Case de 5S no financeiro: o desperdício está na pasta, não na mesa
Um financeiro de 14 pessoas contado senso a senso: 128.000 arquivos na pasta de rede, 412 caixas destinadas por prazo legal de guarda, 62 anomalias de planilha, custo de R$ 66.532,00 e os quatro mecanismos que seguraram a condição por 12 meses.
Case de 5S em setor administrativo costuma ser contado com foto de mesa limpa. Este é contado com o dia útil de entrega do fechamento, o percentual de título pago em atraso e o tempo que alguém leva para achar uma nota fiscal.
O cenário é um financeiro de 14 pessoas, com 3.200 títulos a pagar por mês, 11.250 lançamentos conciliados e nove contas bancárias. O setor entregava o fechamento no 11º dia útil contra uma meta de 5º, com 237 horas extras por mês.
A tese deste case de 5S no financeiro é simples e incômoda. O desperdício de um escritório não está na gaveta, está na pasta compartilhada. Programa que ataca a mesa e não toca no arquivo digital rende pouco e vira piada interna em dois meses.
Você vai ver o que havia dentro dos 128.000 arquivos da pasta de rede e o padrão de nome que substituiu o versão_final_2_OK.xlsx. Também as 412 caixas destinadas por prazo legal, a anomalia de planilha que escondia R$ 38.400 e as três coisas que quebraram no meio.
Os números deste relato foram compostos para este artigo, no formato dos kits da Voitto, e conferidos entre si. Mostram a ordem de grandeza e a forma do registro. Não é o relato de um cliente nomeado nem a descrição de um setor real.
O financeiro que entregava o fechamento no 11º dia útil
O setor tem 14 pessoas: cinco em contas a pagar, quatro em contas a receber, três em conciliação, uma analista fiscal e uma coordenadora. A empresa fatura cerca de R$ 22 milhões por mês.
O volume mensal: 3.200 títulos a pagar, 4.180 a receber, nove contas bancárias e 11.250 lançamentos conciliados. O cadastro de fornecedores tinha 4.180 registros.
O prazo interno de entrega do fechamento era o 5º dia útil. A média dos 12 meses anteriores foi o 11º. Nenhum mês fechou no prazo.
O pedido que chegou à diretoria não citava 5S. Citava contratação: mais duas pessoas para dar conta do fechamento. A pergunta que ninguém tinha feito era onde o tempo estava sendo gasto.
O programa durou 20 semanas até a primeira auditoria completa, e foi medido por 12 meses depois disso. O formato seguido foi o de um programa de 5S com medida de fechamento por etapa.
Os seis sintomas que o time já sabia de cor
Ninguém precisou de diagnóstico para listar o que incomodava. Os seis itens abaixo saíram de uma reunião de 50 minutos com as 14 pessoas.
- Pasta de rede sem padrão de nome: 128.000 arquivos, com versão_final_2_OK.xlsx ao lado de versão final (1).xlsx na mesma subpasta.
- Planilha de conciliação com dono único: 34 abas, 2.180 fórmulas e nove macros, e uma pessoa só sabia operar. Nas férias dela o fechamento atrasou quatro dias a mais.
- Documento fiscal físico sem critério: 412 caixas-arquivo em 38 m² de sala, sem inventário, com caixa de 2009 ao lado da do mês anterior.
- Caixa de entrada como lista de tarefas: a conta compartilhada tinha 3.180 mensagens não lidas e quatro pessoas mexendo sem regra de quem trata o quê.
- Aprovação parada no silêncio: o pedido ia ao gestor por e-mail e ficava lá. Ninguém era avisado de que tinha chegado nada.
- Fechamento que estoura o prazo: meta no 5º dia útil, média no 11º, com 237 horas extras por mês concentradas na primeira quinzena.
O quinto sintoma é o que mais custava dinheiro e o que menos parecia desorganização. Aprovação parada em silêncio vira juros e multa.
A linha de base: o que foi medido antes de mexer em nada
As duas primeiras semanas foram só de medida, sem tocar em arquivo, pasta ou caixa. Sem isso o resultado não tem contra o que ser comparado.
O tempo de localização foi cronometrado em 120 buscas reais em duas semanas, com média de 14 minutos. O volume mensal, contado no mesmo período, é de 240 buscas.
Os títulos em atraso saíram do relatório do ERP, filtrados por causa: 224 de 3.200, ou 7,0%. A conta inclui só os que atrasaram por falha de processo, não por falta de caixa.
A conciliação foi medida pelo casamento automático: 78,0% dos 11.250 lançamentos. Os 22,0% restantes, 2.475, eram tratados à mão, a 1,8 minuto cada.
A hora extra veio da folha, com 237 horas por mês. A nota de 5S saiu de um checklist de 20 itens, de 0 a 5, com teto de 100. O setor tirou 31 na primeira auditoria de 5S.
A mesa arrumada não era o problema
A primeira proposta foi a de sempre: mutirão de gaveta, foto de antes e depois, adesivo marcando onde fica o grampeador. O time já tinha visto isso e chamava de semana do adesivo.
O motivo de o 5S de escritório render pouco é aritmético. Uma mesa de analista tem talvez 40 itens. A pasta de rede que essa mesma pessoa usa tinha 128.000 arquivos. Arrumar os 40 e não tocar nos 128.000 é trabalhar no lugar errado.
A cronometragem confirmou. Das 120 buscas, 104 foram por arquivo digital e 16 por documento físico, com média de 12 e 27 minutos.
A decisão foi tratar a pasta compartilhada como o chão de fábrica do setor. Cada senso foi aplicado primeiro no digital e depois no físico. O paralelo entre fluxo de informação e de material aparece na comparação entre 5S e Lean.
Isso não anula o físico. As 412 caixas saíram, e com critério. Mas entraram como segundo alvo. Um case de 5S em serviços que começa pela gaveta costuma parar na gaveta.
As 20 semanas e a medida que fechou cada etapa
O cronograma foi montado por senso, com data e uma medida obrigatória. Etapa sem medida não fecha, apenas acaba.
| Etapa | Semanas | O que foi feito no setor | Medida que fechou a etapa |
|---|---|---|---|
| Diagnóstico | 2 | Linha de base e cronometragem de busca | Nota 31 e 14 minutos por documento |
| Seiri | 4 | Depuração da pasta e inventário das caixas | 99.700 arquivos fora da árvore ativa |
| Seiton | 5 | Árvore de pastas, padrão de nome e fila de aprovação | 28.300 arquivos renomeados e reendereçados |
| Seiso | 3 | Rotina de depuração e integridade de planilha | 62 anomalias registradas em seis planilhas |
| Seiketsu | 3 | POP de duas páginas e template de conciliação | Seis planilhas críticas com dono e suplente |
| Shitsuke | 3 | Auditoria mensal amarrada ao fechamento | Primeira auditoria completa com nota 64 |
São 20 semanas: 2, 4, 5, 3, 3 e 3. O Seiton levou cinco, mais que qualquer outro senso, porque renomear 28.300 arquivos sem quebrar vínculo de planilha é trabalho de lote em lote.
A ordem importa. Renomear antes de descartar significa renomear arquivo que ia sair. O encadeamento é o mesmo do plano mestre de 5S e segue a sequência descrita na metodologia do 5S.
Seiri digital: o que havia dentro dos 128.000 arquivos
A varredura levou nove dias, com um script que gerou hash, data do último acesso, dono e caminho de cada arquivo. A pasta tinha 2.400 GB. A classificação seguiu regra escrita, e cada arquivo caiu em uma categoria única.
- Duplicata exata, mesmo hash: 31.400 arquivos. Excluídos, mantida uma cópia.
- Versão intermediária do mesmo documento: 18.700 arquivos. Mantida só a última.
- Sem acesso há mais de cinco anos e fora de prazo de guarda: 24.900 arquivos. Excluídos.
- Arquivo pessoal ou fora do escopo: 2.100 arquivos. Movidos para fora da pasta.
- Dentro do prazo de guarda, sem uso corrente: 22.600 arquivos. Movidos para a área de retenção.
- Ativo, de uso corrente: 28.300 arquivos. Ficaram na árvore nova.
A árvore ativa ficou com 28.300 arquivos, 22,1% do original. Dos 2.400 GB restaram 640 GB na área ativa e 410 GB na retenção, com 1.350 GB eliminados.
O número que mais chamou atenção não foi o das duplicatas, e sim o das 18.700 versões intermediárias. É o arquivo salvo com sufixo novo porque ninguém confiava em sobrescrever. Esse padrão aparece em qualquer exemplo de aplicação do 5S administrativo.
Seiri digital: as 1.140 duplicatas no cadastro de fornecedor
O segundo alvo do Seiri não estava em pasta nenhuma, e sim no ERP, com 4.180 registros de fornecedor para uma base real bem menor.
A conferência por CNPJ encontrou 1.140 duplicatas, o mesmo fornecedor cadastrado duas ou três vezes com grafias diferentes. Outros 620 não tinham movimento havia três anos. Sobraram 2.420 ativos.
Cadastro duplicado quebra a conciliação, porque o mesmo pagamento aparece sob dois códigos. E espalha dado bancário divergente, causa de 31 dos 224 títulos em atraso.
Os 1.140 duplicados foram fundidos e os 620 sem movimento, inativados. Excluir cadastro com histórico de lançamento arrebenta relatório de anos anteriores.
Depois da limpeza, o casamento automático da conciliação subiu antes de qualquer mudança de regra. Foi o primeiro ganho visível e ajudou a segurar o time nas semanas seguintes.
Seiri físico: as 412 caixas e o prazo que manda no descarte
O arquivo tinha 412 caixas em 38 m². O inventário levou dois dias, com seis pessoas, e listou tipo de documento, ano e volume por caixa.
A regra foi escrita antes de qualquer caixa ser aberta e validada pelo jurídico e pela contabilidade. Descarte fora de prazo é risco, não ganho de espaço.
| Tipo de documento | Prazo adotado | Base usada na decisão | Onde passou a ficar |
|---|---|---|---|
| Nota fiscal de entrada e de saída | 5 anos | Prazo decadencial tributário | Digital indexado e caixa externa |
| Livro fiscal e arquivo do SPED | 5 anos | Prazo decadencial tributário | Digital em área de retenção |
| Guia e comprovante de tributo federal | 5 anos | Prazo decadencial tributário | Digital indexado |
| Folha de pagamento e recolhimento de FGTS | 30 anos | Orientação do jurídico sobre FGTS | Caixa externa e digital |
| Contrato com fornecedor e aditivo | 10 anos após o término | Prescrição civil, parecer do jurídico | Digital indexado, original em cofre |
| Extrato bancário e conciliação | 5 anos | Acompanha o prazo fiscal | Digital em área de retenção |
| Comprovante de pagamento a fornecedor | 5 anos | Acompanha o título correspondente | Digital indexado |
| Ata e alteração contratual | Permanente | Decisão do jurídico | Cofre, original em papel |
Essa tabela é a daquela empresa. Prazo de guarda muda com regime tributário, setor e contrato, e cada empresa precisa validar a sua.
Com a régua pronta, as 412 caixas foram destinadas: 121 fora de prazo, descartadas com fragmentação certificada; 186 sem consulta, para guarda externa; 87 de consulta frequente, digitalizadas; e 18 permanentes, para o cofre. Saem da sala as 121 descartadas e as 186 que foram para a guarda externa, 307 no total. As 87 digitalizadas continuam ali, porque digitalizar documento fiscal não dispensa a guarda do original dentro do prazo legal, e o cofre das 18 permanentes fica na própria sala. Somadas, são as 105 que restaram.
Ficaram 105 caixas em 12 m². Os 26 m² devolvidos viraram a sala de reunião que o setor não tinha e passou a usar no fechamento.
Seiton: a árvore de quatro níveis e quem pode criar pasta
A árvore antiga chegava a 11 níveis, com caminhos tão longos que estouravam o limite do sistema e impediam a cópia. A nova tem quatro e nenhum a mais.
- Nível 1, o processo: Pagar, Receber, Conciliar, Fiscal, Tesouraria e Retenção. Seis pastas, que não viram sete sem decisão da coordenação.
- Nível 2, o ano: 2024, 2025, 2026. Uma pasta por ano, criada em dezembro do ano anterior.
- Nível 3, o mês ou o objeto: 01 a 12 no que tem ciclo mensal, ou nome do cliente e do contrato no que não tem.
- Nível 4, o documento: aqui ficam os arquivos e aqui acaba. Não existe pasta dentro do nível 4.
A regra de permissão foi o que fez a árvore durar. Só a coordenadora cria pasta de nível 1 e 2. Qualquer um cria no nível 3, dentro do formato. Ninguém cria no 4.
A pasta Retenção é somente leitura. Ali ficam os 22.600 arquivos dentro do prazo de guarda que ninguém abre no dia a dia e que não podem sumir.
Seiton: o padrão de nome, campo a campo
O padrão tem cinco campos separados por sublinhado: data em AAAAMMDD, tipo em quatro letras, contraparte, identificador do documento e versão. Nada mais.
Data em primeiro lugar não é detalhe. Com AAAAMMDD na frente, a ordenação alfabética da pasta já é a cronológica.
| Tipo de documento | Código | Nome antes | Nome depois |
|---|---|---|---|
| Nota fiscal de entrada | NFE | nf tecnoalfa.pdf | 20250312_NFE_TECNOALFA_NF-00184922_v01.pdf |
| Comprovante de pagamento | CPAG | boleto pra pagar URGENTE.pdf | 20250312_CPAG_TECNOALFA_BOL-00184922_v01.pdf |
| Conciliação bancária | CONC | conciliação fevereiro (1).xlsx | 20250228_CONC_BANCO341-CC12345_FEV2025_v01.xlsx |
| Relatório de fechamento | FECH | versão_final_2_OK.xlsx | 20250228_FECH_CONSOLIDADO_DRE-GERENCIAL_v03.xlsx |
| Contrato e aditivo | CONTR | contrato logsul assinado final.pdf | 20240701_CONTR_LOGSUL_CTR-2024-031_v02.pdf |
| Comprovante de recebimento | CREC | recebido cliente maravilha.pdf | 20250315_CREC_MARAVILHA_REC-00093112_v01.pdf |
| Guia de tributo | TRIB | darf dezembro.pdf | 20250120_TRIB_RFB_DARF-1708-DEZ2024_v01.pdf |
| Planilha de rateio | RAT | rateio jan - copia.xlsx | 20250131_RAT_CENTROCUSTO_JAN2025_v02.xlsx |
A coluna da esquerda é literal. Aqueles nomes existiam, e o versão_final_2_OK.xlsx era o relatório de fechamento que ia à diretoria todo mês.
O campo de versão resolveu a origem das 18.700 versões intermediárias. Com v01, v02 e v03 no nome, a pessoa sobrescreve sem medo: a numeração já diz qual é o mais recente.
Seiton: a fila de aprovação que parava no silêncio
Os 224 títulos em atraso por falha de processo foram abertos por causa. A maior fatia não tinha nada a ver com arquivo.
- Aprovação parada com gestor que não foi avisado de que havia algo a aprovar: 98.
- Nota fiscal recebida sem pedido de compra vinculado: 54.
- Documento não localizado na hora de pagar: 41.
- Cadastro de fornecedor incompleto ou com dado bancário divergente: 31.
O Seiton aqui não foi de pasta, foi de fila. A solicitação de pagamento passou a entrar por um formulário único, e não por cinco canais entre e-mail, mensagem e papel.
A caixa compartilhada deixou de ser lista de tarefas. Ficou com três pastas: aguardando documento, em tratamento e concluído. E-mail fora de pasta é e-mail não tratado, visível em dois segundos.
O quadro de pendências ficou numa tela na parede, com os títulos que vencem em até cinco dias e quem precisa aprovar cada um. É gestão à vista aplicada a fila de aprovação, e resolveu os 98 do silêncio.
Seiso: vinte minutos de sexta e a integridade da planilha
Seiso em setor administrativo não é passar pano. É a rotina que impede a pasta de voltar ao estado anterior e a planilha de mentir sem avisar.
A rotina de pasta é na sexta, das 16h40 às 17h. Cada um varre a área de trabalho e o nível 3 que usou na semana. Arquivo fora de padrão é tratado ali.
A segunda rotina é mensal e é a mais importante deste case. Seis planilhas foram classificadas como críticas, e cada uma passa por um checklist de nove itens.
- Intervalo de fórmula cobre todas as linhas, inclusive as acrescentadas no mês.
- Nenhum link externo aponta para caminho de máquina local.
- Nenhuma célula com erro de referência ou de valor, mesmo fora da área visível.
- Nenhuma aba oculta referenciada por fórmula ativa.
- Toda macro tem descrição de uma linha.
- Versão no nome do arquivo bate com o conteúdo.
- Dono e suplente declarados na primeira aba.
- Proteção de célula de fórmula ativa.
- Backup do mês anterior existe e abre.
O item que resolve o dono único é o sétimo. Toda planilha crítica tem duas pessoas nomeadas, e o suplente executa a conferência. Quem só assiste não aprende. Essa lógica de inspeção com registro é a do radar do 5S.
Seiso: as 62 anomalias e a que escondia R$ 38.400
A primeira rodada nas seis planilhas críticas encontrou 62 anomalias. A distribuição diz mais que o total.
- Fórmula com intervalo que não cobria as linhas novas: 17 ocorrências.
- Link externo apontando para caminho de máquina local: 14 ocorrências.
- Erro de referência ou de valor fora da área visível: 11 ocorrências.
- Aba oculta com versão antiga referenciada por fórmula ativa: 9 ocorrências.
- Macro sem descrição do que faz: 7 ocorrências.
- Planilha sem dono e suplente declarados: 4 ocorrências.
A mais cara é a primeira. Em uma das nove contas, o total somava um intervalo fixo que parara de cobrir as linhas acrescentadas três meses antes.
O efeito era uma diferença de R$ 38.400 que aparecia como saldo conciliado e não estava. Ninguém tinha notado, porque o número fechava com ele mesmo. Fórmula errada é consistente, e consistência passa por acerto.
Os 14 links para caminho local são o outro achado sério. Apontavam para a pasta de uma máquina específica. Trocada a máquina, a planilha pararia sem explicação.
Seiketsu: duas páginas de padrão e um template com dono
O padrão de nomenclatura e guarda cabe em duas páginas: a árvore de quatro níveis, os códigos de tipo, os cinco campos do nome e a regra de quem cria pasta. Sem introdução nem objetivo.
O formato é o de um procedimento operacional padrão curto: o que fazer, na ordem, com um exemplo ao lado de cada regra. É o exemplo que faz alguém aplicar sem perguntar.
O template de conciliação foi refeito do zero. A primeira aba traz dono, suplente, data da última conferência e os nove itens do checklist. As abas de cálculo vêm depois.
Também foi padronizada a rotina de fechamento em uma folha só: 22 tarefas, com responsável, dia útil previsto e a tarefa que a antecede. É o equivalente administrativo do trabalho padronizado.
Foi aí que apareceu o motivo real do 11º dia útil. Sete das 22 tarefas estavam encadeadas em série sem precisar estar. Na versão nova, quatro passaram a rodar em paralelo, e duas mudaram para o último dia útil do mês anterior.
Shitsuke: auditoria no sétimo dia útil, dentro do fechamento
A auditoria é mensal e acontece no 7º dia útil, dentro da janela de fechamento. Isso é deliberado: auditoria marcada em semana calma mede a semana calma.
Leva 40 minutos, com dois auditores, e um é sempre da controladoria. Auditor de dentro conhece o motivo de cada exceção e acaba aceitando todas.
O checklist tem 20 itens pontuados de 0 a 5, com teto de 100. A amostra é sorteada: 20 arquivos da árvore ativa, três planilhas críticas e uma caixa do arquivo físico.
Cada arquivo sorteado é verificado em quatro coisas: nível certo da árvore, cinco campos do nome, versão coerente e ausência de duplicata na mesma pasta.
A nota saiu de 31 na linha de base para 64 na primeira auditoria e 86 no mês 12. Foram 12 auditorias em 12 meses, sem remarcação: o suplente audita quando o titular falta.
A dona da planilha e os outros focos de resistência
A resistência mais forte veio de quem tinha mais a perder com o padrão, e a razão dela era legítima.
A analista que operava a planilha tinha construído aquilo em seis anos, e as macros eram dela. Falar em documentar e nomear suplente soou como preparar a substituição.
A conversa que destravou foi direta: ela virou dona da planilha no documento, autora do template novo e responsável por treinar o suplente. Quem escreve o padrão não é substituído por ele.
O segundo foco foi o medo de apagar algo que o fisco fosse pedir. Esse medo não é irracional: é a razão de a pasta ter 128.000 arquivos. Só cedeu com a tabela de guarda assinada pelo jurídico.
O terceiro foi a frase de que renomear arquivo é perda de tempo. Ela parou quando a cronometragem foi para a parede: 240 buscas por mês, 14 minutos cada, 56 horas mensais procurando arquivo.
Três coisas que quebraram no meio e o conserto de cada uma
Nenhum dos três problemas abaixo estava no plano. Dois custaram dias de operação e o terceiro quase matou o padrão.
O primeiro foi a renomeação em massa. O script renomeou 6.200 arquivos de uma vez, e 340 vínculos de planilha quebraram no mesmo instante. O fechamento daquele mês atrasou dois dias.
O conserto foi criar atalho do nome antigo para o novo por 90 dias, e renomear em lotes de até 500 arquivos, com varredura de vínculo antes. Nenhum lote seguinte quebrou.
O segundo foi a ordem errada entre descarte e parecer. A exclusão começou antes de a tabela de guarda estar assinada, e 1.900 arquivos foram para a quarentena por engano e voltaram do backup.
O terceiro foi o padrão de nome inicial, que tinha sete campos e gerava nomes de até 96 caracteres. A adesão na primeira conferência foi de 34%. Reduzido para cinco campos e 48 caracteres em média, subiu para 91%. Esse tipo de recuo controlado é parte normal da implantação do programa de 5S.
Doze meses depois: os números, o custo e o que segurou
A medição do mês 12 repetiu o método da linha de base: as mesmas 120 buscas cronometradas e o mesmo filtro de causa no relatório de atraso.
| Indicador | Antes | Mês 12 | Variação |
|---|---|---|---|
| Dia útil de entrega do fechamento | 11º | 6º | -5 dias úteis |
| Hora extra no fechamento | 237 h/mês | 36 h/mês | -84,8% |
| Títulos em atraso por falha de processo | 224 de 3.200 (7,0%) | 32 de 3.200 (1,0%) | -85,7% |
| Tempo médio para localizar um documento | 14 min | 3 min | -78,6% |
| Lançamentos conciliados à mão | 2.475 de 11.250 (22,0%) | 675 de 11.250 (6,0%) | -72,7% |
| Arquivos na árvore ativa da pasta de rede | 128.000 | 28.300 | -77,9% |
| Caixas-arquivo na sala do setor | 412 | 105 | -74,5% |
| Nota da auditoria de 5S | 31 | 86 | +55 pontos |
As horas extras fecham com os dias de fechamento. Antes eram sete dias úteis de sobrecarga, nove pessoas a três horas, mais um sábado de seis pessoas a oito horas: 237 horas. Depois são três dias, seis pessoas, duas horas, sem sábado: 36 horas.
As 201 horas de diferença, a R$ 57,75 cada, valem R$ 11.607,75 por mês e R$ 139.293,00 por ano. Essa hora extra vem do custo-hora cheio de R$ 38,50, que é R$ 8.470 mensais por pessoa divididos por 220 horas, com adicional de 50%.
As outras três linhas: R$ 227.865,60 por ano em juros e multa evitados, com 192 títulos a menos a R$ 98,90 cada; R$ 24.948,00 das 54 horas mensais de conciliação manual; e R$ 20.328,00 das 44 horas de busca. O bruto é R$ 412.434,60.
O programa custou R$ 66.532,00, ou R$ 4.752,29 por pessoa. São R$ 27.720,00 de horas internas, 41,7%, referentes a 720 horas, e R$ 38.812,00 de material e serviço, 58,3%: R$ 14.800 de indexação, R$ 12.180 de OCR em 34.800 páginas, R$ 7.200 de treinamento, R$ 3.180 de material e R$ 1.452 de fragmentação.
Descontados os recorrentes de R$ 9.597,60 de guarda externa e R$ 8.400 de licença, o líquido em regime é de R$ 394.437,00 por ano. O apurado nos 12 primeiros meses foi de R$ 239.878,20, porque o regime só chegou no nono mês. O custo ficou coberto no sétimo.
Quatro coisas seguraram a condição: auditoria fixa no 7º dia útil com suplente nomeado, controle de quem cria pasta, dono e suplente em toda planilha crítica e a depuração de sexta. O roteiro está em como implantar 5S na empresa e a parte difícil em como sustentar o 5S.
