IA na fase Medir do DMAIC: o que a máquina calcula e o que você audita
O gráfico ficou grátis e a medição continuou cara. Onde a IA na fase Medir ajuda de verdade, onde ela cria risco novo, e por que a precisão do dado é a única das cinco perguntas que ela não responde.
A pergunta que envelheceu mais rápido no meu livro está na página 213, e não é a que eu teria apostado. Ela é uma das cinco que abrem a fase Medir, e juntas elas decidem o rumo do projeto. O que precisamos coletar, como mapear o processo atual, quais são as fontes de variação, como garantir a precisão dos dados e qual é a linha de base. Hoje eu consigo resposta aproveitável de uma máquina em quatro dessas cinco. A exceção é a quarta, a da precisão dos dados, que continua igual ao que era em 2010, e é ela que separa o que a IA na fase Medir resolve do que ela não toca.
Acertar essa conta é o assunto deste texto. A fase Medir ficou muito mais barata na parte de tabular, cruzar, estratificar e desenhar. Ela não ficou nem um pouco mais barata na parte de provar que o número medido corresponde ao que acontece no processo. E como as duas partes saem no mesmo arquivo, com a mesma aparência de resultado, o risco da fase Medir mudou de lugar. Antes você não tinha gráfico. Agora você tem gráfico demais e a mesma dúvida de origem.
Este texto não cobre o DMAIC inteiro. Ele para numa etapa só, a que dá ao projeto o dado, a linha de base e a capabilidade. Vou percorrer a fase Medir tarefa por tarefa, dizendo em cada uma o que a máquina entrega e o que eu confiro antes de aceitar. E vou parar com calma nos quatro pontos em que um resultado bonito esconde uma medição que não presta: a procedência do dado, o sistema de medição, o subgrupo racional e a diferença entre Cp e Pp.
As cinco perguntas da fase Medir, e a que a IA não responde
A fase Medir do DMAIC responde cinco perguntas, e a Parte V do Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt lista as tarefas de cada uma. Quatro delas aceitam apoio de IA com risco baixo. A quarta, a que garante a precisão dos dados, continua sendo trabalho de chão.
Precisão de dado é procedimento, executado com peça, instrumento e gente. Vale ler as cinco na ordem em que elas acontecem.
- Quais são as métricas e dados relevantes que precisamos coletar? Identifique as métricas críticas para a qualidade e determine quais dados medem o desempenho atual.
- Como será realizado o mapeamento do processo atual? Use mapa de processo, fluxograma ou mapeamento do fluxo de valor para documentar o fluxo de trabalho.
- Quais são as fontes de variação no processo atual? Materiais, métodos, máquinas e mão de obra.
- Como garantimos a precisão e a confiabilidade dos dados coletados? Implemente um plano de coleta robusto, com verificação de qualidade e análise de repetibilidade e reprodutibilidade.
- Quais são as metas de desempenho atuais e históricas? Estabeleça uma linha de base e compare com o histórico para identificar tendências.
Colocando a coluna da máquina ao lado de cada pergunta, o corte aparece sozinho. Na primeira, ela sugere métricas a partir do que existe no sistema. Você decide qual delas o cliente sente. Na segunda, ela transcreve entrevista e monta o desenho do fluxo. Você confirma no chão se o desenho é o processo. Na terceira, ela cruza variáveis e aponta correlação. Você separa causa candidata de coincidência de calendário. Na quinta, ela calcula a linha de base em segundos, sobre a base que você entregou.
Sobra a quarta. Garantir precisão e confiabilidade é procedimento. Alguém mede o mesmo item duas vezes, duas pessoas medem o mesmo item, e você compara os resultados. Não existe versão dessa tarefa que aconteça dentro de um arquivo.
Onde vão as seis semanas de uma fase Medir
Faça a conta do calendário da última medição que você acompanhou. Construir o histograma ou a carta de controle levou uma tarde. O resto foi conseguir o dado. Descobrir quem é o dono da tabela. Entender por que a coluna de data tem três formatos. Achar o mês em que o sistema mudou e ninguém avisou. E voltar ao chão para conferir se o que está registrado é o que aconteceu.
Quem promete cortar semanas da fase Medir com IA está falando da fatia pequena. Um projeto que leva seis semanas para sair da medição não passou seis semanas fazendo gráfico.
Isso não diminui o ganho, que é real e é grande. Estratificar uma base por turno, por linha e por operador deixou de ser uma tarefa que se pensa duas vezes antes de pedir. Isso muda o comportamento de quem analisa, porque você começa a testar cortes que antes não valiam o esforço. O ganho é grande e mesmo assim não encosta no gargalo. Onde ele cai, então?
Tarefa por tarefa: o que a máquina faz e o que continua com gente
Esta é a tabela que eu usaria numa reunião de abertura da fase Medir para combinar o que vai ser delegado.
| Tarefa da fase Medir | O que a máquina entrega | O que continua com gente |
|---|---|---|
| Escolher as métricas | Lista o que já é medido no sistema e propõe indicadores derivados, com a fórmula de cada um | Se a métrica descreve o que o cliente sente, ou só o que é fácil de extrair |
| Montar o plano de coleta | Escreve o plano completo: variável, unidade, frequência, responsável, tamanho de amostra e formulário | Quem vai preencher, em que momento do turno, e se isso cabe na rotina dessa pessoa |
| Mapear o processo atual | Transcreve a entrevista e devolve o fluxo desenhado, com atividades, esperas e decisões | Andar o processo e conferir se o desenho é o que acontece quando ninguém está olhando |
| Limpar e padronizar a base | Unifica rótulo, detecta duplicata, marca faltante, converte unidade e fuso, e mostra o que mudou | Decidir o que significa o campo vazio em cada coluna, que é regra de negócio e não de dados |
| Estratificar | Propõe e testa dezenas de cortes por turno, linha, lote, operador e período | Quais cortes fazem sentido físico neste processo, e qual deles vira hipótese do projeto |
| Desenhar | Escreve o código do Pareto, do histograma e do boxplot a partir da descrição em português | Ler o gráfico contra o que você sabe do chão, e desconfiar quando ele fica bonito demais |
| Calcular a linha de base | Média, mediana, desvio padrão, nível sigma e capabilidade, com o passo a passo da conta | Se a base usada representa o período certo e o processo certo |
| Analisar o sistema de medição | Explica o método, monta a planilha do estudo e roda a estatística depois que você trouxer os dados | Executar o estudo: as peças, os avaliadores, as repetições, o instrumento |
Sete linhas da fase Medir ganharam ajuda substancial. A oitava ganhou metade: o método, a planilha e a estatística. A metade que decide se existe estudo, que é peça, avaliador e instrumento, continua sem versão digital.
O que pedir de uma base bruta, e nesta ordem
A tentação, quando a base chega, é pedir o gráfico. O pedido que economiza retrabalho é outro, e ele vem antes.
- Descreva o esquema da tabela: cada coluna, o tipo dela, a unidade e o intervalo de valores observado. Não interprete ainda.
- Diga a data mais antiga e a mais recente. Depois liste os períodos sem nenhum registro, com a duração de cada buraco.
- Conte os valores faltantes por coluna, em número e em percentual. Mostre cinco linhas de exemplo de cada tipo de falta.
- Liste as duplicatas exatas e as parciais, separadas. Diga qual conjunto de colunas você usou como chave.
- Mostre os valores distintos de cada coluna categórica, com a contagem, para eu ver rótulo escrito de duas formas.
- Liste os extremos: os dez maiores e os dez menores de cada coluna numérica, com a linha inteira, sem remover nada.
- Diga qual coluna tem fuso horário e qual não tem, e o que você assumiu quando converteu.
Repare que nenhum desses sete itens é análise. São perguntas de inventário, e a máquina responde todas em um minuto com precisão alta. Elas são perguntas sobre a tabela, não sobre o processo. Foi exatamente aqui que a fase Medir barateou.
O sétimo item pega um defeito silencioso e caro. Base de operação que atravessa a meia-noite com fuso implícito joga registro para o dia seguinte. O corte por turno sai errado sem nenhum aviso.
O que conferir na limpeza, e por que o vazio é o pior campo
A saída de uma limpeza feita por máquina é convincente por construção, porque ela vem organizada. Estas quatro conferências custam vinte minutos e pegam quase tudo.
- Confira a contagem de linhas antes e depois. Se caiu, exija a lista do que saiu, linha por linha, com o motivo de cada remoção.
- Confira o total das colunas de soma antes e depois. Faturamento, quantidade produzida e horas paradas precisam bater com o relatório oficial da área.
- Pegue cinco linhas ao acaso da base limpa e ache as cinco na base original. Compare campo a campo, com o olho.
- Pergunte o que foi feito com o campo vazio. Se a resposta for preenchimento por média ou por valor anterior, desfaça. Em base de processo, vazio quase sempre significa alguma coisa.
A quarta é a que mais dói quando passa. Vazio em coluna de tempo de parada costuma significar que não houve parada, e virar zero está certo. O mesmo vazio também pode significar que o operador não apontou. Aí zero está errado e faz o indicador melhorar sozinho. As duas leituras cabem no mesmo arquivo. Antes de aceitar qualquer zero, leve a coluna para quem executa a rotina e pergunte qual das duas vale.
Análise do sistema de medição: o bloco sem versão gerada
Reservei um capítulo inteiro do livro para a análise do sistema de medição. É o capítulo 23, “Análise do Sistema de Medição”, a partir da página 231. Ela é a etapa da fase Medir que o projeto pula quando está com pressa, e cobra caro depois. A epígrafe que eu escolhi para abrir esse capítulo é do Douglas Montgomery: “Um sistema de medição confiável é a base para qualquer iniciativa de melhoria contínua. Sem ele, os esforços de qualidade são como construir uma casa sobre areia movediça.”
O capítulo lista seis famílias de fatores que influenciam a medição. Vale ler a lista devagar, pensando em qual delas cabe dentro de um arquivo.
- Equipamento: instrumento de medição, fixação e calibração.
- Processo: método de teste e especificação.
- Amostras: materiais, plano de amostragem e preparação da amostra.
- Equipe: operadores, treinamento, habilidade, cuidado e educação.
- Ambiente: temperatura, umidade, pré-condicionamento e condicionamento.
- Gerenciamento: programas de treinamento, suporte a pessoas, suporte ao sistema de gestão da qualidade e sistema de metrologia.
Nenhuma das seis está na tabela que você mandou para a máquina. Todas as seis estão no chão. É por isso que a MSA é a fronteira mais nítida da fase Medir. O modelo explica o método com clareza, monta a planilha do estudo, roda a estatística e interpreta o resultado. E não consegue produzir um único dos dados que entram nela.
O handbook de metrologia do NIST é a referência aberta para o procedimento, e a rastreabilidade metrológica no Brasil é assunto do Inmetro. Usar essas fontes junto com o modelo funciona bem. Você pede que a saída seja conferida contra o handbook, item por item. Rodar o estudo na mão, com peça, avaliador e repetição, é conteúdo de formação, e é o que as academias de certificação treinam com caso real em vez de slide.
Os números que decidem se o seu sistema de medição presta
Aqui não há espaço para achismo, e é por isso que esta parte da fase Medir resiste bem à delegação. Os critérios são numéricos e públicos. Para dado contínuo, o estudo de repetibilidade e reprodutibilidade tem três faixas.
| Resultado do GR&R | Leitura | O que fazer |
|---|---|---|
| Até 10% | Sistema de medição aceitável | Seguir para a linha de base |
| Entre 10% e 30% | Sistema de medição marginal | Ação corretiva antes de usar o dado em decisão cara |
| 30% ou mais | Sistema de medição inaceitável | Parar. O dado não descreve o processo |
Para dado discreto, que é o caso da inspeção do tipo passa e não passa, os critérios são outros. A tabela 23.3 do livro traz três linhas. Concordância individual de 90% ou mais é aceitável, de 80% a 90% é marginal, e abaixo de 80% é inaceitável. Alarme falso, que é rejeitar item bom, até 5% é aceitável e acima de 10% é inaceitável. Classificação errada, que é aceitar item ruim, até 2% é aceitável e acima de 5% é inaceitável.
Repare na assimetria dos dois últimos. O método é mais duro com aceitar item ruim do que com rejeitar item bom, e isso é decisão de risco, não de estatística. A amostra do estudo, para dado discreto, deve ter em torno de metade de itens perfeitos e metade de defeituosos. Senão o avaliador acerta por frequência.
Peça ao modelo que calcule as três taxas e classifique nas faixas. Ele faz isso bem e sem preguiça. Só não peça a ele os dados, porque eles vêm das repetições que você organizou.
MSA quando não existe peça para remedir
A objeção que eu mais ouço em serviços e em processos administrativos é que ali não há instrumento nem peça, então a MSA não se aplica na fase Medir. Ela se aplica. A tabela 23.3 é justamente a dessa situação: quando a medição é uma classificação humana, o sistema de medição são as pessoas e o critério.
O caso realmente difícil é outro. O dado já existe em sistema, foi registrado meses atrás e não há como repetir a medição. Aqui a MSA clássica não roda, e o que substitui ela é reconstrução de procedência. São quatro perguntas, e nenhuma delas é estatística.
- Quem ou o que gerou este registro: uma pessoa digitando, um sensor, uma integração entre sistemas, ou um cálculo em cima de outro campo?
- Em que momento do processo o registro é criado, e o que acontece com ele depois? Alguém corrige, aprova, reabre?
- Qual é o critério escrito que separa uma categoria da outra, e onde ele está escrito? Se não está escrito, cada pessoa usa o seu.
- O que muda o registro sem que o processo mude? Campanha interna, meta atrelada ao indicador, mudança de tela do sistema, troca de equipe.
A quarta é a que devolve mais surpresa. Indicador de qualidade com meta atrelada muda de comportamento quando a meta aperta, e o que muda é o registro, não o processo. Isso não aparece em nenhuma estatística da base, porque a base é justamente o registro.
Um modelo ajuda muito nessa reconstrução, desde que você dê a ele o material certo. A documentação do sistema, o manual do procedimento e as telas. Ele lê tudo isso rápido e monta o mapa de procedência. O que ele não pode é responder as quatro perguntas sozinho, olhando para a coluna de números.
O subgrupo racional, que não está na tabela
Este é o erro técnico mais comum que eu vejo em saída gerada na fase Medir, e ele é elegante demais para levantar suspeita. Você entrega uma coluna de valores com data e pede uma carta de controle. O modelo devolve uma carta correta, bem formatada, com limites calculados e a explicação da regra. E ela pode estar errada. A escolha do tipo de carta depende do subgrupo racional, e o subgrupo racional é uma decisão sobre o processo, não uma propriedade da coluna.
Subgrupo racional é o agrupamento em que você espera que só atue causa comum. Cinco peças seguidas da mesma máquina no mesmo setup são um subgrupo. Cinco peças de cinco máquinas diferentes não são, mesmo que estejam em cinco linhas seguidas da planilha. E a planilha é idêntica nos dois casos.
Quando o modelo não sabe disso, ele decide pelo formato do dado. Valor individual vira uma carta de valores individuais, e valores agrupados viram carta de médias. Nos dois casos ele acerta a conta e pode errar o objeto. O controle estatístico de processo inteiro apoia nessa escolha, e a construção da carta é a parte fácil dela.
A frase que resolve, e que eu recomendo colar no prompt, é curta. Antes de escolher a carta, pergunte qual é o subgrupo racional deste processo e por quê. Se eu não souber responder, não escolha. Bons modelos param e perguntam. Sem essa instrução, o modelo decide pelo formato da planilha, que é idêntico nos dois casos.
Cp ou Pp: a mesma planilha, dois denominadores
A capabilidade do processo ocupa o capítulo 25 do livro, “Capabilidade e Performance de Processos”, a partir da página 277, e tem uma armadilha que a IA reproduz com fidelidade impressionante. Os índices Cp e Cpk e os índices Pp e Ppk usam a mesma fórmula. A diferença está no desvio padrão do denominador. O Cp usa a dispersão média dentro do subgrupo, e o Pp usa o desvio padrão global de todas as amostras.
O que isso significa na prática é grande. A capabilidade informa como o processo poderá agir no futuro. A performance informa como ele agiu no passado, ou está agindo agora. E a regra de escolha é sobre estabilidade. O Pp é o índice adotado quando o processo não é estável, ou seja, quando ainda há causa especial atuando. Se o processo é estável, o desvio de curto prazo fica muito próximo do de longo prazo, e medir Cp e Cpk já basta.
Ou seja: escolher entre Cp e Pp exige saber se o processo está sob controle. Isso é conclusão da carta de controle, que por sua vez exige o subgrupo racional. São três decisões encadeadas da fase Medir, e nenhuma delas está na coluna de números. Um modelo que recebe só a coluna vai calcular o que você pedir, com a fórmula certa.
Vale lembrar a escala, que está na tabela 25.1. Cp e Cpk iguais a 1,00 dão um processo aceitável. O valor 1,33 é o patamar de quatro sigma que a indústria costuma exigir, e projeto Lean Seis Sigma trabalha com 2,00, que é seis sigma. Há ainda o deslocamento clássico de 1,5 desvio entre curto e longo prazo, que faz o nível sigma de curto prazo ser o de longo prazo mais 1,5. Peça sempre que a saída diga qual dos dois ela reportou.
Duas pré-condições que o gráfico não avisa
A capabilidade calculada sobre dado não normal dá um número, e o número é inútil. O caminho correto está no livro. Ou você identifica a distribuição real, ou transforma os dados, e a transformação de Box-Cox é a mais usada para isso. O que não se faz é rodar a conta padrão e reportar o resultado.
A segunda pré-condição é a estabilidade, e ela vem antes. Processo com causa especial ativa não tem capabilidade para reportar. Ele tem uma causa especial para investigar. Calcular Cpk nesse estado produz um número que descreve uma mistura de dois processos.
As duas checagens são baratas, e o modelo faz as duas sem reclamar. Teste de normalidade primeiro, carta de controle depois, capabilidade por último. Essa ordem é a coisa mais importante da fase Medir em termos de conta, e é justamente a ordem que se perde quando alguém pede direto o Cpk. Se o histograma no Excel já mostrar assimetria forte, a suspeita começa ali.
Se você delegar uma coisa só da fase Medir, delegue a execução dessa sequência, e exija os três resultados intermediários na resposta. Um Cpk que chega sozinho, sem o teste de normalidade e sem a carta antes dele, é um número sem procedência.
Quanto dado é dado suficiente
Fechando o capítulo 22, “Seleção de Métricas e Coleta de Dados”, o livro trata de amostragem. O tamanho de amostra depende de três coisas. O nível de confiança adotado, que normalmente é 95% e leva o valor 1,96. A precisão que você aceita na estimativa. E o desvio padrão da amostra. Repare no terceiro. Você precisa do desvio padrão para calcular quantos dados coletar, e só tem o desvio padrão depois de coletar.
Essa circularidade se resolve na prática com uma amostra piloto. É um lugar em que a máquina ajuda bem. Ela calcula o tamanho para várias combinações de precisão e confiança, e mostra a tabela inteira. Isso torna a conversa sobre custo de coleta muito mais concreta. O que ela não faz é escolher a precisão aceitável, que é decisão de negócio.
Há um detalhe do livro que muita gente pula. A seleção do plano de amostragem está ligada ao teste que será feito depois. Ou seja, o tamanho da amostra depende da pergunta da fase Analisar. Se você não disser ao modelo qual teste de hipótese vem depois, ele dimensiona para a estimativa mais genérica possível, que quase sempre é a errada.
Na hora de montar o instrumento, o plano de coleta de dados e a folha de verificação transformam isso em rotina executável. São as duas peças que a máquina redige melhor. A pergunta que abre essa conversa continua sendo sua: com que precisão essa decisão precisa ser tomada?
O risco de medir o que é fácil de extrair
Passei uma semana em San Diego numa imersão de Sistema Toyota de Produção, com japoneses levando a gente da linha de montagem para a cozinha de um fast food no mesmo dia. Cheguei lá com a formação acadêmica na cabeça e demorei a semana inteira para aceitar que ela não tinha me ensinado a perguntar de onde vinha um número. O que me pegou ali não foi ferramenta nenhuma. Foi ver que ninguém aceitava número que não tivesse sido conferido no lugar onde ele nasce. Anos depois eu fiz a formação de auditor líder ISO 9000 pela IRCA, e a pergunta da auditoria era a mesma, com outro nome: se o registro corresponde ao que aconteceu.
A gente aprende a fórmula rápido e demora para aprender a desconfiar do dado. Já dei aula em FGV, UFJF, PUC e UFV, e o degrau mais difícil da sala nunca foi a fórmula. É a pergunta anterior, a de saber se aquele número descreve mesmo o processo. A fórmula do Cpk cabe em vinte minutos de aula. Saber se o dado que entra nela descreve o processo é o que leva um projeto inteiro.
A inteligência artificial aumentou esse degrau em vez de diminuir, por um motivo simples. Ela é excelente com o dado que existe. Peça indicadores para uma base e ela devolve doze, todos calculáveis a partir das colunas presentes. Nenhum deles vai ser o indicador que ninguém coleta, que costuma ser justamente o que o cliente sente.
O sintoma é conhecido e tem nome antigo. Você mede o que é fácil de extrair, o indicador vira a meta, e o processo se ajusta ao indicador. Quando isso acontece, a fase Medir produziu um painel bonito e uma leitura errada do processo. E as fases seguintes trabalham em cima disso.
A defesa é uma pergunta só, feita antes de qualquer conta. Qual é a coisa que o cliente reclama, e qual coluna da base mede exatamente isso? Se nenhuma mede, o trabalho da fase Medir não é calcular, é criar a coleta. Um indicador de desempenho que não existe ainda não vai aparecer na base por insistência. Faça esse teste com OEE e lead time na sua operação, porque muita gente reporta os dois sem ter a coleta que eles exigem.
A base que chegou decide o quanto a máquina serve
Base de sistema industrial, com sensor gravando de minuto em minuto e dois anos de histórico. Aqui a máquina rende muito. Limpeza, detecção de janela sem registro e estratificação por turno e por equipamento saem em minutos. O risco é a mudança de configuração no meio do histórico, que aparece como quebra de nível e é lida como melhoria. Peça sempre a linha do tempo de quebras antes da linha de base, e confirme cada quebra com a manutenção.
Base de processo administrativo, alimentada por gente preenchendo formulário. Aqui a MSA por atributo é obrigatória e é a primeira coisa a fazer na fase Medir. Antes de qualquer gráfico, monte uma amostra com metade de casos bons e metade de casos com defeito, como o livro pede na página 237, e peça a três pessoas que classifiquem cada caso três vezes. O piso da tabela 23.4 para três avaliadores é doze itens e três inspeções. Eu trabalho com trinta em base administrativa, e a razão é aritmética: com doze, um único caso vale mais de oito pontos percentuais de concordância, e a faixa de 80% passa a depender de um item só. Depois calcule concordância, alarme falso e classificação errada. Se a concordância individual ficar abaixo de 80%, o projeto ainda não tem dado. Tem opinião tabulada.
Já a base montada às pressas para o projeto, exportada de três sistemas e colada numa planilha, pede o contrário: pouco uso da máquina para analisar, e muito para auditar. Peça a ela o inventário das sete perguntas da base bruta, lá do começo do artigo, sobre cada um dos três pedaços, separadamente, antes de juntar. Chave de junção errada entre sistemas duplica linha em silêncio. E o efeito no Pareto é dar a primeira posição para a categoria que tem mais linha duplicada.
Nos três casos a ordem da fase Medir é a mesma, e é a única coisa que eu pediria para você levar daqui. Procedência, sistema de medição, estabilidade, e só então número. As duas primeiras exigem que você levante da cadeira. Da terceira em diante a máquina trabalha sozinha.
A tabela de decisão de IA na fase Medir
Juntei as tarefas da fase Medir numa tabela única, para levar para a reunião e combinar o corte antes de começar.
As tarefas seguem a ordem em que acontecem, da escolha das métricas até o cálculo da capabilidade. Cada linha traz três colunas: se aquilo é conta ou é procedimento, qual conferência a saída exige, e o nome de quem responde pelo número.
Baixe a tabela de decisão da fase Medir em PDF
A coluna do meio é a que muda o comportamento do time. Delegar sem conferência combinada é o que produz o painel de doze indicadores que ninguém audita. Cada linha da tabela tem uma conferência que cabe em minutos, e é isso que torna a delegação segura.
Roteiro da próxima fase Medir, com o tempo de cada bloco
O roteiro que eu usaria amanhã, na ordem, com o tempo aproximado de cada bloco da fase Medir.
- Antes de pedir qualquer coisa, escreva em uma frase o que o cliente reclama, e ache a coluna que mede isso. Se não houver, o projeto começa criando coleta. Vinte minutos.
- Peça o inventário das sete perguntas sobre a base bruta. Um minuto de máquina, vinte minutos seus lendo a resposta.
- Rode a MSA que couber. GR&R se houver instrumento e peça, estudo por atributo se a medição for classificação, reconstrução de procedência se o dado for histórico. Um dia de trabalho de chão, e o único bloco que não encolhe.
- Só agora peça limpeza e estratificação, e faça as quatro conferências da limpeza. Uma hora.
- Teste de normalidade, carta de controle e capabilidade, nessa ordem, exigindo os três resultados. Uma hora.
- Feche a linha de base com o período declarado e a procedência escrita ao lado do número. Trinta minutos.
Isso dá um dia e meio de trabalho seu, e o dia inteiro está no item três. Os outros cinco somam pouco mais de três horas, porque a máquina carrega a parte pesada deles. O plano de coleta e a folha de verificação da fase Medir têm formato conhecido, e redesenhar esse formato a cada projeto é o tipo de hora que ninguém audita depois. O kit de ferramentas Lean Seis Sigma já traz os dois preenchíveis, com as colunas de quem mediu e quando na ordem em que a auditoria vai pedir.
A regra que fecha a fase Medir é essa. O número que sai daqui vai ser citado até o fim do projeto, e ninguém vai voltar para conferir a origem dele. Quem confere é você, agora, uma vez.
As três perguntas para um Cpk que chegou pronto
Vai acontecer, e provavelmente já aconteceu. Alguém abre a reunião com o Cpk pronto, o gráfico formatado e a conclusão escrita. A resposta que funciona não é desconfiar da ferramenta. É pedir a procedência em três perguntas curtas.
Primeira: qual foi o estudo do sistema de medição, e qual foi o resultado dele? Segunda: o processo estava estável no período, e onde está a carta que mostra isso? Terceira: os dados passaram no teste de normalidade, e se não passaram, o que foi feito?
Se as três tiverem resposta, o Cpk é bom e a máquina economizou dias de trabalho. É para isso que ela serve. Se alguma não tiver, o número não é ruim. Ele é indefinido, e a conversa volta um passo. Em nenhum dos dois casos o problema foi a IA ter feito a conta.
A fase Medir sempre foi sobre confiar no número. O que mudou é que agora o número chega mais rápido, mais bonito e com uma explicação convincente ao lado. Delegue a conta inteira, a limpeza, o desenho e o texto. Guarde para você a pergunta de onde vem o dado, que é a única que nunca foi de estatística.
