Matriz de correlação: o que é, como ler e exemplo preenchido
Como ler r e r², onde a força muda de faixa e por que a coluna do mecanismo decide o que a correlação pode sustentar, com a planilha A13 do kit, a leitura do livro e um caso real
Na matriz de correlação do kit, a linha que cruza lead time com ruptura mostra r = 0,776, classificado como forte e direto. A última célula dessa linha não tem número. Tem uma frase: “Atraso do fornecedor consome o buffer de estoque antes da reposição chegar”. É ela que decide o que o número pode sustentar.
Fiz especialização em Estatística, e a primeira lição sobre o coeficiente de Pearson é o limite dele. O coeficiente mede se duas variáveis contínuas sobem e descem juntas em linha reta, e só isso. Qual das duas empurra a outra, ele não tem como dizer. Por isso a coluna Mecanismo plausível? me agrada tanto: ela obriga alguém a responder essa ressalva por escrito.
O caso que atravessa o kit da Voitto é o da Norte Sul, uma rede que distribui material de construção a partir de sete CDs. No primeiro semestre de 2026, a ruptura nas prateleiras dela subiu 40%. Quando a equipe chegou à fase de análise, o problema já estava quebrado por CD e as categorias já estavam priorizadas. Faltava descobrir quais variáveis andavam junto com a ruptura.
O percurso daqui em diante segue a planilha: as dez colunas da matriz de correlação, a leitura de r e de r², a régua que separa fraca, moderada e forte, e a coluna do mecanismo, que liga a ferramenta ao teste de hipótese. A folha em branco aparece no fim, para você baixar e usar com os seus dados.
O que é matriz de correlação
Matriz de correlação é a tabela que mede, par a par, quanto duas variáveis numéricas variam juntas. Cada linha traz o coeficiente r, de −1 a 1, e em versões mais completas também r², a força e o sentido da relação. Ela aponta candidatos a causa; a prova vem depois, com teste e mecanismo.
No Kit de Ferramentas de Análise de Dados, a matriz de correlação é a A13, terceira ferramenta da fase de análise. O guia define a entrega dela como “A força e o sentido da relação entre duas variáveis, com r, r² e classificação”. Na mesma linha, aponta o erro que mais aparece: “Tratar correlação forte como prova de causa, sem checar se o mecanismo faz sentido”.
O coeficiente usado é o de Pearson. Ele vale 1 quando os pontos caem todos numa reta que sobe, −1 quando caem numa reta que desce, e fica perto de zero quando não há padrão linear. No Excel, a função CORREL faz esse cálculo entre duas colunas, e é ela que a matriz de correlação da A13 usa por baixo de cada linha.
Em estatística, o nome matriz de correlação costuma designar uma tabela quadrada, com as mesmas variáveis nas linhas e nas colunas. A matriz de correlação da A13 organiza a informação como lista de pares escolhidos, um por linha. Em troca, acrescenta duas colunas que a grade quadrada não tem: a classificação da força e a pergunta sobre o mecanismo. A seção de comparação, mais adiante, mostra quando cada formato serve melhor.
As dez colunas da A13 e o que cada uma pede
Das dez colunas da matriz de correlação, cinco são suas e cinco saem de fórmula. As quatro primeiras dizem quais variáveis comparar, as cinco do meio calculam e a última pede um texto escrito por quem conhece o processo.
- Variável X e Coluna X: o nome da variável que você suspeita influenciar o resultado e a letra da coluna onde ela está na aba Dados.
- Variável Y e Coluna Y: a variável de resultado. Nos dois pares do caso, é a ruptura, na coluna B.
- n: quantos pares de valores entraram na conta. No caso, 40.
- Correlação (r): o coeficiente de Pearson calculado sobre as duas colunas.
- r²: o quadrado de r, lido como a fração da variação de Y que acompanha X.
- Força: forte a partir de 0,7 em valor absoluto, moderada de 0,4 a 0,7 e fraca abaixo disso.
- Sentido: direto quando r é positivo, inverso quando é negativo.
- Mecanismo plausível?: uma frase que descreve como X poderia afetar Y no processo real.
O rodapé da folha resume a leitura em duas frases: “r² é a fração da variação de Y que X explica. r alto com mecanismo implausível é coincidência”. A segunda frase é a regra que mais pesa na ferramenta inteira, e volto a ela na seção sobre o mecanismo.
Os valores brutos ficam numa aba separada, chamada Dados, com uma variável por coluna e o nome na primeira linha. A matriz de correlação só aponta para essas colunas pela letra. Trocar a letra na coluna X muda o par inteiro, sem mexer em fórmula nenhuma, e isso deixa testar uma hipótese nova em segundos.
Como ler o coeficiente r
O Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt dedica o capítulo 27 a correlação e regressão. Na página 327, a leitura do sinal é direta: r perto de +1 indica relação positiva, perto de −1, negativa, e perto de zero, ausência de relação linear. A mesma página resume o que o gráfico mostra: “Quanto maior a correlação, mais pontos estarão próximos da reta”.
Essa frase explica por que o número vem acompanhado de um diagrama de dispersão. O r resume a nuvem inteira num valor só, e conjuntos bem diferentes podem produzir o mesmo valor. Um ponto extremo puxa o coeficiente para cima ou para baixo. Uma curva em U pode dar r perto de zero com uma relação fortíssima entre as variáveis. Olhar o gráfico antes de confiar no número custa um minuto e desfaz esses enganos.
O cálculo compara quanto cada ponto se afasta da média em X e em Y e divide o resultado pelo desvio padrão das duas variáveis. Por isso o r não tem unidade. Dias contra porcentagem, ou reais contra quilos, dão coeficientes na mesma escala. Antes de calcular a matriz de correlação, vale fazer a estatística descritiva de cada coluna. O próprio kit pede a distribuição, a média e a dispersão de cada variável antes de qualquer correlação.
No caso da distribuidora, os dois pares têm formas bem distintas. No painel do lead time, a ruptura sobe de modo consistente com o prazo, e a reta passa perto da maioria dos pontos. No painel da acurácia da previsão, a nuvem desce e se espalha mais em volta da reta. A diferença que o olho vê é a mesma que separa 0,776 de −0,582.
Quando o gráfico mostra uma relação que sobe sempre, só que em curva, o coeficiente de Pearson subestima a ligação. Para esses casos existe a correlação de Spearman, que trabalha com a ordem dos valores em vez dos valores em si. Ela mede se X e Y crescem juntos, em reta ou fora dela. A matriz de correlação da A13 não traz essa alternativa, e para a maior parte dos pares de um processo operacional o Pearson basta. Convém lembrar dela quando a nuvem sai claramente curvada.
O que o r² acrescenta à leitura
Elevar r ao quadrado muda a pergunta. Em vez de medir quanto os pontos seguem uma reta, o r² diz que parte da variação de Y anda junto com a variação de X. Com r = 0,776, o r² é 0,603: cerca de 60% da oscilação da ruptura acompanha o lead time. Com r = −0,582, o r² cai para 0,339, perto de um terço.
Na página 333, o livro trata o coeficiente de determinação dentro da regressão e dá uma referência, “sendo ideal um R2 acima de 50%”. Por esse critério, o par do lead time passa com folga e o da acurácia fica abaixo. A matriz de correlação do kit não usa o corte de 50%. A comparação ajuda, ainda assim, a entender por que o caso concentrou a primeira rodada no prazo de entrega.
Quem já estudou regressão linear reconhece o r². É o mesmo número que sai do ajuste de uma reta: numa regressão com uma variável só, o R² da reta é o quadrado do r de Pearson. O passo a passo para obter os dois numa planilha está no texto sobre regressão linear simples no Excel.
Vale um cuidado com a palavra explica. O rodapé da planilha usa esse verbo ao definir o r². Explicar, ali, tem sentido estatístico e quer dizer variação compartilhada. Dizer que 60% da ruptura é culpa do lead time já seria uma afirmação causal, e essa a ferramenta não autoriza.
Um detalhe de arredondamento costuma confundir quem confere a folha na calculadora. O quadrado de 0,776 dá 0,602, e a planilha mostra 0,603. A diferença vem de a folha elevar ao quadrado o r completo, com todas as casas decimais, antes de arredondar. Quem refaz a conta à mão vai encontrar essa diferença na terceira casa, e ela é só arredondamento.
A régua de força: onde a A13 separa fraca, moderada e forte
Na matriz de correlação, a coluna Força aplica dois cortes sobre o valor absoluto de r. De 0,7 para cima, a relação é forte. De 0,4 até 0,7, moderada. Abaixo de 0,4, fraca. O sinal fica de fora dessa conta porque tem coluna própria, a de Sentido.
Aplicada ao caso, a régua deixa o lead time como forte e direto e a acurácia como moderada e inversa. É a mesma leitura que o guia do kit registra ao contar a história da distribuidora.
O livro usa outra escala. Na página 328, ele diz que r igual a 1 ou −1 indica correlação perfeita e que r igual a 0,5 ou −0,5 indica correlação regular. Pela régua do livro, a acurácia, com 0,582, ficaria pouco acima do regular. Pela da planilha, é moderada. As duas leituras concordam na ordem dos pares e só divergem no rótulo.
Força e significância respondem a perguntas diferentes. Com 40 pares, um r a partir de cerca de 0,31, em valor absoluto, já seria improvável por puro acaso ao nível usual de 5%. Uma relação que a régua chama de fraca pode, portanto, ser real. E uma relação forte calculada com meia dúzia de pares pode não resistir a um teste. A matriz de correlação responde à primeira pergunta; a segunda fica para a A14, e por isso as duas andam juntas.
Na Voitto a gente orienta escolher uma régua e escrevê-la no relatório antes de rodar o primeiro coeficiente. Trocar de critério depois de ver o número é o jeito mais comum de transformar um r de 0,45 em relação forte numa apresentação. Os cortes também dependem do contexto. Em processos físicos muito controlados, 0,7 pode ser pouco; em comportamento de cliente, 0,4 já chama atenção.
A coluna Mecanismo plausível? e o limite da correlação
Na página 325, o livro escreve a regra que a última coluna materializa: “a correlação não implica causalidade; ou seja, mesmo que duas variáveis estejam correlacionadas, isso não significa necessariamente que uma causa a outra”. Na página 328, a seção sobre causa e efeito diz como verificar. É preciso checar na prática se a relação pode acontecer, “se é fisicamente possível”.
Na A13, essa checagem vira texto na última coluna. No caso, a linha do lead time descreve uma cadeia física: o fornecedor atrasa a entrega, o estoque de segurança acaba antes de a reposição chegar e a prateleira fica vazia. Cada elo pode ser conferido em dado de entrega e de saldo.
A linha da acurácia traz “Previsão errada gera pedido de reposição maior ou menor do que o necessário”. Também é plausível, e cobre os dois lados do problema. Pedido menor leva à falta de estoque, e pedido maior leva a excesso. Quem trabalha com previsão de demanda reconhece o efeito na hora.
O que essa coluna protege é a análise contra a coincidência. Duas séries que crescem no mesmo semestre dão r alto sem ligação nenhuma entre si. Se ninguém consegue escrever a frase do mecanismo, o rodapé da planilha já deu o veredito. Quando a frase existe, ela vira hipótese para a etapa seguinte, com o nome do dado que vai confirmá-la. No caso, a hipótese aponta para o prazo contratado, assunto da gestão de fornecedores.
Existe ainda um terceiro caminho entre duas variáveis correlacionadas: uma causa comum às duas. Num exemplo hipotético, um pico sazonal de vendas poderia alongar o prazo de fornecedores sobrecarregados e, ao mesmo tempo, esvaziar as prateleiras mais depressa. As duas variáveis subiriam juntas, e cortar o lead time resolveria só parte do problema. Escrever a frase do mecanismo é a hora de perguntar se existe uma causa assim, antes que o teste comece.
O que o livro pede e onde isso aparece na A13
O capítulo 27 cobre correlação e regressão em pouco mais de vinte páginas. A tabela cruza os pontos que ele pede com o lugar da matriz de correlação onde cada um aparece.
| O que o livro pede | Página | Onde isso aparece na A13 |
|---|---|---|
| Não tratar correlação como causa | 325 | Instrução 4 do cabeçalho e rodapé da folha |
| Usar correlação para dados contínuos e Qui-quadrado para atributos | 326 | A aba Dados recebe colunas numéricas; atributo fica fora da ferramenta |
| Ler o sinal e a proximidade de r com +1, −1 e zero | 327 | Colunas Correlação (r) e Sentido |
| Olhar como os pontos se distribuem em volta da reta | 327 | Gráfico de dispersão do primeiro par |
| Classificar a intensidade (perfeita, regular) | 328 | Coluna Força, com régua própria de 0,4 e 0,7 |
| Verificar se a relação é fisicamente possível | 328 | Coluna Mecanismo plausível? |
| Avaliar o R², com referência de 50% | 333 | Coluna r², sem corte fixo |
Dois pontos do capítulo ficam fora da folha. O primeiro é o teste de significância: no exemplo do livro, feito no Minitab, a saída traz Pearson de 0,976 com P-valor de 0,000, na página 329. A matriz de correlação do kit não calcula valor-p. O segundo são os tipos múltipla e parcial de correlação, que uma planilha feita para pares não cobre.
O exemplo do livro também ajuda a calibrar a expectativa. Um Pearson de 0,976 fica muito acima dos coeficientes do caso. Em processos com gente, fornecedor e cliente no meio, raramente se vê algo assim, e coeficientes mais modestos já bastam para justificar um teste.
Onde a A13 entra na fase de análise
A fase de análise do kit tem cinco ferramentas, e o guia descreve a sequência em cinco verbos: “Quebrar, priorizar, correlacionar, testar e explicar”. A A13 é o terceiro verbo, e o que ela recebe vem das duas anteriores.
A A11 faz a estratificação, quebrando a ruptura por CD, turno ou fornecedor. A A12 aplica o diagrama de Pareto para achar as categorias que concentram as ocorrências. Com o problema recortado, a matriz de correlação procura as variáveis que andam junto com ele.
Depois vêm a A14 e a A15. O teste de hipótese da A14 verifica se a diferença entre grupos resiste ao acaso, com um valor-p. O diagrama de Ishikawa da A15 organiza o mecanismo por trás da causa, marcando o que foi checado de fato. O guia resume o encadeamento assim: “A13 levanta, A14 testa, A15 explica o mecanismo. As três, não uma.”
Na distribuidora, o encadeamento aconteceu com o lead time. O teste da A14 separou os centros em dois grupos pela ruptura e encontrou prazo médio de entrega maior no grupo pior, com valor-p bem abaixo do corte usual. Só então a A15 abriu as espinhas do Ishikawa para explicar por que o prazo pesava tanto.
O mesmo guia chama de armadilha da fase parar na correlação. No item sobre os erros da série, vai além: “Usar só a primeira é a armadilha mais comum do kit inteiro.” Na lógica do método DMAIC, a matriz de correlação pertence à etapa Analisar. O que ela entrega é uma lista curta de candidatos, ainda sem veredito.
Essa ordem explica por que a matriz de correlação dispensa o cálculo de significância. Quem testa é a ferramenta seguinte, e juntar as duas coisas numa folha só incentiva a ler um r alto como resultado final. Para uma visão mais ampla dessa etapa, o texto sobre análise de causa raiz mostra como um candidato vira causa confirmada.
Como montar uma matriz de correlação em sete passos
O roteiro segue a A13, mas funciona para montar uma matriz de correlação em qualquer planilha que calcule o coeficiente de Pearson.
- Escreva a variável de resultado. No caso, a ruptura de estoque em porcentagem. Todas as linhas da matriz de correlação vão ter essa mesma Y.
- Liste as variáveis candidatas a X, uma para cada hipótese que alguém da operação consiga explicar. Duas ou três bem escolhidas rendem mais do que vinte colunas jogadas na folha.
- Cole os dados na aba Dados, com o nome na primeira linha e cada linha descrevendo a mesma unidade de observação, como o mesmo centro no mesmo período. Confira a amostragem: pares de recortes diferentes não se comparam.
- Olhe cada coluna antes de calcular: mínimo, máximo, média e valores estranhos. Um ponto digitado errado pesa muito quando n é pequeno.
- Preencha as colunas X e Y com as letras e deixe a planilha calcular n, r, r², força e sentido.
- Faça o gráfico de dispersão de cada par que sair moderado ou forte. Se precisar montar do zero, o texto sobre como fazer um gráfico no Excel cobre o tipo dispersão.
- Escreva a frase do mecanismo em cada linha e marque os pares que seguem para o teste de hipótese. Linha sem frase fica registrada, mas não avança.
Na prática, as candidatas a X costumam sair das duas ferramentas anteriores. Se a estratificação mostrou que a ruptura se concentra em alguns centros, a pergunta natural é o que esses centros têm de diferente: prazo de entrega, acurácia da previsão, giro dos itens. Cada diferença que alguém consiga medir vira uma linha da matriz de correlação. A lista fica curta, e cada par nasce com uma história que o justifica.
Qual passo a equipe mais pula? O quarto. Ele parece burocrático até o dia em que um único valor de 900 dias, digitado no lugar de 9, transforma uma relação fraca em forte.
Exemplo de matriz de correlação preenchida
O exemplo é a A13 do caso da distribuidora, com os dois pares que a equipe testou contra a ruptura. Clique na imagem para ver a planilha em tamanho real; o PDF da mesma folha fica no botão sob ela.
1. Norte Sul: um par forte e um moderado contra a ruptura
A pergunta por trás da folha tinha prazo. O termo de abertura queria saber por que a ruptura tinha disparado em seis meses, e a diretoria precisava escolher até o último dia de julho entre renegociar prazos com os três maiores fornecedores e reforçar o estoque de segurança. A estratificação já tinha isolado dois centros, em Contagem e Curitiba. A árvore de indicadores, porém, ainda deixava cinco candidatos de prioridade alta ao mesmo tempo. Dois deles viraram linhas da folha: o lead time do fornecedor e a acurácia da previsão de demanda.
A folha tem duas linhas preenchidas, e nas duas a variável de resultado é a ruptura em porcentagem, na coluna B da aba Dados. A primeira linha usa o lead time em dias, da coluna A. A segunda usa a acurácia da previsão, da coluna C. Cada linha conta 40 pares.
O lead time sai com r de 0,776 e r² de 0,603. A planilha classifica a relação como forte e o sentido como direto: quanto maior o prazo de entrega, maior a ruptura. Na coluna do mecanismo vai a frase sobre o atraso do fornecedor, a mesma que abriu este texto.
A acurácia da previsão sai com r de −0,582 e r² de 0,339. A classificação é moderada e inversa, e previsões mais certas andam com menos ruptura. Para o mecanismo, a equipe anotou que previsão errada faz pedir reposição demais ou de menos.
O gráfico da folha desenha só o primeiro par, lead time contra ruptura, com a linha de tendência. O segundo par aparece apenas na tabela, sem gráfico próprio.
O desafio veio depois da conta. Com um contrato de fornecimento em jogo, um r forte convidava a apontar o culpado ali mesmo e assinar o contrato novo sem nenhum teste. As duas frases de mecanismo eram plausíveis, e a folha sozinha não diz qual alavanca atacar primeiro. A equipe levou ao teste só o par mais forte, o do prazo, porque a relação da previsão saiu mais fraca.
O cabeçalho repete a regra da ferramenta no passo 4: correlação não é causa, e a A14 e a A15 vêm em seguida. O caso seguiu esse encadeamento. A matriz levantou o lead time, o teste de hipótese confirmou a diferença entre os CDs e o Ishikawa explicou o mecanismo.
A linha que merece mais atenção é a segunda. Uma relação moderada e inversa costuma ser descartada cedo, e o caso fez diferente: registrou o mecanismo e deixou essa alavanca anotada para outra rodada, como o guia do kit registra.
Repare também no que a matriz de correlação evita afirmar. Nenhuma célula diz que o lead time causa a ruptura. O r diz que as duas sobem juntas, o r² diz quanto, e a frase do mecanismo diz por que isso seria possível. A confirmação ficou para a A14, que comparou os CDs de ruptura alta com os demais.
Falta olhar o tamanho da amostra. As duas linhas usam os mesmos 40 pares, o que permite comparar os coeficientes diretamente. A distância entre 0,776 e −0,582 vem das variáveis, já que a amostra é a mesma.
Matriz de correlação, dispersão e regressão: qual é qual
Quatro nomes aparecem juntos quando o assunto é relação entre variáveis. A tabela separa o que cada um entrega e onde cada um para.
| Ferramenta | O que mostra | Quando usar | Limite |
|---|---|---|---|
| Matriz quadrada | r de todas as variáveis contra todas | Explorar muitas variáveis de uma vez | Não diz quais pares têm mecanismo |
| Lista de pares (A13) | r, r², força, sentido e mecanismo de pares escolhidos | Checar hipóteses já formuladas contra um resultado | Cobre só os pares que você escolheu |
| Diagrama de dispersão | A forma da nuvem de um par | Conferir linearidade e pontos extremos | Não resume em número |
| Regressão linear simples | A reta que estima Y a partir de X | Prever ou dimensionar o efeito | Depende de relação linear e de resíduos bem-comportados |
A grade quadrada é o formato dos pacotes estatísticos, que montam todas as combinações de uma vez. O manual de estatística do NIST trata o coeficiente como medida da relação linear entre duas variáveis. Esse formato ajuda quando há dezenas de colunas e nenhuma hipótese. A A13 parte do lado oposto: primeiro a hipótese, depois o número.
Para montar a grade quadrada no Excel, o suplemento Ferramentas de Análise tem a opção Correlação, que recebe um intervalo com várias colunas e devolve a tabela pronta. A diagonal sai toda com 1, porque cada variável se correlaciona perfeitamente consigo mesma. Só metade da grade vem preenchida, já que o r de X com Y é igual ao de Y com X. A leitura começa pela coluna da variável de resultado, onde aparecem as candidatas que merecem virar uma linha da A13.
Na página 328, o livro também separa três tipos de correlação. A simples envolve duas variáveis. A múltipla relaciona Y com duas ou mais variáveis X ao mesmo tempo. A parcial mede a relação depois de eliminada a influência das outras. A A13 trabalha só com a simples. Quando duas candidatas a X andam juntas entre si, vale partir para a parcial ou para a regressão múltipla num software estatístico. As aplicações do Minitab mostram o que ele faz nessa etapa.
Erros comuns com a matriz de correlação
Os erros abaixo são os que mais comprometem uma matriz de correlação, na ordem em que costumam aparecer durante a análise.
- Ler r alto como prova de causa. É o erro que o guia do kit põe no topo da ferramenta, e a coluna do mecanismo existe para barrá-lo.
- Calcular sem olhar o gráfico. Um único ponto extremo muda o coeficiente, e uma curva forte pode dar r perto de zero.
- Misturar unidades de observação, como ruptura por centro com lead time por fornecedor. O par só vale quando cada linha descreve a mesma coisa.
- Trocar a régua de força depois de ver o número, ou citar a do livro e aplicar a da planilha.
- Arredondar para o rótulo mais bonito. Um r de 0,69 é moderado na A13, mesmo com 0,7 a um passo.
- Comparar coeficientes de amostras muito diferentes como se pesassem igual. Um 0,6 com 40 pares diz mais do que um 0,8 com seis.
- Ignorar o sentido. Uma relação inversa é tão informativa quanto uma direta, e no caso ela apontou a previsão como segunda alavanca.
- Parar na A13. Sem teste de hipótese e sem Ishikawa, a lista de candidatos vira conclusão sem ter passado por nenhuma checagem.
Quando a matriz de correlação não é a ferramenta certa
A página 326 do livro define o critério de entrada. Correlação, dispersão e regressão servem para dados contínuos. Para dados discretos, de atributo, o caminho é o teste Qui-quadrado com tabela de contingência. Se a pergunta for se o tipo de fornecedor tem relação com a ocorrência de ruptura, com as duas variáveis em categorias, a matriz de correlação fica de fora.
Ela também fica de fora quando a pergunta ainda não existe. Jogar todas as colunas da base numa grade e caçar o maior r é pesquisa exploratória, que tem lugar na análise de dados. O resultado, porém, precisa voltar para uma hipótese com mecanismo antes de entrar numa decisão. Com muitas colunas, algum par forte aparece por puro acaso.
Se a relação existe e é curva, o r subestima. Nesses casos, o gráfico e uma análise estatística mais completa dizem mais do que o coeficiente. E quando o objetivo é priorizar causas pelo julgamento da equipe, sem dado numérico, a matriz de causa e efeito faz um papel que a A13 não faz.
Dados em série temporal pedem um cuidado extra. Duas séries que crescem ao longo dos meses dão r alto só por compartilharem a tendência. Uma saída comum é correlacionar as variações de um período para o outro em vez dos níveis. Se a relação sobrevive nas variações, fica mais difícil atribuí-la ao calendário.
Resta um limite de outra natureza: a correlação não substitui o acompanhamento. Depois que a causa foi confirmada e tratada, quem mostra se o efeito se sustenta é o controle estatístico de processo, com a ruptura acompanhada período a período.
Modelo de matriz de correlação em branco para baixar
A A13 em branco é o modelo do kit, com as fórmulas de r, r², força e sentido prontas. Você cola os dados na aba Dados, informa as letras das colunas e escreve o mecanismo de cada par.
A folha traz as quatro instruções de preenchimento no cabeçalho, as dez colunas, o gráfico de dispersão do primeiro par e a legenda que separa o que você preenche do que a planilha calcula.
Abrir e baixar a A13 em branco (planilha)
Um bom primeiro exercício é colar dados de dois processos que você conhece bem e escrever o mecanismo antes de olhar o r. Se a frase vier fácil e o número vier fraco, a conversa sobre o porquê já dá o impulso para a próxima rodada de análise. Para ver onde ela se encaixa entre as demais, a página de ferramentas estatísticas reúne as principais.
Se você quer percorrer as fases do kit em ordem, te convido a conhecer a formação em análise de dados da Voitto, onde a sequência de correlação, teste e Ishikawa é trabalhada como a gente ensina. Para quem leva esse raciocínio a projetos Lean Seis Sigma, a Academia de Certificação da Voitto reúne as certificações.
