Metodologias & Qualidade

Origem do controle estatístico de processo: por que Shewhart inventou o CEP

A contribuição de Shewhart não foi o gráfico, foi separar causa comum de causa especial. Sem essa distinção, a carta vira enfeite e o ajuste vira dano

Thiago Coutinho
Publicado em 26 de set de 2026  ·  Atualizado em 26 de set de 2026  ·  16 min de leitura

A origem do controle estatístico de processo quase sempre é contada errada. A versão popular diz que um estatístico da Bell inventou um gráfico de três linhas e que o gráfico melhorou a qualidade. Isso inverte causa e efeito.

A ideia é uma distinção. Walter A. Shewhart percebeu que a variação vem de dois tipos de fonte. Uma é o próprio sistema funcionando como foi montado. A outra é um evento identificável que invadiu o sistema. Confundir as duas produz os dois erros mais caros do chão de fábrica.

A carta de controle existe só para tornar essa distinção operável por quem não é estatístico. Ela não mede qualidade, não aprova lote e não substitui engenharia. Ela responde a uma pergunta de decisão: vale a pena procurar uma causa agora, ou procurar seria desperdício?

Este texto refaz o caminho: o problema da Western Electric nos anos 1920, o memorando de 1924, a razão econômica dos três sigma, a guerra, o Japão e a volta pelo Seis Sigma.

Sobre a procedência: as datas foram conferidas uma a uma. O exemplo numérico do custo do ajuste indevido foi calculado em Python, e o resultado analítico bate com uma simulação de dois milhões de peças. As tabelas foram montadas para este artigo.

A contribuição de Shewhart não foi a carta, foi a distinção

Tire o gráfico e deixe a ideia: o método continua funcionando. Tire a ideia e deixe o gráfico: sobra um enfeite de parede que consome coleta e não muda decisão. Essa assimetria é o teste mais honesto de quem entendeu a origem do controle estatístico de processo.

Parte da variação é constitutiva, soma de influências pequenas que ninguém isola. Shewhart chamou isso de causa comum. Outra parte é um intruso: lote diferente, ferramenta que soltou, operador novo. Reagir à primeira não corrige nada e ainda acrescenta variação.

A tabela abaixo é o mapa do texto: cada linha vira uma seção adiante.

AnoO que aconteceuOndePor que importa
1918Shewhart entra na Inspection Engineering DepartmentWestern Electric, HawthorneO CEP nasce num departamento de inspeção
16/05/1924Memorando de menos de uma página com o primeiro esquema de cartaHawthorne, para George EdwardsMarco de fundação
1929Dodge e Romig publicam o método de inspeção por amostragemBell System Technical JournalProblema vizinho: aceitar ou rejeitar lote
1931Economic Control of Quality of Manufactured ProductEditora D. Van NostrandFixa o vocabulário do método
1939Statistical Method from the Viewpoint of Quality ControlLivro editado por W. Edwards DemingTraz o ciclo que vira o PDCA
27/05/1941Aprovação das normas de guerra Z1.1 e Z1.2American Standards AssociationO CEP vira exigência de fornecimento militar
1942Publicação da norma Z1.3American Standards AssociationControlar a qualidade durante a produção
Julho/1950Curso de oito dias de Deming a engenheiros japonesesJUSE, JapãoO método chega a quem decide orçamento
1956Statistical Quality Control Handbook, 1ª ediçãoWestern ElectricCodifica as regras de zona
1986Seis Sigma formalizado por Bill SmithMotorolaO CEP volta dentro de um pacote de projeto

O problema da Western Electric: equipamento que ia para debaixo da terra

Nos anos 1920, a Western Electric fabricava os equipamentos do sistema Bell. Centrais, aparelhos, cabos, bobinas de carga e repetidores. Boa parte desse material não ficava em prateleira acessível: ia para duto, poste, caixa enterrada, cabo submarino.

Isso muda a economia do defeito. Numa fábrica de parafuso, a peça ruim custa material e hora de máquina. Num repetidor enterrado, custa a escavação e a interrupção do serviço. Havia um agravante: o erro de ganho de repetidores em série se acumula na rota.

Por isso a Bell não queria apenas peça conforme. Queria peça previsível, e queria saber disso antes de enterrar. Está aí a origem do controle estatístico de processo: conformidade fala do passado, previsibilidade fala do futuro.

Conformidade não é previsibilidade, e a inspeção não entrega a segunda

A inspeção final responde a uma pergunta binária por peça: passa ou não passa. Continua útil, mas tem três limites que ficaram insuportáveis naquela escala.

  • Chega tarde. Quando a peça é reprovada, o material, a hora de máquina e a energia já viraram refugo ou retrabalho.
  • Não diz nada sobre a próxima peça. Um lote aprovado hoje descreve o resultado e não o comportamento do processo.
  • Não separa acaso de sinal. Duas peças ruins seguidas podem ser flutuação normal ou começo de problema real.

Shewhart formulou a saída de forma quase filosófica, e a definição sobreviveu intacta. Um fenômeno está sob controle estatístico quando, a partir da experiência passada, é possível prever dentro de que limites ele vai variar no futuro. A palavra central é prever, não aprovar.

Controle deixa então de ser sinônimo de fiscalização. Um processo pode estar sob controle e produzir refugo em massa, se a faixa previsível dele não couber na especificação. Essa diferença é o que a capabilidade do processo mede depois.

A Inspection Engineering Department e o grupo que virou Bell Labs

Shewhart nasceu em 1891, doutorou-se em física pela Universidade da Califórnia em 1917 e entrou na Western Electric em 1918. O lugar importa: a Inspection Engineering Department da fábrica Hawthorne, em Cicero, subúrbio de Chicago. Um departamento de inspeção, com chefe de inspeção.

Isso explica o formato do método. Shewhart escrevia para engenheiros que precisavam decidir, no turno, se paravam a máquina. Daí a obsessão por um critério gráfico, calculável à mão e defensável diante de um supervisor.

O grupo em torno dele reunia nomes que depois viraram capítulos separados. Dodge e Romig trabalhavam em amostragem. George D. Edwards, o chefe imediato, seria em 1946 o primeiro presidente da ASQC. Em 1925, criados os Bell Telephone Laboratories, Shewhart passou para lá.

16 de maio de 1924: a página que fundou o método

Na data, Shewhart entregou a George Edwards um memorando interno de menos de uma página. Edwards contou depois que cerca de um terço dela era um diagrama simples, reconhecível hoje como esquema de carta de controle.

Havia ali menos do que a lenda sugere. Uma linha central, duas de limite e a proposta de plotar medições em sequência temporal. Nada de regra de zona, tabela de constantes ou índice de capabilidade. Tudo isso veio depois.

O original era o critério. As duas linhas não delimitavam a especificação do cliente. Delimitavam o que o próprio processo, deixado em paz, era capaz de produzir. Comparar a medição com a voz do processo, e não com a voz do cliente, é a inversão que a inspeção nunca tinha feito.

O passo a passo de construção e o cálculo dos limites estão no artigo de carta de controle, e a implementação prática em controle estatístico no Excel. Aqui o assunto é o porquê.

Por que três sigma, e não 5% de significância

Esta é a parte que quase todo curso erra. A explicação comum diz que o limite é de três sigma porque 99,73% dos valores de uma normal caem nessa faixa. A frase é aritmeticamente verdadeira e historicamente falsa. Shewhart recusou basear a escolha em probabilidade.

O argumento está no título do livro de 1931. Controle econômico. O limite é problema de custo, não de inferência. Limite apertado gera alarme falso, e cada um consome hora de engenharia atrás de causa inexistente. Limite largo deixa passar desvio real.

Entre esses dois custos existe um equilíbrio prático, e Shewhart disse que a experiência indicava três como valor econômico aceitável para o multiplicador. Não um ótimo demonstrado, nem um nível de confiança pactuado. Ele sustentou a generalidade da escolha com o teorema de Tchebycheff.

O teorema garante que, em qualquer distribuição com variância finita, pelo menos 88,9% dos valores caem a menos de três desvios da média. Com processo estável e dado quase normal, três sigma dá um alarme falso a cada 370 amostras. Com dois sigma, um a cada 22.

Erro tipo 1, erro tipo 2 e por que isso não é teste de hipótese

A estatística chama de erro tipo 1 rejeitar uma hipótese verdadeira e de erro tipo 2 não rejeitar uma falsa. A nomenclatura de Jerzy Neyman e Egon Pearson é de 1928 e 1933, posterior ao memorando. Shewhart chegou ao mesmo dilema pelo lado do custo, sem o vocabulário.

ErroO que o operador fazO que custa na horaO que custa depois
Tipo 1: alarme falsoPara a máquina e caça uma causa que não existeHora de engenharia, parada de linha, ajuste indevidoPerda de confiança na carta e mais variação por excesso de ajuste
Tipo 2: sinal perdidoSegue produzindo com o processo já deslocadoNada visível no momentoRefugo, retrabalho, reclamação e recall quando a peça já saiu

Os dois erros não podem ser minimizados ao mesmo tempo com amostra fixa. Apertar o limite reduz o tipo 2 e infla o tipo 1. Alargar faz o contrário. Só existe equilíbrio, e o critério é econômico.

Daí a divergência filosófica que sobrevive até hoje. A inferência de Ronald Fisher, Neyman e Pearson parte de uma população, assume um modelo e pergunta se os dados cabem numa hipótese. Shewhart construía um critério operacional de ação, repetível por pessoas diferentes.

  • A carta não tem nível de significância pactuado, porque o alarme falso não é risco a controlar em 5%, é custo a equilibrar contra outro custo.
  • A carta não exige normalidade perfeita, porque Tchebycheff cobre o caso geral e a média de subgrupos puxa a distribuição para o centro.
  • A carta não conclui nada sobre causa. Ela diz que procurar vale a pena, e explicar continua sendo trabalho de quem conhece o processo.

Deming voltaria a esse ponto muitas vezes, e ele reaparece nos 14 princípios de Deming. O critério de uma boa regra operacional é o que ela faz quando é usada de verdade, não o que ela prova no papel.

Causa comum e causa especial: quem age, o que faz, o que dá errado se trocar

A distinção só vira ferramenta quando responde a quatro perguntas: como identificar, quem age, o que se faz e o que acontece se você trocar os dois tipos.

PerguntaCausa comumCausa especial
Como identificarPontos dentro dos limites, sem padrão, variando em torno da linha centralPonto fora do limite, sequência de um mesmo lado, tendência, ciclo ou salto de dispersão
De onde vemDo sistema como foi projetado: folga de máquina, insumo dentro da faixa comprada, método, ambienteDe um evento datável: troca de lote, ferramenta gasta, operador sem treino, calibração perdida
Quem ageA gerência, porque só ela muda projeto, compra, máquina, método ou treinamentoQuem está no processo, com apoio técnico, porque o evento é local e recente
O que fazerProjeto de melhoria com dado histórico, em prazo de semanas ou mesesInvestigação imediata, ação no evento e registro para evitar recorrência
Se trocar os doisAjustar a máquina a cada oscilação aumenta a variação: é o excesso de ajusteEsperar que o sistema melhore deixa uma causa achável agindo e produzindo peça ruim

Deming atribuía a maior fatia da perda ao sistema, fora do alcance do operador. A proporção exata varia e não é lei. O que importa é a direção: cobrar do operador um resultado determinado pelo sistema é injusto e ineficaz.

Para reagir ao sinal sem improviso de turno existe documento específico. O OCAP descreve a reação passo a passo para cada tipo de sinal, e costuma ser anexo do plano de controle da característica.

Quanto custa tratar causa comum como especial: uma conta fechada

Considere uma cota com alvo de 10,00 mm e especificação de 9,70 a 10,30 mm. O processo está estável, só com causa comum, e o desvio padrão é de 0,10 mm. Dá exatamente três sigma até cada limite, ou seja, um Cp de 1,00.

Agora suponha um operador zeloso que, depois de cada peça, corrige a máquina no valor do desvio observado. É a regra 2 do funil de Deming. Como cada medição carrega uma flutuação própria, a correção entra como erro novo somado ao erro da peça seguinte.

O resultado é dedutível. A saída passa a ser a diferença entre dois erros independentes, e a variância dobra. O desvio padrão vai de 0,10 para 0,1414 mm. Nada na máquina mudou: mudou a reação a um ruído.

CenárioDesvio padrão (mm)CpPeças fora da especificação em 20.000/mêsCusto mensal a R$ 8 por peça
Processo estável, sem ajuste por peça0,10001,0054R$ 432
Mesmo processo, com ajuste após cada peça0,14140,71678R$ 5.423
Diferença+41%-0,29+624+R$ 4.991

A fração fora da especificação sobe de 2.700 para cerca de 33.900 partes por milhão, 12,5 vezes mais refugo, produzido por uma boa intenção. A aritmética foi conferida pela distribuição normal e por simulação de dois milhões de peças: 33.810 ppm contra 33.895 ppm teóricos.

Esse é o argumento de venda do CEP mais forte que existe, e quase ninguém usa. Ele não promete melhoria: promete parar de piorar de graça. Para ver o efeito na distribuição, monte o histograma dos dois cenários, e a planilha de capabilidade traduz a mudança em índice.

1931: o livro que fixou o vocabulário

Shewhart publicou Economic Control of Quality of Manufactured Product em 1931, pela D. Van Nostrand. São mais de 500 páginas de leitura difícil, misturando filosofia da ciência, economia industrial e estatística aplicada.

O que ele entregou foi vocabulário estável. Controle estatístico, causa comum, causa atribuível, limite de controle, subgrupo racional. Os termos entraram inalterados nas normas posteriores, e um plano de controle de 2026 ainda usa palavras de 1931.

Em 1939 saiu o segundo livro, Statistical Method from the Viewpoint of Quality Control, editado por W. Edwards Deming. Nele está o ciclo de três etapas, especificar, produzir e inspecionar, apresentado como círculo e não como linha. É o ancestral direto do ciclo PDCA e do ciclo de Deming.

Dodge, Romig e a amostragem: um problema vizinho e diferente

No mesmo corredor da Bell, Harold F. Dodge e Harry G. Romig atacavam outra pergunta. Publicaram em outubro de 1929, no Bell System Technical Journal, o artigo que estabeleceu o método de inspeção por amostragem. As tabelas vieram nos anos seguintes.

A diferença entre os dois trabalhos importa mais que a semelhança, e confundi-los é erro comum em treinamento. A amostragem olha para um lote pronto e decide se ele entra ou volta. O controle estatístico olha para o processo rodando e decide se vale intervir.

Deming resumiu a hierarquia de forma dura. Amostragem por aceitação é administração de dano já causado. Se o processo estiver sob controle e capaz, inspecionar amostra no recebimento deixa de compensar.

A guerra transforma um método de fábrica em política industrial

Até 1940, o CEP era conhecido em um punhado de empresas. A ASTM havia adotado as cartas de Shewhart em 1933, mas a difusão era lenta. O que mudou a escala foi a mobilização militar americana.

Em dezembro de 1940, a pedido do Departamento de Guerra, a American Standards Association abriu um projeto para aplicar método estatístico ao controle de qualidade. O comitê emergencial Z1 foi presidido por Harold Dodge. As Z1.1 e Z1.2 foram aprovadas em 27 de maio de 1941, e a Z1.3 saiu em 1942.

A Z1.1 era o guia geral. A Z1.2 tratava do método de carta para analisar dado existente. A Z1.3 tratava do método de carta para controlar a qualidade durante a produção, que é o CEP no sentido estrito.

O efeito foi brutal. O governo passou a exigir método estatístico de fornecedores de material bélico, e cursos foram organizados em massa. Deming e Juran participaram. A ASQC nasceu em 1946, herdando essa comunidade.

Deming leva o método ao Japão, e muda o público

Deming conhecia o Japão de trabalho censitário no pós-guerra, sob a administração aliada. A Union of Japanese Scientists and Engineers, a JUSE, havia sido fundada em 1946 e procurava conteúdo para reconstruir a indústria. O convite veio dela.

Em julho de 1950, Deming deu um curso de oito dias a engenheiros japoneses e, na sequência, falou a um grupo de altos executivos. O segundo evento explica a diferença de resultado. Nos Estados Unidos, o CEP tinha sido entregue à inspeção. No Japão, foi entregue a quem controlava o orçamento.

Deming destinou os direitos autorais das transcrições à JUSE, o que ajudou a financiar o Prêmio Deming, criado em 1951. Juran foi ao Japão em 1954.

Vale dizer o que Deming não fez, porque o mito exagera. Ele não inventou o CEP e não escreveu os 14 princípios naquela época. Eles aparecem em Out of the Crisis, de 1986. A trajetória longa está no artigo de história da gestão da qualidade.

1956: o handbook da Western Electric e as regras de detecção

A carta original detectava uma coisa só: ponto fora do limite de três sigma. Isso deixa passar deslocamento pequeno e persistente, o mais comum em processo maduro. Um deslocamento de um sigma pode levar dezenas de amostras até gerar um ponto fora.

A resposta veio de um comitê da divisão de manufatura da Western Electric, que publicou em 1956 a primeira edição do Statistical Quality Control Handbook. O objetivo era garantir que operadores e engenheiros lessem a mesma carta do mesmo jeito.

O handbook dividiu cada metade da carta em três zonas, de um, dois e três sigma, batizadas C, B e A a partir do centro. Sobre essas zonas, definiu regras de detecção. As quatro principais são estas.

  1. Um ponto além de um limite de três sigma.
  2. Dois de três pontos consecutivos além de dois sigma, do mesmo lado.
  3. Quatro de cinco pontos consecutivos além de um sigma, do mesmo lado.
  4. Oito pontos consecutivos do mesmo lado da linha central.

As regras aumentam a sensibilidade e têm um preço. Cada regra adicional é um teste a mais em paralelo, e o alarme falso combinado sobe. Aplicar oito regras num processo estável gera investigação demais, e foi assim que muita equipe desistiu.

O esquecimento americano e o motivo econômico dele

Entre 1945 e o começo dos anos 1970, os Estados Unidos deixaram o CEP de lado. A explicação moral, de que os gestores eram preguiçosos, é confortável e insuficiente. O abandono foi resposta racional a um cenário que não existe mais.

  • A demanda excedia a oferta. Com a indústria europeia e japonesa destruída, tudo o que saía da fábrica americana era vendido.
  • O CEP havia sido apresentado como medida de guerra. Terminado o conflito, foi tratado como algo temporário, a ser desmontado.
  • O método foi confinado a especialistas, com vocabulário próprio, sem trânsito na diretoria nem no chão de fábrica.
  • A contabilidade não enxergava o ganho. Refugo e retrabalho entravam diluídos no custo indireto, e sem rubrica separada o argumento financeiro não podia ser feito.

Juran analisou esse recuo e apontou que o movimento americano de qualidade estatística tinha se isolado em tecnicalidade. A conta chegou nos anos 1970, quando carro e eletrônico japoneses entraram no mercado americano com variação menor e preço competitivo.

A virada tem momento simbólico. Em 24 de junho de 1980, a NBC exibiu If Japan Can... Why Can't We?, que apresentou Deming ao empresariado americano. Ele tinha 79 anos.

A volta pela porta dos fundos: Seis Sigma nos anos 1980

O CEP voltou ao Ocidente, mas não pelo próprio nome. Voltou num pacote com meta financeira, estrutura de projeto e carreira. Em 1986, a Motorola formalizou o programa que o engenheiro Bill Smith ajudou a desenhar, com apoio do presidente Bob Galvin.

A base estatística não tinha nada de novo. A relação entre variação e limite de especificação já estava no livro de 1931, e a distinção de Shewhart seguiu como eixo da fase de controle. Novo foi a embalagem gerencial.

  • Meta em defeitos por milhão de oportunidades, número que um diretor entende sem saber estatística.
  • Projeto com prazo, patrocinador e ganho auditado pela controladoria, o que criou a rubrica que faltava.
  • Carreira interna de belts, que deu ao método um dono com progressão e não apenas uma função de apoio.
  • Roteiro fechado, o método DMAIC, que pôs a carta na etapa de controle.

A GE adotou o programa em 1995 e o transformou em pauta de conselho, o que garantiu a difusão global. Depois veio a fusão com o pensamento enxuto, o Lean Seis Sigma. O desenho completo está em metodologia Seis Sigma.

O que o CEP não resolve

Um método com cem anos acumula expectativa exagerada, e listar os limites protege de frustração. O CEP não faz nada do que segue.

  • Não diz qual é a causa. A carta sinaliza que procurar compensa, e a investigação depende de quem conhece o equipamento.
  • Não garante peça boa. Processo sob controle pode produzir refugo em massa se a faixa natural dele for maior que a tolerância.
  • Não corrige medição ruim. Se o sistema de medição varia tanto quanto o processo, a carta plota o instrumento, não a peça.
  • Não funciona com dado colhido de qualquer jeito. Subgrupo mal montado e registro depois do turno destroem o sinal antes do cálculo.
  • Não serve para todo processo. Ciclo muito longo, lote unitário e característica que só existe no fim pedem outras abordagens.
  • Não substitui projeto. Variação nascida de folga de projeto ou de especificação impossível não se resolve monitorando melhor.

Há ainda um limite cultural. A carta só vale se alguém reage ao sinal, e reagir exige autoridade para parar a produção.

Por que o CEP continua subutilizado no Brasil

A adoção brasileira concentra-se em cadeia automotiva, farmacêutica e eletrônica, por exigência contratual ou regulatória. Fora delas o uso é raro, e as razões são mais organizacionais do que técnicas.

A primeira é de ensino. O CEP costuma ser apresentado como conteúdo de estatística, com fórmula e tabela de constante, e não como critério de decisão econômica. O aluno sai sabendo calcular o limite e sem saber se deve parar a máquina.

A segunda é a coleta. A carta exige dado no momento e no ponto certo, o que depende de folha de verificação desenhada para isso e de disciplina de turno. Onde o dado é digitado no fim do dia para cumprir auditoria, a carta nasce morta.

A terceira é a confusão com painel de gestão. Muita empresa acha que já faz CEP porque acompanha indicadores de qualidade mensais. Indicador mensal compara o mês com a meta. A carta compara o processo com ele mesmo, na frequência em que ele muda.

A quarta é a ausência de reação definida. Sem regra escrita de quem faz o quê diante de um sinal, cada supervisor improvisa, e o improviso mais barato é ignorar. Quem recupera a pergunta original de Shewhart, que era de custo, volta a usar a ferramenta pelo motivo certo.

Perguntas frequentes

Qual é a origem do controle estatístico de processo?
A origem do controle estatístico de processo está na Western Electric, fabricante dos equipamentos do sistema telefônico Bell. Em 16 de maio de 1924, na fábrica Hawthorne, o físico Walter A. Shewhart entregou ao chefe George Edwards um memorando de menos de uma página, com um diagrama reconhecido hoje como o primeiro esquema de carta de controle. O método foi consolidado no livro de 1931.
Quem inventou o CEP e por quê?
Walter A. Shewhart, entre 1918 e 1924, dentro da Inspection Engineering Department da Western Electric. O motivo era econômico. Boa parte do equipamento fabricado ia para duto, poste ou cabo enterrado, e trocar uma peça depois custava muito mais do que fabricá-la. A empresa precisava de previsibilidade antes da instalação, e não apenas da aprovação de peça pronta na inspeção final.
Por que os limites de controle são de três sigma?
Por razão econômica, não por nível de significância. Shewhart recusou basear a escolha em probabilidade e disse que a experiência indicava três como um valor aceitável para o multiplicador. O critério é equilibrar o custo do alarme falso, que gasta hora de engenharia à toa, contra o custo do sinal perdido, que gera refugo. O teorema de Tchebycheff sustenta a escolha mesmo fora da normalidade.
Qual a diferença entre causa comum e causa especial?
Causa comum é a variação que o próprio sistema produz, resultado de muitas influências pequenas, e só a gerência consegue reduzir, mudando projeto, insumo, máquina ou método. Causa especial é um evento identificável e datável, como troca de lote ou ferramenta gasta, que a operação consegue investigar e corrigir rápido. A carta de controle serve para separar os dois casos.
O que acontece se eu tratar causa comum como causa especial?
O processo piora. Num exemplo calculado, um processo estável com desvio padrão de 0,10 mm e Cp de 1,00 passa a ter desvio padrão de 0,1414 mm quando o operador corrige a máquina depois de cada peça. A variância dobra e a fração fora da especificação sobe de 2.700 para cerca de 33.900 partes por milhão. Nada na máquina mudou: só a reação ao ruído.
Qual a diferença entre CEP e amostragem por aceitação?
São perguntas de tempos diferentes. A amostragem por aceitação, desenvolvida por Harold Dodge e Harry Romig e publicada em 1929, olha para um lote pronto e decide se ele entra ou volta. O controle estatístico olha para o processo enquanto ele roda e decide se vale intervir agora. Uma protege o consumidor de material já fabricado, a outra tenta evitar que o material ruim exista.
Que papel a Segunda Guerra teve na difusão do CEP?
Foi decisivo. A pedido do Departamento de Guerra americano, a American Standards Association abriu em dezembro de 1940 um projeto de métodos estatísticos, com comitê presidido por Harold Dodge. As normas Z1.1 e Z1.2 foram aprovadas em 27 de maio de 1941 e a Z1.3 saiu em 1942. O governo passou a exigir método estatístico de fornecedores, e cursos foram organizados em massa.
Deming inventou o controle estatístico de processo?
Não. O método é de Shewhart, e Deming foi aluno, editor e divulgador dele. A contribuição de Deming foi mudar o público e o alcance. Em julho de 1950 deu um curso de oito dias a engenheiros japoneses pela JUSE e falou a altos executivos, levando o tema a quem decidia orçamento. Os 14 princípios aparecem bem depois, no livro Out of the Crisis, de 1986.
O que são as regras da Western Electric?
São regras de detecção publicadas em 1956, na primeira edição do Statistical Quality Control Handbook da Western Electric. Elas dividem cada metade da carta em zonas de um, dois e três sigma e definem padrões que indicam causa especial, como dois de três pontos além de dois sigma do mesmo lado. Aumentam a sensibilidade e, em troca, elevam a taxa de alarme falso.
O CEP ainda faz sentido com sensor e inteligência artificial?
Sim, porque a lógica de decisão não mudou. Sensor barato e computação abundante reduzem o custo de medir, que era a restrição original, mas não respondem à pergunta de Shewhart. Continua sendo necessário decidir se o desvio observado justifica agir, e agir sem esse critério ainda acrescenta variação. Algoritmo detecta anomalia com facilidade e não distingue sozinho o que vale investigar.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Especialista Black Belt em Lean Six Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Lo…

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