Metodologias & Qualidade

IA no project charter: o que oito rascunhos mostraram e o que revisar campo a campo

A gente pediu o mesmo termo de abertura a dois modelos de linguagem, oito vezes. O que voltou bom, onde a solução se escondeu, o que ficou em aberto e a ficha de revisão para usar no seu próximo charter.

Thiago Coutinho
Publicado em 25 de set de 2026  ·  Atualizado em 6 de out de 2026  ·  23 min de leitura
Thiago Coutinho de blazer e crachá, sorrindo diante do banner de um congresso de gestão e projetos, com o texto IA no project charter: o rascunho em minutos e o que revisar sempre sobre fundo escuro à esquerda

Meu primeiro project charter começou com uma pergunta. Eu estava na Votorantim Metais, tinha acabado de conhecer o programa Seis Sigma e fui procurar o Master Black Belt da empresa. Acabei fazendo o White Belt à frente de um projeto. E a pergunta que levei a ele já entregava o meu ponto de partida: muita vontade e nenhum problema medido.

Quem pede um charter a um modelo de linguagem hoje está no mesmo lugar. Tem a vontade e uma descrição solta da dor. Recebe de volta um documento completo em menos de um minuto. A pergunta que importa é o que veio junto sem ninguém ter pedido.

Para responder com dado, a gente fez o teste. Entregou a mesma descrição solta a dois modelos de linguagem da mesma família, um maior e um menor. Pediu o project charter seis vezes do jeito simples e duas vezes com as regras que este artigo defende. Os oito rascunhos foram guardados como voltaram.

O resultado derrubou duas afirmações que a primeira versão deste artigo, de setembro, fazia de cabeça. Nenhum dos oito inventou ganho em reais. E o campo problema, que todo mundo vigia, foi o menos contaminado. A solução do pedido foi parar no título do charter em sete dos oito.

Abaixo estão o teste com os números, o prompt que funcionou, a revisão campo a campo e uma ficha de revisão para baixar.

Dá para fazer o project charter com IA?

Dá para fazer o rascunho, e ele sai bom na redação e na estrutura. A IA não decide. Meta, escopo, patrocinador, dono do processo e critério de ganho dependem de dado e de gente que não estavam no pedido. O modelo preenche ou marca esses campos conforme o pedido.

A diferença entre preencher e marcar é o assunto deste artigo. Um campo marcado como a definir vira tarefa com dono. Um campo preenchido com algo plausível vira compromisso, e ninguém lembra depois que ele saiu de um rascunho automático.

Se o termo é novo para você, comece pelo artigo sobre o que é termo de abertura do projeto, com 13 exemplos por segmento. Se a dúvida é a máquina, veja o básico de inteligência artificial e do ChatGPT. Aqui o foco é o charter.

O que o livro chama de contrato, e por que isso pesa

No capítulo 19 do meu livro, o Guia Prático Lean Seis Sigma Black Belt, o project charter aparece com o nome de Contrato de Projeto, na seção 19.7 de Definição do Problema e Planejamento do Projeto. Logo na página 168, esse contrato "firma um acordo entre a equipe executora do projeto" e formaliza as definições de partida: cronograma, escopo e meta.

A palavra que pesa é acordo. Um contrato tem partes, e cada parte assina o que entendeu. O modelo de linguagem não é parte de nada. Não vai cobrar a meta, não responde pelo escopo e não estará na reunião do quarto mês. Ele pode redigir o charter. Fechar, só quem assina.

Na página seguinte, sobre o primeiro item do contrato, o texto é direto: "A declaração do problema refere-se a uma descrição mais específica e focada nos sintomas provenientes do problema que será abordado pela equipe." Sintoma, sem causa e sem remédio. O artigo sobre definição do problema e meta aprofunda a separação. O teste mostrou onde ela é desobedecida.

A gente levou a mesma regra para o template de charter do Kit Lean Seis Sigma da Voitto. O cabeçalho do campo problema pede "O quê, onde, quando e qual a magnitude". E completa: "baseada em dados, sem causas nem soluções". No exemplo preenchido de manutenção industrial do kit, o problema fecha com uma frase corajosa: "As causas-raiz ainda não são conhecidas."

Transcrição dos campos 3 e 4 do template de project charter do Kit Lean Seis Sigma da Voitto, no exemplo preenchido de manutenção industrial. O campo 3, declaração do problema, traz a instrução o quê, onde, quando e qual a magnitude, baseada em dados, sem causas nem soluções; o texto começa pelo tempo médio de reparo de 6,8 horas entre janeiro de 2025 e junho de 2026 e termina, em destaque, com a frase as causas-raiz ainda não são conhecidas. O campo 4, declaração da meta, reduz o tempo médio de reparo de 6,8 para 3,5 horas até 11 de dezembro de 2026.
Trechos transcritos do exemplo preenchido de manutenção industrial do Kit Lean Seis Sigma da Voitto, material de apoio ao especialista; [...] marca o que foi omitido. A meta só aparece depois de um problema com linha de base.

Os campos do project charter e quem responde por cada um

Antes do teste, o mapa. Cada campo do charter responde a uma pergunta, e cada pergunta tem um dono de fato. A última coluna resume o que voltou nos seis rascunhos do pedido simples.

CampoPergunta que respondeQuem decide de fatoO que voltou no teste
TítuloComo o projeto é chamadoTime, com o patrocinadorSolução no título em 6 de 6
ProblemaO que dói, onde e quantoTime, com dadoSintoma sem causa em 4 de 6
Linha de baseQual o valor hojeDado do sistemaNenhum valor, porque não havia dado
MetaAonde chegar e até quandoPatrocinadorZero ou percentual sem base em 4 de 6
EscopoQue processo, que linha, que unidadePatrocinador e donoImplantação da solução em 6 de 6
Fora de escopoO que não será tocadoTime e donoExclusões plausíveis, sem o porquê
PrazoAté quando, por etapaEquipe, por etapaO fim do ano virou data fechada
PatrocinadorQuem destrava recursoOrganizaçãoO próprio solicitante em 3 de 6
Dono do processoQuem fica com a rotina depoisOrganizaçãoAusente em 5 de 6
EquipeQuem trabalha no projetoGestores das áreasCargos e áreas, sem nomes
IndicadorComo o resultado será medidoQuem tem o dadoBons candidatos, fonte não conferida
Ganho esperadoQuanto vale e por qual critérioControladoriaNenhum valor em reais em 6 de 6
RiscosO que pode travarTimeGenéricos no rascunho criticado

A coluna da direita resume o teste. A IA foi bem onde o trabalho é transformar texto em texto. Escorregou onde o campo pede informação ou decisão que não estava na entrada.

O teste: a mesma descrição, oito rascunhos

O texto de entrada foi montado para o teste e imita o que chega num campo livre de pedido de projeto. Ele não é de nenhum cliente, mas o terreno eu conheço: na Votorantim Metais trabalhei com parada industrial e com o programa de manutenção autônoma. O texto foi este:

"A gente precisa implantar um sistema de gestão de estoque no almoxarifado, porque está sempre faltando peça quando a manutenção vai executar a ordem. O pessoal reclama muito. Mês passado perdemos uma parada por falta de rolamento e ficou máquina esperando. Queria um projeto para resolver isso até o fim do ano."

Olha só quanta coisa já vem decidida. A solução está na primeira oração. A causa está implícita na palavra sistema. O prazo está na última frase. E o único dado é uma ocorrência isolada, lembrada de cabeça, sem linha de base, período ou volume.

Os oito pedidos foram feitos em 01/10/2026, cada um numa conversa nova, sem contexto sobre este artigo. Seis usaram o pedido simples, três para cada modelo: "Escreva um termo de abertura de projeto (project charter) completo a partir da descrição abaixo". Dois usaram o pedido com regras, um para cada modelo. Rodar o teste sabendo a resposta esperada seria encenação, e cada número daqui em diante saiu dos textos brutos guardados.

O que voltou do pedido simples

Tamanho é a contagem de palavras. Trechos em aberto são as marcações de a confirmar, a definir, a medir ou a validar que o próprio modelo deixou no charter.

RascunhoTamanhoTrechos em abertoPatrocinadorMeta
Modelo maior, 12.049 palavras23A confirmarAcima de 95%, como referência de mercado
Modelo maior, 21.670 palavras18A confirmarZero, com exemplos de 5% e 95%
Modelo maior, 31.614 palavras26A confirmarZero, marcada como sugestão
Modelo menor, 1780 palavras0Coordenador de manutençãoZero, por 30 dias seguidos
Modelo menor, 2693 palavras0Coordenador de manutençãoSem número
Modelo menor, 3463 palavras0Coordenador de manutençãoSem número

Dois comportamentos aparecem com nitidez. O modelo maior escreveu muito e deixou entre 18 e 26 trechos em aberto. Nos três rascunhos, avisou que o sistema de estoque era solução proposta, ainda sem causa confirmada. O menor escreveu menos, não marcou nada e pôs como patrocinador o próprio coordenador que tinha feito o pedido.

Nenhum dos seis cabe em uma página. Vale a lógica de um relatório A3: o documento é curto de propósito, porque a brevidade força a decisão. Charter de duas mil palavras dilui o decidido no meio do sugerido.

O que não apareceu também é dado. Nenhum dos oito rascunhos inventou valor em reais para o ganho. A primeira versão deste artigo dizia o contrário, por impressão. Medida, a afirmação caiu, e é por isso que teste vale mais que opinião, inclusive a minha.

A solução sobrevive no título, mesmo quando o modelo avisa

A recomendação clássica manda vigiar o campo problema, e ele foi o mais limpo do teste. Só dois dos seis rascunhos do pedido simples descreveram o problema já com a causa ou o remédio dentro. A solução se espalhou por outros campos.

Grade com os oito rascunhos do teste em linhas e quatro campos em colunas: título, problema, objetivo e escopo. Cada célula vermelha marca o campo em que a solução sistema de gestão de estoque aparece afirmada. No pedido simples, os seis rascunhos têm a solução no título e no escopo, quatro no objetivo e dois no problema. No pedido com regras, o modelo maior não tem célula vermelha e o modelo menor tem a solução no título e no escopo.
Onde a solução do pedido apareceu afirmada em cada rascunho do teste de 01/10/2026. A descrição de entrada foi montada para o teste.

Os seis títulos do pedido simples repetem a ideia do pedido: implantação de sistema de gestão de estoque. Os seis escopos trazem a implantação entre os itens incluídos. E quatro dos seis objetivos repetem o remédio, como este, do modelo maior: "garantir que as peças necessárias estejam disponíveis no almoxarifado quando a manutenção for executar suas ordens, por meio de um sistema de gestão de estoque implantado e em uso até 31/12/2026".

O caso mais instrutivo é outro rascunho do modelo maior. Na seção de contexto ele escreveu que o pedido "propõe 'implantar um sistema de gestão de estoque'. Isso é uma solução, não a causa confirmada". O título do mesmo documento era "Implantação de sistema de gestão de estoque no almoxarifado de manutenção". O aviso estava certo, e o documento contradizia o aviso.

Isso é grave porque o título é o que circula. Ele vai para a pauta do comitê, para a planilha de projetos e para o assunto do e-mail. A seção de contexto, onde ficou o aviso, é a menos relida do documento. Um projeto chamado implantação de sistema já foi aprovado como implantação antes de qualquer análise.

É por isso que o método DMAIC separa Definir de Analisar por um portão formal. Na descrição do DMAIC da ASQ, a primeira etapa trata de problema, meta e requisitos do cliente. A causa raiz fica para a etapa de análise. Na aplicação de IA na fase Definir esse portão é o primeiro a ser testado, e o título é por onde ele cede mais fácil.

Fluxo da fase de Definição em sete passos numerados, do início da definição à assinatura do contrato e ao início da medição
O fluxo da fase vai do problema descrito ao contrato assinado sem passar por causa nem por solução; elas só entram depois do portão. Adaptado da formação Green Belt Lean Seis Sigma da Voitto.

Por que a solução chega junto com o pedido

O modelo não inventou o sistema de estoque. Ele estava na primeira oração do texto de entrada. É comum descrever uma dor já propondo o remédio, e a frase típica tem a solução na oração principal. O modelo reproduz essa hierarquia com fidelidade, e o título é onde a oração principal vira nome.

Por isso a instrução genérica de ser rigoroso não resolve. No pedido com regras, a proibição falava de causa no campo problema, e o modelo menor obedeceu ao pé da letra. O problema saiu limpo e o título continuou "Implantação de Sistema de Gestão de Estoque no Almoxarifado". A regra não citava o título, e ele não a estendeu a um campo que ela não nomeava.

A lição prática é nomear os campos, um por um: título, problema, objetivo e escopo. Delimitar o processo antes também ajuda. Pedir o SIPOC do processo antes do charter obriga a dizer onde o problema acontece, e enunciado com fronteira é mais difícil de contaminar.

O framework de gestão de risco de IA do NIST abre a lista de características de um sistema confiável com validade e confiabilidade. Um rascunho que contradiz o próprio aviso falha exatamente aí, mesmo escrito num português impecável.

A meta: zero, 95% ou nada

No campo meta, o teste desmentiu a imagem do modelo que inventa percentual à vontade. E mostrou um risco mais sutil. Nenhum rascunho tinha linha de base, porque a descrição não trazia número. Mesmo assim, quatro dos seis do pedido simples puseram um alvo no papel.

Num rascunho do modelo menor saiu "Reduzir para zero a ocorrência de paralisações por falta de peças". O critério de sucesso era zero ocorrências por 30 dias consecutivos. O maior escreveu zero em dois rascunhos, como proposta ou sugestão. Num terceiro, sugeriu acuracidade de estoque acima de 95% como "referência comum de mercado". Os outros dois do menor não puseram número nenhum, só verbos: reduzir, eliminar, garantir.

O número mais perigoso da lista é o 95%. Ele chega com cara de pesquisa, sem dizer de qual mercado nem de que fonte. E chega marcado como a validar, o que dá conforto a quem lê rápido. Marcação de validação é tarefa, e tarefa precisa de dono e data.

Uma meta escrita antes de medir o valor atual pode sair tímida ou impossível sem que ninguém perceba. Zero falta de peça pode ser realista num almoxarifado que erra pouco e absurdo num que erra muito. Só o dado diz em qual dos dois você está. A sequência certa é medir o valor atual, estabelecer o alcançável e só então escrever a meta, como no planejar do ciclo PDCA.

Objetivo mais valor mais prazo formam a meta clara e mensurável, com exemplo de reduzir o retrabalho em 50% até dez/2025
As três partes só fecham depois de medido o valor atual; sem ele, o número da meta não diz se é tímido ou impossível.

Para fixar o número com método, veja como definir a meta de um indicador e confira o resultado com as metas SMART. No pedido com regras, o modelo maior deixou a meta em branco e escreveu o motivo: "Depende da linha de base e de decisão do patrocinador." É o que um bom charter diz nesse campo enquanto o dado não existe.

Nenhum número que a IA produziu sozinha entra no charter

Essa regra vale para além da meta, e é a única deste artigo sem exceção. Todo número do charter precisa de origem rastreável. Pode ser um relatório, uma consulta ao sistema, uma contagem ou uma estimativa assinada por quem entende do processo.

Número no charterOrigem aceitávelOrigem inaceitável
Linha de baseConsulta ao sistema, período declaradoEstimativa do modelo
MetaCálculo sobre a linha de baseZero ou percentual redondo sugerido
Referência externaFonte nomeada, com dataReferência comum de mercado
Ganho anualCritério fechado com a controladoriaConta do modelo
PrazoEstimativa da equipe por etapaPrazo que veio no texto de origem
Volume ou frequênciaContagem em período definidoSempre, muito, recorrente

Uma pergunta resolve a maior parte dos casos: de onde veio este número? Se a resposta for o rascunho, o número sai. Um exemplo de DMAIC fechado mostra a cadeia funcionando, com período e fonte em cada número. Na última linha estão sempre, muito e recorrente, palavras que ocupam no charter o espaço de uma contagem.

Patrocinador, dono e ganho: os campos que dependem de gente

No campo patrocinador, o modelo menor fez a mesma coisa nos três rascunhos. Pôs ali o coordenador de manutenção, que tinha feito o pedido. Num deles o coordenador aparece como patrocinador, cliente e responsável pela aprovação. Quem pede, patrocina e aprova o próprio projeto não tem ninguém acima para destravar compra ou cobrar resultado.

O maior marcou o patrocinador como a confirmar nos três. Melhor, mas alguém ainda precisa achar a pessoa. Patrocinador é uma pessoa com verba, agenda e disposição para resolver conflito entre áreas. Um mapa de stakeholders ajuda a achar quem tem esse poder, e uma matriz RACI põe por escrito quem aprova o quê.

O dono do processo, a pessoa que herda a rotina no dia seguinte ao encerramento, faltou em cinco dos seis rascunhos simples. No sexto apareceu como cargo, "responsável do almoxarifado". É o campo que mais decide se o ganho sobrevive, e só se preenche perguntando e ouvindo sim.

O critério de ganho é o que mais gera briga no fim. Na mesma página 168, o livro pede forte atuação da controladoria para a "validação dos ganhos resultantes dos projetos". E para o "estabelecimento de critérios claros para quantificação dos ganhos". Também separa hard savings, que se verificam facilmente no EBITDA, de soft savings, que não se verificam.

Um projeto de Lean Seis Sigma que reduz hora extra pode ter o ganho lido como economia direta ou como capacidade liberada. As duas leituras dão números bem diferentes. No teste, o rascunho mais disciplinado escreveu no campo ganho: "Nenhuma estimativa financeira é feita neste termo, porque não há dado de horas paradas, custo da hora parada nem frequência dos eventos." É a frase certa.

Escopo: três tamanhos da mesma solução

No pedido com regras, os dois modelos tiveram a mesma tarefa. Propor três recortes de escopo, do mais estreito ao mais largo, dizendo o que cada um deixa de fora. As respostas mostram a diferença entre recortar o problema e recortar a solução.

Do modelo menor vieram três tamanhos de sistema. Uma planilha com níveis mínimos, um software básico e um sistema integrado com previsão de demanda. Os três partem da mesma decisão, a de que o problema se resolve com ferramenta de estoque. Muda só o tamanho da compra.

O maior recortou o processo. O estreito olhava o caso do rolamento e as peças das próximas paradas programadas. O intermediário, as ordens dos equipamentos críticos de uma unidade. O largo, todas as unidades, do planejamento à execução, com compras incluídas e o aviso de que provavelmente não cabia no prazo.

Recorte de processo é o que um projeto precisa, porque deixa a causa em aberto. Para escolher, o dado decide. Um diagrama de Pareto das ocorrências de falta de peça mostra onde a dor se concentra. Se duas frentes empatam, uma matriz esforço e impacto resolve mais rápido que uma reunião. O artigo sobre escopo do projeto traz o resto, e a escolha fica com quem pode escolher.

O pedido com regras: onde funcionou e onde vazou

Com as regras, o modelo maior entregou um rascunho que serve de ponto de partida de verdade. O título não tinha solução: "Disponibilidade de peças na execução de ordens de manutenção". O problema veio como sintoma. Dezessete trechos ficaram marcados como a definir ou a confirmar. E veio uma lista de sete premissas retiradas do texto, do próprio sistema à ideia de que o caso do rolamento era típico.

Comparação em dois cartões do título e do problema devolvidos no teste. À esquerda, o pedido simples ao modelo menor: título implantação de sistema de gestão de estoque do almoxarifado, objetivo de implantar um sistema e o coordenador de manutenção como patrocinador. À direita, o pedido com regras ao modelo maior: título disponibilidade de peças na execução de ordens de manutenção, problema descrito como sintoma, com frequência, duração e custo marcados como a definir, e o patrocinador também a definir.
Título e problema de dois rascunhos do teste, transcritos como voltaram. A descrição de entrada era a mesma nos dois.

Com o mesmo pedido, o modelo menor vazou em três lugares. Manteve a solução no título, como já apareceu acima. Preencheu a linha de base com uma descrição que não estava na entrada: "controle de estoque realizado manualmente ou por demanda reativa". E a lista de soluções implícitas voltou com seis soluções novas, de alertas automáticos a rastreamento por código.

O último vazamento é o mais traiçoeiro. Perguntar quais soluções estavam implícitas funciona como detector quando o modelo entende a tarefa. Quando não entende, vira gerador de ideias. Quem não confere a lista contra o texto de entrada sai da reunião com mais solução do que entrou.

O recado do teste tem duas partes. O porte do modelo pesa, e a regra precisa nomear o campo. Com modelo menor, revise a saída como se as regras não existissem.

A revisão campo a campo, no rascunho que voltou

Para mostrar a revisão funcionando, a gente pegou o primeiro rascunho do modelo menor no pedido simples. E passou campo a campo, com uma pergunta fixa: isso é fato, decisão tomada por alguém, ou texto que o modelo produziu para preencher espaço?

CampoO que veioDiagnósticoO que entra no lugar
TítuloImplantação de Sistema de Gestão de Estoque do AlmoxarifadoNomeia a soluçãoFalta de peça na execução de ordens de manutenção
ProblemaFalta recorrente de peças, com paradas e frustraçãoSintoma certo, sem número nem períodoO mesmo sintoma, com frequência, período e fonte
Linha de baseCampo inexistenteO número mais importante não estava láOrdens com espera por peça em 90 dias, extraídas do sistema de manutenção
MetaReduzir para zero as paralisações por falta de peçaZero sem baseA definir depois da linha de base, com data da medição
EscopoSistema, níveis mínimos e integraçãoEscopo da soluçãoFatia do processo escolhida pelo Pareto das ocorrências
Fora de escopoLayout, estruturas e compra de peçasExclui uma causa possível, a compraNenhuma causa candidata excluída antes da análise
Prazo31 de dezembro, em 12 semanasHerdado do fim do anoEstimado por etapa com a equipe, depois da medição
PatrocinadorCoordenador de ManutençãoO solicitante patrocinando o próprio pedidoPessoa com verba e agenda, acima das áreas envolvidas
Dono do processoCampo inexistenteNinguém fica com a rotinaPessoa do almoxarifado, que confirmou
IndicadorSem campo; o sucesso era zero paralisações por 30 diasSem definição de paralisação nem fonteIndicador definido, com fonte e frequência de extração
Ganho esperadoRedução de perda de produção, sem valorCerto em não inventar, falta o critérioCritério combinado com a controladoria
RiscosResistência, sistema inadequado, dados, recursos e orçamentoServiriam a qualquer projetoRiscos do caso, com responsável

A linha do fora de escopo pede atenção. O rascunho excluiu a compra de peças para reposição, o que parece prudente. Só que, se a causa da falta for compra atrasada, o projeto nasceu proibido de resolvê-la. Quem apontou isso foi o próprio modelo maior, quando a gente pediu a crítica desse charter.

Criticar um charter pronto rende mais que gerar do zero

Para mim, o uso mais rentável da IA num project charter é a crítica. Entregue o charter que já existe e peça uma crítica estruturada. A gente fez isso com o rascunho da seção anterior, usando o modelo maior e cinco pedidos fixos.

  • "Aponte todo trecho do campo problema que afirma ou sugere uma causa."
  • "Liste todo número sem período, fonte ou método de apuração declarados."
  • "Diga quais riscos listados serviriam a qualquer projeto e devem ser trocados."
  • "Aponte cada responsabilidade atribuída a cargo em vez de pessoa."
  • "Escreva as três perguntas que o patrocinador provavelmente fará e que o documento não responde."

A crítica achou a solução no título e no escopo: "A solução vem antes do diagnóstico". Cobrou a meta de zero sem linha de base. Classificou os cinco riscos como genéricos, com um substituto para cada um. E notou que o coordenador era patrocinador, cliente e aprovador "sem contrapeso".

As perguntas do patrocinador foram boas: "Quanto isso custa e quem paga?". "Qual é o tamanho do problema hoje e como saberemos que melhorou?". "Por que faltam peças, e o sistema resolve essa causa?". A terceira é a pergunta que o charter inteiro deveria responder antes da assinatura.

A crítica também exagerou num ponto. Tratou a falta de materiais, que é o próprio sintoma, como causa afirmada, e crítica de modelo também se revisa. Mesmo assim, a assimetria ficou clara. Ao gerar, o modelo precisa preencher o que não sabe. Ao criticar, ele reconhece padrão sobre um texto que existe. É o mesmo princípio que faz a IA render mais em melhoria contínua quando questiona em vez de concluir.

O prompt que funcionou no teste

O prompt abaixo é o do pedido com regras, com o conserto que o teste pediu. A proibição de solução agora nomeia título, objetivo e escopo, que foram por onde o modelo menor vazou. Ele é longo de propósito, porque instrução curta devolve charter genérico.

  1. Contexto. Cole a descrição solta como está, sem limpar. A solução embutida e as contradições são informação.
  2. Proibições, campo por campo. "Não escreva causa nem solução no título, no problema, no objetivo ou no escopo. Não descreva o problema como ausência, falta ou inexistência de sistema, ferramenta, padrão ou treinamento. Não proponha meta numérica. Não estime ganho financeiro. Não preencha patrocinador nem dono do processo."
  3. Estrutura obrigatória. Liste os campos na ordem, do título aos riscos. Mande escrever A DEFINIR em todo campo que dependa de dado ou de decisão de outra pessoa.
  4. Saídas extras. "Liste as soluções implícitas que retirou do enunciado, citando o trecho de origem de cada uma. Liste os dados a levantar para cada A DEFINIR, com a fonte provável."
  5. Recortes do processo. "Proponha três recortes de escopo do processo, do mais estreito ao mais largo, sem escolher solução. Diga o que cada um deixa de fora."

A proibição mira a falta de sistema, ferramenta, padrão ou treinamento. Falta de peça é o sintoma e pode ficar.

Duas exigências não estavam no teste: citar o trecho de origem e recortar sem escolher solução. São as correções que os vazamentos do modelo menor pedem, então confira na primeira vez que usar. Pedidos do mesmo tipo para outras ferramentas estão nos prompts de melhoria contínua.

A ficha de revisão do project charter

Juntando o teste numa ficha de decisão: cada linha diz o que pedir à IA naquele campo, de quem é a última palavra e o que conferir antes da assinatura.

CampoO que a IA faz bemQuem fechaConferir antes de assinar
TítuloRedige curto e padronizadoTime, com o patrocinadorSem solução nem ferramenta no nome
ProblemaSepara onde, quando e efeitoTime, com dadoSintoma com período e fonte, sem causa
Linha de baseLista os dados a levantarQuem extrai o dadoValor medido, com período declarado
MetaExplica por que esperar a basePatrocinadorCalculada sobre a linha de base
EscopoPropõe recortes do processoPatrocinador e donoFatia com dado, dono e volume
Fora de escopoLista exclusões plausíveisTime e donoNenhuma causa candidata excluída
PrazoOrdena etapas e dependênciasEquipeEstimado por etapa, não herdado
PatrocinadorDescreve o papelOrganizaçãoPessoa com verba e agenda
Dono do processoDescreve o papelOrganizaçãoPessoa que disse sim
EquipeSugere as áreas envolvidasGestores das áreasNomes e horas por semana
IndicadorSugere candidatosQuem tem o dadoFonte e frequência confirmadas
Ganho esperadoLista categorias de ganhoControladoriaCritério combinado antes
RiscosGera uma lista para criticarTimeRiscos do caso, com responsável

Ficha de revisão do project charter com IA, uma folha A4 com os treze campos do charter em linhas e quatro colunas: o campo, o que a IA faz bem, quem fecha e o que conferir antes de assinar.A mesma ficha em PDF, numa folha A4, para imprimir e usar na revisão do rascunho que voltou. A última coluna é a conferência que separa um campo decidido de um campo apenas preenchido.

Baixar a ficha de revisão

Embaixo da tabela, a folha repete as cinco perguntas da revisão, na ordem em que valem para cada campo. E cita o teste pela data, dizendo que a descrição de entrada foi montada, para que ninguém leia o resumo como projeto de cliente. Imprima, deixe do lado do teclado e marque linha por linha antes de levar o charter para assinatura.

O protocolo, do rascunho à assinatura

Fechando em forma de rotina, do primeiro rascunho ao charter assinado:

  1. Escreva a descrição solta sem editar. Inclusive a solução que já está na cabeça de quem descreve, porque ela vai precisar ser identificada e retirada.
  2. Gere o rascunho com as proibições campo por campo. Campo que dependa de dado ou de pessoa volta como A DEFINIR.
  3. Confira a lista de soluções implícitas contra o texto de entrada. Solução sem trecho de origem foi inventada pelo modelo e sai da lista.
  4. Meça a linha de base antes de discutir meta. Com período declarado e fonte nomeada.
  5. Feche escopo, patrocinador, dono e critério de ganho em conversa. São os quatro campos que não saem de prompt nenhum.
  6. Revise campo a campo com cinco perguntas. É fato, decisão ou preenchimento? O número tem período e origem? O campo nomeia pessoa ou cargo? O texto serviria a outro projeto? Alguém de fora entende o escopo só pela leitura?
  7. Use o modelo como crítico e assine só com os A DEFINIR resolvidos. Ou com dono e data para cada um que continuar aberto.

As pendências que sobrarem viram um plano de ação curto, no formato do 5W2H, com dono e data. Os cuidados para desdobrar esse plano com a máquina estão no artigo sobre IA e 5W2H.

Lá na Votorantim, a pergunta que eu levei ao Master Black Belt foi: "quero fazer projeto Seis Sigma, como é que funciona?". Ela tem uma resposta curta. Projeto começa num problema medido, e o charter é o lugar onde isso fica escrito e assinado. A IA encurta muito a redação, e isso é um gás para quem trava diante da folha em branco. A decisão continua do mesmo tamanho.

Se você quer praticar com o template que a gente usa, o Kit Lean Seis Sigma traz o charter e as outras ferramentas do DMAIC. As academias de certificação da Voitto levam o projeto até a banca. Te convido a começar o próximo charter pelo campo que ficou em branco.

Perguntas frequentes

A IA pode escrever um project charter sozinha?
Pode escrever o charter inteiro, e aí mora o risco. No teste deste artigo, oito rascunhos saíram completos e bem redigidos. Mas a solução do pedido foi parar no título em sete deles, e o modelo menor pôs o próprio solicitante como patrocinador. O uso certo é gerar o rascunho com campos a definir e fechá-los com dado e conversa.
Onde a IA esconde a solução dentro do charter?
Menos no campo problema do que se imagina. No pedido simples, a solução apareceu no problema em dois de seis rascunhos. No título e no escopo, em seis de seis, e no objetivo em quatro. A revisão precisa olhar esses campos com o mesmo cuidado do enunciado.
A IA inventa o ganho financeiro do projeto?
No teste, não. Nenhum dos oito rascunhos pôs valor em reais no ganho esperado. O risco apareceu nas metas de zero ocorrência e num percentual de 95% chamado de referência de mercado, sem fonte. O critério de ganho continua com a controladoria.
Posso usar a meta que a IA sugeriu?
Não, se não houver linha de base. Sem o valor atual, ninguém sabe se a meta cabe na operação, e zero falta de peça pode ser realista numa operação e absurdo em outra. Deixe o campo em aberto até medir, com data prevista para a medição.
Quais campos do charter a IA não consegue preencher?
Os que dependem de gente ou de dado fora do pedido: patrocinador, dono do processo, linha de base, meta e critério de ganho. No teste, o dono do processo faltou em cinco dos seis rascunhos simples, e o patrocinador veio como cargo ou como o próprio solicitante.
Modelo maior ou menor faz diferença no charter?
Fez, no teste. O maior marcou entre 18 e 26 trechos como a confirmar e avisou que o sistema era solução proposta. O menor não marcou nada e pôs o solicitante como patrocinador. Mesmo com regras, manteve a solução no título.
Como pedir que a IA separe problema de solução?
Proíba causa e solução nomeando os campos: título, problema, objetivo e escopo. Peça A DEFINIR onde faltar dado. E mande listar as soluções implícitas citando o trecho de origem, senão a lista pode virar sugestão nova.
Qual a diferença entre usar a IA para gerar e para criticar um charter?
Ao gerar, ela precisa preencher o que não sabe. Ao criticar, reconhece padrão num texto que existe. No teste, a crítica pegou a solução no título, a meta de zero e os cinco riscos genéricos. Exagerou num ponto, que também precisou de revisão.
Como revisar um charter gerado por IA?
Campo a campo, na ordem, com cinco perguntas: é fato, decisão ou preenchimento; o número tem período e origem; o campo nomeia pessoa ou cargo; o texto serviria a outro projeto; alguém de fora entende o escopo. A ficha do artigo traz as treze linhas prontas.
Como saber se o rascunho da IA está bom?
Pelo título e pelos campos em aberto. Um bom rascunho de charter chama o projeto pelo sintoma e deixa meta, ganho, patrocinador e dono como a definir. Charter completo, sem lacuna e com a solução no título é sinal de que o modelo preencheu o que não sabia.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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