Metodologias & Qualidade

Planilha de capabilidade: Cp, Cpk e como ler

Um caso de 40 medidas de torque calculado do começo ao fim: carta de controle antes do índice, os dois sigmas, Cp de 1,312 contra Cpk de 0,954, a conversão em ppm e o laudo de uma página.

Thiago Coutinho
Publicado em 25 de set de 2026  ·  Atualizado em 25 de set de 2026  ·  17 min de leitura

Uma planilha de capabilidade devolve quatro números em segundos e é por isso que ela erra tanto. O cálculo é trivial: quatro divisões. O difícil é tudo que precisa estar verdadeiro antes da primeira divisão, e nada disso a planilha checa sozinha.

Capabilidade compara a dispersão real do processo com a faixa que a especificação permite. Se o processo não estiver estável, essa comparação não tem objeto: não existe uma dispersão única a comparar, existe uma mistura de várias, e o índice resultante muda de valor a cada nova coleta sem que nada tenha mudado no chão de fábrica.

Você vai ver o que verificar antes de calcular, a diferença entre sigma dentro e sigma global e o que a distância entre Cp e Cpk revela sobre centralização. Depois, quando usar Pp e Ppk, a estrutura da planilha aba por aba, o teste de normalidade, a conversão de índice em ppm e de onde saem os patamares de 1,33 e 1,67.

O fio condutor é um caso de aperto de parafuso com 40 medidas, especificação de 18,0 a 22,0 Nm, carta de controle aprovada, Cp de 1,312 e Cpk de 0,954. Todos os índices estão calculados no texto, com os valores intermediários à vista, para conferência.

Os números deste artigo foram montados para ele, no formato do Kit Lean Seis Sigma da Voitto. São ilustrativos e internamente consistentes: os 40 valores, as cartas, os dois sigmas, os quatro índices e as conversões em ppm fecham entre si, e não descrevem uma linha real.

O que a capabilidade compara, e o que ela não compara

Capabilidade é uma razão entre duas coisas de naturezas diferentes. No numerador está a faixa de especificação, uma decisão de engenharia ou de contrato: alguém escreveu que o torque fica entre 18,0 e 22,0 Nm. No denominador está a dispersão real do processo, um fato medido. O índice pergunta quantas vezes a variação natural cabe na janela permitida.

Por isso capabilidade não é conformidade. Um lote pode sair 100% dentro da especificação e ter índice ruim, porque o índice projeta o processo, não audita as peças que já saíram. O contrário também acontece, quando a amostra do cálculo não representa a produção.

A faixa de especificação nunca é calculada a partir do processo. Se alguém abre o limite porque o processo não alcança, o índice sobe sem que nada tenha mudado na máquina. Esse é o jeito mais rápido de transformar uma análise de capabilidade em teatro.

O pré-requisito que quase todo mundo ignora

A planilha de capabilidade só produz número com sentido se o processo estiver estável. Estável quer dizer que a variação vem apenas de causas comuns, sem deslocamentos de média, tendências ou picos de dispersão dentro da janela medida.

A razão é matemática, não doutrinária. Cp e Cpk projetam uma taxa de defeito futura a partir de uma distribuição única, com uma média e um desvio-padrão. Se o processo teve três médias no período, não existe uma distribuição: existem três, e a mistura tem uma forma que nenhuma fórmula do índice reconhece.

O sintoma clássico é o índice que muda de valor toda semana sem nenhuma alteração no processo. Não é o processo que oscila: é o cálculo aplicado sobre uma base que não atende à premissa.

A ordem correta é medir, estabilizar e só então calcular. Invertida, ela gera um número que parece rigoroso, carrega três casas decimais e não sustenta decisão nenhuma. É o erro mais caro do controle estatístico de processo aplicado por planilha.

Como verificar a estabilidade antes de calcular

A verificação é uma carta de controle nos mesmos dados que vão alimentar o índice. Para dado contínuo em subgrupos, a carta é a X-barra e R. Para medida individual, a carta é a I-MR. Nada além disso é necessário como porta de entrada.

Os limites da carta não são a especificação. Eles saem da própria variação do processo, pela amplitude média dos subgrupos. Colocar limite de especificação em carta de controle é um erro que invalida a leitura.

Os testes mínimos antes de liberar o cálculo:

  • nenhum ponto fora dos limites de controle, nas duas cartas;
  • nenhuma sequência de sete ou mais pontos do mesmo lado da linha central;
  • nenhuma tendência de sete ou mais pontos subindo ou descendo;
  • a carta R estável antes da carta X-barra, porque limite de média calculado sobre dispersão instável já nasce errado.

Se algum teste reprova, o caminho não é calcular assim mesmo com ressalva no rodapé, e sim identificar a causa especial, tratar e recoletar. A folha de verificação da coleta precisa registrar turno, operador, lote e ferramenta, porque é nesses campos que a causa especial costuma estar.

O caso do artigo: 40 medidas de torque e a carta que libera o cálculo

O exemplo é o aperto de um parafuso em linha de montagem, com especificação de 18,0 a 22,0 Nm, alvo em 20,0 Nm e tolerância total de 4,0 Nm.

A coleta foi de 10 subgrupos de 4 peças consecutivas, um subgrupo por hora, em um turno. Peça consecutiva é escolha deliberada: o subgrupo captura a variação de curto prazo e deixa a variação entre horas aparecer na diferença entre subgrupos.

SubgrupoValor 1Valor 2Valor 3Valor 4MédiaAmplitude
121,0121,4421,3320,6421,1050,80
221,3320,7721,0021,2221,0800,56
319,9120,7619,8119,8920,0930,95
420,4420,7120,0020,6620,4530,71
520,1919,6121,3020,0420,2851,69
619,8719,2720,5221,1120,1921,84
720,8920,3720,4920,3820,5320,52
820,5521,1019,9820,0720,4251,12
920,3021,1420,1119,7020,3121,44
1020,6520,7221,4821,0620,9770,83

A média geral é 20,5455 Nm e a amplitude média é 1,0460 Nm. Nenhuma das 40 peças ficou fora da especificação: o mínimo foi 19,27 e o máximo 21,48. Guarde esse detalhe, porque ele vai contradizer o índice mais adiante.

Antes de qualquer índice, a carta X-barra e R. Com subgrupo de 4, as constantes são A2 igual a 0,729, D4 igual a 2,282 e D3 igual a zero.

CartaLimite inferiorLinha centralLimite superior
X-barra19,78320,54621,308
R01,0462,387

As dez médias variam de 20,093 a 21,105 e as dez amplitudes de 0,52 a 1,84, todas dentro dos limites. Não há sequência de sete pontos do mesmo lado nem tendência de sete pontos.

O processo está estável. Isso autoriza o cálculo e já entrega uma informação desconfortável: a linha central em 20,546 está 0,546 Nm acima do alvo, e essa diferença é sistemática. O processo é previsível naquilo que faz de errado.

Sigma dentro e sigma global: duas contas para a mesma nuvem

A planilha de capabilidade calcula dois desvios-padrão diferentes sobre os mesmos 40 números, e é aqui que a maioria das discussões se perde.

O sigma dentro, ou de curto prazo, mede só a variação interna dos subgrupos: R-barra dividido por d2, com d2 igual a 2,059 para subgrupo de 4. No caso, 1,0460 dividido por 2,059 dá 0,5080 Nm.

O sigma global, ou de longo prazo, é o desvio-padrão amostral dos 40 valores como conjunto único, ignorando os subgrupos. No caso, 0,5661 Nm.

A diferença entre os dois não é arredondamento. O sigma global inclui o quanto a média se desloca de hora em hora; o sigma dentro exclui essa parcela por construção.

A razão entre eles é o diagnóstico: 0,5661 dividido por 0,5080 dá 1,114. O processo tem 11% mais dispersão no período inteiro do que dentro de uma hora. Se essa razão passar de 1,3, há variação entre subgrupos grande o bastante para merecer investigação própria, geralmente ligada a setup, turno ou lote de material.

Cp: o que a tolerância comporta

Cp é a tolerância dividida por seis vezes o sigma dentro. No caso: 4,0 dividido por 6 vezes 0,5080, o que dá 1,312.

O índice responde a uma pergunta única e restrita: se o processo estivesse perfeitamente centrado no meio da faixa, quantas vezes a largura natural caberia na tolerância? Um Cp de 1,312 diz que a faixa de especificação é 31% mais larga do que a variação de seis sigma do processo.

Cp ignora onde a distribuição está. Se a média fosse 18,5 ou 21,5, com a mesma dispersão, o Cp continuaria 1,312. É um índice de potencial, e o nome correto para ele é esse: capabilidade potencial.

Isso torna o Cp inútil sozinho e valioso em par. Em par com o Cpk, ele separa dois problemas de ações opostas: largura demais pede redução de variação, deslocamento pede ajuste de ponto de operação.

Cpk e o que a distância para o Cp revela

Cpk mede a distância da média até o limite mais próximo, em unidades de três sigma. Ele é o menor entre dois valores:

  • Cpu, que é o limite superior menos a média, dividido por três vezes o sigma dentro: (22,0 menos 20,5455) dividido por 1,5240, ou 0,954;
  • Cpl, que é a média menos o limite inferior, dividido por três vezes o sigma dentro: (20,5455 menos 18,0) dividido por 1,5240, ou 1,670.

O Cpk é 0,954, o menor dos dois. E a leitura mais informativa da planilha de capabilidade não é o valor isolado: é a distância entre 1,312 e 0,954.

Quando Cp e Cpk são iguais, o processo está centrado no meio da faixa. Quando o Cpk é menor, existe descentralização, e o tamanho da diferença mede quanto. A conta direta é o índice k: o deslocamento de 0,5455 Nm dividido pela metade da tolerância, que é 2,0, resulta em 0,273. O processo consumiu 27,3% da folga só com o desvio de centro.

Isso separa a conversa. Reduzir a dispersão em 28% é um projeto de meses, provavelmente um ciclo DMAIC inteiro. Mover a média de 20,5455 para 20,0 pode ser uma calibração de torquímetro na próxima parada. Trocar o alvo é o que transforma um Cpk de 0,954 num Cpk igual ao Cp, 1,312, sem tocar na variação.

Pp e Ppk: a mesma conta com o outro sigma

Pp e Ppk usam as fórmulas de Cp e Cpk, trocando o sigma dentro pelo sigma global. Não há nenhuma outra diferença.

ÍndiceFórmulaValor no caso
Cptolerância / (6 x sigma dentro)1,312
Cpkmin(Cpu, Cpl) com sigma dentro0,954
Pptolerância / (6 x sigma global)1,178
Ppkmin(Ppu, Ppl) com sigma global0,856
Cpmconsidera distância até o alvo0,848

Os índices de performance são sempre menores ou iguais aos de capabilidade, porque o sigma global é maior ou igual ao sigma dentro. Quando Pp e Cp coincidem, não há variação relevante entre subgrupos.

O que o par de baixo entrega é a experiência do cliente, que recebe peças do período inteiro e não de uma hora específica. Ppk de 0,856 é o que a produção apresentou no turno. Já o Cpm entra quando o alvo importa mais que o centro da faixa, e penaliza o afastamento do alvo mesmo dentro da especificação.

Quando usar cada par

A escolha depende da pergunta e do momento, não de gosto.

SituaçãoPar a usarPor quê
Estudo inicial, poucos lotes, processo novoPp e PpkAinda não há histórico para separar curto de longo prazo
Processo em série, estável, com subgruposCp e CpkO sigma dentro isola o potencial da máquina
Aprovação de peça junto ao clienteAmbosManuais de PPAP pedem os quatro índices
Diagnóstico de causa de variaçãoAmbosA diferença entre os pares localiza o problema
Medida individual, sem subgrupoPp e PpkSem subgrupo, o sigma dentro depende da amplitude móvel

A regra prática que resolve quase todos os casos: reporte os quatro. Cp e Cpk dizem o que o processo consegue no melhor dos seus momentos, Pp e Ppk dizem o que ele entregou. A diferença entre os pares é a oportunidade que está em estabilidade, não em tecnologia. No caso do torque, Cpk 0,954 contra Ppk 0,856 é pouco: o problema real está na distância entre Cp e Cpk.

A estrutura da planilha, aba por aba

Uma planilha de capabilidade que funciona separa entrada, verificação e resultado. Misturar os três numa aba só é o que produz planilha que ninguém audita seis meses depois.

  1. Aba de dados brutos: uma linha por medida, com colunas de data, hora, turno, operador, máquina, lote e valor. Nada de fórmula aqui.
  2. Aba de parâmetros: limite inferior, limite superior, alvo, unidade, tamanho do subgrupo e a constante d2 correspondente. Um lugar só para mudar tudo.
  3. Aba de estabilidade: as cartas X-barra e R, com os limites calculados e os testes de sequência marcados por fórmula condicional.
  4. Aba de normalidade: o histograma, o gráfico de probabilidade e a estatística do teste com o valor-p.
  5. Aba de índices: Cp, Cpu, Cpl, Cpk, Pp, Ppu, Ppl, Ppk, os dois sigmas e a conversão para ppm.
  6. Aba de laudo: uma tela para imprimir, com os quatro índices, a conclusão e a data da coleta.

Dois travamentos evitam a maior parte dos erros. O primeiro bloqueia o cálculo dos índices enquanto a aba de estabilidade estiver reprovando, exibindo a mensagem no lugar do número. O segundo tranca os limites de especificação com senha, porque a tentação de arredondar a especificação aparece justamente quando o índice sai abaixo do combinado.

O histograma da aba de normalidade não é enfeite: é o único lugar onde bimodalidade e truncamento aparecem antes de o índice mentir.

O teste de normalidade e o que ele decide

A conversão de índice em taxa de defeito assume distribuição normal. Se a premissa falha, o índice continua calculável e a previsão de ppm deixa de valer.

O teste usual em planilha é o de Anderson-Darling, mais sensível nas caudas, que é onde a previsão de defeito acontece. Nos 40 valores do caso, a estatística A-quadrado ajustada deu 0,336, com valor-p aproximado de 0,51: não há evidência contra a normalidade, e o cálculo segue.

Três cuidados na leitura do teste:

  • valor-p alto não prova normalidade, apenas não fornece evidência contra ela, e com 40 pontos o teste tem pouco poder;
  • com amostra muito grande, acima de 500 pontos, o teste reprova desvios pequenos e irrelevantes para a decisão;
  • o teste deve rodar sobre dados de processo estável, porque mistura de duas médias reprova normalidade sem que a distribuição subjacente seja não normal.

Por isso o teste nunca decide sozinho. Decide junto com o histograma e o gráfico de probabilidade, onde o padrão do afastamento da reta diz mais que o número: curvatura indica assimetria, formato de S indica cauda pesada.

O que fazer quando o dado não é normal

A primeira pergunta não é qual transformação usar, e sim se a não normalidade é natural da característica ou sintoma de um problema. Planeza, circularidade, rugosidade e tempo de ciclo são naturalmente assimétricas: têm limite físico em zero e cauda só de um lado. Nesses casos, forçar a normal é o erro.

  • Mistura de populações, quando duas máquinas ou dois lotes entram na mesma amostra: separar e analisar cada uma, nunca transformar.
  • Truncamento por inspeção, quando peças fora do limite foram retiradas antes da medição: o dado está corrompido na origem e nenhuma técnica recupera.
  • Resolução insuficiente do instrumento, com poucos valores distintos: o histograma vira pente e o teste reprova por discretização.
  • Assimetria genuína da característica: aí sim vale transformação ou distribuição alternativa.

Há duas saídas técnicas. A primeira é a transformação de Box-Cox ou de Johnson: normaliza o dado e permite usar as fórmulas de sempre, com os limites de especificação transformados junto. A segunda é o método dos percentis de uma distribuição ajustada, como Weibull ou lognormal, em que o Ppk sai da distância entre a mediana e os percentis 0,135% e 99,865%.

Nas duas, o laudo precisa declarar a distribuição e o método. Ppk de Weibull e Ppk normal não são comparáveis, e misturar os dois na mesma série histórica é um erro que passa despercebido.

De Cpk para ppm: a tabela de conversão

O índice vira taxa de defeito pela área da cauda da normal. A distância da média até o limite é três vezes o Cpk em desvios-padrão, e a fração além desse ponto é a proporção esperada fora.

CpkSigma até o limiteppm em uma caudappm total se centradoRendimento
0,672,0122.21644.43195,56%
1,003,001.3502.70099,73%
1,333,99336699,993%
1,504,503,46,899,9993%
1,675,010,270,5499,99995%
2,006,000,0010,00299,9999998%

A coluna de uma cauda vale para especificação unilateral e para processo descentrado, em que a cauda oposta é desprezível. A coluna de total centrado dobra o valor, porque as duas caudas contribuem igual.

No caso do torque, o Cpk de 0,954 projeta 2.098 ppm pela cauda superior e 0,27 ppm pela inferior, totalizando cerca de 2.098 peças ruins por milhão. Pelo Ppk de 0,856, a projeção sobe para 5.096 ppm, ou 0,51% da produção.

Aqui está o ponto que o turno contradiz: nenhuma das 40 peças ficou fora da faixa. Não há contradição real. Com 5.096 ppm esperados, a chance de encontrar uma peça ruim em 40 é de cerca de 18%. A amostra pequena não consegue ver o que o índice projeta, e é exatamente por isso que o índice existe.

De onde vêm 1,33 e 1,67

Os dois valores não são convenção arbitrária, e também não são lei. Eles são a tradução de uma distância em desvios-padrão.

Cpk de 1,33 coloca o limite de especificação a quatro sigmas da média, porque 3 vezes 1,33 é aproximadamente 4. Isso projeta 33 ppm em uma cauda. Cpk de 1,67 coloca o limite a cinco sigmas e projeta 0,27 ppm. O salto de 1,33 para 1,67 reduz a taxa esperada por um fator de 120.

Os patamares correntes na indústria:

ValorUso típicoOrigem
1,00Mínimo teóricoLimite a três sigmas, 2.700 ppm
1,33Processo em série já aprovadoQuatro sigmas, padrão de manuais automotivos
1,67Característica crítica de segurançaCinco sigmas, exigência de cliente
2,00Meta de projeto Seis SigmaSeis sigmas, base do conceito de nível sigma

A ligação com Lean Seis Sigma passa pelo Cp de 2,00, seis sigmas de cada lado. A taxa de 3,4 ppm não sai desse cálculo direto: assume um deslocamento de 1,5 sigma na média ao longo do tempo, equivalente a Cpk de 1,5 com Cp de 2,0.

Em estudo inicial de aprovação, é comum o cliente exigir Ppk de 1,67 e, com a produção estabilizada, aceitar Cpk de 1,33 na rotina. O valor que vale é o do contrato, não o do livro.

Especificação unilateral

Muita característica tem só um limite. Resistência de solda tem mínimo e nenhum máximo útil; concentricidade, rugosidade e vazamento têm máximo e um zero natural embaixo. Nesses casos, Cp e Pp não existem, porque não há tolerância total: existem apenas Cpu ou Cpl, e o Cpk é igual ao que existir.

  • Especificação só com limite superior: Cpk igual a Cpu, que é o limite superior menos a média dividido por três sigmas.
  • Especificação só com limite inferior: Cpk igual a Cpl, que é a média menos o limite inferior dividido por três sigmas.
  • A conversão para ppm usa apenas a cauda correspondente, ou seja, a coluna de uma cauda da tabela anterior.

O erro frequente é a planilha inventar um limite espelhado para manter a fórmula bilateral, em geral colocando zero como limite inferior. Isso produz um Cp e uma cauda inferior sem significado físico, e infla o resultado.

O segundo erro é aplicar a normal em característica com zero natural, que quase sempre é assimétrica. Rugosidade e vazamento pedem verificação de distribuição antes de qualquer conversão para ppm, e costumam terminar em ajuste de lognormal.

O erro de calcular capabilidade em processo fora de controle

Suponha que os mesmos 40 valores tivessem vindo de duas condições: 20 peças com média 20,0 e 20 peças com média 21,1, por troca de ferramenta no meio do turno.

O desvio-padrão global incorpora o salto de 1,1 Nm entre as condições e cresce, então o Ppk despenca. O sigma dentro continua pequeno, porque cada subgrupo veio de uma condição só, e o Cpk quase não se mexe.

O resultado é Cpk aprovado com Ppk reprovado e nenhuma explicação na planilha, porque o cálculo trata a mistura como distribuição única. A distribuição real tem dois picos e a conversão em ppm sobre ela não descreve nada.

Três consequências de calcular assim:

  • o número não se reproduz, e a nova coleta na semana seguinte dá outro valor sem nenhuma mudança no processo;
  • a ação corretiva mira a dispersão quando o problema é deslocamento, e gasta meses em um projeto que não resolve;
  • o índice reportado ao cliente não descreve a produção, e a primeira reclamação de campo derruba a credibilidade da série inteira.

É por isso que o plano de controle define a frequência de recoleta e o gatilho de reanálise: capabilidade tem validade, e ela vence a cada mudança de máquina, material, método ou instrumento.

Quantos dados a planilha precisa

O índice é uma estimativa, e estimativa tem incerteza. Essa é a coluna que nenhuma planilha de capabilidade traz e que muda a conversa.

Com os 40 valores do caso e Cpk de 0,954, o intervalo de confiança de 95% vai de 0,72 a 1,19: não dá para afirmar se o processo está em 0,7 ou em 1,2. Com 125 valores e a mesma estimativa pontual, o intervalo estreita para 0,82 a 1,09, faixa de diagnóstico que já sustenta um laudo de aprovação.

A referência para estudo de aprovação é de no mínimo 25 subgrupos de 5, ou 125 medidas, num período que inclua a variação normal de turno, lote e operador. Coleta de uma hora só mede uma hora, por melhor que seja a planilha. E quando o Cpk exigido é 1,33 e o estimado é 1,30 com 40 pontos, não há diferença detectável: a decisão certa é aumentar a amostra, não negociar o índice.

Como apresentar o resultado

O laudo de uma análise de capabilidade cabe em uma página, sempre nesta ordem:

  1. Identificação: característica, especificação, unidade, instrumento e o resultado do estudo de sistema de medição.
  2. Período e composição da amostra: quantas peças, quantos subgrupos, quais turnos e lotes.
  3. Evidência de estabilidade: as duas cartas, com a declaração de que nenhum teste reprovou.
  4. Evidência de normalidade: histograma, valor-p do teste e a distribuição adotada.
  5. Os quatro índices, com os dois sigmas explícitos e o intervalo de confiança do Cpk.
  6. A conversão em ppm e a conclusão em uma frase, com a ação decorrente e o responsável.

A conclusão do caso do torque sairia assim. O processo está estável e normal, com Cp de 1,312 e Cpk de 0,954: dispersão adequada, média deslocada 0,55 Nm acima do alvo. Centrar a média eleva o Cpk projetado a 1,312 e reduz a taxa esperada de 2.098 para 83 ppm, sem nenhuma redução de variação.

Esse é o formato que decide alguma coisa: nomeia a ação, dimensiona o ganho e não depende de o leitor saber interpretar índice. A priorização entre características reprovadas sai de um diagrama de Pareto por ppm projetado, não por quem reclamou mais alto.

Quando a característica é crítica e o Cpk fica abaixo do exigido sem correção rápida, a saída provisória é inspeção 100% registrada no plano de controle e revisão do FMEA para elevar a detecção, até que a capabilidade volte ao patamar. Provisório com data, não permanente por inércia.

Perguntas frequentes

O que uma planilha de capabilidade calcula?
Ela compara a dispersão do processo com a faixa de especificação e devolve Cp, Cpk, Pp e Ppk, mais a conversão desses índices em peças ruins por milhão. O Cp usa a tolerância total sobre seis vezes o sigma de curto prazo; o Cpk usa a distância da média até o limite mais próximo sobre três sigmas. Pp e Ppk repetem as duas contas com o sigma de longo prazo.
Preciso mesmo verificar estabilidade antes de calcular Cp e Cpk?
Sim, e é o passo que mais se pula. Os índices projetam uma taxa de defeito a partir de uma distribuição única, com uma média e um desvio-padrão. Se o processo teve deslocamentos de média no período, existem várias distribuições misturadas e nenhuma fórmula reconhece isso. O sintoma é o índice que muda toda semana sem nenhuma mudança no processo.
Qual a diferença entre sigma dentro e sigma global?
O sigma dentro mede só a variação interna dos subgrupos, e sai da amplitude média dividida por d2, que é 2,059 para subgrupo de 4. O sigma global é o desvio-padrão dos dados todos juntos e inclui também a variação entre subgrupos. No caso do artigo deram 0,5080 e 0,5661, uma razão de 1,114. Razão acima de 1,3 indica variação entre subgrupos que merece investigação separada.
O que significa Cp alto e Cpk baixo?
Significa que a dispersão cabe na tolerância mas a média está deslocada. No caso do artigo, Cp de 1,312 com Cpk de 0,954: o processo tem largura suficiente e opera 0,55 Nm acima do alvo. A ação é mover o ponto de operação, não reduzir variação. Só centrar a média levaria o Cpk a 1,312 e a taxa esperada de 2.098 para 83 ppm.
Quando usar Cp e Cpk e quando usar Pp e Ppk?
Cp e Cpk em processo em série, estável e com subgrupos, porque o sigma dentro isola o potencial da máquina. Pp e Ppk em estudo inicial, processo novo ou medida individual, e sempre que a pergunta for o que o cliente recebeu no período. Em aprovação de peça, os manuais pedem os quatro. A diferença entre os pares mede o tamanho da oportunidade que está em estabilidade.
Quantos dados a planilha de capabilidade precisa?
Para laudo de aprovação, a referência é no mínimo 25 subgrupos de 5, ou 125 medidas, cobrindo a variação normal de turno, lote e operador. Com 40 medidas e Cpk estimado em 0,954, o intervalo de confiança de 95% vai de 0,72 a 1,19, largo demais para aprovar ou reprovar. Com 125 medidas, o mesmo Cpk estreita para 0,82 a 1,09.
Como converter Cpk em ppm?
A distância até o limite é três vezes o Cpk em desvios-padrão, e a fração da normal além desse ponto é a taxa esperada. Cpk 1,00 dá 1.350 ppm em uma cauda, 1,33 dá 33 ppm, 1,67 dá 0,27 ppm. Em processo centrado com especificação bilateral, some as duas caudas. A conversão só vale se o dado for normal.
De onde vêm os valores 1,33 e 1,67?
São distâncias em sigma traduzidas em índice. Cpk 1,33 coloca a especificação a quatro sigmas da média, com 33 ppm projetados por cauda. Cpk 1,67 coloca a cinco sigmas, com 0,27 ppm. O salto entre os dois reduz a taxa esperada por um fator de 120. O 1,33 virou padrão de rotina em manuais automotivos e o 1,67 é comum em característica crítica de segurança.
E quando os dados não são normais?
Primeiro descubra se a assimetria é natural da característica, como em planeza, rugosidade e tempo de ciclo, ou se é mistura de populações, truncamento por inspeção ou resolução insuficiente do instrumento. Mistura se resolve separando, truncamento não se resolve. Se a assimetria for genuína, use transformação de Box-Cox ou Johnson, ou o método dos percentis com Weibull ou lognormal, e declare a distribuição no laudo.
Como calcular Cpk em especificação unilateral?
Com só um limite, Cp e Pp não existem, porque não há tolerância total. O Cpk é igual ao Cpu se houver apenas limite superior, ou ao Cpl se houver apenas limite inferior, e a conversão para ppm usa apenas a cauda correspondente. Não invente um limite espelhado em zero para a fórmula bilateral funcionar: isso infla o resultado e cria uma cauda sem significado físico.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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