Redução de resíduos: o que a melhoria contínua lê na caçamba
Matéria-prima no lixo é perda de processo. Um engenheiro químico com carreira executiva em meio ambiente mostra como medir, onde atuar e como levar o assunto a uma diretoria que só olha o lucro.
A redução de resíduos mais barata não acontece na estação de tratamento: acontece no processo que gera o resíduo. Se a caçamba tem matéria-prima e insumo, alguma etapa anterior não transformou o que deveria, e isso é perda de dinheiro antes de ser problema ambiental. Por isso as ferramentas de melhoria contínua servem tão bem à gestão ambiental: elas atacam a causa, e não o descarte.
O raciocínio vem de um episódio do VoittoCast, no quadro Papo de Especialista. Júlio Briales, especialista em excelência operacional e professor de PCP e administração da produção, conversa com Rafael Cardoso, engenheiro químico com experiência em meio ambiente e sustentabilidade em posições estratégicas e de liderança executiva em empresas nacionais e multinacionais de grande porte.
Os dois passam por quatro frentes: ler o resíduo como sinal de perda, medir o impacto por unidade produzida, escolher a ferramenta que a equipe domina e convencer uma diretoria conservadora com argumentos de custo, e não de consciência.
Por que a redução de resíduos começa no processo, e não na caçamba
A frase que organiza o episódio é de engenharia de produção. Rafael lembra que “o resíduo gerado é composto por matérias-primas, insumos e subprodutos do processo”. A consequência é direta: “se eu tenho matéria-prima, insumo dentro do resíduo, na composição do resíduo, é sinal de que eu não estou conseguindo transformar esses itens de maneira adequada”.
Lido assim, o resíduo funciona como um laudo do processo. A análise do que vai para o descarte aponta onde a transformação falhou, e a pergunta que ele propõe muda de dono: “o que eu posso fazer para melhorar essa transformação de forma que o meu resíduo não demonstre que eu tenha perda de processo”?
A conclusão dele cabe numa linha: “Eu estou perdendo dinheiro nesse ponto aqui”. É o mesmo olhar dos desperdícios do Lean, aplicado ao que sai pela porta dos fundos. A redução de resíduos, nesse enfoque, deixa de ser tarefa do setor ambiental e vira pauta de quem cuida da produção.
Fábrica limpa: gerar menos em vez de tratar melhor
Júlio Briales traz para a conversa uma ideia que, segundo ele, ouviu do próprio Rafael tempos antes. É a fábrica limpa: “eu não tenho que ser bom no tratamento do resíduo, eu tenho que ser bom para não gerar o resíduo, começar a trabalhar para trás”.
A analogia que ele usa vem da indústria automotiva. Uma fábrica com área de retrabalho pode se esforçar para deixar essa área mais eficiente, mas o ganho real está em outro lugar: “O que eu tenho que fazer é que o carro não seja retrabalhado”. Na redução de resíduos vale a mesma lógica. Melhorar o tratamento é otimizar o retrabalho.
Ele fecha a comparação com o 5S: a meta não é limpar todo dia, é manter limpo. E Júlio diz por que gosta tanto da filosofia Lean nesse contexto: “eu posso estar utilizando o Lean para melhorar o meu processo para não gerar resíduo”.
A ordem de prioridade: não gerar vem antes de tratar
O que os dois defendem já está escrito na lei brasileira. A Política Nacional de Resíduos Sólidos manda observar uma ordem de prioridade na gestão: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e, por último, disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos.
Os dois primeiros degraus dependem do processo, e é ali que a melhoria contínua trabalha. Os outros quatro só começam quando o resíduo já existe. Rafael cita uma metodologia que formaliza a escolha: “a ONU criou a produção mais limpa”, e ela, segundo ele, “utiliza muitas das ferramentas da melhoria contínua, seja metodologias Lean, seja ferramentas de gestão de risco”.
Um estudo da Revista Brasileira de Ciências Ambientais resume a Produção mais Limpa como uma abordagem para eliminar ou reduzir a poluição ainda no processo produtivo, proposta pelo programa ambiental das Nações Unidas. É a redução de resíduos na fonte, com outro nome.
Como medir a redução de resíduos: poluente por unidade produzida
Perguntado sobre como saber se as metas ambientais estão sendo alcançadas, Rafael responde com a métrica que prefere: “eu gosto muito de trabalhar com indicadores que fazem uma inter-relação entre processo produtivo e impacto ambiental”.
O exemplo é uma chaminé, ponto de descarte de efluente atmosférico. A pergunta que ele faz a ela é “O quanto que eu estou produzindo e o quanto que eu estou emitindo de poluente”. A mesma relação vale para as três frentes que ele cita:
| Frente | Numerador | Denominador |
|---|---|---|
| Emissão atmosférica | poluente emitido | quantidade produzida |
| Resíduos | resíduo gerado | quantidade produzida |
| Efluentes líquidos industriais | efluente gerado | quantidade produzida |
O valor absoluto engana: ele cai quando a produção cai, sem que o processo tenha melhorado nada. O indicador relativo mostra a redução de resíduos que veio do processo, e permite comparar períodos diferentes. Quem monta indicadores de desempenho reconhece a lógica: sem denominador, o número não diz nada sobre eficiência.
Para Rafael, esse indicador ainda serve para fora. Com ele, a empresa consegue mostrar ao mercado financeiro, aos fornecedores, aos consumidores e à sociedade como a sua produção se relaciona com a questão ambiental.
O custo do tratamento cresce com o volume gerado
O argumento de custo aparece quando Rafael fala do maior desafio da carreira. Se a empresa gera mais resíduo, precisa tratar mais, e o resto vem junto: “Mais equipamento, mais gestão, mais custo”.
O caminho inverso, diz ele, é trabalhar o processo para gerar o mínimo possível, ou para que o resíduo saia menos tóxico. Quanto menor e menos poluente, “menor é o custo de tratamento, do controle”. Tratamento é despesa recorrente, e cada tonelada que deixa de nascer some da conta todos os meses.
O problema não fica num lugar só. Um processo que roda mal empurra o impacto para as etapas seguintes, para o meio ambiente e para a saúde e segurança do trabalho. “É uma cascata de problemas”, resume Rafael. Por isso a redução de resíduos aparece no custo de produção antes de aparecer no relatório ambiental.
O obstáculo é cultural: a pessoa muda ao entrar na fábrica
Tecnologia e orçamento não são a principal barreira. “O maior desafio ainda é a mudança de cultura das pessoas”, diz Rafael. Muita gente ainda não enxerga que a atividade que exerce dentro da empresa pode impactar o ambiente em volta.
A observação mais fina do episódio vem a seguir: “Quando essas pessoas saem da indústria, elas têm uma visão diferente, mas quando elas estão dentro da indústria, parece que incorpora alguma coisa e fala que tem que produzir”. Quem está focado em produzir, completa ele, muitas vezes não distingue o que perde em matéria-prima, insumo e retrabalho.
É aí que entra o líder. Na primeira resposta do episódio, Rafael diz que “esse líder tem que ter uma visão do processo bem geral, bem ampla”, e que o papel dele é fazer a equipe conhecer os efeitos de cada atividade. A questão ambiental, insiste, está muito ligada à cultura da empresa. Na conversa também se lembra que a melhoria contínua não é projeto com começo, meio e fim: ela não para, e a qualificação de quem lidera também não.
O sistema de gestão ambiental mostra onde atuar
Uma pergunta do público quis saber como um sistema de gestão ambiental contribui para a melhoria contínua. Rafael responde que o sistema “mapeia cada atividade do processo e quais são os impactos que essas atividades podem estar gerando”, como geração de resíduos e de efluente líquido.
Com esse mapa em mãos, o trabalho de redução de resíduos deixa de ser genérico. Já se sabe onde o problema pode nascer, e “você consegue atuar de maneira cirúrgica no problema, na atividade que pode gerar esse impacto ambiental”. O ganho está no mapa atividade por impacto, que é o coração da ISO 14001, mais do que no certificado.
Para quem já roda Kaizen, o blog detalha como o Kaizen se encaixa na gestão ambiental. Na redução de resíduos, o ponto do episódio é anterior à ferramenta: primeiro mapear, depois atacar a atividade certa.
Que ferramenta de melhoria contínua usar
Rafael se recusa a prescrever uma. “Hoje em dia você tem ferramentas de análise de risco, análise de causa e consequência, PDCA”, lista ele, e conclui que “não tem uma específica”. O critério é escolher a metodologia com que a equipe está familiarizada e que traz confiança, e introduzi-la no sistema de gestão. O ciclo PDCA é a porta de entrada mais comum.
Júlio acrescenta o exemplo mais barato possível: um poka-yoke, o dispositivo à prova de erros, para que o processo não falhe e não gere o resíduo que depois alguém terá de gerenciar. Também na conversa, a equipe precisa conhecer a ferramenta escolhida, porque é isso que espalha o sistema de gestão para além do setor ambiental.
- Escolha a ferramenta que o time já domina, e não a mais sofisticada.
- Adapte ao processo, à cultura, ao recurso e à verba disponíveis, como Júlio resume.
- Comece a redução de resíduos pelo ponto que o mapa de impactos indicou, e não pelo maior volume.
Como defender a redução de resíduos numa diretoria focada em lucro
A pergunta mais difícil do episódio vem do público: como difundir sustentabilidade em lugares conservadores, onde o lucro a todo custo vem primeiro? A resposta de Rafael tem três argumentos, e nenhum deles é moral.
O primeiro é o risco. “O primeiro de tudo aí é a gestão do risco”. A gente tem hoje, diz ele, “multas milionárias por problemas gerados dentro de processos produtivos”. E basta pouco: “Um simples vazamento de óleo, um manejo da substância feita de forma errada, pode atingir uma canaleta ou um sistema de drenagem hídrica e acabar atingindo um rio ou um lago ou mar”. Ele soma a camada jurídica, porque “a questão jurídica, seja ela cível ou seja ela penal, ela é muito grande”.
O segundo é a perda contabilizada. Quando a empresa adota metodologias que reduzem perdas de tempo, retrabalho, matéria-prima e insumo, ela passa a medir isso, e “a diretoria começa a entender o quanto que ela está perdendo, o quanto que ela pode aumentar a margem de retorno do seu produto final”.
O terceiro é o custo do controle. “Quanto mais poluente for o seu resíduo, em detrimento do seu processo produtivo, mais você tem que gastar para investir nesses controles”. E esse gasto, lembra ele, não dá margem ao produto final. Para um diretor financeiro, a redução de resíduos vira corte de despesa que não volta.
Por cima dos três vem a pressão externa. Com as diretrizes de ESG, Rafael prevê que “cada vez mais vão vir formas de verificação se a empresa realmente está tendo gestão em cima das questões ambientais, sociais, de governança”. E o consumidor já age: às vezes a gente paga um real mais caro por um caderno de folha reciclada, lembra ele.
O celular virou fiscal: discurso e prática na mesma foto
Rafael aponta que a imagem de uma empresa hoje se desfaz com a velocidade das redes sociais. Nas palavras dele, “antigamente, muita coisa acontecia, mas tudo era meio por baixo dos panos, era escondido”. “Agora não, agora é muito explícito”.
Júlio dá um exemplo do mesmo dia da gravação. No Instagram, a foto de um abacaxi descascado, enrolado em filme plástico e com preço, numa grande rede de varejo que atua no Brasil inteiro, com a cobrança de quem postou sobre o discurso de sustentabilidade da empresa. A conversa segue para dentro do portão: funcionários com celular na mão registram quando a empresa prega uma coisa e faz outra, e se decepcionam com ela.
A leitura do episódio é positiva: “Não é só o governo para fiscalizar, mas a gente tem mais controladores”. Na síntese final, o head de produtos do Grupo Voitto tira a lição para qualquer programa ambiental: “a política não pode ficar só lá na parede”. Se não for praticada, gera desmotivação e incoerência na equipe.
Para quem quer ver a redução de resíduos com número na mesa, o blog tem um case de Lean Seis Sigma em sustentabilidade numa obra. E, para o outro lado da cadeia, quando o resíduo já virou sucata eletrônica, vale ler sobre mineração urbana.
Ouça o episódio completo
A conversa inteira entre Júlio Briales e Rafael Cardoso, com as perguntas do público, está na página do VoittoCast, onde ficam todos os episódios do quadro Papo de Especialista.
No conselho de carreira, Rafael começa pela ética: “a maior contribuição da pessoa para uma empresa ou para a sociedade, eu acho que é a ética”. Depois, nunca parar de estudar, nem quando já se é especialista. E fecha com o realismo que sustenta toda a redução de resíduos: todo processo produtivo tem impacto, e o trabalho “é você trabalhar para que aquele impacto seja o mínimo possível”.



