Metodologias & Qualidade

Gerenciamento da rotina: SDCA, itens de controle e tratamento de anomalia na prática

A camada que falta entre apagar incêndio e rodar projeto de melhoria é manter o resultado no padrão todo dia. O nome técnico dela é SDCA, e ela vem antes do PDCA

Thiago Coutinho
Publicado em 13 de dez de 2020  ·  Atualizado em 26 de set de 2026  ·  16 min de leitura
Aprenda como fazer o Gerenciamento da Rotina de trabalho em sua empresa!

O gerenciamento da rotina é a camada que quase nenhuma empresa opera de verdade. Existe o apagar incêndio, que consome o dia. E existe o projeto de melhoria, que aparece em ciclos e some. Entre os dois não há nada segurando o resultado no lugar.

É por isso que ganho de projeto evapora. A equipe corta o refugo pela metade, comemora, documenta, e oito meses depois o indicador voltou ao que era. Não houve sabotagem nem falta de vontade. Faltou o mecanismo que mantém o patamar novo todo dia.

Esse mecanismo tem nome técnico. Chama-se SDCA, e ele vem antes do PDCA, não depois. Padronizar e estabilizar primeiro, melhorar depois. Quem inverte a ordem melhora um processo sem padrão, e o resultado dura enquanto durar a atenção de quem conduziu.

O gerenciamento da rotina também não é burocracia. Ele é feito de três coisas concretas: um padrão escrito por quem opera, itens de controle lidos todo dia e um tratamento de anomalia com prazo. Nada disso é papel parado.

As tabelas de SDCA contra PDCA, de item de controle contra item de verificação e de tratamento de anomalia por nível foram montadas no formato dos Kits de metodologia da Voitto. Os números dos exemplos são ilustrativos e conferidos entre si.

A tese: falta a camada do meio

Olhe a agenda de qualquer gestor de operação. Ela tem duas coisas: reuniões sobre problemas que já estouraram e reuniões sobre projetos de melhoria. Falta o terceiro bloco, o de manter funcionando o que já funciona, e é ele que sustenta os outros dois.

O gerenciamento da rotina é esse terceiro bloco. Ele não inventa solução. Ele garante que o processo entregue hoje o mesmo resultado de ontem, e que qualquer desvio seja detectado e tratado no dia em que aparece.

Sem essa camada, o ciclo PDCA roda no vazio. O time planeja, executa, verifica e age, entrega um patamar melhor, e nada prende o processo nesse patamar. O ciclo seguinte começa do mesmo lugar do anterior.

O critério é direto. Se você não consegue dizer qual indicador da área foi lido hoje de manhã e o que foi feito quando ele saiu da faixa, não há gerenciamento da rotina. Há gente competente apagando incêndio.

O que é gerenciamento da rotina e por que ele não é burocracia

Gerenciamento da rotina é o conjunto de ações que mantém um processo entregando o resultado previsto, dentro do padrão, com desvio tratado na origem. Ele se aplica ao trabalho repetitivo, que responde por quase toda a receita e quase todo o custo da empresa.

A confusão com burocracia nasce de uma troca. Burocracia é procedimento que existe para proteger quem assina. Padrão de rotina existe para que o resultado se repita sem depender de quem está no posto. O teste é perguntar a quem executa se aquilo ajuda a fazer o trabalho.

Três elementos formam o gerenciamento da rotina, e nenhum funciona sozinho. O padrão, que descreve a melhor forma conhecida de executar. Os itens de controle, que dizem se o resultado saiu. O tratamento de anomalia, que define quem faz o quê quando o resultado não sai.

  • Padrão sem item de controle: ninguém sabe se ele está sendo seguido nem se funciona.
  • Item de controle sem padrão: mede-se o desvio e não há a que voltar.
  • Os dois sem tratamento de anomalia: gera-se relatório que ninguém age em cima.

SDCA e PDCA: a diferença e a ordem correta

O ciclo PDCA é o ciclo da melhoria. Ele existe para mudar o patamar de um indicador. O SDCA é o ciclo da manutenção, e existe para segurar o patamar já conquistado. A letra que muda diz tudo: no lugar de planejar, padronizar.

A ordem correta é SDCA primeiro. Processo instável não responde a melhoria de forma legível, porque a variação natural engole o efeito da mudança. Você altera um parâmetro, o indicador oscila, e não dá para saber se oscilou pela mudança ou pelo ruído de sempre.

CicloO que fazQuando usarQuem conduzEntrega
SDCAMantém o resultado no padrão e trata o desvio na origemO processo já roda e o resultado é aceitável, mas varia demais ou depende de quem está no postoSupervisor e operação, com o gerente na diagnosePadrão cumprido, anomalia tratada e registrada, resultado previsível
PDCAMuda o patamar do resultado para um nível que o padrão atual não alcançaA meta exige desempenho que o processo estável não entrega, ou a anomalia virou crônicaGerente e equipe de projeto, com a operação participandoPadrão novo, treinado e incorporado ao SDCA do dia seguinte

Repare na entrega do PDCA: ela termina dentro do SDCA. Projeto de melhoria que não devolve um padrão novo para a rotina não terminou, apenas parou. A comparação detalhada está em PDCA x SDCA.

Os dois ciclos convivem. A operação roda SDCA todo dia, e a gerência abre PDCA quando a diagnose mostra que o padrão chegou ao limite.

Item de controle e item de verificação: a distinção central

Item de controle é o resultado do processo, aquilo pelo qual a área responde. Item de verificação é a causa, aquilo que a área controla para que o resultado saia. É a distinção mais importante do método e a que o mercado mais confunde, porque as duas aparecem no mesmo painel.

A confusão tem consequência. No gerenciamento da rotina, item de controle só se cobra de quem tem autoridade sobre as causas dele. Cobrar resultado de quem não controla causa nenhuma produz relatório defensivo.

ÁreaItem de controle (resultado)Meta do item de controleItens de verificação (causa)Frequência de leitura
ProduçãoÍndice de refugo da linhaCair de 4,0% para 3,0% em doze mesesAderência ao setup padrão, temperatura do forno por hora, umidade do insumo no recebimentoRefugo por turno, verificação a cada hora
LogísticaPedidos entregues no prazoManter acima de 98% ao mêsAcuracidade do inventário por endereço, tempo de separação por onda, frota disponível às 6hPrazo por dia, verificação por onda
AtendimentoChamados resolvidos no primeiro contatoManter acima de 75% ao mêsAderência ao roteiro de triagem, tempo de fila por faixa horária, cobertura de escala no picoResolução por dia, verificação por faixa horária

A regra de montagem é simples: todo item de controle precisa de pelo menos dois itens de verificação que expliquem o comportamento dele. Sem nomear as causas, você não gerencia o indicador, apenas assiste a ele. Há mais exemplos em indicador de processo e de resultado.

Vale separar o vocabulário também. Nem toda medida é indicador e nem todo indicador é meta, distinção tratada em KPI, métrica e indicador.

O padrão: o que é, quem escreve e o que entra nele

Padrão é a melhor forma conhecida de executar uma tarefa, escrita de modo que outra pessoa repita e chegue ao mesmo resultado. Não é a descrição do trabalho ideal. É a do trabalho que dá certo hoje, com o equipamento e a equipe que existem hoje.

Quem escreve é quem executa, com apoio de quem supervisiona. Padrão escrito pela engenharia sozinha descreve o processo que deveria existir. Escrito pela operação sozinha, fotografa o jeito de uma pessoa. A combinação produz um documento que a equipe reconhece.

O trabalho padronizado trata da sequência, do tempo de ciclo e do estoque em processo. O POP trata da tarefa, com passo a passo, ponto crítico e o que fazer quando algo sai do esperado. São peças complementares. No léxico do Lean Enterprise Institute, o padrão é a base da melhoria, e não controle sobre quem executa.

  • Sequência das operações, com o tempo esperado de cada uma.
  • Pontos críticos, os passos em que o erro gera defeito ou risco.
  • Parâmetro e faixa aceitável, com o valor de referência escrito.
  • O que fazer quando o parâmetro sai da faixa, antes de chamar alguém.
  • Data da última revisão e nome de quem revisou.

Padrão sem a última linha envelhece em silêncio. Se ninguém sabe quando o documento foi revisto, a equipe passa a tratar todo padrão como sugestão, inclusive os corretos.

Anomalia: o que é e o que não é

Anomalia é todo desvio em relação ao padrão ou à faixa esperada do item de controle. É conceito operacional, não julgamento. A máquina parou fora da programação, o indicador saiu do limite, o passo do POP não foi cumprido.

O que não é anomalia também precisa estar claro. Variação dentro da faixa é o processo funcionando. Tratar oscilação normal como desvio é o caminho mais rápido para a equipe deixar de reportar qualquer coisa, porque tudo vira ocorrência e nada vira prioridade.

Distinguir uma da outra exige limite calculado, não limite de opinião. A carta de controle existe para isso, separando causa comum de causa especial a partir do comportamento do próprio processo.

A definição precisa estar escrita e ser a mesma para todos os turnos. Se a manhã registra oito anomalias por dia e a noite registra uma, o problema quase nunca é o processo. É o critério de registro.

O tratamento de anomalia, coração do gerenciamento da rotina

Tratar anomalia é o trabalho central do gerenciamento da rotina, e tem três movimentos nessa ordem. Remover o efeito, para que o cliente não seja atingido. Identificar a causa imediata, ali no posto. Registrar, para que a recorrência apareça no fechamento do mês.

O primeiro movimento é de quem está no posto e não depende de autorização. Exigir aprovação para conter um desvio garante que o desvio chegue ao cliente antes da resposta.

NívelExemplo típicoQuem age primeiroPrazo de respostaO que escalona
1. Contornável no postoParâmetro fora da faixa, com ação já prevista no padrãoOperador, seguindo o próprio padrãoImediato, dentro do turnoSobe de nível se repetir duas vezes no mesmo turno
2. Exige o supervisorParada não programada, refugo acima do limite, falha sem ação previstaSupervisor da área, com o operadorAté 24 horas para a causa imediataSobe de nível se a causa não for achada ou se reaparecer na semana
3. Exige o gerenteAnomalia crônica, risco de segurança, impacto em cliente ou obrigação legalGerente da área, com apoio técnicoAté 72 horas para o plano de contençãoSobe para a direção se exigir investimento ou mudança de projeto

Os prazos importam mais do que parecem. Sem prazo escrito, toda anomalia de nível 2 vira pendência aberta, e a lista passa a funcionar como um cemitério de problemas que ninguém fecha nem descarta.

O gatilho também precisa ser objetivo. Repetiu duas vezes no turno, sobe. Passou do prazo sem causa identificada, sobe. Deixar isso ao critério de quem está sobrecarregado é não ter escalonamento.

O relatório de anomalia e o registro

Registro é o que transforma evento isolado em informação de gestão. Anomalia resolvida e não registrada foi resolvida uma vez. Registrada, ela entra na contagem e permite ver que o mesmo desvio aconteceu oito vezes no mês, o que muda a decisão.

O relatório precisa ser curto o bastante para ser preenchido no turno. Se leva mais que alguns minutos, o dado fica enviesado para os dias calmos. Campo demais destrói o registro mais rápido que falta de disciplina.

  1. O que aconteceu, em uma frase, com data, hora, turno e local.
  2. Qual padrão ou faixa foi violado.
  3. O que foi feito na hora para remover o efeito.
  4. Qual a causa imediata identificada no posto.
  5. Status: resolvido, em tratamento ou escalonado, com responsável e prazo.

Num exemplo ilustrativo, uma área registra 40 anomalias no mês e descobre que 8 delas são o mesmo desvio, ou seja, 20% do total. Nenhuma justificaria projeto sozinha. Juntas, são o problema mais caro da área.

A reunião diária e o que se decide nela

A reunião diária é o ponto em que o gerenciamento da rotina vira gestão. Acontece sempre no mesmo horário, no mesmo lugar, de pé, com quem opera presente. Quinze minutos bastam, e a restrição é funcional: reunião curta obriga a tratar exceção em vez de recitar número.

Com sete indicadores no painel e quinze minutos, sobram cerca de dois minutos por indicador. Isso só fecha se o indicador dentro da faixa for lido em segundos e o tempo se concentrar nos que saíram.

  • O que saiu da faixa ontem e o que foi feito na hora.
  • Quais anomalias seguem abertas, com responsável e prazo.
  • O que pode atrapalhar a entrega de hoje, com a ação de contorno.
  • O que precisa subir de nível porque o prazo venceu.

O que não se decide ali também é regra. Não se discute causa raiz, não se negocia meta e não se reprograma projeto. Essas três conversas exigem dado e tempo, e cada uma tem o seu fórum próprio na semana ou no mês.

Quando o painel mostra volume, entregas, custo, defeitos, hora extra, absenteísmo e segurança, a área para de descobrir problema por reclamação de cliente.

Gestão à vista no gerenciamento da rotina

A gestão à vista é o suporte físico do gerenciamento da rotina. Ela existe para que qualquer pessoa que entre na área saiba, em segundos, se o processo está dentro ou fora do padrão. Se exige explicação de alguém, o quadro falhou. É o que o verbete de gestão visual do Lean Enterprise Institute chama de tornar a situação evidente de relance.

Três informações bastam: o item de controle com a meta, a situação de hoje contra a faixa e a lista de anomalias em tratamento com responsável e prazo. Tudo o mais compete por atenção com essas três.

Quadro cheio de gráfico bonito e desatualizado é pior que quadro vazio, porque ensina a equipe a não olhar. A regra é atualizar no turno, à mão se preciso. Dado escrito à caneta hoje vale mais que painel impresso da semana passada.

O supervisor, o cargo mais importante do método

O supervisor é quem faz o gerenciamento da rotina existir. É o único nível que enxerga o padrão sendo executado e o indicador sendo formado ao mesmo tempo. Gerente vê resultado consolidado, operador vê a própria tarefa.

O trabalho dele tem quatro obrigações diárias. Verificar aderência ao padrão no posto, e não no relatório. Tratar a anomalia de nível 2 no prazo. Conduzir a diária. Treinar quem não consegue cumprir o padrão.

Na maioria das empresas, porém, o supervisor passa o dia cobrindo falta, resolvendo urgência e fazendo relatório. Ele é formalmente responsável pelo gerenciamento da rotina e materialmente impedido de exercê-la. Nenhuma implantação sobrevive a isso.

Liberar a agenda do supervisor é decisão de implantação, não detalhe operacional. Deming já tratava disso ao falar da chefia como suporte, e não como inspeção, nos 14 princípios de Deming.

Desdobramento das metas até a rotina

Meta que não chega ao item de controle de uma área específica não é meta, é intenção. O desdobramento traduz o objetivo do negócio em números que alguém com nome acompanha todo dia, e é onde a maioria dos planejamentos anuais se perde.

A lógica está em desdobramento de metas e, na versão mais formal, em Hoshin Kanri. O princípio é o mesmo: o item de controle do nível de cima vira item de verificação do nível de baixo, até chegar em algo que o turno consegue mover.

No exemplo da linha, a meta anual é cair de 4,0% para 3,0% de refugo, uma queda relativa de 25% e um ponto percentual inteiro em doze meses. Esse número, sozinho, não diz nada ao operador do turno da noite.

Desdobrado, ele vira outra coisa: aderência ao setup padrão, temperatura do forno registrada de hora em hora dentro da faixa, insumo fora de especificação bloqueado no recebimento. O operador controla cada um desses itens.

O valor da meta também precisa de método, e não de arredondamento otimista. O caminho está em como definir meta de indicador, partindo da capacidade real do processo.

Diagnose do gerente e auditoria de rotina

Diagnose é o gerente indo ao local verificar se o sistema de gerenciamento da rotina funciona. Não é auditoria de conformidade nem visita de cortesia. O objeto é o método, não a pessoa: o padrão existe, está atualizado, é seguido e resolve?

Ela se faz com perguntas fixas, no posto. Mostre o padrão desta operação. Quando foi revisado? Qual foi a última anomalia aqui, o que foi feito e onde está registrada?

A auditoria do gerenciamento da rotina mede aderência com número. Num exemplo ilustrativo, 12 dos 15 postos auditados executam conforme o padrão escrito, o que dá 80% de aderência. O valor importa menos que a leitura dos três desvios.

Vale uma regra que muda a cultura. Se o padrão não está sendo seguido, a primeira hipótese é que ele está errado, não que a pessoa é indisciplinada. Quase sempre o posto achou um jeito melhor e ninguém atualizou o documento.

Quando a anomalia vira projeto de melhoria

Nem toda anomalia merece projeto, e tratar todas como se merecessem trava a operação. O critério de corte é a recorrência. Desvio que acontece uma vez e tem causa imediata clara se resolve no posto e se registra, ponto final.

Três condições transformam anomalia em projeto. A recorrência está estabelecida no registro do mês. A causa não é evidente para quem opera. A solução exige mudar o projeto do processo, e não a execução dele.

Com as três juntas, o caminho é a metodologia MASP, que separa observação de análise e impede o salto do sintoma para a causa presumida. O resultado do MASP volta para a rotina como padrão revisado, e é esse retorno que fecha o ciclo.

Vale lembrar a diferença de natureza entre as duas coisas, tratada em diferença entre projeto e processo. Projeto tem começo, fim e entrega única. Rotina não termina, e por isso não se gere rotina com ferramenta de projeto.

A melhoria incremental da própria equipe tem espaço próprio. O Kaizen atua sobre o padrão existente, com mudanças pequenas que a operação incorpora ao SDCA.

Os indicadores do próprio gerenciamento da rotina

Existe uma camada de indicadores que quase ninguém monta: a que mede se o sistema de gerenciamento da rotina está funcionando. Eles não falam do produto nem do cliente. Falam do método, e avisam quando a implantação começou a desmontar.

  • Aderência ao padrão, medida por auditoria de posto e não por declaração.
  • Percentual de anomalias registradas em relação às ocorridas, estimado por amostragem.
  • Percentual de anomalias tratadas dentro do prazo do nível.
  • Recorrência, a fração das anomalias do mês que já haviam ocorrido antes.
  • Percentual de padrões revisados nos últimos doze meses.

Esses cinco dizem mais sobre a saúde da operação que o painel de resultado, porque antecipam. Aderência caindo hoje aparece no refugo algumas semanas depois.

Para escolher os indicadores de resultado que ficam ao lado desses, a base está em indicadores de desempenho. Na rotina, a regra é poucos indicadores lidos todo dia, em vez de muitos revisados no fechamento.

O que o gerenciamento da rotina entrega quando funciona

O primeiro efeito é previsibilidade. A área passa a entregar resultado parecido em dias diferentes, com pessoas diferentes no posto. Isso muda o planejamento inteiro, porque prazo prometido deixa de depender de quem está de férias.

O segundo é produtividade, por um caminho pouco óbvio. Não é a equipe trabalhando mais rápido. É a equipe deixando de refazer, de esperar decisão e de descobrir problema tarde.

O terceiro é segurança. Desvio de padrão e acidente têm origem comum, que é a improvisação no posto. Onde o padrão está escrito, treinado e seguido, o número de situações imprevistas cai, e com ele cai a exposição a risco.

O quarto é a assertividade na meta. Com item de controle lido todo dia, o desvio aparece cedo o bastante para ser corrigido dentro do mês. Sem isso, a empresa descobre que não bateu a meta quando já não há mês para reagir.

O quinto é o mais estratégico: um gerenciamento da rotina estável é a condição para a melhoria durar. Sem ela, a empresa terceiriza o próprio patamar de desempenho para a memória de quem participou do último projeto.

Modos de falha do gerenciamento da rotina

O primeiro é inverter a ordem e atacar direto pelo PDCA. A empresa abre uma carteira de projetos sem padrão escrito em lugar nenhum, e os ganhos somem quando a atenção se desloca. É o erro mais caro, porque consome o crédito político da metodologia.

O segundo é o painel inflado. Vinte e tantos indicadores, nenhum com dono e nenhum com faixa. A diária vira leitura de números e o quadro perde a função de disparar ação.

O terceiro é o padrão escrito por quem não executa. O documento sai correto, técnico e distante do posto. A equipe segue o jeito real de fazer, a auditoria registra desvio, e a discussão migra para disciplina quando o problema é de autoria.

O quarto é a anomalia sem prazo. Todo desvio é registrado, nenhum tem data de fechamento, e a lista cresce até que ninguém mais a consulte. O registro passa a custar tempo sem produzir decisão.

O quinto é o supervisor sem agenda. O sexto é o gerenciamento da rotina que nunca vira projeto: a área trata a mesma anomalia crônica todo mês, com competência, e nunca decide atacar a causa estrutural dela.

Como implantar o gerenciamento da rotina numa área que não tem nada

O erro clássico é começar pelo mapeamento completo dos processos. Leva meses, produz documento que ninguém lê e não muda um dia de trabalho. A implantação que pega começa pequena e rende efeito visível na primeira semana.

Um horizonte de 90 dias, cerca de 13 semanas, é suficiente para um piloto em uma área. A sequência abaixo assume um piloto, não a empresa inteira.

  1. Escolha uma área com problema reconhecido e um supervisor disposto. Sem os dois, o piloto vira demonstração.
  2. Defina de dois a quatro itens de controle, com faixa e dono. Não passe disso no começo.
  3. Monte o quadro de gestão à vista e comece a diária de quinze minutos no dia seguinte, mesmo com dado à mão.
  4. Escreva a definição de anomalia e a tabela de níveis, com prazo e gatilho de escalonamento.
  5. Padronize primeiro as três tarefas que mais geram anomalia, com quem executa escrevendo.
  6. Trate e registre anomalia por quatro semanas antes de olhar recorrência.
  7. Faça a primeira auditoria de aderência e a primeira diagnose no posto.
  8. Só então abra o primeiro projeto de melhoria, escolhido pela recorrência registrada.

Organização física do posto ajuda, e ajuda cedo. O programa 5S reduz a variação de execução antes mesmo de existir padrão escrito, porque elimina a busca por ferramenta e por informação.

A resposta para por onde começar continua a mesma em quase todos os casos: estabilize a rotina antes de escolher a próxima sigla.

Quer entender mais sobre os detalhes para ter mais eficiência em seu planejamento? Veja o vídeo a seguir.

Perguntas frequentes

O que é gerenciamento da rotina?
Gerenciamento da rotina é o conjunto de ações que mantém um processo entregando o resultado previsto, dentro de um padrão escrito, com os desvios detectados e tratados no dia em que aparecem. Ele se apoia em três elementos: o padrão de execução, os itens de controle lidos com frequência definida e o tratamento de anomalia com responsável e prazo. É a camada que sustenta o resultado entre um projeto de melhoria e outro.
Qual a diferença entre SDCA e PDCA?
O SDCA mantém o resultado no patamar atual, padronizando a execução e tratando o desvio na origem. O PDCA muda o patamar, atacando causas que o padrão atual não resolve. A ordem correta é SDCA primeiro: em processo instável, a variação natural encobre o efeito da melhoria e não se consegue saber se a mudança funcionou. Todo PDCA deve terminar devolvendo um padrão novo para o SDCA.
Qual a diferença entre item de controle e item de verificação?
Item de controle é o resultado pelo qual a área responde, como índice de refugo ou entregas no prazo. Item de verificação é a causa que a área controla para que esse resultado saia, como aderência ao setup ou acuracidade do inventário. A regra prática é que todo item de controle precisa de pelo menos dois itens de verificação capazes de explicar o comportamento dele.
O que é uma anomalia no gerenciamento da rotina?
Anomalia é qualquer desvio em relação ao padrão escrito ou à faixa esperada do item de controle. Inclui parada não programada, parâmetro fora da faixa, passo do procedimento não cumprido e reclamação de cliente sobre algo previsto no padrão. Variação dentro da faixa não é anomalia, é o processo funcionando, e tratá-la como desvio faz a equipe parar de registrar o que importa.
Quem trata a anomalia e em quanto tempo?
Depende do nível. Anomalia contornável no posto é tratada pelo operador de imediato, dentro do turno, seguindo a ação prevista no próprio padrão. Anomalia que exige investigação é do supervisor, com prazo típico de até 24 horas para a causa imediata. Anomalia crônica, com risco de segurança ou impacto em cliente, sobe para o gerente, com prazo típico de até 72 horas para o plano de contenção.
Gerenciamento da rotina é a mesma coisa que burocracia?
Não. Burocracia é procedimento que existe para proteger quem assina. Padrão de rotina existe para que o resultado se repita sem depender de quem está no posto naquele dia. O teste é perguntar a quem executa se o documento ajuda a fazer o trabalho. Se a resposta for não, o problema está no padrão ou em quem o escreveu, e não na ideia de padronizar.
Quanto tempo leva para implantar o gerenciamento da rotina?
Um piloto em uma área cabe em cerca de 90 dias, algo em torno de 13 semanas. A sequência começa com dois a quatro itens de controle, quadro de gestão à vista, reunião diária de quinze minutos e a definição escrita de anomalia. A padronização entra em seguida, pelas tarefas que mais geram desvio. O primeiro projeto de melhoria só é aberto depois de quatro semanas de registro.
Qual o papel do supervisor no gerenciamento da rotina?
O supervisor é o cargo central do método, porque é o único nível que vê o padrão sendo executado e o indicador sendo formado ao mesmo tempo. Ele verifica aderência no posto, trata a anomalia de nível intermediário dentro do prazo, conduz a reunião diária e treina quem não consegue cumprir o padrão. Implantação que não libera a agenda dele não se sustenta.
Quando a anomalia deve virar um projeto de melhoria?
Quando três condições aparecem juntas: a recorrência está comprovada no registro do mês, a causa não é evidente para quem opera e a solução exige mudar o projeto do processo, e não apenas a execução. Nesse ponto o caminho é um método de análise como o MASP, cujo resultado precisa voltar para a rotina na forma de padrão revisado e treinado.
Quais indicadores medem se a rotina está funcionando?
Cinco medem o método em si: aderência ao padrão verificada por auditoria de posto, percentual de anomalias efetivamente registradas, percentual de anomalias tratadas dentro do prazo do nível, recorrência mensal e percentual de padrões revisados nos últimos doze meses. Eles antecipam o resultado, porque queda de aderência hoje aparece no indicador de produto algumas semanas depois.
Thiago Coutinho
Escrito por
Thiago é engenheiro de produção, pós-graduado em estatística e mestre em administração pela UFJF. Master Black Belt em Lean Seis Sigma, trabalhou na Votorantim Metais e MRS Logísti…

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