Metodologias & Qualidade

Projeto Black Belt na siderurgia: o case da pré-laminação que custava R$ 221 por tonelada

Um projeto real da formação Black Belt da Voitto, contado pelas cinco fases do DMAIC: o mapa de fluxo de valor que expôs 6 dias de fila, a capabilidade com Weibull, o boxplot que revelou o risco de lasca e o resultado antes e depois.

Thiago Coutinho
Publicado em 1 de out de 2026  ·  Atualizado em 1 de out de 2026  ·  16 min de leitura
Thiago Coutinho falando ao microfone em palco de evento, com o texto Projeto Black Belt na siderurgia: o case da pré-laminação que custava R$ 221 por tonelada sobre fundo escuro à esquerda

Retirar uma etapa de um processo siderúrgico parece só uma decisão de custo. Na prática, quase toda etapa existe porque protege alguma coisa, e o trabalho do projeto é descobrir o quê antes de removê-la.

Este case acompanha um projeto Black Belt na siderurgia que pretendia eliminar a pré-laminação de um aço na rota da laminação de tiras a quente. A etapa custava R$ 221 por tonelada e o ganho anual declarado era de R$ 1,68 milhão.

No caminho, o mapa de fluxo de valor mostrou um lead time de 18,3 dias que poderia cair para 10,2. A capabilidade do prazo de entrega deu Ppk de -0,09. E um boxplot de sucata revelou que, sem a etapa, o defeito de lasca subia.

O relato segue as cinco fases do DMAIC. Em cada uma aparece o que a equipe fez, por que escolheu cada ferramenta e como ler o resultado. O desfecho mostra o percentual fora do limite caindo de 76,25% para 28,81%, com o que ainda ficou em aberto.

Sobre a procedência: este é um projeto real de aluno da formação Black Belt da Voitto, descaracterizado para proteger o cliente. A empresa aparece como Voitto Steel e o aço sem o código original. Os números vêm da apresentação original. O que foi acrescentado para explicar, como o contexto do processo, a leitura das causas e os exemplos de cálculo, está identificado como ilustrativo.

Placa, forno e laminador: onde fica a pré-laminação no caminho da bobina quente

Para entender o projeto é preciso conhecer o caminho do aço. A aciaria produz o aço líquido, que é solidificado no lingotamento contínuo e cortado em placas. Uma placa é um bloco retangular de aço com algumas toneladas.

A placa segue para a laminação de tiras a quente, chamada na apresentação de LTQ. Ali ela é reaquecida num forno e passa por cadeiras de laminação que reduzem a espessura até virar uma tira enrolada. Esse produto é a bobina quente preta, ou BQ preta.

No aço estudado, a rota padrão tinha um passo a mais. A placa era enfornada, pré-laminada, resfriada, esmerilhada e só então enfornada de novo para a laminação final. A pré-laminação é, portanto, um segundo ciclo de forno e laminador para o mesmo material.

Esse passo extra ocupa forno, consome energia e alonga o tempo até a entrega. A Voitto Steel, nome usado para descaracterizar a empresa, atua no corte e laminação de aço. A equipe observou que a etapa agregava pouco ao processo de LTQ e derrubava a produtividade.

R$ 221 por tonelada: o custo de manter uma etapa que talvez não precise existir

A apresentação traz dois custos. Com pré-laminação, o aço custa R$ 11.114 por tonelada. Sem ela, custaria R$ 10.893 por tonelada. A diferença é de R$ 221 por tonelada, ou 1,99% do custo.

A meta declarada foi eliminar a etapa, com ganho de 1.680 MR$ por ano, ou seja, R$ 1,68 milhão. A fonte não informa o volume anual. Dividindo o ganho pela diferença unitária, o volume implícito é de cerca de 7.600 toneladas por ano, conta feita para este artigo.

O número é pequeno por tonelada e grande no ano, padrão típico da siderurgia. Por isso o critério de cálculo merece o mesmo cuidado de qualquer retorno financeiro de projeto Seis Sigma: custo evitado, volume real e o que fica fora da conta.

ItemValorOrigem
Custo com pré-laminaçãoR$ 11.114/tApresentação
Custo sem pré-laminaçãoR$ 10.893/tApresentação
Diferença por toneladaR$ 221/tCálculo: 11.114 menos 10.893
Ganho anual declaradoR$ 1,68 milhãoApresentação
Volume implícitoCerca de 7.600 t/anoIlustrativo: 1.680.000 dividido por 221

Um charter que pede para remover, e não para ajustar

A maioria dos projetos de Lean Seis Sigma tenta reduzir um defeito ou uma variação. Este pedia algo mais arriscado: tirar uma etapa inteira da rota de fabricação. Se a etapa existia, alguém a colocou ali por um motivo técnico.

Isso muda a lógica do DMAIC. Não basta provar que a etapa custa caro. É preciso descobrir o que ela protege e garantir que o processo continue protegido sem ela.

CampoConteúdo
ProblemaPré-laminação agrega pouco à LTQ e reduz a produtividade
MetaEliminar a pré-laminação no aço estudado
Indicador de custoDe R$ 11.114/t para R$ 10.893/t
Indicador de fluxoLead time da BQ preta, com limite de 15 dias
EscopoRota do aço estudado entre placa e laminação final
Ganho declaradoR$ 1,68 milhão por ano
Risco centralAumento da sucata por defeito de lasca

O risco central não aparece no slide de definição. Ele surge na medição, e é justamente por isso que esta fase pesou tanto no case.

16,6 dias de lead time contra um limite de 15: a linha de base da entrega

A primeira medição foi o tempo de entrega da BQ preta, em dias, com 120 observações. A média ficou em 16,606 dias e o desvio padrão em 4,235 dias. O mínimo foi 7,6 dias e o máximo, 31,8.

O intervalo de 95% de confiança para a média foi de 15,840 a 17,371 dias. A leitura é direta: mesmo no limite inferior do intervalo, a média verdadeira está acima dos 15 dias usados como limite.

O teste de normalidade de Anderson-Darling deu valor-p abaixo de 0,005. Os dados não seguem a distribuição normal. Essa informação decide qual modelo usar na capabilidade, como mostra a fase de medição.

Estatística do lead timeValor
Observações120
Média16,606 dias
Desvio padrão4,235 dias
Primeiro quartil13,100 dias
Mediana16,900 dias
Terceiro quartil19,375 dias
IC 95% da média15,840 a 17,371 dias
Anderson-DarlingA² de 2,41, p abaixo de 0,005

21 períodos e mediana zero: quanto aço já saía sem pré-laminação

O segundo resumo estatístico mostra o percentual produzido sem pré-laminação, em 21 observações. A média foi 4,72%, mas a mediana foi zero e o primeiro quartil também. Em pelo menos metade dos períodos, nada saiu pela rota curta.

O máximo chegou a 29,41% e o terceiro quartil a 9,19%. A distribuição é muito assimétrica, com assimetria de 1,97. É o retrato de uma rota alternativa usada de forma esporádica, sem padrão.

Esse dado tem dois usos. Mostra o tamanho da mudança pedida, de menos de 5% para 100% sem a etapa. E mostra que existe histórico real da rota curta, o que permite comparar com e sem pré-laminação usando dados da própria usina.

Quando a média e a mediana se afastam tanto, reportar só a média engana. O boxplot desenhado abaixo do histograma deixa isso visível em segundos.

O mapa de 18,3 dias: onde a pré-laminação aparece no fluxo de valor

A fase de medição começou pelo mapa da cadeia de valor do estado atual. O VSM desenha o fluxo de material e de informação e separa tempo que transforma o produto de tempo de espera.

No estado atual, a rota tinha quatro processos: produzir placas, enfornar e pré-laminar, esmerilhar e enfornar e laminar final. Entre eles havia estoques intermediários, marcados com triângulos no mapa.

Trecho do estado atualTempoClassificação
Estoque após produzir placas4,0 diasNão agrega valor
Enfornar e pré-laminar0,16 diaAgrega valor
Estoque antes de esmerilhar6,0 diasNão agrega valor
Esmerilhar3,0 diasAgrega valor
Estoque antes da laminação final5,0 diasNão agrega valor
Enfornar e laminar final0,17 diaAgrega valor
Total18,3 dias3,3 dias agregam, 15 não agregam

Só 18% do tempo agregava valor. A pré-laminação em si dura 0,16 dia, mas arrasta consigo um estoque de 6 dias antes do esmerilhamento. O custo da etapa não está na máquina, está na fila que ela cria.

O estado futuro de 10,2 dias e os 8,1 dias que a etapa carregava

O estado futuro remove o processo de enfornar e pré-laminar. A placa vai direto para o esmerilhamento e daí para a laminação final. Restam dois estoques, de 3 e 4 dias.

Indicador do VSMEstado atualEstado futuroDiferença
Lead time total18,3 dias10,2 dias-8,1 dias
Tempo que agrega valor3,3 dias3,17 dias-0,13 dia
Tempo que não agrega valor15 dias7 dias-8 dias
Participação do valor agregado18%31%+13 pontos
Processos na rota43-1

A redução de 8,1 dias corresponde a 44% do lead time. Quase toda ela vem de espera, não de processamento. O tempo que agrega valor praticamente não muda.

O mapa futuro também explica por que o lead time medido, de 16,6 dias em média, não alcançava o limite de 15. Com um estoque inteiro a mais na rota, a meta de entrega era inalcançável sem mexer na estrutura do fluxo.

Ppk de -0,09 com modelo de Weibull: a capabilidade de um prazo de entrega

Com o lead time em mãos, a equipe calculou a capabilidade do processo contra o limite superior de 15 dias. Como os dados não eram normais, o cálculo usou a distribuição de Weibull, que se ajusta melhor a tempos assimétricos.

O resultado foi Ppk de -0,09. Um Ppk negativo significa que a média do processo já está do lado errado do limite. Não é processo apertado, é processo fora.

Indicador de capabilidadeValor
Limite superior15 dias
Média da amostra16,6058 dias
Tamanho da amostra120
Ppk-0,09
Z.Bench-0,30
PPM acima do limite, observado625.000
PPM acima do limite, esperado618.577

As 625.000 partes por milhão observadas equivalem a 62,5% das entregas acima de 15 dias, ou 75 de 120. O valor esperado pelo modelo, 618.577, ficou próximo. Isso indica que o Weibull descreveu bem os dados.

Para comparação, um cálculo pela normal daria Ppk de cerca de -0,13. A escolha do modelo muda o número, mas não a conclusão.

A sucata por lasca e o motivo de a pré-laminação ter sido criada

Lasca é um defeito superficial da bobina. Aparece como uma escama ou uma tira fina de metal que se destaca da superfície. Costuma nascer de inclusões, trincas ou heterogeneidades da placa que a laminação abre em vez de fechar.

A pré-laminação seguida de esmerilhamento funciona como uma limpeza. O primeiro passe expõe defeitos da placa e o esmeril remove a camada afetada antes da laminação final. Tirar a etapa ameaça exatamente essa proteção.

A apresentação traz uma carta de sequência do sucateamento por lasca de junho de 2017 a outubro de 2018, na rota padrão sem pré-laminação. A linha de referência está em 10%. Pela leitura do gráfico, os pontos oscilam entre cerca de 6% e 16,5%.

Até o início de 2018, quase todos os pontos ficam acima de 10%. Entre maio e setembro de 2018 a sucata cai para perto de 6% a 8%, e volta a cerca de 11% em outubro. É uma série instável, que pede carta de controle e investigação de causa especial antes de qualquer conclusão.

COM e SEM no boxplot: o teste de hipótese que mudou a pergunta do projeto

O passo seguinte foi comparar a sucata por lasca entre o material com e sem pré-laminação. A apresentação mostra o resultado como dois boxplots lado a lado, rotulados COM e SEM, sob o título de teste de hipótese.

Pela leitura do gráfico, o grupo COM tem média perto de 13% e caixa estreita. O grupo SEM tem média perto de 19,5%, mediana perto de 18% e um ponto atípico acima de 40%. Sem a etapa, a sucata sobe e fica mais dispersa.

O slide não traz o valor-p. Como os dados de sucata costumam ser assimétricos, um teste não paramétrico, como Mann-Whitney, seria a escolha natural para comparar medianas. Essa observação é do artigo, não da fonte.

Ler um boxplot é simples. A caixa contém a metade central dos dados, a linha dentro dela é a mediana e as hastes mostram o alcance dos valores típicos. Pontos isolados além das hastes são atípicos e merecem investigação própria.

A decisão que o boxplot produziu foi a mais importante do case. A pergunta deixou de ser se a pré-laminação podia sair. Passou a ser o que precisava mudar a montante para que a lasca não subisse quando ela saísse.

A equipe também usou uma matriz de causa e efeito na medição, para ligar as variáveis de entrada à sucata. A apresentação não mostra os pesos dessa matriz.

Um Ishikawa espalhado por vários setores e a matriz de esforço e impacto que cortou o escopo

Lasca tem muitas causas possíveis, e elas estão em áreas diferentes: aciaria, lingotamento, fornos e laminação. O diagrama de Ishikawa da equipe refletiu isso, com causas potenciais em diversos setores da empresa.

Um Ishikawa grande é bom para não esquecer hipóteses, mas ruim para decidir. A equipe reduziu o escopo com uma matriz de esforço e impacto. Cada causa recebe uma nota de impacto sobre o problema e outra de esforço para atuar.

O quadrante que interessa é o de alto impacto e esforço viável. Causas de alto esforço e baixo impacto saem da lista, mesmo quando são as favoritas de alguém.

Causa priorizadaÁrea de origemPor que afeta a lasca
Teor de manganês, cromo, níquel e titânioAciariaA química define inclusões e a resposta do aço ao calor
Velocidade de lingotamentoLingotamento contínuoInfluencia a solidificação e a qualidade da superfície da placa
Diferença de temperatura máxima por etapaFornos e laminaçãoGradientes térmicos favorecem trincas e oxidação
Corrente do edgerLaminaçãoIndica o esforço no laminador vertical que conforma as bordas

A coluna sobre o efeito na lasca foi acrescentada para explicar cada causa ao leitor. A apresentação lista as quatro causas, mas não detalha o mecanismo.

Química da liga, velocidade de lingotamento, temperatura e edger: lendo as quatro causas

A primeira causa é química. Elementos como titânio formam compostos que prendem nitrogênio e carbono e refinam a estrutura do aço. Teores fora da faixa ideal deixam a placa mais sensível a defeitos de superfície.

A segunda é a velocidade de lingotamento. Lingotar rápido aumenta a produção, mas pode deixar a casca da placa fina demais na saída do molde. Uma casca irregular gera trincas que, laminadas, viram lasca.

A terceira é a diferença máxima de temperatura em cada etapa. Variações grandes de temperatura entre núcleo e superfície, ou entre um processo e outro, geram tensões no material.

A quarta é a corrente do edger, o laminador vertical que trabalha as bordas da placa. A corrente funciona como medida indireta da força aplicada. Picos podem indicar placas com borda problemática ou ajuste inadequado.

Para confirmar cada causa, o caminho natural é a estratificação da sucata por faixa de química, de velocidade e de temperatura. Se a lasca se concentra numa faixa, a causa ganha evidência. Se se espalha por igual, perde força. A apresentação não mostra essas estratificações.

As quatro causas têm algo em comum: atuam antes da laminação final. Esse é o argumento técnico do projeto. Se a placa chegar limpa, o passo de limpeza deixa de ser necessário.

Quatro causas, quatro planos de ação em 5W2H

Para cada causa a equipe montou um plano de ação pelo método 5W2H: o quê, por quê, onde, quando, quem, como e quanto custa. É uma ferramenta simples, escolhida porque as ações cruzavam várias áreas e precisavam de dono e prazo claros.

CausaAção registrada na apresentação
Química da ligaElevar a adição de titânio nas ligas
Química da ligaAlterar o percentual de outros metais na composição
Rota de produçãoAumentar o volume produzido sem pré-laminação
Qualidade da placaAvaliar o efeito da pré-laminação na macroestrutura da placa

A apresentação não mostra o plano completo. A tabela abaixo é um exemplo ilustrativo de como uma dessas linhas fica no formato 5W2H, com campos genéricos.

Campo do 5W2HExemplo ilustrativo
O quêElevar a adição de titânio no aço estudado
Por quêReduzir a sensibilidade da placa à lasca
OndeAciaria, etapa de ajuste de composição
QuandoNas próximas corridas do aço estudado
QuemEngenharia de processo da aciaria
ComoNova faixa de especificação química com acompanhamento por corrida
QuantoCusto adicional de liga por tonelada

Escalar a rota curta sem perder o controle da lasca

Duas ações merecem atenção. Aumentar o volume sem pré-laminação não é uma correção, é um experimento em escala crescente. Cada lote produzido pela rota curta vira dado novo para comparar a sucata com a rota antiga.

Avaliar a macroestrutura da placa é a ação de verificação. A macrografia expõe segregação, porosidade e trincas internas. Comparar placas com e sem pré-laminação mostra se a etapa realmente corrige algo ou se só esconde defeitos de origem.

A ordem faz sentido. Primeiro se ajusta a química, que ataca a causa. Depois se aumenta o volume na rota curta, medindo a lasca. A macroestrutura funciona como prova física de que a placa não piorou.

Num projeto com mais dados, essa etapa poderia usar uma FMEA para listar os modos de falha da rota sem pré-laminação. A apresentação não menciona FMEA, então esse ponto fica como sugestão do artigo.

De 76,25% para 28,81% fora do limite: como ler o relatório antes e depois

O resultado foi apresentado num relatório de capabilidade antes e depois, com limite superior de especificação 15. O slide não nomeia a variável. O texto da apresentação a chama de percentual de erros na fabricação.

O percentual esperado fora do limite caiu de 76,25% para 28,81%. É a redução de 62% citada no slide: a diferença é de 47,4 pontos, que divididos por 76,25 resultam em 62,2%.

IndicadorAntesDepoisModificação
Observações288-
Média17,9343,875-14,059
Desvio padrão global11,10710,960-0,147
Desvio padrão dentro10,3727,852-2,519
Ppk-0,240,19+0,42
Cpk potencial-0,250,26+0,51
% fora observado85,71%12,50%-73,21 pontos
% fora esperado76,25%28,81%-47,43 pontos
PPM esperado762.477288.135-474.343

Os percentuais observados batem com as contagens. Antes, 24 de 28 pontos estavam fora, 85,71%. Depois, 1 de 8, 12,50%.

O Ppk passou de negativo para 0,19. Melhorou muito, mas ainda está longe de 1,33. O processo entrou no limite em média, não com folga.

Valor-p de 0,008 na média e de 0,485 no desvio: o que ainda faltava resolver

O relatório traz dois testes. O primeiro pergunta se a média mudou e dá valor-p de 0,008. A resposta é sim. A média caiu de 17,934 para 3,875.

O segundo pergunta se o desvio padrão caiu e dá valor-p de 0,485. A resposta é não. O desvio global ficou praticamente igual, de 11,107 para 10,960.

A leitura combinada é clara. O projeto deslocou o processo para o lado bom do limite, mas não o tornou mais previsível. Um ponto do depois ainda caiu perto de 30, longe da maioria.

Há também a questão da amostra. Oito observações no depois sustentam a conclusão sobre a média, mas são poucas para estimar capabilidade com segurança. O próprio relatório mostra o PPM esperado em 288.135, bem acima do observado.

Por isso o controle precisa continuar coletando. Um plano de controle para esse caso acompanharia as quatro causas priorizadas, com limites e reação definidos. A apresentação não mostra o plano, então a tabela abaixo é ilustrativa.

Variável controladaComo medirFrequênciaReação se sair da faixa
Teor de titânio e demais elementosAnálise química da corridaToda corridaSegregar placas e avaliar desvio para a rota longa
Velocidade de lingotamentoRegistro da máquinaContínuaAjustar velocidade e marcar as placas do período
Diferença de temperatura por etapaPirômetros nos fornos e laminadorToda placaRevisar curva de aquecimento
Corrente do edgerRegistro do acionamentoToda placaInspecionar bordas da bobina
Sucata por lascaInspeção de superfícieMensal, em cartaReabrir a análise se passar de 10%

O gatilho de 10% para a sucata repete a linha de referência usada na carta da apresentação. Os demais limites dependem das faixas técnicas da usina.

O placar do projeto em uma tabela

A tabela reúne os resultados que a apresentação mostra, separados do que é cálculo deste artigo.

DimensãoAntesDepois ou alvoFonte do número
Custo por toneladaR$ 11.114R$ 10.893Apresentação
Ganho anual-R$ 1,68 milhãoApresentação
Lead time no VSM18,3 dias10,2 diasApresentação
Tempo que agrega valor18%31%Apresentação
% fora do limite, esperado76,25%28,81%Apresentação
Redução de erros na fabricação-62%Apresentação
Ppk do indicador final-0,240,19Apresentação
Redução do lead time-44%Cálculo do artigo

O lead time de 10,2 dias é o estado futuro desenhado no VSM. A apresentação não traz uma nova medição do lead time real depois da mudança, que seria a confirmação natural do ganho de fluxo.

O que o case do aço sem pré-laminação ensina a quem vai conduzir um projeto Black Belt

Este é um típico projeto Seis Sigma de alto valor e alto risco, e o caminho que a equipe seguiu traz quatro lições práticas.

  1. antes de remover uma etapa, descubra o que ela protege; aqui era a lasca, e o boxplot COM e SEM revelou isso;
  2. use o VSM para mostrar onde está o custo; a etapa durava 0,16 dia, mas carregava 6 dias de fila;
  3. escolha o modelo estatístico pelos dados; lead time não normal pediu Weibull na capabilidade;
  4. separe média de variação no resultado; o processo melhorou de posição, mas a dispersão não caiu.

Há também o que faltou medir. A amostra do depois é pequena, o lead time real não foi remedido e o valor-p da comparação de sucata não aparece. Um Black Belt experiente cobraria esses três pontos antes de encerrar.

Quem quiser ver outro projeto contado fase a fase pode comparar com este exemplo de DMAIC. O padrão se repete: o ganho depende menos da ferramenta escolhida e mais da pergunta certa em cada fase.

Perguntas frequentes

O que é a pré-laminação na laminação de tiras a quente?
É um ciclo extra de forno e laminador antes da laminação final. A placa é aquecida, recebe um primeiro passe, é esmerilhada para remover defeitos de superfície e volta ao forno. Neste case, a etapa custava R$ 221 por tonelada e acrescentava um estoque intermediário de 6 dias ao fluxo.
Por que eliminar uma etapa exige um projeto Black Belt e não uma simples decisão?
Porque a etapa costuma proteger o processo de algum defeito. Aqui, a comparação com e sem pré-laminação mostrou sucata por lasca maior sem a etapa. Remover sem atacar as causas a montante trocaria economia de forno por perda de material.
Como o VSM ajudou a dimensionar o ganho do projeto?
O mapa do estado atual somou 18,3 dias de lead time, dos quais só 3,3 agregavam valor. O estado futuro, sem a pré-laminação, somou 10,2 dias. A diferença de 8,1 dias veio quase toda de espera em estoque, não de processamento.
O que significa um Ppk negativo?
Significa que a média do processo está além do limite de especificação. No lead time deste case, a média de 16,6 dias passava do limite de 15 dias, e o Ppk ficou em -0,09. Não é um processo apertado, é um processo fora do limite na maior parte do tempo.
Por que a capabilidade foi calculada com a distribuição de Weibull?
Porque o teste de Anderson-Darling deu valor-p abaixo de 0,005, e os dados de lead time não eram normais. Tempos costumam ser assimétricos, e o Weibull descreveu bem a amostra: o PPM esperado de 618.577 ficou próximo do observado, 625.000.
Quais foram as causas raiz priorizadas no projeto?
Quatro: o teor de manganês, cromo, níquel e titânio nas ligas, a velocidade de lingotamento, a diferença de temperatura máxima em cada etapa e a corrente do edger. Elas saíram de um Ishikawa amplo, filtrado por uma matriz de esforço e impacto.
Como se calcula a redução de 62% citada no resultado?
O percentual esperado fora do limite caiu de 76,25% para 28,81%. A diferença é de 47,4 pontos. Dividindo 47,4 por 76,25, a redução relativa é de 62,2%.
Por que o valor-p de 0,485 no desvio padrão importa?
Porque mostra que a variação do processo não caiu de forma significativa. A média mudou, com valor-p de 0,008, mas o desvio global passou só de 11,107 para 10,960. O processo melhorou de posição, sem ficar mais previsível.
Oito observações bastam para concluir sobre a capabilidade depois da melhoria?
Bastam para detectar a mudança de média, mas são poucas para estimar capabilidade com segurança. O PPM esperado, de 288.135, ficou bem acima do observado, de 125.000, sinal de que a estimativa ainda é instável. O controle precisa seguir coletando dados.
Qual a principal lição deste case para um Black Belt?
Descobrir o que uma etapa protege antes de removê-la. O ganho de custo era claro desde a definição, mas foi a comparação de sucata com e sem pré-laminação que orientou as ações sobre química, lingotamento e temperatura.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…