Metodologias & Qualidade

Por que programas de Kaizen morrem: a fila de sugestão sem resposta

Programas de melhoria contínua raramente morrem de falta de ideia. Morrem de fila de ideia sem resposta, e o padrão é previsível o bastante para ser antecipado.

Thiago Coutinho
Publicado em 26 de set de 2026  ·  Atualizado em 26 de set de 2026  ·  16 min de leitura

Perguntar por que o kaizen não funciona produz quase sempre a mesma lista: falta de cultura, de engajamento, de apoio da direção. Nenhuma dessas respostas é acionável. Todas transferem a causa para um traço de caráter da empresa, o que encerra a conversa sem mudar nada.

Existe uma causa mais específica, e ela é desconfortável porque aponta para cima. O kaizen depende de resposta. Cada sugestão que a liderança não responde ensina à equipe que sugerir não vale a pena. A lição é aprendida rápido, se espalha entre colegas e não se desfaz sozinha.

O custo dessa lição é permanente no sentido que importa: depois que o time para de sugerir, reabrir o canal custa muito mais do que teria custado responder. A segunda tentativa começa com um passivo.

Programas de kaizen raramente morrem de falta de ideia. Morrem de fila de ideia sem resposta, e os outros modos de falha são variações disso. Cada um aparece aqui com mecanismo, sinal antecipado e contramedida.

Procedência: este material consolida padrões de falha documentados do método de melhoria contínua e o conteúdo de diagnóstico do Kit Lean da Voitto. Não é relato de caso único nem depoimento pessoal. O exemplo numérico é modelo com premissas declaradas, não medição de empresa específica.

A morte do kaizen não é falta de ideia

A pergunta sobre por que o kaizen não funciona costuma ser feita depois do enterro do programa, com o quadro de sugestões ainda exibindo fichas de oito meses atrás. A explicação mais cômoda nessa hora é dizer que a equipe não aderiu, que faltou cultura de melhoria.

Os registros de qualquer programa morto contradizem isso. Nos primeiros meses o volume é alto, às vezes demais para a capacidade de análise. A queda vem depois, junto com a fila sem resposta.

A sequência se repete. Entra muita ideia, a liderança não responde, a fila cresce, o tempo de resposta cresce junto e a entrada despenca. Perto de zero, a gestão conclui que faltou cultura.

O conceito por trás disso está no que é kaizen e no Lean Lexicon do Lean Enterprise Institute: melhoria pequena, proposta por quem executa, repetida sem parar. Das três características, a terceira depende da liderança.

Programa vivo e programa formalmente existente

A maior parte dos programas que aparecem em apresentação institucional não está morta nem viva. Está formalmente existente: tem nome, quadro na parede, procedimento e responsável nomeado. O que não tem é entrada de sugestão.

A distinção muda o diagnóstico. Programa morto ninguém menciona. Programa formalmente existente consome recurso e bloqueia o recomeço, porque a direção acredita que já tem um. Três perguntas separam os dois.

  1. Qual foi a última sugestão registrada, e em que data? Se a resposta exige buscar no sistema, o programa não é parte da rotina.
  2. Quantas sugestões aguardam resposta agora, e há quanto tempo está a mais antiga?
  3. Quem responde, em qual reunião, com qual prazo? Sem nome, reunião e prazo, não há sistema de resposta.

Programa vivo tem fila curta e resposta datada. Programa formal tem procedimento escrito e fila parada. A diferença está em haver um dono de resposta com agenda. O teste vale para qualquer prática de Lean Manufacturing que dependa de participação.

O mapa dos modos de falha

Doze modos de falha cobrem quase todos os programas que param, e eles não são independentes: o primeiro alimenta os demais, e quase todos acabam por aumentar o tempo de resposta.

Modo de falhaMecanismoSinal antecipadoContramedida
Fila sem prazo e sem donoNada dispara decisãoA mais antiga passa de 30 diasPrazo publicado e respondente nominal
Recusa não comunicadaSilêncio lido como desprezoRecusa explicada abaixo de 90%Recusa por escrito, com motivo e destino
Kaizen só como eventoMelhorar exige convocação e verbaNada implantado entre eventosRotina semanal curta, evento à parte
Ganho que não voltaO ganho vira aumento de metaSugestões param de tocar em produtividadeDevolver parte em condição de trabalho
Melhoria sem padrão prévioCada turno faz diferenteDois relatos distintos da mesma tarefaPadronizar antes de abrir sugestão
Tempo não alocadoO kaizen sai do expedienteReunião de melhoria é a primeira canceladaJanela protegida na escala
Aprovação em três níveisO ciclo curto vira projetoIdeia a teste acima de duas semanasAlçada na ponta para custo baixo e reversível
Prêmio individual por sugestãoCompensa volume, não melhoriaSugestão por pessoa sobe e implantação caiReconhecer equipe, por melhoria sustentada
Kaizen só na produçãoA causa está na área de apoioSugestões apontam compras, TI ou PCPIncluir apoio no mesmo sistema e prazo
Liderança que delegaO programa perde alçadaGestor não cita a última sugestão da áreaResposta dada pelo gestor, presencialmente
Ganho não registradoSem número, não se defendeNada consolidado no fechamento do anoAntes e depois registrados no ato
Padrão perdido na rotatividadeO sucessor aprende com o colegaProcesso regride sem decisãoPadrão reescrito e usado no treinamento

A coluna do sinal antecipado vale mais que as outras: todos aparecem meses antes da queda de volume.

O sistema de sugestão sem prazo e sem dono de resposta

O desenho mais comum tem formulário, caixa ou aplicativo, e um comitê que avalia. Falta nele uma coisa: prazo com nome de pessoa atrás.

Sem prazo, a sugestão não vence, e nada acontece quando envelhece. Sem dono, a responsabilidade é do comitê, que é a forma organizacional de não ser de ninguém.

O comitê mensal agrava tudo. Duas horas por mês, dez minutos por sugestão, doze avaliadas. Se a área tem quarenta pessoas e o lançamento rendeu quarenta sugestões, o primeiro mês termina com vinte e oito na fila.

  • Prazo curto e público. Resposta em até sete dias corridos, com a data visível ao lado da ficha.
  • Dono nominal. O gestor responde as sugestões da própria área. Comitê serve para o que ultrapassa a alçada dele.
  • Capacidade maior que a entrada. Entrando quarenta por mês, responda quarenta por mês.

Responder não é implantar. É dizer o que se entendeu, o que será feito e quando, ou por que não será. Confundir resposta com solução leva o gestor a adiar, e o adiamento fecha o canal. O plano de ação vem depois da resposta, não no lugar dela.

Quantas sugestões pendentes bastam para o canal fechar

Boa parte da resposta a por que o kaizen não funciona cabe numa conta de fila, e ela não depende de psicologia. Existe um tamanho de fila que já é fatal. Vale a lei de Little: o tempo médio de espera é o tamanho da fila dividido pela taxa de atendimento.

Aqui, o tempo médio de resposta é o número de pendentes dividido pelas respostas por mês. Com o comitê mensal são doze por mês, e a seção seguinte situa o fechamento em 37 dias, ou 1,23 mês.

  • Fila crítica = 12 respostas por mês x 1,23 mês = 14,8 sugestões.
  • Quinze sugestões paradas já colocam o tempo médio de resposta no ponto de fechamento.
  • No exemplo do lançamento, a fila terminou o primeiro mês com vinte e oito itens, quase o dobro do limiar.

Isso explica um efeito paradoxal: o programa mais bem divulgado morre mais rápido, porque a campanha gera um pico de entrada que a estrutura de resposta não suporta.

A leitura é direta: quinze pendentes não é sinal amarelo, é o limiar. Quem quiser um número para o painel, é esse, ajustado pela capacidade da empresa.

A conta da queda: sugestão contra tempo de resposta

O modelo abaixo mostra a ordem de grandeza do efeito. Área com quarenta pessoas. Quem sugere volta a sugerir no mês seguinte com probabilidade que depende do tempo que a resposta levou.

Retenção mensal suposta: 0,85 para resposta em cinco dias, 0,60 para vinte e cinco, 0,35 para cinquenta e cinco, 0,20 sem resposta. Duas pessoas por mês entram ou voltam por conta própria. Com essa entrada fixa, o volume estabiliza em 2 dividido por (1 menos r).

Tempo médio de respostaRetenção mensalSugestões por mês no equilíbrioSugestões por pessoaEstado do canal
5 dias0,8513,30,33Vivo
25 dias0,605,00,13Magro, mas aberto
37 dias0,504,00,10Limiar
55 dias0,353,10,08Fechado
Sem resposta0,202,50,06Fechado

O limiar adotado é 0,10 sugestão por pessoa por mês, ou quatro por mês na área de quarenta. Abaixo disso o canal deixa de funcionar como sistema.

Resolvendo o ponto de fechamento: 2 dividido por (1 menos r) igual a 4 dá r igual a 0,50. Interpolando entre vinte e cinco e cinquenta e cinco dias, r chega a 0,50 aos 37 dias. Passar de cinco semanas de espera média fecha o canal.

A trajetória importa. No cenário de cinquenta e cinco dias, partindo de quarenta sugestões no lançamento, o volume cai para dezesseis no segundo mês, 7,6 no terceiro e 4,7 no quarto: 88% em quatro meses.

A recusa não comunicada é pior do que a recusa

Recusar uma sugestão não fecha o canal. Programas saudáveis recusam boa parte do que recebem e continuam recebendo. O que fecha é a recusa que ninguém comunicou.

O mecanismo é de interpretação. Quem propôs se expôs diante dos colegas. Sem retorno, não conclui que a ideia está em análise, e sim que foi descartada, ou que nem foi lida.

A assimetria é clara: a recusa explicada preserva a relação e melhora a próxima sugestão, porque ensina o critério. O silêncio sinaliza que critério não existe. Uma recusa bem feita tem três partes, e a terceira costuma faltar.

  1. O que se entendeu do problema apontado, dito de volta com as palavras de quem propôs.
  2. Por que a solução não será adotada agora, com motivo concreto: custo, risco, norma, efeito em outra etapa.
  3. O que acontece com o problema, que continua existindo. Ou entra em outra frente, ou é aceito conscientemente.

O sinal antecipado é fácil de medir: recusas comunicadas com motivo divididas pelo total de recusas. Abaixo de 90%, o canal está se fechando mesmo com volume aparentemente normal.

Kaizen reduzido a evento de cinco dias

No vocabulário corrente da indústria brasileira, fazer kaizen significa realizar um evento. Pergunte quantos kaizens a empresa fez no ano e a resposta vem em número de eventos, não de melhorias implantadas.

O evento kaizen funciona bem para o que foi desenhado: problema que cruza áreas, exige alçada ou pede reconfiguração física. O erro não está no formato, está em ele ser a única porta.

Quando melhorar exige evento, o resto do ano fica vazio por construção. O gráfico de melhorias implantadas mostra picos nas semanas de evento e planície entre eles. A equipe aprende que melhorar acontece três vezes por ano.

Há um efeito menos notado: o evento transfere a autoria. A pauta chega pronta da gestão, a partir de indicador, e o operador entra para validar decisão tomada. Isso remove o que define o método, que é a ideia nascer em quem executa.

A descrição da Toyota sobre o Sistema Toyota de Produção trata a melhoria como prática diária, não como data no calendário. O sinal antecipado é a contagem de melhorias implantadas fora de evento no trimestre. Se é zero, o programa para quando o calendário apertar.

O ganho que a equipe não vê voltar

Uma equipe reduz o setup em quarenta minutos. No mês seguinte, a meta de produção sobe o equivalente. A conta fecha para a empresa e não sobra nada para quem propôs.

O aprendizado é imediato e racional: melhorar o próprio trabalho aumenta a cobrança sobre ele. As sugestões continuam, mas mudam de assunto: param de tocar em produtividade e passam a tratar de conforto e limpeza.

O desvio de pauta é o sinal antecipado, muito anterior à queda de volume. Classificar as sugestões do trimestre por tipo de ganho revela o problema antes do total cair. A contramedida não é abrir mão do ganho, é dividi-lo de forma visível.

  • Parte do tempo liberado volta como folga real na escala.
  • A melhoria é comunicada com o nome de quem propôs, não como resultado da gestão.
  • O aumento de meta, quando vier, é separado no tempo e explicado.
  • Compromisso declarado de que o ganho não gera demissão na área que o produziu.

Meta que sobe automaticamente é problema de método, não de comunicação. Vale revisar como definir meta de indicador antes de acusar a equipe de acomodação.

Melhorar o que não está padronizado é melhorar o caos

Uma parcela grande dos programas é aberta em processos sem padrão. Três turnos fazem a mesma tarefa de três maneiras. Nesse terreno, a melhoria não tem contra o que ser comparada.

O efeito aparece de duas formas. A sugestão de um turno conflita com a prática de outro, e a discussão vira disputa de preferência. E o ganho não é mensurável, porque o ponto de partida não era único.

O pré-requisito é ter trabalho padronizado, não como documento de auditoria, mas como descrição real da melhor sequência conhecida hoje. Sem ele, o kaizen não tem linha de base nem lugar para guardar o resultado.

O teste de campo custa cinco minutos: peça a duas pessoas de turnos diferentes que descrevam a mesma tarefa. Se divergem em sequência ou critério, padronize antes. O programa 5S costuma ser o caminho mais curto até essa condição mínima. O mesmo padrão de queda aparece em programas de 5S.

Kaizen sem tempo alocado no expediente

A frase do lançamento é sempre parecida: melhoria contínua é responsabilidade de todos, e cada um deve reservar um tempo. Na prática, isso significa fazer depois do turno, no intervalo, ou não fazer.

Equipe dimensionada para ocupação total não tem folga para pensar. A tarefa sem hora marcada perde para a que tem, todos os dias, sem exceção. Isso não é desinteresse, é aritmética de capacidade.

O sinal antecipado está na agenda. A reunião de melhoria é a primeira a cair quando o dia aperta. Contar quantas das últimas doze reuniões semanais aconteceram de fato resolve o diagnóstico.

O tempo necessário é menor do que parece. Trinta minutos por semana por equipe, com cobertura para quem sai da posição, sustentam um fluxo constante de melhorias pequenas. O que não funciona é tempo indefinido.

Vale notar a ironia: a sobrecarga que impede o kaizen é ela mesma um caso de muda, mura e muri. O muri de operar no limite consome a capacidade que reduziria o muda.

A melhoria que precisa de três aprovações

Uma sugestão de baixo custo e efeito local entra no fluxo de aprovação. Passa pelo supervisor, pelo gerente, pelo custo e pela engenharia, e volta aprovada em nove semanas.

Nesse ponto o ganho até acontece, mas o método já morreu. O kaizen se define pelo ciclo curto: testar rápido, ver o resultado, corrigir. Nove semanas entre ideia e teste destroem a relação entre ação e efeito.

A confusão de fundo é de escala: a empresa aplica à melhoria de duzentos reais o mesmo controle do investimento de duzentos mil. A contramedida é alçada explícita na ponta, com três limites.

  1. Teto de custo por melhoria, em valor que a área gaste sem consulta.
  2. Escopo local: a mudança não altera o que sai da área nem o que entra depois.
  3. Reversibilidade: é possível voltar ao estado anterior no mesmo turno.

Dentro desses limites a equipe testa e depois informa. Fora deles entra o fluxo formal, e o problema costuma ser de projeto, tratado com DMAIC e kaizen em papéis distintos. Para o ciclo curto vale a lógica do ciclo PDCA rodando em dias, não em trimestres.

Premiação individual por sugestão

Pagar por sugestão parece resolver o problema de volume, e resolve: o volume sobe imediatamente. Sobe junto a proporção de sugestões irrelevantes, porque o prêmio remunera o registro, não a melhoria.

O comportamento induzido é previsível. A pessoa fragmenta uma ideia em quatro fichas, registra o óbvio que já era feito, reapresenta sugestão antiga com outra redação. Nada disso é desonestidade, é resposta ao critério que a empresa premiou.

O efeito colateral mais caro é sobre a fila: o volume inflado consome a capacidade de resposta, o tempo médio sobe, e o mecanismo da conta anterior age sobre as sugestões que valiam a pena. O sinal antecipado é a divergência entre duas curvas, com sugestões por pessoa subindo e implantação caindo.

Programas que sustentam volume por anos premiam de outro jeito: reconhecimento público com nome, ligado à melhoria implantada e ainda em pé meses depois, e distribuído à equipe. A rapidez da implantação funciona como recompensa melhor do que o valor pago.

Kaizen só na produção

O programa é lançado no chão de fábrica, com quadro, faixa e ritual. As áreas de apoio ficam de fora, sob a justificativa de que melhoria é para onde o produto é feito.

Boa parte dos problemas que a produção enxerga tem causa fora dela. Ordem emitida errada pelo PCP. Material comprado com especificação divergente. Sistema que exige retrabalho de digitação. Manutenção programada contra o plano de produção.

Quando essas sugestões chegam, o gestor da produção não tem alçada para respondê-las. Ele encaminha, e o encaminhamento cai numa área que não participa do programa e não tem prazo. A sugestão morre no vão entre as áreas.

É um dos caminhos mais rápidos para o silêncio, porque atinge as sugestões de maior valor. A equipe aprende que ideia sobre causa real não anda, e passa a sugerir só o que cabe no setor.

A contramedida é incluir o apoio no mesmo sistema, prazo e dono nominal. Vale para administrativo, comercial, TI e para temas de kaizen e gestão ambiental, onde a causa quase nunca está no posto de trabalho.

A liderança que delega o kaizen e não aparece

O padrão é reconhecível. A direção aprova o programa, nomeia um coordenador de melhoria contínua e pede relatório mensal. A partir daí o kaizen é assunto do coordenador, e a mensagem disso é clara para todo mundo.

A resposta para por que o kaizen não funciona aqui é de alçada. Delegar a coordenação é correto. Delegar a resposta não é, porque responder é ato de alçada. Quando quem responde não pode decidir, a resposta vira encaminhamento, e encaminhamento é silêncio com outro nome.

O teste é desconfortável: peça ao gestor que cite, sem consultar o sistema, a última sugestão da própria equipe e o que foi feito com ela. Não saber responder é o sinal antecipado mais confiável do declínio.

O que sustenta o programa é presença periódica com propósito. Ir ao gemba para entender a sugestão antes de julgá-la pelo texto de uma linha. O gemba walk com roteiro faz isso quando é rotina, e não visita de inspeção.

O conjunto aparece no benefício de ser um líder kaizen, e se resume a uma disciplina chata: responder tudo, inclusive o que será recusado, e aceitar a ideia que contraria decisão anterior da própria gestão.

O programa sem memória: ganho não registrado e padrão perdido

Dois modos de falha têm a mesma raiz: o programa não guarda o que produziu. Um compromete a sobrevivência orçamentária, o outro a técnica.

O primeiro é o ganho não registrado. As melhorias acontecem, o processo fica melhor, e nada vira número. Na revisão de custos do ano seguinte, o programa não tem o que apresentar, e quem corta orçamento corta o que não se defende com dados.

O registro precisa acontecer no ato, com critério único e conservador. Ganho de tempo só vira dinheiro quando o tempo liberado é usado em outra coisa. Somar estimativas otimistas produz um total que o financeiro não aceita.

O segundo é a perda do padrão na rotatividade. A melhoria funciona, mas ninguém reescreveu o procedimento. Seis meses depois, metade da equipe é nova, e o sucessor aprende com o colega, que ensina uma mistura do padrão antigo com o novo.

O processo regride sem decisão, e ninguém percebe porque não houve evento. A contramedida é mecânica: melhoria só é concluída quando o padrão está reescrito e em uso no treinamento. O exemplo de kaizen serve de modelo do que registrar.

Os indicadores do próprio sistema de kaizen

Programas morrem sem aviso porque quase ninguém mede o sistema de sugestão. Mede-se o ganho financeiro, que é resultado, e não a saúde do canal, que antecipa a queda. Cinco indicadores bastam.

IndicadorNumeradorDenominadorLeitura de alerta
Taxa de sugestão por pessoaSugestões registradas no mêsPessoas elegíveis na áreaAbaixo de 0,10 por mês
Taxa de participaçãoPessoas com sugestão no trimestrePessoas elegíveis na áreaAbaixo de 30%
Tempo médio de respostaSoma dos dias entre registro e respostaSugestões respondidas no períodoAcima de 15 dias
Taxa de implantaçãoSugestões implantadas no períodoSugestões aprovadas no mesmo períodoAbaixo de 60%
Taxa de recusa explicadaRecusas comunicadas com motivoTotal de recusas do períodoAbaixo de 90%

Duas observações de uso. A taxa de sugestão por pessoa serve para acompanhar, nunca para cobrar: virando meta individual, produz sugestão de fachada e repete o problema do prêmio por volume.

E o tempo médio esconde os casos ruins: média de dez dias pode conter itens de noventa compensados por respostas imediatas. Acompanhe junto a idade da sugestão mais antiga em aberto, que é o número que a equipe enxerga.

Um sexto indicador serve a quem passou do básico: melhorias ainda em pé divididas pelas implantadas há doze meses. Sobrevivência baixa aponta para o passo de reescrever o padrão.

O calendário do declínio e como reabrir um canal fechado

O declínio tem cronologia reconhecível. Mês 1, lançamento e pico. Mês 2, a fila cresce e a primeira resposta atrasa. Mês 3, o volume cai à metade e a gestão atribui à novidade que passou. Do mês 4 ao 6, só sobram sugestões de conforto.

Do mês 7 ao 12, o quadro congela e a reunião semanal some. Depois de um ano, o programa é relançado com nome novo ou vira não conformidade de auditoria. Nenhuma fase é surpresa: todas são visíveis no mês em que ocorrem.

Reabrir um canal fechado custa mais do que mantê-lo aberto, e a diferença está na descrença acumulada. Na primeira vez a equipe testou de boa-fé. Na segunda, ela testa a liderança.

  1. Liquide a fila antiga antes de anunciar qualquer coisa. Tudo o que está pendente recebe resposta, mesmo o de dois anos atrás.
  2. Diga em voz alta o que falhou, nomeando o mecanismo: a fila cresceu e a resposta não veio.
  3. Recomece em uma área só, com o gestor respondendo em sete dias. Prazo curto vale mais que abrangência.
  4. Implante rápido as três primeiras sugestões. A velocidade da primeira é o que a equipe usa para decidir se vale.
  5. Publique o tempo médio de resposta da área, semana a semana, no quadro.
  6. Só amplie quando a primeira área sustentar noventa dias no prazo.

Nenhum passo custa dinheiro relevante, e todos custam constância de gestão. Quem ainda pergunta por que o kaizen não funciona acha a resposta no próprio tempo médio de resposta. A implantação está em como aplicar kaizen na empresa, e o repertório de apoio, em ferramentas kaizen.

Perguntas frequentes

Por que o kaizen não funciona na maioria das empresas?
A causa dominante é a fila de sugestões sem resposta. Quando a sugestão é registrada e nada volta, a equipe aprende que sugerir não compensa, e o volume cai. Falta de cultura e falta de engajamento são descrições do resultado, não causas. O que falha antes é o prazo de resposta com dono nominal.
Quantas sugestões pendentes já são um sinal de perigo?
Depende da capacidade de resposta. Pela lei de Little, o tempo médio de espera é a fila dividida pela taxa de resposta. Com doze respostas por mês e um limiar de cerca de 37 dias de espera, quinze sugestões paradas já colocam o sistema no ponto de fechamento. Em estruturas mais lentas, o número é menor.
Recusar sugestão mata o programa de kaizen?
Não. Programas saudáveis recusam boa parte do que recebem e continuam recebendo sugestões. O que mata é a recusa não comunicada. A recusa explicada ensina o critério e preserva a relação, desde que diga três coisas: o que se entendeu do problema, por que a solução não será adotada e o que acontece com o problema.
Por que fazer só evento kaizen não sustenta o programa?
Porque melhorar passa a exigir convocação, pauta e orçamento. O resultado é um gráfico com picos nas semanas de evento e nada entre elas. O evento também transfere a autoria: a pauta chega pronta da gestão e o operador valida decisão tomada, o que remove a característica central do método.
Dá para fazer kaizen em processo sem padrão?
Não com resultado durável. Sem padrão, cada turno faz diferente, não há linha de base para comparar o ganho e a melhoria é desfeita em semanas pelo turno que não participou. O trabalho padronizado precisa vir antes, como descrição real da melhor sequência conhecida, não como documento de auditoria.
Premiar sugestão em dinheiro ajuda ou atrapalha?
O volume sobe e a qualidade cai, porque o prêmio remunera o registro e não a melhoria. Aparecem ideias fragmentadas e reapresentadas, que consomem a capacidade de resposta e atrasam as sugestões que valiam a pena. Reconhecimento público de equipe, ligado a melhoria implantada e sustentada, funciona melhor.
Quanto tempo semanal o kaizen precisa para não morrer?
Trinta minutos por semana por equipe, com cobertura definida para quem sai da posição, sustentam um fluxo constante de melhorias pequenas. O que não funciona é tempo indefinido: tarefa sem hora marcada perde para tarefa com hora marcada todos os dias. A reunião de melhoria ser a primeira a cair é o sinal de alerta.
Quais indicadores mostram que o programa está morrendo?
Cinco bastam: taxa de sugestão por pessoa, taxa de participação, tempo médio de resposta, taxa de implantação e taxa de recusa explicada. O tempo médio de resposta é o que antecipa melhor a queda. Acompanhe também a idade da sugestão mais antiga em aberto, porque a média esconde os casos ruins.
Por que a melhoria implantada volta ao estado anterior?
Na maioria das vezes porque o padrão não foi reescrito. A melhoria funciona enquanto a equipe original está lá. Com a rotatividade, o sucessor aprende com o colega, que ensina uma mistura do jeito antigo com o novo, e o processo regride sem que ninguém tenha decidido isso. Não há evento, então ninguém percebe.
Como reabrir um sistema de sugestão que já fechou?
Não comece pedindo sugestão. Liquide a fila antiga respondendo tudo o que ficou pendente, diga em voz alta qual mecanismo falhou, recomece em uma área só com resposta em até sete dias e implante rápido as três primeiras ideias. Só amplie depois de noventa dias de resposta dentro do prazo.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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