Metodologias & Qualidade

Case Master Black Belt: redução de custos na aciaria com a medição de temperatura do aço

Um projeto Master Black Belt sobre sensores, cabos e lanças de medição de temperatura do aço líquido, contado pelas cinco fases do DMAIC: a conta de R$ 13,1 milhões, o Pareto quase plano, o Ppk negativo e as ocorrências que caíram 79,7% em quatro meses.

Thiago Coutinho
Publicado em 1 de out de 2026  ·  Atualizado em 1 de out de 2026  ·  16 min de leitura
Thiago Coutinho sorrindo com o livro Guia Lean Seis Sigma nas mãos diante do letreiro Voitto, com o texto Case Master Black Belt: redução de custos na aciaria com a medição de temperatura do aço sobre fundo escuro à esquerda

{'tipo': 'p', 'html': 'Toda corrida de aço passa por medições de temperatura antes de seguir para o lingotamento. Cada medição consome um sensor descartável e desgasta uma lança, um cabo e um plugue. Na Voitto Steel, essa rotina somava R$ 13,1 milhões por ano em materiais.'}

{'tipo': 'p', 'html': 'O número não aparecia em nenhum relatório como problema. Estava diluído em requisições de almoxarifado, notas de manutenção e reparos feitos na oficina de instrumentação. Ninguém era dono da conta inteira. A redução de custos na aciaria, quando aparecia na pauta, mirava energia e refratário, não a medição.'}

{'tipo': 'p', 'html': 'Um aluno da formação Master Black Belt da Voitto pegou essa conta e a transformou em projeto. A meta era cortar R$ 100 mil por mês. A tendência medida no fechamento apontou R$ 1.977.638 por ano.'}

{'tipo': 'p', 'html': 'Este artigo percorre o projeto fase a fase do DMAIC. Explica o processo para quem nunca entrou numa aciaria, mostra cada ferramenta usada e como ler o resultado de cada uma. Também aponta onde a análise ficou frágil e o que isso ensina.'}

{'tipo': 'p', 'html': 'Procedência: trata-se de projeto real de aluno da formação Master Black Belt da Voitto, descaracterizado para proteger o cliente. Os números vêm da apresentação original. O que foi acrescentado para explicar, como contexto do processo e exemplos de cálculo, está identificado como ilustrativo no texto.'}

Por que uma aciaria mede a temperatura do aço tantas vezes por corrida

A aciaria é a etapa que transforma ferro-gusa líquido em aço. No convertedor, oxigênio soprado queima o excesso de carbono. Depois, o aço segue em panelas para ajustes de composição e, por fim, para o lingotamento.

A temperatura decide quase tudo nesse caminho. Aço frio demais solidifica na panela ou no distribuidor e trava o lingotamento. Aço quente demais gasta energia, ataca o refratário e prejudica a qualidade interna da placa.

Por isso a medição é feita várias vezes por corrida. Uma lança com um sensor descartável na ponta mergulha no banho por alguns segundos. O sensor queima, transmite o sinal pelo cabo e é descartado.

Exemplo ilustrativo, sem número do projeto: se uma medição falha, a operação mede de novo. São mais um sensor, mais tempo de corrida e, às vezes, uma parada. Cada falha cobra duas vezes: no material e no ritmo da produção.

Há ainda o ambiente. Respingo de escória, umidade e calor radiante castigam lanças, cabos e conectores o tempo todo. Um componente danificado que volta para a área sem teste vira a próxima falha. É um custo que se alimenta sozinho quando ninguém fecha o ciclo de recuperação.

R$ 13,1 milhões por ano em sensores, cabos e lanças

O ponto de partida foi um levantamento dos custos de 2010 tirado do sistema de gestão da usina e dos controles internos da instrumentação. O gráfico do problema prático separava três famílias de material.

Família de materialCusto bruto anual (R$)Custo circulável (R$)
Sensores descartáveis9.923.873,866.294.429,89
Instrumentação, materiais novos1.569.855,55998.428,13
Instrumentação, materiais recuperados1.639.477,191.042.707,49
Total13.133.206,608.335.565,51
Economia projetada1.915.870,201.200.000,00

As três linhas somam exatamente o total nas duas bases. Os descartáveis representam 75,6% do custo bruto. É o maior bolo, mas também o mais difícil de mexer, porque cada medição precisa de um sensor novo.

Para a redução de custos na aciaria, a pergunta útil não era quanto custa um sensor. Era quantos sensores e componentes são gastos sem gerar uma medição válida. Esse é o pedaço que o projeto podia reduzir sem mexer no volume de aço.

A economia de R$ 1.200.000,00 equivale a 14,4% da base circulável. Na base bruta, os R$ 1.915.870,20 equivalem a 14,6%. A apresentação cita ainda 14,7% no quadro de resultados, uma diferença de arredondamento entre as bases.

O charter: R$ 100 mil por mês sobre 41 pontos de medição

O contrato do projeto definiu o problema como custo excessivo, procedimento operacional inadequado e falhas de execução na fabricação e no teste das lanças. Três motivações sustentaram a escolha.

  • uma consultoria técnica externa havia mostrado, em agosto de 2010, que outra siderúrgica operava com número muito baixo de falhas de medição;
  • a temperatura é variável crítica para todo o processo da aciaria;
  • a empresa precisava reduzir custo de produção naquele ciclo.
CampoConteúdo
ProblemaConsumo elevado de materiais e falhas nos sistemas de medição de temperatura
MetaReduzir R$ 100.000,00 por mês, R$ 1.200.000,00 por ano
EscopoFabricação, teste, reposição e uso das lanças nas duas aciarias
Unidade de análise41 pontos de medição de temperatura e oxigênio
Base de dadosNotas e requisições de janeiro a novembro de 2010, com projeção de dezembro
Ganho registradoTendência de R$ 1.977.638,00 por ano

A meta em reais por mês é uma boa escolha para projeto de custo. Ela é auditável pela controladoria e permite acompanhar o avanço mês a mês, sem esperar o fechamento do ano. O projeto Seis Sigma ganha uma régua que todos entendem.

O SIPOC da oficina de lanças: onde o custo nasce e onde ele é consumido

O mapa de processos veio em formato SIPOC. Ele serve para fixar fronteiras antes de procurar causas. Sem ele, a equipe discute problemas de compras, de operação e de manutenção ao mesmo tempo.

BlocoConteúdo no projeto
FornecedoresGestão de mão de obra terceirizada, oficina de manutenção, suporte técnico, gestão de suprimentos
InsumosMão de obra, registros em papel e digitais, equipamentos de teste, aprovação de requisições, embalagens
ProcessoInspeção diária, reposição, confecção e manutenção, requisição, montagem, recolhimento e teste
ProdutoSistema de medição de temperatura e oxigênio funcionando com custo otimizado
ClienteAs aciarias da usina

A leitura que importa está no meio. O processo não é só medir: é um ciclo de inspecionar, recolher, testar, recuperar ou descartar e repor. O custo nasce em cada volta desse ciclo, e não apenas no momento em que o sensor entra no aço.

Essa visão já sugeria onde procurar. Material que poderia ser recuperado e é descartado vira custo. Lança defeituosa que volta para a área vira nova falha.

Trinta e três causas no Ishikawa dos seis M

A fase Medir começou com ferramentas qualitativas. A equipe montou um diagrama de Ishikawa com o efeito escrito como reduzir falhas e custos na medição de temperatura do aço líquido. As causas foram distribuídas nos seis M.

CategoriaExemplos de X levantados
MediçãoX1 histórico de falhas deficiente, X2 registro de falhas no sistema de gestão, X4 cabo queimado ou rompido, X5 oxidação no plugue
MaterialX13 aquisição e controle de estoque, X14 controle de materiais na manutenção, X15 isolamento do cabo
Mão de obraX7 uso indevido das lanças, X9 conhecimento operacional sobre custo, X11 quebra da caixa de passagem
MeioX16 estufas dos sensores, X17 cascão nas bordas das panelas, X18 umidade no armazenamento
MáquinaX22 refrigeração da lança, X23 controle elétrico por PLC, X24 tempo excessivo de amostragem, X28 quebrador de escória
MétodoX30 controle de peças reparadas, X31 lanças novas sem identificação, X33 lança de medição usada como amostrador

O valor do Ishikawa aqui é a amplitude. Ele mostrou que o problema não era só de material comprado. Havia causa de operação, de armazenamento, de equipamento e de registro. Nenhuma área podia resolver sozinha.

A divisão por categoria também prepara o próximo passo. Causas de máquina vão para a manutenção elétrica e mecânica. Causas de mão de obra vão para a operação e para o treinamento. Causas de material vão para suprimentos. Cada grupo recebe uma lista com dono.

O fluxo de 13 etapas da lança defeituosa e onde cada X se instala

Em vez de parar no Ishikawa, a equipe desenhou o fluxo do sistema de medição com 13 etapas e três decisões. A lança é inspecionada e recolhida. Depois é avaliada, desmontada, recuperada ou descartada, remontada, testada e reposta na área.

  1. inspecionar e identificar lanças defeituosas nas áreas;
  2. recolher lanças e componentes;
  3. avaliar se estão normais ou defeituosos;
  4. desmontar e separar peças recuperáveis;
  5. requisitar peças novas e montar lanças;
  6. testar a montagem e repor nas áreas;
  7. descartar o que não tem recuperação.

Cada X foi pendurado na etapa em que age. Os de medição, como X4, X5 e X20, ficam na inspeção. Os de operação, X7 a X10, ficam na troca da lança. Os de armazenamento, X16 a X21, ficam na disponibilidade nas áreas.

Esse cruzamento é uma forma de estratificação por etapa. Ele mostra quem é dono de cada causa e evita que a ação vá parar na área errada.

A matriz de causa e efeito revisada: de 2.130 para 2.110 pontos

Para priorizar as 33 causas, três avaliadores pontuaram cada X de 0 a 10 pela correlação com o efeito. A importância do efeito foi fixada em 10. A nota final é o produto, de 10 a 100.

A primeira matriz somou 2.130 pontos. Depois da discussão, a equipe publicou uma versão corrigida com 2.110 pontos. Doze notas mudaram, e as mudanças contam uma história.

XCausaMatriz inicialMatriz corrigida
X33Lança de medição usada como amostrador40100
X32Uso de lanças defeituosas pela operação5080
X13Aquisição e controle de estoque80100
X17Cascão nas bordas das panelas7090
X3Avaliação de falhas pela instrumentação8040
X30Controle de peças reparadas e descartadas8050
X7Uso indevido das lanças10080

As causas de uso operacional subiram e as de avaliação interna da instrumentação caíram. A leitura é que a primeira rodada pesou o olhar de quem conserta. A segunda incorporou o olhar de quem usa a lança na corrida.

Um Pareto quase plano e o que fazer quando nenhuma causa domina

O diagrama de Pareto da matriz corrigida trouxe um resultado pouco comum. Nenhuma barra se destaca. As seis causas com nota 100 representam, cada uma, cerca de 5% do total, e juntas somam 28,4%.

As 15 causas com nota igual ou maior que 80 somam 1.360 pontos, 64,5% dos 2.110. Para chegar a 80% da curva acumulada, foi preciso incluir mais de 20 X. A regra de concentrar esforço em poucas causas não funcionou aqui.

Isso acontece com frequência em projetos de custo de material. O custo é a soma de muitas pequenas perdas, cada uma com dono diferente. Um Pareto plano é informação, não falha da ferramenta.

A decisão da equipe foi coerente com essa leitura. Em vez de cortar a lista pelo Pareto, ela cruzou os X com outro critério, o esforço de solução. Esse cruzamento separou o que dava para fazer já do que pedia investimento.

Impacto contra esforço: 16 ganhos rápidos e 8 frentes de investimento

Cada X recebeu duas notas qualitativas, alto ou baixo impacto sobre o Y e alto ou baixo esforço para atuar. A tabela de classificação final ficou assim.

QuadranteQuantidadeX do quadrante
Alto impacto, baixo esforço16X4, X13, X20, X24, X5, X11, X28, X7, X23, X25, X32, X8, X26, X10, X30, X3
Alto impacto, alto esforço8X9, X33, X17, X18, X19, X16, X21, X22
Baixo impacto, baixo esforço9X12, X14, X31, X6, X1, X2, X27, X15, X29
Baixo impacto, alto esforço0-

O primeiro quadrante virou a lista de ações imediatas: reparos, inspeções, registro de falhas e correções de equipamento. O segundo concentrou treinamento, armazenamento e estufas, que exigem orçamento e prazo.

Um cuidado: o desenho gráfico da matriz na apresentação posiciona alguns X de forma diferente da tabela. X33, por exemplo, aparece como baixo esforço no gráfico e como alto esforço na tabela. Em projeto real, essa divergência precisa ser resolvida antes do plano de ação.

DPMO de 17.918 e de 7.445: a capabilidade discreta da linha de base

Como os dados eram contagens, a capabilidade foi calculada em dados discretos. A unidade foi o material requisitado, 5.042 no período. As oportunidades foram os 41 pontos de medição, o que dá 206.722 oportunidades.

IndicadorMateriaisFalhas nas medições
Defeitos3.7041.539
Unidades5.0425.042
Oportunidades totais206.722206.722
DPU0,73460,3052
DPMO17.9187.445
Z de longo prazo2,102,44
Z de curto prazo, com deslocamento de 1,53,603,94

A conta é direta. 3.704 dividido por 206.722 dá 0,017918, ou 17.918 por milhão. O Z de longo prazo vem da normal padrão: o valor que deixa 1,79% na cauda é 2,10. Somando 1,5, chega-se ao nível sigma de 3,60.

Vale uma ressalva didática. Multiplicar unidades por 41 pontos supõe que cada material tem 41 chances de falhar, o que infla o denominador. O número serve como linha de base interna, mas compará-lo com outra empresa exige a mesma convenção.

O indicador IU-RCL5 e a meta fixada no terceiro quartil

O problema estatístico foi descrito por um indicador percentual chamado IU-RCL5, com 388 observações. A apresentação não detalha a fórmula. O resumo estatístico permite, porém, ler bem a distribuição.

EstatísticaValor
N388
Média45,48
Desvio padrão19,24
Primeiro quartil31,33
Mediana47,91
Terceiro quartil59,95
Mínimo e máximo0 e 100
Anderson-DarlingA² de 1,59, valor-p abaixo de 0,005

O valor-p abaixo de 0,005 rejeita a normalidade. A assimetria de -0,19 e a curtose de -0,51 indicam distribuição achatada e um pouco puxada para a esquerda. Isso pesa na escolha do cálculo de capabilidade.

A equipe usou o terceiro quartil, cerca de 60%, como meta. O valor coincidia com o limite de especificação pedido pelo patrocinador. A lógica é razoável: levar todo o processo ao patamar que hoje só os 25% melhores atingem.

Ppk de -2,51: a capabilidade de um custo que nunca ficou abaixo do limite

Na fase Analisar, a equipe calculou a capabilidade do custo mensal da medição em 2010. Foram 12 meses, com média de R$ 1.090.540 e desvio padrão de R$ 144.774. Doze vezes a média dá R$ 13.086.480, coerente com o total anual.

O limite superior lançado no software foi 78. Como todos os meses ficaram muito acima disso, o resultado foi 100% fora: Z do limite superior de -7,53 e Ppk de -2,51. A conta confere: 78 menos 1.090.540, dividido por 144.774, dá -7,53.

A equipe registrou Z bench igual a zero e somou 1,5, chegando a Z de curto prazo de 1,50. A mensagem gerencial é clara: o custo inteiro estava fora do alvo. Para um projeto de redução de custos na aciaria, esse é o retrato de partida.

A lição técnica também é clara. O limite de 78 parece estar em outra unidade, talvez milhares de reais por medição. Antes de rodar capabilidade, a especificação precisa estar na mesma unidade dos dados. Caso contrário, o índice só confirma o óbvio.

Três gráficos de dispersão com dados de 2010

Para entender o que move o custo, a equipe montou três gráficos de correlação e dispersão com os 12 meses de 2010. Cada um testava uma hipótese diferente.

Par de variáveisLeitura da equipeDecisão
Produção de aço contra custo da mediçãoCorrelação positivaParte do custo acompanha o volume e não é desperdício
Custo de instrumentação contra quantidade de materialCorrelação positiva e forteO custo de instrumentação é governado pela quantidade consumida
Custo de instrumentação contra custo de descartáveisCorrelação positiva fracaAs duas famílias têm causas próprias

No primeiro gráfico, a produção mensal varia de cerca de 258 mil a 375 mil, e o custo de cerca de R$ 820 mil a R$ 1,33 milhão. Há meses com produção parecida e custo muito diferente. É nessa dispersão em torno da reta que mora o desperdício.

Leitura ilustrativa: se o custo dependesse só do volume, os pontos ficariam colados à reta. A distância vertical entre meses de produção semelhante é o que o projeto pode atacar sem reduzir produção.

FMEA: o quebrador de escória no topo com RPN 360

A FMEA foi aplicada aos X vitais nas duas aciarias. Cada modo de falha recebeu notas de severidade, ocorrência e detecção. O RPN é o produto das três.

XModo de falhaSODRPN
X28Falha no quebrador de escória589360
X4Cabo queimado ou rompido588320
X5Oxidação na conexão entre sensor e plugue588320
X24Tempo excessivo de amostragem e medição579315
X3Avaliação de falhas pela instrumentação35575

A severidade é a mesma nos quatro primeiros. O que os separa é a detecção, de 8 ou 9. Isso significa que o controle atual, inspeção visual, quase não pega a falha antes que ela aconteça.

A lição é que, aqui, a alavanca está na detecção. As ações recomendadas foram planos de inspeção e manutenção eletromecânica atualizados e testes diários. Elas atacam justamente a nota que mais pesa.

O 5W2H com 21 X vitais e as primeiras ações na sub-lança

A fase Melhorar organizou um plano 5W2H para 21 X vitais, começando por X4, X5, X24, X28 e X23. Parte das ações foi implantada antes mesmo de o plano fechar.

  • corrigido o entupimento do orifício de refrigeração do cabo de compensação e do suporte da sub-lança da aciaria 2;
  • corrigido um vazamento de água sobre a caixa dos sensores da sub-lança do convertedor 1;
  • todas as ocorrências de medição passaram a ser registradas no sistema de gestão;
  • criado formulário para a operação registrar cada falha e seu motivo;
  • implantado acompanhamento semanal da recuperação de plugues, cabos e suportes;
  • implantada a reutilização dos materiais de instrumentação;
  • escrito procedimento de montagem e teste para componentes novos e reaproveitados;
  • levantada a necessidade de estufas nas áreas e pedido orçamento de fornecimento.

O vazamento sobre a caixa dos sensores conecta direto com X18, umidade no armazenamento. Sensor úmido falha na medição. Uma correção simples de equipamento elimina uma fonte de descarte.

O registro obrigatório das falhas responde a X1 e X2. Sem histórico confiável, não há como calcular MTBF de lanças nem saber quais componentes vale recuperar.

Estufas e treinamento: as duas frentes de alto esforço com cronograma próprio

Os X de alto esforço ganharam cronogramas separados, datados de 31 de maio de 2011. São eles que tornam o ganho permanente.

FrenteEtapas e pesoPeríodo
Treinamento de instrumentação e operaçãoApostila 30%, participantes 10%, datas 10%, aulas 40%, registro no sistema 10%Abril a julho de 2011
Estufas para sensores descartáveisCotação 5%, planejamento 10%, orçamento 15%, projeto 15%, requisição 5%, fornecedor 5%, montagem 25%, partida 15%, encerramento 5%Maio de 2011 a dezembro de 2012

O treinamento ataca X9, deficiência no conhecimento sobre custo e operação, e X33, a lança de medição usada para amostragem. São hábitos, e hábito só muda com explicação do porquê e acompanhamento.

As estufas atacam X16 e X19. O sensor descartável absorve umidade, e sensor úmido dá leitura falsa ou falha. Guardar o sensor aquecido é um poka-yoke de ambiente: remove a condição em vez de depender de atenção.

Ocorrências de 2011 e custo de instrumentação: os números do Controlar

O plano de controle passou a acompanhar as ocorrências de medição por tipo, mês a mês. Os quatro primeiros meses de 2011 mostram a tendência.

Tipo de ocorrênciaJanFevMarAbrTotal
Reparo em lanças132564819255
Fornecimento de suporte432118688
Reparo em cabo381812876
Substituição de cabo896427
Demais tipos166181151
Total23711010248497

As ocorrências caíram de 237 em janeiro para 48 em abril, queda de 79,7%. A média do quadrimestre foi 124,3 por mês. Os reparos em lança, maior linha, caíram de 132 para 19.

IndicadorAntesDepois
Meta anual de reduçãoR$ 1.200.000,00Tendência de R$ 1.977.638,00
Ocorrências de medição por mês237 em janeiro de 201148 em abril de 2011
Materiais novos de instrumentação por mês, leitura aproximada do gráficoCerca de R$ 170 mil em janeiroCerca de R$ 115 mil em novembro
Falhas nas mediçõesDPMO de 7.445 em 2010-

A tendência supera a meta em 64,8%. Em base bruta, os R$ 1.977.638,00 representam 15,1% dos R$ 13,1 milhões gastos em 2010. A apresentação não traz o DPMO depois das ações, por isso a última linha fica sem valor. Para fechar o ciclo com rigor, o recálculo da capabilidade seria o passo seguinte.

O que este case ensina a quem vai conduzir um projeto Master Black Belt de custo

O primeiro ensinamento é tornar visível uma conta dispersa. Ninguém via R$ 13,1 milhões porque o valor estava espalhado em requisições. Juntar a conta já foi metade do custo da má qualidade exposto.

  • revise a matriz de causa e efeito com quem opera, não só com quem conserta;
  • trate um Pareto plano como diagnóstico e use um segundo critério de corte;
  • confira a unidade da especificação antes de rodar capabilidade;
  • defina a convenção de oportunidades do DPMO e mantenha a mesma no antes e no depois;
  • separe ações rápidas de frentes com orçamento e dê a estas um cronograma próprio;
  • recalcule a capabilidade no Controlar, para que o ganho em reais tenha prova estatística.

O papel do Master Black Belt aparece nessas escolhas. Ele não aplica todas as ferramentas do Lean Seis Sigma. Escolhe a que responde à pergunta da fase e sabe quando um resultado estranho é informação.

Para traduzir a tendência em ganho validado, vale seguir o roteiro de cálculo do retorno financeiro de um projeto Seis Sigma, com critério acordado com a controladoria desde o início.

Este case mostra que a redução de custos na aciaria não depende só de grandes investimentos. Boa parte do ganho veio de registrar falhas, recuperar componentes e corrigir pequenos defeitos de equipamento que ninguém priorizava.

Perguntas frequentes

Qual era o problema central deste case?
O custo de medir a temperatura do aço líquido nas duas aciarias da Voitto Steel. Em 2010, sensores descartáveis e materiais de instrumentação custaram R$ 13.133.206,60 em base bruta. Havia ainda falhas de medição que geravam retrabalho, atraso e consumo extra.
Qual foi a meta do projeto e quanto foi alcançado?
A meta era reduzir R$ 100.000,00 por mês, ou R$ 1.200.000,00 por ano. No fechamento, a tendência anual apontava R$ 1.977.638,00, cerca de 64,8% acima da meta. A apresentação também cita um novo cálculo de R$ 1.925.000,00.
Por que a medição de temperatura é tão importante numa aciaria?
Porque a temperatura define se o aço pode seguir para o lingotamento. Aço frio demais solidifica e trava o processo. Aço quente demais gasta energia e desgasta o refratário. Medição que falha obriga a medir de novo e gasta mais sensores.
Como foram priorizadas as 33 causas levantadas?
Por uma matriz de causa e efeito pontuada por três avaliadores, revisada uma vez, e depois por uma matriz de impacto contra esforço. Dezesseis causas ficaram como alto impacto e baixo esforço e viraram ações imediatas. Oito ficaram como alto impacto e alto esforço.
O que fazer quando o diagrama de Pareto sai quase plano?
Tratar o resultado como diagnóstico. Neste case, as seis causas de nota máxima somavam só 28,4% do total. A equipe usou um segundo critério, o esforço de solução, para decidir a ordem de ataque, em vez de forçar um corte de 80%.
Como foi calculado o DPMO de 17.918?
Foram 3.704 defeitos em materiais sobre 5.042 unidades requisitadas com 41 oportunidades cada, isto é, 206.722 oportunidades. A divisão dá 0,017918, ou 17.918 por milhão. Isso corresponde a Z de longo prazo de 2,10 e nível sigma de 3,60 com o deslocamento de 1,5.
Por que o Ppk do custo deu negativo?
Porque o limite superior lançado foi 78, enquanto a média mensal de custo era R$ 1.090.540. Todos os 12 meses ficaram acima do limite. O Z do limite superior deu -7,53 e o Ppk, que é um terço desse valor, deu -2,51. O limite parece estar em outra unidade.
Qual modo de falha teve o maior RPN na FMEA?
A falha no quebrador de escória, com severidade 5, ocorrência 8 e detecção 9, RPN de 360. Logo atrás vieram cabo queimado e oxidação no plugue, ambos com 320, e tempo excessivo de amostragem, com 315. A detecção alta foi o fator comum.
Quais ações tiveram efeito mais rápido?
As corretivas de equipamento e de registro. A correção do entupimento da refrigeração da sub-lança e do vazamento sobre a caixa de sensores, o registro obrigatório de falhas e a recuperação semanal de plugues e cabos. As ocorrências caíram de 237 em janeiro para 48 em abril de 2011.
O que ficou faltando para fechar o projeto com rigor estatístico?
O recálculo da capabilidade depois das ações. A apresentação mostra queda de ocorrências e tendência de ganho, mas não traz o DPMO depois. Com a mesma convenção de 41 oportunidades, esse número permitiria comparar diretamente com os 7.445 de 2010.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…