Metodologias & Qualidade

Case Master Black Belt: disponibilidade de soda cáustica numa planta de cloro e soda

Um projeto DMAIC numa planta de cloro e soda que atacou a perda de licor nas eletrólises e o consumo de soda no abatimento de cloro, da medição que dobrou a perda conhecida ao controle de temperatura que reduziu 220 t/ano.

Thiago Coutinho
Publicado em 1 de out de 2026  ·  Atualizado em 1 de out de 2026  ·  17 min de leitura
Thiago Coutinho com o livro Guia Lean Seis Sigma diante do letreiro Voitto, com o texto Case Master Black Belt: disponibilidade de soda cáustica numa planta de cloro e soda sobre fundo escuro à esquerda

Uma planta de cloro e soda produz soda cáustica junto com o cloro, na mesma célula e na mesma proporção. Não dá para fabricar mais soda quando falta. A disponibilidade de soda cáustica para vendas depende de quanto produto se perde no caminho e de quanto a própria planta consome.

Este case acompanha um projeto da Voitto Química que atacou as duas saídas ao mesmo tempo. De um lado, a perda de licor nas eletrólises, com linha de base de 535 t/mês. Do outro, o consumo de soda no abatimento de cloro, com média de 725 t/mês.

O resultado declarado foi um saving de R$ 4,0 milhões por ano na área 325 e de R$ 250 mil por ano na área 225, além de perdas de licor reduzidas a uma fração do patamar inicial. O caminho passou por uma medição refeita, uma capabilidade com nível sigma de 0,49 e uma ANOVA entre turnos.

O relato segue as cinco fases do método DMAIC. Para cada análise, o texto explica como ler o resultado e que decisão ele produziu, incluindo o que a apresentação deixou em aberto.

Procedência: trata-se de um projeto real de aluno da formação Master Black Belt da Voitto, descaracterizado para proteger o cliente. Os números vêm da apresentação original. O que foi acrescentado para explicar, como o contexto do processo e exemplos de cálculo, está identificado como ilustrativo.

Cloro, soda e hidrogênio saindo da mesma célula: o processo por trás do problema

A Voitto Química opera uma planta de cloro e soda. O processo parte de uma salmoura, água com sal dissolvido, que passa por células eletrolíticas. A corrente elétrica separa a molécula de sal e gera três produtos ao mesmo tempo: cloro gasoso, hidrogênio e soda cáustica.

A soda sai da célula diluída, misturada com sal residual. Essa mistura é chamada de licor de célula. Depois ela é concentrada e vira o produto comercial que segue para clientes de papel, alumínio, química e saneamento.

Como os três produtos nascem juntos, a planta não decide produzir mais soda e menos cloro. A quantidade de soda é amarrada à carga das células. Toda tonelada que se perde no caminho é uma tonelada que já custou energia elétrica e sal, e não volta.

Existe ainda o consumo cativo. Parte da soda produzida é usada dentro da própria planta, no abatimento de cloro. É ali que o cloro residual, que não pode ir para a atmosfera, é neutralizado com soda. Cada tonelada usada assim deixa de ser vendida.

A explicação acima é o contexto geral do processo, montado para este artigo a partir da descrição das etapas na apresentação. Os números que aparecem nas próximas seções são os da apresentação original do projeto.

Duas saídas para a mesma soda: perda de licor e consumo no abatimento

O problema foi escrito assim na apresentação: baixa disponibilidade de soda para vendas devido a perdas e consumos cativos, elevando custos operacionais e despesas comerciais. A frase junta duas rotas diferentes pelas quais o produto some antes da expedição.

A primeira é a perda de licor nas eletrólises. Licor vaza de células, escorre para canaletas, chega a poços e à bacia de efluente alcalino. A segunda é o consumo de soda no abatimento de cloro, que cresce quando chega mais cloro residual às torres de lavagem.

O efeito comercial é direto. Com menor disponibilidade de soda cáustica, a área de vendas deixa de atender pedidos ou precisa comprar produto de terceiros para honrar contratos. Daí a menção às despesas comerciais, e não só ao custo de produção.

CampoConteúdo registrado no projeto
EmpresaVoitto Química, petroquímica com planta de cloro e soda
ProblemaBaixa disponibilidade de soda para vendas por perdas e consumo cativo
KPI 1Perda de licor na eletrólise, em toneladas por mês
KPI 2Consumo de soda no abatimento de cloro, em toneladas por mês
Linha de base535 t/mês de perda de licor e 725 t/mês de consumo no abatimento
MetaNão identificada no projeto
EscopoEletrólises 220 e 320, bacia alcalina e abatimentos 225 e 325
Ganho declaradoR$ 4,0 milhões por ano na área 325 e R$ 250 mil por ano na área 225

Um charter com KPI em tonelada e a linha da meta em branco

O objetivo declarado foi aumentar a disponibilidade de soda para vendas reduzindo perdas e consumo cativo. Os dois KPIs foram bem escolhidos: ambos em toneladas por mês, ambos ligados a um ponto físico da planta e ambos somáveis no mesmo saldo de produto.

A linha da meta, porém, ficou registrada como não identificada no projeto. É um achado relevante para quem estuda o case. Sem meta, a equipe não tem critério para dizer quando parar, e a controladoria não tem como comparar o resultado com o esperado.

Um charter completo amarra problema, métrica, meta, escopo, prazo e ganho estimado antes da primeira coleta. Ferramentas de apoio para essa redação aparecem em IA e project charter. Aqui, o ganho só foi quantificado no fim, a partir do que a melhoria entregou.

Isso não invalida o projeto. Mostra, porém, que o resultado financeiro foi lido depois, e não negociado antes. Num programa corporativo, essa ordem costuma gerar discussão na validação do saving.

Quatro pontos de fuga dentro do escopo e tudo o mais do lado de fora

O escopo de entrada listou quatro lugares. Perdas de licor de células nas eletrólises das áreas 220 e 320. Perdas de licor na bacia alcalina. Consumo de soda nos abatimentos das áreas 225 e 325.

O escopo de saída foi curto: outros produtos e reagentes, outras áreas, outros processos. A equipe deixou de fora, por exemplo, a concentração da soda e a expedição, mesmo sabendo que também existem perdas por lá.

Dentro do escopoPor que entrouFora do escopo
Eletrólise 220Perda de licor por vazamento de célulaOutros produtos
Eletrólise 320Perda de licor por vazamento de célulaOutros reagentes
Bacia alcalinaDestino final do licor perdidoOutras áreas
Abatimento 225Consumo cativo de sodaOutros processos
Abatimento 325Consumo cativo de soda-

A apresentação não traz um SIPOC desenhado. Um mapa de alto nível ajudaria a mostrar que eletrólise e liquefação de cloro são fornecedoras do abatimento. O passo a passo dessa ferramenta está em como fazer um SIPOC. Essa ligação entre etapas reaparece na fase de Melhoria.

Seis frentes de ataque declaradas ainda na Definição

A apresentação traz, ainda na fase de Definição, uma lista de seis frentes de estratégia. Ela funciona como o mapa de causas priorizadas do projeto. Cada frente aponta para um mecanismo físico de perda ou de consumo.

FrenteOnde atuaKPI afetado
Procedimento para medir perdas de licorEletrólisesPerda de licor
Eliminação de vazamentos de licorEletrólisesPerda de licor
Recuperação de soda abaixo de 50 g/l de NaOH do poço de licorPoço de licorPerda de licor
Correção do cálculo do consumo de soda na placa de vazãoAbatimento 225Consumo no abatimento
Normalização do dimensional dos selos de cloroAbatimentoConsumo no abatimento
Revisão de vazões, set point de nível e sub resfriamento na liquefaçãoLiquefação 225Consumo no abatimento

Duas frentes chamam atenção. A primeira e a quarta não reduzem perda nenhuma: são correções de medição. A equipe reconheceu cedo que parte do problema estava no número, e não no processo.

A última frente explica uma ligação pouco óbvia. Na liquefação, o cloro gasoso é resfriado até virar líquido. O que não condensa segue como gás residual para o abatimento. Liquefação mais eficiente significa menos cloro para neutralizar e, portanto, menos soda consumida.

A perda que era declarada, não medida: o salto de 206 para 535 t/mês

O primeiro gráfico da fase de Medição mostra a perda média mensal de licor na eletrólise. Os valores históricos eram 153 t/mês em 2005, 161 em 2006 e 206 de janeiro a novembro de 2007. Em dezembro de 2007, a linha de base saltou para 535 t/mês.

A nota no rodapé do gráfico explica o salto. Antes do plano de teste para medição de perdas, a planta declarava um valor constante por dia. O número histórico era uma convenção contábil, e não uma leitura do processo.

PeríodoPerda média de licor (t/mês)Origem do número
2005153Valor declarado
2006161Valor declarado
Jan a nov de 2007206Valor declarado
Dez de 2007535Linha de base medida
Jan de 2008585Medido
Fev de 2008507Medido
Mar de 2008501Medido

A diferença entre 206 e 535 é de 329 t/mês, um aumento de 159,7%. Nenhum vazamento novo apareceu em dezembro. O que apareceu foi a medição. É o mesmo princípio de uma análise do sistema de medição: antes de atacar o processo, garantir que o número descreve o processo.

A média dos três meses seguintes, 531 t/mês, confirma que 535 não foi um ponto isolado. A perda real era mais que o dobro da que constava nos relatórios.

725 t/mês no abatimento e uma série histórica que começa em 2000

O segundo KPI tem histórico mais longo. O gráfico mostra o consumo de soda no abatimento desde 2000: 2.031 toneladas naquele ano, 1.331 em 2001, depois uma faixa entre 1.098 e 1.260 até 2005, 962 em 2006 e 1.291 em 2007.

Dois marcos aparecem na série. O primeiro é um projeto de substituição do sistema de água gelada, entre 2000 e 2001. O segundo é a substituição dos sistemas de liquefação de cloro, entre 2007 e 2008. Os dois investimentos coincidem com quedas no consumo.

Mês de 2008Consumo no abatimento (t)
Janeiro792
Fevereiro682
Março702
Média do 1º trimestre725

A média do primeiro trimestre de 2008, (792 + 682 + 702) / 3, dá 725,3 t/mês. Foi a linha de base adotada. A escolha faz sentido: depois do segundo investimento, o processo era outro, e misturar 2007 na base inflaria o ganho do projeto.

A leitura da série reforça a hipótese da frente de liquefação. Toda vez que a planta melhorou o frio, o consumo no abatimento caiu.

Capabilidade de um consumo que só tem limite superior: Box-Cox com lambda 0,5

A equipe rodou um estudo de capabilidade do consumo na área 325. Foram 282 registros, com média de 32,055 e limite superior de especificação de 12, na unidade do registro da planta. Não há limite inferior: consumir pouca soda no abatimento não é defeito.

Os dados não seguiam distribuição normal. O consumo é assimétrico, com muitos registros moderados e uma cauda longa de valores altos. Aplicar a fórmula normal direto nesse caso distorce a estimativa da fração fora do limite.

A saída foi a transformação de Box-Cox com lambda 0,5, que equivale a tirar a raiz quadrada de cada valor. O limite de 12 virou 3,4641, a raiz de 12. A média transformada ficou em 5,3459 e os desvios em 1,14834 no curto prazo e 1,86781 no longo prazo.

O raciocínio completo de índices e transformações está em capabilidade do processo. O ponto aqui é que a transformação não muda o processo. Ela só coloca os dados numa escala onde a curva normal descreve bem o comportamento.

Nível sigma 0,49 e 84% dos registros acima do limite: como ler o relatório

O relatório traz dois blocos. O primeiro, de capabilidade potencial, usa a variação de curto prazo. O segundo, de capabilidade global, usa toda a variação do período. Os dois contam histórias parecidas, com intensidades diferentes.

IndicadorValorComo ler
Z.USL de curto prazo-1,64Média 1,64 desvio acima do limite
Cpk-0,55Negativo porque a média passou do limite
Z.USL global-1,01Média 1,01 desvio global acima do limite
Ppk-0,34Mesmo sinal, com a variação total
Fora do limite observado84,40%Contagem direta dos 282 registros
Fora do limite esperado, global84,32%Estimativa pela curva transformada
Fora do limite esperado, curto prazo94,94%Estimativa com o desvio de curto prazo
Nível sigma0,49Z global de -1,01 somado ao deslocamento de 1,5

A conta confere: (3,4641 - 5,3459) / 1,86781 dá -1,0075, e dividido por três dá Ppk de -0,336. Com o desvio de curto prazo, o Cpk sai em -0,546. A curva normal com Z de -1,0075 deixa 84,3% acima do limite.

Índice negativo quer dizer que a média do processo está do lado errado do limite. Não se trata de um processo largo demais. Ele está centrado num patamar que a planta considera inaceitável. O nível sigma de 0,49 segue a convenção explicada em nível sigma.

Três turnos e uma pergunta: a ANOVA do consumo na área 225

Na fase de Análise, a pergunta foi se o consumo de soda no abatimento da área 225 dependia do turno. A planta opera em três turnos: das 7h às 15h, das 15h às 23h e das 23h às 7h. Se o turno pesa, a causa está em prática operacional, e não só em equipamento.

A ferramenta escolhida foi a ANOVA de um fator, que compara as médias de mais de dois grupos ao mesmo tempo. Em paralelo, a equipe rodou um teste de igualdade de variâncias, porque um turno pode ter a mesma média e operar de forma muito mais instável.

TurnoRegistrosMédiaDesvio padrão
7h às 15h2718,8015,71
15h às 23h2719,6114,71
23h às 7h2705,9212,41

A tabela da ANOVA mostra soma de quadrados de 2.039 entre turnos e 166.508 dentro dos turnos, com 2 e 809 graus de liberdade. O quadrado médio entre turnos é 1.020 e o residual, 206. A razão F é 1.020 / 206 = 4,95, com valor-p de 0,007.

No teste de variâncias, Bartlett deu valor-p de 0,000 e Levene, 0,010. Média e variância diferem entre turnos. A lógica de leitura do valor-p está em teste de hipótese.

F de 4,95 com R² de 1,21%: diferença real, peso pequeno

O valor-p de 0,007 diz que a diferença entre turnos dificilmente é acaso. O R² de 1,21%, porém, diz que o turno explica pouco da variação total. A conta é 2.039 / 168.547. Os outros 98,8% vêm de dentro de cada turno.

Os dois números juntos produzem uma decisão precisa. O turno merece atenção, mas não é a causa principal. Trocar escala ou treinar só uma equipe não resolveria o consumo. O problema maior é a instabilidade que existe em todos os turnos.

O turno da madrugada teve a menor média, 5,92, e o menor desvio, 12,41. A diferença para o turno das 15h às 23h é de 3,69, ou 38,4% abaixo. O desvio da manhã, 15,71, é 1,27 vez o da madrugada.

Essa estratificação sugere uma leitura útil. A madrugada tem menos intervenções, menos manobras e carga mais estável. A prática da madrugada passou a servir de referência, e o acompanhamento turno a turno entrou no plano de controle.

Vazamento eliminado e licor recuperado: as distribuições da eletrólise 220

Na frente de perda de licor, as ações foram eliminar vazamentos nas células e recuperar a soda do poço de licor. O poço recebe drenagens com concentração abaixo de 50 g/l de NaOH, que antes seguiam como efluente para a bacia alcalina.

O resultado foi mostrado com curvas de densidade por trimestre. Cada curva representa a distribuição dos registros de perda daquele período. Curva mais alta e mais estreita significa perda menor e mais previsível.

PeríodoMédia (t)Desvio (t)Registros
20071,6061,21021
1º tri de 20080,50890,492248
2º tri de 20080,31840,194021
3º tri de 20080,22450,116726

A média caiu de 1,606 para 0,2245 t, redução de 86,0%. O desvio caiu 90,4%. A apresentação resume como redução de 1,6 t para 0,2 t/mês. A queda foi contínua trimestre a trimestre, sinal de ações que se somaram.

Vale um cuidado de leitura. A linha de base de 535 t/mês soma toda a eletrólise, e as médias acima são por registro. A apresentação não reconcilia as duas bases, e quem for replicar o case deve fazer essa ponte de forma explícita.

Por que a eletrólise 320 piorou antes de melhorar

A área 320 teve trajetória diferente. A média de 2007 era 1,552 t. No primeiro trimestre de 2008 subiu para 1,811 t e, no segundo, para 2,111 t. Só no terceiro trimestre caiu para 0,4754 t, com desvio de 0,2093 t.

PeríodoMédia (t)Desvio (t)Registros
20071,5520,918836
1º tri de 20081,8111,24871
2º tri de 20082,1111,28626
3º tri de 20080,47540,209316

A redução entre 2007 e o terceiro trimestre foi de 69,4% na média e de 77,2% no desvio. A apresentação arredonda para 1,5 t e 0,4 t/mês, o que dá 73,3%.

A alta dos dois primeiros trimestres não está explicada na fonte. Uma hipótese compatível com a nota da fase de Medição é que a nova rotina de medição passou a registrar perdas que antes não apareciam. Essa leitura é uma interpretação deste artigo.

A lição prática vale para qualquer projeto. Quando se melhora a medição e o processo ao mesmo tempo, o indicador pode subir antes de cair. Quem avalia o projeto pelo primeiro trimestre conclui o oposto do que aconteceu.

Selos de cloro e placa de vazão: a carta X barra S da área 325

No abatimento da área 325, as frentes foram normalizar o dimensional dos selos de cloro e corrigir o cálculo da placa de vazão. Selo com dimensão fora do padrão deixa passar cloro para o sistema de abatimento, e cada fuga consome soda.

O resultado foi mostrado numa carta de controle X barra S de janeiro a setembro de 2008, dividida em antes e depois. Essa carta acompanha a média e o desvio de cada subgrupo, e mostra se a mudança deslocou o processo de forma sustentada.

No trecho anterior, a linha central fica perto de 32, coerente com a média de 32,055 do estudo de capabilidade. Os pontos oscilavam entre perto de 0 e perto de 80. Depois da mudança, a linha central caiu para 10,3, com limite superior de 30,2 e limite inferior calculado de -9,6.

A queda da linha central de 32,055 para 10,3 equivale a 67,9%. A distância entre linha central e limites, 19,9 para cada lado, mostra uma faixa bem mais estreita que a do período anterior.

A carta também mostra dois surtos depois da mudança, em maio e em setembro, com pontos acima de 30,2. O processo melhorou de patamar, mas ainda tem causas especiais. O ganho registrado nesta área foi um saving de R$ 4,0 milhões por ano.

Dois graus e trinta e três décimos a menos no liquefator: o ganho da área 225

Na área 225, a equipe atacou a liquefação de cloro. Revisou as vazões de sucção e descarga, otimizou o set point de nível dos liquefatores e passou a controlar a temperatura de sub resfriamento do fluido refrigerante.

O indicador escolhido foi a temperatura de saída de cloro do liquefator terciário. Quanto mais frio o cloro sai, mais ele condensa, e menos gás residual chega ao abatimento.

PeríodoTemperatura média (°C)Desvio (°C)Registros
Antes-41,923,90119.865
Depois-44,253,89333.488

A média caiu 2,33 °C e o desvio ficou praticamente igual. É uma mudança de posição, e não de dispersão. Com mais de 53 mil leituras, uma diferença dessa ordem é estatisticamente sólida, e ela tem um mecanismo físico que a explica.

O ganho registrado foi de 220 t/ano de soda a menos no abatimento, equivalente a R$ 250 mil por ano. Como exemplo ilustrativo, montado para este artigo, isso implica um valor de cerca de R$ 1.136 por tonelada de soda.

Historiador de processo, planilha turno a turno e gestão diária de alarmes

A fase de Controle teve três entregas. A primeira foi implantar o modelo do sistema de liquefação no historiador de processo da planta, o sistema que guarda as leituras dos instrumentos em tempo real. A operação passou a ver as variáveis da liquefação on-line.

A segunda foi uma planilha sistematizada de avaliação dos principais indicadores de desempenho, com acompanhamento turno a turno. Ela reúne dados de campo, análises de laboratório e dados do painel de controle num índice de desempenho por turno.

A terceira foi uma planilha de acompanhamento diário de gestão de alarmes. Ela conta os alarmes por hora e por turno e lista os mais frequentes. Alarme que dispara o tempo todo deixa de ser ouvido, e o desvio passa despercebido.

Mecanismo de controleO que monitoraLiga com
Modelo da liquefação no historiadorVariáveis da liquefação on-lineGanho da área 225
Planilha de KPIs turno a turnoÍndice de desempenho por turnoAchado da ANOVA
Gestão diária de alarmesAlarmes por hora, turno e instrumentoEstabilidade do abatimento

Cada mecanismo responde a um achado das fases anteriores. É a lógica de um plano de controle: medir o que sustenta o ganho e definir quem reage quando o indicador sai da faixa.

Placar do projeto: licor, consumo cativo e R$ 4,25 milhões por ano

O resumo de resultados junta as duas frentes. O ganho financeiro declarado soma R$ 4,0 milhões da área 325 e R$ 250 mil da área 225, total de R$ 4,25 milhões por ano.

IndicadorAntesDepoisVariação
Perda de licor, eletrólise 2201,6 t/mês0,2 t/mês-87,5%
Perda de licor, eletrólise 3201,5 t/mês0,4 t/mês-73,3%
Linha central do consumo na área 32532,05510,3-67,9%
Temperatura de saída do liquefator terciário-41,92 °C-44,25 °C-2,33 °C
Consumo de soda na área 225--220 t/anoR$ 250 mil/ano
Saving na área 325--R$ 4,0 milhões/ano

Os percentuais das perdas de licor usam os números arredondados da própria apresentação. Pelas médias exatas dos gráficos, as reduções são de 86,0% e 69,4%.

Soda que se perde ou se consome sem necessidade é um caso típico de custo da má qualidade. A apresentação não detalha como o saving de R$ 4,0 milhões foi calculado. O roteiro para essa conta está em como calcular o retorno financeiro de um projeto Seis Sigma.

Como exercício ilustrativo, se o valor implícito de R$ 1.136 por tonelada da área 225 valesse também para a 325, o saving equivaleria a cerca de 3.520 t/ano. A fonte não traz esse número.

O que este case ensina a quem conduz um Master Black Belt em planta contínua

  1. Medir a perda antes de reduzir a perda. O salto de 206 para 535 t/mês mostra que o histórico declarado escondia mais da metade do problema.
  2. Ligar etapas que o organograma separa. O maior ganho do abatimento veio da liquefação, área que fornece o gás residual.
  3. Ler valor-p e R² juntos. A ANOVA dos turnos deu diferença significativa com 1,21% de explicação, o que direciona sem exagerar.
  4. Esperar o indicador piorar quando a medição melhora. A eletrólise 320 subiu dois trimestres antes de cair 69,4%.
  5. Escrever a meta no charter. A meta em branco obrigou a ler o ganho só no fim.
  6. Fechar cada ganho com um mecanismo de controle que alguém olha todo dia.

Um projeto Seis Sigma em indústria de processo contínuo raramente tem uma causa única. Este teve seis frentes, duas delas de medição, e o ganho veio da soma. O papel do Master Black Belt foi coordenar essas frentes sem perder a régua comum: a disponibilidade de soda cáustica para venda, em toneladas.

Perguntas frequentes

O que é disponibilidade de soda cáustica numa planta de cloro e soda?
É a quantidade de soda que sobra para venda depois de descontadas as perdas e o consumo interno. Como a soda nasce junto com o cloro na eletrólise, a produção não aumenta por decisão comercial. Neste case, a disponibilidade era reduzida por perda de licor nas eletrólises e pelo consumo de soda no abatimento de cloro.
Por que a perda de licor saltou de 206 para 535 t/mês?
Porque a forma de medir mudou. Até novembro de 2007, a planta declarava um valor constante por dia. A partir de dezembro, com o plano de teste de medição, a perda passou a ser medida. Nenhum vazamento novo surgiu: o salto de 329 t/mês mostra quanto o número declarado subestimava a perda real.
O que é abatimento de cloro e por que ele consome soda?
É o sistema que neutraliza o cloro residual que não pode ser liberado para a atmosfera. O gás passa por torres de lavagem com soda cáustica, que reage com o cloro. Quanto mais cloro chega ao abatimento, mais soda é consumida. Por isso a eficiência da liquefação afeta diretamente o consumo.
Por que usar a transformação de Box-Cox na análise de capabilidade?
Porque o consumo no abatimento não seguia distribuição normal, com cauda longa de valores altos. A Box-Cox com lambda 0,5 aplica a raiz quadrada aos dados e ao limite. O limite de 12 virou 3,4641. Na escala transformada, a curva normal descreve bem os dados e a fração fora do limite fica confiável.
O que significa um Cpk negativo?
Significa que a média do processo está além do limite de especificação. Neste case, a média transformada de 5,3459 ficava acima do limite de 3,4641. O Cpk de curto prazo saiu em -0,55 e o Ppk em -0,34. O processo não era só variável: estava centrado num patamar inaceitável.
Como se chega ao nível sigma de 0,49?
Pelo Z global de -1,01, que mede quantos desvios a média está do limite, somado ao deslocamento convencional de 1,5. A conta é -1,01 + 1,5 = 0,49. Esse nível corresponde a cerca de 84% dos registros acima do limite, o mesmo que a contagem observada de 84,40%.
Se o valor-p da ANOVA foi 0,007, por que o turno não virou a causa principal?
Porque o R² foi de 1,21%. O turno faz diferença estatisticamente real, mas explica pouco da variação total, que vem quase toda de dentro de cada turno. A decisão foi acompanhar o desempenho turno a turno e usar a madrugada como referência, sem tratar o turno como raiz do problema.
Por que a eletrólise 320 piorou nos primeiros trimestres de 2008?
A apresentação não explica. A média subiu de 1,552 t em 2007 para 2,111 t no segundo trimestre e caiu para 0,4754 t no terceiro. Uma hipótese compatível com a mudança de medição é que perdas antes invisíveis passaram a ser registradas. Essa leitura é uma interpretação, não um dado da fonte.
Como a temperatura do liquefator reduziu o consumo de soda?
Cloro mais frio condensa mais, e menos gás residual segue para o abatimento. A temperatura média de saída do liquefator terciário caiu de -41,92 °C para -44,25 °C, com o desvio quase igual. O ganho registrado foi de 220 t/ano de soda, equivalentes a R$ 250 mil por ano.
O que ficou implantado na fase de Controle?
Três mecanismos. O modelo da liquefação no historiador de processo, com monitoramento on-line. Uma planilha de avaliação dos principais indicadores turno a turno. E uma planilha de acompanhamento diário de alarmes, que conta disparos por hora e por turno e aponta os instrumentos que mais alarmam.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…