Metodologias & Qualidade

Indicadores de qualidade por área: o catálogo com numerador, denominador e a decisão que cada um provoca

Não existe lista universal. O indicador certo depende do que a área entrega e da decisão que o número precisa disparar

Thiago Coutinho
Publicado em 26 de set de 2026  ·  Atualizado em 26 de set de 2026  ·  16 min de leitura

A pergunta chega sempre no mesmo formato. Quais são os indicadores de qualidade por área que a gente deveria acompanhar? A resposta honesta é que não existe uma lista universal. Essa ausência explica por que quase todo artigo sobre o tema é inútil.

A lista copiada de outra empresa produz um efeito previsível. Alguém monta a planilha, a coleta começa, os números aparecem no mês seguinte e ninguém decide nada com eles. Seis meses depois a planilha some e a conclusão errada é que indicador não funciona.

O indicador certo depende de duas coisas. Do que a área entrega, que define o que existe para contar, e de qual decisão o número precisa provocar, que define para quem ele é publicado e com que frequência.

O que dá para padronizar não é a lista, é o critério de escolha e a definição operacional. Este texto é um catálogo por área, com numerador, denominador, frequência e a decisão que cada indicador dispara.

As tabelas e os cálculos deste artigo foram montados no formato do Kit de Indicadores da Voitto. Os números usados como exemplo são ilustrativos, construídos para este texto e conferidos entre si em planilha. Nenhuma empresa real está retratada.

A tese: não existe lista universal, e a lista copiada é o problema

Procure por indicadores de qualidade por área e você acha dezenas de listas parecidas, nenhuma delas vinculada a uma decisão. Elas são parecidas porque foram copiadas umas das outras, não porque descrevem operações parecidas. O indicador certo nasce da entrega da área e da decisão que ele precisa disparar.

Uma fábrica de autopeças, um laboratório de análises e uma operação de crédito medem qualidade com números que não se encontram em lugar nenhum. O que elas têm em comum é o método de escolher, não o conteúdo escolhido.

A teoria de base já está escrita. O que são indicadores de qualidade e por que eles existem é assunto de outro texto. Aqui a pergunta é mais estreita: dada a sua área, qual número vale coletar.

O sintoma da lista copiada é sempre o mesmo. Coleta cara, painel cheio e nenhuma reunião em que alguém mudou de ideia por causa de um número.

As quatro perguntas que escolhem o indicador

Antes de escrever o nome de qualquer indicador, responda quatro perguntas. Se alguma ficar sem resposta, o indicador não entra no painel. Esse filtro elimina mais de metade das listas prontas.

  1. Qual decisão este número vai provocar? Se a resposta é acompanhar, ele não é indicador, é curiosidade. Precisa haver uma ação que muda conforme o valor.
  2. Quem decide, e com que frequência essa pessoa se reúne? A frequência do indicador segue a cadência da decisão, não a facilidade da coleta.
  3. O dado existe hoje, sem alguém digitar de novo? Indicador que depende de digitação paralela morre em três meses. Se não existe, o primeiro projeto é criar a fonte.
  4. É processo ou é resultado? Resultado diz se deu certo, processo diz onde mexer. A distinção está detalhada em indicador de processo e de resultado e muda o que a área consegue fazer com o número.

O passo a passo de construção, da fonte à meta, está em como fazer indicadores de qualidade. Este artigo assume esse passo resolvido e trata só da escolha.

Definição operacional: o que separa indicador de opinião

Dois supervisores medem retrabalho na mesma linha e chegam a valores diferentes. Nenhum dos dois está mentindo. Um conta a peça reprocessada, o outro conta a operação de reprocesso, e a mesma peça que voltou duas vezes vale um para um e dois para o outro.

Definição operacional é a ficha que fecha essa brecha. Ela não é burocracia, é o que torna o número comparável entre turnos, entre plantas e entre meses. Sem ficha escrita, o indicador é opinião com casa decimal.

Campo da fichaPergunta que ele respondeExemplo preenchido para taxa de retrabalho
NumeradorO que exatamente se conta em cimaPeças que passaram por reprocesso e foram aprovadas
DenominadorSobre que base se dividePeças produzidas no mesmo período, incluindo as refugadas
Unidade de contagemA peça, a operação ou a ordemA peça, uma vez por peça, mesmo com dois reprocessos
Janela e corteQue período entra e quando fechaMês civil, apurado no dia 1 às 8h, sem reabertura
ExclusõesO que fica de fora e por quêPeças de lote piloto e de teste de engenharia
Fonte do dadoDe qual sistema o número saiApontamento de produção, campo de disposição da peça
Dono e cadênciaQuem responde e onde é discutidoSupervisor da linha, reunião diária de turno

Os critérios de coleta, amostragem e arredondamento estão em como medir indicadores de qualidade. A régua entre métrica e indicador está em KPI, métrica e indicador.

Quantos indicadores cada área aguenta

O limite não é estatístico, é de atenção. Uma reunião de uma hora não discute trinta números. Ela discute de três a cinco com profundidade, ou passa por trinta sem decidir nada.

NívelIndicadores no painelRitmo de revisãoO que acontece se passar disso
Posto ou célula2 a 3A cada turnoO operador para de olhar e o quadro vira decoração
Área ou setor4 a 6SemanalA reunião vira leitura de planilha, sem contramedida
Diretoria industrial6 a 8MensalDiscussão dispersa e nenhuma prioridade real de recurso
Conselho ou matriz3 a 5TrimestralPerde-se a leitura estratégica no meio do detalhe operacional

A conta muda quando existe um painel da qualidade com camadas. O posto vê o dele, a área vê o agregado, e o mesmo dado sobe sem recoleta. A diferença entre esses números e os indicadores de desempenho gerais é de escopo, não de método.

O catálogo: 35 indicadores por área com numerador e denominador

Esta é a peça de consulta do artigo, o catálogo de indicadores de qualidade por área. Cada linha traz o que vai em cima, o que vai embaixo e com que frequência o número é apurado. A decisão que cada grupo provoca está detalhada nas seções seguintes.

ÁreaIndicadorNumeradorDenominadorFrequência
ProduçãoTaxa de refugoPeças refugadas no períodoPeças produzidas no períodoDiária
ProduçãoTaxa de retrabalhoPeças reprocessadas e aprovadasPeças produzidas no períodoDiária
ProduçãoFTQ ou first time qualityPeças aprovadas sem nenhum reprocessoPeças produzidas no períodoPor turno
ProduçãoOEEPeças boas vezes o tempo de ciclo idealTempo de produção programadoPor turno
ProduçãoCpkDistância da média ao limite mais próximoTrês desvios-padrão do processoPor lote
ProduçãoAderência ao planoItens produzidos na data e na quantidadeItens programados no períodoSemanal
QualidadeNC por origemNCs abertas em cada origemNCs abertas no períodoMensal
QualidadeReincidência de NCNCs com causa-raiz já registrada antesNCs abertas no períodoMensal
QualidadeTempo de tratamento de NCNCs encerradas dentro do prazo acordadoNCs encerradas no períodoMensal
QualidadeEficácia de ação corretivaAções sem recorrência após seis mesesAções verificadas no períodoTrimestral
QualidadeResultado de auditoriaRequisitos conformes na auditoriaRequisitos auditados no cicloPor auditoria
QualidadeCusto da má qualidadeFalha interna, externa, avaliação e prevençãoFaturamento líquido do períodoMensal
ManutençãoMTBFHoras em operação no períodoNúmero de falhas no períodoMensal
ManutençãoMTTRHoras gastas em reparo no períodoNúmero de reparos concluídosMensal
ManutençãoDisponibilidadeMTBF do equipamentoMTBF somado ao MTTRMensal
ManutençãoAderência à preventivaPreventivas executadas dentro da janelaPreventivas programadas no períodoMensal
ManutençãoRetrabalho de OSOS corretivas reabertas em até 30 diasOS corretivas encerradas no períodoMensal
LogísticaOTIFPedidos entregues no prazo e completosPedidos entregues no períodoSemanal
LogísticaAcuracidade de inventárioSKUs dentro da tolerância na contagemSKUs contados no cicloPor ciclo
LogísticaTaxa de avariaVolumes com avaria registradaVolumes expedidos no períodoSemanal
LogísticaErro de separaçãoLinhas de pedido separadas erradasLinhas de pedido separadasSemanal
ComprasPPM de fornecedorPeças rejeitadas vezes um milhãoPeças recebidas do fornecedorMensal
ComprasIQFSoma das notas ponderadas dos critériosCem pontos possíveis no métodoMensal
ComprasLote rejeitadoLotes reprovados no recebimentoLotes inspecionados no períodoMensal
ComprasResposta a NC de fornecedorNCs respondidas dentro do prazoNCs enviadas ao fornecedorMensal
AtendimentoReclamações por milReclamações procedentes vezes milUnidades faturadas no períodoMensal
AtendimentoTempo de resoluçãoReclamações resolvidas dentro do prazoReclamações encerradas no períodoSemanal
AtendimentoReincidência de reclamaçãoReclamações com motivo já tratado antesReclamações procedentes no períodoMensal
AtendimentoÍndice de garantiaCusto de garantia acionada no períodoFaturamento do mesmo períodoMensal
ProjetosAlteração após liberaçãoProjetos alterados depois de liberadosProjetos liberados no períodoMensal
ProjetosErro de especificaçãoNCs com causa em desenho ou normaNCs abertas no períodoMensal
ProjetosRetrabalho de projetoHoras refeitas por erro internoHoras totais lançadas no projetoMensal
RHCobertura da matriz de competênciaPostos com dois ou mais certificadosPostos críticos mapeadosTrimestral
RHTurnover na operaçãoDesligamentos no períodoEfetivo médio do períodoTrimestral
RHHoras de treinamento por pessoaHoras de treinamento realizadasEfetivo médio do períodoTrimestral

Produção: refugo, retrabalho e FTQ medem coisas diferentes

Os três parecem o mesmo indicador e não são. Refugo é perda definitiva, retrabalho é perda de capacidade, e FTQ é o quanto o processo acerta sem ajuda. Publicar só um dos três esconde o outro. Os nomes variam entre empresas, e o glossário da ASQ ajuda a padronizar o vocabulário.

Num mês com 12.400 peças produzidas, 186 refugadas e 434 reprocessadas e aprovadas, o refugo fica em 1,5%, o retrabalho em 3,5% e o FTQ em 95,0%. As 11.780 peças boas de primeira são o que a linha entrega sem socorro.

A decisão de cada um é distinta. Refugo alto manda para material e ajuste de processo. Retrabalho alto manda para capacidade e custo escondido, tema de retrabalho na empresa. FTQ caindo manda parar e investigar antes que o cliente veja.

Produção: OEE, capabilidade e aderência ao plano

O OEE junta disponibilidade, performance e qualidade num número só. Num turno com 450 minutos programados e 45 de parada, a disponibilidade é 90,0%. Com ciclo ideal de 0,45 minuto, a capacidade teórica é 900 peças; saíram 800, então a performance é 88,9%.

Com 760 peças boas de primeira, a qualidade fica em 95,0% e o OEE fecha em 76,0%. O valor sozinho não decide nada. O que decide é qual das três parcelas puxou para baixo, como explica o texto sobre OEE.

A capabilidade responde outra pergunta: o processo cabe na especificação. Com limites em 9,80 e 10,20, média 10,04 e desvio 0,05, o Cp dá 1,33 e o Cpk dá 1,07. A diferença é só descentragem, e o ajuste é de centro, não de dispersão.

Aderência ao plano fecha o trio. Com 204 itens produzidos na data e na quantidade contra 240 programados, a aderência é 85,0%. Para acompanhar a estabilidade ao longo do tempo, a carta de controle separa variação normal de sinal real.

Qualidade e SGQ: não conformidade por origem e reincidência

O indicador mais mal usado do SGQ é a contagem bruta de não conformidades. Ela sobe quando a empresa melhora a detecção e cai quando as pessoas param de registrar. Sozinha, não diz nada.

O que decide é a abertura por origem. Processo, fornecedor, projeto, cliente e auditoria são causas com donos diferentes. Sem essa quebra, a pauta vira discussão sobre o total, e o total não tem dono.

Reincidência é o par obrigatório. Com 200 NCs abertas no ano e 62 delas repetindo causa-raiz já registrada, a reincidência é 31,0%. Esse número julga a análise, não a operação. O conceito e as classificações estão em não conformidade.

Tempo de tratamento completa o conjunto. Das mesmas 200 NCs, 146 foram encerradas dentro do prazo, o que dá 73,0% de aderência ao prazo de tratamento.

Qualidade e SGQ: eficácia de ação corretiva e custo da má qualidade

Ação corretiva encerrada não é ação corretiva eficaz. Eficácia se mede depois, verificando se o problema voltou. Com 45 ações verificadas no trimestre e 27 sem recorrência em seis meses, a eficácia é 60,0%.

Esse é o indicador que a maioria dos SGQ não tem, e é o que separa sistema vivo de sistema de papel. Auditoria interna mede conformidade do sistema; eficácia mede se o sistema resolve. A exigência de analisar a eficácia da ação tomada está no requisito 10.2 da ISO 9001:2015.

O custo da má qualidade traduz tudo para a língua da diretoria. Num mês de R$ 8,4 milhões de faturamento, as cinco categorias somam R$ 502 mil, ou 5,98% da receita.

Categoria do custoValor no mêsParticipação no totalOnde o dado nasce
Falha interna: refugoR$ 118 mil23,5%Apontamento de disposição de peça
Falha interna: retrabalhoR$ 96 mil19,1%Horas de reprocesso lançadas na ordem
Falha externa: garantia e devoluçãoR$ 142 mil28,3%Nota de devolução e ordem de serviço em campo
Avaliação: inspeção e ensaiosR$ 84 mil16,7%Folha de horas do laboratório e da inspeção
Prevenção: treino e plano de controleR$ 62 mil12,4%Centro de custo da qualidade e do treinamento

As três primeiras linhas somam R$ 356 mil, ou 70,9% do total e 4,24% do faturamento. A leitura é direta: gasta-se muito mais consertando do que evitando. O método de apuração está em custo da má qualidade.

Manutenção: MTBF, MTTR, disponibilidade e preventiva

Manutenção tem indicador de qualidade porque equipamento instável produz peça instável. Quando o processo varia junto com o estado da máquina, o Cpk cai sem que ninguém tenha mexido no ajuste.

Com 720 horas de calendário produtivo, 6 falhas e 18 horas totais de reparo, o MTTR é de 3,0 horas e o MTBF de 117,0 horas. A disponibilidade intrínseca fica em 97,5%. O detalhamento dos dois está em MTBF e MTTR.

Os dois indicadores de gestão vêm depois. Aderência à preventiva com 153 executadas na janela contra 180 programadas dá 85,0%, e é o número que antecipa a queda do MTBF nos meses seguintes.

Retrabalho de OS fecha o painel. Com 32 ordens corretivas reabertas em 30 dias sobre 320 encerradas, são 10,0% de reparos que não resolveram. Esse é o FTQ da manutenção.

Logística e suprimentos: OTIF, acuracidade e avaria

O OTIF é o indicador mais fraudado da logística, e a fraude é involuntária. Muita gente calcula a pontualidade e a completude separadas e multiplica as duas. Não é a mesma coisa.

Com 1.250 pedidos entregues, 1.125 no prazo e 1.200 completos, temos 90,0% e 96,0%. O produto ingênuo daria 86,4%, mas a interseção real medida pedido a pedido foi de 1.100, ou 88,0%. Só a interseção conta como OTIF.

Acuracidade de inventário é indicador de qualidade porque saldo errado gera falta, compra de urgência e parada de linha. Com 54 SKUs fora da tolerância em 1.200 contados, a acuracidade é 95,5%.

Avaria mede o quanto o manuseio destrói. Com 96 volumes avariados em 32.000 expedidos, a taxa é de 0,30%, e a decisão é sobre embalagem, empilhamento e treino de empilhadeirista.

Compras e fornecedores: PPM, IQF e resposta a não conformidade

Compras costuma ser medida só por preço e prazo, e é aí que a qualidade paga a conta. O indicador de entrada do fornecedor é o PPM: com 1.125 peças rejeitadas em 250.000 recebidas, são 4.500 PPM.

PPM sozinho ignora entrega e postura. O IQF resolve juntando critérios com peso, e o resultado é uma nota comparável entre fornecedores diferentes.

Componente do IQFPeso no índiceNota do fornecedorContribuição na nota final
Qualidade do lote recebido50%8241,0
Pontualidade e completude da entrega30%9027,0
Resposta a não conformidade20%6012,0
Índice final do fornecedor100%-80,0

A nota final de 80,0 esconde o problema real. Qualidade e entrega seguram o índice, e a resposta a não conformidade em 60 é o que trava o tratamento da causa. É esse componente que vira plano de desenvolvimento, não a média.

Atendimento e pós-venda: reclamação por mil, resolução e garantia

Contagem absoluta de reclamação não serve para comparar mês com mês, porque o volume vendido muda. A normalização por mil unidades resolve. Com 132 reclamações procedentes e 48.000 unidades faturadas, são 2,75 por mil.

Reincidência é o número que dói. Das 132, 33 tratavam de motivo já resolvido antes, ou 25,0%. Uma em cada quatro reclamações é um problema que a empresa já teve a chance de eliminar e não eliminou.

Índice de garantia leva o pós-venda para o financeiro, e tempo de resolução mede a recuperação. As particularidades de operação de serviço, onde não existe inspeção antes da entrega, estão em indicadores de qualidade em serviços.

Setores regulados adicionam uma camada de indicador obrigatório por norma. O caso mais denso é o de indicadores de qualidade em saúde, onde parte da lista não é escolha da instituição.

Projetos e engenharia: o erro que sai caro depois

Engenharia é a área onde o defeito custa menos para corrigir e mais para deixar passar. Um erro de cota num desenho custa uma hora na prancheta e pode custar um lote inteiro na linha.

O indicador central é alteração de projeto após liberação. Com 17 de 40 projetos liberados sofrendo alteração posterior, são 42,5%, e as 63 alterações totais dão 1,58 por projeto liberado.

Erro de especificação vem do outro lado: é a fatia das não conformidades cuja causa-raiz está em desenho, norma ou lista de material. Quando essa fatia cresce, o problema não é a fábrica, é a entrada.

Retrabalho de projeto mede a hora refeita por erro interno sobre a hora total lançada. Ele é o equivalente exato do retrabalho de linha, e quase nenhuma engenharia coleta.

RH e treinamento: por que RH tem indicador de qualidade

A objeção é conhecida. RH não produz peça, então RH não tem indicador de qualidade. A objeção cai na primeira análise de causa que termina em pessoa não treinada no posto.

Cobertura da matriz de competência é o indicador direto. Com 34 postos críticos tendo dois ou mais certificados em 50 mapeados, a cobertura é 68,0%. Os 16 postos restantes dependem de uma pessoa só, e cada falta vira improviso.

Turnover na operação é indicador de qualidade antecedente. Com 21 desligamentos no trimestre sobre efetivo médio de 280, são 7,5% no trimestre e 30,0% anualizados. Curva de aprendizado reiniciando o tempo todo aparece no refugo dois meses depois.

Horas de treinamento por pessoa é o menos útil dos três se ficar sozinho. As 3.360 horas sobre 280 pessoas dão 12,0 horas no trimestre, mas volume de treino não prova competência adquirida. Vale só ao lado da certificação no posto.

O risco do indicador departamental: quando a área ganha e a empresa perde

Todo indicador por área carrega o mesmo perigo. A área otimiza o número dela, consegue, e o resultado global piora. Isso não é má-fé, é o sistema de medição funcionando exatamente como foi desenhado.

Indicador da área AIndicador da área BComo o conflito apareceComo resolver
Compras: preço médio de compraQualidade: PPM de fornecedorFornecedor mais barato eleva a rejeição no recebimentoMedir custo total de aquisição, com o custo de tratar a NC dentro do indicador de compras
Produção: aderência ao planoQualidade: FTQPeça duvidosa é liberada para bater o volume do diaContar aderência apenas sobre peça aprovada de primeira
Manutenção: custo de manutençãoProdução: disponibilidadeCorte de preventiva barateia o mês e quebra o seguinteFixar o par custo e MTBF, revisados na mesma reunião
Logística: custo de freteComercial: OTIFConsolidar carga para baratear frete atrasa o pedidoTratar OTIF como restrição e otimizar frete dentro dela
Atendimento: tempo médio de atendimentoPós-venda: reincidência de reclamaçãoChamado é fechado rápido sem resolver o problemaSó contar o tempo de chamado sem reabertura em 30 dias
Engenharia: prazo de liberaçãoProdução: alteração após liberaçãoDesenho incompleto é liberado para bater a dataLiberar só com checklist de maturidade assinado

O exemplo de compras tem conta fechada. Um fornecedor R$ 0,42 mais barato em 250.000 peças economiza R$ 105 mil por mês. Se o PPM sobe de 4.500 para 12.000, a rejeição passa de 1.125 para 3.000 peças.

São 1.875 peças a mais para tratar. A R$ 74 por ocorrência, entre inspeção, segregação, reposição e parada, o custo extra é de R$ 138.750. O resultado líquido é negativo em R$ 33.750, e o painel de compras continua verde.

Como impedir a otimização local

Não adianta pedir bom senso. O conflito se resolve mudando a estrutura do painel, não o discurso da reunião. Quatro mecanismos dão conta da maioria dos casos.

  1. Indicador em par. Todo indicador que pode ser gamificado ganha um contraindicador obrigatório, publicado do lado, na mesma tela e com o mesmo destaque.
  2. Dono do fim a fim. A cadeia pedido a entrega tem um responsável pelo resultado global, acima dos donos de etapa, com poder de arbitrar o trade-off.
  3. Reunião conjunta. Compras e qualidade revisam PPM e preço na mesma pauta. Separadas, cada uma defende o próprio número e ninguém decide.
  4. Meta com teto e piso. Aderência ao plano com meta de 95% e piso de FTQ em 94% impede ganhar um indicador destruindo o outro.

A transparência ajuda mais do que parece. Quando os dois números do par ficam visíveis para as duas áreas, como propõe a gestão à vista, o trade-off deixa de ser invisível e vira pauta.

O indicador que falta na maioria das empresas

Depois de percorrer oito áreas, o buraco mais comum não está em nenhuma delas. Está no próprio sistema de medição. Quase ninguém mede quantos dos seus indicadores provocaram decisão.

O cálculo é simples: indicadores que geraram ação registrada no período, dividido pelo total de indicadores publicados. Num painel de 34 indicadores com 9 gerando ação no trimestre, são 26,5%. Três em cada quatro números são coletados e ignorados.

Esse número é desconfortável porque julga a gestão, não a operação. E é o único que justifica cortar indicador, que é a decisão mais difícil e mais rentável de qualquer painel.

Sintoma no painelIndicador que está faltandoDecisão que ele destrava
Tudo verde e cliente reclamandoReincidência de reclamação por motivoReabrir a causa-raiz em vez de comemorar o mês
Número corrige e o problema voltaEficácia de ação corretiva verificada em seis mesesReprovar a ação e refazer a análise
Trinta indicadores e nenhuma pautaPercentual de indicadores que geraram açãoCortar o que ninguém usa e liberar a coleta
Área verde e a seguinte apagando incêndioIndicador de entrega entre áreasMover a meta para o resultado fim a fim
Refugo estável e custo subindoCusto da má qualidade aberto por categoriaRealocar verba de falha para prevenção

Para sair do papel sem projeto de TI, uma planilha resolve o começo. O modelo de indicadores em Excel já traz ficha, cálculo e histórico, e o vocabulário básico está em o que é KPI.

Perguntas frequentes

Quais são os indicadores de qualidade por área mais usados?
Em produção, refugo, retrabalho, FTQ, OEE, Cpk e aderência ao plano. Em qualidade, não conformidade por origem, reincidência, eficácia de ação corretiva e custo da má qualidade. Em manutenção, MTBF, MTTR e disponibilidade. Em logística, OTIF, acuracidade de inventário e avaria. Em compras, PPM e IQF. Em atendimento, reclamação por mil e reincidência.
Existe uma lista universal de indicadores de qualidade?
Não. O indicador certo depende do que a área entrega e de qual decisão o número precisa provocar. Uma lista copiada de outra empresa produz coleta cara sem uso, porque as decisões dali não são as suas. O que dá para padronizar é o critério de escolha e a definição operacional, não o conteúdo da lista.
Como escolher o indicador certo para a minha área?
Responda quatro perguntas antes de escrever o nome dele. Qual decisão este número vai provocar. Quem decide e com que frequência se reúne. O dado já existe sem digitação paralela. É indicador de processo ou de resultado. Se alguma ficar sem resposta, o indicador não entra no painel.
Qual a diferença entre refugo, retrabalho e FTQ?
Refugo é perda definitiva de material, retrabalho é perda de capacidade com a peça recuperada, e FTQ é o quanto o processo acerta sem nenhum socorro. Com 12.400 peças produzidas, 186 refugadas e 434 reprocessadas, o refugo é 1,5%, o retrabalho 3,5% e o FTQ 95,0%. Cada um manda para uma ação diferente.
Quantos indicadores cada área deve ter?
De dois a três no posto ou célula, de quatro a seis na área, de seis a oito na diretoria industrial e de três a cinco no conselho. O limite não é estatístico, é de atenção. Uma reunião de uma hora discute de três a cinco números com profundidade ou passa por trinta sem decidir nada.
O que é definição operacional de indicador?
É a ficha que fixa numerador, denominador, unidade de contagem, janela de apuração, exclusões, fonte do dado, dono e cadência. Sem ela, dois supervisores medem o mesmo indicador na mesma linha e chegam a valores diferentes sem que nenhum esteja errado. É o que separa indicador de opinião com casa decimal.
Por que RH tem indicador de qualidade?
Porque boa parte das análises de causa termina em pessoa não treinada no posto. Cobertura da matriz de competência mostra quantos postos críticos têm mais de um certificado. Turnover na operação antecipa queda de qualidade, já que curva de aprendizado reiniciando aparece no refugo dois meses depois.
Como calcular o OTIF corretamente?
Divida os pedidos entregues no prazo e completos ao mesmo tempo pelo total de pedidos entregues. Não multiplique pontualidade por completude. Com 1.250 pedidos, 1.125 no prazo e 1.200 completos, o produto daria 86,4%, mas a interseção real medida pedido a pedido foi de 1.100, ou 88,0%.
O que é otimização local em indicadores?
É quando a área melhora o próprio indicador e piora o resultado da empresa. Compras baixa o preço e a rejeição sobe. No exemplo do artigo, uma economia de R$ 105 mil vira R$ 138.750 de custo extra de tratamento, com resultado líquido negativo em R$ 33.750 e o painel de compras verde.
Qual indicador de qualidade falta na maioria das empresas?
O percentual de indicadores que provocaram decisão. Divide-se os indicadores que geraram ação registrada pelo total publicado. Num painel de 34 indicadores com 9 gerando ação no trimestre, são 26,5%, ou seja, três em cada quatro números são coletados e ignorados. É o único que justifica cortar indicador.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

Conteúdos de Metodologias & Qualidade

Materiais, resumos e podcasts para você se aprofundar no tema.

Ver todos os conteúdos de Metodologias & Qualidade