Gestão & Liderança

Liderança no Lean Construction: o que o líder faz antes de qualquer ferramenta

Um engenheiro civil com mais de 50 projetos de construção enxuta explica o que cabe ao líder, em que ordem as camadas entram na obra e por que a digitalização vem por último.

Thiago Coutinho
Publicado em 7 de out de 2026  ·  Atualizado em 7 de out de 2026  ·  9 min de leitura

A liderança no Lean Construction decide o resultado antes de qualquer ferramenta. O líder precisa querer a mudança, explicar por que ela existe, ir à obra e patrocinar a transformação do começo ao fim. Sem isso, Last Planner, takt time e KPI viram enfeite, e a empresa conclui que o Lean não funciona.

Quem defende essa ordem é Brian Miller, entrevistado no VoittoCast por Júlio Briales, especialista em excelência operacional e professor de PCP. Engenheiro civil, pós-graduado em gestão de processos pela FGV e mestrando em administração pela FDC, ele atuou em mais de 50 projetos de Lean Construction, estratégia operacional e mudança cultural, no Brasil, na América do Norte, na Europa, na América Latina e na África.

A seguir estão o modelo de duas partes que ele usa com a alta direção e a ordem em que as camadas entram no canteiro. Depois, o motivo de a digitalização ficar para o fim e o teste de uma pergunta que revela se a empresa conhece Lean de fato.

Qual é o primeiro passo do líder numa obra Lean

Júlio abriu a conversa perguntando como um líder estratégico contribui para a aplicação do método na construção civil. Para Brian, o ponto de partida no Lean Construction não é ferramenta: “o primeiro passo de tudo é o líder querer a mudança”. E ele corrige a própria frase logo em seguida: mais do que querer, acreditar.

A dificuldade é que poucos executivos já viveram uma mudança dessas no Lean Construction. Para eles, “esse tipo de transformação, ele é quase que um ato de fé, inicialmente”. Não basta implantar um processo enxuto; é preciso transformar pessoas, e isso o diretor ainda não viu funcionar.

Júlio completou com a experiência dele: se a direção não está envolvida, fica muito difícil, porque quase todos os recursos estão na mão dela. A saída que ele propõe é colocar a própria liderança dentro de uma gestão de rotina.

O que fazer: os quatro P's da Toyota

No Lean Construction, Brian separa o trabalho do líder em duas perguntas. A primeira é o que fazer, e para ela ele usa os quatro P's do modelo da Toyota, descrito em The Toyota Way.

  • Filosofia: pensamento de longo prazo.
  • Processo: trabalhar o fluxo eliminando o desperdício.
  • Pessoas e parceiros: respeitar quem está na empresa e quem fornece, porque a implantação envolve muita gente.
  • Problem solving: melhoria contínua, porque problemas vão surgir ao longo de toda a implantação.

A segunda pergunta é como fazer, e aí entra o modelo de influência, com quatro alavancas. O quadro abaixo junta as duas metades, que a síntese do fim do episódio chamou de método estruturado: o quê de um lado, o como do outro.

Duas colunas: o que fazer, com os quatro P's da Toyota, e como fazer, com as quatro alavancas do modelo de influência
O que fazer e como fazer: os quatro P's à esquerda e as quatro alavancas de influência à direita, na ordem em que Brian as apresenta.

Como fazer: as quatro alavancas de influência

1. Fazer sentido para as pessoas. O líder explica qual é o foco daquela transformação, o que ela traz para o negócio e o que traz para cada indivíduo. Nas palavras dele, “não é transformar por transformar”.

2. Desenvolver talentos e capacidades. Treinamento, capacitação ou uma consultoria dando suporte, porque “não adianta também eu implementar uma cultura, uma cultura de Lean, sem explicar, sem treinar as pessoas”.

3. Role modeling. O líder que fala em estar perto do processo produtivo e nunca vai ao campo perde o argumento. A equipe precisa ver coerência: “as pessoas veem que eu estou falando uma coisa e eu estou fazendo aquela coisa realmente no meu dia a dia”.

4. Mecanismos de reforço. Governança, KPIs e, no limite, “atrelar essa transformação ao bônus das pessoas”. É nesta alavanca que as ferramentas usadas no Lean Construction aparecem, e não antes. O tema conversa com o que o blog trata em liderança Lean.

Por que os princípios vêm antes das ferramentas

Muitos clientes querem começar no Lean Construction pela caixa de ferramentas, certos de que ela vai melhorar a produtividade. Brian dá um passo atrás, porque “não adianta eu aplicar somente a ferramenta por aplicar, que é o que acontece muitas vezes”. Uma ferramenta falha e a conclusão vira "o Lean não deu certo aqui".

Em todo projeto, há 10 anos, ele estabelece primeiro os cinco princípios: o que é valor para o cliente, qual é o fluxo de valor daquele empreendimento, como criar fluxo, como tornar o processo puxado e como garantir zero defeito. “Dado que esses princípios estão estabelecidos, aí sim eu vou entrar com as ferramentas”.

O segundo conceito é o que ele chama de efeito cebola. A transformação começa onde se agrega valor, que é a obra, e avança por camadas. Ao melhorar o processo construtivo, aparecem os problemas de suprimentos; dentro de suprimentos, os de engenharia; depois as áreas de apoio e o comercial.

Efeito cebola: a transformação começa na obra e avança para suprimentos, engenharia, áreas de apoio e comercial
O efeito cebola: cada camada resolvida revela o problema da camada seguinte, a partir de onde se agrega valor.

Para a liderança no Lean Construction, a consequência é de escopo: o programa que nasce na obra não termina nela. Na transformação que Brian conduziu numa grande construtora, o mesmo trabalho chegou à área corporativa.

Em que ordem as ferramentas entram na obra

Com os princípios definidos, as ferramentas entram no Lean Construction em camadas. A primeira é o planejamento, com o Last Planner System, ou com o AWP quando a obra é de EPC. Depois vem o ritmo: o takt time entra onde há unidades construtivas repetitivas, para medir a obra com constância. Em seguida, os workshops de produtividade separam o que agrega e o que não agrega valor na alvenaria ou na estrutura.

Seis camadas na ordem: planejamento, ritmo, produtividade, logística de abastecimento, gestão de desempenho e digitalização por último
As seis camadas na sequência em que o convidado as implanta; a digitalização só entra com o processo já desenhado.

Na sequência vem a logística de abastecimento, com o conceito cirurgião-enfermeiro: o cirurgião opera e o enfermeiro traz os instrumentos. No canteiro, “O pedreiro está lá fazendo o trabalho dele, colocando o bloco, porém, o que a gente vê muitas vezes é o pedreiro saindo para procurar o bloco, para fazer um trabalho que não deveria estar fazendo”. Carrinhos de abastecimento e um layout melhor atacam esse desperdício.

Júlio lembrou que essas ideias vieram da indústria automotiva e que, quando chegaram à construção civil no Brasil, há mais de dez anos, a resposta era que aquilo servia para montadora e que obra era diferente. O passo a passo de implantação está em como implementar o Lean Construction.

KPIs na obra: a pirâmide invertida

Medir é a quinta camada no Lean Construction, a gestão de desempenho: como se mede o que foi feito, como são os diálogos na frente de obra e no administrativo, e como os indicadores sobem até a alta direção. O defeito comum é a diretoria pedir uma informação e a obra produzir outra. Aí “a obra, em vez de estar ocupada em fazer obra, está preocupada em fazer KPI e responder para o diretor o que o diretor quer ver”.

No Lean Construction, a resposta é estruturar KPIs que façam sentido da diretoria até o campo, com a lógica da pirâmide invertida, “onde a liderança está trabalhando para a obra e não a obra trabalhando para a liderança”.

Ele dá um exemplo concreto do que o executivo ganha ao sair de trás da cadeira, ainda que uma vez por mês, e ir ao chão de obra. Lá ele vê o projeto chegar em papel à frente de serviço, já desatualizado, com a equipe executando a versão antiga quando um QR Code resolveria. É o Gemba walk aplicado ao canteiro.

Por que a digitalização entra por último

Digitalizar fica para o fim, e de propósito. “Está na moda hoje digitalizar muita coisa”, diz Brian, mas sem processo definido “não adianta eu ter um robô que está fazendo uma pintura se a tinta não chega para o robô”.

Há um segundo motivo, menos óbvio, que vale no Lean Construction e fora dele. Quando o processo não é ponta a ponta, digitaliza-se só um trecho dele, e esse trecho passa a andar muito mais rápido que o resto. O resultado é um gargalo novo, e não um processo melhor.

A mesma lógica vale para a Indústria 4.0. Ele descreve uma escada: estabilizar o processo com Lean, reduzir os desperdícios, começar a gerar dado, conectar os dados e só então entrar com 4.0. “não adianta eu querer pular o degrau”, e “tem gente querendo botar a carroça na frente dos bois”. Num projeto de S&OP numa siderúrgica, a ideia inicial era instalar um software de ponta a ponta; a ordem certa era entender vendas, programação da produção, logística e inventário primeiro. O tema é aprofundado em por onde começar a Indústria 4.0.

A cultura é o calcanhar de Aquiles

Perguntado sobre as maiores dificuldades da jornada, Brian conta que no começo focava no processo, na metodologia e no fluxo de valor. Com o tempo, percebeu que “essa é só a ponta do iceberg”: é a parte simples. O obstáculo real no Lean Construction, em todos os projetos, é a postura da liderança perante a transformação.

O exemplo é de um cliente do setor imobiliário em que o planejamento takt reduziu o cronograma da obra de 36 meses para 22. Ainda assim, por mais que se mostrem resultados, dados e fatos, “se a liderança não estiver disposta e comprometida com aquilo, não adianta”.

A virada que ele procura é o executivo tombar a pirâmide e ir para onde se agrega valor. “É o executivo entender que se eu tenho uma construtora, quem agrega valor é o meu pedreiro”. Ir ao Gemba e desenvolver pessoas fazem parte do cargo, e “essa mudança de mindset, para mim, é o calcanhar de Aquiles”.

Júlio, que aplica Kaizen há mais de 22 anos, reforçou o ponto: a ferramenta dá velocidade e resultado financeiro, mas sem transformação cultural o ganho não se sustenta. É o mesmo diagnóstico de por que implantações de Lean fracassam.

O presidente como patrocinador: o caso de uma grande construtora

A conquista que mais marcou Brian foi a transformação de uma construtora de grande porte, em que ele foi um dos responsáveis pelo projeto. O que fez a diferença no Lean Construction daquela empresa foi o patrocínio: o presidente da empresa liderou a mudança do começo ao fim, ia ao Gemba com ele, estudava o conceito e convenceu as demais lideranças.

O contraste é com o que ele vê com frequência: a diretoria “contratar um projeto e deixar para a consultoria fazer. Eu acho que não existe isso”. Para ele, “a consultoria está ali para ajudar, para apoiar, para dar o primeiro push”; quem conduz é a liderança.

O programa durou três anos e passou por países e culturas diferentes. Na África, em alguns projetos a lei local impedia a empresa de fornecer almoço aos funcionários. A pergunta virou outra: “como é que você fala de produtividade se a mão de obra não pode almoçar?” Nenhuma ferramenta Lean resolve isso; foi preciso desenhar soluções locais.

Mesmo assim, uma obra de metrô e uma hidrelétrica pedem adaptações diferentes sobre a mesma base, porque “a coluna vertebral daquele sistema de excelência, ele é único”. E ele avisa que “todas as vezes, sem exceção, que eu fui num cliente, o cliente falou, não, mas aqui é diferente”. Somando desde as primeiras obras, a jornada daquela construtora chegou a 12 anos, com um time de excelência operacional de até 120 pessoas.

O teste do escritório de melhoria contínua

Esse time grande não é detalhe. Brian conta que, quando visita uma empresa e conversa com o presidente ou o diretor, pergunta se ele conhece Lean. A resposta costuma ser que conhece tudo. A pergunta seguinte é se a empresa tem um escritório de melhoria contínua. Se não tem, a conclusão dele é que a direção não conhece Lean.

Ele também encontra clientes que acham que não faz sentido ter nenhum multiplicador interno, e lê isso como falta de apetite pela mudança. Quem quer montar essa estrutura encontra o caminho em como estruturar a área de melhoria contínua.

No Lean Construction, o horizonte também precisa ser realista. A filosofia, primeiro dos quatro P's, é de longo prazo, e “não adianta achar que vai implementar o Lean em três, quatro, cinco meses, que já vai estar voando”. Quem espera isso, diz ele, nem deveria começar.

O que desenvolver para liderar uma obra Lean

No fim, Júlio pediu dicas para quem quer seguir carreira na área. A lista de Brian serve também para quem vai conduzir a mudança no Lean Construction:

  • Estudar a fundo: Lean não é caixa de ferramenta, são princípios; ele segue lendo pesquisas sobre o Last Planner feitas em vários países.
  • Resiliência: saber tudo de processo não basta sem paciência para explicar e fazer sentido para as pessoas.
  • Estar na obra: “Já fiz dezenas de workshops com pedreiro, com servente, com carpinteiro”.
  • Conhecer processo: “o Lean é processo na veia”, de onde começa a onde termina e quem conversa com quem.
  • Comunicar: “gostar de gente e comunicação”, da alta direção ao mestre de obras.

O terceiro item vem com uma história. Num workshop de assentamento de meio-fio, Brian viu duas pessoas carregando cada bloco e foi levantar um: eram 60 quilos. A primeira mudança foi no material, e não no método. O episódio fecha com a máxima atribuída a um presidente da Toyota: vá ver, pergunte por quê e demonstre respeito, sobretudo por quem está no chão de obra.

Ouça o episódio completo

A conversa completa entre Júlio Briales e Brian Miller está no episódio 23 do VoittoCast, no quadro Papo de Especialista. Também dá para ouvir no Spotify.

Perguntas frequentes

Qual é o papel da liderança no Lean Construction?
Querer e acreditar na mudança, explicar por que ela existe, desenvolver a equipe, dar o exemplo indo à obra e criar mecanismos de reforço, como governança, KPIs e bônus atrelado à transformação.
Quais são os quatro P's da Toyota?
Filosofia, com pensamento de longo prazo; processo, eliminando desperdício; pessoas e parceiros, com respeito a quem executa e fornece; e problem solving, a melhoria contínua.
O que é o efeito cebola no Lean Construction?
É começar pela obra, onde se agrega valor, e avançar por camadas: cada problema resolvido no canteiro revela o seguinte em suprimentos, engenharia, áreas de apoio e comercial.
Em que ordem as ferramentas Lean entram na obra?
Planejamento com Last Planner System, ritmo com takt time, workshops de produtividade, logística de abastecimento, gestão de desempenho com KPIs e, por último, a digitalização.
Por que digitalizar a obra só no fim?
Porque digitalizar um processo sem definição não resolve, e digitalizar só um trecho dele cria um gargalo novo. Primeiro se estabiliza o processo, depois se gera e se conecta o dado.
A consultoria pode conduzir a transformação sozinha?
Não. Para Brian Miller, a consultoria ajuda e dá o primeiro impulso, mas quem conduz é a liderança da empresa, como patrocinadora presente no dia a dia.
Quanto tempo leva uma mudança no Lean Construction?
Anos. Não se implanta Lean em três, quatro ou cinco meses; no caso citado no episódio, a jornada já soma 12 anos.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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