Metodologias & Qualidade

Exemplo de Kaizen: o evento de uma semana em detalhe

Cinco dias em uma célula de faturamento: 22,4 horas de lead time, o Pareto que achou a espera, R$ 13.952,00 de custo e o que sobrou aos 60 dias

Thiago Coutinho
Publicado em 25 de set de 2026  ·  Atualizado em 25 de set de 2026  ·  16 min de leitura

Quem procura um exemplo de Kaizen costuma encontrar a explicação do método: o que fazer na segunda, na terça, na quarta. O roteiro é a parte fácil e já está escrito em muito lugar. O que falta é a semana contada com número, com o que foi medido no dia 1, o que o time descartou no dia 3 e quanto disso ainda estava de pé dois meses depois.

Este artigo faz isso com um caso: cinco dias em uma célula de faturamento de uma distribuidora de materiais elétricos, do pedido aprovado pelo comercial até a liberação para separação. Quatro analistas, 1.240 pedidos por mês, tempo médio de 22,4 horas úteis entre a aprovação e a nota emitida.

A narrativa segue a semana inteira, mas o foco não é o roteiro. É o que aparece dentro dele. O mapa da parede tinha 9 etapas contra um procedimento de 5. O Pareto colocou 54,3% da espera em duas etapas. Os cinco porquês terminaram em uma decisão de 2019 nunca revista, e três soluções foram recusadas com número na mão.

Estão aqui também as partes que o resumo de caso costuma omitir. O que quase deu errado às 14h de quinta-feira, o que não coube na semana, o custo somado linha a linha com as horas das pessoas dentro. E a separação entre o que virou dinheiro e o que apenas virou capacidade ociosa.

Os números deste exemplo foram montados para este artigo, no formato do Kit Kaizen da Voitto. São ilustrativos e fecham entre si: a soma das etapas dá o lead time, o Pareto soma o total da espera, o custo soma as linhas declaradas e o payback sai da divisão entre os dois. Não descrevem uma empresa real.

O caso: uma célula de faturamento e o número que abriu a semana

O exemplo a seguir é um evento de cinco dias em uma distribuidora de materiais elétricos, na célula que emite nota fiscal. O escopo começa quando o pedido é aprovado pelo comercial e termina quando ele é liberado para separação no centro de distribuição. Quatro analistas, 1.240 pedidos por mês, jornada de 8 horas e 21 dias úteis.

O número que abriu o evento veio de uma reclamação de três clientes com prazo contratual: pedido aprovado na segunda-feira só era faturado na quarta. A extração do ERP dos três meses anteriores confirmou. Em 3.720 pedidos, o tempo médio entre a aprovação comercial e a emissão da nota foi de 22,4 horas úteis, quase três dias de trabalho.

Esse é o formato clássico de evento Kaizen: equipe dedicada em tempo integral, escopo estreito, prazo fechado em uma semana. O que interessa neste exemplo de Kaizen não é o roteiro, é o que aconteceu dentro dele: o que o time mediu, o que descobriu, o que descartou e quanto sobrou dois meses depois.

As duas semanas de preparo e a carta que fechou a fronteira

O evento foi marcado com 14 dias de antecedência. A preparação produziu quatro coisas concretas, nenhuma opcional.

Entrega do preparoConteúdoQuem fez
Carta do evento, uma folhaescopo, fronteira, meta, integrantes, alçada de decisãofacilitador e diretor de operações
Extração do ERP3.720 pedidos do trimestre com carimbo de hora em 4 pontosanalista de TI
Folha de verificação de campo62 pedidos acompanhados à mão, hora de entrada e saída em cada etapa3 analistas, 4 dias
Liberação de agenda3 dos 4 analistas fora da mesa a semana toda, cobertura acertadagerente administrativo

A fronteira escrita na carta evitou o problema mais comum de evento mal delimitado: o time começa no faturamento e termina discutindo a política comercial. Ficou escrito que a negociação de preço e a separação física estavam fora, e que a meta era reduzir o tempo de 22,4 para menos de 8 horas úteis.

A carta também deu alçada: o time podia decidir e gastar até R$ 5.000,00 sem consultar ninguém. Sem isso, o dia 4 vira fila de aprovações. O método de condução do evento dia a dia só funciona se a decisão couber dentro da semana. A folha de verificação, por sua vez, foi necessária porque o ERP carimbava hora em apenas 4 dos 9 pontos.

Dia 1: o mapa da parede tinha nove etapas, o procedimento tinha cinco

A manhã do dia 1 foi desenhar o fluxo na parede com cartões, uma etapa por cartão, na ordem em que acontece. O time fez isso andando pelo processo em vez de sentado na sala, que é a diferença entre desenhar o fluxo e ir ao Gemba conferir se ele é aquilo mesmo.

O mapa resultante tinha 9 etapas. O procedimento em vigor, escrito dois anos antes, descrevia 5. As 4 etapas a mais eram conferências acrescentadas ao longo do tempo, cada uma depois de um erro específico, nenhuma documentada e nenhuma revista.

Uma delas chamou atenção logo: a conferência de cadastro repetia, na mão, uma validação que o próprio ERP já fazia na emissão.

À tarde o time preencheu o mapa com os dois tempos de cada etapa, o toque (alguém trabalhando no pedido) e a espera (o pedido parado numa fila). É a estrutura do mapa do fluxo de valor aplicada a processo administrativo, com pedido no lugar de peça.

Dia 1: o que as medições mostraram

Os 62 pedidos acompanhados na semana anterior deram a média de cada etapa. A tabela abaixo é o mapa como ficou na parede ao fim do dia 1.

EtapaToque (min)Espera (min)
1. Recebimento do pedido na fila do faturamento195
2. Conferência de cadastro do cliente3180
3. Checagem de limite de crédito, no financeiro2430
4. Conferência de preço e desconto contra tabela4165
5. Liberação de desconto acima da alçada1290
6. Conferência de dados fiscais e CFOP375
7. Emissão da nota no ERP240
8. Validação do retorno da SEFAZ135
9. Envio ao CD para separação116
Total181.326

O total de 1.344 minutos é o lead time de 22,4 horas úteis: 18 minutos de trabalho e 1.326 de fila. A eficiência de fluxo fica em 1,3%.

A média esconde a cauda, e o time olhou a distribuição antes de seguir. Mediana de 17,6 horas, percentil 90 em 49,5 horas, pior caso em 71,3 horas. Oito dos 62 pedidos, 12,9%, passaram de 48 horas úteis. São esses que geram a reclamação.

Dia 2: o Pareto da espera e as quatro etapas que valiam 80%

O dia 2 começou ordenando os 1.326 minutos de espera por etapa. Nenhuma discussão de causa antes disso: primeiro localizar onde o tempo está, depois perguntar por quê.

Etapa da esperaMinutos% do total% acumulado
Checagem de limite de crédito43032,4%32,4%
Liberação de desconto acima da alçada29021,9%54,3%
Conferência de cadastro do cliente18013,6%67,9%
Conferência de preço e desconto16512,4%80,3%
Recebimento na fila do faturamento957,2%87,5%
Conferência fiscal e CFOP755,7%93,1%
Outras três etapas916,9%100,0%
Total1.326100,0%-

Duas etapas concentram 720 minutos, 54,3% de toda a espera. Quatro chegam a 80,3%. Esse é o recorte que o diagrama de Pareto entrega e é tudo que ele entrega: diz onde o tempo está parado, não diz por quê.

O time atacou as duas primeiras na semana e deixou as duas seguintes para o plano de 60 dias. Tentar as quatro teria produzido quatro soluções pela metade.

Dia 2: os cinco porquês do bloqueio de crédito

O time foi até a mesa do analista de crédito antes de montar hipótese. A caixa de entrada dele tinha 41 pedidos aguardando análise, e o hábito era abrir a fila duas vezes ao dia, às 10h e às 16h, em lote.

A partir dessa observação, a cadeia dos cinco porquês ficou assim:

  1. Por que o pedido espera 430 minutos no crédito? Porque a análise só acontece em duas janelas fixas do dia.
  2. Por que em janelas? Porque o pedido chega por e-mail e o analista agrupa para não ficar interrompido.
  3. Por que por e-mail, se o ERP tem bloqueio de crédito? Porque o bloqueio está ligado para todos os clientes, sem regra de liberação automática.
  4. Por que sem regra? Porque não existe critério escrito de liberação; cada caso é julgado individualmente.
  5. Por que não existe critério escrito? Porque depois de uma inadimplência grande em 2019 a decisão foi centralizada em uma pessoa, e a centralização nunca foi revista.

O time também levantou quanto daquele julgamento era mesmo julgamento. Dos 1.240 pedidos do mês, 1.065 eram de clientes com limite disponível e sem título vencido: 85,9% do volume passava pela análise humana para receber um sim automático. Só 175 pedidos, 14,1%, tinham algo a decidir.

Um diagrama de Ishikawa foi montado em paralelo e abandonado em 20 minutos: as causas caíam todas em método e a cadeia já estava clara.

Dia 2: a alçada de desconto de 2018 e a tabela reajustada quatro vezes

A segunda etapa do Pareto tinha uma causa diferente e mais simples de enxergar. A alçada de desconto do vendedor era 5%, definida em 2018. Desde então a tabela de preços foi reajustada quatro vezes, e o desconto que era exceção virou rotina de negociação.

O efeito aparece na contagem: 412 dos 1.240 pedidos do mês, 33,2%, tinham desconto acima de 5% e precisavam de aprovação da gerência comercial. E dessas 412 aprovações, 396 saíram sem nenhuma alteração no pedido, 96,1%.

Faixa de descontoPedidos no mêsAprovados sem alteração%
Acima de 5% até 9%33132999,4%
Acima de 9%816782,7%
Total41239696,1%

A faixa de 5% a 9% é aprovada em 99,4% das vezes: 331 pedidos por mês esperam em média 290 minutos por um carimbo que já era certo. Acima de 9% é outra história, porque ali a gerência mexe em 14 de 81 pedidos e a aprovação tem função.

Dia 3: as quatro soluções escolhidas

O time trabalhou a manhã do dia 3 com uma regra combinada: nenhuma solução que dependesse de desenvolvimento de sistema ou de decisão fora da sala. Quatro propostas sobreviveram.

SoluçãoO que fazAlcance
Regra de liberação automática no ERPlibera crédito para cliente com limite disponível e sem título vencido há mais de 5 dias1.065 pedidos/mês, 85,9%
Nova alçada de descontovendedor aprova até 9%, com registro no pedido331 de 412 aprovações, 80,3%
Conferência de cadastro por exceçãosó para cliente novo ou alterado nos últimos 90 dias88 pedidos/mês entram na conferência, 7,1%
Painel de fila e janela fixa de exceçãofila visível em tela, exceções tratadas às 9h30 e às 14h30, 30 min cadaas 175 exceções de crédito e as 81 de desconto

A quarta sustenta as outras três. Tirar a espera do caminho normal só resolve se a exceção não voltar a virar lote invisível. O painel na parede é gestão à vista no sentido literal: quem passa vê quantos pedidos estão parados, há quanto tempo e em qual exceção. Nenhuma das quatro exigiu software, projeto de TI ou mudança de organograma.

Dia 3: as três soluções descartadas e por quê

O descarte foi feito com número, não com opinião, e ficou registrado na folha do evento para não voltar à pauta na semana seguinte.

Proposta descartadaCusto estimadoMotivo do descarte
Contratar um quinto analistaR$ 5.400,00/mês com encargos98,7% do lead time é espera, não trabalho; mais gente não reduz fila de aprovação
Integração com bureau de crédito externoR$ 46.000,00 e 90 dias de fila da TIfora da janela da semana; virou item do plano de investimento
Eliminar a conferência de preçoR$ 0,0027 pedidos do trimestre tiveram erro de tabela, com R$ 31.400,00 de impacto; a etapa se paga

A primeira é a mais instrutiva. A contratação já estava aprovada para outubro e era a resposta padrão de quem olhava a fila e via pessoas ocupadas. A medição do dia 1 desmontou o argumento: os analistas estavam ocupados, mas o pedido não esperava por eles.

O terceiro descarte também importa. Nem toda conferência é desperdício, e a cultura de Lean Manufacturing aplicada sem medir costuma cortar justamente a etapa que segurava o erro.

Dia 3: o teste da tarde com onze pedidos

Antes de parametrizar qualquer coisa, o time rodou a regra no papel. Na tarde do dia 3, o analista de crédito ficou na sala e aplicou o critério na hora, em vez de esperar a janela das 16h, com o gerente comercial ao lado autorizando tudo até 9%.

Foram 11 pedidos reais entre 13h e 17h, com tempo médio de 3,2 horas da aprovação até a nota. Amostra pequena e em condição artificial, mas serviu para o que precisava: mostrar que a regra não travava em nenhum caso do dia.

O teste também produziu a única correção de desenho da semana. Dois dos 11 pedidos eram de clientes com pedido em aberto ainda não faturado, e o limite disponível no ERP não descontava esse valor. A regra ganhou uma linha a mais antes de virar parâmetro. Se essa linha aparecesse só na quinta, teria custado o dia 4 inteiro.

Dia 4: a implantação e o que quase deu errado às 14h

O dia 4 foi execução em três frentes paralelas, cada uma com dono e horário marcado, no formato de um 5W2H simples escrito no flip chart.

  • Manhã: parametrização da regra de crédito em homologação e teste com 20 pedidos históricos, pelo analista de TI e pelo analista de crédito.
  • Manhã: comunicado da nova alçada de desconto assinado pelo diretor comercial e enviado aos 14 vendedores, com a regra de registro no pedido.
  • Tarde: instalação da tela na parede do setor, montagem do painel de fila e reescrita do procedimento.

Às 14h a regra foi ligada em produção. Às 15h20, na conferência por amostra que o time tinha combinado fazer de hora em hora, apareceu o problema: três pedidos de um mesmo cliente tinham sido liberados automaticamente, e esse cliente estava em acordo de renegociação de dívida.

A regra não pegou o caso porque o acordo tinha zerado os vencimentos em aberto. Pelo critério escrito, limite disponível e nenhum título vencido, o cliente passava. Os três pedidos foram bloqueados antes de chegarem à separação, e a regra recebeu um quarto filtro, usando uma marcação de renegociação que já existia no cadastro e cobria 11 clientes.

A correção consumiu duas horas e a tela só ficou pronta às 18h40. Sem a conferência por amostra, o erro apareceria na segunda-feira, com o time desfeito e a confiança na regra perdida.

Dia 5: a medição dos cinquenta e oito pedidos

A medição do dia 5 usou os pedidos processados com a regra já em produção: os emitidos a partir das 15h20 de quinta e todos os de sexta até as 11h. Foram 58 pedidos, contados um a um na folha de verificação.

CaminhoPedidos% da amostraLead time médio
Verde, sem exceção4475,9%1,8 h
Com exceção de crédito ou desconto1424,1%6,4 h
Total58100,0%2,9 h

A média ponderada dá 2,9 horas úteis, contra 22,4 na linha de base. São 19,5 horas a menos, uma redução de 87,1%. A meta da carta do evento era ficar abaixo de 8 horas.

O tempo de toque caiu de 18 para 13 minutos, com a saída da conferência de cadastro. A eficiência de fluxo passou de 1,3% para 7,5%, multiplicada por 5,6.

Vale registrar o que esse número é: medição de dois dias, feita pelo time que fez a mudança, com todo mundo olhando. Confirma que a solução funciona, não declara resultado.

Dia 5: o padrão escrito e a apresentação de vinte minutos

A tarde de sexta foi dividida entre escrever o padrão e apresentar. O procedimento operacional padrão antigo tinha 5 etapas e não descrevia o processo real. O novo tem 6, sendo quatro do caminho normal e duas de exceção, cada uma com o critério que a dispara escrito por extenso.

As 4 conferências não documentadas que o dia 1 encontrou entraram no processo exatamente porque não havia padrão vivo para alterar. Quem quisesse acrescentar uma conferência, acrescentava.

O fechamento foi uma apresentação de 20 minutos para os três gestores, em pé na frente do mapa da parede, sem slides. Cinco pontos: o que foi medido, onde estava o tempo, o que mudou, quanto custou e o que ficou aberto.

O registro da semana coube em um relatório A3, com o mapa antes e depois, o Pareto, a cadeia causal, as quatro soluções e o plano das pendências. É a folha que o gerente usa nas verificações de 30 e 60 dias, quando ninguém lembra mais dos detalhes.

O que não coube na semana

Quatro coisas ficaram abertas na sexta-feira, e o time escreveu as quatro com dono e data antes de encerrar. Evento que termina sem lista de pendências termina fingindo que resolveu tudo.

PendênciaPor que não coubeDono e prazo
Cadastro de limite de crédito desatualizado em 217 clientes, 14,6% da base ativaexige conferência cliente a cliente com o financeiroanalista de crédito, 60 dias
Política de crédito escrita, com critério de alçadadecisão de diretoria, fora da alçada do timediretor financeiro, 45 dias
Integração com bureau de crédito externoR$ 46.000,00 e fila de TI de 90 diasgerente de TI, orçamento do ano seguinte
Conferência de preço e conferência fiscal, etapas 3 e 4 do Paretoescopo deliberadamente deixado de forapróximo evento, sem data

A primeira é a que mais ameaça o ganho: com limite errado no cadastro, a regra automática libera o que não deveria ou trava o que deveria passar. Os 217 clientes foram revisados em lotes semanais.

Uma quinta ideia foi recusada: organizar as pastas de rede, uma aplicação do programa 5S ao ambiente digital. Útil, mas não estava no Pareto e teria consumido um dia.

A verificação em 30 e 60 dias

As duas verificações deste exemplo de Kaizen foram feitas pelo gerente administrativo, com o time já dissolvido e de volta às mesas. É aí que se descobre se a mudança ficou no processo ou na presença das pessoas que a fizeram.

IndicadorLinha de baseDia 530 dias60 dias
Lead time médio, horas úteis22,42,93,43,1
Redução sobre a linha de base-87,1%84,8%86,2%
Pedidos faturados no mesmo dia útil21,4%-82,1%88,6%
Pedidos acima de 8 horas úteis79,0%-3,8%2,9%
Coletas extras de transportador por mês31-94

A subida de 2,9 para 3,4 horas no trigésimo dia é esperada e saudável. A semana do evento mede com atenção máxima; o mês cheio inclui cliente novo, desconto alto e pico de fechamento.

A queda de volta para 3,1 aos 60 dias veio da limpeza do cadastro, que aumentou a fatia no caminho verde. Os 46 pedidos acima de 8 horas do primeiro mês foram rastreados: 31 eram de clientes com limite desatualizado.

O custo do evento, linha a linha

Evento Kaizen costuma ser apresentado como barato porque ninguém soma o tempo das pessoas. Somando, este exemplo de Kaizen fica assim.

Linha de custoCálculoValor
3 analistas de faturamento40 h cada x R$ 38,00R$ 4.560,00
1 analista de crédito40 h x R$ 46,00R$ 1.840,00
1 facilitador de melhoria40 h x R$ 62,00R$ 2.480,00
Gerente comercial, participação parcial6 h x R$ 95,00R$ 570,00
Analista de TI do ERP12 h x R$ 71,00R$ 852,00
Hora extra de cobertura da operação24 h x R$ 47,50R$ 1.140,00
Tela de 32 polegadas e suporteitem únicoR$ 1.480,00
Almoço da equipe5 dias x 5 pessoas x R$ 34,00R$ 850,00
Papelaria, impressão do mapa em A0, cronômetrositem únicoR$ 180,00
Total-R$ 13.952,00

Pessoas respondem por R$ 11.442,00, 82,0% do total; material e alimentação, por R$ 2.510,00. A hora extra sai do adicional de 25% sobre a hora normal de R$ 38,00, que dá R$ 47,50. Não entrou na conta o quarto analista que ficou na mesa, porque fazia o trabalho de sempre; entraram as 24 horas extras de cobertura, porque foram geradas pelo evento.

O ganho e o que não pode ser chamado de ganho

A parte honesta de um exemplo com números é separar o que entra no caixa do que apenas melhora o processo. Duas linhas se sustentam como ganho recorrente.

Linha de ganhoCálculoPor mês
Vaga do quinto analista, canceladaR$ 5.400,00 com encargosR$ 5.400,00
Coletas extras de transportador evitadas27 coletas x R$ 210,00R$ 5.670,00
Total recorrente-R$ 11.070,00

São R$ 132.840,00 ao ano contra R$ 13.952,00 de custo, com payback em 38 dias. A vaga cancelada é custo evitado, não redução de despesa: ninguém vai ver essa linha cair no demonstrativo, e isso precisa estar dito para quem aprova.

Três efeitos ficaram de fora de propósito. As 103,3 horas mensais liberadas pelo corte de 5 minutos no toque equivalem a 0,62 de um analista, e capacidade só vira dinheiro se alguém decidir o que fazer com ela. As 22,1 horas mensais do gerente comercial, antes gastas aprovando 331 descontos previsíveis, estão na mesma situação.

O terceiro é o mais tentador de contabilizar errado. No primeiro fechamento, 74 pedidos que teriam caído no mês seguinte foram faturados dentro do mês, R$ 316.720,00 em nota. É antecipação de uma vez só, e somar isso ao payback seria mentira aritmética.

O desdobramento para compras, nove semanas depois

O segundo evento aconteceu nove semanas depois, no processo de compras, da requisição até o pedido colocado no fornecedor. Lead time de 5,2 dias úteis, mesmo padrão aparente: alçada baixa, aprovação centralizada, fila invisível.

Durou três dias em vez de cinco, porque a extração do ERP e a folha de verificação já tinham formato pronto e o facilitador e dois integrantes eram os mesmos. O resultado foi 1,9 dia útil, redução de 63,5%.

Transferiu-se o formato, não a solução: a carta de uma folha com fronteira e alçada, a medição separando toque de espera, e o painel de fila com janela fixa para exceção.

A causa era outra. O Pareto de compras apontou o cadastro de fornecedor como maior espera, 38,2% do total, e não a alçada, que ficou em terceiro. Quem entrou esperando repetir a regra automática perdeu meio dia defendendo uma solução que o dado não sustentava.

É a diferença entre desdobrar um método e copiar um resultado. O Kaizen viaja bem de área para área; a contramedida raramente viaja. Quem for usar este exemplo de Kaizen como molde deve copiar a medição, nunca a contramedida.

Perguntas frequentes

Quanto dura um evento Kaizen?
Cinco dias úteis é o formato mais comum, com a equipe dedicada em tempo integral. No exemplo deste artigo foram cinco dias de evento mais duas semanas de preparo e duas verificações, aos 30 e aos 60 dias. O segundo evento da mesma empresa, em compras, durou três dias porque o formato de medição e a carta de escopo já estavam prontos.
Quanto custa um evento Kaizen de uma semana?
No exemplo, R$ 13.952,00 no total, sendo R$ 11.442,00 de tempo das pessoas (82,0%) e R$ 2.510,00 de material e alimentação. O maior erro de orçamento é não somar as horas dos participantes: cinco pessoas em tempo integral por 40 horas custam mais do que qualquer item comprado na semana.
Qual é o resultado esperado de um evento Kaizen?
Depende de quanto do tempo do processo é espera e não trabalho. No exemplo, 98,7% do lead time era fila, e por isso a redução chegou a 87,1% na semana e 86,2% aos 60 dias. Em processo onde o tempo é majoritariamente de execução, o ganho de um evento de cinco dias costuma ficar em faixas bem menores.
O que se mede no dia 1 de um Kaizen?
Separadamente, o tempo de toque (alguém trabalhando) e o tempo de espera (o item parado em fila), etapa por etapa, com o processo desenhado como ele é e não como está no procedimento. No exemplo deram 18 minutos de toque e 1.326 de espera, uma eficiência de fluxo de 1,3%. Vale medir também a mediana e o percentil 90, porque a média esconde a cauda.
Kaizen funciona em processo administrativo?
Funciona, e costuma render mais do que em chão de fábrica, porque processo administrativo raramente foi medido. O exemplo deste artigo é uma célula de faturamento: o pedido substitui a peça, a caixa de e-mail substitui o estoque intermediário e a aprovação centralizada substitui o gargalo de máquina. O método de medição é o mesmo.
Por que o resultado piora depois da semana do evento?
Porque a medição do dia 5 acontece com o time presente e atento, em amostra pequena e em dois dias escolhidos. No exemplo, o lead time foi de 2,9 horas no dia 5 e 3,4 horas aos 30 dias, quando entraram cliente novo, desconto alto e pico de fechamento. Uma perda de 10% a 20% na transição é normal; perda maior indica que o padrão não ficou de pé.
O que fazer com o que não coube na semana?
Escrever com dono e data antes de encerrar a sexta-feira. No exemplo ficaram quatro pendências: limpeza de 217 cadastros de limite, política de crédito escrita, integração com bureau externo e as duas etapas do Pareto deixadas fora do escopo. Evento que fecha sem lista de pendências finge ter resolvido tudo e devolve o problema em três meses.
Como saber se uma solução deve ser descartada?
Com número e com registro do motivo. No exemplo, contratar um analista foi descartado porque 98,7% do lead time era espera, não trabalho; a integração externa saiu por custo e prazo; e cortar a conferência de preço foi recusado porque ela pegava 27 erros por trimestre, com R$ 31.400,00 de impacto. Nem toda conferência é desperdício.
Preciso de aprovação da diretoria durante o evento?
Não deve precisar, e é isso que a carta do evento resolve. No exemplo, o time recebeu alçada para decidir e gastar até R$ 5.000,00 sem consultar ninguém. Sem alçada prévia, o dia 4 vira fila de aprovação e a implantação escorrega para a semana seguinte, quando a equipe já se desfez.
Dá para repetir o mesmo Kaizen em outra área?
O formato viaja, a contramedida quase nunca. Nove semanas depois, a mesma empresa repetiu o evento em compras e copiou três coisas: a carta de uma folha, a medição separando toque de espera e o painel de fila com janela fixa. A causa era outra, o cadastro de fornecedor com 38,2% da espera, e quem chegou esperando repetir a solução anterior perdeu meio dia.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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