Metodologias & Qualidade

IA e diagrama de Pareto: o que a máquina decide e o que fica com você

A máquina resolve a aritmética do gráfico em segundos e não decide o que vai ser contado. Onde a IA ganha tempo de verdade numa análise de Pareto, o que continua sendo seu e a tabela de decisão para baixar.

Thiago Coutinho
Publicado em 9 de set de 2026  ·  Atualizado em 9 de set de 2026  ·  18 min de leitura
Homem de camiseta preta lisa apoiado sobre uma mesa num escritório, sorrindo e olhando para a câmera, com estante de livros e o V da Voitto desfocados ao fundo, e o texto IA e diagrama de Pareto: o que a máquina decide e o que fica com você sobre fundo escuro à esquerda

O relatório de ocorrências do turno chegava ordenado por quantidade. Primeiro a linha que aparecia mais vezes, depois a segunda, e assim por diante. Era um Pareto esperando para nascer, e ninguém precisou desenhar nada: a planilha já saía assim da coordenação de operações, em Lafaiete, na MRS Logística.

A pergunta que eu demorei a fazer não era sobre o gráfico. Era sobre a coluna. Cada linha valia uma ocorrência, e ocorrência não é a mesma coisa que tempo parado. Uma ocorrência que segurava a composição por horas contava igual a uma que se resolvia no rádio, em dois minutos. As duas somavam um.

Hoje eu colo essa mesma tabela num modelo de linguagem e recebo tudo pronto em segundos. Percentual de cada item, percentual acumulado, ordem decrescente, o corte marcado. A conta vem certa. O que a máquina não fez foi a pergunta da coluna. Ela não tinha como fazer: a resposta não estava no arquivo que eu colei.

Este artigo é sobre essa divisão de trabalho. O que a inteligência artificial faz melhor e mais rápido do que você numa análise de Pareto e o que ela não tem como decidir. Depois, como conferir em sete perguntas o gráfico que ela devolveu.

O que a IA entrega quando você cola a tabela

A IA entrega a aritmética completa: soma o total, calcula o percentual de cada categoria e acumula na ordem decrescente. Ela marca onde a curva passa dos oitenta por cento. Ela não escolhe a unidade de medida, o recorte das categorias nem a janela de tempo. Essas três decisões continuam suas.

Antes de discutir qualquer prompt, separe as duas metades do trabalho. Um Pareto tem uma parte que é conta e uma parte que é julgamento. A conta é fechada: existe uma resposta certa e ela sai de uma fórmula. O julgamento é aberto: depende do processo, do que dói na operação e do que a sua empresa consegue mudar na semana que vem.

Quando você cola uma tabela num modelo de linguagem, a parte fechada resolve sozinha e some da sua vista. Isso é bom. O risco aparece porque a parte aberta também some da vista, e ela não foi resolvida. Ficou implícita na primeira coluna que você mandou.

  • Resolve sozinha: soma, percentual individual, percentual acumulado, ordenação, posição do corte, montagem do gráfico e do texto de leitura.
  • Não resolve: se a barra mede frequência ou impacto, quais categorias existem e o que entra em Outros. Nem que período representa o processo, nem se duas tabelas são comparáveis entre si.

As seções a seguir tratam de cada item que a máquina não resolve. No fim tem uma tabela de decisão para baixar, com as sete perguntas de conferência impressas no verso.

A aritmética é a parte fácil, e sempre foi

O procedimento de montagem do Pareto está descrito em qualquer manual de qualidade, e no meu livro ele ocupa uma seção do capítulo Estatística e Probabilidade. A ordem é sempre a mesma. Levantar os dados, agrupar por categoria e contar. Ordenar do maior para o menor, calcular o percentual de cada um, acumular e desenhar.

Repare onde essa lista começa. Ela começa no dado já levantado e já agrupado. As escolhas que produziram o agrupamento ficaram para trás, fora do procedimento. É ali que a máquina não entra.

Não fui eu quem inventou esse alerta. O instituto que leva o nome de Joseph Juran, o engenheiro que batizou o princípio, registra que basta o time classificar o problema de outro jeito para aparecer quase sempre um novo conjunto de poucos itens vitais. A conclusão muda com o recorte, e o recorte é anterior ao gráfico.

O livro é o Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt, da Editora Atlas. Na página 252 eu escrevo a etapa central assim: “Em seguida, é calculado o percentual absoluto e acumulado. O percentual absoluto é obtido dividindo o número de ocorrências individuais pelo total de ocorrências”. É uma divisão. Uma máquina faz isso sem errar, em qualquer volume de linhas.

Reconhecer isso não diminui a ferramenta. Só recoloca o valor dela no lugar certo. O Pareto nunca foi difícil por causa da conta. Ele é difícil porque obriga a escolher o que vai ser contado, e essa escolha decide o resultado antes de qualquer soma acontecer.

Os seis passos de construção do gráfico de Pareto em sequência horizontal, cada um marcado como forte ou fraco para a IA: escolher a unidade de medida marcado fraco, definir as categorias marcado fraco, coletar no período marcado fraco, calcular o percentual absoluto marcado forte, acumular e ordenar marcado forte, desenhar o gráfico marcado forte.
Os três passos que a máquina executa sozinha vêm depois dos três que ela não decide.

A figura acima é a tese do artigo em uma linha. Os passos fortes para a IA estão todos na segunda metade da construção. Os fracos estão na primeira, e são justamente os que ninguém registra no arquivo que vai para o chat.

Você talvez queira ver a ferramenta inteira antes de continuar. O artigo do conjunto das sete ferramentas da qualidade situa o Pareto entre as outras seis. Os cinco passos de montagem e os doze exemplos preenchidos por segmento estão no artigo do diagrama de Pareto.

Ocorrência ou impacto: a pergunta que não está na tabela

Esta é a decisão que muda mais resultado por menos esforço. É também a primeira que se perde quando a análise vira uma conversa de chat. A barra do gráfico pode medir quantas vezes cada coisa aconteceu ou quanto cada coisa custou. São dois gráficos diferentes, com o mesmo dado de origem.

O próprio capítulo 24 do livro monta os dois. Num exemplo, a análise de perda de potência num automóvel conta ocorrências registradas por um mecânico: sessenta e quatro no total. A categoria mais frequente fica à esquerda. Em outro, a análise de produtos desclassificados numa fábrica de tubos usa média de toneladas por tipo de defeito. A unidade da segunda é peso, não contagem.

Coladas num modelo de linguagem, as duas tabelas produzem gráficos igualmente bem formatados. A máquina não pergunta qual das duas unidades representa a dor da operação, porque não tem como saber. Ela recebeu números numa coluna e tratou a coluna como o que é para ser priorizado.

Dois gráficos de Pareto lado a lado, montados a partir de um mesmo conjunto fictício: à esquerda as barras medem número de ocorrências e a categoria mais frequente aparece em primeiro lugar; à direita as barras medem toneladas e a ordem das três primeiras categorias muda, com a categoria que era terceira passando a primeira.
Esquema montado para comparar as duas leituras: o mesmo conjunto fictício em ocorrência e em tonelada. A ordem das barras não sobrevive à troca.

O teste é simples e cabe numa pergunta. Se a categoria do topo sumisse amanhã, o que a operação sentiria? Se a resposta vier em horas, em reais ou em toneladas, então a barra devia estar medindo horas, reais ou toneladas desde o começo.

No relatório do turno em Lafaiete, a resposta era tempo de via ocupada. A coluna que a planilha trazia era contagem de ocorrência. As duas leituras apontavam para causas diferentes. Por um tempo a gente atacou a mais frequente porque ela era a que estava desenhada em primeiro lugar.

Quem escolhe as categorias escolhe o resultado

A segunda decisão que a máquina não toma é o recorte. Um mesmo conjunto de falhas pode ser agrupado por equipamento, por turno, por fornecedor, por tipo de defeito ou por etapa do processo. Cada agrupamento gera um Pareto legítimo, e eles apontam para lugares distintos.

Esse trabalho de escolher o critério de agrupamento tem nome próprio na qualidade e é anterior ao gráfico. A estratificação define por qual característica os dados vão ser separados antes de qualquer contagem. Se essa escolha já vem embutida na planilha, o Pareto apenas confirma o recorte que alguém fez semanas atrás, provavelmente sem pensar em análise nenhuma.

Um modelo de linguagem é excelente em propor recortes alternativos, e essa é uma das melhores aplicações dele aqui. Peça três agrupamentos diferentes para a mesma tabela e ele devolve os três, com o gráfico de cada um. O que ele não faz é dizer qual dos três corresponde a uma alavanca que a sua empresa consegue puxar.

  1. Liste os agrupamentos possíveis com os dados que você já tem em mãos.
  2. Elimine os que você não teria como atacar, mesmo que o gráfico apontasse para eles.
  3. Dos que sobram, escolha o que estiver mais próximo de uma decisão de recurso.
  4. Rode o Pareto nesse, e guarde os outros como segunda leitura.

O passo dois é o que economiza reunião. Um Pareto impecável apontando para uma variável fora do seu alcance não é análise, é constatação. Quando o levantamento da categoria depende de dado que ainda não existe, pare. O caminho é montar antes um plano de coleta de dados e voltar ao gráfico depois.

Outros é onde a máquina guarda o que não entendeu

Toda tabela colada num chat tem linhas que não se encaixam bem em lugar nenhum. Descrições escritas à mão, abreviações do turno da noite, dois nomes para a mesma coisa. O modelo resolve isso do jeito mais razoável que existe para ele: cria uma categoria residual e joga lá dentro.

O problema não é a categoria residual existir. É ela ser silenciosa. A barra aparece no gráfico com um rótulo genérico, normalmente fora do corte, e ninguém abre. Suponha três variações de escrita do mesmo defeito lá dentro. O defeito mais caro da operação pode estar em quarto lugar aparente e em primeiro de verdade.

Pedir o gráfico e pedir o gráfico mais o mapa de agrupamento são duas coisas diferentes na prática. O mapa é a lista de qual linha original foi parar em qual categoria. É um pedido de uma frase, e é o que transforma a caixa residual em algo auditável.

Peça sempre nesta ordem: primeiro o mapa de-para, depois o gráfico. Lendo o mapa você descobre em trinta segundos se “vazamento”, “vazou” e “perda de fluido” viraram três linhas ou uma. Quando viram três, o Pareto está errado e a conta está certa.

Esse tipo de padronização de escrita é exatamente o que uma folha de verificação bem desenhada resolve na origem. Ela fecha as categorias no papel antes de qualquer registro. Quando a coleta já nasce padronizada, a caixa residual encolhe sozinha e a IA tem muito menos margem para inventar agrupamento.

A janela do dado não vem no arquivo

Uma planilha exportada não diz se aqueles três meses representam o funcionamento normal do processo. Ela também não diz se houve parada programada no meio, troca de fornecedor, entrada de equipe nova ou mudança de mix de produto. O arquivo tem datas, não tem contexto.

A máquina lê as datas e assume que o período é homogêneo. É a única coisa que ela pode assumir. Dentro da janela pode existir um mês atípico que responde sozinho pela categoria do topo. O Pareto vai mostrar essa categoria em primeiro lugar com toda a firmeza do mundo.

Há um teste barato para isso e ele leva dois minutos. Peça o mesmo Pareto quebrado por mês, ou por trimestre, e olhe se a ordem das três primeiras barras se mantém. Ordem estável significa padrão. Ordem que dança aponta para um evento isolado, e evento isolado se investiga procurando o que houve naquele mês.

Quando a ordem dança, o gráfico de barras é a ferramenta errada para aquele momento. O que responde a pergunta ali é um gráfico sequencial. Ele mostra o comportamento ao longo do tempo em vez de somar tudo num único bloco. O Pareto volta depois, com a janela já escolhida por um motivo.

Registre a janela ao lado do gráfico, por escrito, sempre. Um Pareto sem período declarado é um número solto. Ele não pode ser comparado com o próximo, e daqui a seis meses ninguém lembra o que ele mediu.

A curva bonita é o primeiro sintoma

Existe uma coisa que aprendi olhando gráficos gerados por modelo de linguagem, e ela não tem nada a ver com aritmética. Quando a curva acumulada sobe suave e elegante, com as barras decrescendo em degraus quase regulares, desconfie do recorte antes de comemorar o achado.

Dado de operação costuma ser mais grosseiro do que isso. Uma categoria estoura, duas ficam no meio e o resto vira um rodapé de barras minúsculas. Quando o desenho sai equilibrado demais, o mais provável é que as categorias tenham nascido todas do mesmo tamanho porque alguém as dividiu com régua.

Dois gráficos de Pareto esquemáticos lado a lado: à esquerda seis barras decrescendo em degraus regulares com a curva acumulada subindo suave, rotulado como distribuição de manual; à direita uma barra muito alta, duas médias e três minúsculas, com a curva acumulada subindo em degrau abrupto, rotulado como distribuição de chão de fábrica.
As duas são esquemas montados para comparar formato. A da direita é a que costuma aparecer.

A leitura útil da figura acima não é estética. Uma distribuição concentrada de verdade dá uma decisão fácil: existe um lugar para ir. Uma distribuição espalhada dá uma decisão difícil. Às vezes ela pede mais uma rodada de coleta antes de qualquer escolha.

O que a IA faz muito bem aqui é gerar as duas versões para você comparar. Peça o mesmo Pareto com as categorias agrupadas de forma mais ampla e depois de forma mais fina. Se o formato da curva mudar radicalmente entre as duas, o que você tem em mãos é uma escolha de granularidade, não um achado.

Empate no topo, quando o corte não decide nada

O corte de oitenta por cento é uma convenção de leitura. O modelo de linguagem aplica essa convenção com uma obediência que às vezes atrapalha. Ele marca a linha onde a soma acumulada cruza o valor e apresenta o que ficou à esquerda como o conjunto que deve ser atacado.

Quando as três primeiras barras são praticamente iguais, esse corte não separa nada. A diferença entre a primeira e a terceira pode ser menor do que o erro de registro da própria coleta. A ordem entre elas pode inverter no mês seguinte sem nenhuma causa real por trás.

A saída não é escolher a primeira barra por ser a primeira. É trazer um segundo critério para desempatar, e esse critério raramente está na tabela. Facilidade de execução, custo da contramedida, tempo até o efeito aparecer, risco de segurança envolvido.

Para esse desempate existe ferramenta pronta, e ela é rápida. A matriz GUT pontua gravidade, urgência e tendência de cada item; a matriz de esforço e impacto coloca as candidatas num plano de duas dimensões. Qualquer uma das duas resolve um empate de topo melhor do que a ordem alfabética que o modelo acabou usando sem avisar.

Quando o empate persistir e as três forem atacáveis, ataque as três. O Pareto existe para evitar que você trabalhe em quinze frentes, não para obrigar você a escolher exatamente uma.

O exemplo do capítulo 24 e o degrau que ele exige

Tem um exemplo no livro que mostra bem onde a análise deixa de ser conta. É o caso da fábrica de tubos, com os produtos desclassificados separados por tipo de defeito, medidos em média de toneladas. Emenda, solda fraca e ajuste de máquina aparecem como os itens vitais.

A meta era reduzir quarenta por cento da quantidade média desclassificada. A conta que o livro faz em seguida é a que quase ninguém faz na prática. Se você só vai trabalhar nos itens vitais, a redução exigida deles não é de quarenta por cento. É maior, porque eles precisam cobrir sozinhos o que era para vir do total.

No caso do livro esse número sobe para quarenta e três vírgula oito por cento. A diferença parece pequena e não é. Ela é a distância entre uma meta que fecha e uma meta que o time persegue o ano inteiro sem entender por que não chega.

Esse degrau é um cálculo, e um modelo de linguagem faz ele na hora, desde que você peça. O ponto é que ele não pede por conta própria. O Pareto sai pronto, bonito, com os vitais destacados. A meta desdobrada para os vitais fica de fora porque ninguém escreveu essa linha no prompt.

A regra geral é essa: a IA responde muito bem o que você perguntou e não sinaliza o que você esqueceu de perguntar. Num ciclo PDCA conduzido com apoio de chat, é no planejamento que essa lacuna custa caro. Ela vira meta errada nas mãos de quem executa.

Onde a IA ganha tempo de verdade

Até aqui o artigo tratou de limites, e isso pode passar a impressão errada. O ganho é grande, só não está onde a maioria procura. Ele não está em desenhar o gráfico, que qualquer planilha desenha. Está nas tarefas chatas que antes consumiam a tarde inteira do analista.

  • Limpeza de texto livre: unificar grafias diferentes do mesmo defeito em milhares de linhas, devolvendo o mapa de-para para você conferir.
  • Recortes alternativos: gerar o mesmo Pareto por turno, por equipamento e por fornecedor em uma única passada, para comparação.
  • Conversão de unidade: transformar contagem em custo ou em horas quando existe uma tabela de referência para multiplicar.
  • Estabilidade da ordem: quebrar o período em fatias e informar se as três primeiras posições se mantiveram.
  • Texto de leitura: escrever o parágrafo que explica o gráfico para quem vai receber o relatório, no vocabulário da área.

Quatro dos cinco itens são preparação e conferência. Só o terceiro é análise. É esse o padrão que eu vejo se repetir em toda ferramenta da qualidade assistida por modelo de linguagem. Ele aparece igual quando o assunto é IA e diagrama de Ishikawa. A máquina acelera o que cerca a decisão e não toma a decisão.

Em times que já operam com agentes de IA em processos rodando de forma programada, esses cinco itens viram rotina automática. O analista recebe o material já conferido. O julgamento continua acontecendo na reunião, com gente, só que sobre um dado limpo.

Na etapa de medição de um projeto, esse ganho de preparação é o mais direto de todos. O artigo sobre IA na fase medir detalha o que vale automatizar antes de qualquer gráfico aparecer.

A divisão de trabalho, linha a linha

A tabela abaixo é o resumo operacional de tudo o que veio até aqui. Ela separa cada etapa da análise em três colunas. Uma traz o que a máquina resolve e outra o que fica com você. A terceira é a pergunta de conferência daquela etapa.

Etapa da análiseA IA resolveVocê decidePergunta de conferência
Unidade da barraConverte contagem em custo se receber a referênciaSe a prioridade é frequência ou impactoSe a categoria do topo sumisse, o que a operação sentiria?
CategoriasPropõe recortes alternativos e agrupa texto livreQual recorte corresponde a uma alavanca suaEu conseguiria atacar isso com o que tenho hoje?
Caixa residualDevolve o mapa de qual linha foi para qual categoriaSe o agrupamento juntou o que deviaQuanto do total está fora das categorias nomeadas?
PeríodoQuebra o Pareto por mês e compara as posiçõesSe a janela representa o processoA ordem das três primeiras barras se mantém?
Corte dos vitaisCalcula o acumulado e marca onde ele cruzaSe o empate no topo exige segundo critérioA diferença entre a primeira e a terceira é maior que o erro de registro?
Meta desdobradaCalcula a redução exigida só dos itens vitaisSe a meta desdobrada é executávelA redução pedida aos vitais cabe no que o time consegue fazer?
Leitura finalEscreve o parágrafo de explicação do gráficoSe a conclusão sobrevive à conferênciaEu defenderia esse gráfico numa reunião de diretoria?

Tabela de decisão em PDF de uma folha frente e verso: na frente as sete etapas da análise nas linhas e quatro colunas com o que a IA resolve, o que você decide e a pergunta de conferência; no verso as sete perguntas impressas com espaço em branco para anotar a unidade escolhida, a janela de tempo e o critério de desempate.São sete etapas na frente, nas mesmas quatro colunas da tabela acima. No verso estão as sete perguntas de conferência. Há espaço em branco para você anotar a unidade escolhida, a janela de tempo e o critério de desempate daquela análise. Imprima uma folha por Pareto e anexe ao relatório.

Ver a tabela de decisão ampliada

O verso é a parte que costuma sobreviver ao dia a dia. Anotar a unidade e a janela ao lado do gráfico custa trinta segundos e resolve a discussão de daqui a três meses. Alguém vai trazer um Pareto novo e vai querer comparar com este.

Sete perguntas para conferir o Pareto que a máquina te deu

Este é o roteiro curto, para usar com o Pareto já pronto na tela. Nenhuma das perguntas exige refazer conta. Todas exigem olhar para fora do gráfico, que é justamente onde a máquina não olhou.

  1. Qual é a unidade da barra? Se for contagem, confirme que contagem é o que dói. Se for custo, confirme de onde veio a tabela de conversão.
  2. Quem escolheu as categorias? Se foi o modelo, peça o mapa de-para e leia. Se veio da planilha, pergunte quando esse recorte foi criado e por quê.
  3. Quanto pesa a caixa residual? Passando de um décimo do total, ela precisa ser aberta antes de qualquer conclusão.
  4. Qual é o período e o que aconteceu nele? Parada, troca de fornecedor e equipe nova mudam a leitura e não aparecem no arquivo.
  5. A ordem do topo é estável? Quebre por mês e compare as três primeiras posições antes de assumir que existe um padrão.
  6. O empate no topo foi resolvido por critério ou por acaso? Diferenças pequenas exigem um segundo critério vindo de fora da tabela.
  7. A meta foi desdobrada para os vitais? Trabalhar só nos primeiros itens exige deles uma redução maior do que a do total.

Sete perguntas levam uns dez minutos na primeira vez e menos de cinco depois que viram hábito. É pouco diante do tempo que se perde atacando a categoria errada por um trimestre inteiro. Esse mesmo roteiro cabe dentro de um MASP, entre a etapa de observação e a de análise, sem alterar o método.

O que o Pareto não responde, com ou sem IA

Vale dizer o óbvio porque ele se perde: o gráfico mostra onde o problema se concentra e não mostra por que ele acontece. Priorização não é causa. Um modelo de linguagem, quando recebe o gráfico, tende a completar o raciocínio com uma explicação plausível, e plausível não é o mesmo que verificado.

Depois do corte vem outra ferramenta, sempre. Levantar hipóteses de causa pede diagrama de Ishikawa ou cinco porquês, e a prova de que uma hipótese sustenta é trabalho de análise de dados. O artigo sobre IA na fase analisar trata exatamente da distância entre correlação e causa nesse ponto.

Separe também o Pareto de duas ferramentas que se parecem com ele e respondem outra coisa. A curva ABC classifica itens de estoque por representatividade de valor, com foco em gestão contínua. O histograma mostra a distribuição de uma variável numérica, não a comparação entre categorias. As três usam barras e não medem a mesma coisa.

Fechado o corte e identificada a causa, o que falta é a ação. Um 5W2H com responsável e prazo é o que transforma o gráfico em algo que muda o processo. Sem essa última etapa, o Pareto é um diagnóstico bem desenhado que não altera nada.

Quando não usar IA nenhuma aqui

Em três situações colar a tabela num chat atrapalha mais do que ajuda. Reconhecer isso vale mais do que qualquer prompt bem escrito.

  • Poucas categorias e dado limpo. Com oito linhas numa planilha, o Pareto sai mais rápido na própria planilha, e você mantém contato com o número.
  • Dado sensível sem política definida. Nome de cliente, valor de contrato e informação de pessoa não vão para ferramenta externa sem regra escrita da empresa.
  • Quando a discussão é sobre o recorte. Se o time ainda discute o que é uma ocorrência, o gráfico pronto encerra a discussão cedo demais e do jeito errado.

A terceira é a mais perigosa das três. Um gráfico bem formatado tem autoridade visual, e autoridade visual encerra debate. Quando a definição da categoria ainda está aberta, o desenho fecha a definição por decreto, e ninguém percebe que a decisão foi tomada.

Por isso a ordem que eu recomendo é conversa primeiro, gráfico depois. Decidir a unidade e o recorte leva quinze minutos numa sala e resolve o resto do trabalho. É a mesma lógica que sustenta qualquer rotina de melhoria contínua: a ferramenta entra depois que a pergunta está clara, nunca no lugar dela.

O relatório do turno, de novo

Voltando a Lafaiete: o relatório continuava chegando ordenado por quantidade, e o que mudou não foi o gráfico. Foi a coluna que ele passou a medir, e a conversa que antecedeu essa troca. O desenho veio depois, quase como formalidade.

Se eu tivesse um modelo de linguagem naquela época, teria economizado dias de trabalho braçal. Teria unificado as descrições escritas à mão, gerado os recortes por turno e por trecho, e escrito o texto do relatório. Nenhuma dessas tarefas era onde estava a dificuldade.

A dificuldade era perguntar o que a barra devia medir, e essa pergunta continua sendo sua. Uma ferramenta que faz a conta em dois segundos aumenta o valor de quem sabe qual conta pedir, e não o contrário.

O procedimento completo do Pareto está no capítulo 24 do Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt. O capítulo traz o exemplo dos itens vitais e o desdobramento da meta. Se você quer as sete ferramentas em formato de trabalho, baixe o kit de ferramentas Lean Seis Sigma, que reúne os modelos preenchíveis. E se o seu próximo passo é conduzir projeto do começo ao fim, te convido a conhecer as academias de certificação.

Perguntas frequentes

A IA pode montar um diagrama de Pareto sozinha?
Pode montar o gráfico, e ele sai correto do ponto de vista aritmético: percentual individual, percentual acumulado, ordenação e corte. O que ela não decide é a unidade da barra, o recorte das categorias e a janela de tempo. Essas três escolhas definem o resultado antes de qualquer conta, e continuam sendo trabalho de quem conhece o processo.
Qual é o maior erro ao pedir um Pareto para um modelo de linguagem?
Aceitar a primeira coluna numérica da planilha como critério de priorização. Na maioria das tabelas exportadas essa coluna é contagem de ocorrências, e o que dói na operação costuma ser tempo parado ou custo. O gráfico fica impecável apontando para a categoria mais frequente, que pode não ser a mais cara.
Como conferir se o agrupamento de categorias ficou correto?
Peça o mapa de-para antes do gráfico: a lista de qual linha original foi para qual categoria. Ela mostra em segundos se três grafias do mesmo defeito viraram três categorias distintas. Confira também o peso da categoria residual; passando de um décimo do total, ela precisa ser aberta antes de qualquer conclusão.
Se eu vou atacar só os itens vitais, a meta muda?
Muda, e para mais. Se a meta é reduzir quarenta por cento do total e você só vai trabalhar nas primeiras categorias, a redução exigida delas é maior, porque elas precisam cobrir sozinhas o que viria do conjunto inteiro. É uma conta simples que o modelo faz na hora, e que ele não oferece se você não pedir.
Quando não vale a pena usar IA numa análise de Pareto?
Quando a tabela é pequena e limpa, quando o dado é sensível e a empresa não tem política de uso definida, e quando o time ainda discute o que conta como uma ocorrência. Nesse último caso o gráfico pronto encerra a discussão cedo demais, e a decisão sobre a categoria acaba sendo tomada pelo desenho.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

Conteúdos de Metodologias & Qualidade

Materiais, resumos e podcasts para você se aprofundar no tema.

Ver todos os conteúdos de Metodologias & Qualidade