Metodologias & Qualidade

S&OP não é sobre acertar o forecast: é sobre socializar cenários

Marcelo Paroni liderou o roll-out global de S&OP da Diageo. Ele explica por que o processo é simples, tem 40 anos, e ainda assim falha na maioria das empresas.

Thiago Coutinho
Publicado em 20 de out de 2026  ·  Atualizado em 20 de out de 2026  ·  12 min de leitura
Capa do artigo S&OP: o processo que integra a empresa inteira, com a arte do episódio 7 do VoittoCast e a foto do convidado

Marcelo Paroni é Supply Chain Director para Europa e África na Brown-Forman, baseado em Amsterdã. São 20 anos de carreira, 15 deles em planejamento, passando por Unilever, Mondelez e Diageo — onde foi diretor global do roll-out de S&OP. Nesta conversa com Henrique Corrêa, ele explica por que o processo é simples, existe há quatro décadas, e mesmo assim só decola sob uma condição que não é técnica.

A foto de 2003

Paroni abre a conversa mostrando ao entrevistador uma foto do primeiro treinamento de planejamento que fez, na Unilever.

"Foi quando eu entendi que planejamento era uma profissão, que planejamento precisava conhecer, precisava estudar. E foi quando eu comecei a minha jornada dentro de planejamento." — Marcelo Paroni

Guarde a frase. Ela volta no fim, quando ele fala sobre certificação.

S&OP é o processo mais importante de integração da empresa inteira

A trajetória dele com o processo cobre dez anos e várias categorias — sorvete, chocolate, biscoito, uísque, sabão em pó — e, de 2016 em diante, países de vários continentes, dando treinamento, fazendo assessment e corrigindo processos.

A conclusão:

"Do que eu vi, do que eu vivenciei, eu posso dizer que o S&OP, no meu ponto de vista, é o processo mais importante de integração da empresa inteira. Sem dúvida ele tem um papel importantíssimo para integrar o supply chain, mas o S&OP tem a ambição e a capacidade de integrar todos os agentes dentro de uma empresa." — Marcelo Paroni

Para funcionar, precisa conectar vendas, marketing, inovação e supply chain. E ele conta que ouviu, logo no começo, uma definição que achou ambiciosa demais:

"Me foi dito que o objetivo do S&OP era azeitar a engrenagem da empresa. E eu achei aquilo muito ambicioso. Primeiro, vamos olhar aqui o nosso forecast."

Com o tempo, passou a achar a definição correta.

O processo é simples. O problema não é ele

Esta é a parte que explica por que tantas implantações de S&OP param no meio.

Sobre a simplicidade:

"Conceitualmente, são quatro caixas que se conectam. Você vai ver diferentes títulos, diferentes nomes, mas, na essência, são quatro etapas simples, desde a revisão inicial do seu forecast até a validação com o grupo gestor daquele negócio, passando por validação de supply e validação financeira. É simples. Existe há 40 anos, mais ou menos, desde o começo dos anos 80. Não é ciência robótica." — Marcelo Paroni

O primeiro desafio é de patrocínio, e a conta é direta:

"O S&OP só funciona quando você tem um compromisso da alta gestão da empresa. E aí eu estou dizendo: o número um, o presidente, o general manager. Se ele entende que o S&OP é essa ferramenta que vai conectar os seus processos, 50% do trabalho está feito. Se essa pessoa não entende e está sendo obrigada a usar por alguma política interna, o processo vai, e não decola." — Marcelo Paroni

O segundo é comportamental:

"A beleza do S&OP é que ele tem uma base técnica, mas é muito dependente da interação humana, das relações pessoais, da capacidade das pessoas que estão envolvidas. É como as pessoas reagem à informação, como reagem à capacidade de tomar decisão, como reagem à notícia — quando é boa, quando é ruim."

A tese central: o forecast não vai estar certo

"Para mim, o S&OP não é sobre acertar o forecast. Às vezes o forecast não vai estar certo — a chance de o forecast estar certo é muito remota. Para mim, o S&OP é sobre você socializar os cenários de demanda que você tem." — Marcelo Paroni

O deslocamento é do número para o processo em torno do número: entender qual é a sua capacidade de acertar aquela demanda e, quando houver o erro natural, como fazer a organização inteira trabalhar em cima daquela informação.

O exemplo que ele usa é inovação, onde acertar é praticamente impossível. O S&OP, nesse caso, não entrega o número certo. Entrega a conversa certa:

O que o processo coloca na mesa Pergunta que ele força
volume estimado da inovação qual a magnitude provável do erro?
lead time de supply chain quando eu preciso decidir a compra do ingrediente?
tempo de produção cabe no prazo de lançamento?
shelf life do produto dá para antecipar produção sem perder validade?
capacidade reservada dá para guardar folga para reação rápida?
ritmo de cadastro no cliente em quanto tempo o produto chega à gôndola?

E o formato do resultado:

"Um forecast, que pode ser um número, deveria ser uma faixa. Mas todo mundo sabe: a gente vai aqui, se isso acontecer nós vamos fazer isso, se não acontecer a gente vai por esse caminho. E aí todo mundo está socializando o seu cenário, socializando o seu risco."

Não existe região mais colaborativa

Perguntado se há regiões do mundo mais receptivas a um processo colaborativo como o S&OP, Paroni recusa a generalização — e a recusa é, em si, o achado.

"Eu não vou generalizar, porque é meio uma armadilha a gente dizer que tal região é mais colaborativa. Eu tinha conceitos pré-estabelecidos de que, quando eu for à Ásia, vou encontrar esse tipo de resposta; na América Latina, esse outro. Eu não encontrei isso. Eu encontrei muito mais a cultura daquele negócio." — Marcelo Paroni

O que determina, segundo ele: como é o time executivo daquele país, qual a característica do gestor, qual a característica de cada membro, e qual o nível de confiança entre as partes. Os sintomas clássicos — S&OP que sempre estima abaixo, S&OP que sempre estima acima, vendas que não acreditam na capacidade de supply chain e embutem folga no forecast — aparecem em qualquer lugar e se explicam por comportamento, não por geografia.

Integrar fornecedor e integrar cliente são problemas opostos

Com o fornecedor, o problema é seu. Eles querem a informação:

"Todas as vezes que eu estive em conversas, ou ajudando na integração com o fornecedor, a gente via que os fornecedores estavam desesperados para ter aquela informação. Ele opera uma barreira enorme, ele não consegue saber o que tem pela frente."

Dois obstáculos:

Tecnológico. A informação que chega ao fornecedor atravessa toda a cadeia de sistemas, do plano de demanda ao requerimento de compra. Se o sistema não está bem parametrizado nem usado em plenitude, o output é ruim:

"Você vai produzir informação muito ruim, e o seu fornecedor, em vez de ser ajudado, vai ter a vida dele mais difícil."

Cultural, e vem da estratégia de sourcing. Se a compra é de curto prazo, focada em extrair o melhor preço, a informação vira arma:

"Existe muita cultura de 'eu não vou passar toda a informação porque eu quero alavancar minha negociação em cima da informação, que é meu poder nessa relação'."

E o problema que trava o investimento é de mensuração:

"O benefício dessa integração é difícil de ser comprovado, difícil de ser medido, é indireto, você não vê na hora. Uma negociação te dá dois centavos por unidade, vezes a quantidade de unidades, você teve esse saving. Você está cheio de custo escondido que vem dentro daquele preço porque você não dá informação para o seu fornecedor — mas você não consegue medir. Você não consegue vender isso dentro da organização." — Marcelo Paroni

Com o cliente, é o inverso: quem quer a informação é você, e o cliente não dá.

Paroni conta uma explicação que ouviu de um gestor de um grande atacadista europeu, e que vai à origem do canal: o atacado foi criado para intermediar vendedor e comprador, num tempo em que a indústria não conseguia acessar o consumidor. Dar visibilidade total do consumidor à indústria enfraquece a razão de ser do intermediário.

Henrique Corrêa resume o efeito:

"Talvez isso explique por que tudo isso faz tanto sentido quando a gente discute conceitualmente e, ao mesmo tempo, quando você vai para o mercado, você vê relativamente pouca integração, pouca coordenação do processo decisório, pouco compartilhamento de informações."

Tecnologia amplifica — nos dois sentidos

Paroni se declara entusiasta. Sistemas de planejamento, que eram caríssimos e restritos a poucas empresas, ficaram acessíveis. Mas o foco dele é outro:

"Para mim, tem um outro lado do sistema, que é quem opera o sistema. Isso deveria ser olhado em conjunto."

O caso do planejador com Excel

"O planejador me mostrou: olha, eu faço meu planejamento no Excel, e essa aqui é a minha sequência de tarefas que eu preciso para carregar o meu plano no sistema — que a companhia havia pagado milhões de dólares. Eu falei: não me diga isso, não pode. Mas aquela pessoa não tinha o entendimento, não tinha sido treinada para fazer isso." — Marcelo Paroni

E o diagnóstico estrutural que ele extrai:

"As empresas menosprezam a necessidade de investir em treinamento. É mais fácil aprovar um business case de um milhão de dólares para comprar um sistema do que um business case de 100 mil dólares para fazer um programa de treinamento."

O que vem por aí

Ele cita o que viu num exercício sobre o futuro do planejamento conduzido por uma consultoria global:

  • Software que faz varredura em e-mails e traduz aquilo em inteligência de venda, para gerar uplift no forecast
  • Demand sensing: reconhecer os pedidos novos do dia a dia e transformá-los num forecast mais acertado para os próximos dias, com foco no curto prazo
  • Sistemas de planejamento conectados a comando de voz, dispensando digitação

E o enquadramento que ele dá a tudo isso:

"A tecnologia é um habilitador. A tecnologia dá poder para o planejador. Se o planejador não sabe o que está fazendo, se não entende como ler o resultado daquele plano, se os parâmetros do sistema não estão bem configurados porque ele não sabe o que tem que colocar ali, a tecnologia só vai amplificar a qualidade do seu planejamento." — Marcelo Paroni

Ou seja: amplifica o bom e amplifica o ruim na mesma proporção.

O planejador ambidestro

Perguntado que características busca na equipe, Paroni descreve uma dupla de competências difícil de achar na mesma pessoa.

O lado analítico. Entender a estrutura do planejamento. Quais são os componentes de um estoque de segurança. O que é o K na fórmula do estoque de segurança. O que é desvio padrão. O que é um parâmetro no sistema.

O lado de tradução.

"Ao mesmo tempo, ele tem que ser capaz de traduzir essa engrenagem toda para o seu time comercial, para um vendedor que não entende absolutamente nada de estoque de segurança, mas está preocupado se você vai ser capaz de atender ao próximo pedido dele. Como é que você conecta esses dois universos?" — Marcelo Paroni

Henrique Corrêa batiza a combinação:

"Essa característica que eu anotei como ser ambidestro. A capacidade de ser analítico, no sentido de quebrar o problema em problemas menores, mas ao mesmo tempo uma habilidade sintética, de conseguir traduzir isso numa linguagem adequada para todo mundo com quem você interage. O profissional puramente analítico talvez vá ter o seu papel, o simplesmente sintético talvez vá ter o seu papel, mas os de grande sucesso vão ter que transitar entre os dois."

Certificação: o que ela representa

"Para mim é muito importante, menos pelo certificado, mais pelo que isso representa. Planejamento é uma profissão. Não é 'vem cá, senta comigo uma semana que eu vou te explicar o meu trabalho'. Não é um handover de uma semana que vai fazer uma pessoa que nunca trabalhou em planejamento entender planejamento. Ela vai saber a sequência de atividades, mas não vai entender o planejamento." — Marcelo Paroni

A analogia dele:

"Planejamento, para mim, é que nem pilotar avião. Você não faz isso só fazendo. Você tem que estudar, tem que ter a ferramenta, tem que ter vontade de aprender."

E o que ele lê num currículo certificado: que a pessoa reconheceu que o trabalho exige conhecimento, foi atrás, foi exposta a ele e, de alguma forma, o absorveu.

A tecnologia vai substituir o planejador?

"O mau planejador, provavelmente. Mas qualquer profissão que a pessoa não faça com empenho, a tecnologia vai substituir." — Marcelo Paroni

A analogia vem da formação dele em engenharia: ele aprendeu a calcular uma estrutura, sabe quanto de ferro vai num pilar — mas não calcula. Joga na máquina.

"Eu deveria ser capaz de olhar aquela informação e traduzir: faz sentido isso? Ou falar: não, isso aqui está errado, isso aqui não parece bom."

Transposto para o planejamento:

"O planejador no futuro não vai ser aquele cara que sabe calcular o seu coeficiente de estoque de segurança. Mas ele tem que saber ler o resultado que uma máquina vai processar para ele muito mais rápido. E traduzir essa informação para o negócio: por que essa informação é importante para aquela pessoa de finanças? Por que é importante para aquele cara de vendas? Qual a decisão que a gente tem que tomar junto com base nesse output?"

Quem é Marcelo Paroni

  • Supply Chain Director para Europa e África na Brown-Forman, baseado em Amsterdã
  • Cerca de 20 anos de carreira, 15 em planejamento
  • Unilever — primeira exposição a S&OP por volta de 2006, na categoria de sorvetes no Brasil
  • Mondelez — diretor de planejamento de supply e demanda
  • Diageo — diretor de supply e demanda e, a partir de 2016, diretor global do roll-out de S&OP, por três anos, com treinamento e assessment em diversos países
  • Formação em engenharia
  • Experiência de S&OP em categorias muito diferentes: sorvete, chocolate, biscoito, uísque e sabão em pó

O entrevistador é Henrique Corrêa, professor de gestão de operações e de cadeias de suprimento na Crummer Graduate School of Business, do Rollins College, nos Estados Unidos, e apresentador do quadro Leading the Supply Chain.

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VoittoCast #7 — De ponta a ponta: construindo um Supply Chain Planning conectado Quadro: Leading the Supply Chain, com Henrique Corrêa Convidado: Marcelo Paroni

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Página do episódio no VoittoCast

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Perguntas frequentes

O que é S&OP?
S&OP, ou planejamento de vendas e operações, é um processo de quatro etapas que vai da revisão inicial do forecast até a validação com o grupo gestor do negócio, passando por validação de supply e validação financeira. Existe desde o começo dos anos 1980 e serve para integrar vendas, marketing, inovação, supply chain e finanças em torno de um mesmo plano.
S&OP serve para acertar o forecast?
Não, segundo Marcelo Paroni. A chance de o forecast estar certo é remota. O S&OP serve para socializar os cenários de demanda, estimar a magnitude do erro provável e fazer a organização inteira trabalhar em cima dessa informação. O ideal é que o forecast seja uma faixa com cenários, não um número único.
Por que implantações de S&OP falham?
Por dois motivos, e nenhum é técnico. O primeiro é falta de compromisso do executivo principal — se ele entende o processo, metade do trabalho está feita; se está sendo obrigado por política interna, o processo não decola. O segundo é comportamental: como as pessoas reagem à informação e a notícias ruins.
Existe região do mundo mais colaborativa para S&OP?
Não, na experiência de Paroni, que liderou o processo em vários continentes. Ele afirma ter encontrado muito mais a cultura de cada negócio do que a de cada país — o estilo do time executivo e o nível de confiança entre as partes explicam melhor o resultado do que a geografia.
Por que é difícil integrar fornecedores no planejamento?
Por um obstáculo técnico e um cultural. O técnico é a qualidade do output: se o sistema não está bem parametrizado, a informação enviada piora a vida do fornecedor em vez de ajudar. O cultural é a estratégia de sourcing: quem compra olhando só o preço de curto prazo retém informação como alavanca de negociação.
Vale a pena tirar uma certificação em planejamento?
Para Paroni, sim — menos pelo certificado e mais pelo que ele representa. Planejamento é uma profissão que exige teoria, e não se aprende em uma semana de repasse de tarefas. A certificação sinaliza que a pessoa reconheceu isso, foi atrás do conhecimento e o absorveu.
A tecnologia vai substituir o planejador?
O mau planejador, provavelmente. Segundo Paroni, a tecnologia tira o processamento pesado, mas o planejador precisa saber ler o resultado da máquina, julgar se faz sentido e traduzir aquilo em decisão para finanças e para vendas.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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