Metodologias & Qualidade

Economia circular na cadeia de suprimentos: por que reciclar é a última opção, não a primeira

Fábio lidera projetos de economia circular na Unilever e pesquisa o tema no doutorado. Ele explica os dois ciclos, a servitização e o que muda em compras.

Thiago Coutinho
Publicado em 20 de out de 2026  ·  Atualizado em 20 de out de 2026  ·  13 min de leitura
Capa do artigo Economia circular na cadeia de suprimentos, com a arte do episódio 94 do VoittoCast e a foto do convidado

Fábio Pollice é engenheiro eletricista pela Unicamp, mestre pela Poli-USP, MBA pela Fundação Dom Cabral e doutorando em engenharia de produção na EESC-USP, pesquisando o papel de compras na economia circular. É executivo-chefe de qualidade para a América Latina na Unilever, onde lidera projetos de circularidade, e professor na FIA e na Fundação Dom Cabral. Nesta conversa com Henrique Corrêa, ele explica por que a economia circular na cadeia de suprimentos inverte a lógica de procurement — e por que a reciclagem é o último recurso, não o primeiro.

O modelo linear, e por que as cadeias foram desenhadas para ele

"Desde que a gente iniciou o processo industrial, lá na Revolução Industrial, no final do século XVIII, o modelo econômico é um modelo onde a gente extrai os recursos naturais da natureza, transforma isso em algum produto, usa e depois descarta. A gente chama isso de modelo linear. E as nossas cadeias de suprimentos sempre foram desenhadas para atender a essa forma de operação." — Fábio Pollice

A alternativa busca estender a vida útil dos insumos. E a ordem das estratégias importa:

Estratégia Posição na hierarquia
Reuso primeiro
Desenho para manutenção eficiente e fácil depois de um período de uso segundo
Reciclagem último

E o motivo da reciclagem ficar por último é técnico, não ideológico:

"A reciclagem é a última dessas atividades que a economia circular estabelece como estratégias circulares. Porque toda vez que você recicla, você tem alguma perda no processo."

O princípio que organiza tudo:

"O que a economia circular prega é você ter um mundo onde não tem perdas. Tudo que é resíduo ou subproduto do seu processo é alimento para algum outro processo." — Fábio Pollice

Os dois ciclos

Ciclo biológico — materiais renováveis. O objetivo é devolver os insumos à natureza de forma regenerativa, "ou seja, devolver o capital natural sem, por exemplo, químicos que foram adicionados ao longo do processo produtivo".

Ciclo técnico — materiais não renováveis: o que vem do petróleo e da extração mineral. É onde entra a questão do plástico de uso único, "que a gente usa uma vez e joga fora". A pergunta operacional: como estabelecer processos em que se reusa a resina reciclada para novos produtos, estendendo a vida útil do plástico que já está na natureza.

O enrosco de procurement que ninguém resolveu

Esta é a parte com maior valor prático do episódio, e Henrique Corrêa formula o problema com precisão:

"Tudo foi gradualmente desenvolvido para trazer as coisas de poucos fornecedores para muitos consumidores. Agora, eu imagino que teve que ser um enrosco para você conseguir trazer de muitos. Você não liga para os consumidores e fala: agora eu preciso de mais embalagem, me manda mais embalagem." — Henrique Corrêa

A cadeia reversa não tem a estrutura de poder da cadeia direta. Não existe procurement de consumidor.

E o que a circularidade exige, em consequência, é alargar o ecossistema para incluir quem nunca esteve nele:

"Você começa a agregar gente não tradicional. Falando de reciclagem, você está falando de cooperativas, de catadores. Você está falando de como envolve o consumidor de uma forma mais estruturada. Você está falando de startups que vão ter novas tecnologias para produto ou para transporte. Então você começa a criar uma relação muito diferente na sua cadeia de suprimentos." — Fábio Pollice

E Fábio é explícito sobre o que não existe:

"É um grande desafio, porque não tem receita pronta."

O que um compromisso público obriga a redesenhar

Fábio usa a estratégia de higiene doméstica da própria empresa como exemplo: o compromisso formal de, até 2030, ter formulações totalmente provenientes de insumos renováveis e embalagens recicláveis e recicladas.

A escala é o que torna isso difícil:

"Puxa, eu consigo fazer uma formulação de material renovável — isso não é tão novidade. Agora, quando você fala que é uma companhia desse porte, e não um nicho, é outra discussão. Porque a gente está falando de volumes imensos. Centenas de milhares de toneladas por ano."

E as perguntas novas que o compromisso cria:

  • Como garantir forecast de embalagem reciclada?
  • Como estabelecer parceria com cooperativas e garantir fluxo constante para os novos fornecedores que vão transformar aquele resíduo em pellets?

"É um novo jogo. É uma nova forma de fazer procurement, compras, planejamento e, muitas vezes, a própria logística."

O caso dos surfactantes: quatro elos onde antes havia um

O exemplo mais concreto de reconfiguração de cadeia que ele dá:

Uma parceria com uma empresa de biotecnologia na China transforma resíduo em etanol, usando biodigestores e bactéria anaeróbica. Esse etanol vira óxido de etileno, que é o feedstock — o insumo — para surfactante de base não fóssil.

"Mas olha só a complexidade: você tem uma indústria que está cedendo o resíduo, uma biotecnologia que tem a tecnologia da transformação, essa outra indústria química que faz a transformação em óxido de etileno, e isso vai virar surfactante. E normalmente você faz o quê? Você compra o surfactante de um fornecedor direto — de uma indústria química que veio do petróleo." — Fábio Pollice

Quatro elos e três contratos novos para substituir uma compra.

Sustentável e eficiente são objetivos conflitantes?

Henrique Corrêa coloca a objeção do executivo: se forem conflitantes, o movimento não decola, porque ninguém convence um conselho a abrir mão de resultado.

A resposta de Fábio é que são complementares — e ele não foge da discussão subjacente, sobre a implementação da sustentabilidade ser econômica ou moral.

"A sustentabilidade tem três grandes pilares: o econômico, o social e o ambiental. E a gente, às vezes, foca muito nessa discussão e, como não é um conceito do qual muita gente tem todos os elementos, acaba falando que sustentabilidade é ser ambientalmente correto." — Fábio Pollice

Sobre o eixo econômico, ele é direto:

"A gente precisa encontrar soluções que sejam economicamente viáveis. Talvez não seja no primeiro momento — e aí é o grande trabalho do gestor: desenvolver essa estratégia para que, através da alavancagem, do volume, do desenho correto, a gente consiga ter uma cadeia de suprimentos que seja robusta, que tenha um custo competitivo e que tenha segurança no fornecimento."

E o risco que vem junto com o selo

O trecho mais severo do episódio, e o mais útil para quem gerencia o fornecimento:

"Claro que, se você declara na sua embalagem que ela é feita de resina reciclada, você tem que ter a resina reciclada lá. Empresa grande não pode declarar e não cumprir. Você não pode simplesmente hoje misturar um pouquinho de resina virgem porque o fornecedor não entregou. Cadê o seu código de ética nos negócios? O seu princípio de negócio?" — Fábio Pollice

A consequência é que a gestão de risco de fornecimento deixa de ser sobre ruptura de abastecimento e passa a ser sobre integridade do que foi declarado ao consumidor.

Servitização: o caso da iluminação

"Servitização é você não mais ter a posse do bem, mas ter o uso daquele bem. Você passa a vender o serviço daquele bem, e não necessariamente a posse." — Fábio Pollice

O caso que ele detalha é de um fabricante de lâmpadas que decidiu parar de vender lâmpadas e passar a vender iluminação, num contrato com um grande aeroporto europeu:

  • A lâmpada LED é desenhada para a economia circular
  • O fabricante monitora e sabe com duas semanas de antecedência se aquela lâmpada vai apresentar defeito
  • O fabricante faz toda a gestão de manutenção
  • O SLA é o padrão de iluminação contratado, não o equipamento
  • A lâmpada pertence ao fabricante, não ao aeroporto — depois é desmontada, as partes são reutilizadas, e o que resta vira reciclagem

Por que isso melhora o produto

Henrique Corrêa aponta o efeito sobre quem projeta:

"Até a mentalidade do designer muda. Antigamente ele podia optar por uma matéria-prima mais barata, mesmo que não reciclável, porque ele ia lavar as mãos assim que vendesse o produto. Na hora que o produto continua dele, ele quer recuperar valor desse produto no final da vida útil." — Henrique Corrêa

E Fábio completa com o mecanismo:

"Você melhora a qualidade do seu produto, porque tem muito mais informação do campo. Você não quer ter problema de manutenção, obviamente, como dono do processo. Então você acaba investindo em melhorias de qualidade, tem um produto muito mais robusto, feito para durar — que é uma mentalidade diferente do nosso modelo capitalista."

Os dois nomeiam juntos o que fica para trás: obsolescência planejada.

Como virar a chave sem quebrar o modelo de negócio

O segundo caso que ele descreve, de uma grande rede global de móveis, responde a uma objeção prática: ninguém consegue se tornar circular de um dia para o outro quando toda a receita vem de venda.

"Não dá para você girar a chave. Não consigo ficar circular de um dia para a noite, porque todo o meu modelo de negócios é baseado em venda." — Fábio Pollice

Os modelos alternativos que ela passou a oferecer em paralelo:

Aluguel. Você está decorando um escritório e não quer comprar os móveis. A rede é a dona do produto, que foi desenhado para que, depois da devolução, ela possa remanufaturar, fazer manutenção e vender como linha de segunda mão.

"Agora o faturamento não é na venda, é na prestação. Você muda a forma de criar valor para a sua organização."

Buyback. A rede compra o móvel de volta e dá um voucher com desconto para outra compra. O produto também foi redesenhado para recondicionamento, manutenção, revenda e reutilização de partes — com reciclagem só no que sobrar.

E a frota de entrega elétrica ou movida a energia humana, com bicicletas.

A pergunta que Fábio deixa para quem quiser copiar:

"Na hora que você fala em buyback, eu vou lá e busco o seu móvel de volta — cadê a sua logística reversa? Cadê a sua unidade fabril que vai fazer o recondicionamento, a manutenção?"

Onde o Brasil está nessa curva

Perguntado se o ritmo é comparável ao de outras regiões, Fábio é direto: o Brasil está atrás. Europa e China lideram.

Sobre a China, ele faz uma ressalva que é também um elogio: "é bem top-down, é via governo, mas eles estão investindo muito. A quantidade de artigos sobre economia circular lá é muito grande."

Sobre o Brasil:

"A gente vem avançando, mas muito mais pelas organizações, pela pressão da sociedade, pressão dos acionistas, do que propriamente por políticas governamentais. Eu acho que a gente ainda está devendo nesse aspecto." — Fábio Pollice

O mecanismo que ele identifica é o de cascata: multinacionais com agenda corporativa de circularidade desdobram isso para as filiais brasileiras.

E ele aponta uma alavanca pouco explorada, que é cooperação em vez de competição:

"Existe o core — talvez você não queira dividir o seu elemento central, aquela matéria-prima que faz a diferença na sua inovação. Mas tem um monte de atividades periféricas que as organizações fazem e que, se a gente for como associação, talvez a gente tenha muito mais alavancas para a aceleração dessa circularidade."

Por onde entrar na carreira

Perguntado que posições um jovem profissional deveria procurar, Fábio começa com uma constatação de mercado:

"São poucas as organizações que têm uma estrutura de economia circular propriamente desenvolvida, ou que trabalha com supply chain circular da maneira como eu estou descrevendo aqui."

As portas que ele indica:

1. Compras, junto com desenvolvimento de produto. E esta é a informação mais acionável do trecho: na organização dele, a estratégia de plástico e a de surfactantes são lideradas pela área de compras, em conjunto com desenvolvimento de produto. Não pela área de sustentabilidade.

2. Desenvolvimento de produto.

"Qualquer cientista vai ter que trabalhar com produtos circulares. A gente não vai ter muita opção de ter um produto que vá terminar no lixo e eu não tenho o que fazer com ele. Esse produto não vai ter vida útil — vai ter uma pressão muito grande da sociedade."

3. Estruturas de sustentabilidade e gestão de meio ambiente, com a ressalva de que às vezes têm viés mais de política e relação governamental.

4. Logística. Porque transporte é um grande fator negativo no clima e "a gente não tem soluções prontas". Sobre o caminhão elétrico: "dependendo do tamanho do seu caminhão, você não tem tecnologia, ou o custo é proibitivo". E Henrique acrescenta: em algum momento alguém tem que gerar a energia que carrega a bateria.

O que falta na formação

"Eu acho que isso ainda é pouco explorado na graduação."

Na pós, a situação é outra — e ele cita que a USP tem um centro de inovação em economia circular reconhecido internacionalmente, com dezenas de artigos em revistas de ponta.

"A gente tem um conhecimento acadêmico importante no Brasil. O que a gente agora tem que garantir é que essa turma que está pesquisando também passe a executar isso em projetos na indústria, que é o casamento perfeito."

Ele conta que fez a parte dele: deu um curso de duas horas sobre economia circular para o time de compras da própria empresa — que é, não por acaso, o tema do doutorado dele.

"Esse novo papel, essa nova estratégia de fornecimento num ambiente circular, fica diferente do tradicional diádico entre empresa e fornecedor."

Economia circular na cadeia de suprimentos não é pauta ambiental: é de sobrevivência

"Os próximos cinco anos vão ser de ruptura. A economia circular vai ser o grande condutor dessa transformação nas cadeias de suprimento. E não é só uma questão de não atacar o meio ambiente — é uma questão de sobrevivência das empresas. Muitas matérias-primas vão se esgotar em algum momento, porque elas são, como o nome diz, não renováveis. Então as fontes vão se esgotar, ou vão ficar tão caras para você fazer a extração que não vai compensar a produção." — Fábio Pollice

E a ligação com a Indústria 4.0, que ele deixa para o fim:

"Agora que a gente efetivamente tiver internet das coisas, 5G, facilidade de dados, a gente vai começar a ter uma transparência, uma rastreabilidade muito maior. Vai ficar muito mais fácil você enxergar a circularidade. E aí essa questão dos produtos virarem serviço vai ganhar mais alavanca, porque é você conseguir o controle do seu produto na utilização pelo seu consumidor."

Com a razão de fundo, que Henrique enuncia e Fábio confirma: sem medir, fica difícil melhorar.

"Como é que você vai querer ampliar a extensão da vida útil ou melhorar a qualidade se você não tem informação de retroalimentação?"

E o fecho:

"Não dá para fazer carbono zero sem ter uma economia circular."

Quem é Fábio Pollice

  • Engenheiro eletricista pela Unicamp, com especialização em administração industrial pela USP
  • Mestre pela Escola Politécnica da USP, MBA pela Fundação Dom Cabral
  • Doutorando em engenharia de produção na Escola de Engenharia de São Carlos, da USP, pesquisando o papel de compras na economia circular
  • Executivo-chefe de qualidade para a América Latina na Unilever, onde lidera projetos de economia circular
  • Passagens anteriores como diretor de procurement, diretor de fábrica e diretor de qualidade
  • Professor na FIA e na Fundação Dom Cabral

O entrevistador é Henrique Corrêa, professor de gestão de operações e de cadeias de suprimento na Crummer Graduate School of Business, do Rollins College, nos Estados Unidos, e apresentador do quadro Leading the Supply Chain. Foi professor de Fábio na Fundação Vanzolini.

Ouvir o episódio

VoittoCast #94 — Economia Circular: como tornar supply chains mais sustentáveis Quadro: Leading the Supply Chain, com Henrique Corrêa Convidado: Fábio Pollice

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Página do episódio no VoittoCast

Para aplicar

Perguntas frequentes

O que é economia circular na cadeia de suprimentos?
É redesenhar a cadeia para estender a vida útil dos insumos, em vez de extrair, usar e descartar. As estratégias vêm em ordem: reuso primeiro, desenho para manutenção depois, e reciclagem por último — porque toda reciclagem perde material no processo. O princípio é que todo resíduo seja alimento para outro processo.
Por que a reciclagem é a última opção?
Porque sempre há perda no processo de reciclagem. Reusar o produto inteiro e projetá-lo para manutenção fácil preservam mais valor do que transformá-lo de volta em matéria-prima. A reciclagem continua necessária, mas como destino do que já não pode ser reusado nem recondicionado.
Quais são os dois ciclos da economia circular?
O biológico, dos materiais renováveis, cujo objetivo é devolvê-los à natureza de forma regenerativa, sem os químicos adicionados na produção. E o técnico, dos não renováveis — petróleo e extração mineral —, em que o material precisa circular dentro da indústria, como no reuso de resina reciclada.
O que a circularidade muda em compras?
Inverte o fluxo. A cadeia direta foi construída para trazer de poucos fornecedores para muitos consumidores; a circular precisa trazer de muitos de volta, sem o poder contratual que o procurement tradicional tem. Isso obriga a incluir no ecossistema cooperativas, catadores, consumidores e startups, e a responder uma pergunta nova: como garantir forecast de insumo reciclado.
Ser sustentável custa mais caro?
No primeiro momento, pode. Segundo Fábio Pollice, os objetivos são complementares, e o trabalho do gestor é desenvolver a estratégia para que alavancagem, volume e desenho correto entreguem uma cadeia robusta, com custo competitivo e segurança de fornecimento.
O que é servitização?
É vender o uso do bem em vez da posse. No caso descrito, um fabricante passou a vender iluminação, não lâmpadas, a um grande aeroporto: o equipamento continua sendo dele, o SLA é o padrão de luz, e ao fim do ciclo ele desmonta, reutiliza as partes e recicla o resto.
Por que a servitização melhora a qualidade do produto?
Porque o fabricante continua dono do produto e passa a ter informação de campo. Ele não quer problema de manutenção, então investe em robustez e durabilidade — o oposto do incentivo da obsolescência planejada, em que o vendedor se desobriga do produto na hora da venda.
Por onde entrar numa carreira de economia circular?
Pela área de compras, em conjunto com desenvolvimento de produto — é onde essas estratégias são lideradas na organização descrita no episódio. Também por desenvolvimento de produto, por estruturas de sustentabilidade e gestão ambiental, e por logística, onde faltam soluções prontas para o impacto do transporte.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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