Gestão & Liderança

Project Charter (Termo de Abertura de Projeto): o que é, como fazer e 13 exemplos por segmento

O documento que transforma uma boa ideia em projeto autorizado: como escrever o seu e 13 charters preenchidos, do hospital à fábrica de elevadores, com PDF pra baixar.

Thiago Coutinho
Publicado em 22 de jun de 2020  ·  Atualizado em 8 de set de 2026  ·  18 min de leitura
Project Charter (Termo de Abertura de Projeto): o que é, como fazer e 13 exemplos por segmento

Em 2008, dentro da Votorantim Metais, eu vi de perto os grupos de trainees que conduziam projetos Seis Sigma e tinham uma jornada de crescimento bem definida. Eu quis aquilo pra mim. Bati na porta do Master Black Belt da unidade e falei: "Quero fazer projeto Seis Sigma, como é que funciona?". Entrei numa turma de White Belt e comecei a puxar meu primeiro projeto de melhoria. E a primeira lição veio antes de qualquer estatística: projeto que não começa com um acordo escrito não anda. Esse acordo tem nome: Project Charter (ou Termo de Abertura de Projeto), o documento de uma ou duas páginas que autoriza o projeto e registra problema, meta, escopo, time e ganho esperado antes de qualquer coisa começar.

De lá pra cá, entre fábrica, ferrovia e os milhares de projetos de melhoria contínua que a gente já acompanhou na Voitto, eu nunca vi um projeto sério escapar dessa regra. Neste guia eu vou te mostrar o que é o Project Charter (ou Termo de Abertura de Projeto, o TAP), o que ele precisa conter e como escrever o seu passo a passo. E na parte que eu mais gosto: 13 charters preenchidos, de hospital a fábrica de elevadores, cada um com o PDF completo pra você baixar e usar de referência.

O que é o Project Charter (Termo de Abertura de Projeto)?

O Project Charter é o documento que formaliza o início de um projeto e firma o acordo entre quem executa e quem patrocina. No vocabulário do PMI (Project Management Institute) ele aparece como Termo de Abertura do Projeto (TAP); nos projetos de melhoria contínua, como contrato do projeto.

É o mesmo instrumento: uma ou duas páginas que autorizam o projeto a existir e definem as regras do jogo.

Thiago Coutinho apresentando o livro Guia Prático Lean Seis Sigma Black BeltNo meu livro, o Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt (Editora Atlas), eu dedico o capítulo 19 à definição do problema e ao planejamento do projeto. Lá, na página 168, eu defino assim: "O Contrato de Projeto é um documento que firma um acordo entre a equipe executora do projeto, tendo como objetivo formalizar as principais definições do início do projeto, como cronograma, escopo e meta". Ele apresenta com clareza o que se espera da equipe, mantém todo mundo alinhado e garante o comprometimento dos envolvidos.

Em um projeto Lean Seis Sigma, o Project Charter é a primeira entrega da fase Definir do DMAIC. Antes de coletar qualquer dado, o Belt senta com o Champion e o Sponsor e registra: qual é o problema, qual é a meta, qual é o escopo, quem está no time e quanto vale o resultado. Sem esse acordo, cada reunião de projeto vira uma renegociação.

Roda do método DMAIC da Voitto: Definir, Medir, Analisar, Melhorar e Controlar
O ciclo DMAIC: o Project Charter é a primeira entrega do Definir.

Para que serve (e o que acontece sem ele)

Thiago Coutinho assinando um documento sobre a mesaEu aprendi o valor disso na prática, e não foi só na fábrica. Na MRS Logística, trabalhei com desdobramento de metas do presidente até o coordenador, ajudando cada líder a bater as suas. O que fazia uma meta andar era sempre o mesmo trio: número claro, dono com nome e prazo na parede. O Project Charter faz exatamente isso com o projeto:

  • Autorização. O Sponsor assina e, com isso, libera time, horas e orçamento. O projeto deixa de ser uma boa ideia e vira um compromisso da empresa.
  • Alinhamento. Problema, meta e escopo ficam escritos com número e prazo. Quando alguém sugerir resolver "já que estamos aqui" um problema vizinho, é o charter que segura o escopo.
  • Critério de sucesso. No encerramento, o resultado é comparado com a meta assinada, não com a lembrança que cada um tem dela.

E eu já paguei caro pela ausência dele. Em 2015, a Voitto quase quebrou: a gente faturava alto e gastava mais alto ainda, apostando em tudo ao mesmo tempo, sem um documento que dissesse o que era sucesso e o que estava fora do jogo. Alguns cabelos brancos meus têm origem nessa história. Aquele aperto virou combustível: aprendi na marra, direto no bolso, o que um bom charter entrega de graça desde o primeiro dia: o acordo escrito de onde se quer chegar e de até onde vai o jogo.

Os 7 elementos que não podem faltar

Formatos variam de empresa pra empresa, mas um bom charter responde sempre às mesmas perguntas:

  • 1. Declaração do problema. O que dói, onde, desde quando e quanto custa, com número de baseline: "a linha opera com 8,4% de retrabalho", não "temos muito retrabalho".
  • 2. Meta SMART. Específica, mensurável, atingível, relevante e com prazo. De preferência na forma "reduzir X de A para B até tal data".
  • 3. Escopo. O que entra e, tão importante quanto, o que fica de fora. Uma linha, um turno, uma família de produtos.
  • 4. Business case. Quanto vale resolver. No livro (p. 168) eu separo os ganhos em duas famílias. Hard savings são os benefícios diretos que a área financeira enxerga no EBITDA, como redução de custo e aumento de venda com margem. Soft savings são os indiretos: imagem da empresa, satisfação do cliente, relacionamento com fornecedor. Um bom business case declara os dois, mas não mistura.
  • 5. Time e papéis. Quem é o líder (o Belt, no Seis Sigma), quem é o Sponsor, quem são os membros e quantas horas por semana cada um dedica.
  • 6. Cronograma macro. Os marcos das fases, sem detalhar atividade por atividade. No DMAIC, uma data pra cada letra já orienta. Se precisar detalhar, use um cronograma à parte.
  • 7. Restrições e premissas. Orçamento, limites de mudança (sem investimento em equipamento novo, por exemplo) e o que se assume como verdade pra que o plano valha.
Diagrama: o Project Charter é a primeira entrega da fase Definir do DMAIC, com os 7 elementos do documento e as assinaturas que o autorizam
O lugar do Project Charter no DMAIC: os 7 elementos do documento, mais as assinaturas que o autorizam.

Como fazer o seu Project Charter em 6 passos

Passo 1: comece pela dor, com dado. Levante o indicador que incomoda e o histórico recente. Se ainda não há medição, essa é a primeira tarefa, porque charter sem baseline é opinião.

Gráfico de Pareto do tempo por ordem de serviço: aguardo de peças lidera com 2,3 horas, seguido de execução do reparo e diagnóstico da falha, com linha de percentual acumulado
Do nosso material oficial: um diagrama de Pareto do tempo por ordem de serviço. É esse tipo de dado que transforma "a manutenção demora" em "57% do tempo está em aguardo de peças e execução". É esse número que vira o baseline do charter.

Passo 2: traduza a dor em dinheiro. Multiplique o problema pelo custo unitário: retrabalho vezes custo por peça, hora parada vezes custo por hora. É esse número que conquista o patrocínio. Nos 13 exemplos abaixo, repare que todos têm o ganho anualizado calculado antes do projeto começar.

Passo 3: escreva a meta na forma "de A para B até quando". Se o baseline é 6,2% de erro, a meta pode ser 2,0% em seis meses. Meta de corte total (zero defeito já no primeiro projeto) mina a credibilidade do documento.

Passo 4: desenhe a cerca do escopo. Diga em qual processo, área ou família o projeto atua e o que fica explicitamente de fora. Um SIPOC ajuda a enxergar as fronteiras do processo antes de fechar essa cerca.

Passo 5: monte o time e negocie a dedicação. Nomes, papéis e horas semanais combinadas com os gestores de cada um. Time emprestado sem acordo de horas é a causa número um de projeto parado.

Passo 6: colha as assinaturas. Belt, Champion e Sponsor assinam. A assinatura transforma o Project Charter em contrato, e é ela que você vai invocar quando o escopo tentar crescer.

Um cuidado final: o Project Charter é vivo durante a fase Definir. Se a coleta de dados da fase Medir mostrar que o baseline era outro, volte e ajuste com as mesmas assinaturas. Depois disso, mudou o escopo, mudou o projeto.

13 exemplos preenchidos de Project Charter, com PDF pra baixar

Os 13 exemplos de Project Charter abaixo são os projetos-modelo que a gente usa na Academia Lean Seis Sigma da Voitto, cada um preenchido de ponta a ponta: identificação, business case, declaração do problema, meta SMART e escopo com "dentro e fora". Clique na miniatura pra ver o charter daquele segmento em tamanho grande, do jeito que ele foi escrito (e baixar o PDF, se quiser). Use o do seu setor como ponto de partida e troque os números pelos seus.

SegmentoProblema atacadoMeta (de → para)
ManufaturaRetrabalho na linha de envase8,4% → 3,5%
SaúdeTempo porta-alta no PA4,9 h → 2,5 h
LogísticaErro de picking no CD2,8% → 1,0%
AlimentícioGiveaway no envase3,4% → 1,4%
FarmacêuticoLead time de liberação de lotes12,5 → 6 dias
Manutenção industrialMTTR de equipamentos críticos6,8 h → 3,5 h
ServiçosErro de faturamento no CSC6,2% → 2,0%
FinanceiroGlosas nas medições de obra14,2% → 6%
MarketingConversão de leads em visitas8,4% → 14%
HotelariaLiberação de quartos74 → 45 min
SustentabilidadeResíduo de obra por m²0,182 → 0,13 m³
Produção de elevadoresRetrabalho nas portas11,6% → 5%
Manutenção de elevadoresRechamadas na preventiva8,9% → 4,5%

1. Manufatura: retrabalho na linha de envase

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de manufaturaA linha 03 respondia por 34% do volume da planta e rodava com 8,4% de retrabalho, com picos de 11,2%. A referência interna era 3%. Traduzindo em dinheiro, que é o que o Sponsor lê primeiro: R$ 51 mil por mês de custo de má qualidade, R$ 612 mil no ano, e o OTIF despencando pra 87%.

No charter, o time resistiu à tentação de escrever "reduzir o retrabalho da fábrica". A meta ficou cirúrgica: de 8,4% para 3,5% até dezembro, sem aumentar o custo operacional. E o escopo cortou fundo: só a linha 03, só as famílias A e B, que representam 92% do volume. As outras linhas ficaram explicitamente de fora, com data pra serem atacadas depois.

O aprendizado aqui é o do escopo pela representatividade: cobrir 92% do volume com uma cerca pequena vale mais que abraçar a fábrica inteira e não terminar.

2. Saúde: Project Charter pro tempo porta-alta no Pronto Atendimento

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de saúdeUm PA com 9.800 atendimentos por mês, onde o paciente de baixa complexidade esperava em média 4,9 horas da entrada à alta, com picos de 7,8. A referência interna era 2,5 horas. A demora custava caro em todas as moedas: superlotação, 6,2% de evasão (610 pessoas por mês indo embora sem atendimento) e R$ 96 mil mensais entre receita perdida e horas extras.

A declaração do problema foi construída em cima do prontuário eletrônico, com baseline medido de janeiro a junho, e o charter registrou uma restrição inegociável: nenhum protocolo assistencial seria flexibilizado. A meta assinada: porta-alta de 4,9 para 2,5 horas até dezembro, só para pacientes adultos verde e azul, da triagem à alta. Emergência, gestão de leitos e obra ficaram fora, por escrito.

É o exemplo perfeito de restrição bem usada: a meta agressiva (queda de 49%) só foi aceita pela diretoria porque a fronteira de segurança do paciente estava cravada no documento. No piloto de duas semanas, o tempo já tinha caído pra 2,7 horas.

3. Logística: erro de picking no centro de distribuição

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de logísticaO CD São Paulo expede 48 mil pedidos por mês e 2,8% voltavam com erro de separação, mais de três vezes a referência interna de 0,8%. Na prática: 1.340 pedidos errados, R$ 74 mil mensais em reentregas, devoluções e ressarcimentos, 210 reclamações e um OTIF de 91% apertando os contratos.

A discussão mais dura na construção desse charter foi a fronteira com o transporte. Como as reclamações chegavam pela entrega, a primeira reação do time era incluir o last mile no projeto. O Belt levou o dado pra mesa: o erro nascia na separação, antes de qualquer caminhão sair do pátio. O transporte ficou fora; dentro ficaram os 3 turnos de separação, conferência e expedição, mais a parametrização do WMS.

A meta também fechou um atalho clássico. Derrubar o erro de 2,8% para 1,0% seria fácil deixando tudo mais lento, então o documento amarrou: produtividade em linhas por hora e prazo de expedição não podiam piorar. Ganho estimado no business case: R$ 576 mil por ano.

4. Alimentício: giveaway no envase de biscoitos

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de alimentícioGiveaway é produto que a fábrica entrega de graça sem perceber: a linha 02 envasava 420 toneladas por mês com sobrepeso médio de 3,4% acima do peso declarado. Fazendo a conta, 14,3 toneladas de biscoito doadas por mês, R$ 1,4 milhão por ano.

O que faz esse Project Charter ser bom é a estratificação já na declaração do problema: os dados mostravam picos de 4,9% nas primeiras horas após troca de produto, concentrados nos bicos 5 a 8 da envasadora. O problema não era "a linha", era um lugar e um momento específicos, e isso foi escrito antes de qualquer plano de ação.

Na meta, o número veio amarrado à régua legal: cortar o sobrepeso de 3,4% para 1,4% mantendo a conformidade metrológica, porque economizar tirando peso do consumidor não é melhoria, é multa esperando data. Escopo restrito à linha 02 e aos formatos de 350 g e 400 g, que são 88% do volume. Ganho validado pelo Financeiro, não pelo time do projeto: R$ 826 mil por ano.

5. Farmacêutico: liberação de lotes na Garantia da Qualidade

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de farmacêuticoNa planta de Anápolis, 85 lotes de sólidos orais por mês esperavam em média 12,5 dias entre o fim da produção e a liberação pela GQ. É mais que o dobro do benchmark interno de 6 dias, com picos de 21. Enquanto espera, o lote é dinheiro parado: R$ 8,2 milhões imobilizados em quarentena e R$ 82 mil por mês de custo de carregamento.

Num setor regulado, o Project Charter vive ou morre pelas restrições. Este registrou que o escopo analítico farmacopeico e os requisitos de BPF não seriam tocados: o projeto ataca a fila e o fluxo, nunca o rigor do laboratório. A meta assinada com a Diretoria Industrial: lead time de 12,5 para 6 dias, com dezembro no calendário.

O escopo cobriu da última etapa de produção até a liberação no LIMS, incluindo amostragem e revisão de dossiê. Líquidos e injetáveis ficaram pra fase 2. Repare no padrão: quase todo charter maduro tem uma "fase 2" nomeada, que é onde as boas ideias fora do escopo vão morar sem matar o projeto.

6. Manutenção industrial: MTTR dos equipamentos críticos

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de manutenção industrialVinte e dois equipamentos classe A com MTTR de 6,8 horas, quase o dobro da referência de 3,5. Resultado: disponibilidade de 91,2% contra meta de 95%, R$ 88 mil por mês de perda de produção e 280 horas mensais de corretiva emergencial. Eu vivi essa rotina de perto na época de Votorantim, cuidando de manutenção autônoma (um dos pilares do TPM): equipamento parado é a conta mais visível da fábrica.

O business case somou as três parcelas (perda de produção, corretiva, hora extra) e chegou a R$ 528 mil por ano de ganho, com payback de 2 meses. Com esse número na mesa, a assinatura do Sponsor saiu rápida.

O acordo assinado: cortar o MTTR pela metade, de 6,8 pra 3,5 horas, com dois limites de contorno gravados no papel: custo total de manutenção congelado e padrões de segurança LOTO intocáveis. Escopo nos 22 equipamentos das linhas 1 a 5 e no fluxo completo da ordem de serviço, incluindo a logística de sobressalentes. Preditiva por sensoriamento ficou pra um segundo momento.

7. Serviços: erro de faturamento no CSC

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de serviçosUm Centro de Serviços Compartilhados emitindo 9.500 faturas por mês com 6,2% de erro, quatro vezes a referência interna. Além dos R$ 88 mil mensais de retrabalho e concessões, o erro empurrava o prazo de recebimento de 48 dias contratuais para 62. Fatura errada é dupla penalidade: custa pra corrigir e atrasa o caixa.

O charter amarrou meta e restrição comercial na mesma frase: erro de 6,2% para 2,0%, sem alterar as regras comerciais vigentes e mantendo o prazo de emissão. O time não tinha mandato pra renegociar contrato, e deixar isso escrito evitou meses de discussão.

Escopo da apuração do consumo ao envio da fatura, incluindo cadastro de itens e tarifas no ERP. Cobrança, renegociação e pessoa física não entraram. Orçamento enxuto de R$ 18 mil, porque a alavanca era processo e parametrização, não sistema novo.

8. Financeiro: glosas nas medições de obra

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de financeiroCento e trinta medições de obra faturadas por mês, tíquete médio de R$ 210 mil, e 14,2% delas voltando glosadas pelo contratante. Cada glosa atrasava o recebimento em 23 dias, mobilizava 3 equipes em retrabalho e empurrava o prazo médio de recebimento da carteira para 61 dias.

Este charter tem a declaração de problema mais "financeira" dos 13: o indicador é taxa de glosa, mas o sintoma que doía na diretoria era caixa. A meta traduziu os dois mundos, glosas de 14,2% para 6% até julho, e blindou o que não podia mudar: contratos vigentes e calendário de faturamento.

O escopo seguiu o caminho completo da medição nos 34 contratos B2B ativos: da apuração dos quantitativos em campo à montagem do boletim, pacote documental, envio e aceite. Cobrança, inadimplência e obras próprias de incorporação ficaram do lado de fora. É um ótimo modelo pra quem acha que Lean Seis Sigma é coisa só de fábrica.

9. Marketing: conversão de leads em visitas agendadas

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de marketingSim, charter funciona em marketing. As campanhas de lançamento imobiliário geravam 3.200 leads por mês a R$ 74 cada (R$ 236,8 mil mensais de mídia), mas só 8,4% viravam visita agendada em até 7 dias. A velocidade de vendas estava em 4,9% ao mês contra 7% do plano de incorporação.

A meta foi escrita pra fechar as portas de fuga: elevar a conversão de 8,4% para 14% até agosto, sem aumentar verba de mídia nem quadro de corretores. Sem essas duas restrições, qualquer um bate a meta comprando lead ou contratando gente, e o projeto não melhora nada.

Escopo: do lead digital no CRM até o agendamento, nos 3 lançamentos ativos, com piloto em 1. Negociação, preço e leads de indicação não entraram na cerca. O Project Charter foi assinado com orçamento de R$ 22 mil, menos de 10% do que se gastava em mídia por mês.

10. Hotelaria: Project Charter pra liberação de quartos no housekeeping

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de hotelariaUm hotel de 180 quartos com 78% de ocupação e até 95 check-outs nos picos de fim de semana. Entre o hóspede sair e o quarto aparecer liberado no sistema passavam 74 minutos: fila no lobby às 15h, early check-in sem poder ser vendido e nota 8,1 nas OTAs.

O charter definiu o indicador com precisão de processo: o relógio conta do registro do check-out no PMS até o quarto "limpo e inspecionado" no sistema. Meta de 74 para 45 minutos até agosto, com duas restrições que protegem o serviço: recall de limpeza no máximo em 2% e nenhuma camareira a mais no quadro.

Dentro do escopo: limpeza, reposição de enxoval, pendências rápidas de manutenção e inspeção nos 12 andares. Reforma, lavanderia terceirizada e política de tarifas, não. Receita nova sem gastar um real a mais: o early check-in que passa a ser vendável é o ganho mais elegante do business case.

11. Sustentabilidade: resíduos de obra no canteiro

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de sustentabilidadeUma torre residencial de 14.500 m² gerando 0,182 m³ de resíduo por m² construído, 52% acima da boa prática do setor. O canteiro descartava 1.240 m³ por trimestre pagando R$ 96 por m³ de caçamba, transporte e destinação, sem contar o material comprado que virava entulho.

O que quase derrubou esse Project Charter foi a ambição: a primeira versão do escopo abraçava as duas torres do empreendimento. O time cortou a torre 1 com um argumento técnico simples: ela já estava em acabamento, gera outro perfil de resíduo e contaminaria o baseline. Sobrou a torre 2 inteira, dos processos geradores (argamassa e concreto, alvenaria e cerâmica, gesso, madeira de forma) à segregação nas baias, com terraplenagem e demolição fora da cerca.

No campo de ganhos, dois números de naturezas diferentes, como eu separo no livro: R$ 610 mil por ano de hard saving e, como benefício intangível nomeado, o reforço à meta ESG 2028 do grupo. Projeto que conversa com um objetivo estratégico sobrevive à troca de prioridade do trimestre. A meta: de 0,182 pra 0,13 m³ por m² até julho, com o cronograma de 20 meses da obra blindado no papel.

12. Produção de elevadores: retrabalho na montagem de portas

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de produção de elevadoresA fábrica-matriz produz cerca de 380 elevadores por mês, e a linha de portas de pavimento entrega 3.000 portas mensais em 3 linhas de montagem. Dessas, 11,6% voltavam pra retrabalho antes da expedição, a R$ 118 por porta, e 6,2% dos kits de obra saíam com pendência, gerando multa contratual e atraso de instalação na obra do cliente.

O documento foi específico até no que NÃO podia ser feito pra bater a meta: reduzir o retrabalho de 11,6% para 5% até agosto sem reduzir o ritmo de 3.000 portas e sem adicionar postos de inspeção. Inspecionar mais esconde o defeito; o projeto tinha que remover a causa.

Escopo: as 3 linhas da matriz, do corte e dobra à embalagem dos kits por obra, incluindo gabaritos e parâmetros de solda. Portas de cabina e as plantas do México e de Portugal aguardam a vez. Orçamento de R$ 60 mil pra um ganho estimado de R$ 540 mil por ano.

13. Manutenção de elevadores: rechamadas em contratos de preventiva

Miniatura do Project Charter preenchido do exemplo de manutenção de elevadoresUma filial com 9.800 elevadores em carteira e 74 técnicos de rota, onde 8,9% das preventivas geravam chamado corretivo no mesmo elevador em até 30 dias. São 872 rechamadas por mês a R$ 210 cada, perto de R$ 2,2 milhões por ano, com disponibilidade de 98,1% contra SLA de 99% e churn de 7,2% na carteira.

Na construção do documento, a decisão mais fina foi incluir a Central de Atendimento no escopo. O instinto do time era olhar só pro técnico da rota, mas rechamada mal classificada some da estatística, e a classificação de chamados entrou na cerca justamente pra ninguém caçar fantasma. Modernizações, vandalismo e as demais filiais ficaram do lado de fora.

A meta ganhou duas travas de realidade: cair de 8,9% pra 4,5% de rechamada até julho sem cortar preventiva contratual e sem contratar. E o business case fala as duas línguas do negócio: R$ 2,2 milhões por ano de custo direto e um churn de 7,2% que nenhuma tabela de preço compensa. Orçamento do piloto: R$ 70 mil, pra um ganho estimado de R$ 1,1 milhão.

Ferramentas que trabalham junto com o charter

O Project Charter abre a fase Definir, mas não trabalha sozinho. Na sequência natural de um projeto entram a voz do cliente (VOC), pra confirmar o que importa pra quem recebe o resultado, e o SIPOC, pra mapear o processo do fornecedor ao cliente. Depois vêm a matriz esforço x impacto, que prioriza as ações, e o 5W2H, que transforma decisão em plano. E quando a dúvida é QUAL problema merece um Project Charter primeiro, a matriz GUT ajuda a priorizar antes mesmo do projeto nascer. No livro, inclusive, eu mostro como o 5W2H responde as questões-chave do cronograma do próprio charter (Figura 19.11, p. 171). Todas essas ferramentas estão, com modelo preenchível, no mesmo kit do charter.

Matriz esforço por impacto com os quadrantes ganhos rápidos, grandes projetos, baixa prioridade e desgaste
A matriz esforço x impacto do nosso material oficial. Dentro do projeto, é ela que ordena as ações: ganho rápido na frente, desgaste fora do plano.

Baixe o modelo em branco e aplique no seu projeto

Miniatura do modelo de Project Charter preenchível da VoittoO modelo de Project Charter da Voitto é um PDF preenchível: abra, escreva e salve, sem precisar de software de projeto. Ele é a ferramenta D01 do Kit de Ferramentas Lean Seis Sigma, que reúne as 20 ferramentas do DMAIC na ordem de uso.

Ver e baixar o modelo de Project Charter (PDF preenchível)

E se você quer viver isso na prática, na Academia Lean Seis Sigma você conduz um projeto completo como esses 13 aí de cima, com roteiro passo a passo e avaliação de especialista ao final. O charter que você escrever lá é o primeiro entregável do seu certificado. Foi batendo na porta de um Master Black Belt que a minha jornada começou; a sua pode começar com um documento de duas páginas bem escrito.

Perguntas frequentes

Project Charter e Termo de Abertura do Projeto (TAP) são a mesma coisa?
Sim. Project Charter é o nome em inglês e Termo de Abertura do Projeto (TAP) é a tradução consagrada pelo PMI no Brasil. Nos projetos de melhoria contínua o documento também aparece como contrato do projeto. O conteúdo é o mesmo: problema, meta, escopo, time, business case, cronograma macro e assinaturas.
Quem assina o Project Charter?
No mínimo, o líder do projeto e o patrocinador. Em projetos Lean Seis Sigma, assinam o Belt responsável pela condução, o Champion que remove barreiras e o Sponsor que autoriza recursos. A assinatura é o que transforma o documento em compromisso da empresa.
Em que fase do DMAIC entra o Project Charter?
Na fase Definir, como primeira entrega do projeto. Ele pode ser ajustado enquanto essa fase durar, por exemplo quando a coleta de dados da fase Medir revela um baseline diferente do estimado, sempre revalidando com as mesmas assinaturas.
Qual o tamanho ideal de um Project Charter?
Uma a duas páginas. O charter resume o acordo do projeto, não o plano completo: se estiver crescendo além disso, parte do conteúdo provavelmente pertence ao plano de gerenciamento, ao cronograma detalhado ou aos planos de ação.
Onde encontro exemplos de Project Charter preenchidos?
Neste artigo há 13 exemplos completos em PDF, um por segmento (saúde, manufatura, logística, serviços, financeiro, marketing, manutenção, alimentício, farmacêutico, sustentabilidade, hotelaria e dois do setor de elevadores), todos gratuitos. São os projetos-modelo da Academia Lean Seis Sigma da Voitto.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

Veja também

Conteúdos de Gestão & Liderança

Materiais, resumos e podcasts para você se aprofundar no tema.

Ver todos os conteúdos de Gestão & Liderança