Metodologias & Qualidade

Case de 5S na indústria alimentícia: 20 semanas e os números

Uma fábrica de misturas secas de 1.240 m² contada senso a senso: 1.106 cartões vermelhos, código de cor por área, segregação de alergênico, custo de R$ 114.924 e a fronteira entre 5S e Boas Práticas de Fabricação tratada de frente.

Thiago Coutinho
Publicado em 25 de set de 2026  ·  Atualizado em 25 de set de 2026  ·  16 min de leitura

Fábrica de alimentos é o lugar onde o 5S encontra a resistência mais bem fundamentada que existe. A equipe já cumpre Boas Práticas de Fabricação, já preenche checklist de higienização e já recebe auditoria de certificação. A primeira pergunta é sempre a mesma: isso não é mais do mesmo?

Este case de 5S na indústria alimentícia é o relato de uma fábrica de misturas secas com 1.240 m², quatro linhas de envase, 38 SKUs e 186 pessoas. O ponto de partida foi 23 não conformidades de certificação e 68 minutos de setup entre lotes.

Ao fim de 20 semanas de programa e 12 meses de medição, o setup caiu para 41 minutos, as não conformidades para nove, e a nota de auditoria de 5S subiu de 41 para 84. O custo foi de R$ 114.924 e o retorno recorrente foi de R$ 121.608 no ano.

Você vai ver a fronteira entre 5S e BPF tratada de frente, o código de cor por área com a segregação de alergênico, os 1.106 cartões vermelhos, a queda de nove pontos no oitavo mês e as três coisas que não deram certo.

Sobre a procedência dos números: este é um caso composto, construído para este artigo no formato dos kits da Voitto. Os valores são internamente consistentes e foram conferidos entre as tabelas e o texto. Não é o relato de um cliente nomeado e não descreve uma planta real.

A fábrica, as quatro linhas e o que doía

A fábrica é de misturas secas: pó para bolo, sopa desidratada, tempero e canjica. São 1.240 m², quatro linhas de envase, 38 SKUs ativos, 186 pessoas em três turnos e 640 toneladas por mês.

O que abriu o caso foi o relatório da auditoria de certificação do ano anterior, com 23 não conformidades, sendo quatro maiores. Três apontavam para a mesma coisa: utensílio sem local definido circulando entre áreas de alergênico e não alergênico.

O segundo incômodo era de produção. A troca de SKU entre lotes levava 68 minutos em média, medidos em 32 setups cronometrados. Com 220 trocas por mês nas quatro linhas, o setup consumia 249 horas das 1.760 horas programadas, ou 14,2% do tempo disponível.

O terceiro era desperdício de embalagem. A perda de bobina, rótulo e saco por componente trocado ou arte vencida chegava a R$ 9.750 por mês, 3,0% de um consumo de R$ 325.000. Nenhum dos três problemas tinha dono.

"Isso não é BPF de novo?": a resistência que veio antes do programa

A primeira reunião com os líderes de linha terminou com a mesma frase repetida por três pessoas. A fábrica já cumpre Boas Práticas de Fabricação, já tem checklist de higienização, já tem inspeção diária. O 5S seria mais um formulário sobre os que já existem.

A objeção era boa, e não era preguiça. A equipe fazia duas caminhadas de verificação por mês, uma de BPF e uma de 5S, com dois formulários e itens repetidos. Metade daquilo era assinatura duplicada.

Quem defende programa novo nesse cenário precisa mostrar que vai tirar papel, não colocar. A resposta veio como compromisso numérico na mesma reunião: ao fim das 20 semanas haveria uma caminhada só, e o tempo do líder cairia de 3 horas e 20 minutos para menos de 2.

Esse é o ponto de partida de qualquer programa de 5S em fábrica de alimentos. A equipe não resiste à organização, resiste à duplicação de registro, e tem razão.

5S não substitui BPF nem HACCP: onde cada um manda

Esta é a tese central deste case de 5S na indústria alimentícia, e vale declarar antes de qualquer senso. O 5S organiza o trabalho. As Boas Práticas de Fabricação são requisito sanitário. O HACCP controla perigo em ponto crítico. Confundir os três é o erro mais comum do setor.

A confusão tem duas direções e as duas são caras. Achar que o 5S substitui a BPF produz fábrica arrumada e fora de conformidade. Achar que cumprir BPF dispensa 5S produz fábrica conforme e lenta.

Dimensão5SBPF
NaturezaPrograma de organização do trabalhoRequisito sanitário
OrigemDecisão da empresaLegislação e norma de certificação
O que exigeCritério de descarte, local definido, padrão visual, auditoriaControle de perigo, higienização, alergênico, rastreabilidade
Quem cobraAuditoria interna do próprio programaÓrgão fiscalizador e auditor de certificação
Se não cumprirPerda de desempenho, retrabalho, atrasoNão conformidade, interdição, recolhimento
Pode ser adaptado pela área?Sim, pela equipe da linhaNão, só pela área técnica da qualidade
Relação entre elesSustenta o cumprimento da BPF no dia a diaDefine o mínimo que o 5S não pode violar

A regra operacional que saiu dessa tabela tem uma linha. Onde existe requisito regulado, o 5S apoia o cumprimento e melhora o tempo de execução, mas não decide nada. Onde não existe, a área decide. A metodologia 5S não é norma, e o recorte do que é norma está em sistema de gestão da qualidade.

A linha de base e o cronograma de 20 semanas

A auditoria de linha de base usou um checklist de 25 itens, cinco por senso, de 0 a 4, com teto de 100. A fábrica tirou 41. A nota veio de dois auditores de fora da produção, com foto de cada item que perdeu ponto.

Junto dela vieram três números que nenhuma medição posterior reconstruiria: 68 minutos de setup em 32 cronometragens, 412 utensílios inventariados com a área de uso de cada um, e a perda de embalagem de três meses fechados.

EtapaSemanasO que foi feitoEntregável
Preparação e linha de base1 a 2Cronoanálise de 32 setups e inventário de utensíliosNota 41 e mapa de utensílio por área
Seiri3 a 5Cartão vermelho com critério escrito antes1.106 cartões com destino registrado
Seiton6 a 10Código de cor por área, painéis e carrinho de setup426 utensílios endereçados
Seiso11 a 13Mutirão de 396 horas e etiquetagem de anomalia214 anomalias, 63 reclassificadas como BPF
Seiketsu14 a 16Padrão visual por linha e checklist diário11 padrões afixados
Shitsuke17 a 20Checklist único de 43 itens e rodízio de auditorAuditoria integrada mensal

O cronograma seguiu o formato de plano mestre do 5S, com data por senso e responsável nomeado. Nenhuma etapa avançou sem a anterior fechada, e só o Seiton estourou prazo, por causa da entrega dos painéis. A medição continuou por 12 meses depois da estabilização.

Onde os 68 minutos de setup se perdiam

A cronoanálise decompôs o setup em cinco elementos, medidos nas quatro linhas e nos três turnos. O relógio ia da última embalagem boa do lote anterior à primeira do lote seguinte.

Elemento do setupAntes (min)Depois (min)Diferença
Procura de ferramenta e gabarito113-8
Procura de componente de embalagem133-10
Troca mecânica e ajuste2218-4
Limpeza de troca e liberação1612-4
Conferência e registro65-1
Total6841-27

Vinte e quatro dos 68 minutos eram procura pura, 35,3% do setup. Foi esse número que justificou o programa para a diretoria.

Os 24 minutos caíram para 6, queda de 75%. Os outros 9 minutos de ganho vieram da sequência escrita de troca, que é trabalho padronizado e não 5S. Vale separar as contribuições para não atribuir ao 5S o que não é dele.

O total foi de 68 para 41 minutos, queda de 39,7%. Multiplicado por 220 trocas mensais, dá 5.940 minutos, ou 99 horas por mês.

Seiri: o critério escrito antes e os 1.106 cartões

A campanha de cartão vermelho durou nove dias e cobriu a área produtiva inteira, incluindo expedição e sala de utensílios. Foram etiquetados 1.106 itens: utensílio, ferramenta, peça de máquina e componente de embalagem parado.

O critério foi escrito e aprovado pela qualidade antes do primeiro cartão. Isso importa mais em alimento do que em outro setor: descarte de material com identificação impressa tem regra própria e não se decide no corredor.

  • utensílio fora da especificação de contato com alimento, sem exceção;
  • item sem movimentação em 12 meses, prazo curto por causa do giro de SKU;
  • componente de embalagem de SKU descontinuado ou com arte vencida;
  • peça de máquina sem equipamento correspondente na planta.
DestinoItensObservação
Descarte418Utensílio trincado, madeira, plástico quebradiço
Devolução ao almoxarifado central262Item de uso de outra área da planta
Realocação interna173Item certo no lugar errado
Quarentena de 60 dias141Sem consenso na etiquetagem
Baixa de componente de embalagem112Rótulo e filme de SKU descontinuado
Total etiquetado1.106-

Dos 141 itens em quarentena, 104 saíram ao fim dos 60 dias e 37 voltaram ao uso. A quarentena impede que o Seiri vire julgamento sumário, o modo mais rápido de perder a equipe no primeiro senso.

Seiri: descarte com rastreabilidade e os 55 utensílios fora de especificação

Os 112 componentes baixados eram 1.940 kg de rótulo e filme impresso, com número de registro e informação de alergênico na arte. Material assim não vai para a caçamba. Precisa de destruição documentada, com certificado de quem executa.

O cartão vermelho de cada item registrava o SKU, o número da arte, a quantidade em quilos e o motivo da baixa. A pilha de certificados virou anexo do relatório do Seiri, e foi exatamente isso que o auditor de certificação pediu no ano seguinte.

Embalagem impressa extraviada é risco de rotulagem errada em outro lote, e é por isso que o descarte aqui é evento rastreável. O valor baixado foi de R$ 38.600 em componentes obsoletos. Esse número não é ganho do programa: é o tamanho do erro que o estoque escondia.

Entre os 418 descartes havia 55 utensílios que já eram não conformidade de BPF antes do 5S começar: 31 de madeira e 24 de plástico trincado, ambos proibidos em contato com alimento. Ninguém tinha olhado para eles porque estavam no lugar de sempre.

Seiton: o código de cor por área e os 426 utensílios

O Seiton foi o senso mais caro e o mais demorado, cinco semanas. A decisão foi codificar utensílio por cor de área, prática corrente no setor, que resolve dois problemas: onde o item mora e por onde ele circula.

  • azul na recepção e pesagem de matéria-prima;
  • verde na mistura;
  • amarelo no envase;
  • vermelho na área de alergênico;
  • branco na paletização e no produto acabado;
  • preto na área externa, resíduo e doca.

O inventário inicial tinha 412 utensílios, dos quais 148 sem área definida, ou 35,9% do total. Foram descartados 118, sendo 55 fora de especificação e 63 duplicados ou sem uso. Sobraram 294, e a compra de 132 novos fechou o quadro em 426.

Os 426 ficaram em 26 painéis de sombra em aço inox, fixados no ponto de uso. Silhueta recortada mostra a falta em um segundo, sem contagem.

A regra de circulação é o que a auditoria cobra: utensílio de uma cor não atravessa para área de outra. Não é recomendação, é instrução no padrão, e virou item do checklist diário.

Seiton: a área de alergênico e a segregação sem exceção

A fábrica processa trigo, leite e soja. A área de alergênico é separada fisicamente e todo utensílio dela é vermelho. Isso já existia no papel antes do 5S. O que não existia era o local definido de cada item dentro dela.

O levantamento encontrou 34 utensílios vermelhos fora da área de alergênico, em três pontos da fábrica. Nenhum tinha registro de higienização entre uma área e outra. É contaminação cruzada em potencial, e gera não conformidade maior.

A solução foi banal e funcionou: dois armários com fechadura dentro da área, painel de sombra interno e lista de 41 itens na porta. Saída de item vermelho só com liberação registrada do líder de turno.

O que o 5S entregou aqui foi o local e a evidência visual. O que ele não entregou, e nem poderia, foi a validação do procedimento de troca entre alergênico e não alergênico, que continua sendo responsabilidade técnica da qualidade.

Seiton: o carrinho de setup e o kit de componentes por SKU

O maior ganho de tempo veio de dois objetos, não de uma reflexão. O primeiro foi o carrinho de setup, um por linha, com as 14 ferramentas da troca, os gabaritos e o torquímetro em espuma recortada. Antes dele, a ferramenta ficava numa gaveta compartilhada pelas quatro linhas.

O segundo foi o kit de componentes por SKU. Um carro de separação montado pelo almoxarifado no turno anterior, com a bobina, o rótulo, a caixa e o lacre do próximo lote conferidos e identificados com a ordem de produção.

Esse kit atacou os 13 minutos de procura de componente e cortou parte do desperdício. Bobina errada na máquina é perda certa de filme, e a conferência passou a acontecer com a linha ainda rodando.

A lógica de local definido e reposição visível é a mesma da gestão à vista, aplicada ao material e não ao indicador. O carrinho vazio no gancho é um sinal tão claro quanto um gráfico no quadro.

Seiso: o mutirão e as 214 anomalias

O mutirão ocupou três dias, com 22 pessoas trabalhando 6 horas por dia, num total de 396 horas. Foi feito na parada programada de manutenção, o que evitou parar linha só para limpar. A regra foi declarada antes: quem encontrasse algo fora de condição etiquetava e seguia, sem consertar na hora. Conserto durante o mutirão dispersa a equipe e some com o registro, que é o produto mais valioso do Seiso.

Tipo de anomaliaRegistradasExemplo encontrado
Ponto de acúmulo de pó de difícil acesso61Vão atrás de painel elétrico de linha
Vedação e borracha ressecada47Gaxeta de bocal de envase
Civil39Rodapé solto, ralo sem tela
Elétrica38Eletrocalha aberta sobre linha
Vazamento29Ar comprimido e água de utilidade
Total214-

Das 214 anomalias, 63 foram reclassificadas pela qualidade como desvio de BPF, sendo 44 pontos de acúmulo e 19 vedações. Essas saíram do plano do 5S e entraram no plano de ação sanitário, com prazo e responsável da qualidade.

As demais: 178 corrigidas em 90 dias e 36 encaminhadas ao plano de investimento do ano seguinte, por exigirem parada longa ou verba. O custo das correções imediatas foi de R$ 16.900.

Seiso e higienização validada: a fronteira que o 5S não cruza

Aqui mora o erro mais perigoso deste case de 5S na indústria alimentícia. Seiso é limpar para inspecionar. Higienização é procedimento validado, com agente químico, concentração, tempo de contato, temperatura e registro. Usam a mesma palavra e não são a mesma coisa.

A fábrica quase cometeu esse erro na semana 12. Um grupo do mutirão propôs incluir no padrão de 5S a limpeza de um trocador de calor visivelmente sujo. Aquele equipamento é higienizado por procedimento validado, com registro de parâmetro e liberação da qualidade.

A regra que ficou escrita no padrão tem três linhas e resolve o caso todo:

  1. o 5S limpa o que não tem procedimento validado, como piso, parede, exterior de painel, corredor e estrutura;
  2. onde existe procedimento validado, o 5S apenas inspeciona, registra o desvio e aciona a qualidade;
  3. nenhum padrão de 5S altera frequência, agente ou método de higienização.

Quem escreve padrão de limpeza em fábrica de alimentos precisa dessa fronteira no papel, não no bom senso. O formato segue o procedimento operacional padrão que a planta já usava, sem criar uma segunda família de documentos.

Seiketsu: os 11 padrões visuais e o checklist de 9 itens

Foram escritos 11 padrões visuais: um por linha de envase, um para pesagem, um para mistura, um para a sala de utensílios, um para o alergênico, um para a expedição e um para a doca. Cada um cabe em uma página plastificada e traz cinco coisas: layout dos utensílios no painel, cor da área, sequência de troca em nove passos, lista de componentes por SKU e checklist de fim de turno.

O checklist tem 9 itens e leva 4 minutos. Segue o formato de folha de verificação, com resposta binária e observação só quando o item reprova. Item que exige texto livre sempre ninguém preenche depois da terceira semana.

A decisão mais importante do Seiketsu foi negativa. Nenhum dos 11 padrões repete instrução que já está no procedimento de BPF. Onde havia sobreposição, o padrão remete ao documento existente pelo código, em vez de reescrever o conteúdo. Isso desarmou a objeção da primeira reunião.

Shitsuke: uma caminhada, 43 itens, um formulário

O compromisso da primeira reunião foi cumprido na semana 17. A verificação de BPF tinha 18 itens e a de 5S tinha 25. Os dois formulários viraram um, com 43 itens, numa única caminhada mensal. A fusão não diluiu critério nenhum.

Os 18 itens de BPF mantiveram redação, critério e encaminhamento originais. Os 25 de 5S mantiveram a pontuação de 0 a 4. Mudou a logística, não o rigor.

O tempo do líder de linha caiu de 3 horas e 20 minutos por mês, em duas caminhadas, para 1 hora e 50 minutos em uma, queda de 45%. Esse foi o argumento que sustentou a adesão quando o entusiasmo inicial acabou.

Três regras completaram o Shitsuke. Auditor nunca é da área auditada, com rodízio entre as quatro linhas e a qualidade. A auditoria não tem data marcada, só uma janela de cinco dias úteis. E cada auditor tem suplente nomeado por escrito.

O ciclo seguiu o que está descrito em auditoria de 5S. A leitura mensal por senso foi montada no formato de radar 5S e afixada no quadro da produção.

A queda do oitavo mês e o que a causou

A nota subiu de 41 para 58 no mês 3 e para 71 no mês 6. No mês 8 caiu para 62, perda de 9 pontos. Essa queda é a parte mais útil do relato, e o programa quase morreu por causa dela.

A leitura fácil seria falta de disciplina. A investigação encontrou três mecanismos concretos, todos previsíveis:

  • o pico sazonal de maio a julho quase dobrou as trocas de SKU, e o corredor entre as linhas 2 e 3 virou pulmão de matéria-prima;
  • a área de alergênico recebeu 8 paletes de matéria-prima comum por falta de espaço, exatamente o que o Seiton tinha proibido;
  • dois dos quatro líderes de linha mudaram no mês 7, e nenhum deles participou das 20 semanas.

O segundo item era o grave. Não foi lentidão nem bagunça, foi violação de uma regra sanitária que a própria fábrica tinha escrito. O achado virou não conformidade interna e foi tratado como tal, com análise de causa e registro.

A recuperação custou R$ 2.400 e 26 horas, e a nota voltou a 69 no mês 9. Foram quatro ações: 12 posições coringa demarcadas para pico, com etiqueta de data e prazo de 20 dias; trava física na área de alergênico, com chave sob o líder de turno; passagem de bastão documentada para líder novo; e suplente de auditor acionado por padrão.

Os resultados: o antes e o depois em oito indicadores

Os números abaixo comparam a linha de base da semana 1 com a medição do mês 12. Todos vieram da mesma fonte e do mesmo método de coleta usados antes do programa, que é a única forma de a comparação valer.

IndicadorAntesMês 12Variação
Tempo médio de setup entre lotes68 min41 min-39,7%
Procura dentro do setup24 min6 min-75,0%
Setup sobre o tempo programado14,2%8,5%-5,7 p.p.
Não conformidades na certificação239-60,9%
Não conformidades maiores40-100%
Perda de material de embalagem3,0%1,2%-60,0%
Utensílios sem área definida148 de 4120 de 426-100%
Nota da auditoria de 5S (teto 100)4184+104,9%

As 99 horas mensais liberadas no setup tiveram destino declarado, porque hora liberada sem destino volta a ser consumida. Oitenta e quatro substituíram hora extra de sábado, e 15 foram para limpeza profunda programada, que antes acontecia quando dava.

A queda de 23 para 9 não conformidades não é mérito exclusivo do 5S. Sete das 14 eliminadas vinham de local de utensílio e registro de descarte. As outras sete foram ações da qualidade em paralelo. Quem soma tudo no mesmo balde perde credibilidade.

O custo apurado e o retorno

O custo total foi de R$ 114.924 para 1.240 m², ou R$ 92,68 por metro quadrado. A apuração ficou em duas partes, horas internas e desembolso, porque misturar as duas esconde o esforço real da equipe.

As horas internas somaram 936, a R$ 34 de custo-hora médio, totalizando R$ 31.824. São 396 horas de mutirão, 160 do facilitador em 20 semanas, 296 de treinamento de 148 pessoas da produção e 84 de auditoria em 14 ciclos.

Item de desembolsoValor (R$)
Utensílios codificados por cor (132 unidades)19.300
Correção das anomalias do Seiso16.900
Painéis de sombra em inox (26 unidades)14.600
Carrinhos de setup (4 unidades)12.400
Identificação visual, placas e demarcação11.200
Armários de segregação de alergênico (2)8.700
Total de desembolso83.100

O retorno recorrente foi de R$ 121.608 no ano. A perda de embalagem caiu de R$ 9.750 para R$ 3.900 por mês, economia de R$ 5.850 mensais ou R$ 70.200. A hora extra eliminada foram 84 horas por mês a R$ 51: R$ 4.284 mensais, ou R$ 51.408.

Com esses valores, o saldo vira positivo no mês 11,3. Com a recuperação única de R$ 12.700 em sucata e devolução, antecipa para o mês 10,1. Nenhum dos dois inclui o valor de uma não conformidade maior evitada.

O que sustentou em 12 meses e o que não funcionou

A nota chegou a 84 no mês 12 e o mecanismo que sustentou foi um só: a auditoria integrada. Enquanto a verificação de 5S estiver dentro da caminhada que a BPF já obriga, ela não é cancelada por falta de tempo.

Três coisas foram tentadas e não funcionaram, e vale registrar cada uma com o motivo:

  1. os cinco minutos de 5S no fim de turno, que duraram sete semanas e morreram porque competiam com a higienização de encerramento, que tem hora marcada e é obrigatória;
  2. o ranking mensal entre as quatro linhas com premiação, encerrado no mês 5 porque produziu maquiagem, com material escondido na expedição na véspera da auditoria;
  3. o POP de 5S separado do POP de BPF, abandonado porque os dois passaram a divergir sobre a frequência de limpeza de utensílio.

O roteiro para quem for repetir a estrutura é o de como implantar 5S na empresa, com um ajuste do setor: a fronteira com a BPF precisa estar escrita antes do Seiri, não depois do Seiso. Quem deixa para depois reescreve padrão duas vezes.

A manutenção está em como sustentar o 5S e as etapas em implantação do programa 5S. A relação com tempo de troca aparece em 5S e Lean.

Perguntas frequentes

O 5S substitui as Boas Práticas de Fabricação numa fábrica de alimentos?
Não, e tratar os dois como a mesma coisa é o erro mais comum do setor. A BPF é requisito sanitário definido por legislação e norma, com consequência de interdição e recolhimento. O 5S é programa de organização que a empresa adota por decisão própria. Ele sustenta o cumprimento diário da BPF, mas não define requisito sanitário nenhum.
E a relação entre 5S e HACCP?
O HACCP controla perigo em ponto crítico, com limite crítico, monitoramento e ação corretiva definidos tecnicamente. O 5S não toca em nada disso. Ele reduz a chance de desvio operacional que chega até o ponto crítico, como utensílio fora de área. São camadas diferentes, com evidências diferentes em auditoria.
Como convencer uma equipe que já cumpre BPF de que o 5S não é papel a mais?
Mostrando redução de formulário, não aumento. Neste caso havia duas caminhadas de verificação por mês, uma de BPF com 18 itens e uma de 5S com 25, consumindo 3 horas e 20 minutos do líder. As duas viraram uma caminhada de 43 itens, com 1 hora e 50 minutos, queda de 45%. O compromisso foi assumido na primeira reunião e cumprido na semana 17.
Qual foi a redução de tempo de setup entre lotes?
De 68 para 41 minutos em média, queda de 27 minutos ou 39,7%, medida em cronoanálise antes e depois. Dos 68 minutos originais, 24 eram procura de ferramenta e de componente de embalagem, e esses caíram para 6, queda de 75%. Os outros 9 minutos vieram da sequência escrita de troca, que é trabalho padronizado e não 5S.
Como funciona o código de cor por área em fábrica de alimentos?
Cada área recebe uma cor e todo utensílio dela carrega essa cor, com a regra de que utensílio de uma cor não atravessa para área de outra. Aqui foram seis cores: azul na pesagem, verde na mistura, amarelo no envase, vermelho no alergênico, branco na paletização e preto na área externa.
O que o 5S faz e o que não faz na área de alergênico?
Faz o local definido, o painel de sombra, a lista de itens afixada e a evidência visual de falta. Não faz a validação do procedimento de troca entre alergênico e não alergênico, que é responsabilidade técnica da qualidade. Em auditoria, painel organizado não responde pergunta sobre eficácia de limpeza de alergênico.
Seiso é a mesma coisa que higienização?
Não. Seiso é limpar para inspecionar e encontrar anomalia. Higienização é procedimento validado, com agente químico, concentração, tempo de contato, temperatura e registro. A regra escrita aqui tem três linhas: o 5S limpa onde não existe procedimento validado, apenas inspeciona e registra desvio onde existe, e nunca altera frequência, agente ou método.
Descarte de componente de embalagem pode ser feito no cartão vermelho?
Pode ser etiquetado, mas o destino segue regra própria. Material impresso com número de registro e informação de alergênico exige destruição documentada, com certificado de quem executa. Foram 112 itens e 1.940 kg, e a pilha de certificados virou anexo do relatório do Seiri.
Quanto custou e em quanto tempo se pagou?
R$ 114.924 em 1.240 m², ou R$ 92,68 por metro quadrado, sendo R$ 31.824 de horas internas e R$ 83.100 de desembolso. O retorno recorrente foi de R$ 121.608 no ano: R$ 70.200 de redução de perda de embalagem e R$ 51.408 de hora extra eliminada. O saldo vira positivo no mês 11,3, ou no mês 10,1 com a recuperação única de R$ 12.700.
Por que a nota caiu no oitavo mês e como foi recuperada?
Caiu de 71 para 62 por três mecanismos simultâneos. O pico sazonal quase dobrou as trocas de SKU e o corredor virou pulmão. A área de alergênico recebeu 8 paletes de matéria-prima comum. E dois dos quatro líderes mudaram sem ter participado do programa. A recuperação custou R$ 2.400 e 26 horas, e a nota voltou a 69 no mês 9.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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