Gestão & Liderança

Dicionário da EAP: o que é, como preencher e 4 exemplos em PDF

Os campos, o critério de aceite que se confere, a conta que mostra se o plano cabe no prazo e quatro dicionários ilustrativos preenchidos, da parada de manutenção ao projeto Green Belt

Thiago Coutinho
Publicado em 28 de set de 2026  ·  Atualizado em 6 de out de 2026  ·  20 min de leitura
Integrante da equipe Voitto no escritório da empresa, com o texto Dicionário da EAP: o que é, como preencher e 4 exemplos em PDF sobre fundo escuro à esquerda

O dicionário da EAP é o documento que pega cada pacote de trabalho da estrutura analítica e põe por escrito o entregável, as exclusões, o dono, a duração e a prova de que o pacote terminou. A EAP desenha as caixinhas do projeto. O dicionário da EAP diz quando cada caixinha está pronta.

Parada industrial, que eu conheci na Votorantim Metais, no zinco, é o tipo de projeto que menos perdoa escopo combinado de boca. A data de volta do equipamento está marcada antes de o primeiro parafuso sair. Quando ninguém escreveu o que significa “pronto” para cada frente, a discussão aparece no pior momento, no fim da janela, com a operação esperando.

É essa discussão que o documento antecipa. “Treinamento da equipe” é um pacote válido numa EAP e também uma frase que três pessoas leem de três jeitos: quatro horas de apresentação, turma prática com prova, ou acompanhamento até a operação estabilizar. O verbete escolhe uma leitura e põe por escrito.

Se o que você precisa é montar a estrutura em si, com níveis e decomposição, a EAP: estrutura analítica do projeto cobre esse lado. E se você chegou aqui atrás do documento que descreve campos de uma base de dados, o assunto é outro: veja o dicionário de dados.

Antes dos exemplos, um aviso sobre a origem deles. Os quatro modelos de dicionário da EAP preenchidos deste texto foram montados para o artigo no formato da ferramenta P05 do Kit de Ferramentas para Gestão de Projetos, e cada folha traz a faixa “exemplo ilustrativo” no topo. Eles mostram o preenchimento e não relatam projeto real da Voitto nem de cliente.

O que é o dicionário da EAP

O dicionário da EAP tem uma entrada por pacote de trabalho da estrutura analítica do projeto. Cada entrada traz o entregável, o critério de aceite, as exclusões, o responsável, a duração e as dependências. Com ele, quem não participou do planejamento consegue executar, orçar e aceitar o pacote sem perguntar.

O nome engana. Quem espera um glossário de termos do projeto encontra outra coisa: um livro de verbetes, em que cada entrada define um elemento da estrutura. Na literatura de gestão de projetos, o PMI trata o documento como companheiro da EAP, responsável por detalhar escopo, entregas, responsável, recursos e critério de aceitação de cada elemento.

A relação entre os dois documentos é rígida. O dicionário da EAP descreve o escopo que a EAP já decompôs e nunca acrescenta escopo novo. Se um verbete precisa falar de algo que não está na árvore, o defeito está na árvore. Esse é o teste mais rápido de consistência entre os dois.

O nível certo é o do pacote de trabalho, a folha da árvore, aquela que não se decompõe mais e que recebe estimativa de duração e custo. Verbete para nível intermediário duplica informação e cria duas fontes de verdade para a mesma coisa.

Diagrama com um galho da EAP do exemplo ilustrativo das clínicas: Agendamento no topo, os pacotes 2 Levantamento, 3 Implantação e 4 Migração abaixo, e a folha 3.1 Homologação destacada em vermelho com uma seta para o verbete dela, que lista pacote, entregável verificável, não inclui, responsável, duração de 2 semanas e dependência do pacote 2
Um galho da EAP do exemplo das clínicas e o verbete da folha 3.1. A caixinha só nomeia; o verbete diz quando ela termina.

Onde o dicionário da EAP entra no planejamento

A ordem importa. Primeiro vem o termo de abertura, com objetivo, prazo, orçamento e fronteiras. Depois, a EAP decompõe esse escopo em pacotes. Só então o dicionário da EAP descreve cada pacote, e só com ele pronto o cronograma ganha datas.

Essa ordem a gente escreveu no guia do kit, no passo 3 do planejamento: montar a EAP (P04) e o Dicionário da EAP (P05) antes do cronograma, porque “o cronograma (P06) marca datas de pacotes que já existem, não o contrário”. A frase parece óbvia. Na prática, o cronograma costuma nascer primeiro, numa planilha, e os pacotes viram linhas de Gantt sem definição nenhuma.

No PMBOK, o dicionário da EAP aparece como saída do processo de criar a EAP. Junto com a declaração do escopo e a própria EAP, ele forma a linha de base do escopo, a referência contra a qual toda mudança é comparada. Em qualquer uma das fases de um projeto depois do planejamento, é essa linha de base que diz se um pedido novo é mudança ou não.

Por isso o dicionário da EAP se escreve uma vez e se consulta o projeto inteiro. Na execução, ele responde se o pacote acabou. No monitoramento, sustenta o percentual de avanço. No encerramento, vira a lista do que o patrocinador aceitou.

Os campos do dicionário da EAP, um a um

A ferramenta P05 do kit usa seis colunas, numa folha de uma página: código, pacote de trabalho, entregável verificável (o critério de pronto), responsável, duração e dependência. Nos exemplos deste artigo eu acrescentei a sétima, “Não inclui”, porque é a que mais evita briga. Os guias mais extensos pedem ainda premissas e custo. A tabela junta tudo:

CampoO que entraO erro que ele previne
CódigoO identificador do pacote na EAP (3.1, por exemplo)Verbete órfão, que não se liga a nenhum ponto da árvore
Pacote de trabalhoO mesmo nome usado na EAP, sem variaçãoDuas nomenclaturas para a mesma coisa
Entregável verificávelO artefato que sai do pacote e a condição que prova que ele está prontoA discussão sobre “pronto” que volta toda semana
Não incluiO que um leitor razoável poderia achar que está dentro e não estáEscopo que cresce por suposição, sem pedido formal
ResponsávelUm papel ou uma pessoa, nunca uma área inteiraPacote sem dono, que ninguém puxa
DuraçãoTempo do pacote, na unidade do cronogramaData que ninguém sabe de onde saiu
Depende deOs códigos que precisam terminar antesPacote que “pode começar no dia um” sem poder
PremissasO que se assumiu como verdadeiro para estimarEstimativa que desmorona sem ninguém saber por quê
CustoValor do pacote e a base usada para chegar neleNúmero que vira compromisso sem memória de cálculo

Duas instruções da P05 resumem a lógica do documento. A segunda pede que o entregável prove o pronto “sem depender de opinião: um número, uma assinatura, um teste que passou”. A quarta fecha a porta: pacote sem entregável verificável ainda não está pronto para entrar no cronograma.

A coluna “Depende de” merece atenção especial. A terceira instrução da P05 avisa que pacote sem dependência declarada assume que pode começar no dia um. Quando a dependência existe e não foi escrita, o cronograma nasce otimista e ninguém percebe até o atraso aparecer.

“Não inclui” é o campo que quase ninguém preenche. Ele não lista tudo o que o projeto deixa de fazer, porque essa lista seria infinita. Lista só a confusão provável. No pacote de treinamento das recepcionistas, a exclusão útil é o treinamento de médicos e técnicos, porque é esse o pedido que vai chegar.

Critério de aceite: o campo que carrega o documento

Se você só puder preencher um campo, preencha este. O critério de aceite é a condição verificável que fecha o pacote, e responde a uma pergunta única: quem olha, olha para o quê, e o que precisa estar verdadeiro?

A diferença entre um critério que funciona e um que não funciona está na verificabilidade. “Treinamento realizado com qualidade” não tem observação que o confirme ou negue. “38 recepcionistas com prova prática aprovada, nota 8 ou mais” tem: qualquer pessoa vai lá e confere.

Critério vagoCritério verificávelQuem confere
Refratário trocado18 m trocados, com relatório de inspeção dimensional assinadoInspeção
Base migradaDivergência de 0,5% ou menos numa amostra de 400 cadastrosAnalista de dados
Estoque transferidoInventário rotativo com acuracidade de 99,5% ou maisSupervisor de armazenagem
Melhoria implantadaTempo médio de setup na meta por 3 semanas seguidasSupervisor de produção

Três testes rápidos dizem se o seu critério se sustenta. O primeiro é o do estranho: alguém de fora do projeto conseguiria julgar se o pacote está pronto só com o critério na mão? Se precisa perguntar ao gerente, falta critério.

O segundo é o teste do não. Precisa existir um resultado possível que reprove o pacote. Se nenhum resultado reprova o pacote, o texto só descreve o trabalho.

O terceiro é o teste do relógio. Alguns critérios se verificam num instante, outros pedem um período de observação. Os dois servem, mas o segundo precisa dizer quanto tempo: “4 semanas seguidas sem chamado crítico” fecha; “estável” não fecha.

Já viu um pacote parado em 90% por três semanas? Quase sempre o trabalho acabou e ninguém tinha combinado o que era acabar. O critério de aceite resolve isso antes de começar.

O que o livro diz sobre escopo, dentro e fora

No Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt, o capítulo sobre Definição do Problema e Planejamento do Projeto, que é o 19, separa duas coisas que o dicionário da EAP precisa manter separadas. Na seção 19.2.2, página 160, eu escrevi que “Enquanto o escopo do projeto identifica o trabalho que será feito no projeto, o escopo do produto aponta recursos, características, requisitos, funcionalidades e especificações que devem ser seguidos no produto ou serviço do projeto.”

No verbete, as duas aparecem em campos diferentes. O nome e a descrição do pacote são escopo do projeto: o trabalho. O critério de aceite costuma trazer o escopo do produto: os 18 m de refratário, a divergência máxima da base, a nota mínima da prova. Misturar as duas é o jeito mais comum de escrever um critério que não se verifica.

Na página 161, logo em seguida, o livro apresenta o Diagrama Fora Dentro: “Na parte de dentro, são colocados os elementos que farão parte do projeto, ou seja, o que o projeto engloba. Já a parte de fora contempla elementos que não farão parte do projeto.” A coluna “Não inclui” é esse diagrama descido ao nível do pacote. O diagrama olha o projeto inteiro, e o dicionário leva a mesma pergunta para cada pacote.

Os sete elementos do Charter numerados, cada um com a frase que o explica, do business case à estrutura da equipe
Na lista dos sete elementos, o escopo diz o que entra e o que fica fora do projeto; a coluna Não inclui faz a mesma pergunta a cada pacote. Adaptado da formação Green Belt Lean Seis Sigma da Voitto.

O livro não trata do dicionário da EAP pelo nome, e prefiro dizer isso logo. O que ele dá é o fundamento: escopo bem definido no começo é o que permite ao time dizer “isso não estava combinado” sem virar briga.

Duração e dependência: confira o dicionário contra o prazo

O dicionário da EAP alimenta o cronograma com duas colunas: duração e dependência. Isso dá ao documento um poder que pouca gente usa. Antes de qualquer data entrar no diagrama de Gantt, dá para somar a cadeia mais longa e comparar com o prazo do termo de abertura.

A conta é a passagem para frente do método do caminho crítico. Cada pacote começa quando o último de que ele depende termina. O fim do último pacote é a duração mínima do projeto. Se ela passa do prazo aprovado, o plano está inviável desde o primeiro dia, e nenhuma mudança de escopo precisa acontecer para o projeto atrasar.

Gráfico de barras horizontais do exemplo ilustrativo das clínicas, de 0 a 24 semanas: Levantamento, Homologação, Configuração, Treinamento, Piloto, Expansão e Estabilização em vermelho, formando o caminho mais longo de 23 semanas; Migração em cinza, com folga; e uma linha vertical marcando o prazo de 24 semanas
A cadeia do exemplo das clínicas soma 23 semanas contra prazo de 24. A migração corre em paralelo e tem folga.

No exemplo das clínicas, a cadeia passa por sete pacotes e fecha em 23 semanas, com uma de folga. A migração da base depende só do ambiente de homologação e corre ao lado da configuração. Se ela atrasar até 4 semanas, o piloto não sente.

Faça essa conferência toda vez que o dicionário mudar. Ela leva dez minutos numa planilha e evita o pior tipo de atraso: o que estava escrito no plano e ninguém somou. Se precisar de estimativa por faixa em vez de número fechado, a técnica PERT entra exatamente aqui.

Dois cuidados. Pacotes de gestão do projeto acompanham o projeto inteiro e não entram na soma do caminho. E a soma só fecha se a lista cobre 100% do escopo: um pacote esquecido, como o ambiente de homologação de que outros dependem, faz a conta parecer mais curta do que o projeto é.

Quatro exemplos de dicionário da EAP preenchido

Os quatro dicionários abaixo são ilustrativos: a gente montou cada um para este artigo no formato da P05, com a coluna “Não inclui” a mais. Cada um mostra um problema típico de preenchimento e como a folha o resolve. Clique na miniatura para abrir a folha inteira e baixar o PDF.

1. Parada de manutenção: 17 dias de forno parado (ilustrativo)

Dicionário da EAP ilustrativo da parada do forno de calcinação 2: oito pacotes com entregável verificável, não inclui, responsável, duração e dependência, e os quadros de regra dos 100%, conferência do caminho e observaçõesO cenário é uma planta com 2 fornos de calcinação. O forno 2 sai de operação para trocar o refratário da zona de queima e revisar o acionamento. O termo de abertura fixa a janela em 17 dias corridos de forno parado, contados do desligamento, o dia D.

O problema de toda parada é a lista que não para de crescer. Cada área lembra de um serviço na véspera, e o que entra tarde disputa equipe e material com o que foi planejado. Por isso o primeiro verbete, 1.1, tem como entregável 64 serviços congelados e assinados pelo gerente de manutenção até D-45. A coluna “Não inclui” manda o que vier depois para o controle de mudanças.

O verbete 2.1 pedia o mesmo cuidado. A tentação é escrever “forno liberado” e seguir. A folha diz o que liberar significa: carcaça a 60 °C ou menos, bloqueios aplicados e permissão de trabalho emitida. E o 2.1 depende de 1.2, porque ninguém desliga o forno com sobressalente faltando no almoxarifado.

Onde eu mais travei foi no critério de 3.2, a partida. “Forno funcionando” não serve: funciona no primeiro minuto e pode desarmar uma hora depois. O verbete pede o forno a 95% da carga nominal ou mais por 24 h, sem alarme crítico, e deixa a meta de produção do mês fora, com a operação.

A conferência do caminho fecha em 16 dias contra 17: resfriamento, refratário, secagem e partida. A revisão do acionamento corre em paralelo ao refratário e espera a secagem. A folha também confere a pré-parada: a compra de sobressalentes leva 5 semanas a partir de D-45 e termina em D-10, 3 dias antes do limite do próprio critério.

Uma folga de 1 dia numa janela de 17 é pouca, e a folha deixa isso visível para quem aprova. Se a inspeção do refratário pedir mais um dia, todo mundo sabe de onde ele vai sair antes de a parada começar. Na manutenção programada, é essa conversa antecipada que segura o prazo de volta do forno.

2. Agenda de 6 clínicas: o pacote que segurava os outros (ilustrativo)

Dicionário da EAP ilustrativo do sistema de agendamento numa rede de clínicas: nove pacotes, da gestão do projeto à estabilização, com o ambiente de homologação em linha própria e a conferência do caminho de 23 semanas contra 24Uma rede com 6 clínicas de diagnóstico por imagem troca a agenda em planilha por um sistema de agendamento e confirmação. São 38 recepcionistas usando a agenda, 12 delas usuárias-chave. O prazo do termo de abertura é de 24 semanas.

Numa primeira leitura, a EAP parecia completa sem o ambiente de homologação, que ficava implícito dentro de “configuração”. Só que a migração da base também precisa dele. Com o servidor de teste escondido dentro de outro pacote, a dependência da migração some, e a soma do caminho sai curta.

Na folha, o pacote 3.1 ganhou linha própria, com critério verificável: servidor de teste com cópia anonimizada da base, acessado pelas 12 usuárias-chave. A gestão do projeto (1) e o levantamento dos processos (2) também estão lá. São os pacotes que mais somem das listas, e a regra dos 100% vale para eles também.

O pacote 5 mostra o “Não inclui” protegendo o prazo. O treinamento é das 38 recepcionistas, com prova prática e nota 8 ou mais. Médicos e técnicos ficam fora porque não usam a agenda. Sem essa linha, o pedido da turma dos médicos chega na semana do piloto, e o pacote que estava no caminho mais longo estoura.

O critério do piloto em 1 clínica pede 2 semanas sem agenda perdida e com taxa de confirmação igual ou maior que a da planilha. É uma comparação com o processo antigo, e isso tira do piloto a chance de ser aprovado por simpatia. Com a homologação na própria linha, sobra 1 semana entre o caminho e o prazo.

3. Layout de centro de distribuição: o “não inclui” no trabalho (ilustrativo)

Dicionário da EAP ilustrativo do novo layout de um centro de distribuição: sete pacotes, com a coluna não inclui separando obra civil, troca de WMS e inventário anual, e a conferência do caminho de 9 semanas contra 12Um atacadista troca o layout do seu centro de distribuição sem parar a expedição: 1.200 posições de porta-palete, 3.400 SKUs e 52 operadores. O prazo do termo de abertura é de 12 semanas.

Mudança de layout atrai pedido de carona. Já que o piso vai ficar livre, alguém sugere reformar o piso. Já que os endereços vão mudar, alguém sugere trocar o WMS. A coluna “Não inclui” responde antes da pergunta: obra civil, piso e cobertura ficam fora do pacote 2; a troca do WMS ou dos coletores fica fora do pacote 4; o inventário geral anual fica fora do pacote 5, porque tem calendário próprio.

O outro ajuste foi no responsável. A primeira versão dava o reendereçamento no WMS a “TI e Operações”. Com dois donos, cada lado espera o outro. A versão aprovada dá o pacote 4 ao analista de sistemas do CD, e quem cuida do RACI registra quem é consultado.

O caminho soma 9 semanas contra 12. A equipe tratou as 3 semanas de folga como reserva para atraso na entrega dos porta-paletes, que é o pacote mais exposto a fornecedor, e escreveu isso nas observações para ninguém gastar a folga em outra coisa.

O critério de 5 é o meu preferido dos quatro exemplos. Ele não aceita “estoque transferido”: pede os 3.400 SKUs no endereço novo e um inventário rotativo com acuracidade de 99,5% ou mais.

4. Projeto Green Belt: o DMAIC como EAP (ilustrativo)

Dicionário da EAP ilustrativo de um projeto Green Belt de redução do tempo de setup: as fases do DMAIC como pacotes, com medir dividido em validação do sistema de medição e coleta, e a conferência do caminho de 17 semanas contra 18Uma linha de envase de uma indústria de bebidas abre um projeto Green Belt para reduzir o tempo médio de setup. O prazo do termo de abertura é de 18 semanas, e a EAP segue as fases do DMAIC, com a gestão do projeto como sexto pacote.

Vejo muito Green Belt pular o dicionário porque o DMAIC já parece uma estrutura. As fases dizem a ordem; o verbete diz o que fecha cada uma. O Definir só termina com o project charter assinado pelo patrocinador. O Analisar só termina com 3 causas priorizadas, cada uma confirmada por dado.

A fase Medir deu trabalho. A primeira versão tinha um pacote só, com 6 semanas de coleta no 1º turno, e o caminho somava 19 semanas contra 18. Dividir em 2.1, a validação do sistema de medição com estudo R&R, e 2.2, a coleta, mostrou onde estava o tempo. Coletando nos 3 turnos, os 120 setups do plano de coleta cabem em 4 semanas.

Depois da divisão, o caminho cai para 17 semanas e cabe nas 18 do prazo. O verbete do Controlar pede o plano de controle e o procedimento padrão assinados pelo dono do processo, com 2 semanas de auditoria sem desvio. A expansão para outras linhas ficou em “Não inclui”, que é onde projeto de melhoria costuma perder o fim.

O sexto pacote, a gestão do projeto, tem critério próprio: 5 tollgates realizados, cada um com ata assinada pelo patrocinador. O relatório de ganho financeiro ficou de fora, porque quem valida ganho é a controladoria. Escrever isso no verbete evita que o projeto fique aberto esperando um número que não depende do Green Belt.

Para usar qualquer um como molde, leve a forma e deixe os números. O que vale copiar é o critério que se confere, a exclusão escrita para a confusão provável e a conferência do caminho impressa na própria folha.

Como montar o dicionário da EAP em 6 passos

O roteiro abaixo vale para os quatro exemplos e para qualquer projeto com EAP aprovada.

  1. Parta da EAP fechada. Uma linha por pacote de trabalho, com o mesmo código e o mesmo nome da árvore. Se a árvore ainda muda toda semana, o dicionário espera.
  2. Escreva o critério antes da descrição. Começar pelo critério obriga a pensar no fim. A descrição sai mais curta depois.
  3. Preencha o “Não inclui” com a confusão provável. Pergunte ao time qual pedido vai aparecer no meio do caminho e escreva esse.
  4. Dê um dono por linha. Um papel ou uma pessoa. Área inteira não responde por atraso.
  5. Declare duração e dependência. Na unidade do cronograma, com os códigos de que cada pacote depende. Pacote sem dependência escrita começa no dia um.
  6. Some o caminho e compare com o prazo. Se não couber, o problema aparece agora, quando custa uma reunião, e não no fim do projeto.

Muita gente para no quinto passo e aprova a folha sem somar nada. Sem essa soma, o dicionário da EAP descreve bem cada pacote e mesmo assim deixa o atraso passar.

Quem escreve, quem aprova e quando revisar

Quem conduz o dicionário da EAP costuma ser o gerente de projetos ou o PMO, mas cada verbete deve ser escrito com quem vai executar o pacote. Quem executa sabe o que consegue provar no fim, e o critério escrito por essa pessoa já nasce combinado.

A aprovação é do patrocinador, junto com a EAP e antes do cronograma. Ele não precisa ler verbete por verbete com lupa. Precisa ler três coisas: a lista contra o termo de abertura, as exclusões que podem decepcionar alguém e a conferência do caminho contra o prazo. Se alguma das três o incomoda, a conversa acontece agora.

Vale chamar também quem vai receber cada entrega. No exemplo das clínicas, as 6 gerentes assinam o aceite da estabilização; faz sentido que elas leiam o critério antes, e não só no fim. O mapa de stakeholders ajuda a escolher quem precisa ver qual verbete.

Revisão acontece por evento. O dicionário da EAP muda quando uma mudança de escopo é aprovada, quando uma premissa cai ou quando um pacote é dividido. A cada versão, refaça a soma do caminho. Se a mudança entrou no verbete e ficou fora da conta, o atraso só aparece mais tarde.

Como o dicionário da EAP conversa com os outros documentos

O dicionário da EAP fica no meio do caminho entre o que foi combinado e o que vai ser controlado. Quase todo documento do projeto encosta nele.

DocumentoO que recebe do dicionárioO que devolve
Termo de aberturaNada: o termo vem antesO prazo e as fronteiras gerais que o dicionário detalha
Escopo do projetoA descrição pacote a pacoteAs entregas principais e as exclusões do projeto
CronogramaDuração e dependência de cada pacoteA data em que cada critério será conferido
Orçamento do projetoO custo por pacote e a base da estimativaA restrição que às vezes obriga a redefinir o pacote
Matriz de riscosAs premissas e as dependências de fornecedorA resposta que pode virar pacote novo
Status reportO critério que define “concluído”O pacote travado, com o motivo
Termo de encerramentoA lista de critérios atendidosO aceite formal do patrocinador

O elo com o controle de mudanças é o que dá utilidade diária ao documento. Sem verbete, a pergunta “isso é mudança ou já estava combinado?” se resolve por memória e por hierarquia. Com verbete, se resolve por leitura: alguém abre a linha, compara com o “Não inclui” e responde.

Dicionário da EAP em projeto ágil

Em projeto ágil, ninguém escreve verbete para o backlog inteiro no primeiro dia, e nem deveria. O escopo de detalhe muda a cada ciclo. Mesmo assim, a ideia por trás do dicionário da EAP continua lá, com outro nome.

O critério de aceite de uma história de usuário e a definição de pronto do time fazem o mesmo trabalho do entregável verificável: dizem, antes de começar, o que precisa estar verdadeiro para o item fechar. Quem já escreveu um bom critério de aceitação de história sabe escrever um bom verbete.

Nos projetos híbridos, comuns em implantação de sistemas, um arranjo que funciona é manter o dicionário da EAP para as entregas grandes, aquelas que mexem em prazo e orçamento, e deixar o backlog cuidar do detalhe dentro de cada uma. A comparação entre os dois mundos está em gestão ágil vs gestão tradicional.

Erros comuns no dicionário da EAP

  • Verbete para nível intermediário. Cria conflito entre o que diz o verbete do nível 2 e a soma dos verbetes do nível 3. Verbete é para a folha.
  • Critério igual à descrição. A descrição diz o que será feito; o critério diz como se confere que foi. Se os dois campos têm o mesmo texto, um deles está vazio na prática.
  • Lista que diz cobrir 100% e esquece pacotes. Gestão do projeto, levantamento e ambientes de teste são os que mais somem. Confira a lista contra a EAP linha a linha.
  • Dependência escrita contra pacote que não está na lista. Se um verbete depende de um código que não tem linha própria, o caminho fica mais curto no papel do que na vida.
  • Durações que ninguém somou. O cronograma herda o otimismo, e o atraso aparece meses depois com cara de problema de execução.
  • Responsável por área. “Engenharia” não aceita entrega nem responde por atraso.
  • Não versionar. Mudança aprovada edita o verbete. Sem registro de versão, a comparação futura com o registro de lições aprendidas fica impossível.

Repare que três desses erros aparecem numa conta simples de durações e dependências. Dá para pegar todos com uma conferência de dez minutos antes de aprovar o documento.

O que fazer num projeto que já está rodando sem dicionário

Escrever todos os verbetes agora costuma ser a pior saída. Num projeto em execução, isso consome semanas e produz um documento que ninguém lê. O caminho que funciona é seletivo.

Primeiro, os pacotes em disputa. Todo projeto sem dicionário tem três ou quatro pacotes que geram discussão recorrente sobre o que está incluído. O retorno é imediato e ajuda a sustentar o resto.

Depois, os pacotes que ainda não começaram. Custa pouco, porque a informação ainda está se formando, e protege o que vem pela frente. Aproveite para somar o caminho que falta contra o prazo.

Por último, os já entregues: só o critério usado no aceite. Não reconstrua estimativa nem premissa. A lição para o próximo projeto mora no critério.

Os verbetes que o time abre toda semana já pagam o esforço. É essa a decisão a defender quando alguém pedir o documento inteiro de uma vez.

Modelo de dicionário da EAP em branco para baixar

A P05 em branco é uma folha de uma página. No topo ficam as instruções de preenchimento; no meio, a tabela dos pacotes; no rodapé, os quadros da regra dos 100% e das observações. Serve impressa, para a reunião de planejamento, ou preenchida no computador.

Modelo em branco do Dicionário da EAP (P05) do kit: instruções de preenchimento no topo, cabeçalho com projeto, responsável e data, tabela com as colunas Código, Pacote de trabalho, Entregável verificável, Responsável, Duração e Depende de, e os quadros Regra dos 100% e Observações no rodapéNo arquivo está a folha do dicionário da EAP com as colunas Código, Pacote de trabalho, Entregável verificável (critério de pronto), Responsável, Duração e Depende de, além das instruções de preenchimento e do quadro da regra dos 100%.

Abrir e baixar a P05 em branco (PDF)

Minha sugestão é meter a cara hoje: pegue a EAP de um projeto seu, escolha os três pacotes que mais geram discussão e escreva só o critério de aceite e o “Não inclui” de cada um. Depois some as durações da cadeia mais longa e compare com o prazo. Se a conta não fechar, você achou o atraso antes dele acontecer.

A P05 é uma das ferramentas do kit, que segue o ciclo de vida do projeto da abertura ao encerramento. Se você quer ver o dicionário da EAP trabalhando ao lado das outras peças, o caminho está na formação em gestão de projetos da Voitto. E se o seu projeto é de melhoria, como o quarto exemplo, a trilha de certificação Green Belt e Black Belt fica na Academia de Certificação da Voitto.

Perguntas frequentes

O que é o dicionário da EAP?
É o documento que descreve cada pacote de trabalho da EAP com entregável, critério de aceite, exclusões, responsável, duração e dependências. Tem uma entrada por pacote e detalha o que a caixinha da EAP só nomeia.
Qual a diferença entre EAP e dicionário da EAP?
A EAP mostra a decomposição do escopo em forma de árvore e para no nome do pacote. O dicionário descreve cada pacote em termos verificáveis: o que entrega, o que não inclui, quem responde e como se confere que terminou.
Preciso de verbete para todos os níveis da EAP?
Não. Só para os pacotes de trabalho, que são as folhas da árvore. Verbete para nível intermediário duplica informação e cria duas versões da mesma verdade.
O que é critério de aceite no dicionário da EAP?
É a condição verificável que fecha o pacote: quem confere, o que confere e o que precisa estar verdadeiro. Ele precisa poder reprovar o pacote e ser julgável por alguém que não participou do planejamento.
Dicionário da EAP é o mesmo que declaração de escopo?
Não. A declaração de escopo trata do projeto como um todo: objetivo, fronteiras, entregas principais e restrições. O dicionário desce ao pacote, um verbete por vez, e transforma a fronteira geral em critério de aceite.
Como saber se o dicionário da EAP fecha com o prazo?
Some a cadeia mais longa de pacotes pelas durações e dependências declaradas, começando cada pacote quando o último de que ele depende termina. Se o total passar do prazo do termo de abertura, o plano precisa mudar antes de virar cronograma.
Onde baixar um modelo de dicionário da EAP?
A P05 em branco pode ser baixada em PDF na seção do modelo, perto do fim do artigo. Os quatro exemplos ilustrativos preenchidos também abrem em PDF, cada um na sua miniatura.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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