Metodologias & Qualidade

Modelo de cronograma em Excel, com Gantt e marcos

A planilha por dentro: decomposição por entrega, estimativa por três pontos, os quatro tipos de dependência, caminho crítico e folga, o Gantt por formatação condicional, a linha de base e um cronograma de 14 tarefas com datas calculadas e conferidas.

Thiago Coutinho
Publicado em 25 de set de 2026  ·  Atualizado em 25 de set de 2026  ·  17 min de leitura

Todo projeto que atrasa tinha um cronograma. Na maioria das vezes ele foi feito com capricho, apresentado na reunião de abertura, aprovado, salvo em uma pasta compartilhada e nunca mais aberto até o dia em que alguém perguntou por que a entrega não saiu.

O problema quase nunca é a ferramenta. Um modelo de cronograma em Excel dá conta da maior parte dos projetos de uma empresa média, desde que a planilha calcule datas em vez de recebê-las digitadas. O que separa um cronograma usado de um cronograma apresentado é a estrutura de dependências por trás das barras.

Este artigo monta essa estrutura por dentro. Cronograma contra plano de ação, decomposição por entrega, estimativa por três pontos, os quatro tipos de dependência. Depois o caminho crítico, a folga, o marco verificável, o Gantt por formatação condicional, a linha de base e a rotina.

No meio, um cronograma de 14 tarefas com datas calculadas, dependências declaradas, folga por linha e cinco marcos. Começa em 02/03/2026, termina em 29/05/2026 e tem um caminho crítico que passa longe da tarefa mais demorada da planilha.

O cronograma deste artigo foi montado para ele, no formato dos Kits de gestão de projetos da Voitto. É ilustrativo e internamente consistente: as datas, as folgas e o caminho crítico foram calculados com calendário de dias úteis e três feriados, e fecham linha a linha, mas não descrevem um projeto real.

Cronograma e plano de ação não são a mesma coisa

A confusão mais cara em gestão de projetos é tratar cronograma e plano de ação como sinônimos. Os dois listam coisas a fazer e têm responsável e data, então muita empresa mantém um documento só que não funciona bem como nenhum dos dois.

O plano de ação responde o que será feito, por quem e por quê. Ele existe para transformar decisão em ação atribuída, e o 5W2H é a forma clássica dele. O cronograma responde outra pergunta: em que ordem, em quanto tempo e a partir de quando.

A diferença aparece no dia em que algo atrasa. No plano de ação, o atraso de um item é o atraso daquele item. No cronograma, ele pode custar zero dia ou custar todos, e nada diz qual é o seu caso sem dependências declaradas.

Um modelo de cronograma em Excel que serve para alguma coisa é um modelo que calcula essa diferença. Se a planilha só empilha linhas com datas digitadas à mão, ela é um plano de ação com barras coloridas.

Comece pelas entregas, não pelas tarefas

O primeiro erro é abrir o Excel e digitar tarefas. A lista sai grande, desorganizada e incompleta ao mesmo tempo, porque ninguém enumera de memória tudo que um projeto exige.

O caminho que funciona é decompor por entrega. Entrega é um substantivo, algo que passa a existir e pode ser mostrado: a especificação aprovada, a rede instalada, os operadores treinados. Tarefa é um verbo, o trabalho que produz a entrega.

A regra de decomposição é simples: quebre cada entrega em entregas menores enquanto a pergunta "isso está pronto?" ainda admitir resposta ambígua. Quando virar sim ou não sem discussão, pare de quebrar e só então liste as tarefas.

  • nível 1: o escopo inteiro, uma linha só;
  • nível 2: de 4 a 8 blocos, que costumam virar as fases;
  • nível 3: o que tem dono único e prazo próprio, de 15 a 40 itens num projeto médio;
  • tarefa: o trabalho dentro do nível 3, que só entra na planilha se for acompanhada à parte.

Essa ordem evita o buraco clássico. Homologação, migração de dados e treinamento quase nunca aparecem quando se lista tarefa por tarefa, e sempre aparecem quando se pergunta o que precisa existir para o projeto estar pronto. Vale para qualquer cronograma de implantação.

A granularidade que se sustenta

Existe um ponto de equilíbrio entre o cronograma vago e o detalhado demais, e ele é mais baixo do que a maioria dos gerentes imagina. O critério prático: nenhuma linha com duração menor que o intervalo de atualização do cronograma.

Se a planilha é atualizada toda semana, tarefa de um dia não deveria existir nela: nasce e morre entre duas atualizações, e o único registro é alguém marcando 100% em algo que nunca apareceu em andamento.

AtualizaçãoDuração mínimaDuração máximaLinhas típicas
Diária1 dia10 dias60 a 120
Semanal3 dias20 dias25 a 60
Quinzenal5 dias40 dias15 a 35
Mensal10 dias60 dias8 a 20

O teto importa tanto quanto o piso. Tarefa longa demais esconde atraso: uma linha de 40 dias fica meses aceitável antes de o problema aparecer, porque o percentual concluído dela é declarado e não medido.

O sintoma de detalhe excessivo é conhecido: a planilha para de ser atualizada na quarta semana.

Duração não é esforço, e nenhum dos dois é prazo

Três grandezas diferentes caem na mesma coluna com frequência, e o cronograma sai errado por soma indevida.

  • esforço: horas de trabalho que a tarefa consome, por exemplo 24 horas de analista;
  • duração: dias úteis entre o começo e o fim, conforme a disponibilidade de quem executa;
  • prazo: a data exigida, que vem de fora e não é resultado de cálculo.

Uma tarefa de 24 horas de esforço, com alguém que dedica duas horas por dia ao projeto, tem duração de 12 dias úteis, não de 3. É aí que nasce o cronograma otimista: quem estima pensa em esforço e escreve duração.

A pergunta que corrige é direta: quantos dias, do dia em que você puder começar até estar pronto, contando as suas outras obrigações. A resposta costuma ser o dobro da primeira estimativa, e é a que vai se confirmar.

Estimar sem chutar: a estimativa por três pontos

Pedir um número único produz um número já negociado. A estimativa por três pontos separa isso: o otimista, o mais provável e o pessimista. A duração sai da média ponderada, com peso 4 no mais provável, por =(O+4*M+P)/6, e a incerteza da linha por =(P-O)/6.

TarefaOtim.ProvávelPess.DuraçãoIncerteza
Especificação funcional46860,7
Compra e entrega dos coletores101425152,5
Parametrização do sistema81120122,0
Integração com o ERP681691,7
Operação assistida no piloto101010100,0

Repare na segunda linha. O mais provável era 14 dias, a duração calculada é 15, e a incerteza de 2,5 avisa que essa tarefa pode consumir 25 dias sem que ninguém tenha feito nada de errado. É a linha que merece uma alternativa preparada, não uma cobrança.

A última tem incerteza zero porque a duração é uma decisão, não uma estimativa. Vale marcar essas linhas: elas não se comportam como as outras quando o projeto aperta.

As quatro dependências entre tarefas

Dependência é a única informação que transforma uma lista em cronograma. Sem ela as datas são digitadas; com ela são calculadas, e mover uma tarefa move as outras sozinho. São quatro tipos, definidos pelo que a ligação prende.

TipoSiglaO que prendeExemplo
Fim para inícioTIComeça após o fim da predecessoraInstalar o coletor depois da rede pronta
Início para inícioIIComeça após o início da predecessoraRedigir o manual com a parametrização já iniciada
Fim para fimTTTermina após o fim da predecessoraO apoio acaba quando o piloto acaba
Início para fimIFTermina após o início da predecessoraO turno antigo encerra quando o novo assume

De 80% a 90% das ligações reais são fim para início. Cada uma aceita ainda um deslocamento em dias: atraso positivo afasta a sucessora, típico de cura ou quarentena; antecipação negativa a puxa para dentro da predecessora, e 10TI-3 quer dizer começar três dias úteis antes do fim da tarefa 10.

O erro comum não é escolher o tipo errado: é declarar dependência onde existe só preferência de sequência. Amarrada como dependência, ela alonga o caminho crítico sem necessidade.

O cronograma preenchido, linha a linha

Abaixo, um cronograma completo: implantação de apontamento eletrônico de produção em uma linha, 14 tarefas. Começa na segunda-feira, 02/03/2026, e o calendário conta de segunda a sexta com três feriados na janela, 03/04, 21/04 e 01/05.

As datas não foram digitadas: saem do cálculo a partir da data de início, das durações e das dependências, e foram conferidas fora da planilha.

NºTarefaDur.PredecessoraInícioFimFolga
1Levantamento do processo atual5-02/03/202606/03/20260
2Definição dos indicadores e do dicionário41TI09/03/202612/03/20260
3Especificação funcional e critérios de aceite62TI13/03/202620/03/20260
4Cotação e escolha do fornecedor de coletores81TI09/03/202618/03/20264
5Compra e entrega dos coletores154TI19/03/202609/04/20264
6Infraestrutura de rede na fábrica103TI23/03/202606/04/20267
7Parametrização do sistema123TI23/03/202608/04/20260
8Integração com o ERP97TI09/04/202622/04/20260
9Instalação dos coletores nos postos45TI, 6TI10/04/202615/04/20264
10Teste integrado68TI, 9TI23/04/202630/04/20260
11Treinamento dos operadores510TI-328/04/202605/05/20260
12Operação assistida na linha piloto1010TI, 11TI06/05/202619/05/20260
13Ajustes pós-piloto512TI20/05/202626/05/20260
14Encerramento e entrega313TI27/05/202629/05/20260

O projeto tem 62 dias úteis, de 02/03/2026 a 29/05/2026. Nenhuma dessas datas é opinião: reproduza a conta com um calendário de dias úteis e ela fecha em todas as linhas.

O caminho crítico sem jargão

Caminho crítico é a sequência de tarefas ligadas que, somadas, define a duração do projeto. É o caminho mais longo entre o começo e o fim. Atrasar qualquer tarefa dele atrasa o projeto, dia por dia, sem amortecimento.

No cronograma acima, o caminho crítico é 1, 2, 3, 7, 8, 10, 11, 12, 13, 14. São as linhas com folga zero, e uma segunda leitura confirma: elas formam uma corrente contínua de dependências da primeira à última tarefa.

A soma das durações dessas dez tarefas é 65 dias, e o projeto dura 62. A diferença não é erro: é a antecipação entre o teste e o treinamento, que sobrepõe as duas. Quando caminho crítico e duração não batem, procure a antecipação antes do erro.

O que fica de fora é igualmente informativo. As tarefas 4, 5, 6 e 9, o ramo dos coletores, não são críticas. É contraintuitivo: a entrega de 15 dias do fornecedor é a linha mais longa da planilha, e é ali que as reuniões gastam tempo.

A consequência prática vale o esforço de calcular: acelerar o fornecedor em uma semana não adianta um único dia na data final. Acelerar a integração com o ERP adianta exatamente os dias ganhos.

Folga total e folga livre

Folga é quantos dias úteis uma tarefa pode atrasar sem consequência. Existem duas, e confundi-las gera promessa que não se cumpre.

  • folga total: dias que a tarefa pode atrasar sem mover a data final do projeto, consumindo folga das tarefas seguintes do mesmo ramo;
  • folga livre: dias que ela pode atrasar sem mover o início de nenhuma sucessora, sem afetar mais ninguém.
TarefaFolga totalFolga livreLeitura
4 Cotação e escolha40Qualquer atraso empurra a compra
5 Compra e entrega40Qualquer atraso empurra a instalação
6 Infraestrutura de rede73Até 3 dias não incomoda ninguém
9 Instalação dos coletores44Folga própria, não compartilhada
7 Parametrização00Crítica

A tarefa 4 tem 4 dias de folga total e zero de folga livre: pode atrasar 4 dias sem mudar a data final, mas o primeiro dia já empurra a compra. A folga é do ramo, não da tarefa, e quem atrasa primeiro gasta por todos.

Por que a folga some quando não é declarada

Folga não declarada não existe na prática, porque é consumida antes de ser conhecida. O mecanismo tem três partes, e as três acontecem em qualquer empresa.

  1. Folga privada na estimativa. Quem estima já adiciona uma margem escondida à própria duração. Ela fica dentro do número, sem nome, e o gerente não pode administrá-la porque não sabe que está lá.
  2. O trabalho ocupa o prazo disponível. Uma tarefa com 5 dias de trabalho e 9 de janela termina no nono dia. Não por má-fé: a pessoa começa outra coisa antes e espera um retorno que poderia ter cobrado no segundo dia.
  3. O ganho não é reportado. Quem termina antes raramente avisa, porque avisar é receber mais trabalho e ter a próxima estimativa cortada. O atraso sobe na hora; a antecipação nunca sobe.

A correção é declarar. A coluna de folga fica visível, com a folga do ramo escrita em cada linha, e a reunião lê a variação dela, não só a data prometida. Folga caindo em ramo não crítico é o alerta mais precoce que um cronograma emite.

O marco como data verificável

Marco é uma linha de duração zero que marca um ponto de verificação. A diferença entre um marco útil e um enfeite é uma só: o útil tem critério objetivo, que permite dizer sim ou não sem reunião. "Especificação aprovada" é marco; "projeto em andamento" é estado de espírito.

MarcoData previstaCritério de verificaçãoFolga
M1 Especificação funcional aprovada20/03/2026Documento assinado pelo dono do processo0
M2 Coletores instalados nos postos15/04/202612 coletores energizados e na rede4
M3 Teste integrado aprovado30/04/2026Roteiro de aceite com 0 falha bloqueante0
M4 Piloto concluído19/05/20265 dias seguidos com 95% de apontamento0
M5 Rotina entregue ao dono do processo29/05/2026Indicador publicado e reunião diária rodando0

Quatro dos cinco têm folga zero, o que era esperado: marco costuma ficar no fim de uma cadeia crítica. O M2 tem 4 dias, ou seja, a instalação dos coletores pode chegar em 22/04 sem consequência para a entrega, já que 21/04 é feriado.

Três a seis marcos bastam para um projeto de dois a três meses. Vinte é o mesmo que nenhum: se tudo é verificação, passar por um deles não comunica nada.

O último marco tem uma característica que o distingue. Ele não verifica a entrega do projeto: verifica a passagem para o gerenciamento da rotina. Projeto que termina sem essa transição volta em seis meses como problema novo.

As colunas da planilha no Excel

Um modelo de cronograma em Excel que calcula datas tem um bloco de dados à esquerda e o Gantt à direita, na mesma linha.

ColunaConteúdoOrigem
NºIdentificador da linhaDigitado, fixo, nunca reordenado
TarefaVerbo no infinitivo mais objetoDigitado
O / M / PTrês pontos da estimativaDigitado
DuraçãoDias úteisFórmula de três pontos
PredecessoraNúmeros, tipo e deslocamentoDigitado
Início e FimDatasFórmula
FolgaDias úteisFórmula
% concluído0 a 100Digitado na atualização
Base início e Base fimDatas congeladasColadas como valor, uma vez

As fórmulas de data usam DIATRABALHO.INTL e DIATRABALHOTOTAL.INTL, que já respeitam fim de semana e aceitam lista de feriados. O fim de uma tarefa é =DIATRABALHO.INTL(Início-1;Duração;1;Feriados), e o início de uma sucessora simples é =DIATRABALHO.INTL(FimPredecessora;1+Deslocamento;1;Feriados).

Com mais de uma predecessora, o início é o maior dos candidatos, com um MÁXIMO em volta. Mantenha os feriados numa aba nomeada: é o intervalo mais esquecido quando o cronograma atravessa o ano.

O Gantt com formatação condicional

O Gantt no Excel não precisa de gráfico. Ele sai de uma faixa de colunas estreitas, uma por dia ou por semana, com a data no cabeçalho e formatação condicional pintando as células que caem dentro do intervalo da tarefa.

  1. Monte o cabeçalho com uma data por coluna, gerada por fórmula, e reduza a largura para 2 ou 3 pontos.
  2. Na área do Gantt, crie a regra da barra: =E(N$1>=$H2;N$1<=$I2), com H e I sendo início e fim.
  3. Acima dela, a regra do caminho crítico: =E($J2=0;N$1>=$H2;N$1<=$I2), onde J é a folga, em cor de destaque.
  4. Depois, fim de semana e feriado: =OU(DIA.DA.SEMANA(N$1;2)>5;CONT.SE(Feriados;N$1)>0), em cinza claro.
  5. Por fim, a linha de hoje: =N$1=HOJE(), com borda à esquerda em cor forte.

A ordem das regras importa, porque a primeira que der verdadeiro vence se a opção de parar estiver marcada. Crítico antes de normal, senão a barra crítica nunca aparece.

Formatação condicional tem uma vantagem decisiva sobre gráfico de barras: refaz-se sozinha quando a data muda. O gráfico exige remontagem a cada mudança de escopo, e daí o Gantt empacado no mês passado.

Congele os painéis na coluna do Gantt e use escala semanal acima de três meses. Escala diária em projeto de um ano gera 260 colunas que ninguém rola.

A linha de base salva, e por que sem ela não existe controle

Linha de base é a cópia congelada do cronograma aprovado. Duas colunas, início e fim previstos, coladas como valor no dia da aprovação e nunca mais tocadas sem decisão registrada.

Sem linha de base, a pergunta "o projeto está atrasado?" não tem resposta, e não por falta de dado: por falta de referência. O cronograma vivo sempre mostra datas futuras coerentes, porque é recalculado a cada atualização. Ele nunca mostra atraso, mostra o plano de hoje.

O gerente diz que o projeto está no prazo, e está: no prazo da versão de ontem. A entrega, que era 29 de maio na aprovação, virou 12 de junho por deslizamentos de três e quatro dias que nunca foram discutidos.

Na planilha são duas colunas a mais e uma de variação: =DIATRABALHOTOTAL.INTL([@[Base fim]];[@Fim];1;Feriados)-1, que devolve os dias úteis de desvio. Positivo é atraso, negativo é adiantamento.

Mudar a base é legítimo quando o escopo muda e ilegítimo quando o prazo escorregou. Ela só é refeita com escopo novo aprovado, e a versão anterior fica guardada numa aba com data.

O acompanhamento: avanço físico contra avanço previsto

O acompanhamento mais comum compara duas coisas que não se comparam: o percentual concluído e o percentual do prazo decorrido. É intuitivo e engana numa direção só, a otimista, porque o avanço previsto não é linear no tempo.

Vale ver com o exemplo. Em 17/04/2026 o projeto tem 34 dos 62 dias úteis decorridos. Tudo está pronto, menos a integração com o ERP, que tem 4 dos 9 dias executados. O avanço físico, ponderado pela duração das tarefas, é de 68 dos 102 dias planejados.

MedidaValorLeitura
Percentual do prazo decorrido54,8%Menos da metade do tempo gasto
Percentual concluído66,7%Parece adiantado em 12 pontos
Percentual previsto na linha de base69,6%Atrasado em 2,9 pontos
Tarefa crítica em execução8 Integração com o ERP44% executado contra 78% previsto

As duas primeiras linhas dizem que o projeto está adiantado. A terceira diz que está atrasado. A quarta diz onde, e é a única que gera ação.

A conta do previsto é a mesma do real, trocando o percentual declarado pelo que a base previa naquela data: =SOMARPRODUTO(Duração;%Previsto)/SOMA(Duração). Duas colunas e uma fórmula, e o acompanhamento para de mentir para o próprio dono.

Quando uma tarefa atrasa

Atraso não é evento excepcional, é o regime normal de um projeto. O que distingue um cronograma útil é responder rápido a uma pergunta só: quanto esse atraso custa na data final. A resposta depende inteiramente da folga.

SituaçãoEfeito no projetoNova data final
Tarefa 7 (crítica) atrasa 4 diasAtrasa 4 dias04/06/2026
Tarefa 5 (folga 4) atrasa 3 diasNão atrasa29/05/2026
Tarefa 5 (folga 4) atrasa 6 diasAtrasa 2 dias02/06/2026
Tarefa 6 (folga 7) atrasa 5 diasNão atrasa29/05/2026
Tarefa 9 (folga 4) atrasa 6 diasAtrasa 2 dias02/06/2026
Tarefa 8 (crítica) atrasa 3 diasAtrasa 3 dias03/06/2026

A segunda e a quarta linhas mudam o comportamento da equipe. Atraso em tarefa com folga não é reunião de crise, é anotação. Cobrar o ramo dos coletores enquanto a integração escorrega é o erro mais frequente.

Quando o atraso é crítico e precisa ser recuperado, existem duas alavancas, e só duas: comprimir uma tarefa com mais recurso, que custa dinheiro, ou sobrepor tarefas que estavam em sequência, que custa risco de retrabalho.

No exemplo, três dias de atraso na integração levam a entrega para 03/06/2026. Reduzir a operação assistida de 10 para 7 dias recoloca em 29/05/2026; encurtar o teste de 6 para 4 dias recupera só dois dos três. A comparação sai da planilha em segundos.

A causa do atraso é assunto de outro documento. O cronograma registra o efeito; a investigação do porquê vai para um relatório A3 ou para o ciclo PDCA da equipe, e o que volta para o cronograma é a ação com data.

Quando o Excel deixa de servir

Excel resolve a maior parte dos cronogramas que uma empresa média precisa. Ele deixa de servir em situações específicas, e reconhecê-las evita tanto a migração prematura quanto a teimosia cara.

  • mais de uma pessoa precisa atualizar ao mesmo tempo, e o controle de versão por arquivo começa a produzir cópias divergentes;
  • o projeto passa de 80 a 100 linhas com dependências entrelaçadas;
  • há nivelamento de recursos a fazer, com a mesma pessoa em tarefas sobrepostas;
  • vários projetos disputam as mesmas pessoas e é preciso ver a carga agregada;
  • o histórico de linhas de base precisa ser auditável.

Enquanto nenhum desses itens for verdadeiro, migrar costuma piorar. Ferramenta dedicada exige disciplina de cadastro que a equipe ainda não tem, e o resultado é um sistema caro com dados piores.

O sinal não é o tamanho do projeto: é o tempo gasto mantendo a planilha. Quando a atualização semanal passa de uma hora, a ferramenta já se paga. E a migração leva junto os defeitos: cronograma sem dependência declarada continua sem dependência na ferramenta nova.

A rotina que mantém o cronograma vivo

Nenhum modelo de cronograma em Excel sobrevive sem rotina de atualização, e ela é mais simples do que se imagina: mesmo dia, mesma hora, mesma pauta, de 20 a 30 minutos.

  1. Cada responsável informa o percentual concluído e a data de fim esperada. Percentual sem data de fim é informação vazia.
  2. O cronograma é recalculado na hora, com a tela projetada, e a nova data final aparece para todos.
  3. Lê-se a variação da folga dos ramos não críticos, e não só a data final.
  4. As tarefas que passaram a ser críticas desde a última reunião são nomeadas em voz alta: é a informação menos percebida de um projeto.
  5. Cada desvio maior que dois dias em tarefa crítica gera uma ação com dono e data, registrada no plano de ação, não no cronograma.

O cronograma impresso na gestão à vista da sala, com a linha de hoje marcada e os marcos destacados, faz mais pelo prazo que qualquer sofisticação de fórmula. O que está na parede é discutido; o que está no arquivo é esquecido.

A estrutura é a mesma em qualquer escala. Cabe na semana de um evento kaizen, com horas no lugar de dias. Cabe nas fases de um programa 5S, em que cada senso vira uma entrega com marco próprio. E cabe nas etapas do método DMAIC, em que cada fase termina num marco de aprovação.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre cronograma e plano de ação?
O plano de ação responde o que será feito, por quem e por quê, e existe para transformar decisão em ação atribuída. O cronograma responde em que ordem, em quanto tempo e a partir de quando, e existe para calcular o efeito de um atraso na data final. A diferença aparece quando algo atrasa: no plano de ação o atraso é daquele item; no cronograma ele pode custar zero dia ou custar todos os dias atrasados, dependendo da folga.
Como calcular datas automaticamente no Excel?
Use <code>DIATRABALHO.INTL</code> e <code>DIATRABALHOTOTAL.INTL</code>, que já respeitam fim de semana e aceitam uma lista de feriados. O fim de uma tarefa é <code>=DIATRABALHO.INTL(Início-1;Duração;1;Feriados)</code> e o início da sucessora é <code>=DIATRABALHO.INTL(FimPredecessora;1+Deslocamento;1;Feriados)</code>. Com mais de uma predecessora, envolva os candidatos em um <code>MÁXIMO</code>. Mantenha os feriados em uma aba nomeada.
O que é a estimativa por três pontos?
É pedir três números em vez de um: o otimista, o mais provável e o pessimista. A duração sai de <code>=(O+4*M+P)/6</code> e a incerteza de <code>=(P-O)/6</code>. O ganho não é a média em si, é a incerteza: uma tarefa com mais provável de 14 dias e pessimista de 25 tem incerteza de 2,5 e merece uma alternativa preparada, enquanto uma com incerteza próxima de zero não precisa de atenção.
Quais são os quatro tipos de dependência entre tarefas?
Fim para início, em que a sucessora só começa depois que a predecessora termina; início para início, em que ela só começa depois que a predecessora começou; fim para fim, em que ela só termina depois que a predecessora termina; e início para fim, em que ela só termina depois que a predecessora começou. De 80% a 90% das ligações reais são fim para início, e assim deve ser.
O que é caminho crítico e como identificar na planilha?
É a sequência de tarefas ligadas que define a duração do projeto, o caminho mais longo entre o começo e o fim. Na planilha são as linhas com folga zero, e elas formam uma corrente contínua de dependências. Atrasar qualquer uma delas atrasa o projeto dia por dia. Acelerar uma tarefa fora do caminho crítico não adianta a entrega em nenhum dia, por mais longa que ela seja.
Qual a diferença entre folga total e folga livre?
Folga total é quantos dias a tarefa pode atrasar sem mover a data final do projeto, consumindo a folga do ramo inteiro. Folga livre é quantos dias ela pode atrasar sem mover o início de nenhuma sucessora. Uma tarefa pode ter 4 dias de folga total e zero de folga livre: ela não atrasa o projeto, mas o primeiro dia de atraso já empurra quem vem depois.
Por que preciso salvar uma linha de base do cronograma?
Porque sem ela a pergunta "o projeto está atrasado?" não tem resposta. O cronograma vivo é recalculado a cada atualização e sempre mostra datas futuras coerentes, nunca atraso. A linha de base são duas colunas congeladas no dia da aprovação, início e fim previstos, coladas como valor. Ela só é refeita com escopo novo aprovado, e a versão anterior fica guardada em uma aba com data.
Posso comparar o percentual concluído com o percentual do prazo decorrido?
Não, e essa comparação engana sempre na direção otimista, porque o avanço previsto não é linear no tempo. O correto é comparar o avanço real com o avanço que a linha de base previa naquela data. No exemplo do artigo, 66,7% concluído com 54,8% do prazo decorrido parece adiantado, mas a linha de base previa 69,6% e a única tarefa atrasada é crítica.
Quantas linhas um cronograma em Excel deve ter?
Depende do intervalo de atualização. A regra é que nenhuma linha dure menos que o intervalo entre duas atualizações. Com atualização semanal, isso dá tarefas de 3 a 20 dias e algo entre 25 e 60 linhas. Tarefa curta demais nasce e morre entre duas reuniões; tarefa longa demais esconde atraso por meses, porque o percentual concluído dela é declarado e não medido.
Quando devo migrar do Excel para uma ferramenta de projetos?
Quando mais de uma pessoa precisa atualizar ao mesmo tempo, quando o projeto passa de 80 a 100 linhas com dependências entrelaçadas, quando é preciso nivelar recursos entre tarefas sobrepostas ou enxergar a carga de vários projetos, ou quando o histórico de linhas de base precisa ser auditável. O sinal prático é o tempo de manutenção: acima de uma hora por semana, a ferramenta se paga.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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