Metodologias & Qualidade

Case de 5S na produção de elevadores: organizar por pedido quando cada poço tem medida própria

Senso a senso em seis células de montagem: a triagem de 2.180 peças de pedido morto, o carrinho-kit por ordem de produção, a estocagem segura de guia e contrapeso e a conta que liga kits incompletos a horas perdidas.

Thiago Coutinho
Publicado em 25 de set de 2026  ·  Atualizado em 25 de set de 2026  ·  16 min de leitura

Em doze meses, aquela fábrica montou 456 elevadores. Entre eles havia 388 combinações distintas de número de paradas, percurso, carga nominal e acabamento de cabina. Ou seja, 85,1% dos pedidos eram configurações que não se repetiam. Esse número é o começo do case, porque é ele que quebra a premissa mais repetida do 5S industrial.

A premissa é a de um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar. Ela funciona bem numa linha seriada, onde a peça de hoje é igual à de ontem. Numa fábrica de elevadores, a cabina, a porta de pavimento e o chicote elétrico nascem com a medida do poço do cliente. Endereço fixo por item não existe para a maior parte do kit.

O case acompanha um programa 5S de 20 semanas em seis células de montagem, com 38 elevadores por mês. A resposta encontrada não foi organizar por item. Foi separar o que é fixo por família do que é variável por pedido, e dar a cada um deles um mecanismo próprio de Seiton.

Os números que o artigo persegue são três: o percentual de kit de pedido incompleto descoberto na montagem, as paradas de célula que isso gerava e as horas de célula que sumiam por mês. Eles estão ligados por uma conta simples, e essa conta é que sustenta o ganho financeiro no fim.

Uma palavra sobre a procedência, antes dos números. Este case é um composto, construído para este artigo no formato dos kits da Voitto. A fábrica, as seis células e as 20 semanas foram montadas como exemplo didático. Os valores foram conferidos e fecham entre si, tabela por tabela, inclusive a relação entre kits incompletos, paradas e horas. Não é o relato de um cliente.

A fábrica, o mix de pedidos e o número que ninguém olhava

A planta do case monta e kita elevadores por projeto. São 38 pedidos entregues à montagem por mês, distribuídos em 24 elevadores de passageiro, 9 de carga e 5 de acessibilidade. A montagem final acontece na obra, mas os conjuntos saem daqui prontos e conferidos.

São seis células de montagem, com três montadores cada, mais dois operadores no kitting, um líder de montagem, um planejador e um projetista de ligação. A capacidade instalada é de 1.108,8 horas de célula por mês, contando 21 dias úteis e 8,8 horas por dia.

  • Cabina montada e revestida, com painel cortado na medida do vão.
  • Porta de pavimento por andar, com soleira e batente dimensionados por vão.
  • Quadro de comando programado pelo número de paradas do prédio.
  • Conjunto de guia, contrapeso e máquina de tração dimensionado pela carga.

O indicador que a fábrica acompanhava era prazo de entrega por pedido. Ninguém media o tempo de célula parada. Quando o líder começou a anotar, apareceu um número que mudou o projeto inteiro: 114 horas de célula perdidas por mês.

Elevador não é produto de série: a medida nasce no poço

Esta é a seção que separa este case de qualquer 5S de linha seriada, e ela precisa vir antes dos sensos. Um elevador é um produto configurado por projeto. O poço do prédio define percurso, número de paradas, vão de porta e carga. A fábrica não escolhe essas medidas, ela recebe.

No mês de referência, os 38 pedidos produziram 31 combinações distintas de configuração, ou 81,6% de configurações únicas. No acumulado de doze meses, foram 388 combinações em 456 pedidos. A repetição existe, mas é minoria.

A consequência prática é dura para o Seiton clássico. Se o painel lateral da cabina do pedido 4187 tem 1.240 mm e o do pedido 4192 tem 1.105 mm, não adianta criar um endereço chamado painel lateral. São duas peças diferentes com o mesmo nome.

A pergunta certa deixa de ser onde guardar cada item. Passa a ser a quem este item pertence. E a resposta é o pedido. Esse deslocamento, de organizar por item para organizar por pedido, é a tese central do case, e é onde a discussão de 5S x Lean deixa de ser teórica.

Onde as horas de célula estavam vazando

Durante seis semanas, o líder de montagem registrou toda interrupção maior que 15 minutos, com a causa e o pedido envolvido. O registro foi feito em folha de papel na própria célula, sem sistema. Três causas concentraram quase tudo.

Causa da perdaEventos por mêsDuração médiaHoras por mês
Parada por item faltando no kit do pedido203,0 h60,0
Retrabalho por variação dimensional não conferida94,0 h36,0
Espera por ferramenta compartilhada entre células6018 min18,0
Total--114,0

As 114 horas equivalem a 11,3% das 1.007 horas de célula consumidas no mês. O tempo médio de montagem por elevador era de 26,5 horas de célula, e a ocupação das seis células ficava em 90,8%.

O item faltando no kit é a causa mais cara e a mais silenciosa. Ele não aparece na entrada da célula. Aparece na quinta hora de montagem, quando o montador vai instalar a peça e ela não está no carrinho.

Por que 5S num chão que muda de configuração a cada pedido

A objeção interna foi direta: 5S é coisa de linha repetitiva, aqui cada elevador é um. A objeção está meio certa. O Seiton por item realmente não se sustenta quando o item muda a cada pedido.

Só que a maior parte do kit não muda. O kit de pedido tem 186 itens em média. Desses, 112 são de catálogo e se repetem em todos os pedidos, o que dá 60,2%. Os outros 74, ou 39,8%, são configurados por projeto.

Então a fábrica não tinha um problema, tinha dois. Para os 60,2% de catálogo, o 5S tradicional serve inteiro. Para os 39,8% configurados, era preciso outro mecanismo. Tratar os dois com a mesma regra foi o que fez tentativas anteriores falharem.

Essa leitura é o que a metodologia 5S permite quando é aplicada com critério, e não como checklist. O senso não muda. Muda a unidade de organização: item para o que é fixo, pedido para o que é variável.

A linha de base: 31% na régua e 114 horas por mês

A auditoria de entrada usou uma régua de 35 itens, com foto datada em cada não conformidade, aplicada nas seis células, no kitting e na área de espera. A nota geral fechou em 31%.

SensoNota de entradaPior achado registrado
Seiri28%Área de espera com peça de pedido cancelado há 14 meses
Seiton18%Kit de pedido montado em pallet solto, sem identificação
Seiso34%Cinta de içamento com fio rompido em uso
Seiketsu32%Seis células com seis arranjos diferentes de bancada
Shitsuke43%Nenhuma auditoria registrada nos 18 meses anteriores

O Seiton em 18% não surpreende, e o radar 5S por senso deixa isso evidente. Nunca houve definição de onde ficam as peças de um pedido antes de a célula começar. O kit era montado em pallet, empurrado para perto da célula e complementado durante a montagem.

A linha de base também fixou os três números operacionais: 34,2% de kits incompletos, 20 paradas de célula por mês e 114 horas perdidas. Sem esses três, a auditoria 5S vira nota sem consequência.

O cronograma de 20 semanas, senso a senso

Todo roteiro sério de como implantar o 5S na empresa insiste num ponto: o plano se escreve com entrega verificável por frente, e não com data de encerramento. O Seiton recebeu cinco semanas, mais que qualquer outro senso, porque ali estava a parte inteira que precisava ser inventada.

SemanasFrenteEntrega verificável
1 e 2Preparação e linha de baseRégua de 35 itens aplicada, nota 31% e 114 h medidas
3 a 6Seiri2.180 peças da área de espera triadas pedido a pedido
7 a 11Seiton18 carrinhos-kit, painel por célula e rack de pesado
12 a 14SeisoRota com inspeção de 42 dispositivos de içamento
15 a 17SeiketsuPadrão de célula fotografado e replicado nas seis
18 a 20ShitsukeAuditoria quinzenal por célula, com dono por cargo

Quatro semanas de Seiri parecem muito para uma área só. Não são. A triagem exigia cruzar cada peça com o número do pedido e com a revisão vigente do projeto, e isso não se faz em mutirão de sábado.

A sequência sem sobreposição foi decisão consciente. Um plano mestre 5S que roda sensos em paralelo costuma entregar Seiton sobre material que o Seiri ainda não descartou.

Seiri na área de espera: 2.180 peças e um critério de dois testes

A área chamada de peça aguardando projeto tinha 340 m² e 2.180 peças ligadas a 214 pedidos. O nome era eufemismo. Metade daquilo não aguardava nada, porque o pedido já tinha sido cancelado ou o projeto já tinha mudado a dimensão.

O critério de triagem foi duplo e cumulativo, para evitar descarte por opinião. A peça só saía se o pedido estivesse cancelado ou suspenso há mais de 90 dias, ou se a revisão vigente do projeto tivesse alterado a dimensão daquele componente.

Situação da peçaQuantidadeDestino
Pedido ativo, projeto vigente1.428Mantida, vinculada ao carrinho-kit
Pedido ativo, projeto alterado264Retirada, avaliada para reaproveitamento
Pedido cancelado há mais de 90 dias318Retirada, avaliada para devolução
Sem pedido vinculado identificável170Retirada, avaliada para sucata
Total inventariado2.180-

Saíram 752 peças, com valor contábil de R$ 376 mil e média de R$ 500 por peça. Desse total, 186 foram reaproveitadas em pedidos novos de família compatível, 154 voltaram ao fornecedor e 412 foram sucateadas.

A recuperação somou R$ 170 mil entre reaproveitamento e devolução. A área caiu de 340 m² para 120 m². Os 220 m² liberados viraram 150 m² de kitting e 70 m² de estocagem vertical de guia.

A baixa que ninguém assinava: pedido cancelado e projeto alterado

A pergunta que importa não é quantas peças mortas havia. É por que elas continuavam ali. A resposta foi de fluxo de informação, não de organização física.

O cancelamento de pedido nascia no comercial e morria no comercial. A alteração de projeto nascia na engenharia e ia para o desenho, não para o chão. O kitting descobria as duas coisas quando tentava montar um kit que não fechava.

  1. O comercial passou a emitir uma lista semanal de pedido cancelado, suspenso ou alterado.
  2. A lista é impressa e afixada no quadro do kitting, com data e assinatura de quem emitiu.
  3. O kitting varre a área de espera contra a lista toda sexta-feira, pedido por pedido.
  4. A baixa física só sai com duas assinaturas, do planejador e do comercial.
  5. A peça retirada fica 30 dias em quarentena identificada antes do descarte definitivo.

A dupla assinatura não é burocracia. Ela existe porque quem cancela o pedido é quem tem a informação, e quem paga o descarte é quem tem o estoque. Critério sem dono não resiste à primeira peça cara.

A lista afixada é gestão à vista no sentido estrito. Ela expõe no chão uma informação que só existia em tela de sistema comercial.

Seiton parte 1: o que é fixo por família

Os 112 itens de catálogo de cada kit são os que aceitam endereço fixo. Eles foram organizados por família de produto, com supermercado no kitting e mínimo visual por posição. Aqui o 5S de linha seriada vale integralmente.

Organizado por família, endereço fixoOrganizado por pedido, sem endereço fixo
Fixação: parafuso, porca, arruela, rebite, buchaPainel de cabina cortado na medida do vão
Botoeira, sensor de porta, chave de fim de cursoSoleira e batente de porta por vão de pavimento
Borracha de vedação e perfil de acabamento em barraQuadro de comando programado por número de paradas
Guia estocada por bitola, em barra padrão de 5 mChicote elétrico cortado pela altura de percurso
Cabo de aço estocado por bitola, em bobinaContrapeso dimensionado pela carga nominal
Ferramental de montagem da célulaMáquina de tração por carga e velocidade

A divisão da tabela é o coração do case. À esquerda, itens que existem independentemente de haver pedido. À direita, itens que só existem porque um pedido específico existe.

A guia merece nota. Ela é cortada e emendada por poço, então parece variável. Mas o que entra em estoque é barra padrão por bitola, e isso é fixo. O corte acontece depois da reserva para o pedido.

Seiton parte 2: o carrinho-kit com número de pedido

Para os 74 itens configurados por projeto, a unidade de organização virou o carrinho-kit. Cada carrinho carrega um pedido, tem placa com o número da ordem de produção e acompanha aquele pedido até a célula.

Foram montados 18 carrinhos, três por célula, girando em ciclo de três dias. O carrinho tem posição demarcada para os conjuntos principais e uma folha de verificação de 42 linhas colada na lateral, específica por família.

  • O kitting separa o pedido e preenche a folha, item a item, com visto.
  • O carrinho só entra na célula com a folha 100% vistada e assinada.
  • Posição vazia no carrinho é visível de longe, sem abrir caixa.
  • Item que chega atrasado tem cartão laranja na posição, com data prometida.
  • Carrinho incompleto fica na doca de pendência, nunca na célula.

A regra de não entrar incompleto é o poka-yoke do processo. Antes, a falta era descoberta na quinta hora de montagem. Agora ela é descoberta na conferência, antes de a célula ser ocupada.

Esse deslocamento do momento da descoberta é o que derruba as horas perdidas. A falta não deixou de existir. Ela deixou de acontecer dentro da célula.

Seiton parte 3: o ferramental da célula e o fim do jogo compartilhado

A fábrica tinha um jogo de torquímetro, dois alinhadores de guia e uma prensa de cabo de aço para seis células. O resultado eram 60 eventos de espera por mês, com 18 minutos de média, somando 18 horas.

A conta de compra foi feita na planilha e virou decisão em uma reunião. Duplicar o ferramental crítico custou R$ 31 mil. As 18 horas de espera valiam R$ 3.420 por mês ao custo de hora de célula. O retorno apareceu em menos de dez meses.

Cada célula recebeu painel sombreado com 48 posições, com o contorno da ferramenta em adesivo. A sombra mostra a ausência sem que ninguém precise procurar. A conferência de fim de turno leva 40 segundos por célula.

Sobraram três itens realmente compartilhados, de uso raro e alto custo. Eles ficam no kitting, com quadro de retirada por célula e horário. A espera caiu para 12 eventos por mês, com 15 minutos de média, ou 3 horas.

Estocagem de componente pesado: guia, contrapeso e máquina de tração

Esta é a parte do case em que o 5S deixa de ser produtividade e vira segurança. Guia, contrapeso e máquina de tração são componentes pesados, e a forma como estavam estocados criava risco real de esmagamento.

  • Guias empilhadas deitadas, em pilha de até 1,8 m, sem cinta e sem calço lateral.
  • Contrapesos soltos sobre pallet, sem berço, encostados na parede.
  • Máquinas de tração no chão, sem calço, movimentadas com cinta improvisada.
  • Corredor de circulação invadido pela pilha, sem demarcação no piso.

Nos 12 meses anteriores havia 7 registros de quase-acidente ligados a esses três componentes, entre queda de guia e tombamento de pilha. Nenhum deles tinha virado ação. Eram tratados como descuido individual.

A solução foi física. As guias foram para rack vertical com cinta por nível, os contrapesos para berço metálico com batente e as máquinas de tração para base com olhal de içamento identificado. O corredor recebeu faixa amarela e a largura mínima virou regra escrita.

Nos 12 meses seguintes, houve 1 registro. A demarcação de piso é a parte mais barata e a que mais aparece em qualquer exemplo de aplicação do 5S numa fábrica com movimentação de carga.

Seiso com inspeção de dispositivo de içamento

A primeira versão do plano falava em rota de limpeza das células. Foi reescrita antes de começar. A rota passou a ser de limpeza com inspeção, e o alvo prioritário virou o dispositivo de içamento.

O motivo é o achado do Seiri: uma cinta com fio rompido estava em uso diário. O inventário encontrou 42 dispositivos na fábrica, entre 14 cintas, 6 talhas e 22 manilhas. Dez foram condenados, ou 23,8% do total.

DispositivoInventariadoCondenadoMotivo principal
Cinta de içamento145Fio rompido, costura aberta ou etiqueta ilegível
Talha e diferencial62Certificado de inspeção vencido
Manilha e olhal223Deformação no corpo ou pino não original
Total4210-

A rota de Seiso ficou com o que limpar e o que olhar enquanto limpa, escrito lado a lado. Nas três semanas do senso apareceram 44 anomalias, das quais 26 foram resolvidas na hora e 18 viraram ordem de serviço planejada.

Limpar cinta é inspecionar cinta, porque o fio rompido só aparece quando a mão passa no tecido. Essa é a razão de o Seiso não poder ser terceirizado para a equipe de limpeza predial.

Seiketsu: um padrão de célula copiado seis vezes

Depois de três sensos, a fábrica tinha seis células organizadas de seis jeitos. Todos funcionavam. O problema aparece quando o montador cobre a célula do colega, e numa fábrica com férias e absenteísmo isso acontece toda semana.

O Seiketsu escolheu a célula 3 como referência, fotografou o arranjo aprovado e imprimiu em A3 plastificado. As outras cinco foram ajustadas em duas semanas, com dois ajustes negociados que melhoraram o padrão original.

  • Painel de ferramenta na parede à esquerda, mesma ordem de sombras nas seis.
  • Doca do carrinho-kit demarcada em verde, sempre na entrada da célula.
  • Área de trabalho livre em amarelo, sem material estocado no piso.
  • Bancada de conferência dimensional na mesma posição, com gabarito fixo.
  • Quadro do pedido em curso no mesmo suporte, com a folha de verificação.

A conferência dimensional na entrada foi a novidade mais útil. Antes, a medida do painel de cabina era conferida na hora de instalar. Agora é conferida no gabarito, com o carrinho ainda na doca.

Padrão fotografado tem vantagem sobre padrão escrito: comparar imagem com realidade não exige leitura. É o mesmo princípio do trabalho padronizado, aplicado ao arranjo físico em vez da sequência de operação.

Shitsuke: auditoria por célula, com dono e nota separada

A disciplina foi montada com auditoria quinzenal por célula, e não por área inteira. Cada célula recebe nota própria nos 35 itens da régua, e o resultado vai para o quadro na entrada da montagem.

A escolha de auditar célula por célula tem efeito prático. Nota de área esconde a célula ruim na média. Nota por célula expõe, e a exposição faz o líder da célula pedir ajuda em vez de esperar a próxima rodada.

O dono da auditoria foi definido por cargo, em rodízio entre o planejador, o líder de montagem e o supervisor de qualidade. Nunca por nome de pessoa, porque nome sai de férias e cargo não.

O quadro exposto mostra três linhas: kits incompletos do mês, horas de célula parada e, em terceiro lugar e em corpo menor, a nota da auditoria. A ordem é deliberada e é o que separa como sustentar o 5S de teatro de auditoria.

Quem empurrou de volta e o que travou o cronograma

A resistência mais forte veio do kitting, e com argumento bom. Conferir 42 linhas por pedido antes de liberar o carrinho adicionava trabalho a duas pessoas que já eram gargalo. Nas primeiras três semanas, o kitting virou fila.

A resposta não foi discurso. Foi mover um montador para o kitting por oito semanas, até a conferência entrar no ritmo. Depois disso, o tempo médio de separação por pedido caiu de 71 para 52 minutos, porque o supermercado por família já estava pronto.

O segundo atrito foi a doca de pendência. Segurar carrinho incompleto fora da célula expunha o atraso do pedido. Houve três tentativas de burlar a regra no primeiro mês.

O que travou o cronograma foi outra coisa. A triagem do Seiri parou 11 dias esperando o comercial confirmar a situação de 39 pedidos antigos. A lista semanal nasceu desse travamento, e virou a melhor entrega do senso.

Os números do fechamento e a conta do ganho

A auditoria de saída na semana 20 deu 86%, contra 31% na entrada. Por senso: Seiri 90%, Seiton 88%, Seiso 84%, Seiketsu 86% e Shitsuke 82%. O Shitsuke mais baixo, com três semanas de prática, é leitura honesta.

IndicadorAntesDepoisVariação
Kits de pedido incompletos na montagem13 de 38 (34,2%)4 de 38 (10,5%)-23,7 pontos
Paradas de célula por falta de item20 por mês5 por mês-75,0%
Horas de célula paradas por falta de item60,0 h10,0 h-50,0 h
Horas de retrabalho por variação dimensional36,0 h6,0 h-30,0 h
Horas de espera por ferramenta compartilhada18,0 h3,0 h-15,0 h
Total de horas de célula perdidas por mês114,0 h19,0 h-95,0 h
Tempo médio de montagem por elevador26,5 h24,0 h-2,5 h
Nota geral da auditoria 5S31%86%+55 pontos

A aritmética fecha em cadeia. As 95 horas recuperadas por mês, divididas pelos 38 pedidos, dão exatamente 2,5 horas por elevador, que é a queda do tempo médio de montagem. A ocupação das células caiu de 90,8% para 82,25%.

Ao custo de hora de célula de R$ 190, que inclui mão de obra, encargos e rateio, as 95 horas valem R$ 18.050 por mês, ou R$ 216.600 por ano. O investimento total foi de R$ 72,2 mil, com payback de exatos 4 meses.

O takt time da montagem, com 1.108,8 horas de capacidade para 38 pedidos, é de 29,2 horas de célula por elevador. A folga por pedido subiu de 2,7 para 5,2 horas.

As 95 horas equivalem a 3,96 elevadores por mês nas 24 horas do novo tempo de montagem. A fábrica não aumentou o quadro. Passou a aceitar quase quatro pedidos a mais sem hora extra.

Doze meses depois: onde a nota cedeu e o que segurou

A nota geral no mês 12 ficou em 83%, três pontos abaixo do fechamento. Por senso: Seiri 88%, Seiton 86%, Seiso 80%, Seiketsu 84% e Shitsuke 77%. Quem cedeu foram Seiso e Shitsuke, nessa ordem.

O teste real veio no mês 7, com pico de 46 pedidos. Os kits incompletos subiram para 7 em 46, ou 15,2%. A pressão de volume fez o kitting liberar carrinho com pendência, exatamente o que a regra proibia.

A correção foi de capacidade, não de disciplina. Um terceiro operador entrou no kitting em regime de pico, acionado quando a carteira passa de 42 pedidos no mês. No mês 12, os kits incompletos voltaram a 5 em 45, ou 11,1%.

O que segurou o resultado foi o carrinho-kit, porque ele é físico e não depende de alguém lembrar. O que cedeu foi a rota de Seiso, porque depende. Essa assimetria aparece em qualquer implantação do programa 5S que passa do primeiro ano.

Vale repetir o fecho honesto da abertura. Este case de 5S na produção de elevadores é um composto, com números conferidos e coerentes entre si. A tese que ele carrega, porém, é transferível: quando o produto é configurado por projeto, a unidade de organização é o pedido, e não o item.

Perguntas frequentes

Os números deste case de 5S na produção de elevadores são de uma empresa real?
Não. É um composto construído para este artigo, no formato dos kits da Voitto. A fábrica, as seis células e as 20 semanas foram montadas como exemplo didático. Os valores foram conferidos e fecham entre si, inclusive a relação entre kits incompletos, paradas de célula e horas perdidas. Não é o relato de um cliente.
Por que o 5S clássico não funciona direto numa fábrica de elevadores?
Porque a premissa de um lugar para cada coisa pressupõe que a coisa se repita. No case, 388 das 456 configurações de doze meses eram distintas, ou 85,1%. Painel de cabina, soleira e chicote nascem com a medida do poço. Endereço fixo por item não existe para 39,8% do kit.
Qual foi a solução para organizar o que muda a cada pedido?
Separar a unidade de organização. Os 112 itens de catálogo de cada kit, ou 60,2%, ficaram em supermercado por família com endereço fixo e mínimo visual. Os 74 itens configurados, ou 39,8%, foram para carrinho-kit identificado pelo número da ordem de produção, com folha de verificação de 42 linhas.
Como o carrinho-kit reduziu as paradas de célula?
Mudando o momento em que a falta é descoberta. Antes, o item faltante aparecia na quinta hora de montagem e parava a célula inteira. Agora a folha de 42 linhas é vistada no kitting, e carrinho incompleto fica na doca de pendência. As paradas caíram de 20 para 5 por mês.
Como se chega de 114 horas perdidas para 19 horas por mês?
Somando três causas medidas. Paradas por falta de item caíram de 60 para 10 horas, retrabalho dimensional de 36 para 6 e espera por ferramenta de 18 para 3. A diferença é de 95 horas. Divididas pelos 38 pedidos, dão 2,5 horas por elevador, que é a queda do tempo de montagem.
De onde vem o ganho financeiro de R$ 216,6 mil por ano?
Direto das horas. São 95 horas de célula recuperadas por mês, ao custo de hora de célula de R$ 190, que inclui mão de obra, encargos e rateio. Isso dá R$ 18.050 por mês e R$ 216.600 no ano. Com investimento de R$ 72,2 mil, o payback é de exatos 4 meses.
Qual critério usar para descartar peça de pedido cancelado ou alterado?
No case, o critério foi duplo e cumulativo. A peça saía se o pedido estivesse cancelado ou suspenso há mais de 90 dias, ou se a revisão vigente tivesse mudado a dimensão do componente. Das 2.180 peças, 752 saíram, com 186 reaproveitadas, 154 devolvidas e 412 sucateadas.
Por que a peça morta ficava anos na área de espera?
Por falha de fluxo de informação, não de organização física. O cancelamento nascia e morria no comercial, e a alteração de projeto ia para o desenho, não para o chão. A correção foi uma lista semanal impressa e afixada no kitting, com baixa assinada pelo planejador e pelo comercial.
O que o 5S tem a ver com segurança nesse tipo de fábrica?
Tudo, quando o componente é pesado. Guias empilhadas deitadas a 1,8 m sem cinta, contrapesos soltos e máquinas de tração no chão geraram 7 quase-acidentes em 12 meses. Com rack vertical, berço metálico e base com olhal identificado, o registro caiu para 1 nos 12 meses seguintes.
O resultado se sustentou depois do encerramento?
Parcialmente. A nota caiu de 86% para 83% no mês 12, com Seiso em 80% e Shitsuke em 77%. No pico de 46 pedidos do mês 7, os kits incompletos subiram para 15,2%. A correção foi de capacidade, com terceiro operador no kitting acima de 42 pedidos, e o indicador voltou a 11,1%.
Thiago Coutinho
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Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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