Kanban: o que é, kanban de produção, cálculo dos cartões e planilha
Os cartões de produção e de retirada, o supermercado e o ponto de disparo, as seis regras de Ohno, a fórmula do número de cartões com exemplo de linha de montagem, a implantação passo a passo e uma planilha que calcula e simula.
O kanban de produção é o sistema de cartões que faz a fábrica produzir só o que o processo seguinte consumiu. A caixa esvazia, o cartão volta, e só então alguém fabrica ou busca a reposição. Parece simples, e é. O difícil está em duas contas que quase ninguém faz direito: quantos cartões colocar em circulação e quando tirar alguns deles.
Passei uma semana numa imersão do Sistema Toyota em San Diego, com instrutores japoneses, e a parte mais fácil de descrever na volta foi o cartão. A parte que levei anos para entender foi outra. O número de cartões é uma decisão de gestão, e cada cartão a mais é estoque que esconde um problema que alguém prefere não ver.
Este guia é sobre o chão de fábrica. Ele mostra os dois tipos de cartão e o que vai escrito em cada um, o supermercado e o ponto de disparo. Também traz as seis regras de Ohno e o cálculo de kanban com a fórmula N = D × L × (1 + S) ÷ C. Depois vêm a implantação passo a passo, os indicadores, a comparação com o MRP e os erros que eu mais vejo. A planilha de dimensionamento que acompanha o artigo traz um exemplo de linha de montagem com 11 itens calculados.
O que é kanban de produção
Kanban de produção é um sistema de sinalização que autoriza um processo a produzir ou movimentar uma quantidade fixa de peças só quando o processo seguinte consumiu essa quantidade. Ele troca a ordem baseada em previsão pelo consumo real e limita o estoque ao número de cartões em circulação.
A palavra japonesa quer dizer algo como sinal ou placa. Na fábrica, o sinal é físico: um cartão plastificado preso a uma caixa, um triângulo de metal pendurado numa pilha, um espaço vazio pintado no chão. O que interessa é a regra por trás. Sem sinal, ninguém produz e ninguém movimenta.
É também a ferramenta que materializa a produção puxada. Se você chegou aqui procurando o quadro de tarefas de equipe, com colunas a fazer, fazendo e feito, essa é a versão ágil, e o artigo sobre o Scrum e o Kanban trata dele. Aqui o assunto é peça, caixa e máquina.
De onde vem: Taiichi Ohno e o supermercado
O sistema nasceu na Toyota, dentro do esforço de Taiichi Ohno para produzir carros em pequenos volumes e grande variedade sem afundar em estoque. Ohno conta no próprio livro que a ideia veio do supermercado americano. O cliente pega o que precisa na prateleira, e o repositor repõe só o que saiu. Trazido para a fábrica, o processo seguinte vira o cliente e o processo anterior vira o repositor.
Esse é um dos dois pilares do Sistema Toyota de Produção, o just in time, e o cartão é o instrumento que faz o just in time funcionar no chão. O alvo principal é a superprodução, que a Toyota trata como o pior dos oito desperdícios porque ela gera os outros: estoque, transporte, espera e defeito escondido no meio do lote.
No meu livro, o Guia Prático Lean Seis Sigma, eu coloco essa ferramenta entre as técnicas que reduzem a irregularidade do fluxo. Está no capítulo 29, “Eliminação de Desperdícios”, na seção sobre Mura, página 401. “Kanban: sistema visual que permite o gerenciamento e o controle do fluxo de trabalho, possibilitando regular o fluxo de trabalho e evitar o excesso ou a falta de trabalho em determinada área.”
Repare nas duas pontas da frase: excesso e falta. Cartão demais vira excesso, e cartão de menos vira falta. Todo o trabalho de dimensionamento que aparece mais adiante existe para achar o ponto entre as duas.
Os dois tipos de cartão: produção e retirada
O sistema clássico da Toyota usa dois cartões, e cada um fecha um laço. O cartão de produção diz ao processo fornecedor o que produzir e quanto. O cartão de retirada, também chamado de cartão de movimentação ou de transporte, autoriza alguém a buscar peças no supermercado e levar ao processo que vai consumir. O glossário do Lean Enterprise Institute descreve os mesmos dois tipos e acrescenta o terceiro, o kanban de sinal, que aparece numa seção própria mais abaixo.
O ciclo funciona assim. O abastecedor da montagem leva um cartão de retirada ao supermercado, pega uma caixa cheia, tira dela o cartão de produção e prende o cartão de retirada no lugar. O cartão de produção solto vai para o quadro do processo fornecedor. Esse cartão no quadro é a ordem de produção, e não existe outra. Quando a caixa nova fica pronta, ela volta ao supermercado com o cartão de produção preso.
O que vai escrito em cada cartão depende do laço. A tabela resume os campos que eu considero mínimos.
| Campo | Cartão de produção | Cartão de retirada |
|---|---|---|
| Código e descrição do item | Sim | Sim |
| Quantidade por contenedor | Sim, é o tamanho da ordem | Sim, é o tamanho da coleta |
| Tipo de contenedor | Sim | Sim |
| Processo que produz | Sim, com a máquina ou o molde | Não |
| Endereço no supermercado | Onde guardar a caixa pronta | Onde buscar |
| Destino | Não | Processo seguinte e posto de uso |
| Material de entrada | Sim, para o operador separar a matéria-prima | Não |
| Frequência | Não | Intervalo da rota de coleta |
| Numeração | Cartão 7 de 27 | Cartão 1 de 2 |
A numeração “7 de 27” parece detalhe de gráfica e é o campo que mais ajuda na auditoria do sistema. Com ela, qualquer pessoa conta os cartões em circulação e descobre na hora se algum sumiu ou se alguém imprimiu cartão a mais por conta própria.
O modelo da imagem está na aba Modelo de cartão da planilha, pronto para imprimir em A4 deitado, recortar e plastificar.
Supermercado e ponto de disparo
Supermercado, no Lean, é o estoque controlado que fica entre dois processos quando eles não conseguem trabalhar em fluxo contínuo. Cada item tem endereço fixo, quantidade máxima conhecida e caixas sempre do mesmo tamanho. A regra de saída é a primeira caixa que entrou, como no FIFO, para nenhuma peça envelhecer no fundo da prateleira.
Ele aparece no mapa do fluxo de valor do estado futuro sempre que o mapa mostra um trecho onde o fluxo contínuo não cabe. O motivo mais comum é um processo com setup longo, como prensa e injetora, alimentando uma linha que monta um pouco de cada modelo. Ou um processo que atende várias linhas ao mesmo tempo.
O ponto de disparo, também chamado de ponto de pedido, é o nível do supermercado em que a reposição já precisa estar a caminho. Ele vale o consumo durante o lead time de reposição mais a margem de segurança: D × L × (1 + S), em peças. Com cartão, cada caixa esvaziada dispara a reposição dela, e o ponto de disparo serve para conferir se o laço está saudável. No sistema de sinal, ele é o lugar exato da pilha onde o triângulo fica pendurado.
Um supermercado bem feito se lê de longe, como pede a gestão à vista. Prateleira com faixa verde, amarela e vermelha pintada na altura das caixas mostra ao supervisor, sem abrir sistema nenhum, qual item está perto de faltar.
As 6 regras do kanban segundo Ohno
Ohno resumiu as regras num quadro do livro O Sistema Toyota de Produção: além da produção em larga escala (publicado no Brasil pela Bookman). Em português direto, são estas.
- O processo seguinte busca no anterior só a quantidade indicada no cartão. Quem consome vai buscar. Ninguém empurra peça para o posto seguinte.
- O processo anterior produz na quantidade e na sequência dos cartões que chegaram. A fila do quadro é a programação.
- Nada é produzido nem transportado sem cartão. Máquina parada por falta de cartão está cumprindo a regra.
- O cartão anda sempre preso às peças. Caixa sem cartão no supermercado é estoque fora do sistema.
- Peça com defeito não segue para o processo seguinte. O lote pequeno faz o defeito aparecer cedo, e o jidoka faz alguém parar para resolver.
- Reduzir o número de cartões aumenta a sensibilidade do sistema aos problemas. Esta é a regra que transforma o sistema em ferramenta de melhoria.
As cinco primeiras dizem como operar. A sexta diz para que o sistema serve. Com estoque alto, a máquina que quebra uma hora por turno não faz falta a ninguém. Tire alguns cartões e a mesma quebra vira falta na montagem em dois dias. Dói, e é por isso que funciona.
Para o desenho de chão, eu acrescento duas regras práticas. Cartão perdido se repõe só com autorização de quem dimensionou, para não inflar o sistema escondido. E nenhum item entra no supermercado sem o cálculo da próxima seção registrado na planilha.
Cálculo de kanban: como calcular a quantidade de cartões
A fórmula mais usada para o cálculo de kanban é a que Yasuhiro Monden documentou no livro dele sobre o Sistema Toyota, publicado em 1983. O número de cartões de um laço é o consumo esperado enquanto a caixa é reposta, com a segurança somada, dividido pelo tamanho da caixa:
N = D × L × (1 + S) ÷ C, arredondado para cima
- D, demanda média diária. Peças por dia, de um período representativo e já nivelado. Use a média de algumas semanas, e não o pico do fim do mês.
- L, lead time de reposição. O tempo entre a caixa esvaziar e voltar cheia ao supermercado, em dias. Soma o cartão esperando no quadro, a fila, o setup, a produção e o transporte. Não confunda com o lead time do pedido do cliente.
- S, fator de segurança. Um percentual que cobre a variação da demanda e da reposição. Comece entre 10% e 20% e reduza conforme o processo estabiliza.
- C, tamanho do contenedor. Quantas peças cabem na caixa que circula com um cartão.
O resultado sai quase sempre quebrado e se arredonda para cima, porque meia caixa não existe. Daí saem mais três números que a planilha calcula. O estoque máximo vale N × C. A cobertura em dias é esse estoque dividido por D. O valor parado no supermercado é o estoque máximo vezes o custo unitário.
Exemplo: a hélice de uma linha de ventiladores
O exemplo da planilha é uma fábrica fictícia de ventiladores. A montagem final faz 480 ventiladores por dia em dois turnos de 8 horas, o que dá um takt time de 120 segundos. A injetora 2 fabrica a hélice de 40 cm e repõe uma caixa em 2 dias, contando a fila de moldes. Cada caixa leva 40 hélices, e a equipe adotou segurança de 10%.
A conta fica 480 × 2 × 1,10 ÷ 40 = 26,4, arredondado para 27 cartões. O estoque máximo é de 1.080 hélices, o que cobre 2,25 dias de montagem e deixa R$ 7.344 parados na prateleira pelo custo de R$ 6,80 a peça. O ponto de disparo fica em 1.056 peças.
O laço de retirada da mesma hélice tem outra conta. O abastecedor passa a cada 60 minutos e gasta meia hora no trajeto, então L = 1,5 hora. Dividido por 16 horas de trabalho, isso dá 0,094 dia. A conta fica 480 × 0,094 × 1,10 ÷ 40 = 1,24, arredondado para 2 cartões, com no máximo 80 hélices ao lado da linha. A planilha aceita lead time em horas e faz essa conversão sozinha.
Planilha gratuita: dimensionamento de kanban em Excel. Calcula até 20 itens com lead time em dias ou em horas: número de cartões, estoque máximo, ponto de disparo, cobertura e valor do estoque, com gráfico. Traz também a simulação “e se” para lead time e contenedor menores, o cálculo do sinal triangular, o modelo de cartão para imprimir e o exemplo dos ventiladores preenchido.
São seis abas: Como usar, Dimensionamento, Simulação e se, Sinal triangular, Modelo de cartão e Exemplo preenchido. Não tem macros e funciona no Excel, no LibreOffice e no Google Planilhas. Um clique na imagem abre o exemplo inteiro, com o botão de download.
O que a tabela dos 11 laços mostrou
Somados, os 11 laços da montagem dão 221 cartões e R$ 227.947,40 de estoque máximo. O número que chama atenção está numa linha só. O motor elétrico vem de fornecedor externo com 5 dias de reposição e segurança de 20%, e a conta dá 60 cartões, 6 dias de cobertura e R$ 167.040. Um item responde por 73% de todo o dinheiro parado.
Numa reunião como essa, a discussão costuma ir para o lado errado. Alguém sugere baixar a segurança do motor para 10% e economizar no papel. A tabela aponta outro caminho: o problema do motor é o lead time de 5 dias, e é nele que vale mexer. A segurança só cobre variação, e baixar segurança de item com fornecedor instável compra falta na montagem.
O kit de parafusos também acende o alerta de cobertura, com 12,5 dias. Aqui a decisão pode ser a oposta e deixar como está. O fornecedor só entrega caixa de 1.000 kits, e o estoque máximo inteiro vale R$ 5.100. Brigar por esse item custa mais tempo de gente do que ele imobiliza. Saber o que não atacar também é parte do dimensionamento.
Variações: kanban de lote e sinal triangular
Prensa e injetora com setup longo não conseguem trocar de produto a cada caixa. Para esses processos existe a versão por sinal, e a mais conhecida é a placa triangular de metal. Em vez de um cartão por caixa, o item tem um triângulo pendurado numa altura fixa da pilha. Quando o consumo chega nele, o triângulo vai para a máquina e autoriza a produção de um lote inteiro.
A conta muda um pouco. O ponto de disparo, em contenedores, sai da mesma conta do cartão, com o mesmo arredondamento. O lote vem do setup e é dado de entrada. O estoque máximo esperado fica perto do lote mais a sobra de segurança no momento do disparo. O estoque médio é metade do lote mais essa mesma sobra.
| Item do exemplo | Por cartão | Por sinal triangular |
|---|---|---|
| Base, injetora 3 | 44 cartões, máximo de 1.056 peças | Disparo em 22 caixas, lote de 1.440, máximo de 1.488 e média de 768 peças |
| Suporte do motor, prensa 1 | 3 cartões, máximo de 300 peças | Disparo em 3 caixas, lote de 2.400, máximo de 2.520 e média de 1.320 peças |
O suporte do motor é o caso que ensina. Com cartão, a prensa reporia 100 peças por vez e o máximo seria de 300. O setup longo obriga um lote de 2.400, e o estoque máximo vai para 2.520, oito vezes mais. O triângulo apenas mostra esse custo. Quem paga a diferença é o setup, e o caminho para reduzir é o SMED.
Simulação: quantos cartões saem quando o lead time cai
A aba Simulação e se responde à pergunta que todo gerente faz antes de aprovar um projeto: se o lead time cair, quanto estoque sai? No exemplo, dois projetos entram na conta. O primeiro é um SMED nas injetoras que derruba a reposição de 2 dias para 1. O segundo é um acordo com o fornecedor do motor para entregar a cada 3 dias em vez de 5.
Com os dois projetos, o sistema cai de 221 para 142 cartões. Saem 79 cartões, 3.240 peças e R$ 82.579,20 do estoque máximo. A hélice vai de 27 para 14 cartões, a grade de 36 para 18 e a base de 44 para 22. O botão seletor vai de 5 para 3 e libera 500 peças, quase o dobro da caixa dele, porque a caixa de 250 já era grande para o consumo.
A leitura financeira muda a prioridade. O SMED das quatro peças injetadas libera R$ 15.763,20. A entrega mais frequente do motor libera R$ 66.816, perto de 81% do total. Antes de chamar a equipe para uma semana de troca rápida, vale ligar para o comprador. Cada laço tem o seu lead time, e o mais caro nem sempre está dentro da fábrica.
A simulação mostra o potencial, e o ganho só aparece quando os cartões saem de circulação de fato. Reduzir o lead time e manter os 221 cartões rodando deixa o mesmo estoque na prateleira, agora com uma folga que ninguém usa.
Como implantar o kanban de produção em 7 passos
O sistema puxado é a última das fases do Lean, depois da estabilidade e do fluxo, e a ordem tem motivo. Puxar de uma máquina que quebra sem aviso só programa a falta. Na Votorantim Metais, o programa de manutenção autônoma que a gente tocava me ensinou essa ordem antes de eu saber o nome dela. Sem máquina confiável, o resto do sistema fica sem base.
- Escolha os itens do piloto. Comece por peças de demanda alta e regular, produzidas internamente, com poucos modelos. Uma curva ABC por volume ajuda a separar quem entra primeiro. Item de demanda rara e irregular fica no planejamento tradicional por enquanto.
- Nivele a demanda. Cartão sem heijunka recebe a demanda em ondas, e o cálculo feito com a média estoura no pico. Distribua o mix ao longo do turno antes de dimensionar.
- Meça o lead time de reposição real. Cronometre o laço inteiro durante algumas semanas, do cartão chegando ao quadro até a caixa voltar cheia ao supermercado. O lead time de cadastro no sistema costuma ser otimista.
- Dimensione e defina o supermercado. Calcule N para cada laço, escolha o contenedor, defina endereço e faixas de cor na prateleira, e imprima os cartões numerados.
- Rode o piloto com quem opera. Treine operador, preparador e abastecedor nas seis regras. Durante as primeiras semanas, alguém do time acompanha o quadro todo dia e anota cada falta e cada cartão parado.
- Ajuste e expanda. Recalcule com os dados do piloto e só então leve o sistema para os próximos itens. Mantenha a planilha como registro oficial do número de cartões.
- Tire cartões aos poucos. Retire um ou dois cartões por item, observe onde o sistema reclama e resolva aquela causa. Depois retire mais um. É a sexta regra de Ohno virando rotina.
O passo 7 é o que separa um sistema que melhora de um que só substitui a ordem de produção. A primeira falta que aparece depois de tirar um cartão é uma boa notícia, porque mostra o próximo problema a resolver. É desse problema que sai o combustível do próximo projeto de melhoria.
Indicadores do kanban de produção
Quatro indicadores bastam para saber se o sistema está saudável. Todos saem do quadro e do supermercado, sem depender de sistema caro.
| Indicador | Como calcular | O que ele avisa |
|---|---|---|
| Giro do supermercado | Consumo do período ÷ estoque médio do período | Giro caindo indica cartão sobrando |
| Faltas no supermercado | Vezes por semana em que o item zerou ou a linha esperou peça | Cartão de menos, lead time maior que o usado na conta ou demanda fora do nível |
| Cartões em circulação | Cartões contados ÷ cartões dimensionados | Acima de 100%, alguém imprimiu cartão. Abaixo, há cartão perdido |
| Lead time de reposição real | Média do tempo entre o cartão chegar ao quadro e a caixa voltar cheia | Se passar do L usado na fórmula, as faltas vêm em seguida |
O cálculo do giro segue a mesma lógica do giro de estoque da empresa, só que medido por item e por supermercado. Faça a contagem física dos cartões uma vez por semana no começo e uma vez por mês depois que o sistema estabilizar.
Um padrão aparece com frequência nos primeiros meses. A falta cai a zero, o giro fica parado, e todo mundo comemora. Quase sempre isso significa que tem cartão demais no sistema, e a regra 6 está esperando para ser aplicada.
Kanban ou MRP: quando usar cada um
No capítulo 8 do livro, “Lean Manufacturing”, na página 66, eu escrevo que a produção puxada só ocorre se houver demanda, “tornando desnecessária a utilização do Planejamento da Necessidade de Materiais (MRP, do inglês Material Requirement Planning) para a produção”. A palavra que pesa é a última. Para comandar o chão, o cartão substitui a ordem do sistema. Para comprar com antecedência e planejar capacidade, o MRP continua necessário.
| Critério | Kanban | MRP |
|---|---|---|
| Gatilho | Consumo real | Previsão e carteira de pedidos |
| Melhor para | Demanda regular, itens repetitivos | Demanda irregular, itens sob encomenda, compras de lead time longo |
| Estoque | Limitado pelos cartões | Resultado do plano e do lote |
| Ajuste | Diário, no chão, sem sistema | A cada rodada do plano |
| Ponto fraco | Sofre com demanda em ondas e máquina instável | Sofre com previsão errada e dado de lead time desatualizado |
Na maioria das fábricas que funcionam bem, os dois convivem. O MRP calcula a necessidade de matéria-prima e de capacidade para os próximos meses, e o cartão executa a reposição no dia a dia. O artigo sobre sistemas MRP mostra como o plano é montado. A regra que evita confusão é uma só: item que roda por cartão não recebe ordem de produção do sistema.
Erros comuns no kanban de produção
- Cartão sem nivelamento. A fórmula usa a média. Se a montagem faz o modelo A na segunda e o B na sexta, o supermercado de A esvazia de uma vez e o fornecedor não acompanha. Primeiro heijunka, depois cartão.
- Cartões demais. Arredondar para cima, somar segurança alta e ainda colocar mais dois cartões por garantia. O sistema nunca falta, nunca melhora e vira um estoque com etiqueta.
- Lote grande por setup longo. Contenedor de 1.000 peças porque a troca de molde leva duas horas. O cálculo fica certo e o estoque fica enorme. A solução está no setup, e é por isso que SMED e sistema puxado costumam andar juntos.
- Lead time de cadastro no lugar do real. A conta herda o número do sistema, e o laço real leva o dobro. As faltas aparecem na primeira semana e o sistema leva a culpa.
- Cartão sem dono. Ninguém conta, ninguém confere, cartões somem e aparecem. A numeração e a contagem periódica resolvem.
- Dimensionar uma vez e nunca mais. Demanda muda de patamar, e o número de cartões precisa acompanhar. Recalcule pelo menos a cada trimestre ou quando a demanda média mudar mais de 10% a 15%.
Os cinco primeiros erros têm a mesma raiz: usar o cartão como substituto do planejamento, sem atacar a variação que ele deveria expor. Os 3M do Lean ajudam a enxergar isso, porque o sistema mal dimensionado esconde Mura com estoque.
Kanban eletrônico: quando o cartão vira leitura de código
Na versão eletrônica, o cartão físico vira um código de barras ou uma etiqueta lida no ponto de consumo. A leitura gera o sinal de reposição no sistema, que pode chegar ao fornecedor externo na hora. Funciona bem para itens comprados, fornecedores distantes e laços em que o cartão físico se perde demais.
O risco é perder o que o cartão tem de melhor, que é estar à vista. Um quadro na tela da sala do PCP não aparece para o operador da injetora. Antes de digitalizar, faça o sistema físico funcionar e mantenha algum sinal visual no chão, mesmo depois da integração com o ERP.
Por onde começar
Baixe a planilha e escolha um item com demanda alta e regular, produzido por uma máquina que não costuma parar. Meça o lead time de reposição real durante duas semanas, preencha a linha e compare o número de cartões com o estoque que existe hoje no chão. Essa comparação sozinha já costuma render uma boa conversa com o supervisor.
Se o fluxo ainda não está desenhado, comece pelo mapa do estado atual e pelo Lean Manufacturing como sistema. O kit de ferramentas Lean Manufacturing da Voitto traz as ferramentas em PDF preenchível, na ordem do PDCA.
No fim, o kanban de produção vale pelo cartão que você tira, e não pelo que você imprime. Os 221 cartões do exemplo são o retrato de hoje. O trabalho de verdade é chegar aos 142 sem faltar peça na montagem, e depois descobrir qual é o próximo cartão que dá para tirar.

