Metodologias & Qualidade

Retrabalho: como medir, quanto custa de verdade e por que ele vira falta de capacidade

O retrabalho é o desperdício mais subestimado porque a peça é recuperada e o custo some dentro da mão de obra. Veja como medir, quanto custa e como virar capacidade

Jamille Rocha
Por Jamille Rocha
Publicado em 1 de abr de 2020  ·  Atualizado em 6 de out de 2026  ·  17 min de leitura
Retrabalho: saiba como essa prática pode afetar a produtividade de sua empresa!

Uma fábrica com fila de pedido atrasada monta um projeto de expansão, cota um centro de usinagem novo e leva o investimento para aprovação. O diagnóstico é falta de capacidade. Quando alguém abre o apontamento do chão, aparece outra coisa. Quase um quinto das horas da célula vai para retrabalho, ou seja, para refazer peça que já tinha sido produzida.

O retrabalho é o desperdício mais subestimado da indústria justamente porque ele não aparece na contabilidade como perda. A peça é recuperada, o pedido é entregue, o cliente não reclama e o custo se dissolve dentro da mão de obra e da ocupação de máquina.

Refugo dói e por isso é medido. Ele vira uma linha de perda, entra na apuração e alguém precisa explicar. A peça recuperada não gera linha nenhuma. Ela some dentro de rubricas que já existiam, e o indicador financeiro continua liso.

Este artigo trata de três coisas. A primeira é o que separa retrabalho de reparo, refugo e reclassificação. A segunda é como medir a taxa sem esconder nada. A terceira é como converter essa taxa em horas de capacidade e em dinheiro.

Os números usados aqui vêm de um exemplo de célula de usinagem montado no formato do Kit de Gestão da Qualidade da Voitto. Volume, tempo de ciclo, custo horário e margem são ilustrativos e internamente consistentes: cada etapa da conta foi conferida em planilha e fecha com as demais. Nenhuma empresa real está descrita ali.

O desperdício que a contabilidade não enxerga

Retrabalho é refazer, total ou parcialmente, um trabalho já executado, porque o resultado não atendeu à especificação. A peça volta ao processo, consome hora de gente e de máquina de novo, e sai conforme. Como ela é entregue, a perda não vira linha de prejuízo em lugar nenhum.

A American Society for Quality trata o termo como a ação de corrigir um produto não conforme para que ele atenda aos requisitos. A definição é simples. O problema é contábil, não semântico.

Refugo tem destino visível: a peça é sucateada, o material vira perda e o valor aparece. O que foi recuperado, não. Ele entra no custo de conversão do mês junto com tudo o mais e fica indistinguível do trabalho produtivo.

O efeito colateral é que a empresa passa a ler o próprio gargalo errado. Ela vê hora de máquina consumida e conclui que falta máquina. A causa real está na má qualidade que consome a capacidade que já existe.

Retrabalho, reparo, refugo e reclassificação não são sinônimos

As quatro palavras aparecem misturadas no dia a dia e têm tratamento operacional e contábil diferente. Confundir as quatro é o primeiro jeito de perder o número.

CategoriaO que acontece com a peçaAtende à especificação original no fim?Como costuma ser lançadoOnde a perda se esconde
RetrabalhoVolta ao processo e é refeita ou corrigida até ficar conformeSimDiluído em mão de obra e ocupação de máquinaNa capacidade consumida duas vezes
ReparoRecebe uma correção que a deixa utilizável, mas fora do padrão originalNão, opera sob concessãoCusto de correção mais registro de concessãoNo risco de garantia e no histórico do produto
RefugoÉ descartada ou reciclada como materialNão se aplicaPerda de material com valor explícitoQuase não se esconde, é a mais visível
ReclassificaçãoÉ aceita em uma classe inferior e vendida com descontoNão, muda de gradeReceita menor, sem lançamento de perdaNa margem, não no custo

A diferença entre retrabalho e reparo importa para auditoria. Reparo pressupõe uma concessão formal, que é uma não conformidade aceita com registro e aprovação. Retrabalho não precisa de concessão, porque o resultado final volta ao padrão.

Reclassificação é a mais traiçoeira das quatro. Ela não gera custo adicional visível, gera receita menor. Uma empresa pode reclassificar 8% da produção durante anos e nunca ver isso em nenhum indicador de qualidade.

Por que retrabalho pode ser pior que refugo

A intuição diz que refugar é pior, porque se perde a peça inteira. Em processo com capacidade restrita, a conta inverte.

Uma peça refugada consome o tempo até a etapa em que falhou e sai do sistema. Uma peça retrabalhada consome esse mesmo tempo, volta para a fila e consome de novo. A capacidade é paga duas vezes pelo mesmo item.

Pior: a segunda passagem quase nunca tem o tempo de ciclo da primeira. Envolve desmontar, limpar, reposicionar, corrigir, reinspecionar. É comum que a correção leve duas a quatro vezes o tempo original da operação.

E existe um terceiro efeito, que é o mais caro e o menos medido. A peça que voltou ocupa o lugar de outra na fila. Tudo que estava atrás dela atrasa, e o atraso se propaga para as etapas seguintes.

  • Refugo: perde material e o tempo já investido, libera a fila imediatamente.
  • Retrabalho: preserva o material, consome tempo extra na restrição e empurra a fila inteira.
  • Regra prática: quando a etapa que retrabalha é o gargalo, retrabalhar custa mais que refugar e produzir de novo em etapa livre.

Taxa de retrabalho por peça: fácil de calcular, fácil de enganar

A medida mais comum divide peças retrabalhadas por peças produzidas no período. É a que quase toda empresa usa, e é um bom ponto de partida entre os indicadores de qualidade de rotina.

Na célula do exemplo, a produção é de 12.000 peças por mês e 780 delas voltam para correção. A taxa por peça é 6,5%. O número é verdadeiro e é insuficiente.

Ele trata toda correção como equivalente. Um ajuste de 2 minutos e uma recuperação de 90 minutos contam a mesma coisa. A taxa por peça mede frequência, não consumo.

Isso cria um viés previsível na priorização. O produto de alto volume e correção rápida domina o ranking, enquanto o produto de baixo volume e correção demorada some do radar, mesmo consumindo mais recurso.

A taxa por peça continua útil para uma coisa específica: medir estabilidade do processo ao longo do tempo. Para decidir onde investir esforço, ela sozinha engana.

Taxa de retrabalho por hora: a medida que muda a decisão

A segunda medida divide horas gastas em correção pelas horas totais trabalhadas no período. Ela responde outra pergunta: quanto da minha capacidade foi para refazer.

Na mesma célula, as 780 peças levam 18 minutos cada para voltar ao padrão, contra 6 minutos de ciclo normal. São 234 horas de correção contra 1.200 horas produtivas, o que dá 1.434 horas totais.

A taxa por hora fica em 16,3%. A taxa por peça era 6,5%. A mesma operação, medida de dois jeitos legítimos, produz números que diferem por um fator de 2,5.

Quando existem vários produtos na mesma célula, a divergência entre as duas medidas fica explícita. A tabela compara dois deles.

ProdutoVolume mensalTaxa por peçaMinutos por correçãoHoras de retrabalho no mês
A8.000 peças4,0%526,7
B4.000 peças2,0%4560,0

O produto A tem o dobro da taxa por peça. O produto B consome 2,25 vezes mais horas. Se a priorização olhar só a primeira coluna de taxa, o time ataca A e deixa intacto o que realmente come a capacidade.

A recomendação é medir as duas e publicar as duas lado a lado. Frequência aponta onde o processo é instável. Horas apontam onde está o dinheiro. Vale a pena consultar como medir indicadores de qualidade antes de fechar a fórmula.

O retrabalho invisível: o que o operador resolve e não registra

Existe uma terceira taxa, que é a real, e quase nenhuma empresa conhece. Ela inclui a correção que o operador faz no próprio posto, em poucos minutos, sem abrir apontamento.

Essa correção não é ocultada por má fé. Ele é ocultado porque registrar custa mais tempo que corrigir, porque o sistema exige justificativa e código, e porque apontar problema historicamente atrai cobrança em vez de ajuda.

Em um levantamento de dez dias com observação direta no posto, uma célula que registrava 2,1% de retrabalho apresentou 6,5% real. A diferença é de 4,4 pontos, ou seja, 67,7% de tudo que era refeito nunca chegou ao indicador.

Em peças, o sistema mostrava 252 correções por mês e as reais eram 780. As 528 invisíveis carregavam o padrão de causa mais útil para investigar.

O efeito colateral é humano e vale dizer com todas as letras. O operador que passa o turno consertando o que não deveria ter que consertar perde o vínculo com o resultado do próprio trabalho. Desmotivação, absenteísmo e rotatividade são sintomas comuns disso.

Como trazer o que está invisível para o indicador

Nenhuma das ações abaixo depende de sistema novo. Todas dependem de reduzir o custo de registrar e de mudar o que acontece depois que alguém registra.

  1. Corte o formulário: o apontamento tem que caber em três campos, que são peça, motivo e minutos. Justificativa escrita mata o registro.
  2. Coloque o registro no posto: folha de verificação física na bancada funciona melhor que terminal a vinte metros.
  3. Faça uma campanha de dez dias: observação direta, com alguém contando o que acontece, para calibrar o gap entre registrado e real.
  4. Separe registro de avaliação: enquanto o número for usado para cobrar operador, ele vai ficar baixo e falso.
  5. Devolva resposta em 48 horas: registro que não gera ação visível deixa de ser feito na terceira semana.

A quarta linha é a mais importante e a mais ignorada. Toda empresa que colocou meta de retrabalho por operador obteve o mesmo resultado, que foi indicador em queda e problema constante.

O custo real do retrabalho, parcela por parcela

O custo de uma peça retrabalhada não é o salário do operador multiplicado pelo tempo. Essa é a menor das parcelas. A tabela abre todas, com a base de cálculo e o valor mensal do exemplo.

Parcela do custoBase de cálculoValor mensal no exemploEntra no custo do produto?
Mão de obra da correção234 h x R$ 42,00/hR$ 9.828,00Sim, diluída em conversão
Material adicional780 peças x R$ 11,50R$ 8.970,00Sim, diluído em consumo
Ocupação de máquina234 h x R$ 68,00/hR$ 15.912,00Sim, diluída em taxa horária
Reinspeção e movimentação78 h x R$ 42,00/hR$ 3.276,00Sim, diluída em indireto
Custo de oportunidade1.500 peças x R$ 23,00 de margemR$ 34.500,00Não, nunca é lançado
Total desembolsadoSoma das quatro primeiras parcelasR$ 37.986,00-
Total econômicoDesembolso mais oportunidadeR$ 72.486,00-

Repare na coluna da direita. As quatro primeiras parcelas existem no sistema, só que espalhadas em rubricas que ninguém soma. A quinta não existe em lugar nenhum e é a maior de todas.

O custo de oportunidade só vale quando existe demanda não atendida. No exemplo, a demanda é de 13.500 peças e a entrega é de 12.000, então 1.500 peças por mês são vendas perdidas. Sem fila de pedido, essa parcela é zero.

Em base anual, o desembolso direto soma R$ 455.832,00 e o total econômico chega a R$ 869.832,00. O custo direto por peça retrabalhada fica em R$ 48,70, e diluído sobre toda a produção dá R$ 3,17 por peça.

Da taxa ao dinheiro: o exemplo numérico completo

A conta abaixo é a que transforma um percentual de qualidade em argumento de investimento. Cada linha usa apenas o resultado da anterior.

Etapa da contaFórmulaResultado
1. Peças retrabalhadas12.000 x 6,5%780 peças/mês
2. Horas de correção780 x 18 min / 60234 h/mês
3. Peças que caberiam nessas horas14.040 min / 6 min de ciclo2.340 peças/mês
4. Capacidade perdida2.340 / 12.00019,5% da produção
5. Taxa por hora234 / 1.43416,3% das horas
6. Horas úteis de uma máquina2 turnos x 8 h x 21 dias x 80%268,8 h/mês
7. Fração de máquina recuperada234 / 268,887,1%
8. Investimento evitado87,1% x R$ 680.000,00R$ 591.964,29

A linha 4 é a que costuma parar a reunião. Uma taxa de retrabalho de 6,5% consome capacidade equivalente a 19,5% da produção, porque a correção leva três vezes o tempo do ciclo normal.

As linhas 6 a 8 fecham o argumento. As 234 horas devolvidas equivalem a 87,1% da capacidade útil de um centro de usinagem novo, ao custo de R$ 680.000,00. Eliminar o retrabalho entrega quase uma máquina inteira sem comprar máquina nenhuma.

Por que a empresa compra máquina em vez de resolver

A decisão errada é racional dentro da informação que a empresa tem. Se o único dado disponível é hora de máquina ocupada contra hora disponível, a leitura de falta de capacidade é a única possível.

O OEE ajuda a desfazer isso, desde que a hora de correção seja apontada como tal. Quando a correção é lançada como produção normal, o indicador de desempenho fica bonito e o problema continua invisível.

Existe também um componente de incentivo. Projeto de aquisição tem dono, orçamento e reconhecimento. Projeto de redução de retrabalho tem reunião semanal e resultado que aparece em seis meses.

O contraponto é o payback. No exemplo, baixar a taxa de 6,5% para 2,0% libera 162 horas por mês e economiza R$ 26.298,00 mensais, ou R$ 315.576,00 por ano. Com R$ 85.000,00 investidos em dispositivos e padrão, o retorno vem em 3,2 meses.

Nenhum centro de usinagem devolve capital nesse prazo. O que falta não é viabilidade, é a conta feita e apresentada no formato que a diretoria lê.

Estratificar a origem antes de propor solução

Taxa agregada localiza o problema no tempo, não no processo. Para achar onde agir, o número precisa ser quebrado em eixos, e cada eixo responde uma pergunta diferente.

Eixo de estratificaçãoPergunta que ele respondePadrão que costuma aparecerContramedida indicada
Produto ou famíliaA geometria ou o material puxam o defeito?Uma família concentra a maior parte das horasRevisão de projeto e de tolerância
Etapa do fluxoOnde o defeito é gerado e onde ele é detectado?Detecção muito depois da geraçãoAntecipar o ponto de inspeção
TurnoO método muda conforme quem está na fábrica?Um turno concentra o dobro dos demaisPadrão único e treinamento cruzado
Posto ou operadorÉ variação de execução ou de condição do posto?O posto explica mais que a pessoaAjuste de dispositivo antes de treino
Fornecedor ou loteA variação entra pronta na porta?Lotes específicos disparam o indicadorCritério de recebimento e plano com o fornecedor

O diagrama de Pareto sobre essa estratificação costuma mostrar que dois ou três cortes respondem pela maior parte das horas. Ordenar por horas, e não por contagem de peças, é o detalhe que muda o ranking.

Um cuidado com o eixo de operador. Ele é o mais fácil de coletar e o mais perigoso de interpretar. Quando o mesmo posto produz taxa alta com qualquer pessoa, a variável é o posto.

A causa raiz quase sempre está a montante

A etapa em que o retrabalho aparece raramente é a etapa que o criou. Solda que trinca costuma vir de preparação ruim de junta. Pintura que descasca costuma vir de limpeza incompleta.

Essa defasagem entre geração e detecção é a razão de a análise parar cedo. O time investiga a operação onde o defeito foi encontrado, ajusta parâmetro ali e o problema volta no lote seguinte.

Um roteiro de análise de causa raiz estruturado força a subida no fluxo. Os cinco porquês funcionam bem quando o caminho é linear, e o diagrama de Ishikawa funciona melhor quando há muitas hipóteses concorrentes.

As origens mais comuns encontradas a montante costumam ser estas:

  • Especificação ambígua ou requisito do cliente entendido de forma diferente por engenharia e produção.
  • Projeto com tolerância mais apertada que a capacidade real do processo disponível.
  • Programação ou parametrização de sistema desatualizada em relação ao desenho vigente.
  • Matéria prima ou componente dentro da tolerância do fornecedor e fora da faixa que o processo aguenta.
  • Planejamento que libera ordem sem o ferramental ou o dispositivo correto disponível.

Repare que nenhuma delas se resolve na operação onde o defeito apareceu. Todas exigem que alguém de fora daquele posto entre na análise.

Capabilidade: quando o processo gera defeito por desenho

Existe uma classe de retrabalho que não tem causa especial nenhuma. Ela é o resultado esperado de um processo cuja variação natural é maior que a janela de especificação.

A capabilidade do processo mede exatamente essa relação. Com o processo centrado, a fração fora de especificação decorre direto do Cpk, e a tabela mostra o que cada nível entrega.

Cpk do processoPeças fora de especificação por milhãoPeças por 10.000 que voltamLeitura prática
0,6744.431444Retrabalho crônico, nenhum treinamento resolve
0,8510.772108Uma peça a cada cem volta por variação normal
1,002.70027Limite mínimo, sem folga para desvio de centro
1,33660,7Referência usual de processo capaz
1,670,540,005Folga suficiente para deslocamento de média
2,00Menos de 0,01Praticamente zeroMeta de projeto Seis Sigma

A leitura operacional é dura. Processo com Cpk 0,85 vai devolver cerca de uma peça a cada cem por variação comum, e cobrar isso da equipe é cobrar o impossível.

Antes de qualquer campanha de conscientização, vale medir. Se o Cpk está abaixo de 1,0, a agenda é reduzir variação ou renegociar tolerância. O controle estatístico de processo é o instrumento que separa causa comum de causa especial e evita ajuste em cima de ruído.

Curva larga que ultrapassa LSL e USL (alta chance de defeito) ao lado de curva estreita dentro dos limites (alta capabilidade)
Com Cpk abaixo de 1,0, o processo é a curva da esquerda: parte dela cai fora dos limites a cada lote, e a correção vira rotina sem nenhuma causa especial. Adaptado da formação Green Belt Lean Seis Sigma da Voitto.

Poka yoke, jidoka e o custo de detectar tarde

Treinamento e atenção reduzem o problema até um piso e param ali. Acima desse piso, a única coisa que muda o patamar é mudar a condição física do trabalho.

O poka yoke é o dispositivo que impede o erro de virar defeito. Pino que só entra na posição certa, sensor que não libera o ciclo sem a peça assentada, gabarito assimétrico que não aceita montagem invertida.

O jidoka opera no nível seguinte. Ele dá ao processo e à pessoa autoridade e meio para parar quando a condição anormal aparece, em vez de seguir produzindo e acumular peça para corrigir depois.

A combinação das duas coisas ataca a raiz econômica do problema, porque o custo da correção cresce com a distância entre onde o defeito nasce e onde ele é encontrado.

Uma peça corrigida na própria operação custa o tempo do ajuste. A mesma peça corrigida na inspeção final custa o ajuste mais o desmonte, mais a movimentação, mais a reinspeção, mais o lugar que ela tira da fila.

O FMEA antecipa essa decisão ainda no projeto do processo. Ele força a listar modo de falha, efeito e detecção antes de a primeira peça existir, e a escolher onde vale instalar controle.

FMEA em três passos, identificar, hierarquizar por NPR e prevenir, com a fórmula NPR = S × O × D e o significado de cada fator
Severidade, ocorrência e detecção multiplicadas mostram, antes da primeira peça, onde o controle precisa ficar para a correção não chegar à inspeção final.

Trabalho padronizado, treinamento e o papel do RH

Boa parte das correções nasce de variação de método. Três pessoas fazem a mesma operação de três jeitos, e dois deles produzem peça fora.

O trabalho padronizado resolve isso definindo sequência, tempo e estoque em processo. O procedimento operacional padrão documenta o como de cada tarefa, com o detalhe que faz diferença no resultado.

Padrão que mora em pasta não muda nada. Ele precisa estar no posto, escrito na linguagem de quem executa, com foto, e revisado toda vez que a operação muda de verdade.

A gestão de pessoas tem papel direto aqui, e não é papel de apoio. Matriz de competência por posto, plano de treinamento ligado às lacunas dessa matriz e acompanhamento de curva de aprendizagem de quem entrou há pouco são contramedidas de retrabalho.

Há um sinal que vale monitorar. Quando absenteísmo e rotatividade sobem em uma célula, a taxa de retrabalho costuma subir junto com atraso de algumas semanas, porque a proporção de gente em curva de aprendizagem aumenta.

Muda, mura e muri: o defeito que vem do fluxo

Na classificação clássica dos desperdícios, correção de defeito é um dos sete tipos de muda. A leitura mais útil, porém, não isola o defeito dos outros dois termos do trio.

O Lean Enterprise Institute descreve muda, mura e muri como problemas encadeados, e o trio muda, mura e muri explica bem a dinâmica do retrabalho. Irregularidade de programação gera pico de carga, pico gera sobrecarga de gente e de máquina, e sobrecarga gera defeito.

Muri, Mura e Muda em barras contra a linha de capacidade: sobrecarga acima dela, ritmo irregular e capacidade ociosa
Os três cartões são os elos da cadeia do texto: a irregularidade gera o pico, o pico vira sobrecarga, e a sobrecarga devolve peça para correção.

É por isso que a taxa costuma variar com o dia do mês. A última semana concentra volume, o ritmo sobe acima do sustentável e o indicador acompanha.

Essa é uma das razões de o lean manufacturing tratar fluxo e qualidade como o mesmo assunto. Separar os dois temas em projetos diferentes costuma fazer cada um resolver metade do problema do outro.

Meta de retrabalho zero: o que ela produz de verdade

A meta de zero é tecnicamente defensável e comunicacionalmente perigosa. O que ela provoca depende inteiramente de como a empresa reage ao número reportado.

Se a meta desce como cobrança por área ou por pessoa, o resultado é previsível. O indicador cai rápido no primeiro trimestre e o consumo de hora e de material não muda, porque a correção continua acontecendo fora do registro.

O sinal de que isso está em curso é simples de detectar. A taxa registrada cai, a produtividade por hora não melhora e o consumo de material por peça boa continua igual. Os três números juntos denunciam o que cada um sozinho esconde.

A alternativa que funciona é separar ambição de avaliação. Zero é a direção do processo, e não a nota de ninguém. O que se avalia é a quantidade de causas eliminadas e o tempo de resposta ao registro.

Empresas que fizeram essa separação costumam ver o indicador subir antes de cair. Esse pico inicial é a correção invisível aparecendo, e é a melhor notícia possível no começo de um projeto desses.

Roteiro de ataque em 90 dias

A sequência abaixo assume uma célula ou linha piloto, e não a fábrica inteira. Atacar tudo ao mesmo tempo é a forma mais confiável de não concluir nada.

  1. Semanas 1 e 2: escreva a regra que separa retrabalho, reparo, refugo e reclassificação, e treine quem aponta.
  2. Semanas 1 a 3: rode observação direta no posto para calibrar o gap entre registrado e real.
  3. Semana 3: publique as duas taxas, por peça e por hora, e converta as horas em capacidade e em dinheiro.
  4. Semana 4: estratifique por produto, etapa, turno, posto e fornecedor, e ordene por horas.
  5. Semanas 5 e 6: meça a capabilidade das características críticas dos dois primeiros cortes do Pareto.
  6. Semanas 5 a 8: faça a análise de causa raiz subindo o fluxo, e registre a contramedida com dono e prazo.
  7. Semanas 7 a 10: instale dispositivos de prevenção e antecipe os pontos de detecção que ficarem viáveis.
  8. Semanas 9 a 12: revise padrão e procedimento das operações alteradas e confirme o efeito nas duas taxas.

O critério de sucesso do piloto não é o percentual final. É ter a conta completa, do apontamento até as horas de capacidade e o valor em reais, funcionando de forma que ela possa ser repetida na célula seguinte.

Perguntas frequentes

O que é retrabalho?
Retrabalho é refazer, no todo ou em parte, um trabalho já executado, porque o resultado não atendeu à especificação. A peça volta ao processo, consome hora de gente e de máquina novamente e sai conforme. Como ela é entregue no fim, o custo se dilui em mão de obra e ocupação, sem virar linha de perda.
Qual a diferença entre retrabalho e refugo?
No retrabalho a peça é recuperada e volta a atender à especificação original. No refugo ela é descartada ou reciclada como material. O refugo gera perda visível e explícita na apuração. O retrabalho preserva o material e consome capacidade duas vezes, o que costuma sair mais caro quando a etapa é o gargalo.
Qual a diferença entre retrabalho e reparo?
Retrabalho devolve a peça à especificação original e não exige concessão. Reparo deixa a peça utilizável, mas fora do padrão original, e por isso depende de uma concessão formal, com registro e aprovação. Do ponto de vista de auditoria e de garantia, os dois casos têm tratamento e risco diferentes.
Como calcular a taxa de retrabalho?
Existem duas fórmulas e vale usar as duas. A taxa por peça divide peças retrabalhadas por peças produzidas no período. A taxa por hora divide horas gastas em correção pelas horas totais trabalhadas. A primeira mede frequência e a segunda mede consumo de capacidade, que é o que vira dinheiro.
Qual é uma taxa de retrabalho aceitável?
Não existe referência única, porque o número depende do processo, da tolerância e do custo unitário da correção. O critério mais útil não é comparar com o mercado. É comparar a taxa com a capabilidade do próprio processo: se o Cpk é 0,85, cerca de 1% das peças vai voltar por variação comum.
Como descobrir o retrabalho que ninguém registra?
Rode uma observação direta no posto por cerca de dez dias, com alguém contando o que realmente acontece, e compare com o apontado no sistema. Em paralelo, reduza o registro a três campos, coloque a folha no posto e garanta que apontar problema gere resposta rápida, não cobrança.
Quanto custa uma peça retrabalhada?
Some cinco parcelas: mão de obra da correção, material adicional, ocupação de máquina, reinspeção com movimentação e o custo de oportunidade da capacidade consumida. No exemplo deste artigo, as quatro primeiras somam R$ 48,70 por peça retrabalhada, e a quinta parcela sozinha vale R$ 34.500,00 por mês.
Como transformar retrabalho em capacidade?
Multiplique as peças retrabalhadas pelo tempo médio de correção para achar as horas gastas. Divida essas horas pelo tempo de ciclo normal para saber quantas peças caberiam ali. No exemplo, 6,5% de taxa viraram 234 horas por mês, equivalentes a 2.340 peças, ou 19,5% da produção mensal.
Retrabalho alto significa que falta máquina?
Quase sempre é o contrário. Retrabalho alto consome a capacidade que já existe e produz o mesmo sintoma de falta de máquina. No exemplo do artigo, as 234 horas perdidas por mês equivalem a 87,1% da capacidade útil de um equipamento novo, com investimento evitado próximo de R$ 592 mil.
Meta de retrabalho zero funciona?
Funciona como direção do processo e falha como nota individual. Quando a meta vira cobrança por pessoa ou por área, o registro cai e a correção continua acontecendo fora do sistema. O sinal de alerta é taxa caindo sem melhora de produtividade por hora nem de consumo de material por peça boa.
Jamille Rocha
Escrito por
Jamille Rocha
Especialista em SEO e ASO, Grad. em Engenharia Elétrica com Habilitação em Sistemas Eletrônicos - UFJF. Participou do Cesar Summer Job edição 2019, desenvolvendo soluções digitais …

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