece fórmulas de estimativa no término, e as duas mais usadas partem de premissas opostas. Os números a seguir são contas deste artigo sobre a planilha do caso, e não valores do kit.

  • Se o desempenho de custo continuar igual, a estimativa é o orçamento dividido pelo CPI. Com o CPI exato de agosto, R$ 816 mil sobre R$ 1.065 mil, o projeto terminaria perto de R$ 1,57 milhão.
  • Se o desvio ficar no passado e o trabalho restante custar o previsto, a estimativa é o custo real mais o orçamento do que falta agregar: R$ 1.065.000,00 somados a R$ 384.000,00, ou R$ 1.449.000,00.

O termo de encerramento do caso, outra ferramenta do kit, registra custo final de R$ 1.295.000,00, com o projeto concluído em 19/12/2026. É menos do que as duas projeções. A M14 para em agosto e não mostra o que aconteceu de setembro em diante, então a planilha não explica a diferença, e eu não vou inventar uma explicação para ela.

As duas fórmulas de projeção dão uma faixa para a conversa com o patrocinador, e a distância entre elas mede a incerteza. Apresentar uma única estimativa como se fosse certa é o erro. O controle de orçamento dos meses seguintes é que confirma ou derruba a faixa.

Outro limite conhecido da técnica aparece no fim de qualquer projeto. Como o SPI compara valores e não datas, ele tende a voltar para 1,00 quando o trabalho termina, mesmo que a entrega tenha atrasado meses. O caso terminou sete semanas depois de outubro. Nos meses finais, o atraso se lê melhor no cronograma do que no índice.

Índices em queda: olhe o escopo antes da equipe

Quando CPI e SPI caem juntos, o reflexo de muitos gestores é cobrar produtividade. O Guia do kit registra esse reflexo como armadilha da fase de monitoramento: "Ler CPI e SPI em queda e procurar a causa na velocidade da equipe, sem primeiro checar o histórico de mudanças de escopo do mesmo período."

A lógica é aritmética. Se o escopo cresce e a linha de base não é refeita, o trabalho novo consome dinheiro e horas, mas o percentual de avanço continua medido contra o escopo antigo. O custo real sobe e o valor agregado não acompanha. Os dois índices caem, e a equipe parece pior do que é.

No caso da Vitalfarma, o Guia aponta a coincidência de datas: os dois índices ficam abaixo de 1,00 a partir de abril de 2026, mesmo mês da primeira mudança de escopo que entrou fora do rito. O que cada pedido trouxe, quanto custou e por que escapou do comitê está no artigo sobre controle de mudanças, que usa o mesmo projeto. Aqui basta registrar que o gráfico apontou o mês, e o registro de mudanças explicou a causa.

A quarta instrução da planilha M14 transforma essa lição em rotina: "Releia esta planilha no mesmo dia em que uma mudança de escopo (E12) for aprovada, mesmo fora do rito: é o mês em que a curva real começa a descolar da curva planejada". Na prática, cada mudança aprovada deveria gerar duas ações no mesmo dia: atualizar a linha de base, se o orçamento mudou, e anotar na planilha o mês em que ela entrou.

Nem toda queda é escopo, claro. Premissa de preço que não se confirmou, fornecedor que atrasou e risco que se materializou produzem o mesmo desenho. A gestão de riscos do projeto é o segundo lugar para procurar, logo depois do histórico de mudanças.

Leia a curva S antes de preencher o status report

O Guia do kit coloca uma ordem explícita entre duas ferramentas da fase de monitoramento. No passo 07, a recomendação é: "No Monitoramento, leia a Curva S (M14) antes do Status Report (M13): é ela quem calcula o CPI e o SPI que sustentam o farol."

A ordem importa porque o farol do status report tende a ser preenchido por sensação. O mesmo Guia lista como erro comum do M13 "Justificar o farol por impressão, sem citar o CPI e o SPI que a curva S calcula". E a pergunta de fase que ele propõe para o monitoramento é direta: "O CPI e o SPI estão calculados a partir da curva S, ou o farol do status report é um chute?"

No caso, o status report de agosto acende o vermelho apoiado nos dois índices da M14 e no gasto 9,8% acima do planejado para a data. Um vermelho com número por trás muda a conversa. O patrocinador deixa de discutir se a situação é grave e passa a discutir o que fazer com ela.

Quem monta um relatório de KPI para o comitê pode tratar CPI e SPI como dois indicadores do painel, com meta 1,00 e faixas de alerta combinadas antes. A escolha dessas faixas está no artigo sobre indicadores de desempenho em projetos.

Cuidados e erros comuns com a curva S

A maior parte dos problemas da curva S nasce nos dados que entram na planilha. Os erros que mais aparecem:

  • Avanço físico por impressão. O Guia do kit registra este como o erro comum da M14: "Preencher o % de avanço físico por impressão de quem está executando, em vez de medir contra a entrega real". Um percentual otimista infla o valor agregado e melhora os dois índices sem que nada tenha mudado.
  • Avanço medido pelo gasto. Dizer que o projeto está 80% pronto porque consumiu 80% do orçamento torna o valor agregado igual ao custo real e o CPI igual a 1,00 por construção.
  • Linha de base que muda sem registro. Refazer o planejado sempre que o real se afasta apaga o desvio. A linha de base só muda por mudança aprovada, e a versão antiga fica guardada.
  • Custo lançado no mês errado. Nota fiscal que chega dois meses depois do serviço desloca o gasto e cria picos falsos. Combine com o financeiro qual data vale.
  • Orçamento distribuído em linha reta. Dividir o total por igual entre os meses produz uma reta, e o desvio de cada mês passa a medir a distância até uma distribuição que nunca existiu.
  • Gráfico sem data de corte. Todo gráfico apresentado precisa dizer até que dia os números vão. Sem isso, um mês incompleto parece economia.

O segundo item merece destaque porque é sutil. A instrução 2 da planilha do kit pede o avanço como "quanto do escopo já foi de fato entregue, não quanto já foi gasto". Se o percentual for derivado do gasto, a terceira linha se sobrepõe à segunda e o método perde a razão de existir.

O que o livro diz sobre a linha de base

O livro não descreve curva S, CPI ou SPI. O ponto de contato é a seção sobre baseline e premissas do capítulo 19, cujo título é Definição do Problema e Planejamento do Projeto, no item 19.3, Determinação do baseline e assumptions. Ali a linha de base aparece com a função que a curva planejada cumpre: "O baseline (linha de base) é uma medida de desempenho ou de sucesso e determina a capacidade de o projeto cumprir os requisitos conforme o planejado" (p. 165).

A frase ajuda a gente a ver por que a linha planejada não pode ser refeita a cada mês ruim. Ela é a régua. Se a régua se move junto com o que está sendo medido, a medida deixa de existir.

Na página seguinte, o texto junta a linha de base às premissas do projeto. A frase é esta: "A combinação do baseline e de assumptions ajuda a estabelecer uma base sólida para o planejamento e gerenciamento de projetos, possibilitando avaliar o progresso e ajustar a estratégia de negócio, se necessário" (p. 166).

Avaliar o progresso contra uma referência fixa é o que a curva S faz, e ajustar a estratégia é o que o comitê faz com o resultado. O livro trata do tema dentro de projetos Lean Seis Sigma, e o raciocínio vale para qualquer projeto com orçamento aprovado.

Curva S em projetos ágeis

Projetos conduzidos em sprints também podem usar a lógica do valor agregado, com uma adaptação na medida de avanço. Em vez de percentual físico estimado, o avanço passa a ser a proporção dos itens do backlog da versão já aceitos pelo dono do produto. O custo real continua vindo das horas e despesas do time.

A adaptação tem limite. Na metodologia ágil, o escopo é revisto a cada ciclo por desenho, e uma linha de base de custo congelada no início perde sentido rápido. Para times que combinam os dois mundos, o texto sobre Scrum e PMBOK na gestão de projetos discute onde cada abordagem ajuda. O caso da Vitalfarma é um projeto preditivo, com orçamento fechado no termo de abertura, e é nesse ambiente que o método rende mais.

Exemplo de curva S preenchida: a M14 da Vitalfarma

O exemplo abaixo é a planilha M14 preenchida no caso do kit, com os números até a data de corte de agosto. O PDF reproduz a própria folha, com as instruções no topo, a tabela e o gráfico.

1. Vitalfarma: curva S de fevereiro a agosto com valor agregado (caso ilustrativo)

Curva S e Valor Agregado (M14) preenchida pela Vitalfarma, caso ilustrativo: instruções no topo, tabela de fevereiro a outubro de 2026 com custos planejado e real, avanço físico, valor agregado, CPI e SPI, e gráfico das duas linhas de custo acumuladoEsta M14 pertence ao projeto de ERP da Rede Vitalfarma e é a planilha que sustenta o status report de agosto de 2026. As colunas de planejado no mês vêm do orçamento aprovado, e o rodapé da folha avisa que o planejado acumulado só chega a R$ 1.200.000,00 somando o termo de abertura e o orçamento do projeto. Aí está o primeiro desafio de quem monta a folha: a linha de base vem de duas outras ferramentas e não se atualiza sozinha. As três mudanças que entraram fora do rito somaram R$ 95.000,00 e ficaram sem orçamento aprovado, então a M14 continua medindo o projeto contra o plano original.

O preenchimento segue as instruções do topo: uma linha por mês, planejado e real mensais digitados, avanço físico acumulado na coluna F. De fevereiro a agosto há sete meses lançados. Setembro e outubro têm apenas o planejado, R$ 130.000,00 e R$ 100.000,00, porque a data de corte é agosto.

O desvio nasce em três meses consecutivos. Abril registra R$ 205.000,00 de custo real, maio R$ 188.000,00 e junho R$ 172.000,00, contra R$ 160.000,00, R$ 160.000,00 e R$ 150.000,00 previstos. Nesses meses, o avanço acumulado passa de 19% para 50%, ritmo parecido com o de março. O dinheiro a mais não comprou avanço a mais, e é esse o problema que a folha expõe. E abril é justamente quando a CM-01, registrada em 02/04/2026, ampliou o escopo por fora do rito.

As colunas calculadas mostram o efeito. O valor agregado de junho é R$ 600.000,00, metade do orçamento, para R$ 785.000,00 de custo real e R$ 690.000,00 planejados. O CPI de 0,76 é o pior da série, e o SPI de 0,87 indica que só 87% do trabalho previsto para a data estava pronto.

Em julho e agosto o custo mensal volta a R$ 140.000,00, igual ao plano, e os índices mesmo assim não se recuperam. Agosto fecha com 68% de avanço e R$ 816.000,00 de valor agregado; o CPI termina em 0,77 e o SPI em 0,84. O total da coluna de custo real soma R$ 1.065.000,00.

O segundo desafio aparece no gráfico da própria folha, e pesa para quem for reaproveitá-la. O gráfico desenha só planejado e real acumulados, e a linha real segue plana em setembro e outubro, cruzando a planejada. Esse cruzamento vem da fórmula, que repete o último acumulado nos meses sem lançamento, como explicado na seção sobre o Excel.

Repare que a folha, sozinha, não diz por que o custo subiu em abril. Ela diz quando e quanto. O artigo sobre análise de viabilidade acompanha o mesmo projeto numa fase anterior, antes da aprovação do orçamento que esta planilha distribui.

Modelo de curva S em branco para baixar (XLSX)

O modelo em branco é a mesma planilha do caso, sem os lançamentos: as quatro instruções de preenchimento, a tabela com nove linhas mensais e a linha de total, e o gráfico já ligado às colunas de custo acumulado. As células amarelas são as que você preenche; as cinzentas, as que a planilha calcula.

Modelo em branco da Curva S e Valor Agregado (M14): instruções de preenchimento no topo, tabela com as colunas Mês, Custo planejado no mês, Custo planejado acumulado, Custo real no mês, Custo real acumulado, % avanço físico, Valor agregado acumulado, CPI e SPI, e gráfico vazio das duas linhas de custo acumuladoNo arquivo está a planilha com as colunas Mês, Custo planejado no mês, Custo planejado acumulado, Custo real no mês, Custo real acumulado, % avanço físico realizado, Valor agregado acumulado, CPI e SPI acumulados, as fórmulas prontas e o gráfico.

Abrir e baixar o M14 em branco (XLSX)

Nove linhas cobrem um projeto de nove meses. Para projetos mais longos, insira linhas antes da linha de total e confira se a fórmula de B22 e o intervalo do gráfico acompanharam. Para projetos curtos, com semanas em vez de meses, basta trocar o rótulo da coluna A. Um teste que eu acho bacana é refazer, com o modelo, o gráfico de um projeto já encerrado. Se o valor agregado contar uma história diferente da que o time lembra, a gente confere na ata do comitê o mês em que as linhas se separaram.

O percurso completo da Vitalfarma, da abertura ao encerramento, é o fio da formação em gestão de projetos da Voitto. O papel de quem conduz esse percurso aparece no artigo sobre gerente de projetos, e as certificações de Lean Seis Sigma estão na Academia de Certificação da Voitto.

Perguntas frequentes

O que é curva S?
É o gráfico do custo acumulado de um projeto ao longo do tempo. A linha planejada começa baixa, sobe mais rápido no meio da execução e achata no fim. Comparar essa linha com o custo real acumulado mostra onde o gasto se afastou do plano.
Para que serve a curva S?
Serve para fixar a linha de base de custo, mostrar a tendência do gasto ao longo dos meses e comunicar o andamento ao comitê num único gráfico. Com o valor agregado, também mede desempenho de custo e de prazo.
Quais os cuidados ao usar a curva S?
Medir o avanço físico pela entrega real e não pelo gasto, só refazer a linha de base com mudança aprovada, lançar cada custo no mês em que ocorreu e informar a data de corte em todo gráfico apresentado.
Como são organizados os eixos da curva S?
O eixo horizontal traz o tempo, em semanas ou meses. O eixo vertical traz o valor acumulado até cada data, normalmente em reais, embora também se use horas de trabalho ou percentual de avanço.
Qual a diferença entre curva S e valor agregado?
A curva S compara custo planejado com custo real. O valor agregado acrescenta uma terceira linha, o orçamento do trabalho efetivamente concluído, e é ela que permite separar desvio de custo de desvio de prazo.
O que significa CPI e SPI abaixo de 1?
CPI abaixo de 1,00 indica que o projeto gasta mais do que o previsto para o trabalho entregue. SPI abaixo de 1,00 indica que entregou menos do que o previsto para a data. Os dois juntos pedem revisão do escopo e das premissas antes de qualquer cobrança à equipe.
Como fazer a curva S no Excel?
Monte uma linha por mês com custo planejado e real, acumule as duas colunas com SOMA de intervalo crescente e insira um gráfico de linhas com os acumulados. Para o valor agregado, multiplique o avanço físico acumulado pelo orçamento total.
Custo real acima do planejado é bom ou ruim?
Depende do valor agregado. Se o trabalho entregue também está acima do planejado, o projeto está adiantado. Se o valor agregado fica abaixo do custo real, o projeto está pagando mais do que deveria pelo que entrega.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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