5 Porquês: o que é, como fazer e 12 exemplos por segmento
Os 5 Porquês são a pergunta mais barata da gestão da qualidade, e a mais fácil de fazer errado: como conduzir uma sessão que termina em processo e não em culpado, com 12 exemplos preenchidos.
Nos primeiros anos da Voitto a gente tinha um problema que voltava todo mês: certificado emitido com o nome errado. Fui eu que conduzi a investigação. Cheguei em "falta de atenção na conferência", montei um treinamento caprichado para a equipe e dei o caso por encerrado. Quarenta dias depois, a colaboradora que tinha feito o treinamento apareceu na minha sala com o certificado errado na mão: "Thiago, eu conferi. Está errado do mesmo jeito." O problema tinha voltado, com outra pessoa. Levei quarenta dias e um constrangimento para entender uma coisa: parar num "faltou atenção" não é chegar na causa. É desistir da pergunta no degrau em que ela ainda dói pouco. Os 5 Porquês são a ferramenta mais barata do Lean Seis Sigma e a mais fácil de fazer errado.
Essa é a ideia por trás deles. Neste guia você vai ver o que são os 5 Porquês e como conduzir uma sessão que não vira caça às bruxas. E 12 investigações preenchidas, de centro de distribuição a pronto atendimento, cada uma com o PDF para baixar.
O que são os 5 Porquês?
Os 5 Porquês são uma técnica de investigação de causa-raiz. Você parte de um problema concreto e pergunta "por quê" sucessivamente, usando cada resposta como base da pergunta seguinte. A cadeia só para numa causa que esteja sob controle da gestão. A cadeia desce do sintoma para o método.
No meu livro, o Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt (Editora Atlas), ele aparece no capítulo 4, "Skills do Especialista em Lean Seis Sigma". O que eu escrevo na página 29 é direto. "Ferramentas de análise de processos são essenciais para a detecção de causas raiz de problemas, em que técnicas como diagrama de Ishikawa e os 5 Porquês permitem a investigação das origens de desafios específicos". A palavra que importa nessa frase é origens, no plural.
A técnica nasceu na Toyota com Sakichi Toyoda, fundador do grupo, e virou prática de chão de fábrica pelas mãos de Taiichi Ohno, o engenheiro que estruturou o Sistema Toyota de Produção e é uma das origens do Lean Manufacturing. Daí vem o DNA da ferramenta. A pergunta é feita no gemba, o lugar onde o trabalho acontece, não na sala de reunião. Num projeto Lean Seis Sigma ela vive na fase Analisar do DMAIC. Entra depois que o Pareto já disse onde olhar e o Ishikawa já levantou as hipóteses.
Por que cinco?
Cinco é uma referência, não uma regra. Num galpão em San Diego, num programa de TPS, eu vi um sensei ouvir quinze minutos de discussão sobre uma peça fora do especificado, apontar para a folha e perguntar: "e por que o processo permitiu?". Ele não contou até cinco. Parou quando a resposta virou algo que a fábrica podia mudar. Ohno usava o número para indicar profundidade, não para contar perguntas. Em alguns problemas a causa acionável aparece no terceiro degrau; em outros, você desce sete e ainda está descrevendo sintoma.
O critério de parada não é o número: é a resposta estar sob controle da gestão e, se eliminada, impedir a recorrência. "Faltou treinamento" costuma parecer causa-raiz nos 5 Porquês e quase nunca é. Vale a leitura da ficha da técnica na American Society for Quality, que também trata o cinco como referência e não como contagem obrigatória. Se o próximo porquê revela que não existe matriz de competências nem rotina de reciclagem, você desceu um degrau que muda o desenho do processo.
Tem um teste que eu uso em banca de certificação para saber se a cadeia acabou. Leia de baixo para cima trocando cada "por quê" por "portanto". Se a história fizer sentido nessa direção, a lógica fecha. Se em algum ponto o "portanto" soar forçado, é ali que a cadeia tem um buraco, e não adianta seguir descendo.
Uma resposta pode se ramificar. Se um porquê tem duas respostas plausíveis, você tem duas cadeias, não uma dúvida. Investigue as duas. Nos 12 exemplos de 5 Porquês abaixo, quase todos os projetos abriram pelo menos duas cadeias a partir dos motivos vitais do Pareto.
Como conduzir uma sessão de 5 Porquês em 5 passos
Passo 1: comece por um fato, não por uma categoria. O erro que eu mais corrijo em banca é esse. "Erro de faturamento" não é ponto de partida; "a fatura do contrato 4471-B saiu com tarifa de R$ 182,00 em vez de R$ 197,50 do aditivo" é. Fato tem data, número e documento.
Passo 2: vá ao gemba antes de perguntar. A sessão de 5 Porquês acontece onde o trabalho é feito, com quem faz. É a lógica do gemba walk. Nos exemplos abaixo, os times acompanharam rota de técnico, mediram espessura de gesso em 60 pontos e cruzaram app com GPS. Pergunta feita longe do processo produz resposta de opinião.
Passo 3: valide cada degrau com evidência. Este é o passo que separa a ferramenta séria da conversa. Cada resposta deveria vir com um dado que a sustente. De preferência colhido numa folha de verificação, como manda qualquer projeto de melhoria contínua. Um dos casos abaixo mostra isso bem. A hipótese era falta de estoque mínimo, e a evidência veio de 31 das 41 ordens com espera de peça.
Passo 4: mire no processo, nunca na pessoa. Se a resposta for "porque o analista esqueceu", a pergunta seguinte é obrigatória: por que o processo depende de alguém lembrar? Causa-raiz que termina em nome próprio não gera contramedida, gera advertência. Quando o processo depende de memória, o caminho costuma ser procedimento padrão ou poka-yoke, não conversa. Quantas contramedidas da sua última investigação terminaram em treinamento?
Passo 5: transforme a causa-raiz em contramedida com dono. A cadeia de 5 Porquês só terminou quando existe uma ação vinculada. É aí que o projeto ganha combustível. A causa-raiz vira ação na matriz esforço x impacto e depois plano no 5W2H, com responsável e prazo.
12 exemplos de 5 Porquês preenchidos, com PDF para baixar
As 12 investigações abaixo saíram dos projetos-modelo da Academia Lean Seis Sigma da Voitto. Abra a miniatura para ler a cadeia de 5 Porquês inteira, degrau por degrau, e baixe o PDF se quiser levar o modelo. Vale correr o olho pela última coluna antes: em todas as 12, a causa-raiz é de método, sistema ou política, e em nenhuma é de desempenho individual.
| Segmento | O que foi investigado | Onde a cadeia terminou |
|---|---|---|
| Serviços | fatura com tarifa antiga e CNPJ desatualizado | fluxo Comercial e CSC nunca formalizado |
| Saúde | espera por laboratório e por reavaliação | sem SLA de coleta e sem protocolo de fast-track |
| Logística | item trocado no picking | parametrização emergencial de 2023 nunca revisada |
| Manutenção | 2,3 h por OS aguardando peça | gestão de sobressalentes nunca formalizada |
| Alimentício | deriva de dosagem nos bicos 5 a 8 | ordens sem histórico por componente |
| Farmacêutico | 41% do lead time parado em fila no CQ | LIMS sem painel de fila nem SLA por etapa |
| Financeiro | 3 glosas: R$ 86 mil, R$ 195 mil e R$ 62 mil | sem conferência contra a memória de cálculo |
| Marketing | lead respondido 26 horas depois | sem SLA de 1ª resposta nem plantão digital |
| Hotelaria | enxoval em lote e sequenciamento | entrega por tipo de peça, sem kit por quarto |
| Sustentabilidade | 1.240 m³ de resíduo no trimestre | pedido por estimativa, sem vínculo com o quantitativo |
| Produção de elevadores | 342 portas com dano de pintura | berço metálico sem revestimento na movimentação |
| Manutenção de elevadores | 214 rechamadas por ajuste de porta | ajuste sem procedimento padrão por família |
1. Serviços: a rotina de aditivos que nunca foi escrita
A investigação começou por um documento, não por uma categoria. A fatura do contrato 4471-B saiu com tarifa de R$ 182,00 quando o aditivo nº 3 já previa R$ 197,50.
A cadeia desceu rápido. A pré-fatura usou a tarifa vigente no ERP. O ERP não tinha o aditivo porque a parametrização só aconteceu depois do fechamento do mês. E a parametrização atrasou porque é manual, sem prazo nem responsável. No quarto degrau veio a resposta que quase encerrou a sessão: não existe rotina padrão de parametrização de aditivos. O quinto foi o que mudou o dono do problema: o fluxo de aditivos entre Comercial e CSC nunca foi formalizado, sem formulário, sem SLA e sem gatilho de sistema.
Repare no que essa descida fez com o dono do problema. No primeiro degrau, o culpado óbvio era o analista que não lembrou. No quinto, o problema é de método, e a contramedida virou formulário com gatilho no ERP e prazo de dois dias.
O time abriu uma segunda cadeia em paralelo, para o CNPJ desatualizado, e ela terminou em outro lugar: ninguém é dono do cadastro. O coordenador do CSC queria uma contramedida só para as duas, argumentando que o problema era o mesmo ERP. A analista que emite as faturas discordou. Uma cadeia termina em rotina de parametrização e a outra em governança de dado, e cada uma tem um dono diferente. Foi essa separação que evitou uma ação genérica para dois problemas distintos.
2. Saúde: o acordo entre PA e laboratório que nunca existiu
O porta-alta estava em 4,9 horas e a meta era 2,5. Os dois motivos vitais do Pareto viraram duas cadeias. Espera por laboratório e espera por reavaliação médica, investigadas nas sessões de 22 e 24 de setembro.
A cadeia do laboratório desceu assim. O paciente espera o resultado, e o resultado demora porque a liberação passa de 90 minutos. Passa porque as coletas do PA entram na mesma fila da rotina e da internação. E não há priorização porque nunca existiu etiqueta de urgência entre PA e laboratório. A raiz é a ausência de um SLA pactuado entre as duas áreas.
A enfermeira do plantão travou a sessão num ponto, contra a opinião da coordenação. Ela exigiu marcar quando o paciente entrava e quando saía de cada etapa, em vez de anotar apenas onde ele estava parado no momento da coleta. Sem esse dado, a espera por laboratório apareceria diluída e a cadeia teria parado no segundo degrau.
A segunda cadeia, da reavaliação médica, terminou em protocolo, não em plantão: não existe critério objetivo de alta para o paciente verde e azul. Duas causas-raiz, dois donos, duas contramedidas.
3. Logística: por que um ajuste emergencial de 2023 ainda valia
A sessão foi no turno 3, nas ruas 5 a 9, com a equipe que separa. O modo de falha era item trocado, 43,1% dos erros do baseline, concentrado em itens fracionados de embalagem parecida.
O quarto degrau é o que faz esse caso valer a leitura. O scan obrigatório no picking foi desativado num pico de demanda em 2023, como medida temporária. O quinto explica por que a medida sobreviveu três anos: não existe revisão periódica das parametrizações do WMS depois de mudanças emergenciais.
Eu já vi essa mesma cadeia em três operações diferentes. O ajuste emergencial vira permanente porque ninguém agendou a data de voltar atrás, e aí ele deixa de ser decisão e vira ambiente.
Essa segunda camada é o que separa a análise útil da decorativa. Saber que o erro é "item trocado" ajuda pouco; saber que ele acontece com item fracionado, na rua 5 a 9, no turno da noite, já é quase a contramedida pronta. O supervisor do turno queria fechar a cadeia em "separador desatento", e foi um conferente quem lembrou a data exata em que o scan tinha sido desligado. Sem essa memória, a investigação teria terminado em treinamento.
4. Manutenção industrial: quando o problema muda de endereço
O MTTR estava em 6,8 horas. O Pareto tinha apontado o aguardo de peças como a maior parcela: 2,3 horas por ordem de serviço, 34% do total. A cadeia partiu daí.
A peça não estava disponível. Os itens críticos não têm estoque mínimo. O cadastro de sobressalentes está desatualizado e sem vínculo peça por equipamento. Não existe rotina de revisão desse cadastro. E a gestão de sobressalentes nunca foi formalizada como processo. Cinco degraus para sair da oficina e chegar no almoxarifado.
A evidência que fechou a cadeia é o tipo de dado que eu gosto de ver numa banca. Em 31 das 41 ordens com espera de peça, ou 76%, o item aguardado não tinha estoque mínimo cadastrado. Deixou de ser impressão do time de campo.
O supervisor de manutenção resistiu à segunda cadeia, a do diagnóstico por tentativa e erro, porque ela parecia questionar a competência dos técnicos. O time reescreveu o degrau: não é o técnico que testa hipóteses, é o processo que não oferece roteiro por modo de falha. Com a pergunta virada para o processo, ele entrou junto.
5. Alimentício: por que a vedação nunca entrou no plano preventivo
O sobrepeso estava em 3,4% e custava 14,3 toneladas por mês, o equivalente a R$ 117 mil. As duas causas vitais do Pareto viraram duas cadeias, validadas com o dado do checkweigher.
A primeira desceu da deriva de dosagem nos bicos 5 a 8 até a substituição das vedações, que não está prevista no plano de manutenção preventiva. Mas a cadeia não parou aí. O plano veio do manual genérico do fabricante, na instalação da linha, sem olhar histórico de falha por componente. E não olhou porque não havia histórico: as ordens registram descrição livre, sem campo de componente nem de causa. A raiz é essa. O plano não enxerga a vedação porque o sistema de ordens nunca gerou o dado que a mostraria. Não é ajuste de operador, é item que ninguém colocou no plano.
A segunda cadeia partiu de um pico medido, não de uma sensação: o sobrepeso chega a 4,9% nas primeiras horas depois da troca de produto. O terceiro degrau mostrou que o setup não tem etapa de ajuste fino com verificação de peso por bico. A raiz apareceu no quinto: o padrão de setup é anterior ao checkweigher e nunca foi revisto depois que o equipamento chegou. Sem o dado em tempo real no procedimento, o operador superdosa por precaução.
A cadeia quase parou no segundo degrau. "A vedação desgasta mesmo, é consumo natural" foi a resposta que satisfez metade da sala, e ela é verdadeira. O mecânico da envasadora insistiu numa pergunta incômoda: se o desgaste é natural e previsível, por que a troca não está no plano preventivo? Foi ela que levou a cadeia de constatação para decisão de manutenção.
6. Farmacêutico: por que a fila do CQ era invisível
A fila de análise no controle de qualidade era 41% do lead time de liberação, segundo o Pareto do projeto. Foi essa barra que a cadeia atacou, e não a capacidade da bancada.
Os lotes aguardam mais de 24 horas antes de a análise começar. A capacidade aperta nos horários de pico, mas a cadeia não parou aí. As amostras são atendidas por ordem de chegada, num FIFO cego, sem critério de prazo ou de risco.
O quinto degrau é o que muda a contramedida. Não existe regra de priorização porque não há visibilidade da fila: o LIMS nunca foi configurado com painel e SLA por etapa, porque isso nunca foi definido como requisito. A bancada trabalhava o dia inteiro, e a fila é que estava invisível.
O que fecha esse caso é a última pergunta, a que quase ninguém faz. Por que o LIMS nunca ganhou painel de fila? Porque nenhum projeto pediu, e a fila não aparecia em indicador nenhum. O analista do CQ ouviu a cadeia como acusação de lentidão e travou a sessão por uns minutos. Virou quando o facilitador mostrou que os degraus não falavam de bancada, e sim de ordem de chegada. Um problema que ninguém mede não gera requisito, e sem requisito o sistema segue como foi entregue.
7. Financeiro: onde parar de descer numa cadeia que não acaba
Este caso não parte de um problema, parte de três documentos. A medição nº 14, de um centro de distribuição em Extrema, levou glosa de R$ 86 mil em escavação. A nº 9, de uma expansão hospitalar em Vitória, foi glosada integralmente em R$ 195 mil. A nº 11, de um galpão em Betim, perdeu R$ 62 mil em drenagem.
Cada uma virou uma cadeia. A primeira terminou em medição montada sem conferência padronizada contra a memória de cálculo do contrato. A segunda desceu do pacote documental anexado sem verificação até o motivo de ninguém verificar: cada contratante exige um pacote diferente, e não existe checklist de documentação obrigatória por contratante com responsável nomeado antes do envio. O que sustentava tudo era conhecimento tácito. A terceira, em aditivo executado antes de ser formalizado.
Juntas, as três causas-raiz explicam 81% dos apontamentos, 90 de 111. E todas as três são de método e calendário: nenhuma é de desempenho individual, o que muda completamente a conversa com a equipe de obra.
A dificuldade aqui não foi descer, foi parar de descer. As três cadeias podiam continuar até "a diretoria não priorizou o assunto", que é verdadeiro e inútil, porque não gera ação nenhuma no prazo do projeto. O critério que a gente usa nesses casos, e que o gerente do contrato aplicou aqui, é simples: parar no primeiro degrau que a própria obra consegue mudar sozinha.
8. Marketing: o processo desenhado para um cliente que mudou
O lead 38412 entrou num sábado às 21h04 e recebeu o primeiro contato no domingo, 26 horas depois. O modo de falha era o vital do Pareto: primeira resposta acima de quatro horas, 38,1% das perdas.
A cadeia não parou em "o corretor demorou", que foi onde o gerente comercial quis encerrar. Quem virou a mesa foi a analista de CRM, com os 62% de leads que chegam fora do horário do plantão. Desceu até o desenho do processo: não existe SLA de primeira resposta nem plantão digital, e 62% dos leads chegam fora do horário de plantão. O processo foi desenhado para o cliente que aparecia no stand, não para o lead digital que chega 24 horas por dia.
A segunda cadeia é ainda mais desconfortável. O lead 41077 respondeu ao primeiro contato pedindo retorno na semana seguinte, e nunca mais foi contatado. Não há cadência de follow-up programada no CRM: a persistência dependia de iniciativa individual.
As causas não ficaram na opinião. O cruzamento de 2.480 leads mostrou conversão de 19% quando a resposta sai em menos de 30 minutos, contra 4% depois de quatro horas. E um teste de sombra recontatou 60 leads dados como perdidos com cadência estruturada: 18% agendaram visita.
9. Hotelaria: o horário que nunca foi combinado
O hotel tinha um número redondo e incômodo na mão: 380 ocorrências de atraso na liberação de quarto por mês. As duas causas vitais do Pareto, espera de enxoval da lavanderia e falta de sequenciamento das camareiras, viraram duas cadeias de 5 Porquês.
A do enxoval desceu até a lavanderia entregar em lote único no início da tarde, organizada por tipo de peça e não por quarto, sem horário casado com o pico de check-outs. A do sequenciamento terminou num ponto que ninguém tinha notado. A camareira não vê as chegadas do dia, então limpa na ordem do corredor, não na ordem de quem vai chegar.
Essa segunda causa-raiz é de informação, não de esforço. A equipe de governança trabalhava no mesmo ritmo de sempre e o resultado dependia de sorte na ordem dos quartos.
Quem classificou as ocorrências do mês, uma a uma, foi a governanta. O ponto em que ela segurou a investigação foi o terceiro degrau: a recepção queria concluir que a lavanderia atrasa, e ela mostrou que a lavanderia entrega no horário combinado. O horário é que nunca foi combinado com o pico de saídas, o que é um problema de quem desenhou o fluxo, não de quem entrega.
10. Sustentabilidade: o que a obra chama de perda normal
A investigação foi feita nos pavimentos 6 e 7, com o resíduo já classificado por categoria. Três casos, três cadeias, todas partindo de coisa observada e não de relatório.
Na sobra de argamassa, o time contou 14 masseiras endurecidas e descartadas num único dia no pavimento 6. A cadeia terminou no pedido por estimativa, sem vínculo com o quantitativo de paginação: o excedente endurece e vira caçamba.
No recorte de cerâmica, a contagem de 240 peças no pavimento 7 mostrou que 22% viraram recorte sem aproveitamento, por falta de plano de paginação. E no gesso, a espessura medida em 60 pontos deu média de 9 mm contra 5 mm de projeto. Quase o dobro, por falta de taliscamento conferido.
Eu gosto desse caso porque ele mostra a ferramenta funcionando fora da fábrica. O encarregado classificava as masseiras endurecidas como perda normal de obra, e nos projetos que a gente acompanha essa é a frase que mais encerra investigação cedo. O que derrubou o argumento foi contar: 14 masseiras num único dia, num pavimento só. As três causas-raiz explicam 79% do volume, 980 dos 1.240 m³, e nenhuma delas é desperdício de pedreiro. São decisões de planejamento tomadas antes de a obra começar.
11. Produção de elevadores: quando o transporte cria o defeito
A investigação percorreu as linhas 1 a 3 durante três dias. O caso mais claro é o do dano de pintura, 342 portas no trimestre, 33% do Pareto.
A evidência é do tipo que encerra discussão. Das 40 portas riscadas auditadas numa semana, 34 tinham a marca exatamente no ponto de apoio do berço de movimentação. A causa-raiz é o berço metálico sem revestimento, e sem rack dedicado. O meio de transporte é que estava produzindo o defeito.
A segunda cadeia mediu 60 conjuntos porta e batente. Folga média de 2,3 mm contra especificação de mais ou menos 1,5 mm, com 1,1 mm de desgaste no gabarito de solda. Ferramental de produção fora do padrão, sem verificação periódica.
O quarto degrau da segunda cadeia gerou desconforto, porque apontava para a manutenção do ferramental e não para quem solda. Alguém sugeriu fechar em "falta de atenção na montagem". A auditoria de 60 conjuntos matou a hipótese: se fosse atenção, a folga variaria entre operadores, e ela variava entre gabaritos.
12. Manutenção de elevadores: o ajuste que ninguém escreveu
A equipe acompanhou rotas em campo durante uma semana. A causa vital era o ajuste incompleto do operador de porta: 214 rechamadas de 620, 35% do Pareto.
Das 24 rechamadas de porta acompanhadas, 19 tinham folga ou alinhamento fora do padrão. A cadeia terminou no óbvio que ninguém tinha escrito: não existe procedimento padronizado por família de equipamento, com folgas e torques de referência. O ajuste é feito no olho.
A segunda cadeia usou um dado que só aparece cruzando sistemas: app contra GPS de cerca de 29,4 mil preventivas do trimestre. Visitas de menos de 35 minutos têm 3,1 vezes mais rechamada. A raiz é a rota dimensionada por contagem de elevadores, sem tempo mínimo por visita.
O técnico que acompanhou a sessão fez a pergunta que virou a cadeia do avesso. Se o ajuste é feito no olho há dez anos e sempre funcionou, por que virou problema agora? A resposta trouxe um dado que ninguém tinha ligado ao caso: 62% das rechamadas vêm de 18% da carteira, e a rota continuava dimensionada pelo mesmo critério de contagem para todo mundo.
Cinco erros que fazem os 5 Porquês falharem
1. Parar no primeiro degrau confortável. "Falta de atenção", "falta de treinamento" e "falha humana" são paradas confortáveis porque não obrigam ninguém a mudar nada. Nenhuma das três é causa-raiz: são pontos onde a investigação dos 5 Porquês desistiu.
2. Perguntar na sala de reunião. Longe do processo, a resposta vem da memória e da hierarquia, e quem fala mais alto define a causa. Sessão de 5 Porquês feita por videochamada quase sempre para no segundo degrau. Os 12 exemplos acima têm data e local de sessão no cabeçalho justamente por isso.
3. Aceitar resposta sem evidência. Cadeia sem dado é opinião encadeada, e opinião encadeada parece muito com análise. Em um dos casos acima o time recontatou 60 leads dados como perdidos para testar a hipótese. Agendaram visita 18% deles, e aí a causa deixou de ser palpite.
4. Contar até cinco. Cinco é referência. Parar no quinto porque o método se chama 5 Porquês, com uma causa que ainda é sintoma, é seguir a forma e perder a função.
5. Terminar em pessoa. Se a causa-raiz tem nome próprio, a contramedida vai ser treinamento ou advertência, e o problema volta no mês seguinte com outro nome. Foi exatamente o que aconteceu comigo no caso do certificado. A pergunta que salva é sempre a mesma: por que o processo permitiu? Quando a resposta aponta um passo que ninguém padronizou, o caminho é padronização, não cobrança.
Ferramentas que trabalham junto com os 5 Porquês
A ferramenta responde "por quê", nunca "onde". Nos projetos que a gente acompanha na Voitto, ela quase sempre entra depois de duas outras. O Pareto diz qual problema atacar, e o Ishikawa abre o leque de hipóteses. Os 5 Porquês pegam uma dessas hipóteses e descem verticalmente nela, no mesmo espírito da filosofia Kaizen.
Essa é a diferença que mais confunde em sala, e é a pergunta que eu mais ouço sobre os 5 Porquês. O Ishikawa é largura: seis categorias, muitas causas possíveis, nenhuma aprofundada. Os 5 Porquês são profundidade: uma causa, cinco degraus, até a raiz. Um não substitui o outro. Usar só o Ishikawa costuma produzir uma parede de post-its sem nenhuma ação, o mesmo risco de um brainstorming que ninguém prioriza depois.
Para não errar a escolha, vale ter as quatro ferramentas de causa lado a lado. Cada uma responde a uma pergunta diferente, e usar a errada custa semanas de projeto.
| Ferramenta | Responde a | Formato | Quando usar |
|---|---|---|---|
| 5 Porquês | por que esta causa acontece? | cadeia vertical, 1 causa | quando a causa vital já foi escolhida e falta chegar na raiz |
| Ishikawa | quais causas podem explicar? | espinha, 6 categorias | no começo, para abrir hipóteses sem aprofundar nenhuma |
| FMEA | o que pode dar errado e com que risco? | tabela com NPR | em projeto ou processo novo, antes de a falha acontecer |
| Árvore de falhas | que combinações levam à falha? | árvore lógica, E/OU | em falha crítica ou de segurança, com várias condições simultâneas |
O FMEA e a árvore de falhas olham para frente, e por isso são preventivos. Os 5 Porquês e o Ishikawa olham para trás, para um problema que já aconteceu. É por isso que os dois primeiros vivem no projeto e os dois últimos vivem na investigação.
Quando as hipóteses precisam ser ordenadas antes de descer, entra a matriz causa e efeito. E quando a causa-raiz vira ação, o caminho é esforço x impacto seguido de 5W2H. A cadeia inteira, com evidência e contramedida, cabe numa página de relatório A3, que é como a Toyota documenta investigação. Se o problema exigir um método fechado do começo ao fim, os 5 Porquês são uma etapa dentro do MASP e do RCA.
Baixe o modelo em branco e faça a sua investigação
O modelo da Voitto é um PDF preenchível. Traz o campo do fato observado, os cinco degraus com espaço para a evidência de cada um, a causa-raiz e a contramedida. É o mesmo formato dos 5 Porquês que você viu nos 12 exemplos. Ele é a ferramenta A10 do Kit de Ferramentas Lean Seis Sigma, que reúne as 20 ferramentas do DMAIC na ordem de uso.
Ver o modelo em tamanho grande
Fazer a pergunta cinco vezes qualquer um faz. O que separa uma investigação de uma conversa é saber em que degrau parar, e provar cada um deles com dado. É esse treino que a Academia Lean Seis Sigma dá, projeto a projeto, com banca no fim. Voltando ao certificado com o nome errado: o treinamento que eu montei não era ruim. Ele só respondia a uma causa que não existia. Quando a gente desceu mais dois degraus, apareceu um campo de conferência que o sistema deixava passar em branco. Nunca mais voltou.



