Metodologias & Qualidade

Planilha de coleta de dados: como montar sem viciar a amostra

O plano que se escreve antes da primeira medição, a planilha que cabe em um minuto no posto e o cálculo de amostra que substitui o chute de 30 observações.

Thiago Coutinho
Publicado em 25 de set de 2026  ·  Atualizado em 25 de set de 2026  ·  16 min de leitura

A coleta é a etapa que mais atrasa projeto de melhoria, e quase nunca por falta de dado. Atrasa porque o dado chega e não serve: sem coluna de turno, com 40% do campo de motivo em branco, ou com três pessoas contando defeito por critérios diferentes. O plano de coleta de dados resolve isso em uma conversa de trinta minutos, antes da primeira medição, e não em dois meses de retrabalho.

A planilha é a parte visível, e é a fácil. O que decide se ela funciona são quatro coisas escritas antes: o que conta como uma ocorrência, quais fatores vão junto com a medida, quantas observações bastam e como os itens serão escolhidos. Nenhuma delas se resolve depois.

Este artigo percorre o desenho inteiro da coleta. As seis perguntas que o plano responde. A definição operacional que faz duas pessoas contarem igual. A estratificação que precisa estar no formulário desde o primeiro dia. O cálculo de amostra com as quatro entradas que ele exige, e os tipos de amostragem com a armadilha de cada um.

Também trata do que dá errado em campo. Os vieses que nenhum aumento de amostra corrige. A categoria Outros que engole um terço dos registros. O teste piloto de um turno, a verificação durante a janela e o que fazer com histórico de origem duvidosa.

O plano preenchido, a folha de posto e os números dos exemplos foram montados para este artigo, no formato dos kits de metodologia da Voitto. São ilustrativos: mostram a mecânica e a ordem de grandeza, não uma empresa real. Os cálculos de amostra foram conferidos em Python.

Por que a coleta é a etapa que mais atrasa o projeto

Pergunte a quem já conduziu projeto de melhoria onde o cronograma escorregou. A resposta é quase sempre a medição. A análise leva uma semana, a solução leva duas, e a coleta leva dois meses porque ninguém combinou o que seria anotado. O atraso não é falta de dado, é dado que chegou e não serviu.

O padrão se repete. A equipe pede os dados de refugo do semestre e recebe uma planilha com 40% da coluna de motivo em branco. Volta a campo, pede três semanas de anotação manual, e descobre que cada turno entendeu o formulário de um jeito.

  • Dado que existe mas não estratifica. O total de refugo do mês está no sistema; qual máquina gerou não está.
  • Dado que estratifica mas não é confiável. O campo existe, mas metade foi preenchida no fim do turno de memória.
  • Dado confiável mas insuficiente. Doze observações não sustentam conclusão sobre processo que varia por turno.

O plano de coleta transforma esses dois meses em duas semanas. É um documento de uma página, escrito antes de alguém encostar em um formulário. Este artigo trata da planilha e do viés de amostra; para o conceito e a estrutura do documento, o plano de coleta de dados cobre o que é e como fazer.

O que o plano de coleta de dados precisa responder

Um plano de coleta de dados é o acordo escrito sobre o que será medido, por quem, com qual instrumento e por quanto tempo, feito antes da primeira medição. Ele não é a planilha: a planilha é o instrumento, o plano é a decisão que define como ela vai ficar.

A função prática é fechar brechas de interpretação enquanto elas custam uma conversa. Depois que a coleta começou, a mesma brecha custa o período inteiro, porque não dá para recontar o que já passou pela linha.

O plano nasce na fase de medição, logo depois de o problema ter sido delimitado. Se a equipe trabalha com o método DMAIC, é a primeira entrega do M, e decide se o baseline vai valer alguma coisa. Baseline mal coletado contamina tudo o que vem depois, porque a comparação final é feita contra ele.

Três coisas ele precisa deixar sem ambiguidade: o que conta como ocorrência, quem registra e quando, e como o dado será estratificado. Com essas três escritas, o resto se resolve.

As seis perguntas do plano, uma a uma

São seis perguntas. A ordem importa menos que a completude: pergunta sem resposta vira decisão de quem estiver com a prancheta às duas da manhã.

  1. O quê. A variável, na unidade em que será registrada. Não qualidade do rótulo, e sim desvio horizontal do rótulo em milímetros, medido da borda esquerda ao campo impresso.
  2. Quem. O nome de uma função, de preferência uma pessoa por turno. Coleta sem dono nomeado despenca de preenchimento na terceira semana.
  3. Quando. O momento dentro do ciclo e a frequência. A cada 30 minutos e uma vez por hora cheia produzem amostras diferentes se o processo tiver ciclo próprio.
  4. Onde. O ponto físico. O mesmo defeito medido na saída da máquina e na expedição dá dois números, porque entre eles existe manuseio.
  5. Como. O instrumento, a resolução e o procedimento. Paquímetro de 0,05 mm e de 0,01 mm não são intercambiáveis com tolerância de 0,2 mm.
  6. Por quanto tempo. A janela, escrita em ciclos do processo e não só em dias. Se a variação relevante é mensal, uma semana não cobre nada.

Falta uma sétima que ninguém escreve: o que fazer quando o dado não puder ser coletado. Sem ela, a lacuna vira zero na planilha, e zero é um valor, não uma ausência.

Exemplo de plano de coleta de dados preenchido

Abaixo, um plano completo para um caso de rebarba em peças injetadas: quatro variáveis com as seis respostas no detalhe que dispensa perguntas.

VariávelTipoQuem e quandoOnde e comoEstratificaçãoJanela
Peças com rebarba visível na abaAtributo (sim/não)Operador de saída, 20 peças por hora cheiaPosto de saída da IJ-04, padrão visual plastificado nº 7Turno, cavidade, operador4 semanas, 3 turnos
Espessura da rebarbaContínuo, mmInspetor de qualidade, 5 peças por turnoSala de metrologia, paquímetro digital 0,01 mmTurno, cavidade, lote de resina4 semanas, 3 turnos
Temperatura da zona 3 na moldagemContínuo, °CControlador, 1 registro por cicloControlador da IJ-04, exportação diária em CSVTurno, lote de resina4 semanas, contínuo
Motivo da parada de máquinaCategóricoOperador, no ato da paradaTerminal do posto, lista fechada de 8 motivos mais OutrosTurno, tipo de parada4 semanas, 3 turnos

Repare no que costuma faltar: o número do padrão visual, a resolução do paquímetro, a lista fechada de motivos, a temperatura vinda do controlador. Cada detalhe elimina uma pergunta da segunda de manhã.

Tipo de dado e o que muda na análise

O tipo de dado precede a planilha porque muda o que vem depois: quantas observações bastam, qual gráfico serve e qual teste é legítimo.

TipoExemploGráfico naturalAmostra típica
ContínuoEspessura em mm, tempo, temperaturaHistograma, carta X-barra e R30 a 100
Atributo binárioPassa/não passa, conforme/não conformeCarta p ou np, ParetoCentenas
Contagem de defeitosRiscos por peçaCarta c ou u20 a 30 subgrupos
CategóricoMotivo de parada, tipo de reclamaçãoPareto, tabela de frequência100 a 300

A regra mais cara de ignorar: havendo escolha, colete contínuo. Espessura em milímetros carrega mais informação por observação do que passa e não passa, e exige amostra menor. Converter contínuo em atributo é trivial, o contrário é impossível. É o contínuo que alimenta a carta de controle de variáveis, o cálculo de capabilidade do processo e a distribuição visível em um histograma, três coisas que o atributo não entrega.

Definição operacional: o teste das duas pessoas

A definição operacional descreve o que conta como ocorrência, com precisão suficiente para duas pessoas olhando a mesma peça, sem conversar, registrarem a mesma coisa. É a parte que mais gente pula e a que mais destrói dado.

Peça com arranhão parece óbvio até três inspetores contarem a mesma caixa. Um conta o que vê a um braço de distância, outro qualquer marca ao tato, o terceiro só a face aparente. Três números, nenhum errado, todos inúteis juntos.

Definição fracaDefinição operacional
Peça com arranhãoMarca linear acima de 5 mm na face aparente, visível a 50 cm sob a luminária do posto
Atendimento demoradoMinutos inteiros entre entrar na fila e o primeiro atendente falar com o cliente
Entrega atrasadaBaixa no recebimento do cliente após a data prometida, em dias corridos

O teste é barato: dez itens, duas pessoas classificando em separado. Mais de uma divergência significa que a definição não está pronta. Refaça a frase, não treine mais gente: o problema está no texto.

A planilha de coleta que cabe em um minuto

O instrumento precisa caber no tempo que a pessoa tem. Se um registro leva mais de um minuto num posto que produz uma peça a cada 40 segundos, a planilha será preenchida de memória no fim do turno, e dado de memória é dado inventado com boa intenção.

A forma mais eficiente é a folha de verificação: categorias impressas, registro por marca de contagem, estratificação nas colunas. O operador risca, não escreve. Uma folha bem desenhada registra uma ocorrência em cinco segundos e já entrega o dado tabulado.

  • Cabeçalho mínimo: data, turno, máquina e quem coletou. Quatro campos, preenchidos uma vez só.
  • Categorias impressas, nunca campo livre, que gera 30 grafias do mesmo motivo e impede a contagem.
  • Espaço físico no posto, com prancheta e caneta amarrada. Parece detalhe, é a causa número um de lacuna.
  • Recolhimento com hora marcada. Quem recolhe, quando e para onde vai. Sem isso, folha preenchida fica na gaveta.

Na coleta digital vale a mesma lógica: lista suspensa em vez de texto livre e nenhuma tela extra entre o operador e o registro.

Estratificação planejada antes de coletar

Estratificar é registrar, junto com a medida, o que permite separar o dado em grupos depois: turno, máquina, operador, lote, fornecedor, cavidade. Cada um é uma pergunta que a análise responde, desde que a coluna exista na hora do registro.

A escolha sai de uma conversa curta com quem conhece o processo: em que condições o problema aparece mais? A resposta vem em forma de suspeita, na terça de manhã, depois da troca de bobina, no lote do fornecedor B. Cada suspeita vira uma coluna.

FatorPergunta que ele respondeCusto de registrar
TurnoÉ método ou é pessoa?Campo no cabeçalho
Máquina ou linhaÉ o processo ou um equipamento?Campo no cabeçalho
OperadorHá diferença de execução entre pessoas?Campo no cabeçalho
Lote de insumoA variação entra pela matéria-prima?Coluna por registro

O SIPOC e o fluxograma do processo ajudam aqui: mostram onde entram fornecedores diferentes, onde o fluxo se divide e onde existe recirculação. Cada divisão é candidata natural a fator de estratificação.

Por que estratificar depois quase nunca funciona

A tentação é coletar primeiro e separar depois, para o registro ficar rápido. Mas a informação de estratificação não está em lugar nenhum depois que a peça saiu da linha: não dá para olhar 400 peças rejeitadas numa caixa e dizer em que turno cada uma foi feita.

Com rastreabilidade parcial, o cruzamento posterior custa mais do que a coleta inteira teria custado: casar horário com escala de turno, conferir troca de lote, resolver os ambíguos na fronteira entre turnos. Duas semanas de escritório para recuperar quatro caracteres de cabeçalho.

O prejuízo maior não é o custo. É que o cruzamento posterior produz classificação aproximada, e a aproximação corre na direção que o analista espera. Viés em estratificação só aparece quando a solução não funciona.

A regra é curta: registre a estratificação mesmo quando parecer desnecessária. Uma coluna a mais custa segundos por turno; uma coluna que falta custa a rodada inteira.

Tamanho de amostra: do que ele depende

Quantas amostras eu preciso não tem resposta genérica, mas tem quatro entradas. Quem fornece as quatro obtém um número; quem não fornece chuta, e o chute costuma ser 30, porque 30 é o que se ouve falar.

  1. A variabilidade do processo. Quanto mais o dado espalha, mais observações. Em variável contínua entra como desvio padrão; em proporção, como a proporção esperada.
  2. A precisão desejada. A margem de erro aceita em torno da estimativa. Ela entra ao quadrado no denominador, e por isso dobrar a precisão multiplica a amostra por quatro.
  3. O nível de confiança. Quase sempre 95%, multiplicador 1,96. Subir para 99% custa cerca de 70% a mais de amostra.
  4. O tamanho da população, quando finita e pequena. Se a amostra passa de 5% dela, a correção para população finita reduz bastante o número necessário.

Existe um piso que nenhuma fórmula captura: a amostra precisa cobrir as condições que você quer comparar. Três turnos e duas máquinas são seis combinações, e 50 observações mal distribuídas deixam alguma com quatro. O cálculo dá o total; a distribuição entre estratos é decisão separada.

Cálculo de tamanho de amostra conferido em Python

Vale rodar a conta. No plano de rebarba, a proporção histórica é 6,2%, a equipe quer estimá-la com margem de 2 pontos percentuais e 95% de confiança, e a produção do período é de 4.000 peças.

A fórmula é n igual a z ao quadrado vezes p vezes (1 menos p), dividido pela margem ao quadrado. Com z de 1,96, p de 0,062 e margem de 0,02, o bruto é 558,53, que arredonda para 559 peças. Com a correção para população finita de 4.000, cai para 491. Os dois valores foram conferidos em Python.

Margem de erron sem correçãoLeitura prática
1,0 ponto2.235Inviável em 4 semanas
2,0 pontos559Cabe em 20 peças/hora, 3 turnos
3,0 pontos249Grosseiro para 6,2%

Para variável contínua, n é igual a (z vezes desvio padrão dividido pela margem) ao quadrado. Com desvio de 1,8 °C e margem de 0,5 °C, dá 49,8, ou 50 leituras; com margem de 0,25 °C sobe para 200. Metade da margem, quatro vezes a amostra.

Sem estimativa prévia de proporção, use 0,5, o pior caso: com margem de 5 pontos e 95% de confiança, dá os 385 de toda pesquisa de opinião.

Tipos de amostragem e quando cada um serve

Depois do tamanho vem como escolher quais itens entram. Errar aqui produz um número estatisticamente respeitável que descreve outra coisa que não o processo.

TipoComo funcionaQuando usarRisco
Aleatória simplesSorteio no lote ou no períodoLote homogêneo e acessívelInviável em linha contínua
SistemáticaA cada k itens ou n minutosProcesso contínuo em fluxoCoincidir com ciclo do processo
EstratificadaCota fixa por turno, máquina ou loteEstratos são o objeto da análiseExige saber os estratos antes
Racional (subgrupos)5 peças consecutivas por horaCarta de controle de variáveisSubgrupo mal formado mascara sinal
Por conveniênciaO que estiver à mãoSó em teste pilotoViés quase garantido

A amostragem sistemática tem armadilha própria: se o intervalo bate com algum ciclo do processo, a amostra pega sempre a mesma cavidade ou a mesma fase de aquecimento. Coletar a cada 60 minutos numa máquina com ciclo térmico de 30 produz série artificialmente estável.

Para quem vai montar carta de controle depois, só a amostragem racional em subgrupos serve. O subgrupo precisa reunir itens produzidos em condições o mais parecidas possível, para que a variação interna represente só o ruído do processo.

Os vieses de coleta que mais estragam dado

Viés não é erro de medição. É o dado ter sido escolhido por um critério que correlaciona com o que está sendo estudado. O resultado é uma estimativa deslocada, e aumentar a amostra não corrige.

  • Só o que dói. Registra-se a parada longa e esquece-se a de três minutos. Como as curtas são mais frequentes, a distribuição de perda fica invertida.
  • Só quando dá tempo. No pico ninguém preenche. O dado descreve o processo tranquilo, que é o que não precisa de melhoria.
  • Só o turno da manhã. O analista está na fábrica das 8h às 17h, e o terceiro turno, com menos suporte técnico, some da base.
  • Só o que confirma a suspeita. Quem já acha que o problema é a máquina 4 mede a máquina 4 com mais atenção e encontra mais defeito nela.
  • Efeito de observação. Na semana em que alguém está anotando, o processo roda melhor, o baseline fica otimista e o ganho depois parece menor.

Contra viés não existe estatística, existe desenho de coleta. Cobrir os três turnos, incluir os dias de pico, sortear o item antes de olhar para ele e registrar no ato resolvem a maioria dos casos.

O teste piloto da coleta

Antes de liberar quatro semanas de coleta, rode um turno de teste. O piloto custa oito horas e evita descobrir na terceira semana que uma coluna nunca foi preenchida.

  1. Entregue o instrumento a quem vai coletar de verdade, sem treinar além do que o treinamento real oferece.
  2. Cronometre o tempo de um registro. Acima de um minuto em posto de ritmo alto, simplifique.
  3. Recolha e tabule no fim do turno. Se não der para tabular em quinze minutos, o formato está errado.
  4. Conte células em branco por coluna. Acima de 10% de lacuna, a coluna vai falhar em escala.
  5. Pergunte a quem coletou que dúvidas apareceram. Cada dúvida é uma definição operacional que faltou.
  6. Confira se a estratificação separa os grupos que você quer comparar, com registros em cada um.

O piloto também calibra a expectativa de volume. Se a taxa de um turno destoar da histórica, ou o processo mudou, ou a definição captura algo diferente do registro anterior. Nos dois casos, melhor descobrir antes.

Análise do sistema de medição em versão simples

Se o instrumento não é confiável, nenhum plano salva a coleta. A análise do sistema de medição responde quanto da variação observada vem do processo e quanto vem da medição. A versão completa é estudo formal; a de uma hora resolve a maioria dos casos.

Para atributo, o teste é de concordância. Separe 20 itens, metade conformes, embaralhe e numere. Dois ou três avaliadores classificam cada um, sem conversar, duas vezes, em ordens diferentes. Depois conte três coisas.

O que contaComo medirPiso aceitável
RepetibilidadeMesmo avaliador concorda consigo nas duas rodadas90% dos itens
ReprodutibilidadeAvaliadores concordam entre si90% dos itens
Acerto contra o padrãoClassificação bate com a definição de referência90% dos itens

Para dado contínuo, meça 10 peças duas vezes com o mesmo instrumento e compare. Se a variação entre as duas medições da mesma peça for grande perto da tolerância, o instrumento não distingue o que precisa. A regra de bolso pede resolução de um décimo da tolerância.

Quando o teste reprova, o caminho raramente é comprar instrumento novo. Quase sempre é reescrever a definição, trocar a iluminação do posto ou criar um padrão físico: correções de horas, não de orçamento.

A categoria Outros e o que ela esconde

Toda lista fechada precisa de uma saída, senão o registro trava quando aparece algo fora dela. O problema é que a saída vira depósito: quando Outros acumula 35% das ocorrências, a folha deixou de medir.

O limite prático é 10%. Acima disso a lista não representa o processo, quase sempre porque foi escrita em sala de reunião sem consultar quem está no posto.

  • Acima de 10% em Outros: pare e reveja a lista antes de continuar a coleta.
  • Descrição livre obrigatória em todo Outros, com no mínimo três palavras.
  • Leitura semanal das descrições, promovendo a que aparecer mais de cinco vezes.
  • Nunca mais de 10 categorias. Acima disso o operador para de ler e marca a primeira que parece encaixar.

O efeito contrário merece a mesma atenção: categoria nunca marcada em quatro semanas ou não existe no processo ou está escrita de um jeito que ninguém reconhece. Na análise com diagrama de Pareto, um Outros inchado empurra a barra maior para o lugar errado e manda o projeto atacar a causa que não é a principal.

Verificar se a coleta está sendo feita como planejado

Plano escrito não é coleta acontecendo. Entre os dois existe o turno de sexta à noite com uma pessoa a menos, e é ali que o dado some. A verificação é rotina curta, feita durante a janela e não no fim dela.

  1. Recolha as folhas de verificação no segundo e no quinto dia, sem esperar a semana fechar.
  2. Conte registros esperados contra obtidos, por turno. Turno com metade do esperado não é turno bom, é turno que não preencheu.
  3. Vá ao posto e observe um registro sendo feito. Comparar o plano com o que a pessoa faz custa dez minutos.
  4. Publique o andamento da coleta onde a equipe vê. Contagem visível mantém o preenchimento vivo.

Quando a coleta vira rotina, ela deixa de ser evento de projeto e passa a constar do plano de controle, com frequência, responsável e regra de reação. Esse é o destino das variáveis que o projeto provar críticas, e é o que sustenta o controle estatístico de processo depois que o time de melhoria sai de cena.

Dado histórico duvidoso e o checklist final

Em algum momento alguém oferece três anos de histórico do sistema como atalho para pular a coleta. Às vezes serve; na maioria das vezes serve para outra coisa, e a diferença se descobre com quatro perguntas.

  • Qual era a definição operacional na época? Se o critério mudou no meio, a série tem duas populações coladas.
  • Quem preenchia e com que incentivo? Campo que alimenta indicador de bônus tem viés previsível.
  • Qual a taxa de lacuna por campo? Acima de 15% de vazio, a coluna não sustenta conclusão.
  • A estratificação está lá? Total mensal sem máquina e sem turno não responde pergunta de causa.

O uso legítimo do histórico é como orientação, não como baseline. Ele indica ordem de grandeza e ajuda a estimar a proporção que entra no cálculo de amostra. O baseline comparado no fim do projeto precisa vir de coleta com definição escrita, e quem tem experiência de Lean Seis Sigma aprende isso na primeira vez que o ganho é contestado no fechamento.

  1. As seis perguntas estão respondidas por escrito, incluindo a regra para dado ausente?
  2. Cada variável tem definição que passou no teste das duas pessoas?
  3. O tipo de dado foi escolhido, e é contínuo sempre que havia a opção?
  4. Os fatores de estratificação são campos no instrumento, e não intenção?
  5. O tamanho de amostra foi calculado com as quatro entradas?
  6. O instrumento passou por um turno piloto e o registro leva menos de um minuto?
  7. Existe dono nomeado por turno, ponto de recolhimento e verificação durante a janela?

Um plano que passa por essas sete perguntas não garante a conclusão esperada. Garante que ela se sustenta quando alguém pedir para ver o dado, e é isso que separa projeto que fecha de projeto que volta para a medição.

Perguntas frequentes

O que é um plano de coleta de dados?
É o documento que define, antes da primeira medição, o que será medido, por quem, quando, onde, com qual instrumento e durante quanto tempo. Ele não se confunde com a planilha: a planilha é o instrumento de registro, e o plano é a decisão escrita que determina como a planilha vai ficar. Costuma caber em uma página e leva menos de uma hora para ser feito.
Qual a diferença entre plano de coleta e planilha de coleta de dados?
O plano responde as seis perguntas de desenho da medição e circula entre quem decide. A planilha, ou folha de verificação, é o artefato físico ou digital que vai para o posto de trabalho e recebe os registros. Uma planilha sem plano por trás costuma ter campo livre demais, estratificação de menos e nenhuma definição operacional escrita.
Quantas amostras eu preciso coletar?
Depende de quatro entradas: a variabilidade do processo, a margem de erro que você aceita, o nível de confiança e o tamanho da população quando ela é pequena. Para estimar uma proporção de 6,2% com margem de 2 pontos e 95% de confiança, são 559 observações, que caem para 491 em uma população de 4.000. Para uma média com desvio padrão de 1,8 e margem de 0,5, são 50 observações.
Por que o número 30 aparece tanto como tamanho de amostra?
Porque 30 é o ponto a partir do qual a distribuição da média amostral se aproxima bem da normal em muitos casos, o que virou regra de bolso repetida fora de contexto. Como tamanho de amostra de projeto, 30 raramente é a resposta certa: para proporções pequenas é insuficiente por ordens de grandeza, e para uma média com pouca variação pode ser desperdício.
O que é definição operacional e por que ela é obrigatória?
É a descrição do que conta como uma ocorrência, escrita de forma que duas pessoas classifiquem o mesmo item da mesma maneira sem conversar. É obrigatória porque sem ela cada coletor aplica o próprio critério e a base vira uma mistura de três medições diferentes. O teste é dar dez itens para duas pessoas em separado: mais de uma divergência significa que a frase precisa ser reescrita.
Posso estratificar o dado depois de coletar?
Quase nunca. A informação de turno, máquina, operador ou lote não fica na peça depois que ela sai da linha. Quando existe rastreabilidade parcial, o cruzamento posterior custa mais do que a coleta inteira teria custado e ainda produz uma classificação aproximada, com viés na direção do que o analista espera encontrar. O caminho é registrar a estratificação na hora, mesmo quando parecer desnecessária.
Qual tipo de amostragem escolher?
Sistemática para processo em fluxo contínuo, estratificada quando os estratos são o objeto da análise, racional em subgrupos quando o destino é carta de controle, aleatória simples para lotes acessíveis e por conglomerado quando a coleta é cara ou dispersa. Amostragem por conveniência só se justifica em teste piloto, porque o viés é praticamente garantido.
Como saber se o instrumento de medição é confiável?
Com uma análise do sistema de medição em versão curta. Para atributo, 20 itens classificados duas vezes por dois ou três avaliadores, exigindo 90% de concordância em repetibilidade, reprodutibilidade e acerto contra o padrão. Para variável contínua, 10 peças medidas duas vezes, verificando se a diferença entre repetições é pequena perto da tolerância. A resolução do instrumento deve ser de pelo menos um décimo da tolerância.
O que fazer quando a categoria Outros fica muito grande?
Pare e reveja a lista de categorias. Acima de 10% das ocorrências em Outros, a lista não representa o processo, quase sempre porque foi escrita sem consultar quem opera. Exija descrição livre de pelo menos três palavras em todo registro marcado como Outros, leia essas descrições no fim da primeira semana e promova a categoria que aparecer mais de cinco vezes.
Posso usar dado histórico do sistema em vez de coletar?
Como orientação, sim: o histórico indica ordem de grandeza e ajuda a estimar a proporção que entra no cálculo de tamanho de amostra. Como baseline de projeto, raramente. Antes de usar, verifique qual era a definição operacional na época, quem preenchia e com que incentivo, a taxa de lacuna por campo e se a estratificação necessária existe. Acima de 15% de células vazias em uma coluna, ela não sustenta conclusão.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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