Metodologias & Qualidade

IA na fase Definir do DMAIC: o que a máquina rascunha e o que você assina

O rascunho ficou barato e o acordo não. Tarefa por tarefa da fase Definir, o que dá para gerar hoje, o que checar antes de acreditar e o que ainda pede assinatura.

Thiago Coutinho
Publicado em 3 de set de 2026  ·  Atualizado em 3 de set de 2026  ·  21 min de leitura
Thiago Coutinho de blazer preto falando ao microfone no palco de um evento, com crachá de participante no pescoço, com o texto IA na fase Definir do DMAIC: o que a máquina rascunha e o que você assina

Desenhei o passo a passo da fase Definir para a figura 18.3 do meu livro e demorei para reparar no que ele diz. São sete caixas em sequência. A primeira manda descrever o problema. A terceira manda definir a lacuna de performance e a meta do projeto. A sétima, última antes de a medição começar, manda assinar o contrato do projeto. Um fluxo inteiro de trabalho de escritório que termina com uma pessoa colocando o nome dela embaixo de uma promessa.

Cinco dessas sete caixas uma máquina hoje rascunha em minutos. Ela lê reclamação, agrupa tema, monta cronograma, sugere papéis e escreve o contrato inteiro em linguagem de gente grande. Duas continuam sendo você: a que fixa a meta e a que assina o contrato. E o que eu vejo dar errado nas empresas não é o rascunho ruim, que todo mundo percebe e joga fora. É o rascunho bom demais, que chega pronto na reunião e não encontra ninguém disposto a discutir.

Aqui eu fico dentro de uma fase só do DMAIC. É a fase em que o projeto ganha problema, escopo, meta e dono. Você vai ver o que se pede a uma transcrição de atendimento, e o que conferir na resposta antes de acreditar nela. Vai ver como o escopo cresce quando o rascunho vem pronto demais. Depois, o que fazer com baseline e premissas, e qual é o critério para dizer que a definição acabou. No fim tem uma tabela de decisão para imprimir e levar na reunião de abertura.

As sete caixas que eu desenhei para a fase Definir

Na fase Definir, a IA rascunha cinco das sete caixas que desenhei: escreve o problema, levanta histórico e impacto, checa prioridade e apoio, monta equipe e cronograma e esboça o processo. Duas ficam com você: definir a meta e assinar o contrato. Delegue a redação, nunca a meta e o acordo.

Quando eu desenhei essa figura para o Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt, em 2024, não tinha máquina nenhuma na cabeça. Ela descreve o trabalho como ele sempre foi feito: descrever o problema, avaliar histórico e impacto sobre o cliente, fixar a lacuna de performance e a meta, checar prioridade e apoio da gestão. Depois definir equipe e cronograma e restrições, definir o processo principal envolvido, assinar o contrato. Colocando a coluna da máquina ao lado de cada caixa, o corte aparece sozinho.

As sete caixas da fase Definir em sequência, cinco marcadas como rascunho de IA e duas, a da meta e a da assinatura do contrato, marcadas como suas.
Cinco das sete viram texto em minutos. A da meta e a da assinatura, não.
Caixa do fluxogramaO que a máquina rascunhaO que continua com gente
Descrever o problemaJunta chamado, reclamação e nota de ocorrência e devolve o problema escrito em uma fraseSe aquele é o problema que a empresa vai resolver neste trimestre
Avaliar histórico e impactoPuxa a série do indicador, marca quebras e estima o cliente afetadoSe o histórico é comparável ou se mudou processo no meio dele
Definir a lacuna e a metaCalcula a distância entre o desempenho de hoje e a referência e propõe um númeroSe alguém que responde pelo resultado assina esse número
Checar prioridade e apoioMonta o comparativo de ganho e esforço entre os candidatosQuem vai bancar o tempo do time e o custo da mudança
Definir equipe, prazo e restriçõesSugere papéis, monta cronograma e lista a restrição já declaradaQuem tem agenda de verdade e quem só foi citado na lista
Definir o processo envolvidoRascunha o SIPOC a partir de procedimento e de tela de sistemaOnde o processo começa e onde ele termina para este projeto
Assinar o contrato do projetoFormata o documento e confere se todo campo está preenchidoA assinatura, que é o compromisso com a meta e com o prazo

A diferença entre as duas colunas não é de assunto. A do meio é produção: juntar, puxar, montar, rascunhar, formatar. A da direita é compromisso: escolher, bancar, delimitar, assinar. Os dois lados usam verbo no infinitivo, então a diferença não está na gramática. Ela está em quem responde se der errado.

A fase Definir não encolheu. O que encolheu foi o tempo de escrita dentro dela, que nunca foi a parte cara. SIPOC rascunhado em três minutos é ótimo. E continua valendo zero enquanto o dono do processo não olhar a primeira e a última caixa dele.

A fase Definir nunca foi lenta por causa da digitação

Toda vez que eu acompanhei uma fase Definir de verdade, a conta deu parecida. Uma parte pequena do calendário é escrever documento. O resto é alinhamento: marcar a reunião com quem decide, descobrir que o dono do processo pensa outra coisa, refazer o recorte, voltar. Um projeto que leva cinco semanas para sair da definição não passou cinco semanas redigindo.

Duas barras horizontais comparando o calendário de uma fase Definir: uma faixa curta de redação de documento e uma faixa longa de alinhamento entre áreas.
A máquina encurta a faixa curta. A faixa longa é de gente, e continua do mesmo tamanho.

É por isso que a promessa de definição em um dia quase nunca se cumpre. A IA ataca a barra menor. Ela devolve documento bonito na sexta-feira e o projeto continua parado na terça seguinte. Está esperando o gerente da operação concordar com o número que está lá dentro.

Isso não torna o rascunho inútil, muito pelo contrário. Chegar na reunião com uma versão escrita muda a conversa de “o que a gente faz” para “onde este texto está errado”. E a segunda pergunta rende muito mais. Só não confunda ter o documento com ter o acordo.

Vale separar as duas coisas quando alguém disser que fez a fase Definir em um dia. Provavelmente fez o documento em um dia. A definição só passa a existir depois de uma cena específica. O gerente da operação, o dono do processo e quem paga a conta olham o mesmo texto e concordam com ele. O documento é insumo dessa conversa, e não substituto dela.

E o caminho sem rascunho nenhum também falha. A condição de fracasso dele é a folha em branco na primeira reunião. Cada área descreve o problema com a palavra dela. O grupo gasta três encontros negociando vocabulário antes de fechar um escopo. Aí o projeto não morre de documento pronto demais. Morre de nunca sair da conversa. A comparação honesta é essa: um texto que chega pronto e ninguém discute, contra um texto que nunca chega e todo mundo discute.

O contrato de projeto, campo por campo

No capítulo 18, “Método DMAIC e DMAIC Ágil”, na página 145, eu descrevo a fase Definir em oito atividades, e todas elas terminam sumarizadas em um documento só. A figura 18.3, na página seguinte, resume a fase em sete caixas, que não são as mesmas oito: ela junta parte da lista, acrescenta a checagem de prioridade e apoio, e deixa OKRs e KPIs de fora. É o desenho que eu uso aqui, porque é ele que mostra onde a caneta troca de mão. O contrato de projeto formaliza o projeto de melhoria e carrega equipe, escopo, cronograma e indicadores. É o termo de abertura com outro nome, e é o entregável que fecha a etapa.

  • Definição do tema do projeto.
  • Definição do escopo, incluindo a equipe envolvida.
  • Determinação dos OKRs e dos KPIs do projeto.
  • Definição da meta global, por análise dos dados e observação da situação presente e do passado histórico.
  • Elaboração do cronograma.
  • Determinação do baseline e das premissas do projeto.
  • Definição da equipe e dos stakeholders.
  • Sumarização de tudo no contrato de projeto.

Passe a lista pelo filtro do rascunho e sete das oito aceitam uma primeira versão de máquina sem susto. Tema, escopo, indicadores, cronograma, papéis, premissas, formatação: é tudo texto derivado de coisa que já existe em algum sistema. A quarta linha é de outra natureza.

A quarta linha diz meta global. Ela pede que o número saia da leitura dos dados e da observação do que o processo faz hoje e do que ele fez no passado. É a única da lista em que o erro não aparece na revisão. Escopo errado alguém percebe na primeira semana de medição. Meta errada só aparece no fim, quando o time descobre que passou seis meses atrás de um número que ninguém ia bancar.

A meta é o único campo que não pode nascer na máquina

Peça uma meta para um modelo e ele te dá uma. Ele olha a série, vê a média, vê a dispersão e propõe algo como reduzir em 30% em seis meses. O número é plausível, e é justamente por isso que ele é perigoso. Plausível não é pactuado.

Meta em projeto de melhoria é duas coisas ao mesmo tempo. É uma previsão técnica sobre o que o processo aguenta, e é uma promessa organizacional sobre o que alguém vai entregar. A IA faz a primeira metade muito bem e não tem como fazer a segunda, porque ela não responde por resultado nenhum.

Fui coordenador de operações da MRS Logística em Lafaiete por dois anos. Chefiava os inspetores, que chefiam os maquinistas. A meta descia do presidente até a minha mesa, degrau por degrau. O último degrau era eu dizer se aguentava. O que fazia aquilo funcionar não era a planilha do desdobramento. Era que em cada degrau uma pessoa olhava o número, dizia se aguentava e negociava quando não aguentava. Tirar essa conversa do meio é ficar com a planilha e perder o mecanismo que dava valor a ela.

Na prática: deixe o rascunho propor a faixa e trate a proposta como pergunta. O modelo sugere 30%, você assina 30%? Se a resposta for não, o desconto que a pessoa pedir é a informação mais valiosa da fase Definir inteira. Ele revela a restrição que não estava escrita em lugar nenhum. Depois amarre a meta a indicadores de projeto que já tenham dono.

O que pedir de uma transcrição de call center

A entrada mais comum da fase Definir hoje é um monte de texto solto. Transcrição de ligação, chamado de suporte, resposta aberta de pesquisa. É voz do cliente em estado bruto, e é onde a máquina economiza mais tempo por hora de trabalho. O erro aqui não é usar. É pedir errado.

  1. Agrupe por sintoma descrito pelo cliente, e não por causa provável. Causa é trabalho da fase Analisar, e o modelo adora adiantar.
  2. Devolva a contagem de cada grupo e o percentual sobre o total lido, com o total explícito na resposta.
  3. Cite três trechos literais por grupo, com o identificador do atendimento, para eu poder conferir na origem.
  4. Separe o que foi dito pelo cliente do que foi escrito pelo atendente no resumo do chamado.
  5. Liste em uma categoria de sobra tudo que não coube em grupo nenhum, com a contagem dela.
  6. Diga a data mais antiga e a mais recente do material que você leu.

Os dois últimos itens são os que ninguém pede e os que mais salvam. A categoria de sobra revela quando o agrupamento foi forçado: se 40% do material caiu em outros, o corte não serve. E a janela de datas evita a armadilha clássica de rodar tudo em cima do mês da promoção, do recall ou da greve.

Com esses seis itens na mão, o que você tem não é uma conclusão. É um Pareto preliminar de sintoma, que serve para escolher onde ir olhar. É bem mais do que a gente tinha antes, e é bem menos do que a apresentação costuma dizer que é.

Quatro conferências antes de acreditar no agrupamento

Rascunho vem com aparência de resultado, e a fase Definir é onde essa aparência custa mais caro. Tudo que vem depois se apoia nela. Que o modelo erre resumindo material que ele mesmo recebeu não é impressão minha. O leaderboard público da Vectara mede exatamente isso, resumo de documento fornecido. Na atualização de maio de 2026, as taxas dos modelos avaliados vão de 1,8% a 24,2%. Numa operação de 40 mil chamados, a menor delas ainda é frase inventada suficiente para mexer no topo da lista. Quatro conferências rápidas resolvem a maior parte do risco, e nenhuma delas leva mais de vinte minutos.

  1. Abra três casos de cada grupo grande e leia o texto original inteiro. Se dois dos três não pertencem ao grupo, o agrupamento caiu.
  2. Some as contagens dos grupos e compare com o total declarado. Sobra e falta são pistas de que o modelo perdeu material no caminho.
  3. Cruze o grupo maior com o volume do sistema. Reclamação de cobrança pode liderar o texto e representar 2% dos atendimentos do mês.
  4. Pergunte a alguém da operação o que essa pessoa esperava ver no topo. Se a lista bater perfeitamente com a intuição dela, desconfie do prompt; se destoar muito, vá conferir antes de comemorar.

A quarta é a menos técnica e a que mais gente pula. Ela não existe para validar o modelo pela opinião de ninguém. Ela existe porque quem atende o telefone todo dia sabe qual assunto sumiu da lista. E assunto que sumiu é o sinal mais barato de filtro mal feito.

Quando o agrupamento cai em uma dessas conferências, o caminho não é jogar a máquina fora. É estreitar o pedido: menos grupos, período mais curto, um canal de cada vez. A fase Definir aguenta duas ou três rodadas de agrupamento sem atrasar nada, porque cada rodada leva minutos. O que ela não aguenta é seguir para a medição em cima de um recorte que ninguém conferiu.

O escopo estoura quando o rascunho chega pronto demais

Escopo de projeto sempre teve tendência a crescer. O que mudou com o rascunho automático é a velocidade e o motivo. Antes o escopo inchava porque cada área queria o problema dela dentro. Agora ele incha porque o texto já está lá, escrito, e tirar coisa de um documento pronto parece mais trabalhoso do que deixar.

A cena se repete. Alguém pede uma proposta de projeto para reduzir atraso de entrega. O modelo devolve um escopo que cobre roteirização, carregamento, conferência de nota, comunicação com o cliente e devolução. Está tudo relacionado, e é verdade que está. Na reunião ninguém corta, porque cada corte exige um argumento e o documento não exige nenhum.

Projeto DMAIC de escopo largo não é projeto grande. É projeto que não fecha. Medir cinco processos ao mesmo tempo consome, nos projetos que eu acompanhei, o semestre inteiro. A análise chega sem folga para investigar causa nenhuma. Escopo é onde o método ganha ou perde, e o rascunho empurra sempre para o lado errado.

A contramedida é boba e funciona. Antes de ler o rascunho, escreva à mão uma frase de escopo e uma de fora de escopo. Depois compare. Se o documento gerado cobre três vezes mais do que a sua frase, o trabalho da reunião é cortar até voltar para ela, e não discutir se o texto ficou bonito.

Três sinais de que o escopo cresceu enquanto ninguém olhava

Dá para pegar o inchaço cedo. Três sinais aparecem no próprio documento, antes de a medição começar.

  • A equipe passou de sete pessoas. Sete é régua minha, e não do livro: daí para cima o que eu encontro é escopo largo, e não problema difícil.
  • O contrato tem mais de dois indicadores principais. Também é régua minha: dois já vira negociação, e três costuma ser sinal de que juntaram projetos diferentes no mesmo papel.
  • A lista de stakeholders tem área que ninguém consegue explicar por que está ali. Nome entra fácil na lista gerada e sai difícil da reunião.

Nenhum dos três prova nada sozinho. Os três juntos, em um documento que saiu pronto de uma vez, são um bom motivo para voltar à primeira caixa do fluxograma e reescrever a frase do problema antes de seguir.

Baseline e premissas, onde o erro sai mais caro

Entre as oito atividades tem uma que soa burocrática e não é: determinar o baseline e as premissas. Baseline é o número de onde você parte. Premissa é tudo que você está supondo verdadeiro para poder prometer o resultado.

Baseline é o campo em que a IA mais ajuda e mais engana. Ela puxa a série, calcula a média dos últimos doze meses e escreve. O que ela não sabe é que em março trocaram o sistema de apontamento. Não sabe que em julho a linha rodou com meia equipe, e que o dado de agosto veio de planilha e não da base do sistema corporativo. A média fica linda e a base não existe.

Conferir baseline é uma pergunta só, e ela é feita para gente: o que mudou no período que a série não mostra? Faça a pergunta para o dono do processo e para quem lança o dado, que costumam responder coisas diferentes. Cinco minutos ali evitam prometer 30% em cima de uma base que já era 15% melhor por mudança de medição.

Premissa é o oposto: é o campo que a máquina não preenche, porque ela não sabe do que você depende. Verba aprovada, gente disponível, fornecedor que aceita mudar embalagem, sistema que vai ser liberado a tempo. Escreva cada premissa com nome e com prazo. Premissa sem dono vira desculpa guardada para o fim do projeto.

Baseline e premissa são os dois campos que eu mais encontro em branco quando abro o contrato de um projeto que não fechou. Nenhum dos dois é difícil de preencher. E é por isso mesmo que eles passam batido na fase Definir: são rápidos demais para chamar atenção na reunião. Reserve meia hora só para os dois, com o dono do processo do lado, antes de mandar o contrato para assinatura.

As cinco perguntas de orientação, e quantas são sobre gente

O capítulo do DMAIC traz cinco perguntas para orientar a fase Definir. Vale ler prestando atenção no sujeito de cada uma delas.

  1. Qual é o problema ou a oportunidade que estamos tentando resolver?
  2. Quem são os clientes e quais são suas necessidades e expectativas?
  3. Quais são os objetivos do projeto?
  4. Quem fará parte da equipe e quais serão seus papéis e suas responsabilidades?
  5. Qual é o impacto esperado do projeto?

Duas das cinco começam com quem. Elas não pedem informação que esteja em base nenhuma, pedem decisão sobre pessoas. Quem a gente vai considerar cliente neste projeto, e quem vai ter o nome no papel. As outras três aceitam rascunho tranquilamente. Essas duas não aceitam.

A segunda é mais dura do que parece. Cliente do projeto não é sempre quem compra. Em um projeto de refugo, o cliente pode ser a montagem que recebe a peça. Escolher isso errado desloca a definição inteira, porque a necessidade que você vai atender muda junto.

A quinta merece uma linha à parte. Impacto esperado não é a mesma coisa que meta, e confundir os dois é comum. A meta é o que o indicador vai marcar. O impacto é o que a empresa ganha com aquilo em dinheiro, em risco ou em tempo de gente. O rascunho costuma escrever bem o segundo e errar a ligação entre os dois. Ele não conhece a estrutura de custo da casa. Confira essa ligação ainda dentro da fase Definir.

O critério de parada da definição

A pergunta que mais me fazem sobre esta etapa é como saber que ela acabou. Com rascunho automático a pergunta piorou, porque o documento fica pronto muito antes de o projeto estar definido. E documento pronto dá uma sensação de fim que engana.

Três caixas em linha com candidatos a critério de parada, campos preenchidos, texto aprovado e nomes próprios, e uma faixa marcando que só o terceiro encerra a fase Definir.
Campo preenchido não encerra a etapa. Compromisso com endereço encerra.

O critério que eu uso tem três perguntas, e as três precisam de resposta em nome próprio. Existe uma pessoa que assina a meta? Existe uma pessoa que delimita por onde o processo entra e sai deste projeto? Existe uma pessoa que libera o time para trabalhar nisso? Enquanto uma das três for a diretoria ou a área, a fase Definir não acabou.

Demorei a ter essa régua. Meu primeiro projeto Seis Sigma foi como White Belt na Votorantim Metais, e eu não tinha critério nenhum para dizer que a definição tinha acabado. Considerei pronto quando o documento ficou pronto, que é exatamente o erro que este artigo descreve. As três perguntas vieram muito depois.

Note o que não está na lista. Não está a qualidade do texto, não está a quantidade de campo preenchido, não está o gráfico bonito. Tudo isso o rascunho entrega em minutos, e nada disso encerra coisa nenhuma. O que encerra a fase Definir é compromisso com endereço.

Três definições típicas, e o corte que eu faria em cada uma

Vale sair do genérico. Três situações que aparecem toda semana, e onde eu colocaria a máquina na fase Definir de cada uma.

Operadora com 40 mil chamados por mês e nenhuma ideia de por onde começar. Aqui a máquina vale muito: agrupamento dos chamados, contagem, trechos citados, categoria de sobra. Eu usaria o resultado para chegar a três candidatos. A escolha final eu faria com uma matriz de esforço e impacto preenchida com o gerente da operação na sala, e não com o modelo.

Fábrica com refugo alto em uma linha só, problema conhecido há dois anos. Eu vi essa configuração na Votorantim Metais, na unidade de zinco. Aqui o rascunho ajuda pouco a definir o problema, porque o problema já está definido. E ajuda muito na redação do contrato e do cronograma. O risco não é escolher errado, é escopo largo: alguém vai querer incluir as outras três linhas porque o texto sugere. Segure em uma, e use a matriz GUT se aparecer disputa entre linhas.

Transportadora com atraso de entrega e cinco áreas apontando uma para a outra. É a paisagem da MRS Logística, de onde eu vim. Este é o caso em que eu quase não usaria máquina nesta etapa. O trabalho aqui é de sala: brainstorming com as cinco áreas, fronteira negociada na hora, e um projeto DMAIC começando pelo trecho que uma área sozinha consegue mudar. Rascunho pronto nessa reunião azeda a conversa, porque cada área vai ler o texto procurando de quem foi a culpa.

O que o livro pede aqui, e o que ele não pede

Eu cito Thomas Pyzdek, autor norte-americano e consultor de gestão, conhecido como defensor da excelência operacional, na página 145. Ele destaca que na etapa de Definição “é preciso determinar quais oportunidades vão fornecer a maior recompensa pelos esforços em um projeto”. Recompensa pelo esforço é uma conta de escolha, e escolha pressupõe alguém escolhendo.

O capítulo 18 abre, na página 143, com uma frase de Joseph M. Juran: “Quem não mede, não gerencia. Quem não gerencia, não melhora.” É uma frase sobre medição, e ela funciona como aviso na etapa anterior à medição. Você só vai conseguir medir aquilo que definiu com precisão suficiente para virar número.

O que o livro não pede em nenhuma das oito atividades é ferramenta específica. Ele não diz com o que escrever o contrato, nem com o que agrupar a voz do cliente. A descrição do DMAIC da ASQ faz o mesmo: define a etapa pelo problema, pela oportunidade, pela meta e pelos requisitos do cliente, sem nomear ferramenta nenhuma. Isso é boa notícia. A fase Definir aceita rascunho de máquina sem mudar uma linha do método, do mesmo jeito que aceitou planilha e bloco de post-it antes.

A diferença em relação a outros métodos aparece bem aqui. No MASP a primeira etapa também é identificação do problema, e o mesmo corte se aplica. O que o DMAIC tem de particular é o contrato assinado como entregável formal. E é exatamente esse campo que nenhuma ferramenta preenche no seu lugar.

A máquina deu um gás na redação e não moveu um milímetro do acordo. A consequência prática é direta: não existe versão do método que dispense a fase Definir porque a ferramenta ficou boa. O que existe é uma fase Definir que gasta bem menos tempo em redação e exatamente o mesmo tempo em acordo. Quem promete pular a etapa não está falando do método, está falando do documento.

A tabela de decisão de IA na fase Definir

Juntei o corte deste artigo em uma página. Cada linha é uma tarefa da fase Definir, com o que decide se você pode aceitar a saída sem ler tudo de novo.

Tabela de decisão de IA na fase Definir, com as tarefas nas linhas e as colunas de natureza, conferência e assinatura.As tarefas aparecem na ordem em que acontecem, do agrupamento da voz do cliente até a assinatura do contrato. Ao lado de cada uma vem a natureza dela, a conferência mínima que a saída exige e o nome de quem responde pelo resultado.

Baixe a tabela de decisão da fase Definir em PDF

Ela cabe em uma folha e serve para levar impressa na reunião de abertura. Quando alguém disser que a definição está pronta, passe o dedo na última coluna e veja quantas linhas ainda estão sem nome.

Como fazer a próxima definição sem virar refém do rascunho

Ordem prática, para o próximo projeto que cair na sua mesa.

  1. Escreva à mão, antes de qualquer prompt, uma frase de problema e uma de fora de escopo. Guarde as duas.
  2. Peça o agrupamento da voz do cliente com os seis itens da lista deste artigo, inclusive a sobra e a janela de datas.
  3. Faça as quatro conferências. Se o agrupamento cair, refaça o pedido antes de seguir para o contrato.
  4. Deixe o rascunho preencher tema, escopo, cronograma, papéis e indicadores, e use um 5W2H para virar isso em plano de ação.
  5. Leve a meta proposta como pergunta para quem responde pelo resultado, e escreva a resposta dessa pessoa, não a do modelo.
  6. Rode o critério de parada. Três nomes próprios, ou a etapa continua aberta.

Isso dá umas duas horas de trabalho seu e economiza semanas, que é a mesma conta que o DMAIC em ciclos curtos faz. A parte que a máquina fez continua sendo a maior em volume de texto, e continua sendo a menor em risco. Se a preguiça for de montar formulário, o kit de ferramentas Lean Seis Sigma tem os modelos da fase Definir prontos para preencher. Você gasta o tempo na decisão, não na formatação.

O que dizer quando pedirem um charter gerado por IA

O pedido chega assim: gera aí o termo de abertura com inteligência artificial. Não é um pedido ruim, e não vale brigar com ele. Vale responder com o corte.

A frase que funciona na reunião: eu gero o documento hoje. E a gente marca vinte minutos para você olhar dois campos, a meta e o escopo. O resto eu assumo. Ninguém recusa vinte minutos, e são esses vinte minutos que carregam a fase Definir inteira.

E se a resposta for que não tem vinte minutos, você acabou de aprender a coisa mais útil desta etapa. O projeto não tem patrocinador. Melhor descobrir isso agora do que na revisão do terceiro mês, com o time todo alocado e a meta pendurada em ninguém.

A IA barateou o trabalho de descrever o projeto, e o método nunca cobrou caro por descrever. Ele cobra por combinar. Enquanto a fase Definir terminar com uma assinatura, e ela termina, o corte continua no mesmo lugar. É onde a figura do livro o colocou em 2024. Se a conversa evoluir para melhoria no dia a dia, o mesmo raciocínio vale para DMAIC e Kaizen. E quando a dúvida não for qual ferramenta usar, mas em que ordem o método pede, olhe as academias de certificação. Elas resolvem isso mais rápido do que tentativa e erro em projeto real.

Perguntas frequentes

A IA pode escrever o termo de abertura do projeto?
Pode, e normalmente sai um rascunho bom. Das oito atividades da fase Definir, só a meta global não admite texto gerado, porque ela é promessa de resultado e depende de quem responde por esse resultado. As outras sete derivam de informação que já existe em algum sistema. Gere, revise meta e escopo com quem decide, e leve para assinar.
Como usar IA para analisar a voz do cliente na fase Definir?
Peça agrupamento por sintoma e não por causa, contagem e percentual com o total explícito, três trechos literais por grupo com identificador. Peça separação entre fala do cliente e resumo do atendente, categoria de sobra com contagem, e a janela de datas do material. Depois confira três casos de cada grupo grande na origem.
Qual é o maior risco de usar IA na fase Definir?
Escopo. O rascunho chega abrangente e pronto, e tirar item de documento pronto dá mais trabalho do que deixar. Projeto de escopo largo não fecha: a medição consome o semestre e a análise chega sem folga. Escreva sua frase de escopo antes de ler o rascunho, e corte até voltar para ela.
Como saber que a fase Definir terminou?
Quando as três perguntas de fechamento tiverem resposta com nome e sobrenome: quem banca o número, quem desenha a fronteira do processo neste projeto, e quem solta as pessoas para trabalhar nele. Resposta em nome de área ou de diretoria não vale. Formulário completo e texto aprovado não encerram etapa nenhuma.
A IA pode definir a meta do projeto?
Propor, sim, e vale pedir: ela lê o histórico e devolve uma faixa plausível. Assumir é que ela não assume, porque não responde por resultado nenhum. Leve a faixa como pergunta a quem tem o indicador no pescoço. Se essa pessoa pedir abatimento, o motivo do abatimento costuma ser um limite que ninguém tinha colocado no papel.
O que conferir no baseline gerado por IA?
Uma pergunta cobre quase tudo: o que aconteceu naquele período que os dados não registram? Sistema de apontamento novo, mês de férias coletivas, número digitado à mão em vez de extraído. Faça a pergunta separada para quem opera e para quem alimenta o sistema. As duas respostas raramente coincidem, e a diferença entre elas é a parte que interessa.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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