Matriz SWOT: o teste que separa fraqueza de ameaça
A folha D03 do kit campo por campo, a matriz de um caso relida contra as folhas de origem, os quatro testes de classificação e a regra da evidência
Quatro quadrantes, alguns itens em cada um, e a matriz SWOT parece pronta em meia hora. Essa facilidade explica por que tanta matriz sai inútil. O que separa a matriz que orienta decisão da que só enfeita a apresentação são duas regras: classificar cada item pelo teste certo e escrever ao lado o número que o sustenta.
Eu aprendi a primeira regra do jeito caro, em 2015, quando a Voitto chegou perto de quebrar. Conto mais abaixo, porque aquele ano tinha um item em cada metade da matriz, e o que salvou a empresa saiu da metade que a gente controlava.
No kit de planejamento estratégico da Voitto, a matriz SWOT é a ferramenta D03, uma folha de uma página. E aqui tem uma coisa rara: a D03 preenchida do caso do kit, a OdontoVita, está inteira no arquivo. Eu li item por item, contra as folhas de onde cada número deveria ter vindo, e três dos doze escorregam. Todos no mesmo quadrante.
Você vai ver a D03 campo por campo, essa leitura do caso, quatro testes para tirar a dúvida de classificação, a regra da evidência, quantos itens usar e por quanto tempo a matriz vale. No fim, quatro matrizes preenchidas em PDF, três delas ilustrativas, e a folha em branco para baixar.
O que é a matriz SWOT
A matriz SWOT é uma ferramenta de diagnóstico que organiza a situação de uma empresa em quatro quadrantes. As forças e fraquezas ficam no lado interno, que a empresa controla. As oportunidades e ameaças ficam no externo, que ela não controla. Cada item vale pelo número que o sustenta.
A sigla vem do inglês: strengths, weaknesses, opportunities e threats. Quem quer a introdução geral, com a versão em português da sigla e exemplos de empresas conhecidas, encontra no texto sobre análise SWOT. Aqui o foco é outro: como preencher a matriz SWOT de modo que ela aguente uma reunião de orçamento.
No capítulo 21 do meu livro, Ferramentas de Planejamento e Definição, eu escrevi na página 185 que "a matriz SWOT examina os ambientes interno e externo de uma empresa, visando realizar o gerenciamento de riscos e encontrar oportunidades de melhoria e otimização de desempenho". A palavra que mais pesa ali é examina. Exame tem medida, e é a medida que falta na maioria das matrizes que eu vejo.
A separação entre interno e externo tem um critério simples, e ele aparece igual em fontes bem diferentes. O Portal da Estratégia do Ministério dos Transportes define os fatores internos como "tudo aquilo que a empresa pode controlar diretamente" e os externos como "todos os fatores que estão fora do controle da empresa". A D03 do kit diz o mesmo com menos palavras: "a empresa controla" contra "só reage".
A crise de 2015 nos dois lados da matriz
Em 2015 a Voitto chegou perto de quebrar. Quando eu releio aquele ano com a régua da matriz SWOT, ele se divide em duas metades com uma clareza que, no meio do aperto, ninguém tem.
Em ameaças entraria a crise política do país, um fator que nenhuma empresa do nosso tamanho tinha como mudar. Em fraquezas entraria uma conta que era só nossa: a receita era alta, e a despesa crescia mais depressa que ela. As duas coisas aconteceram no mesmo ano e doeram do mesmo jeito. Só uma delas estava ao meu alcance.
É aí que a classificação deixa de ser detalhe de formulário. A ameaça explica o tamanho do tombo. A fraqueza explica por que o tombo foi nosso, e é nela que mora a ação. A virada da Voitto veio do lado de dentro: gravar os cursos presenciais e entrar no ensino a distância sem saber direito onde eu estava pisando. A crise continuou lá fora por um bom tempo.
Fico com essa lição sempre que vejo uma matriz SWOT com o quadrante de ameaças cheio e o de fraquezas magro. Quase sempre há uma fraqueza disfarçada de ameaça ali dentro, e ela está disfarçada porque é mais confortável assim. Ameaça é algo para suportar. Fraqueza é algo para corrigir, com dono e prazo.
A matriz SWOT na D03, campo por campo
A D03 é a matriz SWOT do Kit de Ferramentas para Planejamento Estratégico, na fase de Diagnóstico. O subtítulo da folha já diz a regra principal: "cada item com a evidência que o sustenta". São quatro blocos.
- Como preencher. Quatro instruções. A terceira é a mais dura: "Toda Fraqueza precisa vir com o número do Diagnóstico de Capacidades (D04)".
- O cabeçalho. Código do planejamento, responsável e data. A data importa mais do que parece, e tem seção própria mais abaixo.
- Os quatro quadrantes. Cada um com duas colunas, Item e Evidência ou Número. O interno fica nas duas tabelas de cima, o externo nas duas de baixo.
- Os sinais. Três frases que separam uma SWOT de verdade de uma opinião preenchida.
A segunda instrução define de onde vêm os itens externos: "Reaproveite os fatores de impacto alto da PESTEL (D01) e de Porter (D02) para preencher Oportunidades e Ameaças, em vez de inventar item novo". A quarta define para onde vai o resultado, a SWOT cruzada, onde fraqueza e oportunidade juntas viram opção estratégica.
O Guia do Kit aponta o erro típico da D03 numa linha: "Escrever fraqueza de memória, sem citar a ferramenta que mediu". É a regra da evidência dita pelo avesso, e ela vale para os quatro quadrantes.
Dois cuidados para quem usa a folha fora do kit. O primeiro: a instrução 3 aponta a D04 como fonte do número das fraquezas. Sem o kit, qualquer medição serve, desde que tenha referência, como a média do setor, o concorrente direto ou a meta interna. O segundo: a folha não tem coluna para a data da medição de cada item. Eu escrevo a data junto do número.
Abra a D03 em branco para acompanhar campo por campo
A D03 do caso OdontoVita, lida item por item
A OdontoVita é o caso que atravessa o kit: uma rede de doze clínicas odontológicas que cresceu abrindo unidade e agora vê o orçamento da 13ª não fechar. A D03 preenchida do caso traz três itens por quadrante, cada um citando a folha de origem.
Ameaças e fraquezas passam inteiras. As três ameaças trazem número da análise PESTEL ou das 5 forças de Porter: a praça foi de 68 para 104 clínicas, 12 abriram só no último ano, 71% dos pacientes comparam três ou mais orçamentos. As três fraquezas trazem o gap do diagnóstico de capacidades: retenção de 31% contra 55%, recompra de 24% contra 40%, e a relação entre o LTV e o custo de aquisição em 1,7, contra o mínimo de 3,0.
As oportunidades escorregam, as três. A primeira, "base de pacientes cadastrados subexplorada", fala de um ativo da própria rede. Pelo teste de controle ela é interna. E o número dela, 31% em retorno ativo, é o mesmo fato que já está na fraqueza de retenção, o que bate de frente com o segundo sinal da folha. Ela ainda cita "cerca de 28 mil pacientes" com a fonte D04, e a D04 do caso não traz esse número.
A segunda, "lacuna tecnológica dos concorrentes em recall", cita a D01. Só que a D01 do caso registra o contrário: sete em cada dez concorrentes diretos já mandam lembrete automático de retorno pelo WhatsApp, e a rede não faz isso em clínica nenhuma. Com esse dado na mesa, o fator é ameaça, com uma fraqueza atrás. A terceira, a procura por estética dental "entre pacientes já cadastrados", não tem número nem folha de origem.
Do lado das forças, o poder de compra das doze unidades é interno e real, e a leitura de Porter confirma. Falta o número que o primeiro sinal pede. E a captação de 47 pacientes contra benchmark de 45 é força por uma margem de 4%, fina para sustentar estratégia.
Fica um último achado, de corte. A D04 do caso marca cinco capacidades para virar fraqueza. A D03 leva três e deixa de fora o no-show, de 19% contra 12%, e o ticket médio, de R$ 2.080 contra R$ 2.400. Cortar é legítimo, e a regra de corte está mais abaixo. O que faltou foi escrever por que esses dois saíram.
Por que o deslize se concentra nas oportunidades? O quadrante de oportunidade é onde o desejo de quem planeja entra com mais facilidade. O terceiro sinal da própria D03 avisa isso: oportunidade e ameaça vêm da leitura externa, "não do desejo de quem está planejando". O primeiro exemplo do fim do artigo traz a folha com essa leitura marcada em cada item.
Os quatro testes que separam interno de externo
O teste de controle resolve a maior parte dos casos, e às vezes não basta. Para os itens que ficam em dúvida, eu uso quatro perguntas, e a resposta quase sempre aparece na terceira.
- Controle. A empresa muda isso sozinha, com decisão própria, num prazo razoável?
- Sujeito. A frase fala da empresa ou do ambiente?
- Permanência. Se a empresa fechar amanhã, o fator continua existindo?
- Ação. A resposta natural é corrigir ou reagir?
O caso mais instrutivo é quando os testes discordam entre si. Na confecção do segundo exemplo, "falta de costureira qualificada" chegou como ameaça. O salário da fábrica estava 12% abaixo da média do polo, e a rotatividade, o turnover da costura, era de 41% ao ano contra 18%. Ao mesmo tempo, um centro de distribuição abriu 600 vagas na cidade. A frase colava as duas coisas. Separadas, viram uma fraqueza com dono e uma ameaça com nome.
Tem um detalhe que o livro ajuda a ver. Na página 186, eu trago uma matriz SWOT de um projeto Lean Seis Sigma numa empresa de telemarketing, e lá a "dificuldade de encontrar mão de obra qualificada" está em ameaças do projeto. Ali ela está certa, porque a equipe do projeto não controla a contratação da empresa. Já o "suporte do time de TI à distância" entra como fraqueza, apesar de a TI ser de outra área.
Interno e externo dependem de quem é o dono da matriz. Na SWOT do projeto, o mercado de trabalho é ambiente. Na SWOT da empresa, a política de salário é decisão dela. Por isso o primeiro campo que eu preencho é o escopo: matriz de quem, para decidir o quê.
Toda fraqueza precisa de evidência
A regra da evidência é a que mais diferencia uma matriz SWOT útil de uma decorativa. "Retenção fraca" é impressão. "Só 31% dos pacientes voltam em doze meses, quando o setor tem 55%" é fraqueza, e ganha três propriedades que a primeira frase não tem: pode ser contestada com dado, pode ser comparada com outra fraqueza e pode ser acompanhada depois que a ação começar.
| Item sem evidência | Por que não serve | Versão com evidência |
|---|---|---|
| Equipe desmotivada | Impressão de quem preencheu | Rotatividade de 41% ao ano contra 18% da média do polo |
| Atendimento ágil | Todo concorrente diz o mesmo | 94% dos lotes devolvidos em 24 h; o contrato padrão pede 36 h |
| Mercado em crescimento | Vale para qualquer empresa | 3 redes hoteleiras da região abriram cotação em 2026 |
| Concorrência acirrada | Descreve todo mercado | 12 clínicas novas abriram na praça no último ano |
Na prática, a evidência boa tem três partes: o número, a referência e a data. Sem referência, o número não diz se é bom ou ruim. Sem data, ninguém sabe se ele ainda vale. É o mesmo cuidado que eu tinha como auditor líder de ISO 9000: constatação sem evidência objetiva não vira registro, por mais que todo mundo na sala concorde.
Quando a evidência não existe, isso também é um achado. "Suspeitamos de fraqueza na retenção, ainda não medida" é honesto e vira uma tarefa de medição, com responsável. Escrever o item como fato conhecido é o que leva a gente a atacar um problema que talvez nem exista.
Requisito do setor não entra como força
O quadrante de forças tem a armadilha mais confortável da matriz SWOT: listar o que toda empresa do ramo precisa ter para funcionar. Licença sanitária em dia, entrega no prazo, equipe qualificada. Em muitos setores, isso é o ingresso para estar no jogo. Quem compete no ramo já pagou por ele.
O livro define força como "recursos internos, habilidades e vantagens competitivas diante da concorrência", na mesma página 185. O "diante da concorrência" é o que dá trabalho. Força precisa de uma referência dita: acima do concorrente direto, acima da média do setor, acima do que o contrato exige. Quem é o concorrente direto, aliás, é pergunta da arena competitiva, que vem antes da matriz no kit.
A referência também mostra quando a força é fina. A captação da OdontoVita, 47 pacientes contra 45 do benchmark, está dentro do que um mês ruim apaga. Eu manteria o item, com uma nota: força a vigiar, que sozinha não sustenta escolha nenhuma.
Um teste rápido: se o item sair da matriz, alguma decisão do ano muda? Se a resposta for não, ele é requisito ou é enfeite. Na lavanderia do terceiro exemplo, quatro itens saíram de forças por esse motivo.
Oportunidades e ameaças vêm de fora, e já medidas
Buscar oportunidades e ameaças na PESTEL e em Porter, como a folha manda, tem um motivo de qualidade. Item externo escrito direto na matriz SWOT tende ao genérico, porque nasce de conversa: "digitalização", "crescimento do mercado". Quando ele vem de uma análise externa, já passou por um filtro de impacto sobre este negócio.
- Da PESTEL vêm os fatores de ambiente: lei, economia, comportamento, tecnologia.
- De Porter vêm os fatores de estrutura competitiva: cliente, fornecedor, entrante, substituto e rival.
- Filtre pelo impacto. Só entra o que foi classificado como de impacto alto.
- Traduza para o efeito. O item descreve o que o fator faz com esta empresa.
O quarto passo é o que transforma diagnóstico externo em item de matriz. "Alta do malte importado" é um fator. "Malte importado 18% mais caro em doze meses, num insumo que é 22% do custo do litro" é uma ameaça, e já sugere onde agir.
Oportunidade tem um teste a mais: a empresa consegue capturar? Um mercado vizinho crescendo só é oportunidade se existe caminho viável até ele. Sem isso, o item é oportunidade de algum concorrente. A cervejaria do quarto exemplo tirou a cerveja sem álcool da matriz por esse motivo. O passo seguinte, decidir para onde crescer com o que sobrou, é da matriz de Ansoff.
Ameaça pede calibragem de tamanho. Todo negócio enfrenta risco regulatório e recessão. Na matriz entra a ameaça com efeito material agora; as outras vão para a matriz de risco, que gradua probabilidade e impacto.
Quantos itens por quadrante
Não há número mágico, mas há uma faixa em que a matriz SWOT funciona. Abaixo de três itens por quadrante, o diagnóstico quase sempre não foi trabalhado. Acima de oito, a matriz para de priorizar e vira inventário.
O desenho é do terceiro exemplo. A lavanderia saiu da reunião com 23 itens. Oito caíram por não ter número, quatro por serem requisito do setor, quatro por não mudarem nenhuma decisão em doze meses. Sobraram sete, e eles cabem numa conversa de orçamento.
O critério de corte que eu uso é o de consequência: fica o item que, tratado ou ignorado, muda uma decisão de investimento no próximo ano. O resto pode ser verdadeiro e continuar fora. O caso do kit ficou em três por quadrante, e isso funciona quando os cortes ficam escritos.
A matriz SWOT tem data, e envelhece
Toda matriz SWOT é uma foto. Os quadrantes externos envelhecem rápido: um entrante novo, uma lei, um movimento de preço do concorrente mudam oportunidades e ameaças em semanas. Os internos envelhecem por outro motivo: as ações do plano mudam a empresa.
A cervejaria do quarto exemplo guardou a versão de 2025 e refez a matriz em agosto de 2026. A comparação respondeu o que nenhuma das duas, sozinha, respondia. A fraqueza do envase manual foi tratada e virou força. A oportunidade dos bares foi capturada em parte. E apareceu uma fraqueza nova, filha do próprio crescimento: um distribuidor com 54% do volume.
- Date a matriz e a medição de cada evidência.
- Revise os quadrantes externos a cada trimestre, junto do ritual de revisão trimestral.
- Revise os internos uma vez por ano, ou quando uma ação grande terminar.
- Guarde as versões. A comparação entre duas é a avaliação mais honesta do plano.
Montar a matriz SWOT em equipe sem virar brainstorm
A montagem em grupo é o formato mais comum e o que mais produz matriz inútil, porque a reunião premia quem fala mais e gera lista longa de impressões. O brainstorming tem lugar, e é antes da matriz, para levantar candidatos. A matriz é o filtro.
- Distribua o diagnóstico antes. PESTEL, Porter e capacidades circulam com antecedência. A reunião classifica e corta.
- Exija evidência na hora. Item sem número vai para uma lista a verificar, com dono e prazo.
- Classifique antes de discutir importância. Primeiro os quatro testes, depois a relevância.
- Corte ainda na sala, pelo critério de consequência.
- Saia com os primeiros cruzamentos escritos, nem que sejam três.
A segunda regra é a que mais muda a qualidade e a mais difícil de sustentar, porque interrompe a conversa. Vale combinar antes que item sem número não é descartado: ele fica registrado com quem vai medir. Ninguém perde a contribuição, e o diagnóstico não fica contaminado.
Quem participa também conta. Se o grupo é só a diretoria, as ameaças ficam com cara de mercado e as fraquezas somem. Gente da operação e do atendimento costuma trazer a fraqueza que ninguém da sala de reunião vê. O mapa de stakeholders do planejamento ajuda a escolher quem chamar.
Da matriz SWOT ao cruzamento
Quadrante cheio ainda é meio caminho. A matriz SWOT só termina quando os itens foram cruzados. A quarta instrução da D03 diz isso: fraqueza junto de oportunidade vira opção estratégica na SWOT cruzada. O cruzamento tem texto próprio aqui no blog, e eu não vou repetir os quatro tipos.
O que importa para quem preenche a matriz é que o cruzamento herda os defeitos dela. Se a oportunidade é interna disfarçada, a opção estratégica nasce torta. Se a ameaça é uma fraqueza terceirizada, o plano reage ao que deveria corrigir. Na lavanderia, o par que manda é água por quilo, 14 litros contra 9, com o reajuste de 13% na tarifa.
Quem quer usar inteligência artificial para montar a primeira versão encontra o roteiro em IA na matriz SWOT. E para quem prefere planilha, a análise SWOT no Excel traz um modelo pronto.
Quando a matriz SWOT é a ferramenta errada
A matriz SWOT é popular demais, e acaba chamada para perguntas que ela não responde. Reconhecer essas situações poupa o ritual anual que ninguém usa depois.
- Escolha entre duas alternativas concretas. Para decidir entre comprar a máquina A ou a B, a matriz é lenta e vaga. Uma análise de viabilidade compara as duas com caixa e prazo.
- Ordem das ações. A matriz diz o que existe, não o que vem primeiro. Para ordenar, a matriz GUT pontua gravidade, urgência e tendência.
- Empresa sem nenhum dado interno. Sem medição, toda fraqueza vira impressão. Comece pelo diagnóstico de capacidades e deixe a matriz para depois.
- Crise de caixa. O problema é de semanas e já é conhecido. Diagnóstico de horizonte longo, nessa hora, tira atenção do que precisa ser feito agora.
A última eu conheço de perto. No aperto de 2015, o que a Voitto precisava era decidir o que cortar e o que gravar, mês a mês. A leitura em quatro quadrantes que eu fiz mais acima é de quem olha de longe, depois. Ela serve para o planejamento seguinte, e é para isso que a matriz existe.
E vale lembrar o outro uso, mais comum na melhoria contínua. No livro, a matriz SWOT aparece no capítulo de ferramentas da etapa Definir, onde ela diagnostica o próprio projeto. Numa SWOT de projeto, o escopo é menor e a pergunta é se o projeto tem condição de começar.
Exemplos de matriz SWOT preenchidos
As quatro matrizes SWOT a seguir estão no formato da D03. A miniatura de cada uma abre a folha inteira nesta mesma página, com o botão para baixar o PDF. A primeira é a D03 do caso do kit com a minha leitura marcada; as outras três são montagens minhas e não descrevem empresa real. Cada folha ganhou um quadro que a D03 não tem.
1. OdontoVita: a D03 do caso, item por item
Doze clínicas odontológicas, um planejamento que começou pela pergunta da unidade nova e uma D03 que veio pronta no kit. Os doze itens e as evidências desta folha são os do caso, sem edição. A coluna de leitura e o quadro de achados são meus.
O problema que a D03 precisava resolver era de foco: a rede vinha crescendo por abertura de unidade e precisava saber se o gargalo estava fora, na praça, ou dentro, no paciente que não volta. A folha respondeu bem nas fraquezas, com os três gaps da D04.
A dificuldade apareceu nas oportunidades. A base subexplorada repete a retenção, a lacuna em recall contradiz a D01 e a estética dental chegou sem número. Corrigidas, as três viram uma fraqueza já listada, uma ameaça e um item a verificar.
O efeito disso na SWOT cruzada é direto. Com as oportunidades lidas como estão, a rede cruzaria força com uma lacuna que a D01 diz não existir. Lidas pelos testes, o cruzamento que manda é fraqueza com ameaça: retenção de 31% numa praça onde 70% dos concorrentes já fazem recall.
Para a revisão do trimestre, eu levaria duas linhas a mais na folha. Uma com o motivo de o no-show e o ticket médio terem ficado fora das fraquezas. Outra com a fonte dos 28 mil pacientes, que hoje aponta para uma planilha onde o número não está.
2. Confecção: a costureira que ninguém acha
Num polo de confecção do interior, esta fábrica de moda feminina emprega 96 pessoas, 70 delas na costura, e vende para lojistas multimarca. O exemplo é ilustrativo. O diretor industrial chegou ao planejamento com uma ameaça escrita em maiúsculas: falta de costureira qualificada.
A primeira versão da matriz tinha esse item sozinho em ameaças, e fraquezas quase vazio. Quando a equipe passou o item pelos quatro testes, os testes discordaram entre si, e a discordância foi o sinal de que havia duas coisas coladas.
A conversa mais dura foi sobre salário. O RH defendia que pagava o piso e que o problema era o mercado. O número que encerrou a discussão foi a média do polo: R$ 2.250 contra R$ 1.980 da fábrica. Junto veio a rotatividade, 41% ao ano contra 18%.
A ameaça não sumiu, só ficou do tamanho certo: o centro de distribuição que abriu 600 vagas com salário inicial de R$ 2.400. Ela continua em ameaças. A fraqueza ganhou dono, e o retrabalho de 7,5% ganhou uma explicação que antes ninguém ligava à rotatividade.
3. Lavanderia industrial: de 23 itens para 7
Catorze hospitais e 22 hotéis mandam roupa para esta lavanderia industrial, ilustrativa: 310 toneladas por mês, com 58 pessoas na operação. A gerente de operações saiu da primeira reunião de planejamento com 23 itens na matriz e nenhuma ideia de qual atacar primeiro. O corte foi feito em três passadas. Primeiro saiu tudo que não tinha número. Depois, o que era requisito do setor, como licença sanitária e coleta diária, que todo concorrente oferece. Por último, o que não mudaria nenhuma decisão em doze meses.
Houve resistência para tirar "equipe comprometida" das forças. Ninguém duvidava do time. O argumento que resolveu foi pedir o número, e a equipe não tinha: nem rotatividade, nem absenteísmo, nem pesquisa. O item foi para a lista a verificar, com prazo.
Dos sete que ficaram, dois formam o par que manda no ano. A lavanderia gasta 14 litros de água por quilo, contra 9 de uma linha com reuso, e a tarifa subiu 13% numa conta de R$ 62 mil por mês. A SWOT cruzada começa por aí.
4. Cervejaria artesanal: duas matrizes, um ano depois
A sócia-fundadora desta cervejaria artesanal, ilustrativa, tinha guardado a matriz SWOT de agosto de 2025. Com taproom próprio, uma equipe de 24 e 38 mil litros por mês, ela refez a de 2026 com a antiga aberta ao lado.
A comparação mostrou o plano do ano por dentro. O envase manual de 1.800 latas por dia era fraqueza em 2025; a envasadora comprada em março levou a 6.000 e o item mudou de quadrante.
A cerveja sem álcool estava em oportunidades em 2025, e a cervejaria nunca teve como produzir. O equipamento custava R$ 400 mil. Em 2026 o item saiu da matriz e foi para a lista a verificar.
O achado que ninguém esperava foi a fraqueza nova. Crescer nos bares, de 12 para 41, fez um único distribuidor chegar a 54% do volume fora do taproom. A matriz de 2025 não tinha como ver isso, porque o problema nasceu da própria vitória.
A decisão que saiu da comparação foi de método: a matriz passou a ser refeita todo agosto, com a versão anterior anexada, e cada item ganhou a data da medição. Dois minutos a mais por item, e o plano do ano seguinte começa sabendo o que funcionou.
Erros comuns na matriz SWOT
- Fraqueza escrita como ameaça. Terceiriza o que a empresa poderia corrigir.
- Ativo interno escrito como oportunidade. A base de clientes é da empresa, não do mercado.
- Item sem número. O Guia do Kit aponta como o erro típico da D03.
- O mesmo fato em dois quadrantes. Fere o segundo sinal da folha.
- Requisito do setor listado como força. O que todos têm não diferencia ninguém.
- Oportunidade sem capacidade de captura. É oportunidade de outra empresa.
- Mais de oito itens por quadrante. A matriz para de priorizar.
- Matriz sem data e sem versão anterior. Ninguém sabe o que o plano mudou.
E um erro de uso: montar a matriz SWOT para o slide. Matriz de apresentação sai simétrica, quatro itens por quadrante, fraquezas suaves. A matriz que serve costuma ser desequilibrada e um pouco desconfortável de mostrar.
Modelo de matriz SWOT para baixar (PDF)
Aqui embaixo fica a folha em branco, do jeito que o kit entrega, pronta para imprimir ou preencher na tela.
O arquivo é a folha Matriz SWOT do kit, sem dados: instruções, os quatro quadrantes com item e evidência, e os sinais de uma SWOT que não é opinião.
Abrir e baixar a D03 em branco (PDF)
Antes de usar, eu faria dois ajustes. Escreveria o escopo no cabeçalho, matriz de quem e para decidir o quê. E poria a data da medição ao lado de cada número. O planejamento inteiro, da PESTEL à revisão, está em como fazer um planejamento estratégico, e quem trabalha com saúde tem o roteiro em planejamento estratégico em clínicas.
Que tal pegar a sua última matriz SWOT e passar cada item pelos quatro testes ainda nesta semana? Comece pelas oportunidades, onde o desejo entra mais fácil. A primeira surpresa costuma ser uma fraqueza escondida lá. Esse é o combustível de um diagnóstico que aguenta a reunião de orçamento. Se a fraqueza encontrada vai virar projeto com meta, a Academia de Certificação da Voitto forma quem conduz esse projeto com dado, e o Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt detalha cada etapa, da definição do problema ao controle.



