Metodologias & Qualidade

Case Green Belt: redução do consumo de níquel eletrolítico no aço P310

Como uma equipe Green Belt levou o nível sigma de 0,88 para 1,04, gerou R$ 55.890,30 em cinco meses e explicou por que a meta de 34,88 kg/t ficou de fora.

Thiago Coutinho
Publicado em 1 de out de 2026  ·  Atualizado em 1 de out de 2026  ·  17 min de leitura
Thiago Coutinho com o livro Guia Lean Seis Sigma diante do letreiro Voitto, com o texto Case Green Belt: redução do consumo de níquel eletrolítico no aço P310 sobre fundo escuro à esquerda

Na VoittoNox, uma aciaria de aços inoxidáveis, o níquel eletrolítico é o insumo que corrige a composição do aço quando o teor de níquel chega abaixo do especificado. Ele garante a qualidade, mas é caro, e cada quilo adicionado além do orçado vira custo direto.

No aço P310, o de maior teor de níquel da série, o consumo médio estava em 49,61 kg por tonelada. O alvo de um projeto Green Belt foi a redução do consumo de níquel nesse aço, levando o número para 34,88 kg/t no equipamento AOD, o conversor onde o aço é refinado.

O projeto seguiu as cinco fases do DMAIC. Passou por Pareto, linha de base, capabilidade, mapa de processo com 24 variáveis de entrada, matriz de causa e efeito, matriz de esforço e impacto, dispersão, simulação termodinâmica, curva de energia e plano 5W2H.

O resultado é útil justamente por não ser perfeito. O nível sigma subiu de 0,88 para 1,04, o consumo médio caiu para 44,8 kg/t e o ganho dos cinco primeiros meses foi de R$ 55.890,30. A meta, porém, não foi atingida, e o case mostra por quê.

Este é um projeto real de aluno da formação Green Belt da Voitto, descaracterizado para proteger o cliente. Os números vêm da apresentação original. O que foi acrescentado para explicar, como o contexto do processo e os exemplos de cálculo, está identificado no texto como ilustrativo.

O P310, o níquel eletrolítico e o custo de cada quilo por tonelada

Aço inoxidável é, de forma simplificada, ferro com cromo e níquel. O cromo forma a camada que protege contra corrosão. O níquel estabiliza a estrutura austenítica, que dá ductilidade e resistência em alta temperatura.

O P310 é o código interno de um inox refratário, feito para trabalhar quente. Por isso carrega muito níquel, e qualquer desvio no teor obriga a uma correção de composição antes do lingotamento.

A correção é feita no AOD com níquel eletrolítico, um níquel de alta pureza. Funciona sempre, mas custa caro. Quando o metal chega pobre em níquel, a conta fecha adicionando o insumo mais nobre da aciaria.

Para medir a redução do consumo de níquel, o indicador do projeto é o consumo específico, em quilos de níquel eletrolítico por tonelada de aço produzido. Ele é medido por mês, o que dá à equipe uma série histórica longa para trabalhar.

ItemConteúdo
EmpresaVoittoNox, aciaria de inoxidáveis
ProblemaConsumo de níquel eletrolítico acima do orçado no aço P310
Indicador (Y)Consumo específico de Ni eletrolítico no AOD, em kg/t
Linha de base49,61 kg/t de média, desvio padrão de 23,66 kg/t
Meta34,88 kg/t
EscopoForno elétrico a arco (FEA) e AOD, aço P310
Resultado44,8 kg/t de média e nível sigma de 0,88 para 1,04
GanhoR$ 55.890,30 nos cinco primeiros meses

Do pátio de sucata ao conversor AOD: o caminho do pré-metal

O aço nasce no forno elétrico a arco, o FEA. Ali sucata e ligas são fundidas por arco elétrico e formam o pré-metal, um banho ainda rico em carbono. O pré-metal segue em panela para o AOD.

No AOD, o carbono é retirado por sopro de oxigênio e argônio. Antes disso uma amostra mede temperatura e composição, e um modelo matemático calcula quanto de cada liga falta para chegar à especificação.

Se a receita calculada estiver errada, o modelo é processado de novo. O níquel que não veio pela carga do FEA é completado no AOD com o eletrolítico. É nessa conta final que o desperdício aparece.

Um exemplo ilustrativo dá a ordem de grandeza. Em uma corrida de 100 toneladas, a diferença entre 49,61 e 44,8 kg/t equivale a 481 kg de níquel eletrolítico a menos. Repetida em todas as corridas do mês, essa diferença vira o ganho do projeto.

A equipe desenhou esse fluxo em quatro etapas: confecção do cesto no pátio, produção do pré-metal no FEA, recebimento do pré-metal e amostragem preliminar. O mapa cumpre o papel de um SIPOC detalhado, com as entradas de cada etapa listadas.

Um Pareto por tipo de aço e os 73,1% que apontaram o P310

Antes de olhar causas, a equipe precisou decidir onde olhar. A fábrica produz vários aços da série, e o consumo de níquel eletrolítico se espalha entre eles de forma desigual.

O diagrama de Pareto ordenou o consumo por tipo de aço. A leitura é direta: a primeira barra é o maior consumidor, e a linha acumulada mostra quanto do total as primeiras barras somam.

AçoConsumo (unidade do indicador)PercentualAcumulado
P3102.43573,1%73,1%
P30451715,5%88,6%
P3162036,1%94,7%
P3211213,6%98,3%
Outros551,7%100,0%

Um único aço respondia por 73,1% do consumo de níquel eletrolítico, de um total de 3.331. A decisão foi restringir o escopo ao P310. Atacar a série inteira diluiria o esforço em aços que juntos somam menos de 27%.

Essa escolha também simplifica a análise. Cada aço tem receita, carga e faixa de composição próprias, e misturá-los na mesma base esconderia o efeito de cada variável.

A linha de base de 48 pontos: média de 49,61 kg/t e desvio de 23,66 kg/t

Com o escopo fechado, a fase Medir levantou o comportamento do indicador no P310. Foram 48 observações de consumo específico, resumidas em um relatório estatístico descritivo.

EstatísticaValor
Média49,613 kg/t
Desvio padrão23,660 kg/t
Mínimo8,690 kg/t
Primeiro quartil34,880 kg/t
Mediana48,950 kg/t
Terceiro quartil67,593 kg/t
Máximo106,320 kg/t
IC 95% da média42,743 a 56,484 kg/t
Anderson-Darling, valor-p0,493

O valor-p de 0,493 no teste de Anderson-Darling não rejeita a normalidade. Isso autoriza usar a curva normal no cálculo de capabilidade feito em seguida.

O número que mais chama atenção é a dispersão. O desvio padrão equivale a 48% da média, e o consumo foi de 8,69 a 106,32 kg/t no período. O processo não tinha um consumo típico, tinha meses muito bons e meses muito ruins.

Essa amplitude é, por si só, uma pista. Se o P310 já rodou abaixo de 10 kg/t, o problema não é de tecnologia, é de variação de entrada. A análise foi buscar o que muda de uma corrida para outra.

De onde saiu a meta de 34,88 kg/t: o primeiro quartil do próprio processo

A meta não veio de benchmark externo. É o primeiro quartil da linha de base, destacado no relatório estatístico: um quarto dos meses já tinha consumo igual ou menor que 34,88 kg/t.

A lógica é defensável. Se o processo atingiu esse nível em 25% do tempo, as condições para atingi-lo existem. O projeto precisava descobrir quais condições eram essas e torná-las a regra.

A redução pedida era de 14,73 kg/t, 29,7% sobre a média de 49,61 kg/t. É uma meta agressiva para um processo com desvio de 23,66 kg/t, porque exige mexer na média e na dispersão ao mesmo tempo.

No charter, essa meta virou o limite superior de especificação do indicador, arredondado para 34,9 kg/t nos relatórios. Todo mês acima desse valor passou a contar como defeito no cálculo do nível sigma.

Ppk de -0,21 e 73,3% dos meses acima do limite: a capabilidade de partida

Com a meta tratada como limite superior, a equipe rodou a análise de capabilidade do processo. Só existe limite superior, porque consumir menos níquel nunca é defeito.

O Ppk saiu negativo, -0,21. A conta é a distância do limite à média dividida por três desvios: 34,9 menos 49,61, sobre 3 vezes 23,66. O sinal negativo significa que a média já está do lado errado do limite.

Indicador de capabilidadeValorComo ler
Z do limite superior-0,62A média está 0,62 desvio acima do limite
Ppk-0,21Negativo: média fora da especificação
Acima do limite, observado75,00%36 dos 48 pontos
Acima do limite, esperado73,30%Pela curva normal ajustada
DPMO equivalentecerca de 733.000Defeitos por milhão de oportunidades
Nível sigma0,88Z de -0,62 mais 1,5 de deslocamento

O nível sigma de 0,88 vem do Z de -0,62 somado ao deslocamento convencional de 1,5. Um processo com menos de 1 sigma entrega defeito na maior parte do tempo, e era o caso: três em cada quatro meses fora da meta.

Essa foto inicial é o que dá régua ao fechamento. Qualquer resultado posterior seria comparado com Ppk de -0,21 e nível sigma de 0,88, medidos do mesmo jeito.

Os 24 X's levantados entre o cesto de sucata e a amostra preliminar

A equipe voltou ao mapa do fluxo FEA/AOD e listou, em cada etapa, as variáveis de entrada que podem afetar o consumo. Foram 24 X's, contra um Y principal e quatro saídas intermediárias.

EtapaExemplos de X levantados
Confecção do cesto no pátioComposição de carga inadequada, sucata com alto Ni indisponível, sucata misturada, falha na balança do pátio
Produção do pré-metal no FEAErro no cálculo de energia, programa de potência, antecipação do fim da fusão, queda de sucata e de ligas fora do forno, falha na balança de ligas, sobra de aço no forno, eletrodo curto
Recebimento do pré-metalTempo de permanência da panela no piso
Amostragem preliminarAmostrador contaminado ou danificado, amostra com rechupe ou trinca, amostra não representativa, curva de análise incorreta

As saídas intermediárias foram a composição química do pré-metal, a produção do FEA em toneladas, a temperatura do pré-metal e o tempo de processo no AOD. Elas ligam cada X ao consumo final.

O mapa mostra algo importante: boa parte do níquel eletrolítico do AOD é decidida antes, no pátio e no FEA. O conversor apenas paga a conta do que chegou errado.

A matriz de causa e efeito: pontuar 24 variáveis contra cinco saídas

Vinte e quatro variáveis não cabem em uma análise estatística detalhada. A matriz de causa e efeito serve para ordená-las com o conhecimento do time, antes de gastar coleta de dados.

Cada saída recebe um peso de importância, e o maior peso foi dado ao próprio consumo de níquel eletrolítico. Depois cada X recebe uma nota de correlação com cada saída: 8 a 10 forte, 4 a 7 média, 1 a 3 fraca e 0 nenhuma.

O total de cada X é a soma das notas multiplicadas pelos pesos. Um exemplo ilustrativo, com números redondos: um X com nota 9 em uma saída de peso 10 e nota 5 em uma saída de peso 6 soma 90 mais 30, ou 120 pontos.

A matriz também registrou o esforço para eliminar cada variável, classificado em alto, médio ou baixo. Esse segundo eixo é o que permite a etapa seguinte de priorização.

Esforço contra impacto: descartar, analisar ou ver e agir

O total da matriz virou o eixo de impacto, e o esforço virou o eixo vertical. O gráfico ficou dividido em três quadrantes, cada um com uma decisão própria.

QuadranteCritérioVariáveis (exemplos)Decisão
Ver e agirEsforço baixoComposição de carga, sucata com alto Ni indisponível, erro no cálculo de energia, antecipação do fim da fusão, queda de sucata, balança de ligas, sobra de açoAção imediata
AnalisarEsforço alto e impacto altoSucata misturada, balança do pátio, programa de potênciaInvestigar com dados
DescartarEsforço alto e impacto baixoQueda de ligas fora do forno, ligas com alto Ni indisponíveisSair do escopo

A composição de carga inadequada ficou isolada à direita, com o maior impacto do gráfico, perto de 330 pontos, e esforço baixo. Era a primeira candidata a ação.

O quadrante ver e agir existe porque nem toda causa precisa de prova estatística. Quando a falha é evidente e barata de corrigir, segurar a ação até a fase Melhorar só adia o ganho.

O quadrante analisar é o que justifica as ferramentas da fase seguinte. Ali estão variáveis caras de atacar, e a equipe precisava de evidência antes de investir nelas.

A matriz de dispersão: carga de ligas, carbono, cromo e energia contra o consumo

Na fase Analisar, a equipe cruzou o consumo específico com sete variáveis numéricas de processo em uma matriz de dispersão. É a ferramenta indicada quando há vários X contínuos e se quer ver todos de uma vez.

Cada quadro é um gráfico de correlação e dispersão entre duas variáveis, com uma reta de tendência. A primeira linha da matriz é a que interessa: o consumo contra cada X.

  • soma de carga de ligas: tendência de queda, mais liga carregada no FEA, menos correção no AOD;
  • média de carbono e média de cromo do pré-metal: também com inclinação negativa contra o consumo;
  • energia do FEA: relação negativa, o que apontou a energia como variável a entender melhor;
  • peso vazado e consumo de sucata: retas quase planas, sem relação visível.

A leitura correta de uma matriz assim é de triagem. Ela mostra quais pares merecem atenção, não prova causa. A nuvem de pontos larga em todos os quadros lembra que nenhuma variável sozinha explica o consumo.

A decisão que saiu dali foi olhar de perto a energia. Pré-metal fundido com energia errada chega frio ou mal homogeneizado, e a composição medida na amostra deixa de representar o banho.

O erro no cálculo de energia e a temperatura liquidus de 1.232,75 °C

O erro no cálculo de energia era um dos X do mapa. Para tratá-lo, a equipe precisava de um dado que a operação não tinha: a temperatura em que o pré-metal do P310 fica totalmente líquido, a liquidus.

O cálculo foi feito em software de termodinâmica computacional, com a composição típica do pré-metal: cerca de 4,4% de carbono, 27,8% de cromo e 14,0% de níquel, além de elementos menores.

A simulação indicou liquidus de 1.232,75 °C. Abaixo dela o banho começa a solidificar, e parte do metal e das ligas pode ficar retida no forno ou chegar ao AOD sem estar homogênea.

Com esse valor, o plano de ação incluiu inserir no modelo o tempo máximo de permanência da panela no piso, calculado a partir da liquidus. A panela que espera demais perde temperatura e compromete a corrida seguinte.

Este passo mostra por que um Green Belt não trabalha só com estatística. A ferramenta que destravou a causa veio da metalurgia, e a estatística serviu para confirmar e acompanhar.

Uma curva de energia por produção mensal exclusiva para os aços da série

O segundo tratamento da energia foi uma curva de energia específica em função da produção mensal. Quanto mais o forno produz no mês, menos energia gasta por tonelada, porque perde menos calor entre corridas.

A equipe ajustou um modelo de potência aos dados mensais: energia igual a 633,247 vezes a produção elevada a -0,0816203, com energia em kWh/t e produção em mil toneladas por mês. É uma regressão feita sobre os logaritmos das duas variáveis.

Produção (kt/mês)Energia prevista pela curva (kWh/t)
6547,1
10524,8
15507,7
20495,9
24488,6

A tabela foi calculada a partir da equação da fonte, para mostrar como a curva é lida. Entre 6 e 24 mil toneladas por mês, a energia necessária cai cerca de 58 kWh/t.

Antes, o forno usava uma referência de energia que não considerava o volume produzido. Em meses de baixa produção, o pré-metal recebia menos energia do que precisava. A nova curva virou padrão exclusivo para o P310.

O plano ver e agir em 5W2H: seis impactos e dez ações com prazo

Na fase Melhorar, cada fator priorizado recebeu ações no formato 5W2H: o quê, por quê, quem, onde, quando, como e quanto. O formato obriga a ação a ter dono e data, o que evita lista de intenções.

Impacto tratadoAções registradas no plano
Falta de liga disponível para pesagemRotina de cálculo da quantidade conforme a programação e gestão do estoque de FeNi na área dos fornos
Tempo de panela no pisoEstudo da liquidus do pré-metal P310 e tempo máximo de piso inserido no modelo
Falha na balança da área de ligasMonitoramento da balança pelo sistema de informação da planta e verificação com peso padrão no checklist
Queda de ligas fora do fornoProcedimento bloqueando o carregamento de ligas em bags via cestões
Processamento com eletrodo curtoAlarme no supervisório e verificação visual do eletrodo na abertura do forno
Sobra de aço líquido no fornoLimpeza de canal com oxigênio quando ficarem retidas mais de 2 t de metal

As ações foram programadas entre outubro e novembro de 2017 e concluídas entre outubro de 2017 e janeiro de 2018. Todas chegaram a 100% no acompanhamento.

Repare que quase todas atacam a entrada do processo. Ligas pesadas certo, metal que não fica no forno e eletrodo em condição de trabalho significam pré-metal mais perto da composição desejada no AOD.

Sucata separada, baia de FeNi e três turmas do forno treinadas

Além do plano detalhado, a apresentação resume as ações de maior peso implementadas pela equipe. Cada uma se liga a um X do mapa de processo.

Ação implementadaX do processo que ataca
Revisão do plano de manutenção do abastecimento dos FEAFalhas de carregamento e queda de material
Separação de sucatas com perfil e composição para o P310Composição de carga e sucata misturada
Curva de energia específica exclusiva para o P310Erro no cálculo de energia
Balança de ligas e baia exclusiva para FeNiFalha na balança e mistura de ligas
Procedimento de limpeza do aço líquido no fornoSobra de aço no forno
Treinamento das três equipes do forno elétricoVariação entre turnos

A separação de sucata é a ação mais ligada ao níquel. Sucata de inox com alto teor de níquel, quando separada, entra no cesto do P310 e traz níquel barato, que deixa de ser comprado como eletrolítico.

A baia exclusiva para o ferro-níquel resolve um problema simples. Liga misturada com outra no estoque é pesada como se fosse a certa, e o erro só aparece na amostra do AOD.

A série de 2014 a 2018 lida em uma carta de controle I-MR

Como o indicador é mensal e cada mês é um valor único, a carta de controle adequada é a I-MR, de valores individuais e amplitude móvel.

Parâmetro da cartaValor
Média da série44,8 kg/t
Limite inferior dos individuais4,5 kg/t
Limite superior dos individuais (calculado)85,1 kg/t
Amplitude móvel média15,16 kg/t
Limite superior da amplitude móvel49,53 kg/t
Limite de especificação marcado34,9 kg/t

O limite superior dos individuais não aparece legível no gráfico e foi calculado aqui: 44,8 mais 2,66 vezes 15,16, o que dá 85,1 kg/t. O inferior, 4,5 kg/t, confere com a mesma conta.

A carta marca quatro pontos acima do limite superior entre o fim de 2016 e o início de 2017, com pico perto de 106 kg/t. São causas especiais, meses em que algo fora do comum aconteceu, e ajudam a explicar por que o projeto começou em 2017.

A série temporal mostra ainda que, depois das ações, os pontos de outubro de 2017 a fevereiro de 2018 ficam visualmente entre 17 e 35 kg/t, abaixo ou perto da linha de 34,9. Esses valores são lidos no gráfico e são aproximados.

Nível sigma de 0,88 para 1,04 e a meta de 34,88 kg/t que ficou de fora

O fechamento usou o mesmo relatório de capabilidade da linha de base. A comparação vale porque o indicador, o limite e o método de cálculo são os mesmos.

IndicadorAntesDepoisVariação
Consumo médio49,61 kg/t44,8 kg/t-4,81 kg/t (-9,7%)
Desvio padrão23,66 kg/t21,79 kg/t-1,87 kg/t
Pontos no relatório4879-
Z do limite superior-0,62-0,46+0,16
Ppk-0,21-0,15+0,06
Acima do limite, esperado73,30%67,58%-5,72 p.p.
Nível sigma0,881,04+0,16
Meta de 34,88 kg/tNão atingidaNão atingida-

A queda de 4,81 kg/t cobre 32,7% da distância até a meta, que era de 14,73 kg/t. O processo melhorou, mas segue com Ppk negativo e com dois terços dos pontos esperados acima do limite.

Há um detalhe de leitura que muda a interpretação. A média de 44,8 kg/t é a mesma linha central da carta I-MR que cobre a série inteira de 2014 a 2018. O relatório de fechamento soma o histórico e os meses pós-ações.

Isso dilui o efeito das ações. Uma comparação mais limpa usaria só os meses depois da implementação contra a linha de base, com as métricas Seis Sigma recalculadas para cada período. O case registra o número oficial e esse ponto fica como aprendizado.

R$ 55.890,30 em cinco meses e o Kanban por corrida que sustenta o ganho

Nos cinco primeiros meses depois das ações, a redução do consumo gerou R$ 55.890,30, cerca de R$ 11.178 por mês. É o custo da má qualidade que deixou de ser pago em níquel eletrolítico.

A apresentação não detalha a abertura do cálculo. Em um fechamento formal, o ganho seria validado com a controladoria, multiplicando a redução em kg/t pela produção e pelo preço do níquel, como mostra o guia de retorno financeiro de um projeto Seis Sigma.

A fase Controlar montou três camadas de acompanhamento. A primeira é um Kanban por corrida no sistema de informação da planta, que mostra para cada elemento químico se o teor final ficou dentro ou fora dos limites.

  • Kanban por corrida: quadro verde ou vermelho para níquel, cromo, carbono e demais elementos, com histórico das últimas corridas;
  • carta de controle I-MR do consumo específico mensal, com a meta marcada;
  • OCAP, o plano de ação para fora de controle, que diz o que fazer quando a carta ou o Kanban acusar desvio.

O Kanban dá reação na escala da corrida, e a carta dá leitura na escala do mês. As duas camadas juntas, amarradas a um plano de controle, impedem que o ganho volte a se perder com o tempo.

O que este case ensina a quem vai conduzir um Green Belt de consumo de insumo

Em um projeto de redução do consumo de níquel, o primeiro aprendizado é o recorte. O Pareto por tipo de aço tirou 27% do consumo do escopo e deixou o time com um problema do tamanho de um projeto Green Belt.

O segundo é que a meta tirada do primeiro quartil é honesta, mas exigente. Ela pede que o processo se comporte sempre como em seus melhores 25% dos meses, e isso raramente se resolve em uma onda de ações.

O terceiro é a priorização em dois passos. A matriz de causa e efeito e a de esforço e impacto separaram o que agir na hora do que provar com dados. Sem isso, 24 variáveis paralisariam o projeto.

O quarto é medir o depois separado do antes. Um relatório que mistura histórico e período pós-ações subestima o ganho e dificulta defender o resultado diante da gestão.

O último é aceitar uma meta não atingida sem esconder. O nível sigma subiu, o custo caiu e o controle ficou montado. A distância restante vira o próximo ciclo do método DMAIC, agora sobre a sucata e a carga, que seguem como as maiores alavancas.

É assim que o Lean Seis Sigma funciona em uma aciaria. Cada ciclo deixa o processo um pouco mais previsível e o próximo projeto começa de uma base medida.

Perguntas frequentes

Qual era o problema do projeto de redução do consumo de níquel?
O consumo de níquel eletrolítico no AOD durante a produção do aço P310 estava em 49,61 kg por tonelada, acima do orçado. O níquel eletrolítico corrige o teor de níquel quando o pré-metal chega pobre, e por ser caro cada quilo extra vira custo direto.
Por que o projeto focou só no aço P310?
Porque o diagrama de Pareto por tipo de aço mostrou que o P310 respondia por 73,1% do consumo de níquel eletrolítico. Os outros quatro grupos somavam 26,9%. Concentrar o escopo em um aço evitou misturar receitas e cargas diferentes na mesma análise.
Como a meta de 34,88 kg/t foi definida?
A meta é o primeiro quartil da linha de base de 48 pontos. Um quarto dos meses já tinha consumo igual ou menor que esse valor. Isso mostra que o processo é capaz de atingi-lo, e o projeto buscou tornar essas condições a regra.
O que significa o Ppk negativo de -0,21?
Significa que a média do processo, 49,61 kg/t, estava acima do limite superior de 34,9 kg/t. O Ppk é a distância entre média e limite dividida por três desvios padrão. Quando a média está do lado errado do limite, o resultado fica negativo.
Como o nível sigma foi calculado?
O nível sigma é o Z do limite superior somado ao deslocamento convencional de 1,5. Antes, o Z era -0,62 e o nível sigma ficou em 0,88. Depois das ações, o Z passou a -0,46 e o nível sigma subiu para 1,04.
Para que serviu a matriz de esforço e impacto?
Ela cruzou o total da matriz de causa e efeito com o esforço para eliminar cada uma das 24 variáveis. O resultado separou três grupos: ver e agir, com ação imediata, analisar, com investigação por dados, e descartar, fora do escopo.
Por que a temperatura liquidus foi importante?
O pré-metal abaixo da liquidus começa a solidificar e pode chegar ao AOD sem composição homogênea. A simulação termodinâmica indicou 1.232,75 °C para o pré-metal do P310, e esse valor entrou no modelo como base para o tempo máximo de panela no piso.
Quais ações tiveram mais efeito no consumo de níquel?
As que atacam a entrada do processo: separação de sucata com perfil adequado ao P310, balança de ligas com baia exclusiva para FeNi, curva de energia por produção mensal, limpeza do aço líquido retido no forno e revisão da manutenção do abastecimento dos fornos.
O projeto atingiu a meta?
Não. O consumo médio caiu de 49,61 para 44,8 kg/t, cerca de 32,7% da distância até a meta de 34,88 kg/t. O nível sigma subiu de 0,88 para 1,04 e o ganho dos cinco primeiros meses foi de R$ 55.890,30.
Como o resultado ficou sob controle depois do projeto?
Com três camadas: um Kanban por corrida que mostra se cada elemento químico ficou dentro dos limites, uma carta de controle I-MR do consumo mensal e um OCAP com a reação prevista para cada desvio. As três estão ligadas ao plano de controle.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…